Caxias do Sul: memórias e desafios na cobertura da tragédia no Rio Grande do Sul

Foto: Andréia Copini/Prefeitura de Caxias do Sul

A entrevista com o prefeito de Caxias do Sul, Adiló Didomenico, nesta manhã de segunda-feira, no Jornal da CBN, trouxe à tona memórias e emoções profundas. A cidade, ainda despertando de mais um pesadelo, teve sua área rural devastada pelas fortes chuvas e passou a madrugada sob o impacto de um tremor de terra que, segundo relato de moradores, durou cerca de meia hora.

Caxias do Sul não é apenas um ponto no mapa; é um lugar de recordações pessoais vividas quando criança, durante as férias escolares, sempre ao lado dos Ferretti. Foi lá que meu bisavô, Seu Vitaliano, viveu. Foi lá que nasceu minha avó, Ione, e para lá que ela voltou apenas para parir meu pai. Das muitas lembranças, recordo das Tias Ema e Olga, esta última residia no casarão de madeira da Nove de Julio. A avenida, famosa pelo desfile da Feira da Uva, é um símbolo de momentos felizes da minha infância.

Adolescente, retornei a Caxias para jogar basquete com os amigos do Recreio da Juventude, clube esportivo e social da cidade. Essas experiências construíram uma conexão forte e duradoura com a região, tornando a entrevista desta segunda-feira especialmente tocante.

Durante a conversa, vários sentimentos se misturaram. O prefeito lembrou que Caxias do Sul era o maior produtor de hortifrutigranjeiros do Rio Grande do Sul, e as recentes calamidades dificultaram o acesso aos centros de consumo devido aos bloqueios nas rodovias. Desde o início, áreas de risco foram evacuadas e passagens foram abertas nas regiões de deslizamento para permitir o trânsito de veículos e o transporte de mantimentos para as famílias ilhadas.

Ouça a entrevista completa com o prefeito de Caxias do Sul, Adiló Didomenico

Cobrir essa tragédia em Caxias do Sul, mesmo à distância, é um desafio que vai além do profissional, evocando lembranças de tempos passados. Cada relato faz com que eu sinta a dor da comunidade como se fosse minha, reforçando a importância de uma cobertura empática e comprometida com a verdade e a solidariedade.

Manter o equilíbrio e a frieza jornalística em momentos como esse é uma tarefa complexa. Esforço-me para imaginar o que estão sofrendo os colegas jornalistas que presenciam a tragédia no “campo de batalha”. Muitos deles gaúchos como eu. A psicologia dessa cobertura exige um controle emocional que nem sempre é fácil de alcançar. É aqui que os ensinamentos de estudiosos do jornalismo se tornam particularmente valiosos.

Philip M. Seib, em “Broadcasts from the Blitz: How Edward R. Murrow Helped Lead America into War”, discute como jornalistas precisam equilibrar empatia e profissionalismo durante a cobertura de crises. Ele ressalta a importância de preservar a objetividade enquanto se reconhece o impacto emocional das histórias que estão sendo cobertas. Isso se aplica diretamente à minha experiência ao entrevistar o prefeito de Caxias do Sul, onde cada palavra e expressão trazia à tona uma mistura de sentimentos pessoais e responsabilidades profissionais.

Para abordar a necessidade de equilíbrio emocional no jornalismo, a obra de Anthony Feinstein, “Journalists under Fire: The Psychological Hazards of Covering War”, oferece uma análise detalhada dos efeitos psicológicos que os jornalistas enfrentam ao cobrir conflitos e desastres. Feinstein destaca a importância de intervenções psicológicas e de apoio profissional para ajudar os jornalistas a lidarem com o trauma e o estresse associados a essas coberturas.

Adicionalmente, os ensinamentos de Dan Harris, jornalista e autor do livro “Dez Por Cento Mais Feliz” — que já foi referência neste blog — são especialmente úteis. Harris defende a prática da meditação como uma ferramenta para melhorar a saúde mental e emocional, lição que aprendeu duramente após sofrer “panes” enquanto apresentava telejornais nos Estados Unidos. A meditação ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade, proporcionando uma maior clareza mental e um senso de calma, fundamentais para jornalistas que cobrem crises. Incorporar essas práticas pode fazer uma diferença significativa na capacidade de manter o equilíbrio durante coberturas emocionalmente desafiadoras.

