Entidades pedem ônibus de graça no Dia Sem Carro

 

Este texto foi publicado originalmente no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

Cruzamento insano

 

A imagem do prefeito Gilberto Kassab (PSD) está cada vez mais complicada diante do paulistano. Desde que passou a se dedicar a montagem de seu partido e deixou a administração da cidade em segundo plano, a opinião pública tem rejeitado o governo dele. Kassab apostava no início da campanha eleitoral quando esperava que o candidato da situação José Serra (PSDB) defendesse a administração dele, mas a prioridade do tucano tem sido outra com a queda nos índices de intenção de voto. O prefeito não aparece na propaganda do PSDB, não tem seu nome defendido pelos candidatos a vereador pelo PSD e somente é citado pelos oposicionistas com críticas. Resultado: pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada nesta semana, mostra que quase metade (48%) dos entrevistados consideraram o governo dele péssimo e ruim, uma marca para entrar na história.

 

Com esse cenário negativo, bem que o prefeito Kassab poderia aceitar a proposta feita pela Rede Nossa São Paulo para, ao menos, ganhar alguma simpatia do paulistano. A entidade e mais 33 organizações da sociedade civil entregaram ofício na Prefeitura de São Paulo pedindo que o acesso a ônibus, metrô, trens e trólebus seja de graça durante todo o dia 22 de setembro, um sábado, quando se comemora o Dia Mundial Sem Carro. A intenção do movimento é reforçar a realização de campanhas e programas para ganhar adeptos ao não uso de carros. Conforme a organização, o acesso gratuito ao transporte público oferecece ao cidadão “uma experiência fundamental de valorização da mobilidade inclusiva, democrática e de menor impacto ambiental, além de atender à Política Nacional de Mobilidade Urbana (estabelecida pela Lei 12.587/2012), sancionada no início do ano, que prioriza o transporte público coletivo e não motorizado.”

 

O prefeito Gilberto Kassab ainda não respodeu aos pedidos e, pelas experiências dos anos anteriores, vai desperdiçar também esta oportunidade de melhorar sua imagem diante do cidadão.

 

Já você que me acompanha neste post terá à disposição uma série de outras ações que marcarão a Semana Nacional de Mobilidade, que se realizará entre 16 e 22 de setembro. Veja aqui a programação completa.

 

A seguir, reproduzo algumas das demandas dos movimentos que estão unidos com o intuito de transformarem a cidade de São Paulo a partir de medidas na área de mobilidade. Estas reivindicações fazem parte do Plano Municipal de Mobilidade e Transportes Sustentáveis para a Cidade que deve incorporar diretrizes estratégicas e necessárias para garantir o acesso à cidade para todos os cidadãos, tais como:

 

– Prioridade ao transporte público, com ampliação da rede de metrô e implantação nas principais vias da cidade de corredores expressos de ônibus que possibilitem a ultrapassagem;

 

– A adequação das calçadas aos pedestres, cadeirantes e a todos os que nelas circulam. A Secretaria Municipal de Transporte poderia instituir um departamento para construir e fiscalizar as calçadas;

 

– A criação de um plano de 500 quilômetros de ciclovias, somados a redes complementares nas 31 subprefeituras, e a integração delas com o transporte público;

 

– O adensamento populacional nas áreas centrais da cidade, que possuem melhor infraestrutura, e estímulo à descentralização de serviços e atividades para os bairros e subprefeituras da cidade – as duas medidas em integração com as políticas de habitação;

 

– O estabelecimento de metas para cumprir o plano e um programa de educação sobre mobilidade com o objetivo de mudar o comportamento de motoristas, pedestres e ciclistas;

 

– Participação popular na execução do plano, com a eleição e o funcionamento do Conselho Municipal de Transportes, bem como a criação de uma comissão de acompanhamento das medidas.

 

Paulistano perde um mês por ano no trânsito

 

Cruzamento insano

O paulistano perde mais tempo nos congestionamentos e na fila do ônibus, e anda cada vez menos a pé. E, neste cenário, considera que problema do trânsito está se agravando na cidade. Estas são algumas da conclusões da quinta edição da pesquisa sobre mobilidade urbana encomendada pela Rede Nossa São Paulo ao Ibope apresentada nessa quarta-feira, véspera do Dia Mundial Sem Carro.

