Conte Sua História de São Paulo: O periquito do realejo

 

A ouvinte-internauta Paula Calloni de Souza descreve a emoção provocada pelo som do realejo que encontrou no passeio com os filhos. O texto foi publicado no livro Conte Sua História de São Paulo, lançado pela Editora Globo:


Ouça o texto de Paula Calloni Souza sonorizado pelo Cláudio Antonio

Junho de 2006. Estava caminhando pelo meu bairro, Campo Belo, em uma manhã de sol, com meus filhos André, de 9 anos e Adriana, de 7. O céu, muito azul, fazia um belo quadro com os ipês rosa e amarelo, cujas pétalas dão cor ao asfalto, nessa época do ano. De repente, escuto ao longe uma melodia mágica, que não ouvia desde criança, 30 anos atrás. Pego as mãos dos meus filhos firmemente e aperto o passo, atrás daquela música. Eles não entendem nada e eu só digo:

– Vamos rápido, preciso mostrar isso a vocês.

Algumas quadras depois, estava ele: o realejo. A fisionomia do velhinho era familiar. Seria o mesmo que me encantava quando criança? Não, não era possível. Meus filhos ficaram hipnotizados, fascinados. Eu, também. Por algumas moedas, lá estava a alegria, simples, de ver aquele periquito verde-amarelo, pegando no bico os papeizinhos, com o destino e a sorte das crianças. “Há de ser um grande homem”, lia-se num deles. “Terás uma linda missão”, lia-se noutro. Talvez fossem as mesmas frases, em todos os pedacinhos de papel. Mas o que isso importa? O fundamental era reviver aquela emoção de criança e mostrar a “novidade” para os pequenos.

Despedi-me do homem, agradecida . Ainda ia dar um último aceno, mas quando olhei para trás, ele já tinha ido embora. As crianças contaram a história para os colegas. Nenhum deles sabia o que era um realejo. São pequenas emoções, cada vez mais raras, da velha São Paulo. Capazes de encantar até hoje a quem tiver a sorte de reencontrá-las.

Conte Sua História de SP: Srur, arte da cidade

 

Eduardo Srur

Transformar São Paulo em uma imensa tela para suas criações levou o artista plástico Eduardo Srur a obras com a dimensão da cidade. Nada cabia nas paredes dos museus e galerias tradicionais. Eram necessários cenários impressionantes. E ele foi tomar as margens do Tietê, às águas do Pinheiros e os monumentos nas praças públicas.

Projetos que alertavam o paulistano para a maneira destrutiva com que nos relacionamos no ambiente urbano desde o mau uso dos recursos naturais até o desrespeito com os recursos humanos.

Com estas ideias, Srur interfere e dialoga com a cidade sendo protagonista de uma série de capítulos que contam a história de São Paulo, alguns relatados na conversa desta segunda-feira, no CBN São Paulo

Ouça o depoimento de Eduardo Srur ao Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de SP: Palmirinha da Paulista

 

Para deixar o prédio da TV Gazeta ao fim de seu último programa de culinária em agosto do ano passado, Palmirinha passou pela avenida Paulista congestionada de carros, com as calçadas lotadas de pessoas e enormes prédios que quase cobriam o céu. Ali estava o mesmo palco usado por ela quase oito décadas atrás quando chegou em São Paulo pelas mãos de uma senhora francesa. Naquela época, porém, o cenário era bem diferente e ela, menininha de Bauru, com apenas cinco anos, fazia visitas às casas dos barões do café construídas no espigão da cidade.

Pamira Onofre vai completar 80 anos e se transformou em personagem da cidade de São Paulo com suas receitas impressionantes e palavreado engraçado. Hoje, diz estar trabalhando muito mais do que na televisão e tem orgulho de contar suas histórias na capital.

Em depoimento ao Conte Sua História de São Paulo Palmirinha descreveu as elegantes casas de chá que havia no centro da cidade e as viagens de bonde. Falou do retorno ao interior paulista onde casou e da viagem definitiva para São Paulo. Claro que seus gostos culinários não poderiam ficar de lado: adora frango com polenta. Na conversa que foi ao ar nesse sábado, ela revela quem são os restaurantes que fazem melhor seu prato preferido.

Ouça Palmirinha no Conte Sua História de São Paulo

Conheça, também o site da Vovó Palmirinha.

Na festa de aniversário da cidade, nesta terça-feira, dia 25, no Pátio do Colégio, você poderá gravar seu depoimento ao Conte Sua História de São Paulo. O pessoal do Museu da Pessoa vai gravar, em áudio e vídeo, o seu capítulo da nossa cidade.