Essas referências sublinham a importância de buscar um equilíbrio psicológico durante a cobertura de tragédias. Técnicas como a respiração controlada, a meditação e o estabelecimento de limites claros entre o pessoal e o profissional são cruciais – não, infelizmente, eu não as pratico. Além disso, buscar apoio em colegas e profissionais de saúde mental, reconhecer e aceitar as próprias emoções, sem deixá-las dominar a cobertura, são passos essenciais para realizar um trabalho ético e eficaz.

Revisitar Caxias do Sul em meio a uma tragédia — e ressalto, mesmo que à distância — me trouxe à mente não apenas a responsabilidade jornalística, mas também a necessidade de cuidar de meu próprio bem-estar emocional. Assim, posso continuar a fornecer uma cobertura que não só informa, mas também honra a resiliência e a humanidade da comunidade que tanto significa para mim.

Conte Sua História de São Paulo: brincadeiras nos paralelepípedos da minha cidade

Gláucia Rosa

Ouvinte da CBN

Imagem criada no Dall-E

Nasci no Hospital Nove de Julho, na época em que meus pais moravam na Vila Mariana. Vivemos na rua Dona Avelina até os meus 5 anos de idade.

Os muros das casas eram baixos, bem como seus portões. Acreditávamos que o “velho do saco” levava, em seus enormes sacos apoiados em suas costas, crianças desobedientes. Sim, éramos constantemente ameaçados de sermos carregados pelo “velho do saco”. Mas, imagine você, aos quatro anos de vida, a menina travessa, com muita energia, corria e brincava na rua.  Rua de paralelepípedo. 

Será que os nascidos no século XXI sabem ou já pisaram numa rua assim?  Eu não só pisei como me ralei algumas vezes.

Digo sempre que estreei meus joelhos nos paralelepípedos da Vila Mariana. O primeiro tombo, inesquecível! Mesmo porque foi curado com mertiolate — o que arde, cura!. 

O progresso e as melhorias da pavimentação chegaram e, nos meus cinco anos de idade, mudamos da Vila Mariana para o Planalto Paulista. Sensacional! Ladeiras lisas. As ruas já com asfalto pareciam um escorregador. Brincávamos de pega-pega, esconde-esconde, queimada, pula-corda e os meninos mais velhos e descolados ousavam se arriscar, ladeira a baixo na “pilotagem” de um carrinho de rolimã “made in home”.

Que época interessante. Nós, crianças até a década de 1970, amávamos quando, à noite, a luz do interior de nossas casas e das ruas era, repentinamente, cortada, e não chovia. Claro, era a combinação perfeita para deixarmos de fazer nossas tarefas escolares, buscar as lanternas e correr para a rua, onde encontraríamos com nossos amigos e amigas e as brincadeiras começavam.

Nossos pais, com olhos a postos, nos vigiavam atentamente sobre os baixos muros, pois, a escuridão era algo assustador… Era mesmo?

Assim que a luz voltava, se antes das dez da noite, ok, poderíamos seguir mas, se já passasse meia hora que fosse, “stop”, parem tudo, vamos entrar e dormir. Amanhã é dia de aula e vocês têm que acordar cedo!

Esta história é uma pequena recordação de uma infância paulistana, vivenciada nas décadas de 60 e 70, que se passava, literalmente, na rua que tinha casas com portas abertas ou destrancadas. Época em que se podia encontrar cadeiras nas calçadas, sobretudo, no verão, ocupadas pelas moradoras das vizinhança, para aquele bate-papo.

Pensar que Sampa um dia já foi vivida com pouco ou quase nenhum medo nas suas ruas que, majoritariamente, eram palcos de brincadeiras e felicidade.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Glaucia Rosa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: no centro que era referência dos paulistanos

Alvaro Gullo

Ouvinte da CBN

Do alto da Catedral da Sé Foto: Mílton Jung

Se minha memória não estiver falhando, aos 85 anos, era um prazer muito agradável andar pelo centro de São Paulo. 