Após ouvir 805 pessoas, o Ibope identificou que o tempo médio de deslocamento gasto no trânsito diariamente passou de 2h42 em 2010 para 2h49 em 2011. 19% dos entrevistados disseram que perdem mais de 4 horas nos congestionamentos que também atrapalham a vida de quem depende do transporte público. Comparado a pesquisa do ano passado, mais pessoas dizem que aumentou o tempo de espera nos pontos de ônibus. Se antes 34% tinham esta percepção, hoje 47% pensam assim. Com resultados como esse não é de se surpreender que mais da metade (55%) considera o trânsito péssimo.

Durante apresentação dos dados, Oded Grajew, coordenador da Rede Nossa São Paulo, disse que “é como se as pessoas passassem um mês por ano no trânsito”.

Leia post completo no Blog Adote São Paulo, da revista Época SP

Dia Mundial Sem Carro é uma chance que temos

 

Cartaz dia mundial sem carro

O Dia Mundial Sem Carro motivou os alunos do CIEJA – Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos do Butantã – a refletirem sobre a mobilidade urbana, a qualidade do transporte público, a prioridade ao automóvel e o impacto destas políticas na saúde da população. O projeto é organizado pela professora Elisabet Gomes de Nascimento que enviou o material produzido durante o mês de setembro pela turma do módulo 4, que corresponde a 7a. e 8a. séries do ensino fundamental. Aproveito este dia 22 de setembro para publicar o resultado do trabalho, a começar pelo cartaz desenhado pela aluna Osmarina Soares de Carvalho que ilustra este post coletivo:

“MANIFESTO – DESABAFO” (alunos do módulo 4-O)

Nós que andamos por São Paulo, observamos e sentimos na própria pele, o quanto esta cidade é hostil para quem anda a pé e para o ciclista. A começar pelas péssimas condições de circulação das calçadas e sem falar no desrespeito a faixa de pedestre, além da falta de ciclovias e ciclofaixas. O poder público deveria investir prá valer em metrô, trem de superfície, corredores de ônibus em toda a cidade. Deveria também oferecer desconto no IPTU para as empresas, condomínios e prédios residenciais, que praticassem a carona solidária. Quantos amigos faríamos diminuindo a solidão motorizada? Quantos automóveis deixariam de circular e como melhoraria o trânsito na cidade? Sem falar na melhoria da qualidade do ar. Já pensou quanto tempo ganharíamos a mais com nossas famílias, descansaríamos mais, teríamos mais tempo para estudar, para ler, para o lazer? Quantas vidas pouparíamos? Estamos desabafando e sugerindo tudo isso, estimulados pela “Semana da Mobilidade e Dia Mundial sem Carro”. É uma chance que temos de nos fazer ouvir.

MEU DIA SEM CARRO
Por Mario A. Silva, 55 anos

Depois de muito tempo sem usar transporte coletivo e com meu carro no rodízio, eu precisava ir ao centro da cidade. Pedi o carro emprestado para minha filha, mas justamente neste dia ela levaria minha neta ao médico. Pensei, não tem outro jeito: o negócio é enfrentar este terrível transporte coletivo (só ouço falar mal dos transportes públicos).

Fui dormir já pensando no sofrimento do dia seguinte.

Saí de casa às 8 horas e depois de esperar por trinta minutos, embarquei e comecei minha viagem. Paguei a passagem com um tal de bilhete único com o qual a pessoa tem direito de trafegar durante três horas e usufruir de até quatro conduções pelo valor de uma passagem. Havia lugares vazios, me sentei e comecei a reparar, que à medida que as pessoas iam entrando, se cumprimentavam como se fossem velhas conhecidas. Uns aproveitavam para tirar um cochilo, sei lá, ou mesmo fingindo para não ceder lugar aos idosos e mulheres com crianças de colo.

Celulares e tablets não faltaram no ônibus, além do velho e bom livro e jornal. Alguns devoravam a leitura, até liam em pé.

Chegando na estação do metrô, vi centenas de pessoas se aglomerando e se apertando a espera do trem. Me perguntei, e agora? Apesar do empurra-empurra entramos todos, os mais ligeiros conseguiram se sentar. Tudo organizado. Trens modernos com serviço de informações anunciando as próximas estações, ar condicionado, tudo limpo.

