Conte Sua História de São Paulo: uma chance a mais para Antônio, preso e drogado

 

Por Roberto Livianu
Ouvinte da CBN

 

 

 

Crônica originalmente escrita para o livro “50 tons de vida”:

 

 

Antônio era o filho mais novo de oito irmãos. Nascido em Nova Lima, região metropolitana de BH, teve infância humilde mas nunca faltou afeto nem alimento na mesa.

 
 

 

Sua mãe, Maria Antonieta era costureira e dava um duro danado para nada faltar aos filhos, para que todos estudassem, para que se sentissem amados, protegidos e amparados.

 
 

 

Flávio, o pai, morreu prematuramente em acidente do trabalho, na obra em que trabalhava como peão, na construção civil. Um andaime tragicamente desabou sobre ele.

 
 

 

Aos dezoito anos, Antônio resolveu tentar a vida em São Paulo, onde vivia Pedrinho, um primo seu, que trabalhava como garçom. Mas logo percebeu que não seria nada fácil vencer ali sem dinheiro, sem amigos poderosos, sem caminhos. Especialmente após ter feito amizade com Carlinhos, moleque do bairro que não trabalhava, usava crack e levaria Antônio para este labirinto.

 
 

 

Sem emprego e já viciado, saiu desesperado em busca de dinheiro para comprar a pedra. No seu trajeto, um salão de beleza. Entrou, colocou a mão sob a camisa e exigiu cinquenta reais. Estava cometendo seu primeiro assalto. Não foi convincente, não obteve o dinheiro e na saída foi preso em flagrante pela PM.

 
 

 

Dois meses depois foi solto num habeas corpus pedido pela Defensoria Pública, conseguindo responder ao processo em liberdade.

 
 

 

Passados dois anos, era um homem diferente. Trabalhava como servente de pedreiro e estava muito arrependido. Tornou–se evangélico e conseguiu libertar-se do crack. Chega o dia da audiência no fórum e a vítima pede para depor sem ele presente.

 
 

 

Surpreendentemente, o promotor vai até ele na sala em que estava e pergunta se estaria disposto a se explicar para a vítima e de pedir perdão a ela. A felicidade toma conta apesar de tudo e ele responde que é o que mais gostaria que acontecesse.

 
 

 

O promotor convence a vítima a rever sua posição e ela aceita estar presente e se encontrar com Antônio, para ouvi-lo. O mineirinho emociona-se, explica o que se passou em sua vida, pede perdão à vítima e as lágrimas correm em seu rosto copiosamente.

 
 

 

Suas palavras são sinceras. Ele e a vítima, Dona Letícia, abraçam-se e a cena emociona a todos na sala. A juíza, o promotor, a defensora, escrevente, estagiários.

 
 

 

O trauma sofrido pela vítima em virtude do assalto parece ter-se restaurado em grande medida. A prática se inspira na justiça restaurativa, que é instituto ainda embrionário no Brasil, mas muito utilizado na Nova Zelândia, no Canadá, África do Sul e em muitos outros países, onde se busca a aproximação de agressor e agredido por facilitadores da sociedade nos círculos restaurativos, funcionando o juiz como homologador.

 
 

 

A pena foi aplicada e o processo foi julgado, tendo ele recebido o benefício do regime prisional aberto e a sensação do promotor naquele dia foi muito especial, de dever cumprido. Sentiu-se leve, feliz e em paz. Sentiu ter feito justiça.

 

 

Roberto Livianu, promotor de Justiça, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também sua história da cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. 

Governos, ministros e drogas nas notícias do meu dia

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Estou escrevendo,nesta terça-feira, o que vai ser publicado na quinta. Destaquei, em minha ótica,é claro, as notícias que considerei as mais auspiciosas divulgadas pela mídia hoje. A primeira diz respeito à decisão da Presidente de diminuir 10 ministérios dos 39 que compõem o seu rol de ministros,dos quais muitos o caro leitor nem sabia nome e função. Era um exagero,sem dúvida. Às vezes,porém,são tantos os interesses que a primeira mandatária,provavelmente,imaginasse que,de alguma maneira,fossem pessoas úteis ao seu governo. Como se percebe pela reviravolta que retirou essa turma da lista de Dona Dilma,a presença deles – ou delas – apenas depunha contra a atual situação econômica governamental.

