Avalanche Tricolor: no Couto Pereira, o espírito do Olímpico voltou a vencer

Coritiba 0x1 Grêmio

Brasileiro — Couto Pereira, Curitiba (PR)

Torcida do Grêmio
Reprodução do canal Premier

O relógio já passava dos 90 minutos quando Amuzu recebeu a bola de Krovinović, na cobrança de escanteio, e cruzou para a área. Havia muita gente na disputa: gremistas e adversários. Em meio a todos eles, Braithwaite conseguiu se sobressair e cabecear em direção ao gol. A bola foi ao encontro das redes, embora parecesse teimar em não chegar lá. Encontrou seu destino graças à insistência e, talvez, a algum resquício de misticismo.

Nesta noite em Curitiba, apesar dos tropeços, escorregões e erros crassos, o Grêmio fez uma de suas melhores partidas na competição. Sim, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche: se você só tem contato com o futebol gremista por estas linhas que escrevo, não faz ideia do que tem sido acompanhar meu time, jogo após jogo. Havia sete partidas que não vencíamos. E, neste campeonato, ainda não tínhamos ganhado fora de casa.

Os três pontos são insuficientes para nos tirar daquela zona que você sabe qual é. Mas eram necessários para manter vivo o sonho de deixá-la para trás em algum momento deste Brasileiro. Só isso justifica a festa dos jogadores diante dos torcedores que saíram de Porto Alegre para ocupar as arquibancadas do Couto Pereira.

Ver aquele espaço tomado por gremistas, com seus trapos e faixas estendidos, nos remeteu ao passado recente, quando o estádio da capital paranaense se transformou em nossa casa durante o drama das enchentes de 2024. Nesse exercício de memória, fomos ainda mais longe. O Couto Pereira se parece com o saudoso Olímpico Monumental.

Neste momento em que nos agarramos a qualquer sinal positivo, vencer no Couto Pereira nos faz acreditar que um milagre começa a se realizar. Sei que pode ser apenas um delírio, fruto da paixão alucinada que nunca deixaremos de expressar pelo nosso time do coração. Ainda assim, quero crer que começamos a traçar uma nova trajetória, iluminados pelas lembranças de um tempo em que o cheiro do cimento das arquibancadas do Olímpico nos devolvia as forças e nos levava a conquistas impossíveis.

Escapar da degola não é impossível. Mas pode parecer um milagre para quem, há algumas rodadas, não consegue fazer uma partida bem organizada, sofre gols com frequência — apesar da excelência de seu goleiro — e tem enorme dificuldade para balançar as redes.

Não acredito em bruxas nem em milagres. Mas que eles existem, existem. Espero que o espírito conquistador do Olímpico, moldado nas arquibancadas do Couto Pereira, nos ilumine. E que a vitória desta noite seja o começo de uma nova caminhada.

Avalanche Tricolor: Grêmio, cada vez mais distante

Grêmio 2 x 4 Cruzeiro
Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Cruzeiro
Villasanti em lance de ataque Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Acordei neste domingo em João Pessoa, a ensolarada capital da Paraíba. Logo depois do almoço, peguei a estrada rumo ao interior do estado, em direção a Campina Grande, a capital mundial do São João (que nenhum vivente de Caruaru, em Pernambuco, esteja entre os caros e raros leitores desta Avalanche, ao menos hoje). Mais de três mil quilômetros me separam de Porto Alegre, onde o Grêmio jogou essa tarde. Não foram suficientes, porém, para me poupar da sofrência.

A dor que o Grêmio provoca na alma de cada torcedor não diminui com a distância. Maltrata nossa paixão tanto na Arena quanto aqui, de longe, ao vermos o time se desconstruir ao longo de uma partida que seria difícil por natureza, mas que chegou a oferecer alguma esperança de vitória.

É lamentável ver até mesmo nossos ídolos serem tragados pela mediocridade que empurra o Grêmio para a beira do precipício — e, agora, para dentro dele.

A história de Kannemann está sendo exposta. Por mais que nosso capitão lute bravamente, já não consegue impedir a derrocada. Diante desse cenário, perde o controle e acaba expulso, como aconteceu hoje. Haverá quem o culpe pelo resultado. Quem fizer isso ainda não entendeu o que está acontecendo com o Grêmio.