Fiz várias baldeações e não avistei nenhum ambulante ou coisa do gênero. Cheguei ao meu destino: a Estação da Sé. Reparei que tem farmácia popular, lanchonetes, banca de jornal, balcão de informações e um aparato de seguranças para zelar pelo bem estar dos usuários. Quando estava retornando para casa, encontrei um amigo que me ofereceu carona. Agradeci e recusei pois fiquei tão entusiasmado com a ida que quis curtir a volta também de coletivo.

Sei que não posso negar para as falhas que ainda existem no transporte público. Não está no ideal, mas está caminhando no rumo certo. Parabéns aos governantes que tentam fazer o melhor para a população.

Gastei apenas R$6,00 reais. Andei um trajeto de uns 40 quilômetros ida e volta, num espaço de três horas, sendo que o que mais demorou foi o ônibus uma média de trinta minutos. Se tivesse ido de carro teria demorado bem mais e não teria aproveitado o passeio.

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Encare essa: Desafio Intermodal 2011 é amanhã

 

Desafio Intermodal 2009Imagem do Desafio Intermodal de 2009, realizado em São Paulo

 

Felipe Aragonez, do Instituto CicloBR, convida o paulistano a participar do Desafio Intermodal 2011, amanhã, terça, dia 20 de setembro, em São Paulo. Por dois anos participei do evento que alerta para a importância de a cidade ser diversificada também nas opções de transporte para seus cidadãos. Na primeira, encarei o helicóptero que perdeu para uma bicicleta; na segunda, ano passado, botei o pé no pedal e fiz o maior percurso que havia realizado até então, em meio ao trânsito confuso de São Paulo. Bem orientado e com tranqulidade cheguei à prefeitura de São Paulo. Cansado, sim, mas muito satisfeito por ter ajudado a mostrar que é possível mudar o foco de uma cidade quando se pensa no coletivo. Leia o texto do Aragonez e se não der para entrar nop Desafio, use a proposta para repensar seus hábitos:

 

Qual meio de transporte é mais eficiente nos deslocamentos urbanos? Essa é a pergunta que o Desafio Intermodal, pelo sexto ano consecutivo, se propõe a responder.

Cerca de 15 pessoas participarão em diferentes modais, como carros, motos, ciclistas, cadeirantes e pessoas integrando os transportes públicos como ônibus, Metrô e Trem. Eles serão testados pelo tempo gasto para se chegar ao destino final, o custo que cada um gera e quantos quilos de gás carbônico emitem. Ou seja, não basta chegar em primeiro lugar, os impactos ambientais também serão importantes.

O Desafio pretende mostrar as infinitas possibilidades de se locomover pela cidade além de analisar o desempenho do transporte público ano a ano.

Como o Desafio Intermodal faz parte dos eventos que promovem o Dia Mundial Sem Carro, ele será realizado no dia 20 de Setembro (terça feira).

A saída acontece na Praça General Gentil Falcão, altura do número 1.000 da avenida Eng. Luis Carlos Berrini (ver mapa), às 18h00 em ponto. Cada participante deverá chegar ao prédio da Prefeitura do Município de São Paulo com o seu modal.

As Regras

O tempo computado será o deslocamento completo da pessoa e não do modal. Portanto, levaremos em conta o tempo que a pessoa leva até o modal e o tempo que ele perderá para estacionar o veículo. Como o ciclista desmontado se equipara a um pedestre, o único veículo que não será necessário estacionar é a bicicleta.

No deslocamento deverão ser respeitadas todas as regras de trânsito, os pedestres terão que atravessar na faixa, a não ser que ela esteja a mais de 50 metros. Nesse caso, segundo o art. 69 do CTB, ele poderá atravessar no local que considerar mais seguro.

O pedestre corredor terá que correr na calçada, caso isso não seja possível, será tolerado que ele use a rua.

Todos os participantes estarão uniformizados.

A relação dos modais a serem avaliados

Pedestre caminhando
Pedestre correndo
Ciclista por vias rápidas
Ciclista por vias calmas
Ciclista por vias calmas (feminino)
Ciclista + Metrô com bicicleta dobrável
Motociclista
Automóvel
Ônibus
Trem + Metrô
Trem + Ônibus
Ônibus + Metrô
Cadeirante
Programação do Desafio

17h00 – Início da Concentração Na Praça Gal Gentil Falcão e atendimento a imprensa.

