Mundo Corporativo: Bruna Vaz e Fábio Rodas, da Shopper, falam do desafio de crescer rápido com visão de longo prazo

Mundo Corporativo com Bruna Vaz e Fabio Rodas
Bruna e Fábio, da Shopper, em entrevista ao Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A gente tem que ter pressa para fazer rápido, para crescer rápido, só que na hora de pensar em colher o que a gente tá plantando, tem que ter uma paciência de monge” Fábio Rodas

O varejo alimentar ainda é dominado pelo modelo tradicional: cerca de 97% das compras são feitas em lojas físicas, mesmo com o avanço das plataformas digitais e das mudanças no comportamento do consumidor. Foi nesse ambiente que surgiu a Shopper, um supermercado online criado para testar se as pessoas estariam dispostas a mudar seus hábitos — tema de entrevista de Bruna Vaz e Fábio Rodas ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

A empresa nasceu em 2015 com um experimento simples, feito na faculdade. Um site que não permitia concluir a compra. A proposta era medir interesse. “Olha, desculpa, a gente ainda não atende a sua região”, informava a página após o cadastro. A estratégia funcionou. Em poucos meses, os fundadores perceberam que havia demanda.

Depois do teste que exigiu um investimento de R$ 28 mil, o passo seguinte foi iniciar a operação do negócio ainda com recursos limitados. “Éramos nós, eu e Bruna… a gente ia para o supermercado… empacotava e entregava”, contou Fábio.

Crescimento com aprendizado constante

Ao longo da trajetória, a empresa mudou de escala e de foco. Hoje, tem cerca de 2 mil funcionários, três centros de distribuição e atende mais de 120 cidades em São Paulo.

A mudança de prioridades acompanhou esse crescimento. “Lá atrás, talvez as nossas maiores preocupações era entregar o pedido e ao longo do tempo ele vai se direcionando cada vez mais para time”, disse Bruna. “Acho que o nosso principal desafio hoje em dia é formar esse time.”

A formação de equipe passou a ser central para garantir a continuidade do negócio sem dependência direta dos fundadores. Segundo ela, o objetivo é construir uma estrutura capaz de operar de forma autônoma.

A empresa também estabeleceu uma meta clara: alcançar R$ 2 bilhões de faturamento até 2027. Para isso, aposta na combinação entre crescimento orgânico e fortalecimento de parcerias estratégicas. Entre os investidores estão fundos de venture capital, a Minerva Foods e o iFood, que ampliam o acesso a conhecimento, tecnologia e base de clientes. “Quando a gente fez essa parceria, agora a gente abriu um outro leque gigante de possibilidades, dado todo o abrangência de clientes que o iFood tem”, afirmou Bruna. 

Segundo os fundadores, o avanço depende de três fatores centrais: evolução tecnológica, expansão da operação e contratação de pessoas. “A gente contrata dezenas de pessoas por semana e vamos continuar contratando”, disse Fábio.

O modelo de crescimento também foi sendo ajustado. A empresa começou com compras recorrentes mensais e, com o tempo, ampliou para compras semanais, entregas pontuais e até pedidos em poucos minutos. Ainda assim, há um elemento que permanece constante.

“O como a gente faz, ele vai evoluindo… mas sempre o pilar do encantamento tem que estar lá”, afirmou Fábio.

Esse foco na experiência do cliente se tornou base da estratégia. A lógica é simples: uma boa primeira experiência aumenta a chance de fidelização. Uma falha pode afastar o consumidor.

Tecnologia, operação e cultura

Um dos aprendizados mais relevantes veio de um erro. No início, a Shopper tentou usar tecnologias de terceiros. A decisão gerou problemas operacionais.

“A gente sofreu muito e a gente aprendeu na pele que não seria o caminho”, disse Fábio.

A partir dessa experiência, a empresa decidiu desenvolver seus próprios sistemas. A mudança reposicionou o negócio. “A gente teve que se tornar uma empresa de tecnologia que faz supermercado.”