 

Como se ficou sabendo – ou até já se sabia – a crise era maior do que a teimosia da Presidente em manter o seu timão ministerial. Ela reconheceu que errou. Pena que tenha demorado a descobrir que 39 ministros custam muitíssimo caro. Aliás,os rumores de que o homem das finanças do governo,Joaquim Levy,estaria ou,mais do que isso,estava disposto a pedir demissão do cargo pioraram a história. Sua provável decisão seria terrível. Será que exagero?

 

Inicialmente,foi espalhada a informação de que o ministro Levy viajara para os Estados Unidos,sem compromissos oficiais. Ele depois negou que fosse a Washington. Isso também foi desmentido. Disseram,então que Joaquim Levy fora ver a menina (sua filha) que iria morar na China. Com ou sem Levy,o reconhecimento de Dilma de que tinha de desfazer-se de 10 ministros era uma admissão da grandeza da crise econômica. Não esqueçam,por favor,que entrego esta coluna entre terça e quarta-feira. Digamos que,por enquanto,Levy é o ministro das finanças do governo de Dilma Rousseff.

 

Escrevi no início do meu texto que,dentre tantas notícias,havia outra que me chamara a atenção.Por falar em ministros,há dois,no momento,ambos atuando no campo da justiça,que tem pensamentos diferentes sobre a mesma questão. O ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Edson Fachin divulgou de que usará o prazo regimental para julgar o processo que discute se é crime ou não o porte de drogas para consumo próprio. Sua intenção,conforme a sua assessoria,é liberar a sua decisão até 31 de agosto. Já o ministro Gilmar Mendes vai votar a favor da descriminalização. Para ele,a pessoa tem direito de colocar em risco a sua própria saúde.

 

Está em discussão a constitucionalidade do artigo 28 da lei que define,como crime,adquirir,guardar ou portar drogas para si. Mesmo os leigos não deixam de ter suas ideias a respeito deste assunto de suma importância. Por isso,dou a minha opinião a favor do ministro Luiz Edson Fachin. Permitir o porte de drogas não garante que seja unicamente para uso próprio. Não se pode confiar em pessoas viciadas em drogas. E a luta contra os traficantes ficará muito mais difícil do que se sabe ser. Eu sei de um excelente jovem que se viciou em crack e,desesperado para arrumar dinheiro destinado a pagar traficantes que cobravam a dívida dele,acabou matando o seu pai que se negou a lhe dar para saldar seu compromisso.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O que você pediria ao próximo prefeito?

 

 

Muito rica de propostas, a edição da revista Época São Paulo chegou às bancas neste fim de semana com o perfil de 13 dos possíveis candidatos à prefeitura da capital e 50 sugestões para quem pretende governar esta cidade com cerca de 11,2 milhões de moradores e R$ 38,7 bilhões no Orçamento. Além disso, é possível identificar as prioridades de parcela da população a partir do resultado de pesquisa encomendada ao instituto Conectaí (braço on-line do Ibope) que contou com a participação de 254 entrevistados.

 

Na opinião dos paulistanos, a maior encrenca a ser resolvida pelo prefeito eleito é o transporte (40,4% indicaram este tema como o principal), o que não chega a surpreender depois que assistimos a greves em metrô e trem, há duas semanas, e congestionamento que quase bateu na casa dos 300 quilômetros, como na sexta-feira. Não tenho o detalhamento da pesquisa, mas penso que esta demanda está mais próxima da classe média e de quem ainda consegue resolver as questões de educação e saúde por conta própria. Digo isso, porque partidos políticos, em estudos de opinião pública, têm encontrado a área de saúde como a mais crítica – da mesma forma que o Ibope levantou em pesquisa encomendada pela Rede Nossa São Paulo, no início do ano. Na revista, após transporte, apareceram educação (18,4%) e saúde (14,2%).

 

Para personalidades e leitores, a revista fez a seguinte pergunta: “se você pudesse ter um encontro de 5 minutos com o próximo prefeito, o que pediria a ele?”. Falou-se de pedágio urbano, corredor de ônibus nas marginais, calçadas mais largas, fim do Minhocão, transformação de cemitério em área de lazer, menos cargos de confiança, mais e melhores bibliotecas, entre tantas outras ideias. Vou destacar duas que me chamaram atenção e deixo as demais para você ler na banca.

