A gente se enche de coisas pra fazer. Não é difícil achar uma ocupação, até porque as opções na vitrine são várias – sempre tem uma informação nova, uma reunião nova, algo imperdível ou urgente na lista do dia.
A gente entra, se afoga, tenta respirar na superfície, se afoga de novo, nada mais um pouco… E assim a gente vai vivendo – vivendo?
De repente, passou a semana, não fizemos o que era importante, continuamos tristes, irritados, cansados. De repente, tem um tanto de coisa que precisa mudar pra nossa vida melhorar, mas… passou.
Quantos jeitos diferentes temos de não parar, não olhar pra dentro, não encarar o que está torto ou o que dói.
Quantas maneiras encontramos de nos ocupar – inclusive, com atividades que, aos olhos da sociedade, parecem banais (celular) ou até muito úteis e admiráveis (trabalhar, conquistar mais e mais, fazer sucesso).
Aqui, vamos pensar além da forma: Por que fazemos o que fazemos? Estamos conectados e envolvidos com nossas escolhas e ações, elas têm um fim – ou seja, um objetivo bom para nós?
Por que fazemos o que fazemos? Estamos nos ocupando de atividades e tarefas que nos mantêm distantes de ter que olhar e sentir e lidar com aquilo que é pesado, sofrido, desafiador?
Natural fugirmos do que assusta; podemos fugir vez ou outra, como uma estratégia para respirar ou suportar. O que prejudica mesmo é essa ocupação sem fim – essa ocupação que afoga, que desconecta, que não tem um fim saudável e desejável, porque é só um “tapa-buraco”.
Que buracos estamos tentando evitar? Que vazios estamos tentando preencher?
Fica o convite… Vamos, sim, nos ocupar – com uma finalidade: o de, verdadeiramente, ser e viver. Ocupação com fim.
A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Grêmio 3×1 Vitória Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS
André comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
De repente, o que parecia um destino cruel começou a se desenhar em cores mais vivas. Sorte? Astros? Ou apenas futebol jogado com alma? O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche deve se lembrar que, às vésperas do aniversário gremista, eu falava de um tal “inferno astral”. Era tanto tropeço, tanta desclassificação e tanto perrengue que nem a astrologia parecia capaz de explicar.
Pois não é que, depois da festa, vencemos um Gre-Nal nas circunstâncias que vencemos, arrancamos um ponto improvável contra o atual campeão brasileiro e agora somamos mais três, dando um salto na tabela? Obra dos céus ou da bola?
Sem nunca esquecer que somos “imortais tricolores”, prefiro deixar de lado as explicações celestes. As razões estão aqui mesmo, no gramado. Uma delas atende pelo nome de Arthur, o filho pródigo. Ao voltar para casa, trouxe talento, cadência e ordem ao nosso meio-campo. Seja recuado, ajudando a defesa, seja avançado, ditando passes no ataque, ele nos lembra que quando há qualidade, a bola sempre encontra o melhor caminho.
Outro nome que se impõe é Marcos Rocha. Líder, dono de bom passe e especialista em transformar um arremesso lateral em estratégia de ataque. Foi assim que nasceu o primeiro gol, concluído pelo jovem André Henrique.
Também pesa a experiência de Mano Menezes. Mesmo sob críticas constantes, ele observa o cotidiano dos treinos e arrisca soluções que nem sempre agradam ao torcedor. Depois do empate sofrido, foram justamente suas mudanças que nos levaram à vitória. Trouxe de volta Cristaldo e Amuzu, nomes em quem poucos ainda acreditavam. E os dois corresponderam: Cristaldo com visão de jogo, Amuzu com drible e coragem. O belga fez o segundo gol e ainda serviu Aravena para o terceiro – atacante chileno que escolhido por Mano ao perceber que André Henrique não tinha mais fôlego para permanecer em campo.