O passeio começava na catedral da Praça da Sé com uma caminhada em direção a rua Direita. Passava na confeitaria Vienense e chegava a Praça do Patriarca onde está a igreja de Santo Antonio.

A caminhada seguia pelo Viaduto do Chá para encontrar a loja Mappin, com seu famoso chá da tarde, no topo do prédio, bem em frente ao Teatro Municipal, onde assistíamos o que havia de melhor em espetáculos teatrais.

O percurso costumava seguir pela Barão de Itapetininga tendo como destino a Praça da República com seus lagos e chafarizes. Ficava ali o Instituto de Educação Caetano de Campos, onde estudei desde o jardim da infância, passando pelo primário e o  ginásio.

Do outro lado começavam os inúmeros cinemas. Era a Cinelândia que se estendia pela São João e arredores: Cine República, Marabá, Ipiranga, Ritz, Ópera, Marrocos, Windsor, Metrópole … por eles passamos nossa juventude no cotidiano de um centro da cidade que era referência para todos os paulistanos.

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Álvaro Gullo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Marcela Argollo prega a liderança regenerativa para transformar as organizações 

Marcela Argollo em entrevista ao Mundo Corporativo

“O modelo de negócio do futuro não é sobre lucro, é sobre propósito. Então, a partir do momento que você tem um propósito muito claro o lucro vem por consequência”.

Marcela Argollo, mentora

A figura do líder regenerativo emerge como uma força catalisadora para mudanças profundas e sustentáveis dentro das organizações. Este conceito, explorado por Marcela Argollo, professora e mentora de cultura generativa, destaca-se como um elemento crucial para o desenvolvimento de negócios que não apenas prosperam, mas também contribuem positivamente para a sociedade e o meio ambiente. 

Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, Marcela discutiu a importância de recriar a cultura empresarial com base em valores éticos e morais, apontando para o seu método “Alinhar-se” como um caminho inovador para alcançar a liderança regenerativa.

“Para que a gente possa criar e gerar um novo modelo de negócio, precisamos primeiro regenerar, renascer a nossa cultura e o nosso ser com mais ética, moral e conformidade”. 

Marcela enfatiza a necessidade de uma tomada de decisão empresarial holística e sistêmica, voltada para o bem-estar do todo, desafiando a tradicional abordagem de comando e controle em favor de uma governança que valoriza a congruência com princípios organizacionais e a expansão da consciência.

Autora do livro “A arte do equilíbrio – alinhar-se é o melhor caminho para a Liderança Regenerativa”, Marcela ressalta a transformação do conceito de compliance de um enfoque regulatório para um foco nas pessoas, propondo a educação corporativa como a chave para desenvolver indivíduos éticos e conscientes. 

“Compliance não é regulatório; compliance é sobre pessoas”

O autoconhecimento na busca do equilíbrio interno

Introduzindo o método “Alinhar-se”, Marcela oferece uma estrutura composta por 26 pilares, começando com o autoconhecimento. A professora defende que o equilíbrio interno, alcançado pela harmonia das energias feminina e masculina, reflete-se externamente, permitindo que as organizações atinjam um estado de equilíbrio que favorece a prosperidade e a abundância.  Ela também aborda a importância de enfrentar os “demônios internos”, como o medo de errar, enfatizando a necessidade de experimentação e aceitação do fracasso como parte do processo de inovação.

“Se a gente expande a consciência e a gente eleva, a gente começa a olhar com muito mais profundidade e  clareza o problema, o desafio como um todo, e a gente enxerga as oportunidades dentro de um cenário mais amplo. A partir do momento que a gente tá dentro do caos a gente não consegue enxergar nada”. 

A entrevista destaca o papel essencial da geração mais nova no mercado de trabalho, trazendo uma nova visão e exigindo mudanças nas práticas empresariais para alinhar-se com valores de propósito e sustentabilidade. Argollo conclui com um conselho para aqueles que entram no mercado de trabalho ou empreendem, enfatizando a importância das relações humanas e a adoção gradual de práticas de governança social e ambiental (ESG) para o desenvolvimento sustentável dos negócios.