 

A primeira, proposta por Maria Alice Setubal, do Instituto Democracia e Sustentabilidade, que prega a extensão da jornada diária do ensino fundamental para sete horas em todas as escolas municipais. Apenas os alunos de 45 CEUs – Centros Educacionais Unificados têm esta oportunidades, em 94% das demais unidades da rede, a jornada é de cinco horas, e 6% submetem parte de seus alunos ao turno da fome, os obrigado a estudar das 11 da manhã às três da tarde. “Numa cidade voltada à educação, as escolas devem estar abertas aos estudantes pelo maior tempo possível”, disse Maria Alice à revista. Candidato que se preze tem de assumir já este compromisso e dar uma solução antes do primeiro ano de gestão.

 

A segunda ideia que gostei é do psicanalista Antonio Lancetti que propõe a criação de sala de uso seguro para dependentes de crack. Fiquei feliz em ler esta sugestão pois vai ao encontro do que escrevi recentemente na coluna Adote São Paulo que assino na Época São Paulo (leia aqui). Diz Lancetti que “para a iniciativa dar certo, as salas precisam funcionar 24 horas por dia e estar vinculadas a consultórios de rua e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)”. Importante alerta para quem acreditou que a Policia Militar resolveria o problema que assistimos na Cracolândia, região central. Aliás, não sei se você teve oportunidade de ler reportagem no Estadão de domingo que antecipou resultado de estudo encomendado pela Secretaria de Assistência Social no qual 72% dos moradores de rua disseram que a operação policial não mudou em nada a vida deles, enquanto 17% que piorou. O que apenas comprova que as soluções para o crack não são fáceis nem simplistas, assim como não o são para a mobilidade urbana, para o ensino, para a saúde, para a cidade toda. Por isso, senhores candidatos, muita inteligência e criatividade serão necessárias.

 

N.B: Na edição de junho da Época São Paulo aproveitei para escrever sobre como escolher um vereador na próxima eleição. Mas sobre isso, falo com você mais para o fim da semana. Se tiver uma chance, compre a revista, leia e comente.

Cracolândia: viciado não é criminoso, é doente

 

 

Texto publicado no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

 

Em sete páginas da edição paulista da revista Época, de fevereiro, os repórteres Camilo Vannuchi e Eduardo Zanelato entrevistam o comandante-geral da PM de São Paulo, Coronel Álvaro Camilo, sobre a ocupação da Cracolândia, centro da capital, que se iniciou em 3 de janeiro – ou seja, há um mês. O homem que lidera a tropa paulista no combate ao crime – e aos viciados de crack, também – diz que na capital não haverá zonas livres para o consumo dessa droga e 80% da região já está melhor do que no ano passado. Na mesma edição da revista (reproduzo a capa ao lado), sem ter lido a reportagem antes, escrevi minhas impressões sobre a Operação Centro Legal, as quais reproduzirei aqui no Blog semana que vem – a publicação está disponível nas bancas, ainda. Aproveito o espaço hoje, porém, para destacar alguns aspectos que considero reveladores e aparecem graças ao trabalho de meus colegas de redação.

 

Mesmo experiente e bem preparado para a função que exerce e acostumado e treinado para o bom uso da palavra – poucas vezes a PM falou tanto na mídia como neste último ano -, Coronel Camilo tropeçou no discurso quando se referiu a decisão de ocupar a área tomada por drogados:

… Fizemos reuniões com o pessoal do Bom Retiro e da Santa Ifigênia, recebemos apoio do comando, criamos um pelotão com 30 homens e decidimos: “Vamos Limpar”.

 

 

“Vamos limpar?” – indagaram os repórteres.

 

Ao perceber o tom politicamente incorreto, o Comandante pediu para que o termo fosse retirado por considerá-lo inadequado. Errado, sem dúvida, mas revelador. Minha terapeuta junguiana (como não poderia deixar de ser) avaliaria como ato falho, um sintoma que se constitui o elo entre o intuito consciente da pessoa e aquele que está reprimido. A filosofia que moveu a ação estatal estava exposta: limpar a área.

