O pai faz 80 anos

 

Pai

 

Foi um dos meus tios, o Aldo, quem me enviou pelo Facebook a reprodução de um cartão com bordas onduladas, no qual minha foto aparecia com destaque para o sorriso largo e a cabeça grande de cabelo ralo. Ao lado, lê-se um texto curto e rimado anunciando meu primeiro aniversário, comemorado em 1º de agosto de 1964. Como não havia endereço, imagino que não era convite para festa, mas um registro da passagem do meu primeiro ano de vida a ser distribuído por meus pais aos parentes e amigos.

 

Deveria ser comum naquela época e importante a tal ponto que minha bisavó Luiza guardou-o entre seus pertences e assim foi preservado passando de geração para geração até aparecer entre as coisas que ainda restam dela e estão no apartamento do tio. Curiosamente, fui lembrado aqui em casa que outro desses exemplares está em uma caixa de antiguidade que mantenho até hoje. Mais uma prova de que a lembrança tinha seu valor.

 

Na vida, assim como o primeiro ano, temos o costume de comemorar alguns aniversários de maneira especial. As meninas da minha época sonhavam com o baile de debutantes aos 15 e, pelo que leio em alguns blogs, ainda há aquelas que, sem o mesmo romantismo, ostentam nos festejos. A data mais importante dos meninos é a dos 18, que nos oferece múltiplas oportunidades tais como tirar carteira de motorista e beber sem pedir autorização.

 

Daí pra frente é por nossa conta e risco, mas sempre damos atenção especial aos aniversários com idade redonda, às vezes os com final cinco, também. Os 25, os 30, os 35 … para mim foram os 40 anos, comemorados em meio a um drama existencial: quantos mais anos tenho pela frente? Muitos diziam alguns, o que apenas me impunha mais insegurança, afinal estava condenado a encontrar uma forma sustentável de vida até o fim desses muitos anos.

 

Hoje, deparo-me com outra data importante: os 80 anos. Claro que não me refiro aos meus 80 anos, pois como você, caro e raro leitor deste Blog, deve imaginar, mesmo com a gastança do tempo, testemunhada pela cara e pele passadas que aparecem nas fotos mais recentes, ainda faltam algumas décadas para chegar lá. Por enquanto, estou na casa dos 50, outra data aliás muito exaltada pelos amigos mais próximos.

 

A imagem dos 80 anos me inspira neste 29 de outubro de 2015 porque é a idade que o pai está comemorando.O Milton Ferretti Jung você já conhece, seja por sua passagem significativa na história do rádio e jornalismo brasileiros seja porque sempre escreve aqui no Blog. O que provavelmente você não saiba é que ele, apesar de ter trabalhado para o público nunca gostou muito de aparecer em público. Por isso mesmo, não pareceu disposto a festa especial neste dia e tenha preferido comemorações em petit comité. Agora há pouco, ao ligar para parabenizá-lo estava voltando de uma caminhada ao lado da mulher dele, a Maria Helena. Claro que não vai escapar do abraço dos filhos e netos que se juntarão a ele no fim de semana, em Porto Alegre, com direito a surpresas.

 

Independentemente da importância que ele dê aos seus 80 anos, estou aqui para compartilhar minha satisfação. O pai é de uma geração que não tinha à disposição os medicamentos que preservam e estendem nossas vidas; não recebia alertas para hábitos nocivos à saúde como o cigarro, aliás não precisava controlar seu consumo pois os ambientes eram livres para fumar. Foi exposto a insegurança dos automóveis do passado, sem cinto, airbag, freio ABS; não havia leis de trânsito restritivas como hoje – e se havia, os radares eletrônicos não estavam lá para impedir abusos. Aprontou muito abordo de carros de corrida que costumava testar nas areias do litoral gaúcho. Apesar de ter ensaiado algumas defesas travestido de Aranha Negra, apelido que adotou por usar uniforme de cor preta como o goleiro russo Lev Yashin, nunca pensou em se dedicar à prática esportiva. Até há alguns anos arriscava pedalar sua bicicleta, mas nunca muito distante do quarteirão da casa,na zona sul de Porto Alegre.

 

A despeito de tudo isso, seguiu sua caminhada profissional até recentemente, quando deixou o microfone após 50 anos dedicados ao rádio. Criou seus três filhos, a Jacque, o Christian e este que lhe escreve, e casou duas vezes, a segunda após a morte da mãe. Hoje, quando não está dedilhando seu moderníssimo telefone celular, envia alguns artigos aqui para o Blog, demonstrando toda sua vitalidade (e indignação com o que lê nos jornais gaúchos). Sua agenda semanal também é dedicada às partidas de futebol na televisão, em especial ao Grêmio, claro!

