Crime sem castigo

 

Como meu editor, da Contexto, sempre foi caridoso em permitir a reprodução de seus artigos aqui no blog, hoje tomei a liberdade de compartilhar seu pensamento sem antes ter-lhe pedido autorização. Que Deus me perdoe por esse pecado. Se não, que você me absolva deste crime, Jaime, porque estou longe de ser um dos poderosos protegidos pela justiça!

 

Por Jaime Pinsky

 

Teve um tempo em que acreditei na Justiça. Ou melhor, nas justiças, na dos homens e na divina. Parecia-me razoável que cada pecado cometido fosse devidamente punido. Que cada desobediência implicasse algum castigo. Claro que isso me custou muito sofrimento. Aquele dia em que me isolei no quarto alegando necessidade de estudar e fiquei jogando botão (quem nem botão era, mas plásticos rijos que cobriam relógios de pulso) a tarde toda, e no dia seguinte me saí muito mal na prova de latim… O outro em que briguei com um colega de escola, rolei com ele na terra aos socos e pontapés, entrei quietinho em casa, me lavei, joguei a camisa rasgada e encardida no cesto de roupa suja e fui almoçar sem contar nada aos meus pais (desta vez não tive muita sorte, o olho roxo e as escoriações no joelho me traíram miseravelmente). Os castigos me pareceram razoáveis: uma semana passa depressa, embora eu adorasse jogar bolinha de gude com a turma da Vila Gagliardi, rua sem saída, nosso empoeirado parque e praça esportiva improvisada.

A vida, à época, fazia sentido: a cada pecado, uma punição. Uma das coisas que eu fazia, esporadicamente, era dar uns sopapos no meu irmão “do meio” (éramos três meninos) sempre que ele, sob qualquer pretexto, agredia o caçula. Quando eu me entusiasmava nos sopapos e o chorão abria o berreiro, o cinto do meu pai fazia o papel de juiz, entrava na contenda e meu traseiro ganhava algumas faixas avermelhadas. Meu pai averiguava, julgava e aplicava o castigo, sem delongas. Já o castigo divino… Desse eu tinha mais medo, mas devo reconhecer, por outro lado, e à distância, que era bem menos eficiente. Eu me lembro até hoje da vez que fiquei um tempão tentando espiar uma freguesa, quando ela provava blusas na loja do meu pai. A moça ficou muito tempo experimentando cores, modelos e tamanhos diferentes, enquanto eu, nos meus heroicos nove anos, rondava a porta do provador improvisado. Um pirralho como eu certamente não representava ameaça alguma ao pudor dela… Mesmo assim, e mesmo não tendo tido nenhum sucesso na minha precoce atividade de voyeur, eu sabia que havia pecado. Talvez o sexto mandamento, ou outro qualquer, mas alguma lei de Deus. Esperei conformado o castigo, ficando em troca apenas com o azul-claro do enorme sutiã que vislumbrara. Mas o castigo nunca veio. Bem diferente de um colega de colégio, que ao confessar ao padre a prática da masturbação, foi aconselhado a se autopunir para ficar limpo. O resultado da queimadura que J.B. provocou em si próprio o acompanhou até sua morte precoce.

Já adulto me dei conta de que a Justiça tem cor, sexo e leva em conta fatores que, anteriormente, nunca imaginei que pudessem influenciar na decisão de quem julga. Algumas pessoas são julgadas logo, outras nunca. Alguns têm ótimos defensores em todas as numerosas instâncias, outros mal conseguem defensores razoáveis e se dão mal por erros técnicos, esquecimento de prazos legais para apresentar a defesa, má vontade dos cartórios e até dos próprios juízes. A lei, embora nominalmente coloque todos os cidadãos no mesmo patamar de direitos e obrigações, é muito mais generosa com uma parte da população, os que têm poder. Um complexo e lento sistema de defesa composto de numerosas etapas tem a função de protelar qualquer julgamento definitivo e respectiva punição. Recursos infindáveis, muito bem apresentados por equipes afiadas, lideradas por advogados muito hábeis, fazem com que o medo de punição não atemorize criminosos conhecidos. E, se algum juiz do andar de baixo comete a “irresponsabilidade” de sugerir prisão a um figurão, corre o risco de cair  em desgraça. Não importa o que diz a constituição sobre igualdade de direitos. Temos uma cultura estabelecida e ai de quem ousar questioná-la.

