Avalanche Tricolor: antes do Tetra, foco no Hepta!

The Strongest 2×0 Grêmio

Libertadores – Estádio Hernando Siles, La Paz, Bolívia

Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Era de se esperar pouco, considerando as condições que nos propusemos. Jogar a mais de 3 mil e 600 metros de altura por si só é complicado e poucos chegaram lá no alto e saíram com os três pontos – o que não significa que não seríamos mais um entre esses poucos se estivéssemos com time completo e mobilizado.

“Condenados” a disputar mais uma final de estadual quando deveríamos estar com as energias voltadas a Libertadores, fomos às alturas com time descaracterizado e sem sintonia. 

Desta vez, é injusto culpar o treinador pela decisão. Alguém se atreveria a correr o risco de expor os titulares ao cansaço, desgaste físico e até lesões estando a um passo do Heptacampeonato Gaúcho? Talvez quem goste de palpitar do conforto de seu sofá (calma, eu também sou palpiteiro de sofá).

Àqueles que estão no comando da equipe cabe a responsabilidade de equilibrar o elenco diante dos compromissos assumidos. E avaliar o impacto que esse esforço de jogar duas partidas decisivas no Brasil e mais um desafio de Libertadores na extrema altura pode ter nos atletas, não apenas para esses jogos mas para o restante temporada. 

Já perdemos jogadores importantes no início deste ano e não podemos nos dar ao luxo de deixá-los fora das demais partidas que vem pela frente. Lembrando que depois do Gaúcho, além da Libertadores, tem Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil.

A despeito disso tudo, e da baixa expectativa, a impressão que ficou é que o time desajustado de ontem à noite, poderia ter tido mais sorte. Surgiram algumas chances para empatar a partida, o que seria lucro. Porém, a defesa mal posicionada, o meio de campo pouco articulado e o ataque sem precisão nos puniram e impediram de somar ao menos um ponto nesta estreia. Recuperar-se nas próximas rodadas será fundamental para reduzir os riscos de não avançar na Libertadores, o que seria um desastre. Antes, porém, de pensar no Tetra vamos focar no Hepta!

Conte Sua História de São Paulo 470: um passeio nas lembranças da casa na Augusta

Miguel Chammas

Ouvinte da CBN

Hoje o dia está chuvoso e frio; perfeito para sentar em qualquer canto, calar a voz e permitir que o peito, através das lembranças, chore e ria o quanto e como quiser.

Não será preciso nenhum toque especial, nenhum gole de álcool ou qualquer outro motivador que seja. Basta, apenas, relaxar e esperar as memórias começarem a aparecer.

Bem pensado. Imediatamente colocado em prática. Surge uma dúvida: O que lembrar?

Bem, eu queria voltar no tempo, ir para as décadas de 40/50, e lá, naquele casarão da Rua Augusta, encontrar a minha infância, encontrar meu avô Gidi, minha avó Siti, minhas tias Neide e Zazá, meus primos Sonia e Roberto, minha mãe, meu pai, meu irmão.

Queria subir pelas escadas de mármore, ganhar o corredor, entrar no quarto da frente, encontrar meu avô, já doente, lhe fazer um cigarro de palha para, depois, ler uma boa parte do jornal até ele ressonar tranquilamente.

Depois, continuar percorrendo o longo corredor, ultrapassar o primeiro quarto onde dormiam eu, meu irmão, meu pai e minha mãezinha. Passar, logo em seguida, pelo segundo dormitório que era ocupado por minha tia Neide e meus primos Sonia e Roberto e, finalmente, chegar à sala de jantar onde as reuniões familiares aconteciam. Onde a árvore de Natal era montada todos os anos, e os presentes do ”Papai Noel” eram desembrulhados a cada dia 25 de Dezembro. Onde as macarronadas dos almoços domingueiros eram realizadas, onde os pacotes de doces do Bar Viaducto, comprados por meu pai, eram abertos e os doces devorados por todos, onde nós, crianças, a cada almoço, tínhamos, divididas com justiça, garrafas de deliciosas Tubainas.

Sala onde eu presenciei ainda garoto, os bailecos promovidos por minha tia, recheados de trilhas sonoras com Fernando Albuerne, Gregório Barrios, Lucho Gatica. Bing Crosby, Frank Sinatra, Tommy Dorsey, Glenn Miller e outros sons doces e melodiosos e, depois, passados alguns anos, mudado de assistente a promotor, passei a realizar bailinhos, não de garagem, mas de sala, abrilhantados por “Pick-up e sus Negritos”, amparados por “sandubas” de “Carne-Louca” e espetinhos de Salsicha e Picles enfeitando abacaxis ou outros que tais, regados a Ponche confeccionados com muita guaraná, Cinzano, frutas picadinhas e gelo.