Estou longe do Grêmio. Mais distante ainda, porém, está o Grêmio da própria história. Até aqui, não conseguiu vencer uma só partida fora de casa. E jogar diante da torcida também não tem feito tanta diferença, como mostram os dois últimos jogos na Arena: o empate desesperado no clássico e a virada trágica deste domingo. As estatísticas ainda apontam resultados melhores em casa, mas não faz muito tempo que os adversários tinham medo de jogar na Arena.

A distância que me separa do Grêmio não me preocupa. Hoje, onde eu estiver, consigo assistir aos jogos — mesmo com o sinal ruim de internet no hotel em que estou. O que me deixa desconfortável é perceber quão longe estão os demais adversários a cada rodada do Campeonato Brasileiro.

O Grêmio, ao contrário, parece andar na direção oposta. Não é a distância entre João Pessoa e Porto Alegre que dói. É ver o time se afastar, jogo após jogo, daquilo que já foi — e daquilo que seus torcedores ainda esperam que volte a ser.

Avalanche Tricolor: Wallace se agiganta em meio ao desastre

Grêmio 1×1 Inter
Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre

Grenal 455
Wallace, a cara da coragem Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O nariz estava quebrado. O rosto, escondido por uma máscara. O lugar de Wallace era a cama de um hospital, onde deveria ter sido submetido a ma cirurgia. Ele escolheu o sacrifício em campo.

E foi em campo que se agigantou. Primeiro, na marcação: ocupou os espaços dentro da área e venceu quase todas as disputas. Depois, no ataque. Aos 27 minutos do segundo tempo, marcou o gol de empate em um dos raros lances de perigo do Grêmio neste Gre-Nal de futebol medíocre. Apareceu na pequena área para aproveitar a bola que o goleiro não conseguiu afastar e dar sobrevida ao time.

A força e o exemplo foram premiados. Wallace, de apenas 21 anos, chegou ao Tricolor no meio da temporada e, desde a primeira apresentação — ainda em um amistoso —, mostrou que tinha condições de assumir a titularidade. Este foi seu 14º jogo pelo Grêmio e seu segundo gol.

Ao fim da partida, agradeceu a Deus e citou ao microfone uma passagem bíblica que, segundo ele, lhe deu coragem para enfrentar o desafio. A fé e a raça de Wallace foram o que se salvou neste empate melancólico na Arena.

O gol evitou um desastre maior, mas o ponto conquistado não tira o Grêmio da situação constrangedora em que se encontra. Restam oito partidas, algumas contra os adversários mais difíceis do campeonato.

Dentro de campo, é difícil encontrar razões para acreditar numa recuperação. Fora dele, o cenário piora. No banco, um auxiliar técnico que acaba de sair da cadeia. No camarote da direção, gente que parece mais empenhada em seus interesses político-partidários do que no Grêmio.

Ao torcedor, resta apegar-se à fé — seja qual for a religião — e à bravura de Wallace. Ele não estará em campo na próxima partida.

Que Deus nos acuda!

PS: dito isso, fomos ‘roubados’

A travessia da angústia

Por Caio Luizetto

Imagem de @jplenio no Instagram por Pixabay

O atrito não é erro de percurso; é a própria mecânica do sistema. Se a dor é o gatilho biológico e anímico que torna a cura necessária, a angústia é a tensão estrutural que precede qualquer despertar genuíno. O problema nunca foi sentir o impacto da fratura, mas paralisar diante do diagnóstico.

A regra fundamental de operação da existência está gravada nessa modulação precisa: angustiai-vos, mas não desanimeis; irai-vos, mas não pequeis. O “mas não” é a linha exata de contenção. Não se trata de anestesiar a resposta nervosa nem de negar a força do choque exterior. O impacto chega, a pressão sobe, a noite pesa, mas a integridade do núcleo não se rende à corrosão.

O contraste é o que define a forma. Não há leitura de relevo sem sombra, assim como não há horizonte de águas tranquilas sem a travessia real do terreno acidentado. A felicidade desprovida da contraposição da angústia é apenas ruído branco, matéria oca sem tração. O vale é rota de passagem obrigatória, nunca ponto final de pouso. A promessa nunca foi a isenção de tráfego pela escuridão, mas a garantia de que a fenda tem extensão finita e saída mensurável.

