Avalanche Tricolor: vamos reviver a Batalha dos Aflitos

Grêmio 2×2 Cuiabá

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Alisson revive Aílton em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A Avalanche criada para ser o espaço em que expressava minha paixão tricolor enquanto o coração ainda pulsava intensamente pelas conquistas e sofrimentos alcançados nos gramados transforma-se em campo de previsões e expectativas — ao menos nesses tempos em que jogos sofridos e sofríveis se encerram tarde da noite, e a mim cabe madrugar para trabalhar.

Sem negar a origem desta coluna digital, que mantenho desde a primeira década deste século, olho adiante ainda impactado pelas cenas assistidas na noite de quarta-feira. Dos gols que tomamos em lances fortuitos aos que marcamos em meio a indignação pelo que estamos enfrentando, forjei uma esperança e desenhei uma jornada que talvez nada tenha de épica, mas que me mantém na crença de que seremos capazes de superar nossos limites, nossa mediocridades e nossas fraquezas.

Ao ver os acontecimentos da partida contra o estreante da série A que jamais venceu da gente, em lugar do desespero que encontrei atrás da máscara — daqueles que a mantiveram — de torcedores que foram à Arena, vislumbrei um horizonte azul, preto e branco, daqueles típicos dos nossos feitos.

Há quatro jogos, ouço comentaristas e amigos alardeando que se vencermos estaremos fora daquela zona-que-você-sabe-qual-é. Apesar das expectativas, é lá que nos mantemos na 24a rodada de um campeonato que tem 38 para serem disputadas. A despeito de tudo isso, consegui enxergar em cada um dos gols marcados pelo pequeno gigante Alisson e sua comemoração irada —- que me lembrou Ailton na final do Brasileiro de 1996 — sinais de que algo surpreendente está para acontecer a partir de agora. 

A cada jogo jogado, derrota somada, empate sofrido e vitória escasseada aumenta o contigente de avalistas da desgraça alheia. Uma turma que —- com a razão da performance e dos pontos desperdiçados —- vê aumentada sua descrença de que seremos capazes de sair da situação que estamos e sua expectativa de que aquela divisão-que-você-sabe-qual-é será nosso destino. 

A forma como o time se pronunciou no segundo tempo da partida de quarta, o sofrimento no rosto de cada um daqueles que estavam em campo vestindo nossa camisa tricolor e, claro, os gols e a determinação de Alisson me encheram de inexplicável esperança. Me fizeram entender de que estamos prestes a assistir à mais uma Batalha dos Aflitos. Uma batalha estendida  que não se resumirá a um jogo; a um pênalti salvo pelo goleiro ou desperdiçado pelo atacante; a sequência de expulsões que nos agigantou; ou a um gol improvável. 

Estamos diante de uma aflita batalha que será disputada até o apito final no minuto final, do jogo final deste campeonato. Que nos dará o prazer efêmero de nos mantermos na primeira divisão e a oportunidade de recomeçar uma nova e vitoriosa jornada em 2022.

Avalanche Tricolor: a melhor pior vitória de nossas vidas

Cuiabá 0x1 Grêmio

Brasileiro – Arena Pantanal, Cuiabá MT

Borja em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Pensei que eram meus olhos. Mas o olhar mais jovem de meu filho —- companheiro de todas as batalhas tricolores — confirmou o que eu via: uma imagem sem foco nem definição. As câmeras que captavam a imagem da partida do Grêmio nesta noite de quarta-feira eram de quinta. O corte das cenas também não ajudava muito. Fechava no jogador que estava na bola e nos deixava sem entender o que acontecia no campo. Abria para dar a dimensão do jogo e pouco aparecia —- apesar de que parte da responsabilidade era do próprio jogo. Os lances reproduzidos nem sempre reproduziam o que merecia ser revisto. Ou mostravam uma jogada depois ou mostravam jogada nenhuma. Novo close no jogador, mas não havia sido ele o protagonista da jogada.

O gramado também não ajudava muito. Quem resolvesse dar chutão, escorregava. Quem corria para marcar, era punido com o tornozelo torcido. Quem se esforçava para alcançar a bola, pagava caro com o músculo estendido. Não que a qualidade do passe tenha sido prejudicada pelo estado da grama de um estádio castigado pela incompetência de seus gestores e pelo clima. Aliás, esse também não ajudou muito, porque jogar bola a 36 graus em plena noite e com o bafo sufocando o pulmão é insalubre.