Seja pela lógica da bola ou pela magia dos céus, o torcedor voltou a sorrir. E se a tabela começa a nos mostrar caminhos para a Libertadores, que assim seja: sonhar é, afinal, parte da alma tricolor.
Comecei a trabalhar em 1991, três anos após a inauguração do Metrô Itaquera. Até então, era preciso pegar ônibus direto para a estação Tatuapé. Meu expediente começava às oito da manhã e eu precisava acordar duas horas antes para não me atrasar. A linha 3-vermelha do metrô sempre foi lotada.
Para não sucumbir às agruras do transporte público aprendi logo que eu teria de desenvolver um instinto de sobrevivência. Carregar a bolsa na frente do corpo era mandatório. Não usar sapatos que saíssem fácil dos pés era imprescindível. Pensar rápido e buscar a porta com menos aglomeração, fundamental.
Foi assim que, em um dia de superlotação, encontrei uma brecha no primeiro vagão. Entrei e fui espremida ao longo das 13 estações. Alívio para respirar melhor só na Sé, quando muita gente descia para a baldeação. Chegando ao Anhangabaú, desci do trem, subi as escadas e deparei com um lugar totalmente diferente. Desesperada, olhava e não reconhecia nada.
Enquanto desviava das pessoas que quase me atropelavam, me esforçava para identificar algum prédio familiar. Nada! Será que desci na estação errada? Não! Foi quando lembrei da orientação de uma amiga que me ensinara o caminho no primeiro dia de trabalho: “entre sempre nos últimos vagões, caso contrário sairá do lado errado da estação e vai se perder ao sair para a Sete de Abril”.
Foi como na música dos Titãs: “eu me perdi… na selva de pedra … eu me perdi”
Depois de voltas e mais voltas na região do Teatro Municipal, atravessei o Viaduto do Chá e encontrei a Líbero Badaró. Ali eu já reconhecia os prédios. Mais alguns metros e chegaria ao meu destino: a rua José Bonifácio, onde era a sede empresa em que trabalhava. Eu estava assustada, desalinhada, suada e atrasada – em pleno período de experiência… E só me dei conta disso ao bater o cartão.
Bater cartão? Antes de começar a trabalhar, essa expressão me era tão abstrata quanto possível. Era um equipamento grande de ferro com um relógio analógico, que controlava os horários da nossa vida – entrada, saída e o intervalo de almoço. Ao lado dele, em um quadro na parede, ficavam os cartões de todos os empregados. Nas primeiras vezes em que bati o meu cartão, não o encaixei no lugar certo e o carimbo da hora saiu errado. Precisei carimbar novamente, sobrepondo os números até acertar o quadradinho. Até hoje não sei como o Departamento Pessoal entendia meus horários.
Eu fazia o possível para não me atrasar. E, depois da lição aprendida, mesmo que só conseguisse entrar nos primeiros vagões do metrô, lá em Itaquera, eu cuidava para atravessar toda a plataforma da estação Anhangabaú e sair do lado certo.
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Luciana Fátima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua vivência na nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Grêmio 0x1 Mirassol Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS
Arhur comanda o meio de campo em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Sou do tempo em que Zora Yonara era a autoridade em assuntos astrológicos — hoje seria chamada de influencer zodíaca ou algo do tipo. Suas análises eram motivo de conversa nas rodas de amigos, e o melhor a se fazer era prestar atenção no horóscopo do dia, mesmo que eu fosse um descrente. Cada um adaptava o que ouvia à sua circunstância. Fui tentar esse exercício na Avalanche de hoje para explicar o que vem acontecendo com o Grêmio, que voltou a perder em casa e, nesta segunda-feira, dia 15 de setembro, completará 122 anos.
Descubro que nem a astrologia dá conta de explicar o futebol que deixamos de jogar e a sequência de azares que nos perseguem. Pensei que fosse o tal do inferno astral, mas nem isso explica. Esse período, que antecede o aniversário e costuma ser sinônimo de confusão, não daria conta de justificar 18 meses de futebol capenga e resultados inconsistentes.