Marx diagnosticou a fé como o suspiro da criatura oprimida, o ópio que anestesia a dor para perpetuar a inércia da exploração. Nietzsche foi além, denunciando a esperança metafísica como fraqueza de quem inventa um além para não suportar o peso trágico da terra. Ambos acertaram na anatomia do sedativo barato, mas erraram o alvo quando a esperança se recusa a ser fuga.

A diferença elementar reside no fato de que o ópio busca apagar a consciência para mascarar o corte, enquanto o princípio da fé opera na contramão: não dopa o homem contra a realidade, mas injeta tração na espinha para cruzar o vale sem ajoelhar diante dele. Não é a resignação dos fracos nem a negação do mundo material, mas o vetor de sustentação que mantém a estrutura de pé enquanto a têmpera é forjada no fogo.

A escuridão não é permanente nem soberana; é apenas a densidade necessária para calibrar os olhos antes que o sol quebre a linha do horizonte.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: no Dia do Gaúcho, Eurico Lara voltou

Grêmio 0x0 Palmeiras

Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre

Gremio x Palmeiras
Weverton foi gigante. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na última rodada, invocamos duas lendas para tentar salvar o Grêmio. Felipão e Renato Gaúcho estavam lado a lado, à beira do campo, carregando nas costas 22 títulos conquistados com a camisa tricolor. Nem assim escapamos da derrota.

Talvez duas lendas não sejam suficientes.

Diante de nossas carências e da situação calamitosa dos clubes gaúchos no Campeonato Brasileiro, será preciso reunir todos os espíritos que ajudaram a construir nossa história. Nesta manhã de 20 de setembro, começamos por Eurico Lara.

No Dia do Gaúcho, o goleiro imortal encorpou Weverton.

Foi ele quem segurou o adversário e impediu que o início da nova temporada de Renato Gaúcho se transformasse em mais desalento. Garantiu um ponto que parece pouco diante da nossa história, mas pode valer uma vida quando chegarmos à última rodada.

O Palmeiras chutou. Weverton defendeu.

O Palmeiras pressionou. Weverton resistiu.

Se faltou futebol ao Grêmio, não faltou goleiro.

O empate por 0 a 0 está longe do resultado que desejávamos diante da nossa torcida. Também não esconde os problemas da equipe. O Grêmio ainda encontra enorme dificuldade para transformar disposição em domínio de jogo. Renato terá muito trabalho. E pouco tempo.

Faltam dez rodadas. Dez jogos para impedir que o Imortal Tricolor seja novamente derrubado à segunda divisão. Dez oportunidades para recuperar pontos, confiança e, se possível, algum futebol. Nessa realidade, cada ponto conta. Até aquele conquistado com as unhas do goleiro.

A última defesa resumiu a partida. Ao descrever o lance, Weverton disse que era uma daquelas bolas em que o goleiro se joga sabendo do risco de quebrar um braço. Nessas horas, explicou, tudo se faz em nome de uma glória maior.

Como não pensar em Eurico Lara?

Lara deu a vida pelo Grêmio. Weverton não precisou chegar a tanto — ainda bem. Esteve disposto, porém, a colocar o próprio corpo em risco para impedir que a bola atravessasse a linha. Entre o braço que poderia quebrar e a rede que precisava permanecer intacta, escolheu o Grêmio.

A arquibancada entendeu o recado.

O torcedor compareceu à Arena disposto a empurrar o time para longe da zona-que-você-sabe-qual-é. Cantou, incentivou e acreditou. Percebeu que não estamos apenas disputando pontos. Estamos lutando pela sobrevivência.

O Dia do Gaúcho carrega símbolos de resistência, identidade e pertencimento. Neste 20 de setembro, a data encontrou o Grêmio necessitado de todas essas virtudes. Não havia lança, cavalo nem lenço ao pescoço. Havia um goleiro de luvas diante de uma bola que procurava o caminho da nossa rede. E ele não deixou passar.

Eurico Lara tornou-se verso no hino e memória permanente no coração tricolor. Neste domingo, por alguns instantes, pareceu estar novamente diante da goleira gremista.

Tinha outro rosto. Outro corpo. Outro nome.

Chamava-se Weverton.

Um empate não salva uma temporada. Apenas nos oferece mais um pouco de chão para caminharmos à beira do precipício. Hoje, esse chão foi sustentado pelos braços do goleiro.