A operação passou a ser desenhada a partir da experiência desejada pelo cliente. Primeiro define-se o resultado. Depois, os processos. Por fim, a tecnologia que sustenta essa estrutura.

A cultura interna também acompanha essa lógica. Em momentos de pico, funcionários de diferentes áreas atuam diretamente na operação. O objetivo é manter o padrão de entrega e identificar falhas no processo.

Longo prazo em um ambiente de urgência

O tempo necessário para construir um negócio, especialmente considerando que tudo se iniciou quando Bruna e Fábio tinham pouco mais de 20 anos, foi um dos principais ensinamentos que tiveram durante a experiência com a  Shopper.

Bruna destacou a dificuldade de manter o foco em um horizonte mais longo. “O pensamento de longo prazo, ele é importante, ele é difícil”, afirmou. “Depois de 10 anos, eu vi quanto isso foi importante.”

Fábio complementou com a lógica que orienta a gestão da empresa. “A gente tem que ter pressa para fazer rápido… só que na hora de pensar em colher o que a gente tá plantando, tem que ter uma paciência de monge.”

A combinação entre velocidade na execução e paciência na estratégia resume o modelo adotado pelos fundadores. Um equilíbrio que, segundo eles, só se comprova ao longo do tempo.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Wender Starlles, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: Antônio Carlos Aguiar fala dos desafios do trabalho na era digital

Bastidor da gravação com Aguiar, no estúdio da CBN. Foto: Priscila Gubiotti

“Então, não dá mais para fazer aqueles planejamentos que nós fazíamos de cinco, de 10 anos, porque eu não sei o que vai ser. Nem o mercado de trabalho a gente sabe mais o que é.”

Antonio Carlos Aguiar, advogado

A evolução tecnológica tem reformulado as bases tradicionais do trabalho, criando um novo paradigma onde as relações laborais precisam ser tão ágeis quanto as mudanças sociais e tecnológicas que as impulsionam. Neste contexto, o advogado Antônio Carlos Aguiar, especialista em direito do trabalho digital e disruptivo e autor do livro “Direito do Trabalho 2.0 – digital e disruptivo”, compartilhou suas perspectivas no programa Mundo Corporativo da CBN.

Transformação Digital no Ambiente de Trabalho

Durante a entrevista, Aguiar enfatiza que o cenário atual exige uma nova abordagem nas relações de trabalho, onde até mesmo a legislação existente, como a CLT, parece não mais atender completamente às necessidades atuais.

“O trabalhador tem um mindset digital na prestação do trabalho dele com visão de startup, do mundo do Século 21, do mundo com viés digital e não mais aquele mundo analógico, onde tinha para proteção do trabalhador uma CLT , alguma coisa mais formal”

O advogado pontua a importância de entender que estamos em um ecossistema trabalhista onde tem inclusive stakeholders que optam por sequer trabalhar e têm de ser respeitada essa opção” A flexibilidade e a informalidade, que antes poderiam ser vistas como precarização, hoje são entendidas como parte de um ambiente de trabalho que valoriza a autonomia e a contribuição individual de maneira não tradicional.

“Então, as relações de trabalho tem que acompanhar as mudanças das relações sociais e a visão de propósito que a nova geração tem”.

Antonio Carlos Aguiar também discute a interação entre diferentes plataformas digitais e o mercado de trabalho, admitindo que não se tem ainda uma resposta concreta sobre como essa relação deve se realizar porque é ainda algo muito novo. Entende, porém, que se deveria refletir sobre a maneira como as grandes empresas de tecnologia transformaram completamente seus modelos de negócio para atender às demandas do século 21. Um exemplo é a Amazon: se antes vendia livro, hoje entrega qualquer produto em qualquer lugar do mundo. Citou, também, o WeChat, que é a versão do Facebook na China, uma rede social pela qual também se faz pagamento sem usar cartão de crédito ou dinheiro. Ou seja, um espaço de entretenimento, pagamento e prestação de serviço que representa bem o modelo de negócio  atual.

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.