17h45 – Alinhamento dos participantes e explicação das regras do desafio

18h00 – Será realizado um contato telefônico com um representante da organização do desafio, lá na Prefeitura e ele dá a largada pelo viva-voz do celular.

Nesse momento as pessoas se dirigem até o seu modal e cada um faz o trajeto que achar mais conveniente.

18h25 – Previsão de chegada dos primeiros participantes em frente à Prefeitura de São Paulo

20h00 – Previsão de chegada do último participante

Locais e data

20 de setembro de 2011 (terça-feira)
Partida: Praça General Gentil Falcão – Brooklin (Altura do número 1.000 da avenida Eng. Luis Carlos Berrini) (ver mapa)
Chegada: Prédio da Prefeitura ao lado do Viaduto do Chá.

Felipe Aragonez
Secretário Geral

Instituto CicloBR

Semana da Mobilidade começa nas calçadas

 

Calçada na Barata Ribeiro

Todos nós somos pedestres diz a campanha da CET que promove o respeito as faixas de segurança (muito bem-vinda, por sinal). Busca alertar para o fato de que o mesmo motorista que põe em risco a vida do cidadão quando não para antes de uma faixa, a qualquer momento terá de atravessar a avenida a pé e será alvo do mesmo comportamento. Fico pensando se o prefeito Gilberto Kassab e seus assessores prestaram atenção nesta ideia. Não me parece, dada a falta de prioridade que os mesmos têm quando o tema é a principal via usada pelos pedestres: a calçada.

Sei que ao ler este primeiro parágrafo (se é que alguém o lerá), o pessoal da comunicação da prefeitura vai disparar uma resposta com uma dezena de dados tentando provar o contrário. Pode mandar, mas não vão me convencer. E duvido que convençam qualquer outro paulistano que tenha tido a necessidade de caminhar na cidade, por menor que seja o percurso. É lamentável o estado de boa parte dos 32 mil quilômetros de calçadas que temos (não calculo aqui os que não temos e deveríamos). Pior mesmo apenas a situação para aqueles que têm dificuldades próprias de locomoção. Cadeirantes e deficientes visuais, por exemplo. Idosos, sem dúvida. E, até mesmo, a saudável mãe de recém-nascido, que sabe quanto é complicado empurrar o carrinho do bebê de uma esquina a outra.

De tanto caminhar e reclamar nos mais variados fóruns – Câmara, Ministério Público, audiências públicas, ONGs, seminários, etc -, a gerontóloga Asuncion Blanco se transformou em porta-voz dos pedestres. Hoje, é coordenadora do Grupo de Trabalho de Mobilidade Urbana da Rede Nossa São Paulo e coleciona uma quantidade enorme de fotografias e casos incríveis de calçadas mal cuidadas. “Costumo dizer que as calçadas de São Paulo não fazem a curva, você tem um pedaço correto aqui, mas você não consegue fazer a curva sem encontrar um problema”, me falou em conversa que tivemos sobre a abertura da Semana da Mobilidade, nesta sexta-feira, dia 16.09, no salão nobre da Câmara Municipal de São Paulo, às 9 e meia da manhã. Não por acaso, os pedestres, ao lado dos ciclistas, serão o centro do primeiro debate de uma série que se encerrará no dia 22 de setembro, o Dia Mundial Sem Carro.

Leia a reportagem completa no Blog Adote São Paulo, da revista Época SP

Acompanhe aqui a programação da Semana da Mobilidade.

O Dia Sem Carro na sala de aula

 

Os alunos do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos do Butantã foram provocados a debater em sala de aula sobre a Semana da Mobilidade e o Dia Mundial Sem Carro. O trabalho foi desenvolvido pela professora Elisabet Gomes do Nascimento para que os estudantes pensassem soluções para a questão da mobilidade e do transporte público. Textos de sites como o do Nossa São Paulo e deste blog foram utilizados e o resultado do trabalho reproduzo a seguir:


1 – Dia Mundial Sem Carro

De carro ou bicicleta?
Incentivar as pessoas
Ainda não tem metrô nem ciclovias suficientes