 

Em outro ponto, Comandante Camilo responde às pessoas que, através dos canais de comunicação abertos pela PM com a população, dizem que a polícia não deveria ser usada para resolver o problema da Cracolândia, pois os dependentes são doentes: “O que todos esquecem é que doente consome. E consumo é crime”. Pouco antes, já havia feito a seguinte afirmação: “A ação está sendo forte em cima de quem trafica e de quem consome. Consumo é crime … Foram presos 100 traficantes nas primeiras duas semanas”. Pelo que se nota, decidiu-se dar de ombros para a presunção de tráfico baseado na quantidade da droga, em um erro bastante comum nas políticas de segurança pública que imperam nos estados brasileiros. Os dependentes estão sendo tratados como criminosos quando deveriam ser pacientes. O problema é que para inverter esta lógica seriam necessárias vagas nas redes pública e privada para o atendimento desses viciados. E a Operação Centro Legal não ter a polícia como protagonista mas, sim, uma tropa de agentes sociais e de saúde.

A Cracolândia no círculo eleitoral

 

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

O que fazer com os traficantes e viciados !?[humildade para ouvir]

A operação Centro Legal deflagrada pela Prefeitura e governo do Estado para ‘implodir’ a Cracolândia poderia ser chamada de Operação Maquiagem. Sem sucesso na captura de traficantes influentes, tem passado a forte impressão de luta por sobrevivência política dos principais envolvidos na operação. O tapa de Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab no visual da Cracolândia conseguiu uma vitória: mexer com o governo federal, que terá agora a oportunidade de responder sobre a viabilidade da construção do ‘Hospital do Crack’ para o tratamento dos viciados.

Vale lembrar que, há três anos, conforme registrou a imprensa, a proposta do hospital foi entregue ao ex- presidente Lula em seu tradicional almoço de fim de ano com os moradores de rua e catadores. Na ocasião, o senador Eduardo Suplicy foi o porta-voz do documento assinado por viciados em crack e álcool. A notícia é que muitos dos que assinaram o documento morreram por causa do vício..

Alertamos a senhora presidente Dilma Roussef. Cuidado com os traillers ou cabanas – consultórios para competir com as tendinhas da prefeitura. Podem dizer: ‘é só para começar’. Limitar-se a este improvisado aparato federal poderá ser um fiasco de saúde pública. Fiasco como os cometidos pela Prefeitura de São Paulo nas construções das primeiras tendas no Parque Dom Pedro II, de condições sanitárias precárias; para uma cidade tão rica! Tendas e galpões vulneráveis como a grande solução para recuperar uma legião de viciados da maior Cracolândia do Brasil. Dentro da Tenda de Santa Cecília, há pouco tempo usuáriosforam flagrados pitando crack. O que parecia ser normal para algumas pessoas quando foram questionadas.

Senhora presidente, em São Paulo uma sucessão de fiascos e improvisos levaram o povo paulistano a desacreditar profundamente da classe política. Num vazio de ideias e de gestão tudo é improvisado, desde a implosão desnecessária de um prédio na favela do Moinho a caixas tapadas com toquinhos de madeira em frente à Coordenação de Subprefeituras, no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo. Quando os fiascos não se apresentam de forma grave surgem de forma violenta e odiosa contra os direitos humanos: acordar mendigos na madruga fria de São Paulo com spray de pimenta. É preciso sempre lembrar, manter a chama acesa para que tais atrocidades não se repitam.

Senhora presidente, a presença do Governo Federal em São Paulo deveria superar as espectativas[…] numa dimensão social de projetos permanentes em defesa da vida de cidadãos doentes que precisam de hospital. Ah!, mas não querem se tratar. Neste sentido a Constituição Federal é cristalina. Os doentes de crack respondem ou não pelos seus atos ? Então vale o que está escrito na Constituição.

Se querem prender os chefões do tráfico do Centro, acione o serviço de inteligência da Polícia Federal. Talvez as três polícias, civil, militar e federal trabalhando na mesma direção o serviço de segurança e proteção renderá, prenderão rápido os destruídores de vidas (sem descuidar das fronteiras, por onde tem entrado com facilidade a droga), e toda sociedade ganhará.

