O pai faz 80 anos

 

Pai

 

Foi um dos meus tios, o Aldo, quem me enviou pelo Facebook a reprodução de um cartão com bordas onduladas, no qual minha foto aparecia com destaque para o sorriso largo e a cabeça grande de cabelo ralo. Ao lado, lê-se um texto curto e rimado anunciando meu primeiro aniversário, comemorado em 1º de agosto de 1964. Como não havia endereço, imagino que não era convite para festa, mas um registro da passagem do meu primeiro ano de vida a ser distribuído por meus pais aos parentes e amigos.

 

Deveria ser comum naquela época e importante a tal ponto que minha bisavó Luiza guardou-o entre seus pertences e assim foi preservado passando de geração para geração até aparecer entre as coisas que ainda restam dela e estão no apartamento do tio. Curiosamente, fui lembrado aqui em casa que outro desses exemplares está em uma caixa de antiguidade que mantenho até hoje. Mais uma prova de que a lembrança tinha seu valor.

 

Na vida, assim como o primeiro ano, temos o costume de comemorar alguns aniversários de maneira especial. As meninas da minha época sonhavam com o baile de debutantes aos 15 e, pelo que leio em alguns blogs, ainda há aquelas que, sem o mesmo romantismo, ostentam nos festejos. A data mais importante dos meninos é a dos 18, que nos oferece múltiplas oportunidades tais como tirar carteira de motorista e beber sem pedir autorização.

 

Daí pra frente é por nossa conta e risco, mas sempre damos atenção especial aos aniversários com idade redonda, às vezes os com final cinco, também. Os 25, os 30, os 35 … para mim foram os 40 anos, comemorados em meio a um drama existencial: quantos mais anos tenho pela frente? Muitos diziam alguns, o que apenas me impunha mais insegurança, afinal estava condenado a encontrar uma forma sustentável de vida até o fim desses muitos anos.

 

Hoje, deparo-me com outra data importante: os 80 anos. Claro que não me refiro aos meus 80 anos, pois como você, caro e raro leitor deste Blog, deve imaginar, mesmo com a gastança do tempo, testemunhada pela cara e pele passadas que aparecem nas fotos mais recentes, ainda faltam algumas décadas para chegar lá. Por enquanto, estou na casa dos 50, outra data aliás muito exaltada pelos amigos mais próximos.

 

A imagem dos 80 anos me inspira neste 29 de outubro de 2015 porque é a idade que o pai está comemorando.O Milton Ferretti Jung você já conhece, seja por sua passagem significativa na história do rádio e jornalismo brasileiros seja porque sempre escreve aqui no Blog. O que provavelmente você não saiba é que ele, apesar de ter trabalhado para o público nunca gostou muito de aparecer em público. Por isso mesmo, não pareceu disposto a festa especial neste dia e tenha preferido comemorações em petit comité. Agora há pouco, ao ligar para parabenizá-lo estava voltando de uma caminhada ao lado da mulher dele, a Maria Helena. Claro que não vai escapar do abraço dos filhos e netos que se juntarão a ele no fim de semana, em Porto Alegre, com direito a surpresas.

 

Independentemente da importância que ele dê aos seus 80 anos, estou aqui para compartilhar minha satisfação. O pai é de uma geração que não tinha à disposição os medicamentos que preservam e estendem nossas vidas; não recebia alertas para hábitos nocivos à saúde como o cigarro, aliás não precisava controlar seu consumo pois os ambientes eram livres para fumar. Foi exposto a insegurança dos automóveis do passado, sem cinto, airbag, freio ABS; não havia leis de trânsito restritivas como hoje – e se havia, os radares eletrônicos não estavam lá para impedir abusos. Aprontou muito abordo de carros de corrida que costumava testar nas areias do litoral gaúcho. Apesar de ter ensaiado algumas defesas travestido de Aranha Negra, apelido que adotou por usar uniforme de cor preta como o goleiro russo Lev Yashin, nunca pensou em se dedicar à prática esportiva. Até há alguns anos arriscava pedalar sua bicicleta, mas nunca muito distante do quarteirão da casa,na zona sul de Porto Alegre.