Conte Sua História de SP: Tatiana encantadora de história

 

Foto de Nelson Mello publicada na Revista Cult

 

Com um livro em mãos, Tatiana Belinky desembarcou em Santos, no litoral, e fez dura viagem até a capital, acompanhada dos pais, que haviam deixado para trás as guerras civis que destruíam a União Soviética. Natural de São Petesburgo, a menininha de 10 anos já sabia falar três línguas e, assim, não teve dificuldade de aprender o português: “a criança absorve a sabedoria”, disse em depoimento ao Conte Sua História de São Paulo.

Escritora premiada e reconhecida internacionalmente, Tatiana é daquelas senhorinhas que a gente não quer parar de ouvir jamais. Começa a contar sua história e se entusiasma. Nos entusiasma. E as crianças em especial que são objeto de seus textos.

Na conversa que foi ao ar, sexta-feira passada, Tatiana Belinky fala com a mesma sensibilidade com que escreve e fez uma declaração de amor a cidade de São Paulo: “aqui cheguei e daqui ninguém me tira”.

Ouça Tatiana Belinky no Conte Sua História de São Paulo

Na festa de aniversário da cidade, nesta terça-feira, dia 25, no Pátio do Colégio, você poderá gravar seu depoimento ao Conte Sua História de São Paulo. O pessoal do Museu da Pessoa vai gravar, em áudio e vídeo, o seu capítulo da nossa cidade.

Conte Sua História de São Paulo: A memória do Kobra

 

Muralismo-

Da pichação sem sentido ao desenho que nos faz recordar; da cultura americana à visão paulistana. O artista gráfico Eduardo Kobra rodou por todas estas expressões até ter seu trabalho reconhecido – inclusive por seus pais. Foram eles, os primeiros a tentar reprimir o menino de 12 anos que saía do Campo Limpo, na zona sul, empunhando tubos de tinta ao lado dos amigos para sujar a cidade. Tinham medo do que podia acontecer com o filho que por duas vezes já havia sido detido por policiais.

Hoje, Kobra tem consciência do comportamento impróprio da época e sabe que foi, em parte, aquele o motivo para os familiares terem tanta dificuldade para compreender o que ele realmente fazia quando passou a usar os muros de São Paulo para recuperar nossa memória.

Com o nome escrito na vida cultura da cidade, Kobra hoje pode subir a 40 metros de altura ou estender sua obra por quilômetros de paredes sem que a polícia o incomode (às vezes, ainda tem quem confunda as coisas). Mesmo só tendo entrado em uma galeria de arte pela primeira vez aos 26 anos, atualmente é um artista respeitado. Seu trabalho é visto com interesse no exterior, também.

Eduardo Kobra foi personagem do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem aos 457 anos da nossa cidade.

Ouça o depoimento dele ao CBN SP

Conte Sua História de São Paulo: A rua do Mancini

 

Foi vizinho do Mercado Municipal que Walter Mancini aprendeu a apreciar os diferentes sabores da culinária paulistana. De lá também veio a inspiração para criar o ambiente no seu mais famoso restaurante, na rua Avanhandava, região central de São Paulo. Assim que o cliente chega se depara com enorme mesa oferecendo todo tipo de queijos, aperitivos e saladas como se estivesse diante de uma banca do Mercadão. Ali começou a comida por peso, na cidade, em 1980.

Do Famiglia Mancini e suas mesas sempre cheias surgiram novos restaurantes com a assinatura do seu Walter. Todos vizinhos da casa original na pequena Avanhandava. Se alguém chamá-la de rua do Mancini não está enganado, mesmo que ele insista em dizer que o espaço é de todos. Dedicou-se ao lugar a ponto de ter se responsabilizado pelo projeto da primeira rua revitalizada de São Paulo.

Walter Mancini foi personagem do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem aos 457 anos da nossa cidade

Ouça o depoimento dele no CBN SP

Conte Sua História de SP: A química de Paulo Goulart

 

Ao chegar de Ribeirão Preto, interior paulista para estudar química industrial na capital, Paulo Afonso Miessa não tinha ideia do destino que o aguardava. Foi para o rádio – veículo pelo qual revela sua paixão a cada palavra – e se transformou ator ao conquistar os ouvidos do mais críticos que haviam na Tupi Difusora, Oduvaldo Viana. Ganhou novo sobrenome e virou Paulo Goulart, admirado por todos nós pelo talento e pela personalidade.

Casou com a carioca Nicette Bruno com quem teve duas filhas e um filho. Uma delas, Beth Goulart, coincidência, nasceu no dia de São Paulo, 25 de janeiro, no Rio. Foram todos criados e crescidos na capital paulista e o pai fala disso com orgulho.