A Cracolândia não deve se transformar num mero instrumento de disputa de poder[…].

Senhora presidente Dilma Roussef, falta aos gestores de políticas públicas a visão de futuro para enfrentar a epidemia de crack. Por que deixaram o crack tomar conta da cidade de São Paulo e do Brasil? Para que se não cometa injustiças , e a culpa recaia apenas sobre os governos atuais -, particularmente em São Paulo o crack é problema social antigo, visto com descaso por sucessivas administrações. Depois de tantos anos, tendas e galpões! Cá entre nós, falta ou não visão de futuro e vontade política para enfrentar o problema ?

Nem mesmo os mais preparados escritórios de marketing político – contratados a peso de ouro pelos candidatos – justificariam o tamanho descaso das diferentes esferas de poder com o avanço do crack em São Paulo e no Brasil.

Até quando vamos assistir aos espetáculos de política tupiniquim ? Só falta alguém ter a ideia de carregar setenta ‘traficantes’ numa jaula, em desfile, pelas principais ruas da cidade às vésperas da eleição. Afinal, o poder está em jogo e descobriram que a Cracolândia é uma mina de voto.

Querem combater o tráfico de droga e tratar dos viciados em São Paulo ? É preciso ter a humildade para ouvir os que têm posições claras e respeitáveis sobre o assunto. Converse e ouça com atenção e anote tudo o que disser Antonio Luiz Marchioni (Ticão), Drauzio Varella ,Edson Ferrarini, Flávio Gikovate, Hans Stapel, Izilda Alves, Jaime Crowe, José Vicente, Maria Rita Kel, Maria Stela Graciani, Ronaldo Laranjeira e Wálter Maierovitch.

Aziz Ab’ Sáber e Manoel Del Rio defendem que o governo Federal desaproprie o antigo quartel do Parque Dom Pedro, e faça ali um hospital-escola, um centro integrado. O prédio está abandonado e deteriorado. Todas as pessoas citatas como referência são solidárias e quando solicitadas atendem até cidadãos anônimos.

Ouvir educadores sociais de rua e ex-viciados é fundamental. Não precisa ser ex-usuário celebridade.

A ilustração do texto fica por conta da inspiração e criatividade de algum desenhista/artista plástico solidário. Um policial aponta uma espingarda calibre 12 ou fuzil para um mendigo deitado no canteiro central florido da avenida Rio Branco e diz: “Vamos , levanta.” O andarilho se levanta tossindo com o cobertor nas costas e sai sem rumo..

Abaixo-assinado pelo Hospital do Crack

 

Por Devanir Amancio
ONG EducaSP

Carroceiros pedem hospital do crack

O Núcleo de Trabalhos Comunitários da PUC São Paulo – NTC, sob a direção da professora Maria Stela Craciani, dá a largada dentro da PUC na corrida contra o crack, e inicia, nesta quinta-feira, a coleta de assinaturas para exigir das autoridades a recuperação dos viciados. O abaixo-assinado intitulado “Grito pela vida. Hospital do crack já !” será levado pelo Movimento Fórum do Crack para outras universidades, escolas estaduais e municipais, e comunidades da Região Metropolitana de São Paulo. Catadores de recicláveis – como o carroceiro Pelezinho de Perdizes – também vão reivindicar o “Hospital do Crack”.

Considerando a gravidade do assunto, a sua profundidade na sociedade brasileira e a sua presença dentro dos lares é possível estimar a coleta de 1 milhão de assinaturas. No dia 30 de setembro o abaixo-assinado chega à Praça da Sé.

Texto do abaixo-assinado:

“Aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Nós, cidadãos brasileiros abaixo-assinados, viemos, através deste instrumento, pleitear aos poderes públicos, particularmente ao Executivo, na figura da presidente Dilma Roussef, do ministro da Saúde Alexandre Rocha Santos Padilha e do ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e ao Judiciário a criação, implementação e observação de políticas efetivas para combater e eliminar a presença da droga conhecida como “crack” na sociedade brasileira. Já mais do que tarda o momento de darmos um basta às diretrizes equivocadas que têm norteado as ações nesse sentido, caracterizadas pela leniência, passividade e omissão que apenas contribuem para engrossar o contingente de dependentes químicos desde os mais remotos pontos da zona rural até as grandes cidades, arregimentando pobres e ricos, principalmente jovens, na sua escalada destrutiva sem precedentes.