Uma amiga, promotora em São Paulo, me disse uma vez que a justiça de classe no Brasil nunca permitiria que tivéssemos um verdadeiro país de cidadãos. Ela tinha razão. Olhamos os iguais, ou supostos iguais, de modo distinto do que fazemos com pessoas “diferentes”, seja por sua origem social, cor da pele, religião, grau de instrução, tipo de roupa que usam. Isso é uma flagrante violação à letra e ao espírito da Constituição Brasileira, à  democracia e à cidadania. Deixar o tempo passar para que os crimes prescrevam, colocar ricos em prisão domiciliar, mesmo quando cometeram crimes horríveis, enquanto abandonamos  dezenas de milhares de pobres presos sem julgamento, é comum por aqui.
 
Aos iguais tudo, aos demais a força da lei.

 

Jaime PinskyHistoriador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto
 

“A tempestade passa, pode nos encharcar, mas passa”

 

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Foto: Pixabay

 

Chegou em minhas mãos, nesse fim de semana, presente de uma amiga querida, o livro “Dentro de mim — reflexões sobre autoconhecimento, amorosidade e transformação interior” (Intervidas). Foi escrito por José Carlos de Lucca, juiz de direito, dedicado a prática do espiritismo e um dos fundadores do Grupo Espírita Esperança.

 

Com texto claro, escrito de forma direta e iluminado, não precisei de muitas horas para avançar de um capítulo ao outro. Ainda não cheguei ao fim. O farei, com certeza, nos próximos dias. Faço, agora, um intervalo na leitura, porém, para dividir com você o que encontrei logo no início de “Dentro de mim”. De Lucca escreve texto com o título “Vai Passar’. É de 2019 e traz ensinamentos para todos nós que atravessamos com tristeza este 2020.

 

No artigo, há a reprodução do trecho de um texto de outro autor, Caio Fernando Abreu—- este bem mais próximo de mim, por jornalista e conterrâneo que é, e por ter marcado toda nossa geração com seus artigos que tratavam de temas até então não-convencionais, tais como sexo, medo e solitude. Caio morreu jovem, com 47 anos, em 1996.

 

Atrevo-me a publicar a seguir parte do primeiro capítulo de “Dentro de mim”, sem pedir licença ao autor, mas por desconfiar de que se pedisse a licença seria concedida, por útil que sua mensagem pode ser a todos que estão compartilhando das mesmas dores:

 

….

 

Tudo passa!

 

Não há mal que perdure para sempre. Não há dor que se eternize. Não há treva que resista à luz. Todo mal é passageiro, toda dor é temporária. Por essa razão, o suicídio é uma “solução” definitiva para um problema temporário: uma dose excessiva e inócua para uma dor que, com o passar do tempo, encontraria naturalmente o seu fim. O suicídio, porém, não soluciona a dificuldade que nos sufoca: ao contrário, agrava-a.

 

Melhor pensar que o problema de hoje está de passagem. Mais dia, menos dia, ele será apenas uma lembrança na história de sua vida, assim como hoje você se recorda de outras tantas adversidades já superadas.

 

Quantas vezes você imaginou que não teria forças para seguir adiante, e as forças brotaram das suas entranhas mais secretas e o conduziram à vitória? Quantas vezes você pensou que era chegado o fim, mas tudo não passou de um recomeço que o levou a situações melhores? Quantas vezes você acreditou que seu problema não tinha mais solução, e, inesperadamente, a solução surgiu de onde menos se esperava?

