Avalanche Tricolor: um momento de transição

 

Coritiba 1 x1 Grêmio
Campeonato Brasileiro – Couto Pereira (PR)

 

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Meu filho mais velho completou 18 anos, nesse sábado. A data é especial para todo e qualquer jovem, talvez o mais simbólico momento de transição. É quando a vida parece nos entregar um certificado de responsabilidade mesmo que ainda tenhamos tantas incertezas sobre nosso comportamento. Somos adolescentes em um corpo de adulto, com deveres de adultos mesmo que nossa personalidade ainda não esteja amadurecida. Em algumas famílias, é o instante em que o pai puxa a cadeira, chama o filho para sentar à sua frente e em um ritual de passagem transmite-lhe toda a responsabilidade que será assumida a partir daquela data, talvez porque não tenha dedicado parte do seu tempo a ensinar-lhe com gestos e atos. Aqui em casa, nossas conversas são frequentes seja com o mais velho seja com o mais novo. Angústias e medos são compartilhados da mesma forma que alegrias e atitudes na busca de nos anteciparmos aos problemas que possam surgir – e eles sempre surgem. Há surpresas inevitáveis para as quais temos de ter discernimento para decidirmos o melhor caminho ou aquele que causará menos perdas. Com preparo – ou aquilo que, em família, consideramos ser preparo – cruzar a linha dos 18 anos deixa de ser uma transformação. É uma evolução.

 

Diante do jantar que organizamos para comemorar a data, a partida do Grêmio, em Curitiba, ficou em segundo plano – tenho certeza de que você, caro e raro leitor desta Avalanche, entenderá minha posição de colocar a família acima de todas as outras coisas. Cheguei assistir ao primeiro tempo na televisão quando detalhes de cada jogada mostravam a dificuldade para conter o ataque adversário, especialmente com a chuva que se intensificou quando ainda tínhamos o domínio do jogo, apesar de não transformá-lo em lances de gol – o que, aliás, é uma constante no nosso time. A caminho do restaurante onde os padrinhos do aniversariante nos esperavam, a solução foi o aplicativo para celular de uma das rádios gaúchas que transmitiam a partida, no Paraná. Pelo empolgação do narrador, percebia-se que a forma de jogarmos havia mudado em relação aos primeiros 45 minutos.

 

Um dos aspectos que me chamaram atenção é que a medida que a responsabilidade aumentava, com os adversários diretos na tabela fazendo seus resultados e o tempo do jogo se encerrando, Luis Felipe Scolari buscava soluções no banco de reservas, e a mão de obra disponível era relativamente jovem. Alan Ruiz, que voltou com o time já do intervalo, tem 21 anos e muito a ver com a mudança na nossa forma de jogar no segundo tempo – substituiu o volante Biteco de apenas 19 anos, mesma idade de Nicolas Careca que entrou no lugar de Dudu (22 anos). Tem 19, também, Erik que saiu jogando (demonstra ter muita qualidade) e foi substituído por Lucas Coelho, um ano mais velho apenas e autor do principal lance de ataque antes do gol. Só por curiosidade: Bressan na zaga e Ramiro no meio, desde o início em campo, têm 21 anos, também. Ou seja, um time claramente em renovação, em transformação, o que torna nossos desafios mais difíceis.

 

No momento em que cheguei a meu destino faltavam menos de 10 minutos para a partida se encerrar. Por respeito aos convivas, desliguei o rádio/celular e resolvi entregar nas mãos dessa legião de jovens a tarefa de nos manter na busca por uma vaga na Libertadores. Desliguei-me de coração, também, para me dedicar por completo ao momento de alegria do meu filho. Como sabe quanto gremista sou, ele voltou-se para mim com palavras de esperança: deixa que os guris resolvem, pai.