Pelo que percebi o passe não fluiu devido ao gramado mas porque faltou talento a quem passava, com as exceções de sempre. E Maicon é uma dessas exceções no futebol. Pena que o corpo não é mais capaz de dar a ele as condições para que seu talento siga seu curso. A despeito das limitações físicas, o pouco tempo que pode dedicar em campo foi suficiente para oferecer um passe preciso a Alisson que escapou por trás do adversário e só não concluiu a gol porque foi derrubado dentro da área. Falta que só foi punida minutos depois por um árbitro que estava a altura do jogo jogado pelas duas equipes: inseguro, impreciso e demorado. 

Foi o pênalti, marcado com irritante e incompreensível atraso, que nos permitiu assistir a um dos poucos lances de qualidade na partida. Borja cobrou a penalidade máxima com precisão e talento, sem dar qualquer chance de o goleiro alcançar a bola. Nosso novo atacante, aliás, tem se mostrado qualificado nessas cobranças. Foi assim no primeiro gol que marcou, em sua estreia. Foi assim nesta noite de futebol sofrido em Cuiabá. São Borja!

Câmera ruim, gramado péssimo, árbitro despreparado e futebol inqualificável. Perdoe-me, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, a despeito de tudo isso, adorei a vitória gremista nesta noite. Foi, sem dúvida, a maior pior vitória que já conquistamos nessas últimas temporadas.

Avalanche Tricolor: Diego Souza, o goleador

Grêmio 2×0 Cuiabá

Copa do Brasil —- Arena Grêmio

Diego Souza a caminho do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio engatou oito vitórias seguidas, dez jogos invictos, subiu na tabela do Campeonato Brasileiro e hoje se credenciou a disputar a semifinal da Copa do Brasil, mais uma vez. O melhor momento da equipe nesta temporada — na qual já foi Campeão Gaúcho e conquistou vaga às oitavas-de-final da Libertadores mesmo com um futebol irregular — passa por uma série de personagens, a começar por Renato (sim, aquele que você, torcedor ingrato, pediu a demissão), que soube como poucos ter tranquilidade para administrar toda e qualquer crise que entrou no vestiário. Jean Pyerre, renascido e talentoso, e Pepê, enlouquecido e enlouquecendo, são outros dois nomes que se destacam.

Quero, porém, hoje, dedicar esta Avalanche a um cara que muitos davam como abatido e ultrapassado: Diego Souza, o goleador. Com 35 anos, houve que não acreditasse quando o nome dele foi anunciado como novo reforço para 2020. Aproveitou bem o Campeonato Gaúcho para provar que tê-lo de volta ao time valeria a pena. Foi o artilheiro da competição com nove gols —- tendo feito o gol do título e, antes, o da vitória no clássico Gre-nal, no primeiro turno. Na Libertadores fez um e facilitou a vida de seus colegas nos demais. No Brasileiro está com cinco gols. 

Desde a retomada dos jogos, com a liberação do futebol sem torcida, Diego parecia isolado dentro da área, onde a bola raramente chegava. Esboçava alguns movimentos, mas o resultado não aparecia. Amargou uma série de partidas sem marcar, apesar de ter servido de garçom especialmente para Pepê. Os ombros caídos e os braços jogados ao longo do corpo sinalizavam o desconforto dele com sua produtividade e também com a maneira do time jogar.

Com a chegada de Churín, o Diego Gringo, houve quem apostasse que Diego, o Souza, perderia a posição de titular. Não demorou muito para ele voltar a marcar e em partidas decisivas —- como nos dois jogos destas quartas-de-final em que fez três dos quatro gols do Grêmio. Dois deles hoje: de cabeça, logo no início, e, em seguida, com os pés e com a tranquilidade do matador diante do goleiro. Diego está agora com 18 gols neste ano. 

Acreditar que foi o surgimento de um concorrente para a posição que o fez mudar de postura dentro de campo é precipitado e injusto com o time e com Diego Souza. Ele voltou a marcar não porque Churín está no banco, mas porque o time todo evoluiu após sequência de partidas com vitórias e empates sem convicção. Renato foi capaz de dar segurança a seus jogadores, teve paciência para remodelar uma equipe que sofreu perdas na temporada, seja devido a venda, a lesões ou a Covid19. O time voltou a confiar na troca de passe, com a aproximação dos jogadores, movimentação intensa, dribles e velocidade. E assim a bola voltou aos pés — e à cabeça — de Diego. E quando chega nele encontra experiência, talento e precisão; a possibilidade de parar no fundo do poço é enorme.