 

Maria de Nazaré, a Mãe Espiritual de todos nós, afirma que todo mal é passageiro, e somente o Reino de Deus tem força suficiente para nunca passar. Então, no momento da aflição, não devemos olhar para o abismo nos chamando para a derrota. É hora de olharmos para o céu, de onde viemos, e abrirmos a nossa mente e o coração para a poderosa força da vida que Deus soprou em cada um de nós no momento que nos criou!

 

À medida que nos entregamos à experiência de sentir a força da vida em nós, somos preenchidos de paz, serenidade e confiança em nossas possibilidades de superarmos as adversidades. A força divina dentro da gente começa a mudar o cenário da vida lá fora! O poeta Caio Fernando Abreu chamou essa força divina de “impulso vital”e mostrou, com rara sensibilidade, como ela pode fazer nossa vida seguir adiante, apesar das nuvens sombrias que pairam sobre nós.

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim — nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”

Todo mal um dia passará, indiscutivelmente. Deixemos que esse impulso vital nos leve adiante e nos tire do abismo da derrota, das águas fundas da nossa tristeza, da janela de um edifício…

 

Aguente firme, a tempestade passa, pode nos encharcar, mas passa. Depois, o sol seca a nossa alma enregelada. O Reino de Deus, de onde brota o impulso vital, está pronto para crescer em cada um de nós, e o Reino não está longe nem fora, está dentro de mim, está dentro de você! Pacientemente, permita-me esse movimento de Deus em sua vida, a partir do seu coração.

 

Vai passar!

 

Compre aqui o livro “Dentro de Mim”, de José Carlos de Lucca

Conte Sua História de São Paulo: estudei na faculdade em que vendi tapioca

 

Por Silas Nunes Souza
Ouvinte CBN

 

 

Nasci em 1990, na cidade de Itabuna, ao sul da Bahia. De lá, fomos para Formosa do Rio Preto, onde meus pais venderam roupas em barracas na feira da cidade. Pouco tempo depois, tivemos de mudar para um vilarejo, fomos morar de favor com minha avó. Meu pai sofria de depressão, as dificuldades financeiras se acumulavam e minha mãe decidiu buscar ajuda médica em São Paulo. Eu fiquei com algumas pendências para resolver na Bahia. Só pude me juntar a eles, em dezembro de 2005.

 

Foi uma alegria enorme reencontrar a família, que, neste momento, já havia alugado um cômodo no Capão Redondo. Com 15 anos, distribui currículos e consegui o primeiro trabalho com um morador do bairro. Eu ajudava nas vendas de tapioca em frente a uma universidade, na Chácara Santo Antônio. Ainda no ensino médio, eu falei para mim mesmo que um dia estudaria naquela Universidade.

 

Um ano depois, pela graça de Deus, comecei a trabalhar em meu primeiro emprego registrado – uma grande empresa de material para construção. Naquele momento nossa vida começou a mudar: alugamos uma casa maior; meu pai havia melhorado da depressão e trabalhava como vendedor ambulante; e minha mãe vendia as miudezas para clientela dela.

 

Nos deparamos com a oportunidade de comprar um terreno, com parcelas baixas que caberiam em nosso orçamento. Porém, devido a entrada que pagamos, tínhamos apenas um cartão de crédito com R$ 500,00 de limite. Fomos a uma loja de material de construção para comprar algumas coisas e iniciar um cômodo. Ao fim da compra, tudo custo R$ 1.500,00. Tínhamos mais fé do que dinheiro. Passamos o cartão assim mesmo, e por incrível que pareça, o valor foi aceito. Um grupo de pessoas que não nos conhecia se ofereceu para nos ajudar a erguer a casa, recebemos doações de amigos e familiares para compra de mais materiais e em incríveis 14 dias estávamos mudando para nossa casinha, ainda mal-acabada. Entramos orando, chorando e agradecendo a benção de Deus em nossas vidas.

