A palavra bem escrita no rádio é a palavra falada

 

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Foto: Pixabay

 

 

O rádio é palavra falada. E por falada que é, muita gente pensa que não precisa ser bem escrita.

 

É, também, improviso. E em nome do dito cujo há quem justifique qualquer barbaridade cometida à língua.

 

Essa visão distorcida leva à redação de jornal, quem gosta de escrever; para as de rádio quem gosta de falar —- poderia completar a brincadeira e dizer que vai para a de TV quem quer aparecer, mas não vou dizer não porque é maldade das boas e desrespeito a colegas de muito talento que conheço.

 

Verdade que no rádio a dependência ao texto escrito é bem menor do que em outras mídias, mesmo se comparado ao tipo de televisão que assistimos nos canais dedicados ao jornalismo ao vivo, onde cada vez mais apresentadores e repórteres se desprendem do roteiro prévio para contar as histórias do cotidiano. Na TV, ainda existe uma burocracia técnica que exige uma disciplina maior dos profissionais para que a reportagem entre no ar. E os telejornais seguem tendo que rodar no teleprompter.

 

No rádio, a coisa funciona mais ou menos assim — e vou me basear no Jornal da CBN.

 

Das quatro horas de programa que vão ao ar, texto lido de verdade só na abertura, quando, ao lado da Cássia Godoy, apresentamos os destaques do dia, escrito pelo editor —- geralmente o Edmílson Fernandes (esse merece um capítulo especial). A cada meia hora tem, também, o Repórter CBN, obra do redator de plantão dedicado ao programa.

 

Daí pra frente, é um improviso só.

 

Chama a reportagem do Queiroz! Quem fez? Tem repórter de Brasília ao vivo na linha. Qual o assunto? O entrevistado está esperando. Me dá o crédito dele!

 

A conversa entre âncoras, produtores e operadores rola solta enquanto a programação está no ar. Hoje, no isolamento, sou obrigado a fazer esse bate-papo virtual. Perde-se um pouco de agilidade, mas nada que prejudique a performance e a dinâmica.

 

As reportagens gravadas têm textos de apresentação, escrito pelo editor ou pelo próprio repórter. Coisa de quatro, cinco, seis linhas no máximo. Mais do que isso é exagero. Servem de orientação para chamar o conteúdo preparado pelo repórter. Costumo passar por cima desse texto, porque escrito no bastidor tende a não ter o ritmo da minha fala.

 

Prefiro um tom mais autoral. Que provoque no ouvinte a sensação de que o que ele vai ouvir em seguida faz parte daquela conversa que começou às seis da manhã e se estenderá até às dez. Por isso, gosto sempre de relacionar com algo que já havíamos falado ou falaremos mais à frente. De contextualizar o assunto para que a reportagem não caia como um paraquedas do céu. De esclarecer algum aspecto que ajude a mensagem a ser mais bem absorvida pelo público. Precisamos sempre lembrar: nunca se está só ouvindo rádio. Então, chamar a atenção do ouvinte para o que vem ou para o que foi, é essencial.

 

Disse que gosto de fazer isso. Não significa que o faça sempre assim. E, principalmente, que meu improviso seja melhor do que o texto escrito. Quando se fala ao vivo, tem dessas coisas. Aumenta-se o risco de errar. O que me consola é que erro por conta própria. Pior coisa que deve haver é a gente só cometer o erro dos outros. Tenho de ter, no mínimo, competência de errar por mim mesmo.

 

Aliás, errei muito nesta vida do rádio.

 

Dia desses, revendo CDs e DVDs do passado —- uma das tarefas que me impus para suportar esses mais de 90 dias de quarentena —-, encontrei e-mail do jornalista Eduardo Martins, o homem de um emprego só. Trabalhou no Estadão a vida toda. Começou lá aos 17 anos, fazendo palavras cruzadas como colaborador, virou redator, repórter e editor. Foi autor de “O Manual de Redação e Estilo”, que o jornal publicou em 1990 e guardo na minha estante com orgulho. Morreu em abril de 2008.

 

Sua missão em vida foi valorizar a boa língua portuguesa e em nome desta missão me escreveu em abril de 2001. No texto, convidou-me a visitar o site dele “para evitar alguns erros que cometemos diariamente”. Usou o plural, mas entendi que a crítica era singular. Foi gentil ao citar apenas um dos muitos erros que saem da minha boca: o uso inadequado da locução “em função de”.