 

O jantar foi excelente, pratos e bebidas bem servidos e saborosos, conversa e lembranças emocionantes. O placar do jogo somente me foi apresentado algum tempo depois quando recebi ligação do meu pai que estava em Porto Alegre. Curiosamente em um time tomado de garotos, soube que dois velhinhos, Pará com um lançamento para dentro da área e Riveros se agachando para conseguir cabecear a bola, ambos com 32 anos, protagonizaram o gol de empate que nos manteve na disputa.

 

Um brinde a eles (e ao meu filho, também)!

Avalanche Tricolor: um técnico para deixar saudades

 

Grêmio 2 x 3 Coritiba
Brasileiro – Arena Grêmio

 

Enio Andrade

 

A experiência mais gratificante que tive com um técnico de futebol foi com Ênio Andrade quando, pela primeira vez, treinou o Grêmio, em 1975. Anos difíceis aqueles, nos quais o título gaúcho era quase uma utopia e sequer tínhamos direito de sonhar com o Brasil ou o Mundo, apesar de já estar escrito pelo destino que haveríamos de conquistá-los. Foi, por sinal, o próprio Ênio quem abriu caminho para essas vitórias quando voltou a ser nosso treinador nos anos de 1980, mas este foi outro momento da nossa vida como torcedor. Seu Ênio, como sempre respeitosamente o chamei, foi muito mais do que o técnico do meu time de coração. Adotei-o como padrinho pelo carinho que sempre teve comigo desde que fui apresentado a ele por meu pai, Milton Ferretti Jung, que você, caro e raro leitor, conhece muito bem. Além de acompanhar a todos os treinos do Grêmio ao lado do gramado, tinha o privilégio de assistir às conversas que eles travavam ao fim dos trabalhos em uma mesa que lhes era reservada na cozinha do bar que funcionava dentro do estádio Olímpico. Aprendi muito sobre futebol naqueles tempos e não apenas sobre estratégias em campo, mas do jogo de tramoias e injustiças que se desenrola na maioria das vezes distante dos olhos do torcedor. Convidado por ele, me travesti de gandula para funcionar como “pombo-correio” do técnico que, na época, não podia sair da casamata, como era chamado o banco de reservas. Seu Ênio me passava as instruções e eu corria até atrás do gol gremista para transmiti-las ao goleiro Picasso. Inúmeras vezes, percebia que a orientação tinha um sentido e jogávamos a bola para o outro. O aprendizado mais importante se deu no campo pessoal: foi ele o responsável por me convencer de que eu seria muito mais honesto se procurasse meu pai para contar-lhe que havia rodado de ano na escola, notícia que eu relutava em anunciar, apesar de todos na família já saberem.

 

Antes de a partida de hoje se iniciar, tive a oportunidade de ouvir o comentarista da Sport TV Maurício Noriega citar o nome de Ênio Andrade, curiosamente ao falar da situação crítica vivida pelo Coritiba, time pelo qual Seu Ênio conquistou o Campeonato Brasileiro, em 1985. Apenas para refrescar sua memória, ele já havia sido campeão pelo Grêmio, em 1981, e mais tarde ganharia seu terceiro título nacional no comando de outro clube gaúcho (deixemos de lado, porém, esta lembrança). O comentário de Noriega foi o estopim para a saudade que venho sentindo de um treinador estrategista, com habilidade para enxergar a partida e mudar a maneira de se comportar do time na conversa de vestiário, substituindo ou apenas trocando o posicionamento de seus jogadores. Com a competência de um maestro que conhecendo cada peça à disposição as faz superar seus limites. Um técnico como Seu Ênio que conseguia nos explicar, sobre a mesa do bar, com algumas caixas de fósforo e um maço de cigarros, como o Grêmio venceria o Gre-Nal no fim de semana (e vencemos). A saudade aumentou a medida que o jogo desta noite de domingo se desenrolava, pois mesmo diante do placar que encaminhava uma vitória era perceptível que alguma coisa estava fora da ordem. Fernandinho e Matías Rodriguez estrearam; Giuliano estava em campo e Luan, também; Barcos se redimia com dois gols; Rhodolfo se esforçava como podia; Marcelo Grohe e o travessão defendiam o que dava; mas nada convencia. A virada que se desenhou era apenas uma ilusão como vimos no minuto derradeiro da partida.