 

De um emprego a outro, arrumei dinheiro para pagar minha faculdade. E me matriculei na mesma Universidade que um dia havia trabalhado na porta. Orei a Deus para que me ajudasse na mensalidade do curso, e Deus mais uma vez me respondeu: os dois últimos anos da faculdade e mais seis meses da minha pós-graduação foram pagos pela empresa na qual trabalhava.

 

Em 2015, conheci um projeto cristão de voluntariado no sul da Inglaterra, no qual não precisaria pagar pela hospedagem nem pela alimentação. Passei no processo seletivo e em março de 2016 embarquei, onde fui recepcionado por um grupo de sete brasileiros, todos falando inglês e se apresentando como se fossem de outros países. A única que não me enganou foi uma morena formosa que disse ser francesa. Mas pelo sotaque, logo descobri que era uma nordestina arretada. Com um pouco mais de conversa, descobrimos que tínhamos muito mais em comum: a idade, a profissão e, pasmem, ela também havia nascido em Itabuna. O resultado disso tudo, estamos noivos.

 

De volta para o Brasil, estou agora em uma empresa fantástica, o Grupo Gaia, que a cada dia me surpreende com seus valores. Muitas coisas aconteceram em minha vida, a maioria destas aqui em São Paulo. Nem sempre eu entendia ou sabia o porquê. Mas acredite existe um propósito para tudo nessa vida. No mais, eu sigo sonhando e crendo que tudo é possível. Sonhar é viver para ver!

 

Silas Nunes Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

O pai faz 80 anos

 

Pai

 

Foi um dos meus tios, o Aldo, quem me enviou pelo Facebook a reprodução de um cartão com bordas onduladas, no qual minha foto aparecia com destaque para o sorriso largo e a cabeça grande de cabelo ralo. Ao lado, lê-se um texto curto e rimado anunciando meu primeiro aniversário, comemorado em 1º de agosto de 1964. Como não havia endereço, imagino que não era convite para festa, mas um registro da passagem do meu primeiro ano de vida a ser distribuído por meus pais aos parentes e amigos.

 

Deveria ser comum naquela época e importante a tal ponto que minha bisavó Luiza guardou-o entre seus pertences e assim foi preservado passando de geração para geração até aparecer entre as coisas que ainda restam dela e estão no apartamento do tio. Curiosamente, fui lembrado aqui em casa que outro desses exemplares está em uma caixa de antiguidade que mantenho até hoje. Mais uma prova de que a lembrança tinha seu valor.

 

Na vida, assim como o primeiro ano, temos o costume de comemorar alguns aniversários de maneira especial. As meninas da minha época sonhavam com o baile de debutantes aos 15 e, pelo que leio em alguns blogs, ainda há aquelas que, sem o mesmo romantismo, ostentam nos festejos. A data mais importante dos meninos é a dos 18, que nos oferece múltiplas oportunidades tais como tirar carteira de motorista e beber sem pedir autorização.

 

Daí pra frente é por nossa conta e risco, mas sempre damos atenção especial aos aniversários com idade redonda, às vezes os com final cinco, também. Os 25, os 30, os 35 … para mim foram os 40 anos, comemorados em meio a um drama existencial: quantos mais anos tenho pela frente? Muitos diziam alguns, o que apenas me impunha mais insegurança, afinal estava condenado a encontrar uma forma sustentável de vida até o fim desses muitos anos.

 

Hoje, deparo-me com outra data importante: os 80 anos. Claro que não me refiro aos meus 80 anos, pois como você, caro e raro leitor deste Blog, deve imaginar, mesmo com a gastança do tempo, testemunhada pela cara e pele passadas que aparecem nas fotos mais recentes, ainda faltam algumas décadas para chegar lá. Por enquanto, estou na casa dos 50, outra data aliás muito exaltada pelos amigos mais próximos.

