De beijo redentor

 

Por Maria Lucia Solla

De beijo redentor

Ouça “De beijo redentor” na voz e sonorizado pela autora

Como é que a gente faz para não ser babaca, não ir atrás do lero-lero, acreditando no diz-que-diz, fofocando em ritmo de bolero, perdendo tempo de ser feliz?

Quero saber quem foi que começou tudo isso que é feio, triste, sujo, que esconde o bom e alardeia o ruim, do qual eu fujo.

quero saber porque acreditamos
que ser feliz é pecado
que quem ri é palhaço
quem tem dinheiro é que é ricaço
e eu no meio disso tudo
o que é que eu faço

Peço aos deuses de todos os credos que assoprem no meu ouvido, que me façam acreditar de novo naquilo de que hoje duvido; que levem de mim o condicionamento de acreditar em tudo que é racionamento, em vez de acreditar no poder do riso, que é exatamente do que preciso.

vade retro medo
inimigo maior que bandido
que me boicota, que de mim faz chacota
que me transforma num bicho
acuado encolhido

Me coloco à mercê de um anjo para que me use, faça de mim o que for preciso para que possamos todos receber o beijo redentor que cure a nossa dor e reacenda em nós a chama da esperança e do amor. Para que minha mente e meu coração finalmente se aliem, e que a força então gerada possa de mim redimir o pecado, e eu daqui para frente possa assumir o samba e deixar para trás o choroso fado.

Deuses, se é que existem, e se existem, se é que me ouvem, e se disso tudo que eu peço algo ainda estiver sobrando, mandem pra mim um pouco.

não que eu mereça
mas antes que eu enlouqueça

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De pai e mãe

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De pai e mãe” na voz e sonorizado pela autora

Somos dependentes de deuses, da mesma forma que são dependentes de nós, os filhos. Somos dependentes, cada um na sua medida, de objetos, sensações, hábitos, entidades, crenças. Não resistimos ao invisível, intocável, inatingível, impensável. E lhes conferimos poder. Nas suas mãos depositamos a responsabilidade que deveria ser nossa.

Há deuses para todos os gostos: os que exigem algumas coisas, os que são contra outras, os que têm emoções humanas como ira, vingança, preferência; e todos têm seus inimigos também. Como nós.

Não sei como são os teus deuses, nem qual é o grau da tua dependência. Nem você sabe, mas vou enfrentar a minha, com tudo; com minhas células, meu sangue, meus músculos. Com a consciência.

Quando digo: Deus! – Criador, Pai, Mãe, Grande Ser – me dirijo a uma entidade desconhecida, raras vezes intuída, questionada, idolatrada, traduzida nas mais diversas línguas, pelos mais diversos corações.

E digo: Pai! – Mãe – dá-me força para que eu não bata o pé feito criança mimada, sempre que alguma coisa não toma o rumo que eu esperava que tomasse. Pai! – Mãe, Irmãos invisíveis, Anjos, Arcanjos, Entidades de todas as raças, de todos os credos, Devas da Natureza, Natureza – olha para mim que sou pequena, frágil, solitária e que vivo em busca do ponto de origem que mora em mim, e que é a fagulha que faz existir tudo o que deve existir. Eu sei que está ali, em algum lugar, em mim, no outro, em tudo o que é; um ponto mágico para ligar e desligar, aqui e ali, para que eu me equilibre, que possa oferecer amor, respeito, consideração, solidariedade, e para que eu aprenda a atrair para mim, o mesmo, e mais.

Pai! – Mãe, Senhor dos Mares dos Ares, da Terra, Ondinas, Fadas Silfos, Senhor da Lua e do Sol – ilumina minha consciência, para que eu, de algum modo, encontre o que procuro. Ilumina minha consciência para que ela perceba quanto ainda é pequena, e quanto espaço ainda precisa ocupar.

Mãe! – Pai, invisíveis, visíveis, faz o mesmo a todo aquele que demonstrar no coração, que busca o mesmo que eu. Mesmo que não saiba expressar esse desejo. E o mesmo a todos os outros, à minha esquerda, à minha direita, que vão lá na frente e aqueles de quem ouço os passos, ali atrás.

Você ouve? você pensa nisso? ou não…

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

A moda da Páscoa é a felicidade

 

Por Dora Estevam

Recebi um e-mail de uma querida amiga sobre a Páscoa. A mensagem me tocou muito. Tocou porque nesta época muitos se esquecem do verdadeiro amor que representa a Páscoa, do verdadeiro motivo pelo qual comemoramos ou celebramos esta passagem – a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Para a igreja talvez este seja o maior milagre da Fé, a Ressurreição.

O marketing das vendas faz o chocolate, o coelhinho, as festas, as viagens e os menus de almoço parecerem mais importantes do que a data que lembra a paixão de Cristo.

Mas devemos lembrar que a vida é maravilhosa e vai além disso. Que, às vezes, não damos o devido valor a ela. Lembramos de celebrar a vida quando estamos em apuros. E, muitas vezes, aprendemos nesses sustos.

Por isso, nesta Páscoa, desejo que você seja feliz e a cesta indicada pela amiga Ana Paula Parra seja uma maneira de dizer às pessoas o quanto elas são importantes e o quanto a amamos:

Cenas de Cristo em Olinda

Em minha cesta de Páscoa, você encontrará muitos desejos para o amor e a felicidade, para a saúde e a prosperidade, para a sabedoria e o conhecimento, e para o prazer e o relax.

Desejo a você saúde, felicidades, alegria, equilíbrio, harmonia e que consiga ir além das etapas ordinárias e descubra resultados extraordinários.

Que continue tentando alcançar suas estrelas. Que realize seus sonhos.

Que reconheça em cada desafio a oportunidade, e seja abençoado com o conhecimento de que tem a habilidade para fazer cada dia especial.

Que tenha bastante riqueza para atender suas necessidades, e sempre lembre que o tesouro real da vida é o amor.

Agradeço o seu carinho e agradeço por todas as maneiras que somos semelhantes e todas as maneiras que somos diferentes.

Agradeço a Deus, do fundo do coração, com um sorriso interno que eu desejaria que todos pudessem ver… A Ressurreição do Mundo. Pois ainda não entendiam a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dentre os mortos… (João 20:9).

Pela lei fundamental da natureza, todas as coisas se renovam constantemente, cumprem um ciclo e se renovam.

Deus deu-nos as estações – cada uma com suas próprias belezas e razão, cada uma significando uma benção, uma alegria, e o sentimento do amor.

Deus deu-nos sonhos – cada um com seu próprio segredo, cada um emitido para dar-nos sentimentos de inspiração, esperança, e tranqüilidade.

Deus deu-nos a luz do sol, o arco-íris e a chuva, a beleza e a liberdade da natureza para ensinar-nos a sabedoria.

Deus deu-nos milagres em nossos corações e vidas, coisas pequenas que acontecem no dia a dia, para nos lembrar que estamos vivos.

Deus deu-nos a habilidade de enfrentar cada novo dia com coragem, sabedoria, e um sorriso de saber.

Saber que seja o que tivermos que enfrentar é mais fácil com Deus habitando em nossos corações.

Sobretudo, Deus deu-nos amigos para ensinar-nos sobre o amor e para guiar– nos através deste mundo, e Ele está sempre disponível para ajudar-nos para uma compreensão maior e compartilhar e dar mais amor.

Eu também acredito que a felicidade está dentro de nós. Por isso, use as ferramentas que ela nos oferece para ser feliz: afagos, carinho, beijo, abraço, lágrimas, gargalhadas, olhares…Tudo isso faz parte deste kit maravilhoso.

Que o espírito da Páscoa lhe traga muita Paz neste dia especial.

Feliz Páscoa!

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo no Blog do Mílton Jung, aos sábados.

De vida e a Deus

 

Por Maria Lucia Solla


Cantando, sofrendo, chorando, amando detestando.
Enfrentando.
Escrevendo letras, calando palavras, sonhando, esperando, satisfazendo, frustrando. Vou levando.
Isso é vida! diria a mamãe.

mas isso é vida mãe
pra quem não a vive adormecida temerosa
pra quem mesmo com alma em polvorosa e carne dolorida
reconhece nela beleza grandeza
e lhe dedica gratidão no amor e na dor

em constante desequilíbrio
me pondo em pé na nave
destemida
sou louca tagarela destrambelhada
mas ponho pra fora a dualidade escancarada
e sou equilibrada e contida

Tem vezes que passo mal, de um jeito ou de outro, e meu único medo não é o de morrer, mas de deixar de viver.

mais recebo do que ofereço
mas rio mais do que me entristeço

só eu sei de mim
novelo sem fim

minha dor é só minha
por mais que os amigos queiram
que eu a divida em pedaços e lhes dê um tanto
no entanto nem tentando

posso despertar no outro
a dor de me ver doendo
mas jamais um vai poder sentir do outro
da dor nem do amor
o sabor

E curtindo ou sofrendo, me agarro à vida, que é forma visível e palpável de Deus, que decide se mereço ou não mereço; e eu, loucamente, continuo sendo a mais religiosa sem religião que conheço.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De resgate

 

Por Maria Lucia Solla


Ouça este texto sonorizado e apresentado pela autora

A Vila Cruzeiro foi ocupada, e o povo de lá se viu sob chuva de pétalas de rosas, em vez de chuva de balas. Surpresos, seus moradores assistiram a um show de policiais que faziam rapel, de um helicóptero ainda no ar, como fazem em alguns casos de resgate. Significativo.

Não entendo os meandros da política e da vida pública, daqueles que fazem e desfazem em meu nome e no teu, mas sei que por mais que a gente berre e reclame, dia após dia, das mesmíssimas coisas, por séculos, nada vai mudar. Sei também que por mais que a gente se descabele pelo que não foi feito e pelo que foi desfeito, nada vai mudar.

Mas voltando à Vila Cruzeiro, a polícia, depois do espetáculo de pétalas e da descida pela corda, distribuiu brinquedos para as crianças dali.

Na TV, vi o homem de fala mansa, que eu ouvira no rádio, dizendo que daqui para frente, tudo vai ser diferente. Acredito nele, e espero que seja mesmo. Bem diferente. Espero que os novos invasores tenham vindo para libertar e não para escravizar. Que esses homens de boa vontade possam vencer os de má vontade que seguramente estão infiltrados nos batalhões. Em vez de droga, oferecem paz.

Que homens e mulheres, daqui para frente possam ajudar a resgatar não apenas corpos, mas dignidade e sonho. Que possam compreender que do que mais precisam as pessoas que moram na Vila Cruzeiro, depois da festa e dos agrados, é respeito, porque desde que portugueses e jesuítas chegaram por estas bandas, nosso povo tem aceitado presente e promessa.

Quero me fazer entender. Acredito nesses homens, como sempre acredito no homem, até que me decepcione tanto que acabo me esquecendo, completamente, de que um dia admirava e respeitava. Pluf, cai a chave geral. Tenho claro que os antigos invasores de vilas e morros também prometiam muito, ofereciam possibilidade de crescimento na “empresa”, ofereciam morte rápida, tudo regado a chuva de bala, terror e escravidão. Os invasores da vez sabem disso, presenciaram isso durante anos até que o tempo certo chegasse – porque nada chega antes – e não vão repetir o erro. Estão do outro lado do campo, o campo do chamado bem, não é?

Entendo um pouco de gente, de gente que integra o lado do bem e de gente que integra o lado do mal, em todas as situações, e só vejo uma solução para todo esse imbróglio em que temos vivido há tanto tempo.

Respeito!

Não é a Educação para fazer do outro o que você quer que ele seja, e o levar a ser isso ou aquilo, que vai resolver. Não é a Saúde que se locupleta da nossa saúde, acariciando sintoma para alimentar grande$ grupo$, que vai resolver; nem um, nem outro. Não é com mais policiais armados na rua, gente como a gente, que se vai resolver a questão.

Não é dando dinheiro na mão do cidadão e presente em data festiva, como faziam os primeiros invasores, que vai resolver a situação.

É respeito, o primeiro ingrediente da receita. É preciso que aprendamos a respeitar o outro, sem esquecer que antes, muito antes disso, é preciso que cada um se respeite e se dê ao respeito. E é isso que a Vila Cruzeiro, os morros, os condomínios de luxo, os palácios e as taperas precisam.

quem sabe meu deus
a gente começa
enfim

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Os presentes de Natal

 

Paz e reflexão : )

O relógio não havia chegado às quatro da tarde e todos estávamos de cabelo lambido e roupa impecavelmente nova. A casa cheirava à colonia que completava o banho dos três irmãos ansiosos pelo passeio prometido. Na véspera de Natal, sair com o pai até o Morro da TV era a senha para o Papai Noel chegar e deixar os presentes embaixo da árvore. Mal aproveitávamos a bela vista de Porto Alegre que aquela altura toda nos proporcionava, queríamos mesmo é ver o tempo passar rápido, voltar e nos deliciar com os brinquedos e roupas comprados por minha mãe.

Hoje, a árvore está vazia, não há presentes nem passeio ao Morro. E não pense que o trânsito complicado, o shopping lotado e o tempo sempre escasso justificam a ausência das caixas coloridas que costumam decorar a sala. Deixamos pra lá as roupas dos filhos, a bolsa da mãe, a traquitana eletrônica que sempre agrada o pai, os DVDs, livros e lembrancinhas que satisfazem as visitas e parentes. Estas ausências não serão sentidas por ninguém.

Nossos presentes, este ano, não cabiam lá na árvore. Nossas conquistas não estavam ao alcance do cartão de crédito O bem estar que domina nosso espírito tinha preço incalculável, impossível de parcelar, o queremos sempre à vista.

Quando a noite chegar, vamos celebrar a consciência tranquila de quem buscou fazer o melhor, mesmo nas muitas vezes em que este não se realizou. Comemoraremos o equilíbrio sentimental buscado por um, o emprego merecido do outro, a força encontrada pelos que viam dificuldades, o ano saudável que se seguiu após a doença, os filhos que surpreenderam pelo carinho e amadurecimento, o resgate à vida de um ente que não era mais tão querido mas sempre foi amado – ser que descompassado faz uma caminhada que me leva a analogias com o renascimento de Jesus, personagem maior desta festa.

Vamos agradecer à Deus, não mais ao Papai Noel, por ter nos permitido preservar a nossa família e tê-la tornado mais rica de sentimentos. E por todas as demais que cresceram a nossa volta, seja com as trapalhadas típicas de quem está vivo seja com as gargalhadas que proporcionaram.

A árvore está vazia, sim. Nossa festa, porém, está completa. A mesa é farta de bons motivos. E os presentes atenderam todos os pedidos que fizemos neste ano, ao menos os que realmente importam para a vida.

São Paulo fica distante dos irmãos e do pai que permanecem no Sul – minha mãe morreu há muito anos, infelizmente. Claro que tenho saudade daqueles Natais em que subíamos o Morro a espera de presentes, mas sou muito feliz pelos que tenho recebido nestes anos todos. E por todos aqueles que os proporcionaram.

Feliz Natal !

De semente


Por Maria Lucia Solla

Zeus at Versailles

Ouça De Semente na voz e sonorizado pela autora

Estamos muito afastados do divino, e é urgente que esse elo seja restabelecido. Eu não saberia dizer como nem quando começamos a nos afastar, mas tenho pistas do afastamento, e pistas da reaproximação.

Para começar, há muito ignoramos os mitos; a ponto de lançarmos olhares enviesados, quando alguém fala de Afrodite, Atena, Cronos ou Hermes. Desprezamos o passado como se fosse bagaço, sem perceber que é na estrada esculpida por ele que eu e você caminhamos aos tropeços, por não conhecer seu traçado.

Atena é intelectual; mais cabeça do que corpo. Afrodite, ou Vênus, tem o cetro do amor e da beleza, enquanto Apolo é um deus artista que se guia pela intuição. Só para dar uma provinha do que é o Panteão.

Deletamos os deuses e usurpamos seus atributos, como crianças mimadas que roubam o Ferrari do papai e se esborracham na primeira curva. Substituímos os deuses que nos serviam de bússola, por máquinas e outras traquitanas.

Conhecendo deuses, seus mitos, suas histórias encontramos as pistas que procuramos para compreender os nossos homens, e eles podem entender a que viemos, nós as mulheres, se conhecerem um pouco das deusas.

A mulher esqueceu que representa a vida, para onde ela traz o homem, e quer ser reconhecida por algo que nem mesmo sabe o que é. Assim segue cambaleando, batendo a cabeça, feito galinha-sem-cabeça zanzando pelo terreiro, antes de mergulhar na panela. Segue sem decidir se se orgulha de ser o que é ou se quer parecer ser o que não é.

Os povos que nos precederam criaram mitos e os presentearam de geração em geração, como mantras, como oração; e nós, com toda a modernidade, esquecidos do Paraíso, em vez de abraçarmos uns aos outros, espalhamos pela Terra incompreensão e ganância, desde a mais tenra idade. Sonegamos amor; e amor é como água, se não deságua inunda, e se inunda mata.

Ah, Zeus, pai de deuses e homens, aí do teu trono no Olimpo, olha por nós que nos colocamos assim, de próprio desejo, em total abandono.

Ah, Cronos, deus do tempo e da responsabilidade, faz que percebamos da vida a finalidade.

Netuno senhor dos mares, faz que entendamos que a turbulência é só na superfície; nas profundezas de mares e amares há mais beleza que tristeza.

Somos universos em miniatura; contemos tudo, o universo inteiro, o mesmo celeiro que encontraríamos, se tivéssemos acesso aos universos fora de nós.

e na chegada do natal

agradeço pela vida

pelas vidas que gerei

pelas geradas por elas

e por todas as que fisicamente

não conhecerei

as vidas que geraram a minha

quero também agradecer

pelo que desde o início dos tempos

me permitiram perceber

Παν = todo – θεοσ =deus – Pan + Téos = Panteão.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De fim do mundo

 

Por Maria Lucia Solla

mundo de color

Ouça De Fim do Mundo na voz e sonorizado pela autora

O mundo que conhecemos vai chegando ao fim. Fácil de ver e de sentir em cada célula dos nossos corpos: físico, emocional, mental e espiritual. Escolhemos abandonar nossas forças, demos poder demais à sofisticada louça e às nossas mentiras loucas. Abrimos mão da luta com a mesma facilidade com que amassamos papel de salgadinho e atiramos pela janela. Criamos problemas onde só deveria existir amor, ferimos e somos feridos com facilidade e banalidade assustadoras. Fazemos de lixo rios, mares, estômagos, rins, fígados. Permitimos que nos violentem dentro e fora de casa, todo dia, dia a dia, pouco a pouco e nos deixamos subjugar e violentar, para facilitar o trabalho sujo.

Nossa civilização se acha especial. Nos consideramos melhores do que tudo o que sempre existiu, porque sofremos de escrachada megalomania galopante. Mas não tem sido sempre assim? O mundo que gregos e romanos conheciam também um dia chegou ao fim. Os homens das cavernas têm sido substituídos, paulatinamente, por homens que acreditam ter submetido o ferro, o bronze, os mares, os céus, ao seu prazer.

O mundo que nós conhecemos, não o conhecemos mais; entra dia, sai mês, escorrem-se os anos. Cada um no seu canto, vamos perdendo o encanto.

Vemos ratos-bandidos viajando de avião, escoltados ou não, acostumados a coordenarem incêndios, assassinatos, sequestros, peculatos, brancos e mulatos; e pelo menos agora, parte deles é retirada de suas celas-gabinetes, custeadas pelo teu e o meu dindim, a custo do teu e do meu mundo e do mundo do meu e do teu filho; do teu e do meu neto, e de todos os que estão na fila, ainda por vir, decerto.

Tem gente achando que faz pacto com Deus e que crê possível o monopólio dele; cada um proprietário do seu deus. Sob medida para os teus bolsos e os meus.

atenção fanático de plantão
deus não está só na tua
e nem só na minha mão
ele é cada célula do meu corpo e do teu
seja você beato ou ateu
muçulmano ou judeu

acorda irmão
abre o teu coração
com gestos precisos
nem que sejam precisos martelo e formão

Ouvi bem? não teria sido efeito dos remédios do hospital onde parte do dia eu passei? No rádio, boa companhia para o trajeto congestionado, dirigindo na volta para casa, ouvi um homem dizer a expressão que me animou: “polícia pacificadora”. Efeito do Berotec, morri e não percebi. Sua voz era suave, mansa; agradecia mais do que acusava.

não parecia mentira
por favor de mim a esperança não tira
tiras homens das armas se unem
valha-me deus que meus ouvidos continuem
a ouvir a paz fardada e a guerra enfraquecida
a ouvir cada mãe de seu filho envaidecida

valha-me deus que eu não esteja delirando
que eu veja pai e filho se abraçando
filho e mãe se respeitando
amantes se beijando e amor muito
muito amor jurando

valha-me deus que eu esteja certa
que apesar do coração que hoje aperta
apesar de vermos de perto todo dia a morte
venhamos a ter cada dia melhor sorte

valha-me deus que eu continue a cada dia
a fé no amor descrevendo
e da dor pouco a pouco esquecendo

que escorra pelo esgoto o mal
que escoe pelo ralo cada copo de boa-noite-cinderela
que príncipe e cinderela se respeitem
ela a ele ele a ela

então bom dia cinderela
que o sonho
do jeito que você sonhava
acabou.


Maria Lucia Solla é teraopeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Dele


Click to play this Smilebox slideshow
Create your own slideshow - Powered by Smilebox
Make your own picture slideshow

Por Maria Lucia Solla

ora se não havera de haver um plano
ou será que o traçado divino
é passível de engano

tudo é ele
e tudo vem dele
que não cerceia
não vai te por na cadeia

sem ser passível dele
ele é o engano também
e na sua grandeza infinita
na sua obra bendita
não dita regras
não proíbe não incita

dá liberdade que também é ele
pra que se possa escolher
o que se quer ser
ou pelo menos aceitar
o que não se pode mudar

a escolha é infinita
dentro da sua grandeza
a gente pode escolher
se quer a feiúra ou a beleza

se mora no bangu
ou em santa tereza
se vai levando
ou prefere morrer de tristeza

e a gente tem pose demais
e consciência de menos
acerta menos e erra mais

no primeiro ano da escola
era preciso urgente
ensinar que é uma escolha
escrever ou não
da primeira à última folha

que não é preciso
provar tudo o que encontrar
pra saber o que vai te derrubar
e o que vai te levantar

e mostrar que nada é impossível
mas que nada é de graça

que você pega o que te agradar
mas que sempre haverá de haver
um preço a pagar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Sinfonia da Água

 

Luciah Rodriguez
Ouvinte-internauta

Água

“No princípio, criou Deus os céus e a terra. Ela estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”.

De fato, o Criador, em sua sabedoria infinita, chamou todas as coisas, deu ordem a tudo o que se encontrava desordenado e as colocou em seus respectivos lugares. As águas, fontes de vida, chamou-as à serenidade e lhes deu a missão de nutrir a terra com os seus rios, mares, poços… pois sabia da extrema utilidade desse líquido e, no auge de sua criação, a sua luz resplandeceu sobre todos estes seres.

Tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento, há muitas referências sobre a água, esse líquido que nasce no seio da mãe Terra, e que no Novo Testamento está assim escrito: “Da Galileia foi Jesus ao Jordão ter com João, a fim de ser batizado por ele”; “Depois que Jesus foi batizado, saiu logo da água” .

A água representa ainda o despertar interior para as coisas do alto, o enlace do homem com Deus, mediante um mergulho nas águas do Espírito: “Minha alma está sedenta de vós, e minha carne por vós anela, como a terra árida e sequiosa, sem água” Esse precioso alimento foi também utilizado, simbolicamente, como água viva ou Espírito Divino.

Quando Jesus se aproximou da mulher samaritana e lhe pediu água -”Dá-me de beber”, Ele utilizou água como algo indispensável ao corpo, para saciar a sua sede. Mas, advertiu à mulher que esse líquido valioso é ainda a representação mais perfeita de um grande mistério que só, espiritualmente, pode-se discernir, e que Ele mesmo daria de beber dessa água a quem lhe pedisse, como disse à samaritana: ” – Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: Dá -me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma, e ele te daria uma água viva

São várias as citações em que a água se destaca pelo seu valor majestoso para a vida. Como é mostrado no primeiro milagre de Jesus em Caná da Galileia, com a transformação da água em vinho. Moisés também flutuou entre a vida e a morte no cestinho sobre o rio Nilo, até ser salvo.

E, quem não se recorda, no Antigo Testamento, das águas da contenda, aquela que saiu do rochedo, tocada pelo cajado de Moisés por ordem divina? Se desde a Criação o Espírito de Sabedoria pairava sobre as águas, quem sabe a água que você bebe, toma banho a utiliza para a sua sobrevivência, tem a força da energia dessa era do iniciar.O uso consciente da água é gratidão a natureza a esse símbolo majestoso da vida! – a Água. Ela é parte maior da história do planeta terra , que poderia ser conhecido pelo nome de ” planeta Água”.

Portanto, a história do homem tem sempre o seu encontro com a água, desde o ventre materno, o líquido essencial para sobreviver, no momento do batismo, na hora da preparação do alimento ou na hora do banho. É preciso entender que a água faz parte da essência do sagrado que brota do seio da mãe Terra. O símbolo contínuo da essência da vida!

Que não seja permitido cair sobre os rios, as fontes, os mares, os lagos, nenhum dejeto que venha poluir esse elemento precioso Que sejam poupadas as árvores que rodeiam as encostas dos rios, os manguezais, toda as florestas que cobrem a superfície desse planeta, que ajudam a germinar vida em todas as espécies. Que nos movimentos da terra e dos mares essas águas precipitam para os céus e se formam de nuvens de chuva, que descem para irrigar o planeta e alimentar a terra com gotículas de água.

Como escreveu o Profeta: _ “Não façais mal a Terra, nem o mar, nem as árvores…” A água é vida”. Beba água é agradeça ao Criador!!!!!