Mostrando que somos capazes de ficar
Um dia sem carro
Não esquecendo que o pedestre
Deve ter prioridade
Inspeção veicular ajuda, mas não resolve
Assim o povo se conscientiza
Lutando para vencer a poluição

Sempre que saimos à rua
Encontramos congestionamentos
Metrô é parte da solução

Comece hoje a deixar seu carro em casa
Ande de bicicleta ou experimente ir a pé
Repense seus hábitos
Respeite faixas e sinalização
O planeta  agradece

Alunas: Telma Lopes Galhardo Dias;Maria do Carmo R. Monteiro; Tatiane Vieira

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No Dia Sem Carro, jornalista e ciclista

 

Sou jornalista há 26 anos, blogueiro há quatro e ciclista há uma semana. Tudo bem que pedalo desde guri em Porto Alegre, mas nunca muito além do meu quarteirão, limite que mantive em São Paulo. Havia feito passeios de bicicleta na Cidade do Cabo, durante a Copa do Mundo da África, mas foi semana passada que arrisquei o primeiro desafio. O segundo foi neste Dia Mundial Sem Carro e foi o mais difícil pois, além de distante, fiz o percurso na ida e na volta – interminável volta que se encerrou diante de casa quando completei 39km em um só dia – com interrupções, lógico.

Escrevo ainda sob o efeito da pedalada. No corpo, nas pernas em especial, e na cabeça, também. Haja fôlego e preparo físico para percorrer ruas e avenidas que separam minha casa, na zona sul, da rádio, próximo ao centro. Mesmo que algumas destas vias tenham ares bastante agradáveis, em especial no Butantã e nos Jardins, atravessar a cidade é tarefa hercúlea – para usar expressão dos tempos de meu pai – para um neófito como eu.

Dia Mundial sem Carro - Floriano Pesaro e Milton Jung

Meu guia de pedal, Mig, foi excepcional para a ida. A volta tive de fazer na cara, na coragem e no resto de fôlego que tinha.

Pelo plano de viagem do Mig, fugimos das vias mais movimentadas o quanto foi possível. Em vez de Francisco Morato ou a inclinada Giovanni Gronchi, começamos na avenida Pirajuçara e Eliseu de Almeida. Pista larga em boa parte do percurso, apesar da obra que segue no canteiro central, mas com caminhões e ônibus. E uma pista simbólica para entender as prioridades de uma prefeitura que adora fazer mizancene no Dia Mundial Sem Carro.

Ali deveria ter sido construída uma ciclovia. Promessa de prefeito em 2007 com projeto desenhado e tudo mais. Por enquanto, só tem lama. E a CET envia nota dizendo que o plano da prefeitura está sendo readequado, sem prazo para terminar o tal estudo, menos ainda iniciar a tal obra. Será que erraram na primeira vez ? Os 750 ciclistas que usam a vida diariamente vão esperar sentados no selim.

Passar por dois quarteirões da Vital Brasil nos obrigou a andar entre os carros. Calma lá ! Estavam todos parados, assim como os ônibus. E logo que algum deu sinal de se movimentar, já havíamos vencido esta etapa.

Cruzar a ponte Euzébio Matoso foi tenso. Aliás, cruzar as pontes é sempre tenso quando se está de bicicleta. Mas deu pra vencer o percurso e logo fugir para o início da Rebouças, na esquina com a Marginal Pinheiros. Dali pra frente, uma sequência de belas alamedas, árvores na calçada, praças e “ouve o passarinho cantando”, chamou-me atenção meu tranquilo colega de pedal.

Difícil foi encarar a Bela Cintra e seus quarteirões finais, íngremes, intermináveis para meu (des)preparo, logo ali para quem já pedala há algum tempo. Mas superá-lo, mesmo que empurrando a bicicleta em uma das quadras, tinha duas motivações: encontrar a turma toda na Praça das Bicicletas, na avenida Paulista com Consolação, e depois descer o resto do percurso até a rádio.

Dia Mundial Sem Carro - praça do Ciclista

Entre um gole de suco, frutas e barrinhas de cereal conversei com muita gente que havia estacionado na praça. A primeira reivindicação veio do Carvalho, funcionário de banco, que pedala todos os dias, mas sente falta de um banheiro com chuveiro na agência. Dificuldade enfrentada pela maioria dos ciclistas-trabalhadores. Felizmente, a CBN pode ser incluída na lista das empresas amigas da bicicleta. O banho foi o prêmio que recebi logo que cheguei por lá.