 

A imagem dos 80 anos me inspira neste 29 de outubro de 2015 porque é a idade que o pai está comemorando.O Milton Ferretti Jung você já conhece, seja por sua passagem significativa na história do rádio e jornalismo brasileiros seja porque sempre escreve aqui no Blog. O que provavelmente você não saiba é que ele, apesar de ter trabalhado para o público nunca gostou muito de aparecer em público. Por isso mesmo, não pareceu disposto a festa especial neste dia e tenha preferido comemorações em petit comité. Agora há pouco, ao ligar para parabenizá-lo estava voltando de uma caminhada ao lado da mulher dele, a Maria Helena. Claro que não vai escapar do abraço dos filhos e netos que se juntarão a ele no fim de semana, em Porto Alegre, com direito a surpresas.

 

Independentemente da importância que ele dê aos seus 80 anos, estou aqui para compartilhar minha satisfação. O pai é de uma geração que não tinha à disposição os medicamentos que preservam e estendem nossas vidas; não recebia alertas para hábitos nocivos à saúde como o cigarro, aliás não precisava controlar seu consumo pois os ambientes eram livres para fumar. Foi exposto a insegurança dos automóveis do passado, sem cinto, airbag, freio ABS; não havia leis de trânsito restritivas como hoje – e se havia, os radares eletrônicos não estavam lá para impedir abusos. Aprontou muito abordo de carros de corrida que costumava testar nas areias do litoral gaúcho. Apesar de ter ensaiado algumas defesas travestido de Aranha Negra, apelido que adotou por usar uniforme de cor preta como o goleiro russo Lev Yashin, nunca pensou em se dedicar à prática esportiva. Até há alguns anos arriscava pedalar sua bicicleta, mas nunca muito distante do quarteirão da casa,na zona sul de Porto Alegre.

 

A despeito de tudo isso, seguiu sua caminhada profissional até recentemente, quando deixou o microfone após 50 anos dedicados ao rádio. Criou seus três filhos, a Jacque, o Christian e este que lhe escreve, e casou duas vezes, a segunda após a morte da mãe. Hoje, quando não está dedilhando seu moderníssimo telefone celular, envia alguns artigos aqui para o Blog, demonstrando toda sua vitalidade (e indignação com o que lê nos jornais gaúchos). Sua agenda semanal também é dedicada às partidas de futebol na televisão, em especial ao Grêmio, claro!

 

Sou obrigado, porém, a confessar que comemoro os 80 anos do pai um pouquinho só por egoísmo. Sim, porque assim como é verdade que estou agradecendo a Deus – por intermédio de Padre Reus, de quem ele é devoto – pela felicidade de tê-lo ao nosso lado nesta data tão especial, contando sua história e compartilhando sua satisfação pela vida, também agradeço ao pai por oferecer a mim, a meus irmãos e, provavelmente, a seus quatros netos – dois deles meus filhos – o maior legado que poderia nos deixar: a capacidade de superar um ano após o outro e chegar aos 80 firme e forte!

 

Ou seja, o pai ter 80 sinaliza que eu também tenho uma baita chance de chegar até lá.

 

Que venham os 90, pai!

De vida

 

Por Maria Lucia Solla

 

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quero dizer mas não consigo
quero entender mas não reconheço
a fala desenfreada
que corcoveia do avesso
nos meus ouvidos
e no meu coração

 

a vida com suas cores
aos meus olhos de repente
perde o sentido em dores
e me vejo no escuro
exalado pela falta de direção

 

então me isolo
para não contaminar
corações ainda puros
se é que ainda os há

 

no caos do meu interior
procuro consolo
e encontro tristeza e solidão
busco meu próprio colo
e choro

 

no dia seguinte decido
recuperar a alegria
reviro tudo
ponho a vida de ponta cabeça
cavoco cada canto de mim
e me perco
e imploro