A última verdadeira alegria que os gremistas tiveram foi o título do Campeonato Gaúcho, em março de 2024. Alguém lembrará da felicidade recente de assumirmos a gestão da Arena, o que já nos garantiu um gramado de qualidade. Vamos convir, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, que por melhor que isso seja — e acredito que seja —, não influenciou em nada na qualidade do futebol apresentado.
O inferno futebolístico do Grêmio atravessa um tempo que nenhuma sabedoria extraterrena poderia prever. Nesse um ano e meio, uma penca de jogadores foi contratada e já estamos no terceiro técnico. Quando nos iludimos com uma contratação, uma lesão frustra as expectativas — caso mais recente do zagueiro Balbuena. Até mesmo jogadores contestados, mas necessários, como Braithwaite, caem vítimas dessa sina de contusões.
Se conseguimos um resultado mais animador, como na rodada anterior contra o Flamengo, logo a realidade nos joga ao chão com uma derrota caseira. Hoje, tivemos de suportar até jogador sendo substituído por engano.
Adoraria estar aqui comemorando a estreia de Arthur que, claramente, tem qualidade para mudar qualquer meio de campo. Mesmo sem entrosamento, mostrou como conduzir a bola com categoria e fazer o passe com precisão. Seria capaz de contagiar seus colegas de trabalho? Já não sei mais. E chega a me dar arrepio sobrenatural imaginar que ele também possa ser abatido por algum problema físico.
Apesar de tudo, insisto em negar a falência da esperança. Tento crer que, ao comemorarmos mais um aniversário nesta segunda-feira e diante de um clássico Gre-Nal — aquele jogo que dizem poder mudar o destino de qualquer clube —, no próximo domingo, sejamos capazes de iniciar um novo e vitorioso ciclo.
No fim, esperar é o que nos resta — e esperar, para o gremista, nunca foi pouco.
Grêmio 1×1 Alianza Lima Sul-Americana – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Escrevo pouco antes de começar mais uma sessão de terapia. Retomei os encontros com a psicóloga em meio à pandemia, depois de alguns anos distante da análise. Sou adepto da ideia de que não precisamos, necessariamente, apresentar problemas aparentes para nos submetermos ao escrutínio de um profissional da mente humana. Revisões de pensamento e comportamento devem ser constantes, especialmente diante da velocidade com que o mundo se transforma ao nosso redor.
Antes que a psicóloga me chame — sim, as minhas sessões são virtuais —, decidi “pagar a conta” dessa Avalanche, que originalmente era publicada minutos após o apito final do árbitro. Era a oportunidade de enaltecer os feitos e relativizar os defeitos do Grêmio ainda na emoção da partida recém-encerrada. Desde sempre defendi a ideia de que não caberia, neste espaço, a crítica exagerada do torcedor da arquibancada, muito menos o ataque virulento a jogadores que, por ventura, não estivessem à altura da nossa camisa. Foi graças a essa intenção que fui convidado, no passado, a republicar meus textos em um blog de gremistas — perdi o espaço quando o titular do blog arrefeceu diante da incapacidade de resistir aos ataques que a polarização que vivemos provocou em sua saúde mental. Uma pena!
Há algum tempo, especialmente devido aos meus compromissos profissionais, não tenho cumprido com a proposta inicial e as Avalanches passaram a ser publicadas quando encontro espaço na agenda. Escrever logo após os jogos me ajudava a distensionar, expressando minhas emoções, nomeando meus sentimentos e buscando, sempre que possível, justificativas para o que assisti em campo — especialmente nos momentos mais difíceis do nosso time (momentos como os atuais). Era uma terapia. Mais recentemente — e isso não começou neste ano — tenho me revelado mais amargurado do que gostaria. Alguns comportamentos do clube e de seus integrantes passaram a me incomodar, e perdi em parte a ilusão que sempre me moveu.