 

Trinta e cinco jogos, 17 vitórias, 11 empates, sete derrotas e uma goleada histórica depois, Enderson Moreira foi demitido. Nos últimos 13 anos, 21 técnicos – entre titulares e interinos – passaram pelo Grêmio e apenas dois deles, Tite e Mano, deixaram saudades pelas graças alcançadas. Amanhã (ou daqui a pouco), alguém será escalado pela direção para ocupar este cargo. Sei que não encontraremos ninguém à altura do Seu Ênio, gente como ele não existe mais, mas seria pedir muito que a diretoria contratasse alguém à altura do Grêmio?

Avalanche Tricolor: Desculpa, Zé !

 

Grêmio 0 x 0 Coritiba
Brasileiro – Olímpico Monumental

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Lembro quando o Grêmio trouxe Paulo César Lima para formar o time que seria campeão gaúcho em 1979. Famoso por seu comportamento polêmico tanto quanto pelo futebol elegante que jogava, chegou ao Rio Grande do Sul sob a desconfiança daqueles que não viam nele capacidade de oferecer ao torcedor gremista o esforço que sempre esperamos daqueles que vestem nossa camisa. Diziam que não teria força nem vontade para disputar o ríspido Campeonato Gaúcho e logo tiraria o pé das divididas e seu time de campo. Eu era adolescente e recordo do orgulho de saber que o Grêmio estava contratando um craque que havia brilhado na seleção brasileira e nos campos da Europa, onde jogou pelo Olympique de Marseille. Naquela época não era normal trazermos jogadores com este perfil, nossos principais craques com carimbo no passaporte haviam passado pela Argentina e Uruguai. Caju, apelido que ganhou pela cor que pintava a cabeleira, provou ser maior do que os críticos, participou da histórica partida contra o Esportivo, em Bento Gonçalves, única disputada no Brasil abaixo de neve, driblou quem tentou intimidá-lo pela força e conquistou o título de campeão gaúcho daquele ano. Voltou ao Grêmio, em 1983, para conquistar o Campeonato Mundial.

 

Paulo César Caju surgiu nas minhas lembranças neste início de noite de sábado, quando, aliás, assistimos a um jogo nem um pouco memorável – bem distante disto. A imagem daquele craque apareceu graças a Zé Roberto e sua performance impressionante, um jogador que consegue ser talentoso mesmo quando a mediocridade o cerca. Na estatística apresentada ao fim do primeiro tempo, nosso camisa 10 havia feito 20 passes e acertado todos, não sei quantos desses de calcanhar, desnorteando seu marcador e deixando seus companheiros em situação de ataque. A facilidade com toca na bola e como se movimenta para driblar os adversários, além da inteligência e visão de jogo, fazem dele um jogador muito diferente dos demais. Lamento apenas que não é retribuído da mesma forma por parcela de seus companheiros que deveriam pedir desculpas por não serem capazes de acompanhar o raciocínio do nosso craque.

Avalanche Tricolor: O Imortal voltou !

 

Coritiba 3 x 2 Grêmio
Sul-americana – Couto Pereira (PR)

 

 

O Grêmio está sempre pronto para me preparar algumas surpresas. A de hoje tocou fundo. E não me refiro apenas a classificação para a próxima fase da Sul-Americana. Nem ao incrível resultado obtido poucos minutos antes do encerramentos da partida, graças a um chute retorcido de nosso volante Souza e a bola alcançada pela ponta da chuteira de Marcelo Moreno. Mas ao fato de tudo isso ter levado meu filho mais velho, Gregório – já citado em outros posts gremistas -, a escrever a sua própria Avalanche Tricolor. E em inglês. Era tema de casa, como dizem lá no Rio Grande do Sul, encomendado pelo professor que tenta motivar seus alunos a escrever em língua estrangeira. E sua emoção ao ver nossa conquista sofrida desta noite, o inspirou no post que compartilho com você (traduzido para facilitar nossas vidas):