São Paulo é motivo de muitos e emocionantes momentos descritos por Paulo Goulart com uma beleza que me encantou, durante a apresentação do programa desta terça-feira. Ele foi o personagem do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem aos 457 anos da cidade. Acompanhado por uma alegria contagiante, Goulart marcou a conversa com frases que ensinam: “é preciso crer no amanhã, o amanhã é o desenvolvimento, e o aprender é fundamental”.

Ouça o depoimento de Paulo Goulart, na CBN

Durante esta semana, entrevistamos personagens e personalidades para o Conte Sua História de São Paulo. E você também pode participar deste programa contando mais um capítulo da nossa cidade. Agende uma entrevista ou envie seu texto para o site Museu da Pessoa.

Conte Sua História: Ronnie Von vai a Santo Amaro

 

Ronnie Von era garotão, nascido e vivido no Rio, quando foi convidado para visitar a casa de Nilton Travesso, em São Paulo. Era fácil chegar lá. Bastava pegar um táxi no aeroporto de Congonhas, ir até a avenida Santo Amaro e entrar no segundo farol à direita. A primeira surpresa foi saber que o nome do santo batizava uma estrada, uma rua e uma avenida – havia um bairro, também. Pediu para ir na mais famosa e teve sorte, aquele era o caminho. Procurou o farol e não encontrou nenhum. Ao fim da avenida, ouviu do motorista: “Terminou aqui, onde o senhor quer descer”. Foi quando descobriu que o farol paulistano era o semáforo no Rio.

Esta foi uma das muitas histórias de São Paulo contada pelo cantor, compositor, publicitário e apresentador de Tv Ronnie Von no programa que abriu a série em homenagem aos 457 anos da capital paulista. A entrevista, ao vivo, no CBN SP foi marcada por momentos de emoção, ao menos para este jornalista.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo com Ronnie Von

Nesta semana, personagens e personalidades serão convidados do Conte Sua História de São Paulo – 457 anos. Você também pode participar do progama que vai ao ar, tradicionalmente, aos sábados, às 10 e meia da manhã. Envie seu texto ou marque uma entrevista no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de São Paulo: A volta

 

No Conte Sua História de São Paulo, Vera Helena Praxedes, moradora do Jardim Jabaquara, lembra neste texto de quando veio morar na capital paulista:

Ouça o texto de Vera Helena Praxedes sonorizado por Cláudio Antônio

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Voltamos, deixando para trás a vida solta, o sol quente, a quiçaça, o pé no chão, as frutas do campo, as parlendas, enfim, parte da infância. Viemos morar bem longe, o interior de onde voltávamos parecia à capital e a capital parecia o interior. Lá o sol era claro e abrasador, aqui frio cinzento de garoa infinda. Ainda bem que chegamos no verão, mas em janeiro de chuvarada.

A casa grande de tijolos, pintada de amarelo, úmida, descobri o bolor, diferente da outra de madeira seca e aconchegante. Algo me causou espanto; o fogão, aqui de carvão, pequeno acanhado, levava horas para cozinhar feijão. Batia uma saudade do outro de lenha, grande, com fagulhas estralando feito fogos de artifício, água quente por todo o dia, pronta para fazer café.

A casa foi dividida para acomodar três famílias: a nossa, a dos meus avós e a de um tio. No total dezesseis pessoas. Lá no interior morávamos em casas próximas, mas aqui todos ficaram juntos. Mais tarde ao ler “O Cortiço” de Aluísio Azevedo me senti sua personagem.

A vila distante, com ruas sem calçamento e transporte. Fazendo todos caminharem por quilômetros para chegar ao trabalho. Quando chovia carregávamos outro par de sapatos para trocá-los antes do destino final.

Os donos da casa amarela eram um casal de negros. Morava no mesmo quintal, nos separando apenas um terreiro. A esposa com cinqüenta e poucos anos, o marido já bem idoso, um neto criança e uma filha viúva por uma tragédia, isso havia a alguns meses enlutada a família.

O genro dos velhos em um ato transloucado, havia se suicidado, envenenando-se, mas antes disso matou a filha de dois anos, deixando a mulher grávida ainda sem sabê-lo.

A mudança causou espanto e surpresa a mim e minhas três irmãs e, sem dúvida, também para as outras crianças da família.

Minha pobre avó não tirava o agasalho de lã um só dia, parecia não parar de chover nunca. O frio, por falta de costume, deixou-a jururu e adoentada por todo o ano.