 

a Deus uma chance
de reencontrar o caminho
para de novo abraçar a vida
que insiste em escapar
num esconde-esconde
sem fim

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: é ganhar as duas e seja o que os deuses quiserem

 

Corinthians 1 x 0 Grêmio
Campeonato Brasileiro – Arena Corinthians (SP)

 

O domingo à noite começou no sábado. O desempenho dos adversários que jogaram no início desta antepenúltima rodada pautaria o tamanho do nosso desafio nestas partidas finais do Campeonato Brasileiro. E os placares apenas conspiraram contra nós. Tudo ficaria mais complicado na combinação de resultados, o que atormentava a espera pelo jogo. Ainda antes de a partida se iniciar fui a igreja. E fui porque é o que sempre faço aos domingos. Não peço pelo Grêmio, não. Já deixei claro nesta Avalanche que prefiro não misturar as coisas. Até porque se nossa história nos deu o direito à imortalidade, não seria eu a ocupar as intenções superiores com pedidos mundanos. Nas coisas do futebol costumo depositar minha confiança nos nossos e na mística de que somos capazes de renascer a qualquer instante, mesmo quando não somos mais acreditados por ninguém.

 

Nosso melhor momento na partida de hoje foi o início do segundo tempo com a bola trocando de pé em pé, movimentação rápida dos jogadores, descidas especialmente pela direita e alguns bons lances mal acabados. Insistimos com alguns erros, desperdiçamos todas as cobranças de falta e nos incomodamos com um árbitro pernóstico – mais um a cruzar nossa caminhada. Diante de tudo isso, perdemos três pontos e ficamos a três da vaga da Libertadores faltando apenas seis a serem disputados.

 

Quando Luis Felipe Scolari assumiu o Grêmio, o desafio era difícil pois precisava reconstruir um time desacreditado. Ao ajeitar as peças e alcançar resultados resgatou a confiança necessária. Trouxe o Grêmio de volta para a disputa, goleou quem tinha de golear e agora está pronto para alcançar mais uma de suas façanhas: ganhar as duas decisões que faltam e deixar que o destino faça o que for necessário para voltarmos à Copa Libertadores.

 

Seja o que os deuses (os do futebol) quiserem!

De confissão

 

Por Maria Lucia Solla

 

Rosa

 

sabe a ladainha de
vou levando a vida
como se fosse um fardo
do bonzinho injustiçado
?
quanto mais rezo
mais assombração aparece
?

 

Canoa furada
!

 

Mas quem não entoa ou não entoou o mantra sinistro. Viés para vitimismo, aiai-de-mim, me-ajuda-Pai, quando ninguém se voluntaria para ajudar a remar o barco, porque está todo mundo remando o seu; pelejando para não fazer água, também.

 

Pai faz assim olha
e dá-Lhe receita

 

Afasta esse encosto da minha vida, traz o afastado e encosta ele em mim, que não dou conta da ausência que leva a luz da permanência. Acende a luz no meu viver, reforma o presente que Você me deu. Recebe ele de volta, desembrulha e faz funcionar. Brinca, Você, com ele. Abre meu caminho para dinheiro, amor, amizade, alegria, saúde. Não necessariamente sempre na mesma ordem, mas basicamente é esse, o terço. Ou não é? Me emagrece, me enriquece, me satisfaz, me livra do que não quero e me dá e-xa-ta-men-te o que eu insisto em ter. Me entupo de porcaria, fumo, bebo, caio na gandaia mais do que o meu corpo aguenta, me boicoto, boicotando o mundo à minha volta. Não li o manual que acompanha o pacote da compaixão, e desconheço para que serve, mas me dá isso tudo, mesmo assim. De mão beijada, ou em troca de oração, contrição, contribuição.

 

Que parte é do “Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu” que a gente não entendeu?