Sala de mil lembranças, inclusive tristes, como os velórios de meu avô e depois de minha tia, quando era transformada em morgue, forrada de panos pretos, e iluminada por velas em castiçais prateados e flores de odor doce e nauseabundo, arejada por um pequeno aparelho emissor de ozônio de barulho irritante.

Queria continuar atravessando o corredor, passando pelo pequeno quartinho ocupado por minha tia, quando de sua solteirice, passando, depois, pela porta do único banheiro da casa que, no seu interior, guardava uma antiga cômoda de madeira usada para guardar materiais de higiene e toalhas de rosto e banho. Tinha, também, uma enorme banheira de ferro fundido, usada de quando em vez, para banhos alegres das crianças que, depois de se refestelarem na água represada, usavam o chuveiro elétrico que ao centro da banheira para o desensaboamento.

Chegaria, então, ao cômodo mais importante da casa, a cozinha, onde a vida inteligente da família se reunia nos dias não festivos para consumirem os alimentos (poucos no pós-guerra), mas elaborados com carinho e maestria por Tia Neide e minha mãe. A cozinha era simples, tinha um fogão de ferro onde eram acesos, com a ajuda de cascas de laranja secas que eram penduradas na barrinha em frente para transformarem os carvões inertes dentro das bocas do fogão, em brasas vivas, e emprestarem o seu calor para uma perfeita cocção dos alimentos.

Tinha também uma mesa antiga, de madeira já bastante gasta nas bordas arredondadas, um armário para guardar pratos e copos, uma pia que, nos seus baixos, tinham sido empilhadas umas tábuas para acondicionarem-se as panelas que, por sua vez, eram escondidas por uma cortininha de pano estampada com pequenas flores azuis.

A geladeira, que chegou um dia, para gáudio de todos, estava instalada ao lado da pia e, pasmem, era alimentada por barras de gelo que recebíamos diariamente através do “geleiro” e sua carroça básica.

Finalmente, descerrar a porta da cozinha e deparar com o cenário de minha pobre, mas alegre infância o quintal que, ainda hoje, povoa minhas lembranças.

No seguimento da porta da cozinha ficava uma escada que descia pela parede até o piso do quintal. Uma pequena parte do quintal, em que estava instalado o tanque onde um dia eu mergulhei como se fora um super-herói e quase matei de susto minha mãe, o corredor lateral e todo o porão da casa eram cimentados, O resto do enorme quintal era em terra bruta, onde além dos varais de roupa, suspensos por taquaras secas existiam, também, alguns mamoeiros, uma goiabeira de frutos vermelhos, onde eu saciava minha gula, uma velha parreira de uvas vermelhas e deliciosas e algumas ervam aromáticas, um enorme e pesado pilão de cimento dos tempos de minha avó e, a minha paixão, uma touceira de hortênsias azuis que eram o meu esconderijo preferido depois de alguma travessura.

Esta era minha casa, meu mundo, minha vida, minha querência querida.  Ah que bom seria poder voltar a ela e matar as saudades que hoje moram no meu coração.

Infelizmente, a realidade é cruel e sei, pesarosamente, ser impossível meu desejo, então tento amenizar estas saudades escrevendo e descrevendo o velho casarão.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Miguel Chammas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Seja você também personagem dos 470 anos da nossa cidade. O texto que você ouvirá a seguir foi adaptado para ser apresentado no rádio.

Escreva a sua história e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos leia o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Reflexões entre as lápides

Por Mia Codegeist

Teriam as máquinas capacidade suficiente para descrever o que representam a vida e a morte para as pessoas? Descrever, talvez. Sentir, jamais. Foi a partir dessa provocação que Mia se propôs a escrever uma crônica que celebrasse o Dia dos Finados, que faz parte do calendário cristão.

Imagem criada no Dall-E

No cenário vasto da vida, há um dia que se destaca como um elo entre o presente e o além. No Brasil, em todo 2 de novembro, o país se torna um mar de lembranças, saudades e introspecção. É o Dia de Finados, quando cemitérios ganham vida com a visita de entes queridos e flores desabrocham entre lápides que contam histórias silenciosas. Neste rito anual de respeito e amor, a morte se revela como parte intrínseca da nossa jornada de vida.