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quintas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e também fica disponível em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Mundo Corporativo: Joildo Santos, da Cria Brasil, revela o potencial das favelas

Joildo Santos grava o Mundo Corporativo. Foto de Priscila Gubiotti

“Quando a gente investe em desenvolver as favelas a gente está investindo na na sociedade inteira, não é só uma questão de marketing ou de publicidade para a empresa que está envolvida”

Joildo Santos, Cria Brasil

O potencial econômico das favelas e periferias do Brasil, estimado em cerca de 200 bilhões de reais e envolvendo aproximadamente 20 milhões de pessoas, representa uma fonte significativa de oportunidades empreendedoras e de consumo. Esta revelação é de Joildo Santos, CEO da Cria Brasil, agência de comunicação dedicada às periferias. 

O Consumo Diversificado nas Favelas

Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN, Joildo destacou o papel fundamental das comunidades na economia. Ele ressaltou que, apesar dos estereótipos, os moradores das favelas consomem uma vasta gama de produtos, desafiando a visão limitada que muitas vezes é projetada sobre eles. “As pessoas consomem de tudo”, afirmou, indicando a diversidade de necessidades e interesses presentes nestas áreas.

“Só com a convivência é que a gente vai diminuir as distâncias. Eu não posso querer mudar a vida das favelas só com as favelas, só com as lideranças que estão ali. Eu preciso que a sociedade como um todo se envolva com isso. Eu preciso que os empresários vejam o potencial econômico ali; que o poder público faça intervenções que possam ajudar a população”

A trajetória da Cria Brasil, iniciada com a publicação do jornal “Espaço do Povo”, em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, em 2007, ilustra um esforço contínuo para redefinir a narrativa em torno das favelas, promovendo uma imagem mais complexa e positiva que vai além das questões de violência e calamidade frequentemente associadas a esses locais. A agência se desenvolveu ao longo dos anos, expandindo suas operações para além da comunicação comunitária, englobando a produção de conteúdo e a prestação de serviços para clientes dentro e fora das favelas. Esta evolução culminou na mudança de nome para Cria Brasil em 2020, refletindo uma visão ampliada de seu papel e alcance.

Exemplos de Empreendedorismo Transformador

Joildo criticou a representação estereotipada das favelas na mídia e na publicidade, argumentando que tais imagens não capturam a rica diversidade e o dinamismo dessas comunidades. Ele citou exemplos de inovação e empreendedorismo que surgiram das favelas, como a Favela Brasil Express, uma iniciativa de logística de última milha criada em Paraisópolis para melhorar o acesso dos moradores ao e-commerce. “Isso leva a renda para o entregador que conhece o território e também traz cidadania”, explicou, destacando o impacto positivo dessas iniciativas na vida cotidiana dos moradores das favelas.

Além de discutir os desafios enfrentados na ampliação de suas operações e na luta contra preconceitos, Joildo abordou a importância de ações sociais bem planejadas e sustentáveis pelas empresas, criticando as abordagens superficiais que buscam mais benefícios de imagem do que impactos reais nas comunidades. Ele também compartilhou ideias sobre o engajamento da Cria Brasil em projetos específicos, como a produção de conteúdo para grandes empresas, e enfatizou a necessidade de colaboração entre as favelas, o setor privado e o governo para promover mudanças sociais significativas.

A entrevista de Joildo Santos ao Mundo Corporativo oferece uma perspectiva valiosa sobre o potencial inexplorado das favelas e periferias do Brasil, desafiando as narrativas convencionais e destacando o papel crucial dessas comunidades na inovação, no empreendedorismo e no desenvolvimento econômico.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo, e em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Letícia Valente, Débora Gonçalves e Rafael Furugen. 

Conte Sua História de São Paulo: diálogos que nascem no Trianon e passeiam pela Paulista

Wagner Nobrega Gimenez

Ouvinte da CBN

Foto do perfil no Instagram de @poemesenmachine

Tarde de domingo. Caminho sozinho. Faz muito frio. 

Vou até um evento do ‘Poèmes en Machine’ no Trianon. As conversas dos passantes com os artistas geram poemas datilografados na hora. “Não somos capitalistas. Escrevemos e não cobramos!”, falam com orgulho os poetas. 