Este ano não tem sido fácil para os torcedores gremistas. Os resultados em campo estão aquém do que buscávamos (não me atrevo a escrever “aquém do que merecemos”). Perdemos o Campeonato Gaúcho, fomos eliminados da Copa do Brasil e, agora, da Sul-Americana, que já era um consolo por não termos conseguido, no ano passado, vaga na Libertadores. Levantar a Recopa Gaúcha, convenhamos, não leva ninguém a desfilar com a bandeira na Goethe (o pessoal ainda vai para lá, caro e raro leitor?).
A persistirem os sintomas, nossas pretensões no Campeonato Brasileiro serão bastante humildes — e humildade não costumava vestir nossa camisa, considerando a alcunha de Imortal. A não ser que alguma contratação extraordinária ocorra na próxima janela de transferências, será heroico se alcançarmos vaga na pré-Libertadores. A partida de ontem à noite, na Nossa Arena (com letras maiúsculas porque agora temos estádio próprio), foi uma demonstração de que existe uma limitação técnica que nos distancia das vitórias. Claramente, o time fez um esforço brutal para alcançar o resultado que nos classificaria às oitavas de final da Sul-Americana. Difícil apontar o dedo para algum jogador que não tenha se redobrado em campo para dar a fugaz felicidade que buscávamos em uma data tão especial para a história do clube. Mesmo assim, faltaram em muitos momentos o passe apurado, o deslocamento necessário e o chute certeiro ao gol adversário. Jogar futebol tem sido uma sofrência para os nossos jogadores.
A comemorar, apenas a retomada da Arena, com uma estratégia de compra e doação que ainda causa desconfiança — principalmente entre aqueles que buscam na lógica uma explicação que só o coração de um torcedor (bilionário) é capaz de justificar. Escrevi recentemente sobre o significado da atitude do empresário Marcelo Marques e de como a ideia de sermos donos do próprio estádio mexe com as emoções de um torcedor que, desde pequeno, pulava nas arquibancadas de cimento do Olímpico. A presença de mais de 40 mil torcedores na noite de ontem, em Porto Alegre, mostrou o orgulho que temos desse momento — sentimento que é confrontado com a frustração dos resultados em campo.
Terminei a partida com a impressão de que o Grêmio tem uma torcida e tem um estádio. Precisa, agora, de um time. A partir de agora, sermos competitivos e estarmos na disputa por títulos será uma exigência não apenas porque nos acostumamos com os grandes feitos ou pela dimensão do Grêmio na história do futebol. É improvável que a engenharia financeira criada para termos a Nossa Arena se sustente diante de desempenhos pífios da equipe — o que seria uma decepção sem tamanho.
Precisamos urgentemente nos desvencilhar da armadilha que criamos ao acreditarmos na imortalidade futebolística. De que tudo se realizará por obra divina. Se algo conquistamos, mesmo em momentos dos mais árduos, é porque fizemos por merecer. Recentemente, deparei com um pensamento que compartilho com você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, extraído do excelente Imortalidades, de Eduardo Giannetti:
Crer e ser — Crer-se imortal não torna imortal; ignorar-se mortal não torna imortal. Crer-se mortal não torna mortal; ignorar-se imortal não torna mortal. Fleumático ou sanguíneo, rebelado ou reconciliado, não importa: o mesmo faz quem se crê ou ignora. O que será, será.
Depois dessa, acho melhor me preparar, porque a sessão de terapia está para começar.