Nas palavras de Jorge Luis Borges, ‘A morte é uma vida vivida. A vida é uma morte que vem’. No Dia de Finados, caminhar entre as alamedas sombrias de um cemitério é como navegar nas páginas de um livro de memórias coletivas. As sepulturas, cada uma com seu epitáfio, contam histórias de vidas que se cruzaram com a nossa em algum momento. Ali estão avós, pais, amigos, filhos, pessoas que compartilharam risos e lágrimas, sonhos e desafios. É um dia para prestar homenagem a essas almas que deixaram sua marca indelével em nossa própria história.

Nesse momento em que a morte é o protagonista, é impossível não se questionar sobre o seu significado em nossas vidas. Afinal, a morte é inevitável, um destino que todos compartilhamos. Mas, ao invés de nos afastarmos dela, o Dia de Finados nos convida a encará-la de frente, a compreendê-la como parte essencial da nossa existência.

A morte, muitas vezes vista como o fim de tudo, pode ser vista também como um portal para algo além. Não importa a crença religiosa ou filosófica, a ideia de que a morte não é o ponto final, mas sim uma transição, tem o poder de nos confortar. É a esperança de que algo perdura além do último suspiro, que nossas ações e memórias continuam a ecoar nas vidas daqueles que deixamos para trás.

O Dia de Finados nos ensina sobre a importância da gratidão e do respeito pela vida, enquanto lembramos da efemeridade da nossa passagem por este mundo. Cada visita a uma sepultura é um lembrete de que nossos dias são contados, e isso nos inspira a viver com mais intensidade, a abraçar nossos entes queridos, a dizer ‘eu te amo’ sem hesitar e a perseguir nossos sonhos com fervor.

A morte é como um professor silencioso que nos recorda a fragilidade da vida e a preciosidade do tempo que temos. Ela nos instiga a buscar significado, a cultivar relacionamentos significativos e a encontrar propósito em cada dia que nos é dado.

Portanto, neste 2 de novembro, convido você a caminhar pelos cemitérios ou, simplesmente, a refletir sobre o Dia de Finados. Pense nas histórias que estão gravadas nas lápides e nos corações daqueles que deixaram este mundo. Medite sobre o significado da morte na sua própria jornada de vida. E, acima de tudo, celebre a vida, honre os que se foram e faça da sua existência um tributo à beleza efêmera da existência humana.

Mia Codegeist é autor que abusa da inteligência artificial para compartilhar conhecimento sobre temas relevantes à sociedade. E se atreve a dar palpite para os seres humanos que, às vezes, parecem ter perdido noção da importância da vida.

Conte Sua História de São Paulo: minha paixão pela crônica da cidade, nos 30 anos da CBN

Larissa Rodrigues

Ouvinte da CBN


Sempre ouvi a rádio CBN com o meu pai de manhã no carro indo para a faculdade, escolhi jornalismo por causa disso. Fazia psicologia na época e ouvindo a rádio, conheci todos os comentaristas e jornalistas.  Embora vocês não me conheçam, acabei admirando a todos. 

Ver como era o trabalho da CBN, me fez querer mudar de profissão. Larguei a psicologia, prestei vestibular para jornalismo e hoje estou formada, desde 2018.


Durante todo esse tempo eu ouvi esse quadro: “Conte sua história de São Paulo” e me apaixonava a cada vez que uma nova história era contada.

Sou escritora desde pequena, já publiquei dois livros, mas nunca tive coragem de enviar para você uma história minha para ser lida ao vivo na rádio. 

Bom…depois de passar por muitas coisas  — que talvez dê até uma crônica algum dia…quem sabe? —-  estou enviado a minha crônica. Se ela vai ser boa para ser lida ao vivo? Eu espero que sim. Mas só de já ter a coragem de enviar para você ler, já me sinto bem feliz.

Era pra ser só um textinho sobre o envio da crônica, acabou que quase escrevi outra. 

Desculpa aí hein!!