Houve quem reclamasse da falta de respeito com o ciclista. Devo ter tido sorte de iniciante. Pois nos 14km do Desafio e nos 39km do Dia Sem Carro o grau de risco foi muito baixo, o confronto com os carros e ônibus não foi evidente, e notei motoristas segurando no freio para permitir a passagem da minha bicicleta. Ouvi uma só buzinada na volta pra casa de alguém que parecia gritar para mim: teu lugar é na calçada ! Não é, mesmo.

É preciso, aqui, deixar esta questão bem explicada: evidentemente que quanto mais você pedala, maior é o risco. E quanto mais você pedala de maneira arriscada, o perigo é eminente. Mesmo que a rua seja espaço público e, portanto, a bicicleta teria de estar incluída nela, não adianta partir para o enfrentamento, o ciclista é o elo mais fraco nesta corrente, só superado pelo pedestre.

Por falar em calçada, dado o caminho privilegiado que fiz, fiquei satisfeito em ver que boa parte delas tinha guia rebaixada, sinal positivo para a civilidade que deve prevalecer no ambiente urbano.

Mig foi meu guia no Dia Mundial Sem Carro

Após 1h10 de pedalada, com mais meia hora de conversa na Praça do Ciclista, chegamos a CBN. Suado, sim, mas extremamente acelerado para trabalhar, ainda mais com o banho antes de entrar no ar. Havia entre os colegas da redação um espécie de espanto pela minha tarefa, principalmente ao ouvirem a promessa de que retornaria para casa no pedal. O Leonardo Stamillo, nem tanto. Ele é ciclista de verdade e hoje também estacionou a bicicleta no estacionamento da rádio.

Quem sabe seja possível incentivar outros companheiros de trabalho a usarem a bicicleta. E, em breve, tenhamos um número razoável de jornalistas ciclistas. Sugiro apenas que nas primeiras tentativas, façam percursos menores do que o meu. E se forem, respirem bem, antes de voltar.

Meu retorno foi bem mais demorado e sem a orientação do Mig. Mesmo por caminhos mais amenos, a perna estava muita pesada e, às vezes, tinha dificuldade para encontrar ar para os pulmões (sem contar que muitas vezes quando o encontrava vinha sujo pela descarga dos carros ou pelo pó das obras). Parei em vários pontos, bebi muita água, sentei na calçada, respirei até o batimento cardíaco baixar os 200 bpm.

Fui mais inseguro no caminho, mas aproveitei o embalo das pedaladas o quanto pude. Tive que cruzar a ponte Cidade Jardim e não foi muito fácil, não. Peguei avenidas mais longas e alcancei novamente a Elizeu que me pareceu bem mais extensa do que pela manhã, mas cheguei a meu destino.

Estou muito cansado, claro, mas bastante satisfeito com o resultado e a expectativa de incluir a bicicleta no meu cotidiano. Ainda não para as distâncias que percorri nestes dias, mas para trechos que estejam ao meu alcance e que vão bem além do quarteirão do tempo de criança.

Logo após o banho em casa, me preparo para esticar as pernas e descansar. Ledo engano, o rapaz do Censo bateu na porta. Profissão: jornalista e ciclista, brinquei com todo meu atrevimento.

NB: Na primeira foto, meu bate-papo com o vereador Floriano Pesaro (PSDB); na segunda, a mesa que nos esperava na Praça do Ciclista; na terceira, na frente da CBN e ao lado do meu guia, Mig

Estou de saída e hoje vou pedalando !

Vou tentar mais uma vez. Depois de completar o percurso de 14 quilômetros do Desafio Intermodal, vou encarar 18 pedalando no Dia Mundial Sem Carro. Na primeira vez não havia compromisso com o tempo, apenas com a causa. Desta vez, tenho de estar atento aos dois.

Para quem está acostumado com a bicicleta como meio de transporte, tarefa simples. Para mim, sempre um desafio.

Saio logo cedo de casa, próximo do Portal do Morumbi, e vou para o bairro de Santa Cecília, quase no centro, onde está a rádio CBN. Lá “bato ponto” às 10:02, assim que a vinheta do CBN SP vai ao ar. Meu “guia do pedal” Marcelo Mig disse que é bom sair às 7 e meia da manhã e não ter necessidade de acelerar o pedal. Cheguarei, se o previsto ocorrer, com boa antecedência.

Ele também me fez vários alertas: não esqueça o capacete; óculos para proteger é importante, e de preferência troque os pneus por modelo mais apropriado ao asfalto. Luz de alerta na frente e atrás, luvas, câmbio ajustado e espaço para o celular que vai gravar parte do trajeto foram cuidados que eu acrescentei na lista.

Vou sair pela avenida Eliseu de Almeida para fugir da complicada Francisco Morato. Apesar dela não ser grande coisa, também, era lá que deveria haver uma das muitas ciclovias prometidas na cidade. Se tudo der no tempo certo, encontrarei uma turma de ciclistas lá no fim da Bela Cintra para recuperar o fôlego da subida até o espigão da Paulista. Dali pra frente, é só descida.

O que interessa mesmo é me convencer de que posso usar a bicicleta sempre que sentir necessidade. E chamar atenção para o fato de que a cidade precisa se adaptar a este modelo de transporte, também.

Se não somos capazes de criarmos pistas específicas e mais seguras que sejamos de construir uma consciência cidadã em favor da bicicleta.

Até mais !

“Bicicleta pode criar cidadão mais consciente”,diz Ciclo BR

 

Desde ontem recebo enorme quantidade de mensagens via e-mail, blog ou Twitter a propósito da participação no Desafio Intermodal 2010. A maioria me incentivando a seguir no pedal. Prometo que vou insistir. Mas quero dividir com você o comentário publicado neste Blog pelo André Pasqualini, do Instituto CicloBR para que possamos entender melhor o espírito do Desafio Intermodal 2010. Ao André e equipe que organizaram mais este evento, meus parabéns. Ainda quero registrar a importância de se ter ao lado um guia com a experiência, paciência e desejo de ensinar como foi meu caso que em todo o trajeto teve a orientação do Mig. Que possamos compartilhar novas pedaladas.

Vamos ao texto do André:

O Desafio Intermodal não é uma competição, embora muitas pessoas e, às vezes, até alguns participantes encarem dessa forma.

Realizamos o Desafio há cinco anos. Desde o começo a ideia é comparar os modais ano a ano e o trajeto é o mesmo até para facilitar essa comparação. Mas por mais que a organização se esforce, infelizmente, parte da mídia encara o Desafio como uma corrida maluca.

O Desafio serve para inúmeras coisas. Primeiro mostrar às pessoas que o carro não é a única opção para deslocamento nessa cidade, até a ciclista Cycle Chic, que pedala com roupas casuais e num ritmo tranquilo para não transpirar muito, chegou antes do carro. Até skate e patins chegaram antes do carro.

Infelizmente, a modalidade transporte público, apesar de uma melhora, está longe de ser cativante. Infelizmente, a maioria da população quer mesmo é diminuir seu tempo de deslocamento e não está muito preocupada se sua opção faz mal a cidade. Infelizmente, ainda teremos muitos carros nas ruas, pois quem optou por transporte público ficou refém do trânsito causado por carros, sendo que a maioria deles tinha uma pessoa dentro.

Finalizando, o Desafio Intermodal serve para mostrar a sociedade que, além de haver outras alternativas ao carro, tem que, de forma urgente, cobrar para que essa injustiça com o transporte público pare de ocorrer. Mesmo se para isso ela tiver que sacrificar o espaço que hoje é dado para quem está de carro.

Os dados estão aí, agora cabe a população fazer sua parte.

E Milton, lindo seu relato, muito mais que uma corrida, um dos objetivos do Desafio é mostrar que as cidades possam ser mais humanas desde que os meios de locomoção que aproximam as pessoas da cidade sejam valorizados.

Sei que a bicicleta não vai resolver todos os problemas de deslocamento em São Paulo, mas ela pode servir para criar cidadãos mais conscientes, reforçando esse elo de amor com a cidade que é tão diferente vista de fora dos carros. Sim, nossa cidade é linda e precisa urgentemente de nós.

Abraços e muito obrigado pelo apoio, em meu nome e com certeza, em nome de todos do Instituto CicloBR.

Para mais informações sobre o Desafio Intermodal 2010 visite o site do Instituto CicloBR