Embora seja uma cidade cosmopolita, São Paulo nos surpreende com situações prosaicas, que poderiam ser bem comuns em pequenas cidades. Ao longo de meus 37 anos nesta cidade que adotei como minha, nesse caldeirão de cultura, raças, sotaques, me tornei uma observadora do cotidiano. E é justamente sobre uma cena que se repete todas as noites na minha rua que retrato nesta crônica:
Sempre, por volta de nove da noite, o caminhão dobra a esquina e entra na rua Aibi, no alto da Lapa. O barulho, inconfundível e familiar aos ouvidos dos moradores, anuncia o serviço necessário e urgente: a coleta de lixo domiciliar. Três rapazes, usando o habitual uniforme verde com faixas reflexivas, luvas e bonés, saltam do veículo, ágeis como felinos, e seguem recolhendo sacos depositados nas calçadas e lixeiras. Tudo rápido e cronometrado. E mesmo depois de horas de trabalho árduo, no sobe e desce do caminhão, encaram com bom humor e disposição a jornada que só termina na madrugada.
Mal entram na pequena rua, já se anunciam com gritos, acenos e buzinas. Toda essa festa não é para os porteiros dos prédios ou moradores que passeiam com seus cães. Não. A festa é para um público especial e fiel: crianças de olhos vivos e atentos, boquinhas falantes e sorridentes que se postam nas janelas de vários andares dos prédios, aguardando ansiosas a chegada dos amigos alegres e barulhentos – que mais parecem passistas de uma escola de samba. Os rapazes acenam e cumprimentam com um “olá, amiguinhos” e um “boa noite” seguido do nome das crianças. Elas respondem chamando um por um pelo nome: Michel, Paulo, Sérgio. Seguram com as mãozinhas firmes nas grades, estabelecem um diálogo de muitos sons, risos e falas, enchendo a rua de alegria.
O motorista do caminhão, um simpático jovem de barba ruiva, alargador na orelha, também participa da festa: diminui a velocidade, coloca o braço tatuado para fora do veículo e acena para a meninada, sorrindo e buzinando o caminhão.
No fim da rua, retornam na praça e retomam o caminho aos efusivos gritos das crianças com sonoros “tchau” e “bom trabalho”. Os rapazes respondem “boa noite” e “bons sonhos” para Paulinho, Larissa e Marina – alguns nomes que ouço enquanto assisto a esse espetáculo de humanidade da minha sacada. Passado o show, as crianças desaparecem das janelas, as luzes se apagam e o movimento da rua volta com os entregadores de aplicativos no vaivém de suas motos.
Numa noite dessas, enquanto passeava com meu cachorro, pude constatar de perto a alegria genuína dos rapazes. Perguntei se aquela festa também ocorria em outras ruas e bairros de São Paulo. Me contaram que, em algumas ruas da cidade, às vezes são recebidos por crianças acompanhadas de seus pais, com saquinhos com bala e chocolate, e que, de vez em quando, há criança pequena que cisma de dar uma volta com eles na traseira do caminhão e cai no choro quando o pai explica por que não pode.
– Mas nada se compara com a farra das crianças daqui, elas são especiais — comenta Michel, um rapaz carioca, o mais alegre de todos.
O motorista contou que Arthur, um garoto de 4 anos, certa noite estava com o avô na calçada acenando para eles estacionarem o caminhão. Seguravam uma embalagem de pizza, uma garrafa de refrigerante, frasco com álcool gel e guardanapos. Fizeram uma pausa rápida e compartilharam a refeição com o Arthur sentados na guia da calçada. E ao se despedirem, perceberam como os olhinhos do menino brilhavam de alegria.
Fiquei imaginando a cena e as expressões do menino e como o assunto tomaria conta da conversa com os amiguinhos da pré-escola. Que efeito teria causado sobre eles? Será que convenceram seus pais e avós a replicarem os gestos de gentileza com esses trabalhadores, muitas vezes invisíveis à população? O Arthur e as crianças que avisto da minha sacada têm muito a nos ensinar sobre acolhida e empatia.
Só na cidade de São Paulo, de acordo com dados da prefeitura, cerca de 3,2 mil pessoas trabalham na coleta de lixo. São 12 mil toneladas retiradas diariamente por 500 caminhões da prefeitura, percorrendo ruas e bairros – não estão incluídos nesta conta os catadores de recicláveis.