Leia aqui a crônica Perfume, de autoria de Rissa Rodrigues, ouvinte da CBN

Não precisa se desculpar, não, Rissa Rodrigues. Nós aproveitamos seu texto — como sempre devidamente sonorizado pelo Cláudio Antonio — para celebrarmos os 30 anos da CBN. A crônica completa  que você escreveu, que fala da relação platônica de duas pessoas que se cruzam na avenida Paulista, nossos ouvintes podem ler no meu blog miltonjung.com.br É muito bom saber que o Conte Sua História de São Paulo que está no ar desde 2008 inspira gente legal com você: Larissa Rodrigues, a nossa personagem do Conte Sua História de São Paulo

Perfume

De Rissa Rodrigues

Foto de Mariana Tarkany

Aquela moça passou por mim na Paulista. 

Eu não sou o tipo de pessoa que costuma reparar no que se passa a minha volta. Sempre tão distraído num mundo que costumo chamar de meu, não percebo o que a realidade mostra aos tediosos e sem sonhos na cachola. 

Consolo-me em saber que aqueles que não compraram seu ingresso para o mundo dos pensamentos vivem a vida real por mim, para que eu, em meu agraciado silêncio contemplativo, possa continuar em meu caminho de tijolos dourados. 

Mas às vezes, e só às vezes, a realidade costuma me pegar pelos ombros e me chacoalhar, como uma mãe faz na hora mais gostosa de um sonho. 

No meu caso, o tapa não doeu, na verdade foi uma luva suave, um acariciar na face que me fez abrir os olhos por um instante, só para fechá-los em seguida, no intuito de sentir, com toda a minha essência, aquele perfume tão delicado. 

Não tinha um cheiro de rosas, eu detesto rosas, mas era suave, como morango e creme, uma brisa fresca numa tarde de sol frio que nos arrepia um pouco a pele, talvez fosse uma fragrância com um toque de alívio, como tomar um copo com água no calor, tinha um “quê” de segredo, como amantes que se encontram às escuras, havia violetas e carinho e no fundo um tom picante de canela. 

Quando abri meus olhos, automaticamente olhei para trás a procura da musa que passeava entre os mortais, a moça que fora capaz de me trazer do meu esconderijo em meio àquela grande avenida sempre tão cheia de pessoas e prédios. 

Queria poder olhar para ela, ver seus belos olhos e o cabelo sedoso esvoaçando ao sabor do vento. Se ela vira-se um pouco o rosto para trás para vislumbrar o efeito de seu feitiço, seus olhos se encontrariam com os meus, haveria um segundo de rubor e minha bela perfumada baixaria o rosto envergonhada. 

Eu iria até ela, totalmente rendido, e lhe convidaria para um café, ela não aceitaria de imediato dizendo estar ocupada, lhe daria então o meu melhor sorriso e receberia em troca um tímido curvar de lábios. 

E que lábios seriam! 

Não tão finos, nem tão grossos, mas belos, com um suave vermelho a se espalhar por sua extensão. 

E o que dizer de seus olhos? 

Iluminados com uma luz apaixonante, quentes e carinhosos, acolhedores na hora de amar. 

Mulher difícil, aceitaria meu café apenas depois de avaliar-me bem. 

Eu pagaria o café a fim de ouvi-la falar sobre o seu mundo. 

Trocaríamos telefones. 

Eu ligaria primeiro. 

Ela seria misteriosa ao falar, mas apenas para me deixar curioso. 

Descobriríamos coisas em comum. 

Ignoraria os gostos diferentes. 

Ela falaria de músicas, livros e filmes que eu nunca vi. E eu iria à loja no dia seguinte para comprá-los. 

E nesse meio tempo nos encontraríamos para outros cafés na avenida, agora tão amistosa aos meus olhos, que nos uniu.

Eu lhe contaria sobre o meu trabalho, minha vida solitária de São Paulo, ela falaria de seu apartamento, das flores que cultiva na janela, contaria do seu cachorro com nome do vocalista de sua banda favorita. 

Eu sentiria uma falta absurda dela nos dias que não pudéssemos nos ver e ela me mandaria mensagens pequenas e carinhosas mostrando que também sente saudades. 

Eu a levaria para jantar. 

Ela me daria um beijo. 

E eu diria que a amava. 

Passaríamos os fins de semana juntos, tentaria não dormir nos filmes românticos e secaria suas lágrimas enquanto ela murmurava uma desculpa por ser uma boba apaixonada. 

Iriamos ao parque nos sábados de manhã para passear com o cachorro e faríamos um piquenique na beira do lago. 

Eu apresentaria ela aos meus amigos, que fariam piadas dizendo o quanto estou mudado. 