Se duas lendas não foram suficientes na rodada passada, começamos a convocar as demais. Eurico Lara foi o primeiro a atender.

Que venham todas.

Vamos precisar.

Avalanche Tricolor: o passado no banco, a realidade em campo

Botafogo 3×2 Grêmio
Brasileiro — Nilton Santos, Rio de Janeiro

Gremio x Botafogo

Havia duas lendas no banco do Grêmio nesta noite no Rio de Janeiro.

Luiz Felipe Scolari, que conquistou alguns dos principais títulos da nossa história, entre eles o Campeonato Brasileiro e a Libertadores da América.

E Renato Portaluppi, protagonista das maiores conquistas já alcançadas pelo Grêmio, técnico mais vezes campeão pelo clube — ao lado de Oswaldo Rolla — e único a merecer, até agora, uma estátua de bronze na Arena.

Somados, Felipão e Renato conquistaram 17 títulos como treinadores do Grêmio. Acrescente mais cinco à conta de Renato como jogador, incluindo o Mundial Interclubes de 1983.

A imagem dos dois lado a lado, exatamente na semana em que o Grêmio completou 123 anos de fundação, era suficiente para acelerar o coração. A emoção tomava conta do torcedor e trazia uma tremenda saudade dos tempos em que a ideia da imortalidade se materializava nos gramados do Brasil e do mundo.

Iludidos que somos, apesar de todas as limitações que nos acompanham ao longo do ano, chegamos a imaginar que alguma energia vinda do passado contaminaria o time. Quem sabe resolveria nossos problemas, mesmo que por apenas uma noite.

O Grêmio saiu atrás no placar e conseguiu empatar ainda no primeiro tempo. Parecia o início da virada. A realidade, porém, se impôs. Permitimos que o Botafogo abrisse dois gols de vantagem e, mesmo assim, continuávamos olhando para o banco de reservas, à espera de alguma intervenção sobrenatural.

O gol milagroso até surgiu. A tecnologia, porém, impediu que ele se realizasse.

A realidade já não permite tamanho romantismo. Quando a bola começa a rolar, as limitações do elenco e a fragilidade tática ficam escancaradas. O time parece ter evoluído muito pouco desde o início da temporada. Faltam organização, segurança e capacidade de reagir sem depender de um lance fortuito ou de alguma lembrança gloriosa.

Felipão e Renato carregam uma parte fundamental da grandeza do Grêmio. Representam aquilo que fomos e tudo o que ainda desejamos voltar a ser. Só não podem entrar em campo. Nem suas histórias são capazes de marcar, organizar a defesa ou corrigir os erros de um time sem rumo.

Para escapar da situação em que estamos, será preciso muito mais do que a força mística de nossos ídolos. O passado pode inspirar, aquecer o coração e até alimentar a esperança. Quem precisa salvar o Grêmio, porém, está no presente.

E, por enquanto, o presente não está à altura da nossa história.

50 debates para o Brasil: fim das saidinhas divide opiniões sobre segurança e ressocialização

Cerca de 4% a 5% dos presos autorizados a sair temporariamente apresentam alguma irregularidade no retorno ao sistema prisional. O significado desses números e os efeitos da proibição das visitas familiares foram discutidos na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN.

Participaram do debate César Dario Mariano da Silva, procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo e professor de Direito Penal e Processual Penal, e Renato Vieira, mestre e doutor em Direito Processual Penal e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

A saída temporária foi incorporada à legislação brasileira em 1977 e organizada pela Lei de Execução Penal, de 1984. Destinava-se a presos do regime semiaberto e permitia, mediante autorização judicial, visitas à família, frequência a cursos e participação em atividades de reintegração social.

Em 2024, o Congresso derrubou vetos presidenciais e proibiu as saídas para visitas familiares e atividades de retorno ao convívio social. A legislação manteve a autorização relacionada aos estudos. O debate, portanto, é sobre preservar essa restrição ou recuperar o instrumento com novos critérios.

Evasões e riscos para a população

César Dario afirmou que trabalhou por mais de 15 anos na área de execução penal e citou um índice de evasão próximo de 4%. Segundo ele, diante da liberação de aproximadamente 30 mil presos em cada período, o percentual representava cerca de 1.200 pessoas que não retornavam.

“Se nós tivermos mais presos na rua e a grande maioria deles sem a devida fiscalização, nós teremos o aumento da prática de crime”, afirmou.