Torço para que demais trabalhadores da limpeza também recebam em outras ruas da cidade sorrisos e respeito – um pequeno alento para seguirem com disposição a rotina pesada de uma atividade tão essencial para a cidade, para a população e para o meio ambiente. Aqui, eles são celebrados como os verdadeiros reis da rua!
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Ana Maria Oliva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu text agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Empate é o tipo de resultado curioso no futebol. Você não ganha, mas também não perde. Costuma-se dizer que, fora de casa, ele tem um valor; dentro, outro. No entanto, o que realmente define seu sabor são as circunstâncias da partida. Quando seu time sai atrás — tomando três gols ainda no primeiro tempo, por exemplo — e consegue se recuperar, sai de campo como se tivesse vencido. Quando está na frente — como fez o Grêmio duas vezes nesta noite — e cede o empate ao adversário, fica sem saber bem o que comemorar.
Pensando no futuro do Grêmio na Copa Sul-Americana, empatar contra o time que briga pela liderança da chave, fora de casa, deveria ser considerado um excelente resultado. O Grêmio segue no topo da tabela, mesmo com desvantagem no saldo de gols, e disputará duas das três partidas restantes diante de sua torcida. Uma delas, provavelmente decisiva pela liderança do grupo, será contra o adversário desta noite.
Por que, então, essa dúvida que paira na cabeça do torcedor neste momento? Pelo menos na cabeça deste torcedor que escreve?
A ideia de começar a nova jornada de Mano Menezes no comando do Grêmio com uma vitória fora de casa era animadora. Renovaria a esperança depois dos tropeços no início da temporada. A vitória nos faria, mais uma vez, acreditar que os astros estariam se alinhando e o universo conspiraria a nosso favor. Tudo dependeria apenas da boa vontade dos deuses do futebol.
Infelizmente, as coisas não funcionam dessa maneira. A crença de que existe uma mística que determina o que vai acontecer nos gramados se encaixa bem no imaginário do torcedor e no romantismo dos cronistas esportivos — especialmente daqueles que sabem tratar o texto com o refinamento de um camisa 10.
O futebol, no entanto, é mais pragmático do que parece. Para vencer, é preciso mais do que vontade, raça e determinação. É necessário treinamento apurado, inteligência tática, refinamento na movimentação e posicionamento, esmero na construção das jogadas e precisão na finalização. Também é indispensável um ajuste fino na marcação para reduzir os riscos que o adversário inevitavelmente vai impor.
Mano Menezes, que reestreou na casamata gremista, não teve tempo para tudo isso. Nos poucos dias de treino, fez os ajustes possíveis. Praticamente repetiu o time do Gre-Nal. Reforçou o espírito de luta que já havia se destacado no fim de semana. E, por pouco, não saiu com êxito. Por duas vezes teve a vitória nas mãos, com os gols de Edenílson, no primeiro tempo, e Aravena, no segundo. Por duas vezes viu seu sistema defensivo falhar e ceder o empate.
A despeito de tudo que aconteceu esta noite, na Argentina, e do que vem se repetindo com o Grêmio nesta temporada, sendo tão pragmático quanto o futebol exige, o empate fora de casa, contra um adversário direto, e que ainda virá à Arena, é para ser comemorado. Mas, confesso: fiquei com um gosto amargo na boca. Porque, por instantes, provei o doce sabor da vitória.
Sou do tempo em que empate fora de casa é vitória. Mas isso faz muito tempo. Hoje, mesmo em competições sul-americanas, é de se esperar que o Grêmio se imponha diante dos adversários considerados mais frágeis. Na estreia da Copa, na noite dessa quarta-feira, contra o lanterna do campeonato paraguaio, a expectativa era dos três pontos — três pontos que vieram, mas de maneira muito mais sofrida do que se imaginava.
