De pressão

 

ML

 

Por Maria Lucia Solla

 

Olá,

 

Você já ouviu dizer que em menos de cinco anos a depressão será a doença mais incapacitante do mundo? É projeção feita pela Organização Mundial da Saúde que também informa que mais de 350 milhões de pessoas sofrem de depressão, no mundo! (A exclamação é minha, mas pode pegá-la emprestada, se quiser.)

 

E de que tamanho é “350 milhões” de pessoas?

 

Comparando à população do Brasil – aproximadamente 203 milhões de habitantes -, mais de um Brasil e meio de gente sofrendo! Comendo o pão que o Diabo amassou com o rabo! Morrendo! E tem quem diz que é frescura, falta do que fazer, e os quetais próprios da falta de compaixão.

 

Aliás, mais um recorde vergonhoso para a nossa coleção; a maior prevalência de depressão, nos últimos 12 meses foi registrada no Brasil, A menor, no Japão.

 

Japão 2.2 X Brasil 10.4

 

Brasiuuuuuu!!!

 

Quanto a mim, estou na via de saída das teias da uma longa, bem longa depressão. A situação brota mesmo De Pressão. Sinto como se estivesse numa cabine de avião, e a Pressão do Ar, ali, ficasse oscilando feito louca. Eu, tentando achar um ritmo, ao menos para a respiração. A vida, na real, vira o Samba do Crioulo Doido! O botão do liga/desliga fica em curto, direto.

 

E não adianta dizer o que é que a gente tem que fazer, muito menos apontar o que deveria ter sido feito. Ah! os profetas do passado!

 

Estar na depressão é perder a capacidade de funcionar, de raciocinar linearmente, de agir, e menos ainda de reagir. Coerência é item de luxo. A vida fica estagnada. Vão-se as reservas. Todas! As financeiras, as da saúde, da alegria, da descontração… A pele envelhece, os olhos entristecem, e a gente adoece.

 

o que para você é chuvisco
pra mim é tempestade

 

Do lugar onde estou agora, já me dou conta de que tenho aprendido muito, e que talvez, veja bem… talvez, eu esteja começando a entender que estou cursando um intensivão que a vida me proporcionou. Fui selecionada – vinte anos em três. Poucos escolhidos. Só os fortes!

 

E se você consegue manter a amizade com alguém que está sofrendo de depressão, parabéns, você é dos fortes também!

 

compaixão sorrisos
caixa de bombons
pote de sorvete
bomba de chocolate
Coca normal
um telefonema de surpresa
um vasinho de jasmim

 

PS: E por falar em saúde, compreensão, alegria e compaixão, VIVA o AMA Paraisópolis III! Dr. Cauã, você é o máximo! Rosely, carinho na sala das inalações. Do porteiro ao doutor, vocês são os campeões! Parabéns Hospital Albert Einstein, pela qualidade. Um jardim no deserto da cidade!

 

Bom domingo a todos, boa semana, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

De ser assim

 

Por Maria Lucia Solla

 

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um dia atrás do outro
vida

 

um homem atrás do outro
bandido

 

Um trem atrás do outro
atraso

 

Um carro atrás do outro
São Paulo

 

um olhar atrás do outro
saudade

 

e eu o que faço agora?
conto gotas de chuva que choram no jardim
se você olhar para fora
vai pensar em mim?

 

ingênua por não antever
teu momento de ir embora
ou ficar de vez pra sempre
sem se preocupar com a hora

 

Faz tempo que quero escrever minha história. Completa. Sem corte. Para ninguém elogiar, mas para que eu mesma possa lembrar.

 

Será que me lembro de tudo? Serei injusta com olhares que não percebi, com palavras que deixei de ouvir e com tudo o que se eternizou em mim, nas rugas, na artéria interrompida, nas lágrimas que ainda escapam dos meus olhos, e que nem lembro de onde vieram nem o que fizeram para chegar, mas assim mesmo eu as deixo rolar.

 

Será que ainda me lembro de mim? História, na verdade, é um resto de saudade. Mas quem é que sabe, se nem eu mesma sei, enfim.

 

Vida é eterno começo para nunca mais terminar, o que me assusta e me encanta, e eu me entrego à loucura, onde não há ranger de dentes, mas um bouquet imaginário e lendário de muita ternura.

 

Um dia, quem sabe, agarro a caneta e digo tudo, do meu jeito. Mas para isso tem que ter muito peito.