Mas aqui, ao chegar, fiz uma grande descoberta, a mulher do nosso senhoril possuía um rádio e adorava ouvir novelas à noite. Logo após nossa chegada, engajei-me junto a ela, o marido mais o pequeno neto e, ouvíamos todos os dias às 21:00 horas uma rádio novela.

Dona Dita, esse o seu nome. Sentávamos em uma copa cimentada com móveis coloniais; um tajer, uma cristaleira sem cristais, sobre ela uma garrafa, representando um velho, inclinado sobre o peso do líquido azul por papel crepom.

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Conte Sua História de São Paulo: O ponto de partida

 

Elvis Campello nasceu em 1976 na cidade de São Paulo. E foi na noite boêmia noite paulista, na mais famosa esquina da cidade, que ele descobriu sua profissão e construiu sua história. A história ele contou ao Museu da Pessoa em janeiro de 2010, comemorando o aniversário da cidade:

Ouça o texto de Elvis Campello sonorizado por Cláudio Antônio

Minha história com São Paulo, nos últimos anos, foi construída à noite. Tudo começou há 12 anos, quando eu terminei o ensino médio, na época o colegial, e queria cursar a faculdade de publicidade, meu sonho até então.

Eu trabalhava em um escritório de advocacia na Avenida Ipiranga, mas com salário que eu ganhava lá, seria impossível pagar o curso superior que eu queria fazer. Meu irmão e alguns amigos de bairro faziam “bicos” como segurança nos barzinhos e casas noturnas na região dos Jardins, e logo eu me encaixei ali com eles. Eu trabalhava de dia no escritório, e nos finais de semana, à noite, eu ganhava um dinheiro a mais como segurança, mesmo sendo um magricela que não punha medo em ninguém.

Comecei a reparar no trabalho dos garçons e barmen das casas onde eu trabalhava, e me chamou mais atenção ainda quando eu descobri que eles ganhavam, no mínimo, três vezes mais do que eu. Pensei: “se eu ganhasse isso, conseguiria pagar minha faculdade de publicidade!” Enchia o saco de todos eles, perguntando como eu fazia para trabalhar como barmen ou como garçom, até que me indicaram um curso e eu fui atrás. O problema é que o curso, que duraria três meses, era só na parte da manhã.

Eu tive que arriscar: largar o escritório na Avenida Ipiranga e ir ali para perto, no Largo do Arouche, no Sindicato do Bares e Restaurantes de São Paulo, fazer o curso de garçom e Bartender. Na última semana de curso, fui indicado para trabalhar em uma casa de shows na Vila Madalena, reduto de bares e restaurantes em São Paulo. Um novo mundo se abriu para mim. Vindo da periferia, eu trabalhava agora em uma outra realidade. Atendia pessoas finas (educadas ou nem tanto), atores famosos, cantores, repórteres e políticos, inclusive, o na época eterno candidato a presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva! Sim, eu já servi cachaça para o Lula, uma dose de “Espírito de Minas”, uma excelente cachaça. Tem bom gosto o rapaz!

Eu chegava em casa cheio de história para contar, todo empolgado. A noite foi uma escola para mim. Conheci muitas pessoas (interessantes ou não), fiz amigos, adquiri responsabilidade, maturidade e quase casei com uma cliente. Me apaixonei pela profissão que até então seria apenas passageira. Deixei de lado a vontade de fazer uma faculdade de publicidade e resolvi cursar hotelaria.

A faculdade me deu mais experiência ainda na área, e me abriu portas para outras casas noturnas, bares e hotéis da cidade, além de me proporcionar a possibilidade de passar toda minha experiência pelo mundo dos alimentos e bebidas. Fui convidado a ser professor de garçom e bartender.

Começar a dar aulas foi fantástico e, junto com a euforia, veio um novo desafio: aprender a ensinar! Não pensei duas vezes e me matriculei num curso de Pós Graduação em Docência em Gastronomia, para adquirir as técnicas da didática do ensino.

Hoje sou professor de Sala & Bar em um dos mais conceituados centro de estudos do Brasil. Pelas minhas mãos já passaram mais de mil alunos, que hoje, espalhados por São Paulo, capital mundial da gastronomia, preparam cocktails ou servem mesas.

Em troca do que a noite de São Paulo me deu (uma profissão, respeito, amigos e um amor) eu devolvo a ela profissionais capacitados, que carregam em suas bandejas ou misturam em suas coqueteleiras alegria, sonhos, expectativas e histórias.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar sábados, às 10 e meia, no programa CBN SP. Você participa enviando seu texto ou agendando uma entrevista no site do Museu da Pessoa.