A fragilidade do Grêmio em marcar qualquer que seja o adversário quando atacado — a ponto de tomar um “gol de gandula” — tanto quanto a de articular a bola pelo meio de campo com pouca aproximação de seus jogadores tornaram muito mais difícil uma tarefa que deveria ter sido resolvida logo cedo. Em um dos poucos lances em que a troca de passe funcionou, conseguimos um pênalti que nos colocou à frente no placar, em precisa cobrança de Arezo.
Vale um parênteses: se tem uma notícia positiva deste Grêmio em construção é que temos bons cobradores de pênalti; aliás, temos também um grande defensor de pênaltis.
Destaque-se, ainda, que assistimos ontem ao retorno de Braithwaite. O atacante não apenas encurtou o tempo de recuperação da lesão que havia sofrido como entrou no segundo tempo e resolveu a partida com um cabeceio de dentro da área.
A vitória conquistada longe de casa, o pênalti bem executado e o retorno decisivo de Braithwaite podem parecer especialmente valiosos. Porém, o torcedor — ao menos este torcedor, caro e raro leitor desta Avalanche — esperava ver em campo um futebol mais seguro e organizado, porque precisamos pensar na sequência da temporada. Definitivamente, foi-se o tempo em que empate fora de casa era vitória.
Grêmio 2 x 1 Atlético-MG Brasileirão – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS
Edenílson comemora 2º gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Havia algo diferente no time que entrou em campo no início da noite deste sábado. Não me refiro à escalação nem ao posicionamento da defesa – que, nos primeiros 20 minutos, quase nos levou ao desastre. Não foi um toque mais refinado na bola nem uma movimentação mais bem organizada dos jogadores. Nada disso apareceu de forma evidente na estreia do Grêmio no Campeonato Brasileiro de 2025. Temos muito a melhorar.
Apesar das falhas, das carências, da dificuldade em conter o ataque adversário e da pouca articulação no meio-campo, o atual elenco gremista mostrou-me ter entendido que, antes mesmo de o talento aparecer, o torcedor espera que o time se entregue em cada jogada como se fosse a última. E essa foi uma mudança crucial.
Mesmo quando nossa marcação acumulava erros e repetia as falhas de partidas anteriores, os jogadores se esforçavam ao máximo para impedir a saída de bola do adversário. Nossos atacantes tentavam fechar espaços nem sempre com sucesso, mas com uma entrega que era perceptível. Esse comportamento também estava presente nos três volantes escalados para congestionar o meio-campo e apareceu nos jogadores de defesa à medida que eles se reposicionaram e entenderam melhor a movimentação adversária.
Sem vergonha de admitir a inferioridade técnica, o time não renunciou às faltas – recurso necessário para conter a pressão sobre nossa área. Mais de uma vez, vimos nossos ponteiros – Cristian Oliveira e Amuzu – roubando a bola na defesa. Camilo, mesmo cometendo erros ofensivos, transformava-se em um leão na marcação, ao lado de Villasanti e Edenílson. Wagner Leonardo destacou-se dentro da área.
Quando conseguimos equilibrar a partida e, minimamente, colocar a bola no chão, o Grêmio foi mais eficiente do que seu adversário. Em uma das primeiras jogadas realmente perigosas, Arezo abriu o placar. Logo depois, com um pouco de sorte, ampliamos com Edenílson.
É evidente que tudo isso só se tornou viável porque Tiago Volpi foi um gigante quando mais precisamos dele. No começo do jogo, quando parecia que tudo daria errado, nosso goleiro defendeu o possível e o impossível. Após equilibrarmos a partida, Volpi voltou a fazer defesas decisivas que garantiram a vitória. Não o incluo entre as novidades positivas deste sábado apenas porque, desde que chegou, Volpi tem sido excepcional. Seu talento não é mais uma novidade.