 

Hoje, envolta na solidão, ameaçada pela depressão, não tenho mais medo de nada, não. Fiz o que pude, disse o que sabia e o que podia dizer, timidamente no início, no meio e no fim, porque só sei ser assim.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

 

A foto deste post é do álbum de Ana Guzzo no Flickr

De princípio da vibração

 

Por Maria Lucia Solla

 

Texto escrito originalmente em 20/11/2011

 

 

Ouça “De princípio da vibração” na voz e sonorizado pela autora

 

Ando preocupada comigo; será que estou caindo no buraco da depressão? Não tenho procurado amigos, e quando a gente não está nadando na alegria e nem em condições de entreter, o mundo se afasta de você. Ando muito mais quieta do que sempre fui, saio pouco, tenho me fechado. Basta o sol se esconder por meio dia, e eu murcho. Tudo bem que a vida anda difícil para todos os que têm que viver sozinhos e do próprio sustento. Tudo bem que os relacionamentos vão se equilibrando no tênue fio do ritmo da vida e do interesse de cada um. Tudo bem que o dia amanhece às vezes nos dando tranco sem aviso, sem preparo, e leva embora certezas que, teimosos, insistimos em manter, apegados que somos. Mas tá puxado!

 

Os estrangeiros que estudam a língua portuguesa se surpreendem com os dois verbos que traduzem o verbo to be e o verbo être. Temos ser e estar, que apontam, um para o permanente – ser, e o outro para o transitório – estar. Não sei você, mas sinto que sou cada vez menos e estou cada vez mais, o que é inevitável, me parece, pois pelo princípio da vibração nada está parado, tudo muda, tudo vibra. Além disso o filme da vida tem passado em velocidade assustadora, e tem dias que nem me lembro de mim. Tudo muda em mim o tempo todo. Muda o paladar, o ouvido musical, o modo de ver e de viver a vida, o modo de lembrar e o modo de sonhar, o modo de lembrar e de não ser lembrada. E como a memória traz sabor mais agradável que a solidão, me farto.

 

muda o tipo e a medida
do amor
da expectativa
da dor
muda tudo
sempre
dentro e fora

 

De novo, não sei você, mas às vezes me sinto um bicho acuado, e noutras uma leoa faminta. Quando a gente não toma antidepressivo – o que hoje em dia é como andar na montanha russa sem cinto de segurança – percebe a gente e o mundo, nus e crus. Como obturar um dente sem anestesia. Por outro lado há um quê de paz em mim que não existia antes. Algo como: então tá! e um quê de agressividade na medida para me defender antes de cair no buraco já que nunca falta quem tente puxar ou empurrar. Vai ver tudo isso é só uma veia criativa com tons de depressão, ou vice-versa, que tanto faz.

 

só percebo com clareza
que não caí na depressão
quando olho para a mesa de vidro
no lugar daquela de madeira
que morreu
e babo com a beleza das rosas brancas
que alçam voo do vaso
de vidro também
onde eu as arranjei

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De princípio da vibração

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De princípio da vibração” na voz e sonorizado pela autora

Ando preocupada comigo; será que estou caindo no buraco da depressão? Não tenho procurado amigos, e quando a gente não está nadando na alegria e nem em condições de entreter, o mundo se afasta de você. Ando muito mais quieta do que sempre fui, saio pouco, tenho me fechado. Basta o sol se esconder por meio dia, e eu murcho. Tudo bem que a vida anda difícil para todos os que têm que viver sozinhos e do próprio sustento. Tudo bem que os relacionamentos vão se equilibrando no tênue fio do ritmo da vida e do interesse de cada um. Tudo bem que o dia amanhece às vezes nos dando tranco sem aviso, sem preparo, e leva embora certezas que, teimosos, insistimos em manter, apegados que somos. Mas tá puxado!

Os estrangeiros que estudam a língua portuguesa se surpreendem com os dois verbos que traduzem o verbo to be e o verbo être. Temos ser e estar, que apontam, um para o permanente – ser, e o outro para o transitório – estar. Não sei você, mas sinto que sou cada vez menos e estou cada vez mais, o que é inevitável, me parece, pois pelo princípio da vibração nada está parado, tudo muda, tudo vibra. Além disso o filme da vida tem passado em velocidade assustadora, e tem dias que nem me lembro de mim. Tudo muda em mim o tempo todo. Muda o paladar, o ouvido musical, o modo de ver e de viver a vida, o modo de lembrar e o modo de sonhar, o modo de lembrar e de não ser lembrada. E como a memória traz sabor mais agradável que a solidão, me farto.

muda o tipo e a medida
do amor
da expectativa
da dor
muda tudo
sempre
dentro e fora

De novo, não sei você, mas às vezes me sinto um bicho acuado, e noutras uma leoa faminta. Quando a gente não toma antidepressivo – o que hoje em dia é como andar na montanha russa sem cinto de segurança – percebe a gente e o mundo, nus e crus. Como obturar um dente sem anestesia. Por outro lado há um quê de paz em mim que não existia antes. Algo como: então tá! e um quê de agressividade na medida para me defender antes de cair no buraco já que nunca falta quem tente puxar ou empurrar. Vai ver tudo isso é só uma veia criativa com tons de depressão, ou vice-versa, que tanto faz.

só percebo com clareza
que não caí na depressão
quando olho para a mesa de vidro
no lugar daquela de madeira
que morreu
e babo com a beleza das rosas brancas
que alçam voo do vaso
de vidro também
onde eu as arranjei

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung