O jogo que os meninos viram II

 

Direto da Cidade do Cabo

“Ainda bem, f.d.p” foi o que Dunga teria dito assim que o juiz deu o apito final da partida contra a Costa do Marfim. Em vez de deixar os meninos envergonhados, eles até que gostaram do desabafo. Foi o que me disseram assim que os procurei para os comentários sobre a vitória e classificação brasileira.

Os dois garotos, de 10 e 13 anos, apresentados neste blog, semana passada, após a estreia da seleção, fizeram tanto sucesso com a sinceridade de seu olhar, que decidi voltar a eles.

Ao menos para os meninos-comentaristas, ninguém precisará pedir desculpas pelos palavrões, ao contrário do que teve de fazer o técnico da França Raymond Domenech, alvo dos xingamento de Anelka no intervalo do jogo contra o México. Depois de afastar o atacante, foi à imprensa dizer que “lamento por todas as crianças que seguem a seleção da França”.

Os dois sabem que tem palavrão que ofende, tem palavrão que dá ênfase, tem palavrão dito no momento impróprio e tem palavrão que alivia. O de Dunga foi de alívio, naquele instantes. Os demais, ditos para quem não tem nada a ver com isso, e está apenas trabalhando, eles não ouviram e, portanto, não comentam. Fazem bem.

Ficaram assustados mesmo foi com a maneira dura com que aquele pessoal da Costa do Marfim jogava: “eles não são os Elefantes, são uns cavalos”, disse o menor. Mais incomodados, ainda, quando viram os marfinenses entrar de sola na canela de Elano. Como já escrevi, o mais velho diz que o meio-campo brasileiro tem “cara de dó” e, por isso, decidiu torcer por ele, em particular. Deu sorte.

Aliás, eles haviam reclamado durante o jogo a falta do gol do Elano. Pedido feito, pedido atendido, depois da boa jogada pela esquerda de Kaká. “Esse cara é legal, ele mostrou o nome das filhas depois do gol”, lembraram os dois, conquistados pela simpatia do “goleador”.

Será que ele pode ser punido por isto ? Espero que não, a mensagem era pra família, caramba.

Lembrei que eles queriam ter tirado o Kaká na partida de estreia já no primeiro tempo, antes mesmo da decisão do Dunga de substituí-lo: “Mas nesse jogo não merecia sair, apesar que disseram na TV que ele tinha de ter sido substítuido antes porque tomou o cartão amarelo”, comentou o mais velho. Sobre a expulsão: “Foi bem esquisito”.

Esquisito é elogio para o que o juiz deixou acontecer no gramado.

“O Robinho foi o Kaká do outro jogo, não fez nada desta vez”, concordaram os dois. “É, mas o Luis Fabiano fez bem mais do que todos eles juntos, num usou a mão, mas fez”, comenta o novinho que não havia nascido quando Maradona consagrou este lance no México86. “Foi o gol mais bonito que eu vi até hoje”, disse o mais velho que só assistiu aquele chapéu de Pelé, na Suécia58, pela televisão e em imagens desbotadas.

A vó, que esteve do lado deles no jogo de ontem, tinha idade para lembrar dos dois gols históricos, mas nunca acompanhou o futebol, só assiste aos jogos pra ficar junto com os netos.

Futebol-família é muito legal, mesmo que de vez em quando escape um palavrão.

O Brasil de Dunga jogou futebol de verdade

Direto da Cidade do Cabo

Futebol de verdade não é aquele sonhado por muitos de nós. Em que os jogadores driblam de maneira impressionante, fazem jogadas fantásticas e gols cinematográficos, que hoje em dia costumam aparecer muito mais na publicidade do que em campo. Lá dentro do gramado, a realidade é muito mais dura, é necessário dar de bico para espantar o perigo, suar a camisa para impedir que o adversário chegue até sua área, romper barreiras formadas por brutamontes para alcançar o gol, agarrar a camisa, o calção, às vezes a própria bola. Se houver possibilidade, faz-se o lance genial, o que é cada vez mais raro, haja vista o que ocorreu nas 28 partidas disputadas nesta Copa da África até o Brasil entrar em campo para enfrentar a Costa do Marfim.

Era o jogo mais difícil desta chave, alertavam os críticos. A melhor seleção do continente africano tinha ainda a presença de Drogba, considerado por alguns o melhor atacante do mundo. A marcação forte, a velocidade de todos seus jogadores e a categoria de alguns são elementos temidos por seus adversários. Além disso, o futebol da estreia brasileira, mesmo que eficiente e equilibrado, ainda gerava dúvidas.

Hoje, a seleção de Dunga mostrou que não será apenas mais uma convidada nesta Copa. É protagonista do jogo mais impressionante até aqui, pois além da dedicação necessária para encarar as estratégias defensivas e físicas impostas no futebol moderno, o Brasil mostrou talento. Foi muito além do time de abnegados do primeiro jogo.

O confronto entre Brasil e Costa do Marfim teve todos os ingredientes de um jogo de futebol. Jogadores se movimentando com rapidez e sendo acompanhados por uma troca de passe interessante como a que resultou no primeiro e terceiro gols brasileiros. Talento individual e categoria como no segundo, marcado por dois chapéus no adversário. E a sagacidade que resultou no único gol marfinês, de cabeça.

Não faltaram os elementos da dramaticidade, como a dividida de bola da qual Elano não se eximiu e pagou caro por esta decisão de coragem. Nem o confronto corporal que puniu o bom-moço Kaká, errado apenas no lance em que recebeu o primeiro cartão amarelo. Como condená-lo, porém, se o que fazia era somente participar de um jogo de futebol de verdade.

Talvez até o árbitro atrapalhado e “engraçadinho” que fez lambanças em campo capazes de ajudar e prejudicar o Brasil, tenha estado lá para contribuir com este espetáculo. Fosse ele rigoroso, o lance mais bonito da partida, provavelmente teria sido anulado. Apesar de que preferia ter visto alguém mais bem capacitado para colocar ordem na casa.

Pra completar, tivemos um personagem. Luis Fabiano com seus dois gols, um marcado pela força e precisão do chute, e outro pela esperteza e categoria ao encobrir três marcadores em espaço restrito da área. Na seca havia seis partidas, o atacante deveria estar sofrendo na sua intimidade, pois sabe que do gol depende sua subsistência. Não poderiam ter ocorrido em momento mais oportuno e de forma mais bonita. Ele é o goleador da Era Dunga com 21 gols marcados em 28 partidas.

O futebol de verdade é feito de sangue, suor e talento. A seleção brasileira nos ofereceu tudo isso na vitória de hoje e, não por acaso, está classificada antecipadamente para a próxima fase da Copa da África. Mérito de Dunga, fiel a suas ideias, confiante em seu exército de abnegados e crente de que a qualidade técnica deles levará ao título de campeão do mundo.