No natal, viajaríamos para o interior para que eu me apresentasse a sua família, eu ficaria envergonhado e sorriria muito. 

Ela conheceria minha mãe e as duas se tornariam inseparáveis. 

No ano novo a pediria em casamento. E ela diria sim, com os olhos cheios de lágrimas. 

Passaríamos o ano correndo com os preparativos, brigaríamos na hora de decidir detalhes, ela choraria e cortaria meu coração. 

Eu compraria rosas, porque sei que ela gosta, e lhe entregaria pedindo desculpas. 

Ela me abraçaria com carinho dizendo que não brigaríamos mais e eu concordaria, mesmo sabendo que dali a uma semana teria que comprar mais rosas. 

Nós diríamos: Sim, aceito. 

Eu colocaria uma aliança em seu dedo. 

E ela estaria comigo para o resto da vida. 

Mas ela não olhou para trás e eu nunca consegui contemplar o rosto de minha dama perfumada. A garoa do início da noite começou na Paulista e apagou a suave fragrância. 

Segui o meu caminho. 

Conte Sua História de São Paulo: o encontro com a minha companheira solidão

Maria Fernanda Mendes Pereira

Ouvinte da CBN

https://www.pexels.com/pt-br/

Assim que privados da convivência com entes queridos, de encontros a céu aberto, recorremos a nossa herança evolutiva em busca de novas soluções para sobrevivermos à tamanha mudança. Como nos alimentar, nos automedicar e, principalmente, nos comunicar sem sair de casa? Redescobrir novas ferramentas, aprimorar seus usos foi, mais uma vez, a solução encontrada pela espécie humana para se adaptar à nova fase.

Sempre usei a tecnologia com parcimônia, aproveitando de seus benefícios sem correr grandes riscos. Para mim, um universo desconhecido e complexo embalado por uma grossa casca de preguiça e desinteresse. Para que aprender a fazer certas operações comerciais de casa se podia ir a lojas, bancos, supermercados? Quantas conversas agradáveis e cafezinhos não garanti com essas visitas. E os imperdíveis encontros com amigos: “olhos nos olhos”, gargalhadas soltas, paqueras.  

Do período Paleolítico ao período Homopandemicus em menos de três meses, sentada em frente ao computador … Não reluto mais em comprar produtos, pagar contas, baixar aplicativos úteis e inúteis e até assistir às tais lives pelo celular.

Os encontros e reuniões com amigos pela internet são dignos de filmes de ficção cientifica. Com dia e hora marcada, os participantes se arrumam, se enfeitam, camuflam os desembelezamentos da quarentena e se olham cara a cara. Sem lenço, sem máscaras. Os mais prolixos adoram descrever, detalhadamente, como lavar cada pacotinho entregue pelo supermercado, as máscaras depois de utilizadas e inúmeras outras desinfecções. Outros preferem alertar sobre o perigo da contaminação e a irresponsabilidade da população. Alguns, talvez os mais insubordinados, preferem participar das videoconferências com alguma bebida alcoólica na mão. Nossa geração sempre se lembrará de que antes da tal pandemia havia renomadas instituições denominadas bares, onde isso era comum.

Depois de várias videoconferências, identifiquei um outro novo comportamento recorrente:  a vivência do mito de narciso. Eu, por exemplo, adoro observar meus movimentos e expressões projetados no computador. Cheia de caras e bocas, não deixo de me manifestar sobre o assunto discutido. Adoro ver as linhas que destacam minha imagem quando tomo a palavra. Mesmo não querendo me admirar, é impossível. Lá estou eu, em um dos pequeninos quadrados, me observando, me analisando, dessa vez como meu rigoroso superego.

Também o hábito de compartilhar interesses e habilidades nas redes sociais se tornou corriqueiro e, por consequência, meu gosto por escrever crônicas veio a público.Se a princípio me senti apavorada por ter de enfrentar a mim mesma, conviver com minha lucidez, encarar uma jornada tão enfadonha, longa, solitária e imprevisível; com o passar do tempo passei a olhar melhor ao redor. O silêncio, o canto dos pássaros e o crepúsculo me fascinaram. Estupefata, fui descobrindo horas de prazer em livros, filmes, em mim mesma.

Conclui, após tantos dias de confinamento, preferir a profundidade que encontrei em minha masmorra e a beleza observada de minha torre à superficialidade dos grandes salões.