Também é nesta direção que propomos , particularmente , a criação do “hospital federal do crack” em São Paulo, como referência para todo o País.”

SP estuda casas assistidas para “craqueiros”

 

 

Cracolândia em São Paulo

Uma legião de viciados em crack se encontra todos os dias nas redondezas do bairro da Luz, centro, bem ao lado de um dos prédios mais bonitos da cidade, onde funciona a Sala São Paulo. Calcula-se que duas mil pessoas vagam por ali em busca de droga, proporcionando um espetáculo trágico e desafiando os paulistanos, muitos consternados com o drama exposto, outros indignados com a inércia do poder público e grande parcela exigindo medidas imediatas, uma solução – como se houvesse uma só.

É possível ver alguns craqueiros desgarrados da turba sentados em outros pontos da região central. Lá do quarto andar, de um dos prédios próximos da praça da República, onde está o gabinete do secretário estadual de Saúde Januário Montone, não é preciso muito esforço para identificar estes viciados. Complicado mesmo é dar uma resposta à pressão da sociedade que se entusiasma com as notícias que chegam do Rio de janeiro, onde se decidiu recolher drogados mesmo contra a vontade deles – quem sabe a solução, pensam.

A experiência carioca está sendo estudada pela prefeitura, diz o secretário paulistano, nas duas conversas que tivemos semana passada – uma delas no próprio gabinete e a outra no Jornal da CBN, onde promovemos série de entrevistas sobre o crack. Nas duas ficou evidente o cuidado que tem para não causar constrangimento político, além de o esforço para diferenciar internação compulsória e acolhimento compulsório – nome do projeto que está sendo discutido com o prefeito Gilberto Kassab e as secretarias de Assistência Social, Trabalho e Negócios Jurídicos.

Conheça o plano que a prefeitura de SP estuda para enfrentar a epidemia do crack, acessando o Blog Adote São Paulo

Foto-ouvinte: Os dois lados de São Paulo

 

Sala São Paulo

A visita a Sala São Paulo e estação Júlio Prestes rendeu boa foto e más lembranças ao ouvinte-internauta Eduardo Mucillo. Foi lá no fim de semana e ficou impressionado com o aspecto no entorno do local, onde a cultura se mistura à degradação:

O cheiro de urina por toda a praça e em frente da estação empestiava o local… fora o lixo espalhado pela rua como se há pouco tivesse acabado uma feira e, para piorar, centenas de andarilhos, isso mesmo centenas, espalhados pelas sarjetas consumindo o lixo e as drogas, pelos gestos provavelmente crack, como se nada pudesse detê-los.
E não pode!

Narcossalas em lugar da Cracolândia

 

Cracolândia em São Paulo

Os restos humanos que caminham em meio ao lixo e as drogas, nas ruas da Cracolândia, compõem um dos cenários mais tristes da cidade de São Paulo. São centenas de pessoas em processo de destruição, doentes e alucinados que, enquanto esperam a morte, única esperança que têm, se alimentam com crack. As soluções ensaiadas até aqui não oferecem perspectivas positivas. A reurbanização proposta pela prefeitura esquece da saúde pública; e a remoção citada por Gilberto Kassab, em sabatina na Folha de SP, tem caráter policialesco e autoritário. Não há histórico no mundo de que estas políticas tenham servido para melhorar a qualidade de vida das pessoas e da cidade.

São Paulo poderia ser inovadora e propulsora de uma guinada na história do combate às drogas se ouvisse o que disse Walter Maierovitch, presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais Giovanni Falconi, na conversa que tivemos na segunda-feira, no quadro Justiça e Cidadania, do Jornal da CBN. Incentivador das políticas sociossanitárias, ele lembrou a experiência desenvolvida em Frankfurt, onde foram implantadas as primeiras narcossalas do mundo, em 1994, recomendada pela ganhadora do Nobel de Medicina Françoise Barre Simousse.

Leia o texto completo no Blog Adote São Paulo, no site da Época SP