O procurador também criticou a forma ampla como o benefício era concedido e a falta de fiscalização. Sua posição, porém, não é favorável a uma proibição sem exceções. Ele defendeu a possibilidade de saída para presos sem periculosidade, condenados por crimes sem violência ou grave ameaça, com bom comportamento, exame criminológico e monitoramento eletrônico.

Para César Dario, restringir as visitas familiares não elimina a individualização da pena, porque o condenado ainda pode progredir do regime fechado para o semiaberto e, depois, para o aberto. Ele também lembrou que a pena não tem apenas a função de ressocializar, mas procura desestimular a prática de novos crimes.

Fiscalização e retorno à sociedade

Renato Vieira reconheceu que os dados oficiais indicam irregularidades no retorno de 4% a 5% dos beneficiados. Ressalvou, contudo, que esse grupo inclui presos que voltaram com atraso. Portanto, o número não pode ser apresentado automaticamente como percentual de fugitivos ou de autores de novos crimes.

Para ele, falhas de fiscalização exigem uma resposta do Estado, e não a eliminação de um instrumento destinado a pessoas que já cumprem pena no regime semiaberto e se aproximam da liberdade.

“Quando nós cassamos esse benefício, nós estamos tirando a possibilidade de uma progressão do regime como manda a Constituição, que é a individualização da pena”, afirmou.

Renato defendeu o monitoramento dos presos e lembrou que o atraso ou o descumprimento das condições da saída pode ser considerado falta grave, com a regressão para um regime mais rigoroso. Na avaliação dele, impedir o contato familiar aproxima o regime semiaberto do fechado e pode prejudicar a preparação para a liberdade.

O confronto entre os dois argumentos expõe o centro da discussão. A saída temporária precisa proteger a sociedade, prever critérios rigorosos e permitir fiscalização. Ao mesmo tempo, o sistema penal terá de decidir como preparar o preso para voltar ao convívio social. Afinal, para a maioria dos condenados, a porta da prisão um dia será aberta de forma definitiva.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Conte Sua História de São Paulo: minha trajetória de office-boy a advogado no banco

José Antonio Braz Sola

Ouvinte da CBN

Quando cursava o quarto ano ginasial, em 1970, fui avisado por meus pais de que, no ano seguinte, como filho mais velho de três irmãos, teria de começar a trabalhar de dia e estudar à noite.

Era necessário complementar o orçamento doméstico. Meu pai era comerciário e seu salário era insuficiente para o sustento da família. Mamãe era dona de casa e cuidava de mim, da minha irmã Lu e do meu irmão Nando.

Assim que terminaram as aulas, matriculei-me em um curso intensivo de datilografia, em Pinheiros, onde morávamos. Em janeiro de 1971, consegui emprego de office-boy em um banco que não existe mais, na rua Boa Vista, no Centro.

A vida era puxada. Trabalhava durante o dia e, à noite, fazia o curso de técnico em contabilidade.

Meu chefe aproveitava meus conhecimentos para alguns serviços internos, mas eu não escapava das entregas pelas ruas de São Paulo.

E não havia Google Maps. O máximo que tínhamos era o Guia Quatro Rodas ou o boca a boca.

Saía do banco com fichas telefônicas da Telesp na maleta. Se fosse necessário, ligava para meu chefe de um dos inúmeros orelhões espalhados pela cidade. Só não podia voltar sem fazer a entrega e sem o protocolo devidamente assinado pelo destinatário.

Na maioria das vezes, almoçava no refeitório do banco. Quando o serviço estava tranquilo, dava até para ir de ônibus almoçar em casa. Tínhamos duas horas de intervalo e o trânsito de São Paulo ainda não era infernal.

E, afinal, nada era comparável à comidinha da mamãe.

Na volta, descia na esquina da rua Xavier de Toledo com a Sete de Abril e passava na banca de jornal do meu amigo Gabriel. Ele me deixava folhear, de graça, A Gazeta Esportiva e o Popular da Tarde para saber as últimas notícias da nossa paixão comum: o Palmeiras.

Era o time de Dudu, Ademir da Guia, Leivinha, Leão, Luís Pereira e companhia.

Uma verdadeira Academia!

