Quem lê enxerga melhor

Por Sérgio Vaz
Criador e criatura da Cooperifa

Povo lindo, povo inteligente, ontem participei de um debate na Fundação Perseu Abramo sobre circulação de livros, bibliotecas e de incentivo à literatura. Entre vários outros assuntos um em especial me chamou a atenção: o preço do livro.
Já ouvi várias autoridades conhecedoras do assunto falarem que as pessoas não leem porque o livro é muito caro, ou, que é caro porque as pessoas não leem.

Concordo que o livro é caro, mas não concordo que as pessoas não leem por conta disso, as pessoas não leem porque não gostam de ler. É caro só para quem gosta de ler. Tente vender um livro para quem não gosta de ler por R$ 5,00. Ele não vai comprar, e não importa o que você diga, e a não ser que ele compre só para te “ajudar” ele não vai nem querer saber dos seus argumentos. E isso independe da classe social.

Quem mais compra livros no país é o MEC (Ministério da Educação e Cultura), algo em torno de 50 por cento. As pessoas não leem porque faltam ações específicas do estado nas comunidades. Não leem porque não há bibliotecas nos bairros, e as poucas que existem tem um aspecto triste são frias é como se fossem cemitérios, onde livros são enterrados sem direito a velório.

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Morador de rua faz teatro em São Paulo

“O que é cidade de origem pra quem não tem mais para onde ir ?”

“O que é cidade de origem pra quem não tem mais para onde ir ?”, pergunta o escritor Sebastião Nicomedes que extrapolou o estigma de sem-teto que sempre lhe foi reservado fazendo arte, literatura e teatro. Ele é o autor do monólogo “O Homem Sem País” que estreia semana que vem em duas apresentações para professores e alunos da Uninove (na sede da Barra Funda, dia 25; e na de Santo Amaro, dia 26).

Em junho, Sebastião almeja ocupar apenas com moradores de rua a plateia diante do palco que será construído no Parque da Juventude, em São Paulo. Cartazes serão distribuídos em abrigos, repúblicas, albergues, casas de convivência e nas praças para mobilizar o que ele batiza de “atores principais”.

Nesta semana, foi destaque, também, na revista Época em reportagem assinada pela jornalista Eliana Brum:

Tião Nicomedes é escritor. E, por ser um homem sem teto fixo, inventou-se para ele o título de escritor de rua. Porque toda identidade dele se dá no lado de fora das portas, numa vivência entre aqueles que não apenas são destituídos de casa, como perderam os laços com família, emprego, contas a pagar, refeições com horários, finais de semana de lazer, tudo aquilo que constitui a identidade do homem inserido na sociedade, o homem bem ajustado. Tião estreia na próxima segunda-feira, num circuito de universidades e espaços alternativos, um monólogo que nomeou de “O homem sem país”. Logo abaixo, no cartaz do espetáculo, feito por ele em computadores de lan houses do centro, ele diz: “O que é cidade de origem pra quem não tem mais para onde ir?”.

É profunda a indagação de Tião Nicomedes. Perguntei a ele de onde veio essa pergunta. Tião responde que fica incomodado com programas para moradores de rua, assim como discursos de autoridades, que defendem a necessidade de devolver os sem-teto ao lugar de onde vieram. Mas, diz Tião, como voltar se não há mais nada lá?

Leia a reportagem acessando aqui

Deixa de bobagem, Miss tem de ser bela

O escracho ganhou novo combustível com mais uma edição do concurso Miss Brasil. Programas de humor deitaram e rolaram nas meninas que representam seus Estados. Na internet, a tentativa de uma candidata a Missa Santa Catarina responder a uma pergunta sobre a relação dos Estados Unidos com o aquecimento global está bombando.A pergunta foi tosca e mais enrolada do que as de jornalistas-convidados do Roda Viva (ops, eu já fui convidado). A moça nitidamente não entendeu o que o âncora do desfile queria saber. Ela estava muito mais preocupada em colocar a mostra todos seus dentes em meio a uma boca exageradamente marcada pelo batom vermelho. Precisava manter a coluna ereta para que o bumbum empinasse para trás enquanto os seios se apresentavam ao público. O olhar mirava o corpo de jurados freneticamente. Fora o esforço para equilibrar o penteado feito por algum cabeleireiro de plantão.

Travada, desesperada, sem perder a pose, a menina gaguejou uma, duas, três vezes até o apresentador tirar-lhe o microfone e pedir uma salva de palmas sei lá ao quê.