Para disputar o título do Campeonato Brasileiro, precisaremos de mais do que Volpi e da entrega vista em campo. Enquanto o ajuste fino não acontece pelas mãos do técnico Gustavo Quinteros, porém, que os jogadores continuem a nos fazer acreditar que merecem vestir a camisa que nos tornou Imortais.
Era uma quarta-feira à noite quando o Grêmio desperdiçou a possibilidade de conquistar, pela primeira vez, o octacampeonato gaúcho: 17 de dezembro de 1969. Empatou o Gre-Nal, sem gols, no recém-inaugurado estádio José Pinheiro Borba, apelidado Beira-Rio.
Eu era apenas um guri de calções curtos, que havia completado seis anos em agosto de 1969. Lembro pouco daquele período, mas imagino que minha infância fosse muito mais simples do que a dos guris de hoje, expostos a todo tipo de estímulos digitais e uma infinidade de informações.
A história pessoal mais marcante daquele 1969 não ficou gravada na minha memória — porém, descobri, muitos anos depois, que estava registrada no meu coração. Ela era sempre contada pelos mais velhos nas reuniões em família, acompanhada de risadas, o que me levou a acreditar que fosse apenas um desses mitos familiares transmitidos entre gerações.
Por incrível que pareça, foi somente na vida adulta, já morando em São Paulo, que os fatos relatados pelos parentes foram confirmados por um dos protagonistas: meu pai, que dispensa apresentação aos caros e raros leitores desta Avalanche.
Vamos aos fatos: a perda do octacampeonato gaúcho fez com que o lado colorado do Rio Grande do Sul entrasse em êxtase. A flauta corria solta pela cidade, e os gremistas, desacostumados com aquela situação, andavam de cabeça baixa, provocados constantemente.
Lá em casa, na Saldanha Marinho, nas vizinhanças do Olímpico, falar de futebol passou a ser um tema proibido pelo meu pai – ao menos por aqueles dias. Eis que um primo de segundo grau resolveu fazer uma brincadeira (sem graça) e, aproveitando-se da minha ingenuidade, vestiu-me com uma camisa vermelha e me fez entrar em casa, com uma bandeirola colorada nas mãos, cantarolando “Papai é o maior”, espécie de hino não oficial do coirmão. Meu pai, irritado, pegou a bandeira e me deu umas palmadas para que eu aprendesse a lição.
Foi durante uma troca de posts em um blog de gremistas, ao contar como inspirei meus dois filhos a torcerem pelo Imortal Tricolor, que meu pai me surpreendeu com um pedido público de desculpas. Ele escreveu que eu havia sido muito mais inteligente do que ele na maneira de criar dois gremistas em casa e demonstrou arrependimento pelo ocorrido.
Além de dar boas gargalhadas ao descobrir que a história familiar era verdadeira, disse ao meu pai que ele não deveria se desculpar, pois a forma desajeitada com que agiu, talvez típica da educação da época, foi justamente o que me moldou gremista. A reação dele foi meu verdadeiro batismo. Foi a lição que precisei para entender qual era o lado certo da força, e eu agradecia por ele ter me conduzido na vida de torcedor.
Aprendi com meu pai, desde aquele dezembro de 1969, que os gremistas foram feitos para o sofrimento, para a luta eterna contra o improvável, para superar adversidades; somos imortais não porque não morremos, mas porque jamais desistimos, sabendo que a derrota de hoje nos fortalecerá para as conquistas futuras.
Sim, porque foi aquele Grêmio derrotado em 1969, que amargou oito anos seguidos de frustrações regionais na sequência, que se tornou forte o bastante para ganhar o título estadual de 77 e conquistar o Brasil, a Libertadores e o Mundial nos anos 1980.
O revés do octa de 1969 foi meu batismo tricolor. Que em 2025 muitos outros gremistas nasçam desta mesma essência épica e sofrida—mas por métodos mais saudáveis. Apesar de que das palmadas que levei, felizmente só restou mesmo o amor pelo Grêmio.