 

A despeito de tudo isso, seguiu sua caminhada profissional até recentemente, quando deixou o microfone após 50 anos dedicados ao rádio. Criou seus três filhos, a Jacque, o Christian e este que lhe escreve, e casou duas vezes, a segunda após a morte da mãe. Hoje, quando não está dedilhando seu moderníssimo telefone celular, envia alguns artigos aqui para o Blog, demonstrando toda sua vitalidade (e indignação com o que lê nos jornais gaúchos). Sua agenda semanal também é dedicada às partidas de futebol na televisão, em especial ao Grêmio, claro!

 

Sou obrigado, porém, a confessar que comemoro os 80 anos do pai um pouquinho só por egoísmo. Sim, porque assim como é verdade que estou agradecendo a Deus – por intermédio de Padre Reus, de quem ele é devoto – pela felicidade de tê-lo ao nosso lado nesta data tão especial, contando sua história e compartilhando sua satisfação pela vida, também agradeço ao pai por oferecer a mim, a meus irmãos e, provavelmente, a seus quatros netos – dois deles meus filhos – o maior legado que poderia nos deixar: a capacidade de superar um ano após o outro e chegar aos 80 firme e forte!

 

Ou seja, o pai ter 80 sinaliza que eu também tenho uma baita chance de chegar até lá.

 

Que venham os 90, pai!

De vida

 

Por Maria Lucia Solla

 

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quero dizer mas não consigo
quero entender mas não reconheço
a fala desenfreada
que corcoveia do avesso
nos meus ouvidos
e no meu coração

 

a vida com suas cores
aos meus olhos de repente
perde o sentido em dores
e me vejo no escuro
exalado pela falta de direção

 

então me isolo
para não contaminar
corações ainda puros
se é que ainda os há

 

no caos do meu interior
procuro consolo
e encontro tristeza e solidão
busco meu próprio colo
e choro

 

no dia seguinte decido
recuperar a alegria
reviro tudo
ponho a vida de ponta cabeça
cavoco cada canto de mim
e me perco
e imploro

 

a Deus uma chance
de reencontrar o caminho
para de novo abraçar a vida
que insiste em escapar
num esconde-esconde
sem fim

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: é ganhar as duas e seja o que os deuses quiserem

 

Corinthians 1 x 0 Grêmio
Campeonato Brasileiro – Arena Corinthians (SP)

 

O domingo à noite começou no sábado. O desempenho dos adversários que jogaram no início desta antepenúltima rodada pautaria o tamanho do nosso desafio nestas partidas finais do Campeonato Brasileiro. E os placares apenas conspiraram contra nós. Tudo ficaria mais complicado na combinação de resultados, o que atormentava a espera pelo jogo. Ainda antes de a partida se iniciar fui a igreja. E fui porque é o que sempre faço aos domingos. Não peço pelo Grêmio, não. Já deixei claro nesta Avalanche que prefiro não misturar as coisas. Até porque se nossa história nos deu o direito à imortalidade, não seria eu a ocupar as intenções superiores com pedidos mundanos. Nas coisas do futebol costumo depositar minha confiança nos nossos e na mística de que somos capazes de renascer a qualquer instante, mesmo quando não somos mais acreditados por ninguém.

 

Nosso melhor momento na partida de hoje foi o início do segundo tempo com a bola trocando de pé em pé, movimentação rápida dos jogadores, descidas especialmente pela direita e alguns bons lances mal acabados. Insistimos com alguns erros, desperdiçamos todas as cobranças de falta e nos incomodamos com um árbitro pernóstico – mais um a cruzar nossa caminhada. Diante de tudo isso, perdemos três pontos e ficamos a três da vaga da Libertadores faltando apenas seis a serem disputados.

 

Quando Luis Felipe Scolari assumiu o Grêmio, o desafio era difícil pois precisava reconstruir um time desacreditado. Ao ajeitar as peças e alcançar resultados resgatou a confiança necessária. Trouxe o Grêmio de volta para a disputa, goleou quem tinha de golear e agora está pronto para alcançar mais uma de suas façanhas: ganhar as duas decisões que faltam e deixar que o destino faça o que for necessário para voltarmos à Copa Libertadores.

 

Seja o que os deuses (os do futebol) quiserem!

De confissão

 

Por Maria Lucia Solla

 

Rosa

 

sabe a ladainha de
vou levando a vida
como se fosse um fardo
do bonzinho injustiçado
?
quanto mais rezo
mais assombração aparece
?

 

Canoa furada
!