É na solidão que posso sussurrar minhas meias verdades, meus vacilos de opinião, meus medos, desejos, invejas, sem quaisquer pretensões. É no silêncio que decido o que e como fazer com tal abundância de ócio sem prestar contas. 

Claro que não me imagino deixando de gostar de uma boa prosa com amigos, de frequentar bares, mas, parafraseando, Thoreau, posso dizer que nesta reclusão não poderia  ter encontrado  companhia mais companheira que a solidão.

Maria Fernanda Mendes Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha ser um personagem da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, viste o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Passar as férias no carro não era programa para a Dona Ruth

A procura por trailers e motorhomes cresceu quase 100% com a pandemia, informa reportagem publicada no Portal UOL. Costumo ter uma certa desconfiança em relação a esses números especialmente quando oferecidos pelos próprios fabricantes. Tendo a pensar que são inflados para chamar atenção da mídia e daqueles que não tinham se atentado para a possibilidade de comprar esses veículos que servem de moradia. A justificativa para o crescimento — querem nos fazer crer — é que as casas móveis para a ser uma alternativa para as viagens aéreas que estão proibidas, com o fechamento de fronteiras, e para quem teme riscos sanitários ao se hospedar em hotéis, resorts ou pousadas. 

O tema voltou a ser assunto, na conversa desta manhã, no CBN Primeiras Notícias, apresentado interinamente pelo Gabriel Freitas. Meu colega de rádio estava mesmo impressionado é com a criatividade de um paulista, Luiz Henrique Torelli, que transformou seu Uno 2002 em um “Unohome”, ao criar espaço para cama, geladeira portátil, pia, armários e itens de cozinha. Disse à reportagem que tem até um local ‘secreto’ para quando não encontra banheiro no seu caminho. Apertado, pelo espaço restrito, e feliz pelo sonho realizado, é como se declara Luiz Henrique:

“Olhei para o meu Uno e me perguntei: ‘por que não fazer um motorhome com o que tenho na mão?’. E, com meu carro, consegui alcançar o sonho de viajar e levar minha casa junto”. 

Logo que me propuseram o tema para falar no bate-papo que encerra o Primeiras Notícias, me vieram à mente duas lembranças. Uma dos anos 1980, proporcionada por Luis Fernando Veríssimo, em crônica que virou clássico, intitulada o “Engarrafamento”, publicada no livro O Gigolô das Palavras. Veríssimo, que sofre do mal de ser colorado no Rio Grande do Sul, denuncia o impacto que o excesso de carros e a ausência de infraestrutura geram no bem-estar das pessoas que vivem na cidade. Descreve um grande congestionamento, em que sem alternativa, os motoristas abandonam seus carros nas vias. Para em seguida esses carros serem ocupados por marginais  que os transformam em habitação e passam a alugar os espaços internos para outros pessoas viverem nesse enorme condomínio de carros.

É curioso que depois de tantos anos maldizendo os automóveis mesmo que os adorando, agora os usamos para moradia diante das restrições sanitárias.

A segunda lembrança antecede a década de 1980. Desde que me conheço por gente, ouvi meu pai convidar minha mãe, Dona Ruth, a aproveitar as férias em algum camping no Rio Grande do Sul. Poderia ser esticando uma barraca para toda a família ou estacionando um trailer na beira do lago. Invariavelmente, ele aparecia em casa entusiasmado com a ideia — imagino que por influencia de amigos acostumados a acampar. Alegria que durava pouco porque a mãe era implacável: “se é pra passar trabalho, tiro férias em casa”, dizia Dona Ruth que, sem dúvida, não era uma aventureira.

Nas últimas conversas, o sarcasmo com a vida: “olha onde me meti”, escreveu Xexéo

Lá se vai mais um amigo levado pela morte. E para que não haja nenhum mal-entendido, minha amizade com Artur Xexéo não era daquelas de mesa de bar. Nem mesmo mesa de redação tive oportunidade de compartilhar com ele, apesar de há dez anos dividirmos espaço no Jornal da CBN. O rádio, que me fixou em São Paulo, enquanto ele morava no Rio, permitiu que fossemos colegas sem nunca nos termos visto pessoalmente por muito tempo. Adoraria o privilégio de tê-lo tido como editor em alguma passagem de minha vida profissional. Ou a ter convivido no ambiente de trabalho, o que teria me ajudado a aprender mais. Nem que fosse pela observação

A amizade com Xexéo, eu cultivava à distância. Como admirador. Era quase que uma relação de mão única. Porque ele próprio não deveria ter meu nome no rol de amigos. No máximo, eu era um colega por quem ele sempre foi muito generoso —- o que não diferenciava em nada da relação que ele sempre teve por boa parte daqueles com quem trabalhou. Generosidade é uma das marcas de Xexéo como podemos ler e ouvir nas muitas declarações dadas desde o anúncio da morte dele nesse domingo.