Ouço a senhora nordestina: “Nossa, nunca ninguém fez uma poesia para mim. O que eu fazia antes de me aposentar? Era costureira em uma fábrica de guarda-chuvas, lá na Penha, onde moro.” 

Saio do parque. Na Paulista, por acaso cruzo com um gaúcho conhecido. Muito alto, com cara de alemão. Está com uma garota. Baixa. Ele fala, gesticula, enquanto anda. Não consigo ouvir o que  diz. 

Na banquinha, peço bolo de bacalhau e um suco. O recolhedor de latas reclama com o outro, seu concorrente: “Vamos combinar: eu não atrapalho a sua vida e você não se mete comigo, tá bom?” 

Um rapaz, nervoso, para o outro: “agora acabou tudo, ela está grávida.” 

Sigo. As garotas lésbicas em grupo alertam: “atenção, gente, vamos tirar uma self nossa!” 

O rapaz moreno, alto, no megafone sobre o palanque de sindicato: ”… então, a solução agora é a convocação de novas eleições para Presidente. Temos aqui um abaixo-assinado…”.

Pessoas estão paradas ouvindo uma banda tocar “Light My Fire”. É da década de 1960. Recordo meus 13 anos quando namorava com a Veridiana. Uma vez, no cine Universo nos beijamos. Qual era mesmo o filme? Não lembro mais. 

O som agora é outro:  “Camon baby light my fire…”.

Cruzo a avenida. Ouço ciclistas, skatistas, caminhantes, passantes, casais hetero e homo, crianças encapotadas, passeadores com cachorros, pessoas das mais variadas. A Paulista é uma festa urbana! Mas está na hora voltar. E é o som do metrô que me acompanha até em casa, no Belenzinho.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Wagner Nobrega Gimenez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Esta história é inspirada no texto que ele enviou para contesuahistoria@cbn.com.br . A sonorização é do Daniel Mesquita. Venha participar você também e ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o reencontro com Ramos de Azevedo

Percival Tirapeli

Ouvinte da CBN

Inauguração do Monumento a Ramos de Azevedo, em 1934. Foto: Wikipedia

Os monumentos de São Paulo sempre me fascinaram. Em especial aqueles do Vale do Anhangabau. A primeira vez que passei por baixo do Viaduto do Chá foi ainda em 1958. Tinha apenas seis anos de idade. Seguia em romaria para Aparecida em um pau de arara. Da rodovia Anhanguera para a Dutra, os carros passavam pelo Vale, não havia as marginais. De um lado o Edifício Matarazzo e do outro as imensas palmeiras imperiais emoldurando o grandioso Theatro Municipal. Pouco adiante, o edifício altíssimo, o prédio Martinelli. Tudo era novidade para um menino do interior. Era a Pauliceia Desvairada de Mário de Andrade.

Seguimos para os lados da Estação da Luz, na avenida Tiradentes. Uma garoa tornava aquele edifício uma paisagem inglesa. Em frente à Pinacoteca estava o monumento em homenagem a Ramos de Azevedo. A movimentação de trens e carros era uma surpresa para mim. Um casal, muito bem-vestido, a dama com luvas, chapéu, sequer olhou para nós. Da avenida Tiradentes, recordo as grandiosas tamareiras.

Mudei para a São Paulo em janeiro de 1970. Na então Praça Roosevelt, que seria inaugurada no aniversário da capital, meus irmãos e eu fizemos nossa primeira refeição: compramos um bolo Pullman, aquele que tinha faquinha de plástico. Era o que nosso dinheiro dava para comprar.

Logo fui trabalhar como desenhista em um escritório na esquina da São João com Ipiranga. Da janela podia observar as manifestações contra a ditadura militar. Eu, para colaborar, jogava rolhas no asfalto só para ver os cavalos e militares caírem.

Fui estudar no prédio da Pinacoteca; mal sabia que depois lá atuaria por 10 anos no Educativo. Continuando os estudos, cursei a Universidade de São Paulo.

Para minha surpresa, lá estava o monumento a Ramos de Azevedo, na Cidade Universitária, aquele que eu tanto via 20 anos antes.