Avalanche Tricolor: na monarquia do futebol, o passe é o imperador e Renato …

Cuiabá 1×2 Grêmio

Copa do Brasil — Arena Pantanal, Cuiabá/MT

Jean Pyerre a caminho do gol Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

Renato é o Rei. O passe é o Imperador. E antes que alguém pense que o escrevinhador desta Avalanche aderiu à monarquia, assumo o compromisso de me ater as coisas do futebol, apesar deste jogo que tanto admiramos ser capaz de explicar o mundo —- ao menos foi o que o jornalista americano Franklin Foer me convenceu, em livro publicado em 2010.

Quanto a realeza de Renato, se alguém duvida faça uma visita à esplanada da Arena Grêmio, no bairro do Humaitá, em Porto Alegre, e veja de perto a estátua que erguemos para ele que foi o maior jogador da história gremista. E um dos técnicos mais importantes a comandar nossa equipe. Chegou a seis vitórias consecutivas neste início de noite, algo que não havia alcançado desde que reassumiu o comando gremista. Curiosamente, resultados positivos que surgem em uma temporada na qual nunca foi tão criticado nesta última jornada, iniciada em 2016, em que foi campeão da Libertadores, da Copa Brasil e várias vezes do Campeonato Gaúcho.

Por muitas vezes nesses últimos jogos, tanto a televisão quanto os indiscretos microfones ao lado do campo flagraram nosso técnico esbravejando com seus comandados, incomodado com bolas perdidas no ataque, movimentação precipitada, chutes desperdiçados, marcação folgada e permissão para o adversário nos atacar. Reclama de Ferreirinha, critica Lucas Silva, diz impropérios para Cortez, xinga quem passar pela sua frente e tenta acertar o posicionamento de seus jogadores. Ele sabe que para recuperar o futebol que nos fez campeão é preciso melhorar muito.

O Grêmio vive uma fase de transição — e já falei sobre isso em Avalanches anteriores. Sofreu com a lesão e a Covid-19 de jogadores importantes. Obrigou o técnico a mudar a forma do time jogar e abrir mão daquele futebol que encantou o Brasil. Independentemente de todos os percalços, foi campeão Gaúcho, terminou líder de sua chave de classificação na Libertadores, subiu na tabela do Brasileiro e hoje deu mais um passo importante rumo à semifinal da Copa do Brasil, mesmo fazendo seu primeiro jogo fora de casa. 

Soma-se às seis vitórias consecutivas uma série de nove jogos sem perder, mesmo com todas as dificuldades para montar o time em meio as contusões e as competições. E dos muitos méritos de Renato está a paciência em aguardar o momento certo para lançar jogadores no time titular. O maior exemplo — e aí me encaminho ao segundo tema desta Avalanche —- é Jean Pyerre que torcedores pediam em campo há algum tempo em meio a ataques ao técnico que preferia escalar um time sem articulador.

Nosso camisa 10 —- mesmo que não carregue o número às costas, ele é o 21 do time —- é um jogador especial, diferente no toque de bola, com movimentos elegantes em campo, que se diferencia dos demais pela forma como olha o jogo do alto e de cabeça em pé, enquanto dos seus pés surgem as melhores jogadas. Seu passe é preciso —- errou apenas um em todo o primeiro tempo, três em todo o jogo. Dos muitos passes certos —- este fundamento que diferencia os craques dos mortais —, colocou Cortez em condições de cruzar a bola que levou ao pênalti, que foi cobrado por ele com a precisão que tanto esperamos em uma cobrança desta importância.

Jean Pyerre tem futebol para ser titular, mas Renato não se ilude com isso. Sabia pelo que o meio de campo passava, pelas dificuldades com sua condição física e psicológica, impactadas pela doença do pai e o sofrimento da família. O jogador falou muito no intervalo da partida sobre essa condição especial e sensível que enfrentou. E está ciente de que precisa voltar aos poucos para ser o jogador que sonhamos que seja um dia —- um novo Rei da América. Ou o Imperador do Passe.