 

Mas quem não entoa ou não entoou o mantra sinistro. Viés para vitimismo, aiai-de-mim, me-ajuda-Pai, quando ninguém se voluntaria para ajudar a remar o barco, porque está todo mundo remando o seu; pelejando para não fazer água, também.

 

Pai faz assim olha
e dá-Lhe receita

 

Afasta esse encosto da minha vida, traz o afastado e encosta ele em mim, que não dou conta da ausência que leva a luz da permanência. Acende a luz no meu viver, reforma o presente que Você me deu. Recebe ele de volta, desembrulha e faz funcionar. Brinca, Você, com ele. Abre meu caminho para dinheiro, amor, amizade, alegria, saúde. Não necessariamente sempre na mesma ordem, mas basicamente é esse, o terço. Ou não é? Me emagrece, me enriquece, me satisfaz, me livra do que não quero e me dá e-xa-ta-men-te o que eu insisto em ter. Me entupo de porcaria, fumo, bebo, caio na gandaia mais do que o meu corpo aguenta, me boicoto, boicotando o mundo à minha volta. Não li o manual que acompanha o pacote da compaixão, e desconheço para que serve, mas me dá isso tudo, mesmo assim. De mão beijada, ou em troca de oração, contrição, contribuição.

 

Que parte é do “Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu” que a gente não entendeu?

 

Ação reação
com mínima previsão
página em branco

 

Minha cabeça e meu corpo redemoinham. Desfoco o pensar de caso pensado. Me agarro no sentir com a mente, e no pensar com o coração. Consciente da postura de todos os corpos. Menos harmonia que postura. Nada filosófico. Pão-pão-queijo-queijo da carona do Ser. E respiro. Ah! como preciso me lembrar de respirar. O tempo todo.

 

Nesse caminho chego à conclusão – que dura cada vez menos e se afasta cada vez mais do definitivo – de que meu ritual religioso favorito é viver; estar o mais acordada possível para não perder nem mesmo o sabor do maior dissabor. O mais acordada possível para não abrir frestas no tic-tac que não tem pause, por onde o tempero da vida possa escoar, incentivado por fantasmas da suposição e do medo.

 

Escrever me fortalece, me abre portas para mais e mais incertezas, me faz perceber melhor a vida. Não sei, talvez nenhuma das sensações acima, mas o certo é que me faz sentir bem. Recompõe minhas energias, tipo o sono. Sinto e escrevo. Cara e coroa, tic-tac, coroa e cara. Dou o primeiro passo, colho um ramo de ânimo-do-campo para o segundo e, se não consigo o combustível suficiente para o segundo passo, aceito a limitação e me entrego à não-ação, no inspirar e expirar que é expressão de vida, e não impeço “que o ciclo evolutivo do planeta cumpra o seu dever”. Lavo louça, cozinho, preparo aulas, dou aulas, estudo, leio, crio, lavo o terraço, cuido da casa e de seus viventes, sonho, divago, mas me trago de volta ao reino do divino, o tempo todo, sempre que o ego tenta se meter de pato a ganso. E agradeço. Milhões de vezes por dia.

 

Fico sem gasolina na rua, a testa enruga, viciada, e eu aliso a danadinha, faço o que precisa ser feito e anoto na lista de não-deixar-que-aconteça-de novo, que já ignorei mais de uma vez. Vivo passo a passo, no um-dois-três, acreditando no que sempre disse minha mãe – que esteve hospitalizada no mês passado e já está melhor – Isso é vida!

 

Tenho Deus no coração, nos rins, no bulbo capilar, na solla dos pés e na crista da onda. Sou religiosa. Como não ser? Mas sinto que somos Sua criação, Sua expressão, e não Seus filhos. Essa coisa de Filho é muito esquisita e me arrepia porque humaniza o divino e formata o informatável. Estratifica, faz esquecer que o ser-humano não é Sua única expressão. Será que o Deus que louvamos é o Deus que nos criou, ou aquele que criamos nós, à nossa excelsa imagem e semelhança?

 

Escrever me permite perceber quantas respostas existem para cada pergunta e também me leva a encontrar e a reparar sempre mais um furo no casco da minha canoa. O que sou e tenho é o que sou e tenho, E agradeço. Agradeço por tudo. Não ajoelhada, não paramentada, não rotulada, mas a qualquer hora do dia e da noite e em todo lugar.

 

agradeço à Vida
com a boca de tudo que é
da falta
da fartura
do sonho
do medonho
do Pai João
do Cramunhão

 

agridoce
pura magia
Vida com sabor de alquimia

 

obrigada Criador
!

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De proteção

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Criador de tudo o que me rodeia e do que está dentro de mim; tu que não conheço, mas que intuo e reconheço em cada porção de tua Criação; que ouço na respiração tranquila dos filhos que dormem, que fazem meu corpo tremer e meu coração se espreguiçar. Que criou uma flor tão linda, que povoa o meu jardim e, sem guarda, se oferta jorrando beleza indescritível, perfeição de transparência, oferecendo vida e morte, para renascer depois e sempre.

 

Senhor, unge-me com gotas desse desprendimento. Não peço e nem poderia pedir emprestado seu perfume ou beleza, mas me encanta o seu dar-se, o entregar-se sem medida, mesmo em vida tão breve. A mim servirá, e eu anseio.

 

Faz com que eu não arraste os minutos, Senhor, mas que os viva intensamente. Faz com que meu sorriso se misture a lágrimas, que eu saiba deixar espaço para a esperança se instalar enquanto a desesperança vem se servir de mim. Que eu critique menos e compreenda mais, que me curve para não quebrar e que esteja preparada hoje e sempre para amar.

 

Enquanto peço isto e aquilo, minha alma abre espaço pelo emaranhado do ego e jorra gratidão, por onde passa. Gratidão pela vida. Ponto.

 

Senhor, doma pensamento e medo, que brotam feito mato na minha mente que mente, se espalhando como inço, alimentando-se de nacos preciosos do que sou.

 

Enfim, Senhor, se é da tua alçada direta, me protege de mim.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De mãe

 

Por Maria Lucia Solla

 

A lua

 

mãe é ser divino
e o somos todos
ou não?
pai filho irmão santo demônio
andarilhos na mesma estrada
entoando cantilena com coração e mente recheados de sentimento ressentimento
desejo sonho
de contradições que se chocam arrastando umas as outras
num pra-lá-e-pra-cá de ficar zonzo

 

na verdade somos só machos e fêmeas
homens mulheres garfos colheres
nada há que nos dignifique
além do amor que se manifesta na compaixão na alegria e na dor

 

estou enganada
ou o emissário de Deus veio mesmo trazer a mensagem
de que a lei dali pra frente seria o amor
e que o resto era descartável
bobagem

 

vivemos no entanto a chorar da dor
dando crédito demais ao desgosto
a recusar o amor que é proposto

 

pois bem
entre homens e mulheres
foi a elas sugerido que carona dessem
pra que outros viessem
e suas lições aqui aprendessem

 

como árvore a mãe dá fruto
num milagre constante
gera fragmento
que quando vinga se torna completo para ser

 

a história da santidade materna não me convence
confesso
pois há pai que merece mais que ela
que cuida do rebento de caderno livro e de panela
relegando a plano inferior o que antes era valor

 

hoje eu
em meio à religião
ao perdão ao ladrão e ao espertalhão
vislumbro só um pecado
o de nos considerarmos só corpo
e deixarmos a alma de lado

 

bem e mal existem
mas não separadamente
como um não conter o outro
só os cegos de plantão nisso ainda insistem

 

assim que hoje em vez de homenagear cada mãe-amada-e-a-não-amada
escolho olhar a criança violada e o pequeno abandonado
seja ele pobre ou abonado

 

quem diz que mãe é santa
mente
quando ontem hoje e amanhã
a menina violada se faz mãe de repente

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Caro e raro leitor,

 

Volto ao ar nessa quarta-feira após uma semana afastado para reorganizar a vida que ficou um tanto confusa depois que tive minha casa invadida por uma quadrilha, meus dois filhos e dois empregados rendidos e pertences roubados. A casa sempre considerei reduto privado de nossa família, onde compartilhamos sentimentos e intimidade, por isso tê-la invadida é uma violência moral muito mais do que patrimonial. Ver seus filhos atingidos por esta violência, assim como funcionários que há décadas têm sua confiança, provoca indignação. Há uma sensação de injustiça que incomoda muito, mas costumo dizer sempre aos meninos que quando nascemos ninguém nos prometeu um mundo justo. Cabe a nós mesmos transformar este cenário agindo com respeito, inteligência e solidariedade – nunca com a mesma violência. Fiquei afastado do programa na CBN, por gentileza da emissora que entendeu meu momento. Não atualizei o Blog nem mantive minhas conversas pelo Twitter porque me faltava vontade de dizer algo. Por alguns dias a impressão é de que tinham roubado minhas palavras e alegria. Aos poucos, ambas estão voltando, graças a Deus. Estamos traumatizados ainda, o que é de se esperar em situações como essa, mas nos recuperamos bem com o apoio de muitos amigos que nos abraçaram das mais diferentes formas. A todos vocês, nosso agradecimento.

D’Ele e de nós

 

Por Maria Lucia Solla

 

Ouça “D’Ele e de nós” na voz e sonorizado pela autora

 

 

Olá,

 

para que coisas boas peguem o rumo que nos interessa, depositamos fé onde dá. Fé que não costuma estacionar por muito tempo num lugar. Fé andarilha, a nossa; vagueia ao sabor do oriente e ocidente, do céu, terra, das estrelas, do ar, do fogo e da água. Tudo Deus.

 

Segundo uns, o ano é do Dragão, segundo outros, dos orixás que tomam a frente na tarefa. Oxum favorece a liderança das mulheres e lhes oferece filhos inesperados, e Oxalá enxuga lágrimas, limpa o ranço que foi deixado para trás e acena a bandeira da paz. Dizem também que o Papa, Sumo Sacerdote, um dos arcanos maiores do Tarot de Marselha, assume o leme e colhe o crescimento da consciência de cada um para espalhá-la por onde ainda é escassa.

 

A numerologia aponta para o cinco, que é a soma de 2 + 0 +1 + 2. O cinco alerta, nesta caminhada não tem atalho lateral; ou nos desfazemos do que não serve mais, ou a vida vem e leva embora, feito vendaval. É ano de mudança, mas vai além da mudança; pede a consciência atenta, a cada mudança que ocorre, porque só assim a mudança se instala. Querer mudar é coisa do passado, agora o ritmo é de assumir a mudança, de deixar que ela se instale, e crescer com ela. Haja disposição.

 

Dizem também que a Lua, rege o planeta neste período, o que nos leva a Iemanjá, que lhe corresponde. Dizem que Xangô vem pôr tudo abaixo para que dos escombros possamos resgatar força, disciplina, coragem, transparência, e a opção consciente de cada segundo da nossa realidade, porque tudo é Deus.

 

O que pensamos, o que sentimos, o que está à nossa volta e dentro de nós; tudo é Deus. O ritual, os aromas, as cores e sons servem para falar com Ele. O silêncio, o isolamento, o mantra, a música de bamba e a Escola de Samba, também. Tudo é Deus.

 

Vale a pedra do ano, a cor e o número dele, o bicho, o orixá, o planeta; vale a reza e a oração, a oferenda e a contrição. Vale tudo. O meu amor por você é Deus. A impossibilidade e a possibilidade dele também são Ele. A pétala da flor amarela que caiu para tocar a mesa é Deus. A descrença, o desânimo, a derrota e o desamor são estradas que levam a Ele, estradas feitas d’Ele, que vêm d’Ele e que levam até Ele.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De bom e mau

 

Por Maria Lucia Solla

 


Ouça “De bom e mau” sonorizado e na voz da autora

 

 

Olá,

 

pisquei, e a segunda virou quinta. Os dias correm como nós, e num desses dias voadores liguei a televisão e ouvi que o número de assaltos a residência e estabelecimento segue crescendo. Confirmei também que a civilidade segue diminuindo e que a fúria do invasor atinge nível de dar náusea. Se sequestra e se mata por tudo e por nada também. Humano tortura humano, legal e ilegalmente; se degrada, dissolve, mingua.

 

Tem muito ódio, muita raiva, muita amargura nos corações. Campeia a traição, o abuso e o descaso pelo outro. A sociedade do eu primeiro vem fortalecendo alguns músculos, mas vem deixando definhar o próprio coração. Se sobressai no índice do dinheiro, do consumo, e se retrai na educação, no respeito, na consciência do real direito de cada um.

 

Mas tem o outro lado onde pipocam projetos sociais; gente que troca o dia-a-dia, o conhecido, o conforto, pelo inverso da medalha. Gente que se arrisca no universo da diferença, do carência, da doença, do desengano, onde acaba encontrando – dizem os que se entregam – um presente da vida.

 

De um lado o invasor, do outro o libertador. É o que vemos desde criança no desenho animado. Bom contra mau. Falávamos disso, meu filho e eu, no domingo passado. Sobre repressão, criminalidade e atividade das polícias. E eu pergunto o que mais vai ser preciso proibir, quantas vezes mais vai ser preciso remendar a Constituição, para podermos saciar a boca faminta da justiça, do suborno, e das polícias, num desbotado filme de bandido e mocinho.

 

Enquanto o bom continuar a se entrincheirar e se armar para combater o mau, será só um arremedo de bom. Será um mau presunçoso a se considerar do bom lado da cerca. Só isso. E o mau, acreditando ser mau porque é isso que lhe dizem desde que entendeu a primeira palavra, o primeiro olhar, se arma para resistir, lutar e atacar o bom.

 

Não tenho a solução, nem na palavra nem no pensamento, mas sinto no coração que ela existe e que é possível; e tenho certeza de que você também sente. É preciso, no entanto, que a galera do bloco bom não se pavoneie, sentando nos próprios pés na ilusão de que não percebam seu medo e sua vergonha, e que não continue apontando, de bico erguido, o erro do vizinho. Em qualquer área, em todo nível social, cultural, no bloco civil, no bloco militar, penso em gente, não em casta.

 

As maiores e mais fratricidas guerras foram guerras religiosas; e continuam sendo. O religioso rotulado, que se considera bom, fica cada dia mais agressivo e arregimentador. É só olhar em volta, para os que rezam estirados no chão para falar com Deus, e os que se ajoelham para fazer a mesma coisa. Para os que aceitam os santos, e os que não aceitam. Para os que consideram Jesus o Messias, e aqueles que não. É guerra que, como todas as outras, é feia, dissimulada, discriminatória e preconceituosa, disfarçada de divina, correndo solta, acelerando o tempo que se esgota para que a consciência se instale como programa de tecnologia de ponta.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Um erro, apenas um erro

 

Miriam e Abelardo haviam planejado a viagem aos Estados Unidos há alguns meses. Levariam os filhos pela primeira vez na classe executiva, presente pelo ótimo desempenho escolar de ambos. Passagem comprada, hotel acertado e restaurantes reservados, há um dia de partirem descobrem que o visto americano de um dos garotos tinha expirado e o passaporte do outro, também. A primeira providência foi adiar a partida, renegociar preço e providenciar a burocracia esquecida, na torcida de que ainda houvesse chance de embarcar antes do fim das férias do casal. Assim que a família soube do caso começaram os palpites. “Se não foram é porque não era para ir” disse a tia mais velha do alto de seu conhecimento filosófico. A crente não se conteve: “Talvez seja um sinal de Deus, meus filhos”. “Não lute contra o destino”, preveniu outra ao ver o esforço do casal para remarcar a viagem. Pelo sim e pelo não, eles não se contiveram e ficaram colados na internet a espera da notícia de um desastre aéreo do qual teriam escapado. Não aconteceu nem no dia que seria da ida nem no que seria da volta. Ainda bem, pensaram envergonhados. Mas quem sabe o destino estava apenas preparando uma armadilha e o mal sinal viria nas datas remarcadas, pensou em voz alta um amigo do casal. Por que não deixamos pro ano que vem? Com destino não se brinca? – perguntavam-se todas os dias em busca de uma resposta para o erro infantil que havia causado tanta frustração bem no início das férias. Com documentação regularizada e passagens e estadias revistas, começavam a se convencer de que tudo não passava de coisa de gente supersticiosa até que chegou o dia de embarcar e o medo voltou. Rezaram, pediram apoio dos mais próximos e com o coração na boca seguiram viagem, aproveitaram até onde puderam e, dias depois, pegaram o avião de volta. Enquanto não tocaram o solo mais um vez, não se acalmaram. A qualquer momento a profecia poderia se concretizar. Em casa, deitados lado a lado, enquanto os meninos se divertiam com as compras no exterior, o casal caiu na gargalhada. Sinal celestial? Recado do além? Superstição? Coisa nenhuma ! Foi, sim, uma baita c….. – definiu Abelardo. Um erro, apenas um erro – resumiu com mais sensibilidade Miriam.