Decidi então pesquisar os monumentos de São Paulo e escrevi um livro sobre eles. Vieram à minha mente aqueles do Vale do Anhangabau, iluminados naquela noite das manifestações das Diretas Já, em 1984.

O Anhangabau se transformava. Antes pagava-se pedágio para passar pela propriedade do Barão de Itapetininga para se locomover do centro antigo para o novo, onde estava a Praça dos Touros, atual República. Depois, uma estrutura de ferro que passava sobre as casas das chácaras onde se plantava o chá. Em seguida veio o elegante Viaduto do Chá dando acesso ao Theatro Municipal e à loja Mappin.

O parque do Vale, desenhado pelo famoso urbanista francês Joseh Bouvard, ia desaparecendo. Fizeram o buraco do Adhemar no cruzamento com a Avenida São João. Depois o grande túnel que já desembocava defronte ao edifício dos Correios. O centro velho teve seus momentos de glória, de recuperação.

No século 21 a grande reforma foi paralisada nos tempos sombrios da Covid-19. Acompanhei a obra por meses, pois naquele período expunha minhas pinturas, sobre os monumentos da cidade, no salão de arte do prédio central dos Correios. Via entristecido que as árvores desapareciam e até esculturas eram roubadas.

Em minha memória ficava o Vale como o centro nervoso da cidade, para onde tudo confluía, como imaginara Prestes Maia. O progresso foi afundando cada vez mais o riacho do Anhangabau e os túneis ocultando de nossas vistas a bela paisagem dos edifícios ecléticos e modernos. Quando foi inaugurado o novo visual do Vale, em 2021, nada restara para comemorar. Apenas concreto e um imenso vazio, enterrando um espaço de tantas memórias.

Ouça aqui o Conte Sua História de São Paulo

Percival Tirapeli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capitulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo 470: lições de meu pai pelas ruas da cidade

Álvaro Gomes Severino

Ouvinte da CBN

Foto de Kaique Rocha

Em novembro de 1978, nasci em Jacareí, embora meus pais vivessem na capital paulista. Cresci no Ipiranga, ouvindo histórias do meu pai, um “menino de rua, sozinho no mundo”, como ele dizia. Cuja vida por São Paulo inspirou meu amor pela cidade.

Minha infância foi marcada por travessuras a caminho da escola na Praça Pinheiro da Cunha. No trajeto, andava por cima do muro mesmo sob a reprimenda de minha mãe.

Aos sete anos, iniciei a escola Teotônio Alves Pereira, lembrando sempre da tia Helenice, minha primeira professora.

Brincadeiras de rua, carrinho de rolimã e passeios de bicicleta pelo parque da independência faziam parte do meu dia-a-dia.

Na pré-adolescência, trabalhei com meu pai, entregando encomendas pela cidade, o que fortaleceu meu amor por São Paulo. Aprendi a navegar pela metrópole com um guia detalhado, antes da era do GPS. Os fins de semana eram reservados para os bailinhos, onde a moda era calça baggy, blaser com ombreiras e tênis.

Com a mudança dos meus pais para o sul de Minas nos anos 90, fiquei a 190km de São Paulo. Hoje, como marceneiro, visito a cidade frequentemente, relembrando os lugares da minha infância com carinho e nostalgia. Para mim, São Paulo não é apenas uma cidade, é o lugar que definiu minha felicidade e orgulho, a capital do meu coração.

Ouça aqui o Conte Sua História de São Paulo

Álvaro Gomes Severino é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Esse texto foi inspirado na história contada pelo Álvaro. Agora, eu quero ouvir a sua história de São Paulo. Escreva e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o novo site da CBN – cbn.com.br —, o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo 470: o Ipiranga que nos uniu

Alex Albergaria 

Ouvinte da CBN

Foto de Manoel Junior

Essa história começou em São Paulo e muitos anos depois atravessou o mundo e promoveu um encontro improvável. Nasci numa maternidade no Ipiranga e desde criança morei na região. O recém reformado Museu do Ipiranga foi parte da minha infância. Aos fins de semana, eu e meus amigos fazíamos corrida de carrinho de rolimã na descida que liga os dois extremos do parque, brincávamos de pega-pega por entre as árvores que cercam a Casa do Grito e pelos jardins de estilo francês, que sempre atraíram turistas. 

