50 debates para o Brasil: porte de armas coloca em confronto defesa pessoal e segurança coletiva

Ampliar o número de pessoas autorizadas a circular armadas pode aumentar a capacidade de defesa individual, mas também traz a discussão sobre os riscos de colocar mais armas em circulação. O tema, sempre polêmico, foi debatido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN. Nós convidamos para participar da discussão o coronel André Batista, especialista em Segurança Pública e ex-comandante do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, e André Zanetic, doutor em Ciência Política e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A lei brasileira diferencia posse e porte. A posse permite manter uma arma legalmente registrada em casa ou no local de trabalho. O porte, mais restrito, autoriza o cidadão a circular armado e depende do cumprimento de requisitos e de autorização da Polícia Federal.

Para o coronel André Batista, pessoas legalmente habilitadas devem ter a possibilidade de portar armas para defesa pessoal. Ele argumenta que a Constituição estabelece a segurança como dever do Estado, mas isso não significa que o poder público consiga proteger todas as pessoas permanentemente, especialmente em áreas dominadas pelo crime.

“O cidadão que vive nessas áreas não tem o Estado para protegê-lo 100% do tempo e não tem direito a se proteger”, afirmou. Para Batista, negar a possibilidade de defesa nessas circunstâncias compromete o próprio direito à vida.

André Zanetic reconhece que uma arma pode ser usada com sucesso para defesa pessoal. Sua divergência está na transformação dessa decisão individual em política pública. Segundo ele, é preciso avaliar o efeito produzido quando milhares ou milhões de pessoas passam a circular armadas.

“A gente pode tomar uma decisão pensando na própria proteção, mas uma política pública tem que sempre perguntar qual é o efeito dessa decisão quando ela é aplicada para milhares ou para milhões de pessoas”, disse.

Zanetic cita situações cotidianas em que a presença da arma pode aumentar a letalidade de um conflito. Em um roubo, por exemplo, uma reação armada da vítima pode transformar um crime contra o patrimônio em um episódio com mortes. Por isso, defende critérios rigorosos e fiscalização eficaz.

Para sustentar sua posição em favor de maior flexibilidade para o porte de armas, Batista lembrou o referendo de 2005, quando mais de 63% dos eleitores rejeitaram a proibição da comercialização de armas de fogo e munição. Também ressaltou que defender o porte não significa apoiar acesso indiscriminado. Para ele, treinamento e capacitação devem fazer parte das exigências impostas aos cidadãos.

Zanetic concentrou sua preocupação em outra etapa: o que acontece com uma arma depois que ela entra legalmente em circulação. Segundo ele, parte do armamento adquirido de maneira regular pode ser desviada para a ilegalidade, em um país que ainda apresenta dificuldades de controle e fiscalização.

A divergência, portanto, não se limita ao direito de possuir uma arma. Batista enfatiza a possibilidade de autodefesa diante das limitações do Estado. Zanetic chama a atenção para o efeito coletivo da maior circulação de armamentos. Entre a proteção individual e o risco social está a pergunta que permanece aberta: mais cidadãos armados significam mais segurança?

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Menos armas na mão e na direção

 

Por Milton Ferretti Jung

Li ,nas últimas semanas,  duas notícias que me chamaram especial atenção, ambas tratando de assuntos rio-grandenses. Que me desculpem os leitores de outros estados se pareço puxar brasa para o meu assado. Creio que os assuntos, embora tratem de questões locais, possam interessar, de alguma forma ,a quem me acompanhar. A primeira dessas notícias dá conta de que o Rio Grande do Sul lidera a adesão à Campanha Nacional do Desarmamento. Os números são alvissareiros. Garantem que um de cada 4 mil gaúchos entregou armas entre os meses de maio e setembro. Os paulistas, por exemplo, tiveram contribuição menor: um por 7,7 mil. Para o estado, que era um dos mais apegados às armas no país, é uma melhora considerável, com certeza. É claro que algumas alterações no Estatuto do Desarmamento, favoreceram a mudança de atitude do povo gaúcho. Os pontos de coleta aumentaram, não é mais necessário que a arma tenha registro ou número de identificação, o proprietário pode permanecer no anonimato e quem se dispõe a ficar desarmado recebe, ainda por cima, entre R$100 e R$300 por arma recolhida. Assalta-me, porém, uma dúvida crucial. As pessoas de bem (ou do bem, como se diz hoje em dia) concordam como desarmamento. As do mal, principalemnte aquelas que lidam com drogas, bem pelo contrário, enriquecem os seus arsenais com armamento pesado. Terão as autoridades, ditas competentes, capacidade para impedir que os bandidos se reforcem com armas dos mais diversos e poderosos calibres? Esta dúvida, evidentemente, já foi exposta por muita gente boa…e preocupada.

E chego à segunda boa notícia, esta bem mais recente, porque publicada nessa  terça-feira, mas  sem chamada na capa do jornal que a divulgou, embora merecesse. A Polícia Rodoviária Federal, diante do crescimento dos acidentes na estradas e vias urbanas gaúchas, principalmente nos malditos feriados prolongados, apelidados bestamente de “feriadões”, começou a se valer da tecnologia para aumentar a vigilância sobre os motoristas. A BR-116, com trânsito pesado nos 36 quilômetros que separam Porto Alegre de Novo Hamburgo, passou a ter vigilância total por meio de 24 câmeras e quatro viaturas  equipadas com geradores de imagens. Trata-se da Central de Controle Operacional (CCO), colocada na confluência das BRs 290 e 116. Não preciso dizer que, com este equipamento de alta qualidade técnica, não haverá pontos cegos no trajeto. Os maus motoristas, abundantes no Rio Grande do Sul, que se preparem. O trecho fiscalizado custou R$2 milhões de reais. Por enquanto, portanto, é pequeno. Que a PF faça dele, porém, bom proveito. Talvez, graças ao CCO, o número de acidentes, muitos fatais, se torne consideravelmente menor.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).