 

Sou obrigado, porém, a confessar que comemoro os 80 anos do pai um pouquinho só por egoísmo. Sim, porque assim como é verdade que estou agradecendo a Deus – por intermédio de Padre Reus, de quem ele é devoto – pela felicidade de tê-lo ao nosso lado nesta data tão especial, contando sua história e compartilhando sua satisfação pela vida, também agradeço ao pai por oferecer a mim, a meus irmãos e, provavelmente, a seus quatros netos – dois deles meus filhos – o maior legado que poderia nos deixar: a capacidade de superar um ano após o outro e chegar aos 80 firme e forte!

 

Ou seja, o pai ter 80 sinaliza que eu também tenho uma baita chance de chegar até lá.

 

Que venham os 90, pai!

13 comentários sobre “O pai faz 80 anos

  1. Parabenizo com muito carinho o Milton pai pela passagem dos seus 80 anos. Criei-me no Sul escutando futebol pelo rádio na emoção da voz dele, naquele tempo nem mesmo sabendo que ele era Gremista. Demonstrava muito profissionalismo nas narrações mesmo na transmissão dos gols do nosso tradicional rival. Felizmente algum tempo depois se deu ao luxo de narrar jogos somente do seu time de coração o que o tornou ainda mais espetacular. Parabéns e muita saúde e paz juntamente com familiares e amigos. De presente gostaria que o nosso Grêmio lhe desse uma vitória maiúscula no próximo domingo para nos consolidar de vez na Libertadores 2016!

    • Thereza Cristhina e Daniel Boucinhas:
      Fico-lhes grato pelas sinceras palavras que acabei de ler,vindas de quem acompanha o blog do Mílton,meu filho e,hoje,deram força aos meus 80 anos. Obrigado,amiga e amigo.

  2. Feliz aniversário, Sr. Milton pai! Que o senhor possa nos brindar com frequência com seus comentários oportunos e atuais, abrilhantando este blog tão consciente e dinâmico! Que sua vida seja de uma felicidade, saúde e paz constantes, junto a sua bela família, com as bençãos e graças divinas! Grande abraço!

  3. Prezado Mílton Pai,

    andei desligada dos aparelhos eletrônicos por dois dias, e perco logo a tua festa!
    Mas como sempre sobram uns negrinhos, venho correndo me juntar aos que aqui estão para te desejar um ano inteiro de dias muito melhores do que os que já passaram, com saúde, alegria espontânea, daquela que faz aflorar um sorriso e a gente nem sabe porquê e a companhia de todos os teus amados.
    Vivaaaaaaa!

    Grande abraço,

  4. Caro Milton Jung, feliz fico quando deparo com pessoas e artigos que me fazem para pensar,refletir e o melhor, seguir aquele caminho ou conselho para melhor continuar vivendo.
    Deixo os meus sinceros cumprimentos a você e em especial ao aniversariante pai Mr Jung.

  5. Ao Milton Gol Gol Gol parabéns e ao Milton Filho parabéns também, por esta postagem.
    A Voz do Rádio ou A Voz do Rio Grande era de um tempo em que jornalista dava a notícia aos seus ouvintes, diferente de hoje onde a grande maioria quer é ser notícia. Por isso não me surpreende quando o Milton Filho escreve “O que provavelmente você não saiba é que ele, apesar de ter trabalhado para o público nunca gostou muito de aparecer em público”. Não por isso, mas quem sabe também por isso, a audiência cai.
    E lamentavelmente não encontramos mais no site da Rádio Guaíba áudios da década de 60, 70 e 80 e pouca coisa na internet pra matar as saudades dos bons tempos de rádio. Rádio Guaíba, claro. Coisa de guaibeiro, criado em frente ao rádio ouvindo toda uma geração de craques do microfone.
    Dá-lhe GRÊMIO!!!!!!!!

  6. Ah, como é bom fazer aniversário. São datas necessárias para reverenciar o que já foi vivido e olhar com esperança o que está por vir. Parabéns ao pai, ao filho e que o espírito santo os abençoe, guarde e proteja para que possamos compartilhar ainda de muitos textos tão cheios de vida. Beijão

  7. Que linda homenagem Milton. Felicidades e vida longa ao seu pai. Gosto muito de lê-lo. Já até me afeiçoei àquelas vírgulinhas sem espaço que ele gosta. Parabéns a você pelo e a ele pelo filho. Brinde à família.

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