Depois, perto do Mappin, parava alguns instantes para admirar o espetáculo diário do Guarda Luizinho. Com bom humor e educação, ele orientava pedestres e motoristas. Era gentil com todo mundo e conhecia muitos office-boys pelo nome.

Nas entregas, também não resistia às lojas da rua 24 de Maio, com seus aparelhos de som de última geração expostos e ligados. Sonhava em ter um daqueles em casa para ouvir Roberto Carlos e os Beatles.

O salário não era dos melhores, mas, de vez em quando, dava para comprar uma calça Lee legítima americana numa importadora da Praça do Patriarca. Todo mundo comprava as “becas” lá, apesar do elevador velhíssimo, que às vezes parava entre um andar e outro.

Outro sonho era ganhar na Loteria Esportiva e acertar os 13 pontos.

Vira e mexe fazíamos bolões. Só conseguimos os 13 uma vez: um colega, jogando no campeonato de futebol do Sindicato dos Bancários, levou treze pontos na canela.

No curso de contabilidade, tive aulas de Noções de Direito com o advogado Belisário dos Santos Júnior. Suas aulas fizeram nascer em mim o desejo de ser advogado.

Daí em diante, sempre que passava em frente à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, dizia para mim mesmo:

— Um dia vou estudar aqui.

E estudei.

Entrei em 1977 e concluí o curso em 1981. Depois, passei a exercer a profissão em um grande banco, onde trabalhei até me aposentar.

O pouco que sou e que tenho devo ao meu esforço e ao de minha família, mas também a São Paulo.

A cidade onde comecei carregando fichas telefônicas da Telesp e protocolos dentro de uma maleta foi também a cidade onde descobri o que queria ser.

E, para terminar, parafraseio Tom Zé:

“São, São Paulo, quanta dor,

São, São Paulo, meu amor!”

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcas do Conte Sua Historia de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: o cabelo cortado por ordem do senhor Natal

Rubens Batista Rodrigues

Ouvinte da CBN

Foto: Jean depocas on Pexels.com

A profissão de office boy, na São Paulo de 1976, era ponto de partida para a carreira de muitos jovens da periferia que temiam ficar desempregados perto da época do alistamento militar.

Eu morava na Penha e todos os dias pegava o ônibus Parque Dom Pedro, onde os office boys da Zona Leste se encontravam. No centro, cada um seguia seu rumo. O meu era a rua 24 de Maio, onde ficava a Gelre, empresa em que eu trabalhava.

Vestia o uniforme da firma, um terninho um número maior do que o meu, e tênis no pé. Enfrentava filas nos bancos e me virava para dar conta de todas as tarefas. Solícito e apagador de incêndio que era, aceitava sem reclamar.

Graças a esse meu perfil, me transferiram para a avenida Paulista, para uma empresa onde nenhum garoto Gelre, como éramos chamados, queria trabalhar. Tinham medo da rispidez do chefe.

A empresa ficava no número 949, em frente ao prédio da Gazeta. Do outro lado da avenida, os estudantes do Colégio Objetivo sentavam na escadaria com seus óculos degradê, cabelos parafinados e blusão amarrado na cintura.

Eu, adolescente dos anos 1970, me apresentei na Celanese do Brasil cabeludo e com um camisão cor-de-rosa todo bordado nas costas.

Assim que pisei na empresa, me deparei com o senhor Natal, que foi logo avisando:

— A empresa recebe pessoas muito importantes e você terá que cortar o cabelo.

No segundo dia de trabalho, já com o cabelo cortado, recebi outra advertência. E uma verba para voltar ao barbeiro e cortar mais curto ainda.

Meu trabalho era percorrer a região da Paulista, Brigadeiro Luís Antônio, Consolação e Pamplona, passando nos bancos, pegando correspondências, levando malotes e enfrentando filas.

Certa vez fui entregar uma correspondência na Camargo Corrêa, na rua Funchal. Me perdi no meio da chuva e fui parar na Marginal Pinheiros, onde os carros passavam jogando barro em mim.

No dia seguinte, levei bronca do senhor Natal: o envelope chegara molhado e eu ainda o havia deixado na recepção, em vez de entregar em mãos.

A vida de office boy também tinha seu glamour. No meu aniversário e no fim do ano, o pessoal da empresa fazia vaquinha para me presentear.

Conheci gente famosa, como o ator Carlos Alberto Riccelli, que esteve na empresa na época em que interpretava Aritana, novela da TV Tupi. As secretárias não paravam de passar pela recepção para ver o galã.

Também conheci o ator João Paulo Adour, na subida da rua Pamplona. Ele me abordou para pedir uma informação. Afinal, não havia Maps nem Waze naquela época.

E teve uma despedida que ficou na memória.

Menino tímido da periferia, tremi que nem vara verde quando recebi um beijo de uma secretária lindíssima do Banco Francês e Brasileiro. Ela havia passado em um concurso para a Caixa Econômica Federal e não veria mais o “homem da Celanese”, como me chamava.

Era uma brincadeira com a propaganda da empresa, que dizia: “Chame o homem da Celanese!” e mostrava um homem voando pela janela.

Décadas depois, de certa maneira, o homem da Celanese também voou.

Fui para a área de tecnologia da informação. Na memória ficaram aquelas ruas, os malotes, as filas dos bancos, o terninho grande, o cabelo cortado por ordem do senhor Natal e as lembranças de uma São Paulo que se transformou com a tecnologia.

A mesma tecnologia que transformou o mundo do trabalho e hoje me permite trabalhar em home office.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Rubens Batista Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite meu blog, miltonjung.com.br, e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: o Grêmio é um caso de divã

Grêmio 3×1 Chapecoense

Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Chapecoense
Gustavo Martins marcou duas vezes Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio saiu atrás na partida em que enfrentava o lanterna do Campeonato Brasileiro. Permitiu ao adversário finalizar 32 vezes contra seu gol, enquanto chutou apenas 12. Precisou de Weverton para impedir que a noite se transformasse em desastre. E contou com o voluntarismo de Gustavo Martins, o zagueiro que voltou ao time para marcar duas vezes na vitória deste domingo — apesar de haver quem insista que o primeiro gol tenha sido de Enamorado.

Ganhamos por 3 a 1.

E talvez nada explique melhor o Grêmio atual do que esse contraste.

Um time que vence por dois gols de diferença e termina a partida deixando a impressão de que poderia ter perdido. Que sofre diante do lanterna, dentro de casa, e ainda assim consegue construir uma vitória que lhe dá algum alívio no Brasileiro e ânimo para o jogo mais importante da semana.

Os três pontos nos levaram aos 28 e permitiram alguns passos à frente daquela zona-que-você-sabe-qual-é. Ainda estamos distantes dos 45 pontos que, teoricamente, nos livrariam de qualquer risco maior. Ao menos deixamos para trás o arquirrival — o mesmo com quem disputaremos, na quinta-feira, uma vaga na semifinal da Copa do Brasil.

A situação do time e as circunstâncias de cada partida transformaram a vida do torcedor numa montanha-russa emocional.

Ainda no primeiro tempo, a Arena vaiava para, minutos depois, aplaudir. O gremista roía as unhas a cada ataque da Chapecoense, mesmo quando já tínhamos vantagem no placar. Desesperava-se com os erros de passe no campo defensivo, que ofereciam ao adversário oportunidades para nos atacar, e logo depois comemorava com Wallace cada corte providencial de nosso promissor zagueiro.

Weverton fazia defesas que mantinham a vantagem. Gustavo Martins, escalado para impedir gols, aparecia na área adversária para fazê-los. Pavón, tantas vezes contestado, marcou um golaço e ainda cobrou o escanteio para o terceiro. O Grêmio sofria. O Grêmio fazia sofrer. E o Grêmio vencia.

Contradições.

Quando o árbitro apitou pela última vez, a torcida fazia festa com os jogadores. A mesma torcida que havia vaiado durante a partida agora já vislumbrava a Arena cheia para o Gre-Nal decisivo de quinta-feira.

E, no meio da comemoração, uma pergunta continuava incomodando: afinal, o que Luís Castro está fazendo com esta equipe que, depois de tanto tempo, ainda parece incapaz de deslanchar técnica e taticamente?

Talvez seja justamente isso que nos desoriente.

Quando estamos prontos para desistir, o Grêmio vence. Quando começamos a acreditar, o Grêmio nos oferece 32 motivos para desconfiar. Quando parece frágil, encontra força. Quando deveria nos tranquilizar, nos atormenta.

E quinta-feira tem Gre-Nal.

O Grêmio me deixa louco.

É um caso de divã.