 

“Mesmo não sendo uma vitória, foi na medida certa para assegurar nossa posição na próxima fase da Copa Sul-Americana. Agora eu pergunto: era realmente necessário “vencer” com um escore tão justo? Não seria bom se nós pudéssemos vencer com uma vantagem maior? E minha resposta para estas perguntas é: sim, era preciso que fosse assim. Você acredita que teria sido a mesma coisa com outro placar? Não é assim que o Grêmio construiu sua história? Momentos que causam um ataque no coração, nos põem no limite da cadeira e provocam um sorriso no rosto de homens e mulheres que amam este time tanto quanto sua própria vida. Ficar feliz com isso, chorar com isso. E mesmo com tudo isso continuar a ter prazer de torcer por este alucinante time”

 

A revelação deste sentimento do Greg somente reforça o quanto é legal ser um Imortal Tricolor.

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Avalanche Tricolor: entre mortos e feridos seguimos no G4

 

Coritiba 2 x 1 Grêmio
Brasileiro – Couto Pereira (PR)

 

 

Minha prudência na última Avalanche Tricolor – escrita com providencial atraso – fazia sentido. Nem sempre podemos esperar o desempenho qualificado das partidas anteriores, menos ainda teremos o mesmo time em campo. Aquela equipe com cada um no seu devido lugar, dona da bola e do jogo foi se despedaçando no decorrer da partida. Se já havíamos entrado em campo capenga, voltamos para o segundo tempo esfarrapado. Estávamos sem um dos volantes titulares e sem nosso principal atacante, acabamos, também, sem dois dos jogadores que têm desequilibrado as partidas a nosso favor, Zé Roberto e Elano. O próprio banco estava desfalcado de Leandro, dos poucos em condições de entrar para mudar para melhor nossa performance. Os demais fazem número, podem preencher espaço mas quase não interferem no desempenho. Além disso, tinha um daqueles juízes que dão raiva de ver trabalhando, mas isto é um outro assunto.

 

Com todos os problemas, encerrada a partida, olhei a tabela de classificação, os jogos dos nossos adversários, os próximos compromissos e lembrei de uma expressão que minha mãe usava de forma divertida e consoladora muitas vezes: entre mortos e feridos, salvaram-se todos! No nosso caso, nos mantivemos no G4 e com tendência de alta.

Avalanche Tricolor: Há 30 pontos e uma loucura

 

Coritiba 2 x 0 Grêmio
Brasileiro – Couto Pereira Curitiba (PR)


Há quem considere normal perder fora de casa. Marquinhos, a quem coube organizar o meio de campo gremista no início da noite de sábado, é um deles, principalmente se o jogo for no Couto Pereira, disse na entrevista ao fim do jogo. Compreendo a afirmação de um jogador que tenta justificar e não se abater com o mau resultado, assim como sei que ele chegou não faz muito ao Olímpico e talvez ainda não tenha compreendido bem a nossa saga.

Para o Grêmio, Marquinhos, nada é normal. A anormalidade é a marca que nos consagrou Imortal, nos fez não aceitar passivamente a derrota definitiva e fazer história quando todos – ou quase todos – acreditam que seremos apenas figurantes. Era isso que fazia cada um daqueles torcedores que foram ao Couto Pereira cantar e vibrar mesmo com a dupla desvantagem no placar, a ponto de chamarem atenção do narrador da partida na Sport TV. Nós sempre estamos a espera de um gol heróico, uma virada histórica ou um lance capaz de impressionar o adversário, mesmo quando olhamos para o time e vemos tantos desfalques e pouca inspiração para estes feitos.

Você ainda vai se acostumar com o poder desta camisa. E enquanto se concentra na normalidade do futebol, Marquinhos, nós seguiremos a crer que algo incrível está para acontecer na disputa dos 30 pontos que nos restam no campeonato. Quando esta loucura tomar conta de você, verá que não é normal perder fora de casa. Nada é normal para quem é gremista. Seja mais um.