 

Ação reação
com mínima previsão
página em branco

 

Minha cabeça e meu corpo redemoinham. Desfoco o pensar de caso pensado. Me agarro no sentir com a mente, e no pensar com o coração. Consciente da postura de todos os corpos. Menos harmonia que postura. Nada filosófico. Pão-pão-queijo-queijo da carona do Ser. E respiro. Ah! como preciso me lembrar de respirar. O tempo todo.

 

Nesse caminho chego à conclusão – que dura cada vez menos e se afasta cada vez mais do definitivo – de que meu ritual religioso favorito é viver; estar o mais acordada possível para não perder nem mesmo o sabor do maior dissabor. O mais acordada possível para não abrir frestas no tic-tac que não tem pause, por onde o tempero da vida possa escoar, incentivado por fantasmas da suposição e do medo.

 

Escrever me fortalece, me abre portas para mais e mais incertezas, me faz perceber melhor a vida. Não sei, talvez nenhuma das sensações acima, mas o certo é que me faz sentir bem. Recompõe minhas energias, tipo o sono. Sinto e escrevo. Cara e coroa, tic-tac, coroa e cara. Dou o primeiro passo, colho um ramo de ânimo-do-campo para o segundo e, se não consigo o combustível suficiente para o segundo passo, aceito a limitação e me entrego à não-ação, no inspirar e expirar que é expressão de vida, e não impeço “que o ciclo evolutivo do planeta cumpra o seu dever”. Lavo louça, cozinho, preparo aulas, dou aulas, estudo, leio, crio, lavo o terraço, cuido da casa e de seus viventes, sonho, divago, mas me trago de volta ao reino do divino, o tempo todo, sempre que o ego tenta se meter de pato a ganso. E agradeço. Milhões de vezes por dia.

 

Fico sem gasolina na rua, a testa enruga, viciada, e eu aliso a danadinha, faço o que precisa ser feito e anoto na lista de não-deixar-que-aconteça-de novo, que já ignorei mais de uma vez. Vivo passo a passo, no um-dois-três, acreditando no que sempre disse minha mãe – que esteve hospitalizada no mês passado e já está melhor – Isso é vida!

 

Tenho Deus no coração, nos rins, no bulbo capilar, na solla dos pés e na crista da onda. Sou religiosa. Como não ser? Mas sinto que somos Sua criação, Sua expressão, e não Seus filhos. Essa coisa de Filho é muito esquisita e me arrepia porque humaniza o divino e formata o informatável. Estratifica, faz esquecer que o ser-humano não é Sua única expressão. Será que o Deus que louvamos é o Deus que nos criou, ou aquele que criamos nós, à nossa excelsa imagem e semelhança?

 

Escrever me permite perceber quantas respostas existem para cada pergunta e também me leva a encontrar e a reparar sempre mais um furo no casco da minha canoa. O que sou e tenho é o que sou e tenho, E agradeço. Agradeço por tudo. Não ajoelhada, não paramentada, não rotulada, mas a qualquer hora do dia e da noite e em todo lugar.

 

agradeço à Vida
com a boca de tudo que é
da falta
da fartura
do sonho
do medonho
do Pai João
do Cramunhão

 

agridoce
pura magia
Vida com sabor de alquimia

 

obrigada Criador
!

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De proteção

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Criador de tudo o que me rodeia e do que está dentro de mim; tu que não conheço, mas que intuo e reconheço em cada porção de tua Criação; que ouço na respiração tranquila dos filhos que dormem, que fazem meu corpo tremer e meu coração se espreguiçar. Que criou uma flor tão linda, que povoa o meu jardim e, sem guarda, se oferta jorrando beleza indescritível, perfeição de transparência, oferecendo vida e morte, para renascer depois e sempre.

 

Senhor, unge-me com gotas desse desprendimento. Não peço e nem poderia pedir emprestado seu perfume ou beleza, mas me encanta o seu dar-se, o entregar-se sem medida, mesmo em vida tão breve. A mim servirá, e eu anseio.