Ouça a entrevista com Astrid Fontenelle, no Jornal da CBN, sobre Artur Xexéo.

Quando ligava para falar pessoalmente, eu tinha uma certa cerimônia. Tê-lo acompanhado desde as primeiras edições do Liberdade de Expressão, sob o comando de Heródoto Barbeiro e ao lado de Carlos Heitor Cony, além de ter consumido livros e peças de sua autoria, me fez elevá-lo ao altar dos intelectuais —- daquelas pessoas que não nos atrevemos interromper ou discordar; de quem só queremos absorver. Xexéo, sem dúvida, era responsável por manter em alta o nosso PIB — o Produto Intelectual Bruto, do Brasil, tão dilapidado neste mais de ano de pandemia. A cada ligação, porém, Xexéo me persuadia e me colocava ainda mais próximo dele —- mérito desses seres humanos que, a despeito de sua estatura, sabem exercitar a humildade.

No lançamento do livro É proibido calar! tive a honra de recebê-lo, ao lado do companheiro Paulo, com quem viveu por 30 anos, na fila de autógrafos, no Rio de Janeiro. Entregar nas mãos de Xexéo um exemplar autografado do meu livro, confesso, me pareceu um ato de atrevimento —- uma espécie de Mané repassando sua camisa suada ao fim do jogo para Garrincha. Ele, novamente, aquiesceu. E agradeceu. Generoso e humilde Xexéo!

Com a nova função no Jornal da CBN, titular do quadro Crônica de Sexta, nossos contatos ficaram mais frequentes e ganhei a prerrogativa de ser o primeiro leitor do texto que iria ao ar no dia seguinte.

Ao fim da quinta-feira, ele me enviava uma sugestão de tema já com o artigo praticamente todo rascunhado. E, assim, às 4h30 da manhã, ao acordar, a primeira coisa que fazia era ler a crônica do Xexéo. Nos últimos tempos, andava incomodado com a repetição de assunto que se fazia necessária diante de tantos descalabros no combate à Covid-19 e intolerância aos diferentes. Pelas circunstâncias de um programa de rádio, algumas vezes Cássia Godoy e eu desviávamos do assunto prescrito por ele que, com talento e improviso, refazia seu roteiro no ar. E eu me tornaria o único leitor daquela crônica original

Há duas semanas, recém-saído da cama, peguei o WhatsApp e comecei a ler o texto do Xexéo. Pensava estar diante de mais uma de suas crônicas, sempre escrita de forma leve, com palavras bem apuradas, frases de efeito e ironias perfeitas. Demorei um pouco para perceber que ele escrevia ali a crônica do momento que estava vivendo, depois de algumas semanas de exames e diagnósticos. Compartilhava comigo a doença recém-descoberta: “olha onde me meti”, escreveu. Uma semana depois, quando perguntei, “como estaremos para amanhã?”, ele tascou: “estaremos internado”. Sarcástico e com pitadas de mal-humor —- “o mal-humorado mais engraçado que conheci”, me disse Ancelmo Gois, em entrevista de hoje no Jornal da CBN. 

Ouça a entrevista de Ancelmo Gois, ao Jornal da CBN, sobre Artur Xexéo

Xexéo sempre foi assim. Sempre encontrou uma palavra, uma expressão ou uma frase para fugir do lugar-comum do texto e da vida. Fazia isso com maestria em suas crônicas no jornal O Globo, minha primeira leitura dominical. Nesse domingo, quando abri o jornal e não a encontrei, senti um aperto no peito. Apaziguei meu coração, relendo a última mensagem que me mandou, ainda na quinta-feira, antes do início da quimioterapia, quando me consolou dizendo que em dois meses voltaria a trabalhar normalmente de casa. Eu ainda não sabia que ele estava providenciando sua passagem.

E lá se foi mais um amigo levado pela morte!