Inventaram anos atrás que as candidatas a Miss deveriam derrubar o estigma de que mulher bonita é burra. Burro daqueles que imaginam que isto é uma regra. Uma coisa não elimina a outra nem a outra elimina a coisa.

Nos concursos, em especial o Miss Brasil, deixaram de lado o questionário be-a-bá:

Qual o livro preferido ?
O Pequeno Príncipe.
Um ídolo ?
Jesus Cristo.
Uma mulher ?
Minha mãe.
Uma mensagem ?
Pela paz mundial.

Perguntas supostamente mais bem elaboradas passaram a ser feitas às meninas que tiveram de decorar uma série de lugares-comum para atender a expectativa dos organizadores. Ou dos chatos que assistem a estes concursos e esperam ver na passarela candidatas a uma vaga na USP. Deve ser algum fetiche.

As mães das misses, coitadas, passam a véspera do concurso obrigando as filhinhas a fazerem a lição de casa enquanto provam o vestido, acertam o cabelo, discutem a maquiagem e reclamam da dor no dedo causada pelo sapato de salto muito alto.

Das muitas asneiras que assolam o país, a tentativa de transformar aquelas belas mulheres em supostas intelectuais é apenas mais uma. Por que diabos devem saber como combater o desmatamento na Amazônia se nem o governo o sabe ? Por que raios são obrigadas a responder sobre o combate a fome se não é a carne delas que vai resolver o problema das criancinhas pobres ? Por que, diga-me Deus, queremos que entendam de economia global se sequer os economistas entenderam por que o mundo quase acabou dia desses ? Por que não exigir delas a única coisa que se espera que elas sejam: belas, formosas e volumosas ?

Fizeram do concurso de beleza uma tortura para quem concorre e para quem apenas aprecia. Um desfile de constrangimento.

OSESP, um feito e um fato

Por Carlos Magno Gibrail

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O feito – a Revista britânica Gramophone publica um ranking que coloca a Orquestra Real de Amsterdã e a Filarmônica de Berlim como as duas melhores orquestras do mundo. A surpresa quando os resultados foram publicados em dezembro 08, foi uma menção honrosa  a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). O jornal O GLOBO pergunta e responde: “O que o melhor conjunto sinfônico do Brasil compartilha com os dois melhores do mundo? Muita coisa. Por exemplo, todos têm uma boa sala de concertos como sede, uma academia para formação de seus músicos e muitos subconjuntos de câmara”.

O fato – o executivo que montou esta premiada OSESP foi demitido pelo mesmo poder que o designou para a tarefa.

Sem entrar no mérito do fato , cabe indagar como se chegou ao resultado.

Marcos Mendonça, secretário da cultura de Mario Covas, convida John Neschling em 1997 para dirigir a OSESP. Este exige poder, salários compatíveis com o mercado internacional e uma sala com acústica impecável. Mendonça, resignado e determinado dá as condições solicitadas.

De nove de julho de 1999, inauguração da Sala São Paulo, até hoje a OSESP apresentou a performance encomendada. Dos 40 espectadores de antes, 12000 assinantes, que pagam de 195 a 742 reais para a temporada sinfônica, com ingressos de 30 a 104 reais. Os 109 músicos, 48 são estrangeiros vindos  de 18 países, ganham 7800 reais  os principiantes e 14500 reais os experientes. O maestro, 100 mil reais mensais. O orçamento 60 milhões anuais, dos quais 43 vindos da Secretária de Cultura de SP.
Enquanto isso, ontem, os jornais publicaram que na educação superior houve queda nos cursos de formação de professores ( 73000 em 2006 para 70000 ) taxa de menos 4,5%.

Maria Malavasi, Unicamp, diz que “um conjunto de fatores como desprestígio,falta de respeito social e baixos salários contribui para o declínio da carreira e a baixa procura pelos cursos de magistério”. Segundo  o Simpro, o salário médio na rede particular é de 3700 reais mensais.

Além disso, houve também redução na procura aos cursos superiores. Dos 6,2 milhões de vagas, 30% estão sobrando (1,3 milhões). O que descarta a idéia, segundo Reynaldo Fernandes  do Inep de que “no Brasil todo mundo quer ser doutor”, pois tem apenas 12% dos jovens entre 18 e 24 anos na universidade, enquanto os Estados Unidos apresenta taxa de 70%.

Tudo indica que precisamos no  ensino da mesma lição da OSESP, isto é, casa apropriada, salários internacionais, secretário de estado para adequar verbas e maestro para regê-las. E vamos ao feito e não ao fato.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e toda quarta-feira se propõe a discutir temas de relevância com olhar diferenciado. É dito e feito.