 

Faz com que eu não arraste os minutos, Senhor, mas que os viva intensamente. Faz com que meu sorriso se misture a lágrimas, que eu saiba deixar espaço para a esperança se instalar enquanto a desesperança vem se servir de mim. Que eu critique menos e compreenda mais, que me curve para não quebrar e que esteja preparada hoje e sempre para amar.

 

Enquanto peço isto e aquilo, minha alma abre espaço pelo emaranhado do ego e jorra gratidão, por onde passa. Gratidão pela vida. Ponto.

 

Senhor, doma pensamento e medo, que brotam feito mato na minha mente que mente, se espalhando como inço, alimentando-se de nacos preciosos do que sou.

 

Enfim, Senhor, se é da tua alçada direta, me protege de mim.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De mãe

 

Por Maria Lucia Solla

 

A lua

 

mãe é ser divino
e o somos todos
ou não?
pai filho irmão santo demônio
andarilhos na mesma estrada
entoando cantilena com coração e mente recheados de sentimento ressentimento
desejo sonho
de contradições que se chocam arrastando umas as outras
num pra-lá-e-pra-cá de ficar zonzo

 

na verdade somos só machos e fêmeas
homens mulheres garfos colheres
nada há que nos dignifique
além do amor que se manifesta na compaixão na alegria e na dor

 

estou enganada
ou o emissário de Deus veio mesmo trazer a mensagem
de que a lei dali pra frente seria o amor
e que o resto era descartável
bobagem

 

vivemos no entanto a chorar da dor
dando crédito demais ao desgosto
a recusar o amor que é proposto

 

pois bem
entre homens e mulheres
foi a elas sugerido que carona dessem
pra que outros viessem
e suas lições aqui aprendessem

 

como árvore a mãe dá fruto
num milagre constante
gera fragmento
que quando vinga se torna completo para ser

 

a história da santidade materna não me convence
confesso
pois há pai que merece mais que ela
que cuida do rebento de caderno livro e de panela
relegando a plano inferior o que antes era valor

 

hoje eu
em meio à religião
ao perdão ao ladrão e ao espertalhão
vislumbro só um pecado
o de nos considerarmos só corpo
e deixarmos a alma de lado

 

bem e mal existem
mas não separadamente
como um não conter o outro
só os cegos de plantão nisso ainda insistem

 

assim que hoje em vez de homenagear cada mãe-amada-e-a-não-amada
escolho olhar a criança violada e o pequeno abandonado
seja ele pobre ou abonado

 

quem diz que mãe é santa
mente
quando ontem hoje e amanhã
a menina violada se faz mãe de repente

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Caro e raro leitor,

 

Volto ao ar nessa quarta-feira após uma semana afastado para reorganizar a vida que ficou um tanto confusa depois que tive minha casa invadida por uma quadrilha, meus dois filhos e dois empregados rendidos e pertences roubados. A casa sempre considerei reduto privado de nossa família, onde compartilhamos sentimentos e intimidade, por isso tê-la invadida é uma violência moral muito mais do que patrimonial. Ver seus filhos atingidos por esta violência, assim como funcionários que há décadas têm sua confiança, provoca indignação. Há uma sensação de injustiça que incomoda muito, mas costumo dizer sempre aos meninos que quando nascemos ninguém nos prometeu um mundo justo. Cabe a nós mesmos transformar este cenário agindo com respeito, inteligência e solidariedade – nunca com a mesma violência. Fiquei afastado do programa na CBN, por gentileza da emissora que entendeu meu momento. Não atualizei o Blog nem mantive minhas conversas pelo Twitter porque me faltava vontade de dizer algo. Por alguns dias a impressão é de que tinham roubado minhas palavras e alegria. Aos poucos, ambas estão voltando, graças a Deus. Estamos traumatizados ainda, o que é de se esperar em situações como essa, mas nos recuperamos bem com o apoio de muitos amigos que nos abraçaram das mais diferentes formas. A todos vocês, nosso agradecimento.