Aos 18 anos, me mudei a trabalho para o Japão. Foi onde passei a praticar snowboard. Um dia, convidado por um amigo, me juntei a um grupo para visitar a uma pista de esqui famosa a umas quatro horas de carro de onde morávamos. No grupo uma garota chamou minha atenção. Apesar de ser a primeira vez que eu a via, tive a sensação de que a conhecia. Nas conversas descobri que ela também era brasileira. Descobri que éramos de São Paulo. Havíamos morado no Ipiranga e nascidos na mesma maternidade.

O destino nos uniu no Japão. Nos casamos. E voltamos para o Brasil. Perdi a conta de quantas vezes estive com nossos três filhos no Parque da Independência: andamos de skate, jogamos bola, escorregamos nos corrimãos gigantescos de mármore, observamos os macacos e pássaros que moram na mata, ao fundo do Museu. 

Hoje, estamos novamente no Japão. As crianças já não são tão crianças. Têm uma vida bem diferente aqui em Yokohama. Mas cresceram com as memórias do parque e do museu do Ipiranga que seguem  vivas em suas mentes.

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Alex Albergaria é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Venha participar das comemorações dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br , acesse o novo site da cbn CBN.com.br, e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: memórias fotográficas do Parque da Água Branca

Dora del Mercato

Ouvinte da CBN

Foto do perfil no Instragram @aguabrancaparque

O ano era 1987. Na época, eu com 23 anos e meu namorado, hoje meu marido, com 26. Éramos estudantes da Faculdade Cásper Líbero e usávamos os fins de semana para passear, namorar e fotografar. 

Um de nossos lugares preferidos era o Parque da Água Branca, na Barra Funda. Fácil de chegar e relativamente perto de nossas residências, nos encontrávamos lá quase todos os sábados para fazer fotos com uma máquina Nikon emprestada e depois revelaríamos o filme no laboratório da faculdade.   

Foram tantas e lindas fotos! 

Dentre elas um menino que trabalhava como pipoqueiro que não devia ter mais de 10 anos; idosos pensativos sentados nos bancos; e muitos animais atravessando as alamedas. 

Aprendemos a olhar com os olhos da alma, a admirar a beleza daquelas imensas árvores e ouvir os cantos dos galos. Tantas crianças, com pedaços de pão, correndo atrás das galinhas, patos e gatos, habitantes que viviam livres no Parque! 

No mini zoológico, alguns bois, bezerros e bodes ouviam desatentos os insistentes chamados das crianças penduradas nas cercas. Caminhando em direção a rua Turiassú, sempre parávamos no Pergolado. Lá, cantos de pássaros podiam ser ouvidos, e o local nos convidava a reflexão e quietude. Podia até imaginar esse sossego quando os portões se fechavam, depois de um dia intenso de sol. Os bichos se aninhando nas gramas, nas árvores, nos cantos. Em paz, enfim! 

Andando pelo parque, no meio de tantas árvores, parecia que não estávamos em São Paulo. O Água Branca era um oásis no barulho da Avenida Francisco Matarazzo.

Caminhávamos de mãos dadas, máquina pendurada no ombro, sem sentir as subidas que faziam parte dos diversos caminhos que nos levavam para as ruas Ministro de Godói e Turiassú. Parando ora aqui, ora ali, para uma foto, um comentário, um beijo! 

Muita coisa mudou na cidade e o Parque da Água Branca acompanhou essa transformação: envelheceu e soube manter seu frescor. Como todos na cidade, teve que se adaptar aos tempos: hoje tem aparelhos para ginástica, mesas e cadeiras para o café na feira orgânica, o Revelando SP, que apresenta comidas e artesanato de várias cidades do interior de São Paulo. 

O modo de fazer fotos também mudou. Hoje, os visitantes têm celulares e não precisam economizar o filme. Saem fazendo diversos cliques e fotos de tudo o que veem, muitas vezes se esquecendo de só olhar, de registrar a lembrança na memória e de andarem de mãos dadas pelas alamedas.

O Parque continua majestoso, recebendo de braços abertos pessoas de todos os locais da cidade e do mundo.  

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