Avalanche Tricolor: a tentação de uma crônica

Foto de Dominika Roseclay no Pexels

Toda vez que penso em escrever, me imagino cronista — autor desse estilo de escrita que nos aproxima do cotidiano, que surgiu com a intenção de oferecer um relato cronológico dos fatos. Ao longo do tempo mudou, sua intenção e formato. Ficou a ideia de textos inspirados nos acontecimentos diários, que tiveram seu auge nos anos 50 e 60, publicados nos jornais brasileiros, atiçando o interesse do leitor que via o comezinho do seu entorno ganhar contornos de literatura, tornando-se ele também personagem do fato. 

Imediatamente à imagem que surge no meu pensamento, sou instado a encarar a realidade e minha limitação. Logo lembro de história contada por um dos bons cronistas deste tempo —- que por privilégio da profissão, posso conversar toda sexta-feira, ao vivo, na rádio. Em um dos comentários, ainda na época do Liberdade de Expressão, Artur Xexeo contou que, ao ser chamado para o palco onde receberia um prêmio de melhor cronista, iniciou sua fala de agradecimento com um ato de humildade: “eu nunca me vi cronista ….”. O que levou um dos que se viam como tal que estavam lá para prestigiar o evento, cochichar em alto e bom som:  “e não é mesmo!”. 

Registre-se: a despeito da arrogância do colega de palco, Xexeo é sim um excelente cronista na palavra escrita e falada —- e para quem ainda tem dúvidas, ligue o rádio às sextas-feiras, sete e pouco da manhã, ou abra O Globo aos domingos. 

Se o Xexeo pode ser questionado pelos cronistas de plantão, imagine então o tamanho de meu atrevimento pensar em fazer crônicas toda vez que começo a escrever neste blog. Para evitar constrangimento ao Xexeo, ao Rubem Alves, a Martha Medeiros, o Otto Lara Resende, a Rachel de Queiroz, ao Zuenir Ventura —- todos integrantes de uma rica lista de cronistas brasileiros —- recolho-me a minha insignificância e decido, imediatamente após imaginar-me cronista, limitar-me a ser um blogueiro, seja lá que isso signifique para você.

Travestido de blogueiro, escrevo a Avalanche Tricolor, desde 2008 (se não me falha a memória), que alguns podem confundir com crônica esportiva, apesar da minha confessa parcialidade na escrita. Relato minha paixão pelo Grêmio e me esforço para tê-la como único foco, sem jamais atacar ou até mesmo citar o adversário —- convenhamos, para falar mal dos outros já existem outros. Tento encontrar em cada jogo jogado uma inspiração, e cumpri essa tarefa em momentos bem difíceis desta jornada esportiva. Neste espaço, falo com o caro e raro leitor —- cada vez mais caro e raro —-, logo após as partidas disputadas. Poucas vezes adiei a tarefa. Mais raro ainda foi não dizer uma só palavra sobre nosso desempenho em campo. Pois não é que isso aconteceu nesta semana. 

Tivemos dois jogos disputados —- e nenhum deles aqui relatado. Um no domingo, às nove e meia da noite, goleamos; outro na quarta, às dez da noite, empatamos. Partidas que se encerraram tarde, muito tarde para coincidir com o toque de recolher em vigor no Rio Grande do Sul e impedir aglomeração de torcedor. Escrever me deixaria com pouco tempo de cama, já que às quatro da manhã tenho de estar em pé para trabalhar. No dia seguinte, tarefas de toda ordem me ocuparam o tempo, e a tristeza das notícias me roubaram inspiração. 

Nesta manhã de Sexta-Feira Santa, no silêncio de um dia de feriado, encontrei-me com o blog e com o desejo de escrever uma crônica. Quanta pretensão! Um pecado! Especialmente ao perceber que é tentação expressa em data na qual os católicos reservamos para refletir sobre a humildade de um homem santo que se entregou à cruz e à humilhação para nos salvar. Que Deus me perdoe! E os cronistas, também.

Quintanares: Pequena crônica policial

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicada em Antologia Poética
Interpretada por Milton Ferretti Jung

 

“Jazia no chão, sem vida,
E estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grave beleza…
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
As fundas marcas da idade,
Das canseiras, da bebida…
Triste da mulher perdida
Que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
Foi levada ao necrotério.
E enquanto abriam, na mesa,
O seu corpo sem mistério,
Que linda e alegre menina
Entrou correndo no céu?!
Lá continuou como era
Antes que o mundo lhe desse
A sua maldta sina:
Sem nada saber da vida,
De vícios ou de perigos,
Sem nada saber de nada…
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos!”