 

Escreveu Eduardo Martins:

“1 — A locução em função de só pode ser usada quando equivale a finalidade, dependência:

 

O time jogava em função do adversário/ O político agia em função dos seus objetivos/ O homem vivia em função da família

 

2 — Ela não corresponde, porém, a em virtude de, por causa de , em conseqüência de ou por, casos em que deve ser substituída por uma dessas formas:

 

A entrega do navio foi antecipada pela (e não “em função da”) rapidez do trabalho do estaleiro./ A Justiça tomou a iniciativa em conseqüência do (e não “em função do”) grande número de processos à espera de julgamento./ Na década passada as montadoras pararam por causa das (e não “em função das”) greves. / Recebeu a promoção graças às (e não “em função das”) suas qualidades.”

Guardei esse e-mail por causa da consideração (e não “em função do”) que sempre tive por Eduardo Martins. E pela maneira como ele me considerou. Ao escrever uma carta digital de “próprio punho” para me corrigir, demonstrava respeito aos jornalistas de rádio. Sabia da responsabilidade e da capacidade que temos de influenciar outras pessoas.

 

Que se influencie de maneira certa: falando o bom português, enriquecendo o vocabulário do cidadão, evitando o lugar-comum, valorizando a nossa língua e seguindo o ensinamento do professor catalão Ivan Tubau de que “ao escrever para quem ouve, deve-se escrever como quem fala”. Ou seja, a palavra bem escrita no rádio é a palavra falada.

 

Expressividade: não confiamos em que não age naturalmente

 

Você acompanha a terceira parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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O BICHINHO DO HÃ-HÃ

 

Algumas pessoas quando se preparam para falar têm o péssimo hábito de chamar o “bichinho do hã-hã”. Colocam a mão fechada diante da boca e dão duas tossidas curtas. Deixo para as fonoaudiólogas explicarem os males que esse cacoete provoca na saúde vocal. A mim cabe destacar que esse comportamento já se transformou em caricatura de oradores. Em qualquer paródia, no rádio ou na televisão, em que aparece alguém pronto para o discurso, lá vem o malfadado “hã-hã”. Transformou-se em símbolo do político “enrolão”, da autoridade provinciana, uma espécie de chato de galocha. Daqueles que não deixam escapar uma festa na empresa, um casamento do cunhado ou o batismo do filho do chefe sem pedir a palavra para um breve improviso. Essa gente que já ganhou lugar anedótico no imaginário popular. Que ainda não se deu conta que a “Era do Discursão” já era.

 

A comunicação passou a ser fator de transformação da sociedade. A mensagem é recebida por uma audiência mais qualificada. Mesmo o cidadão do pequeno vilarejo lá nos cafundós do Judas não se satisfaz mais com as palavras bonitas do “doutor”. Em lugar das citações tiradas do livro de poesia barata, quer definições. Não se satisfaz com a promessa de “mais saúde, educação e segurança”. Que saber como conquistá-las. Não se seduz pelos “minha gente”, brasileiros e brasileiras” e “trabalhadores do Brasil”, que marcaram a fala de velhos presidentes da República e passaram a ser mais repetidos do que estrofe de marchinha de carnaval. Sem o mesmo sucesso, diga-se de passagem.

Para conquistar o ouvinte apenas com a fala é preciso ganhar a confiança dele. E nós não confiamos em que não age naturalmente. Por isso, o tom deve ser coloquial, como se estivéssemos em uma conversa a dois. O mais próximo possível de um bate-papo. Ressalto a palavra “possível”porque mais adiante veremos que a comunicação, dependendo do meio pelo qual é feita, sempre terá aspectos artificiais. Na próxima vez em que você for convidado para umas rápidas palavras na reunião da empresa, experimente conversar com seus colegas em vez de discursar. Você notará a diferença nos cumprimentos que receberá logo após o evento.

Aqueles que trabalham ou usam o rádio para se comunicar têm que ter cuidado ainda mais especial. A fala é o principal instrumento da comunicação radiofônica. Não me refiro apenas à voz. Essa é um fator fisiológico resultado de uma série de ações do corpo, desde o ar que sai dos pulmões, provocando as pregas vocais, até a forma como o som lá produzido vai se refletir nas cavidades da face e será articulado pela língua e afins. Falar é um processo muito mais complexo. É a maneira como a voz se expressa.

 

Você já parou para ouvir João Gilberto ao violão, certamente. A voz desse baiano refinado é quase um suspiro capaz de conduzir o público para o mundo dele. Aproxima as pessoas para seduzi-las em seguida. Mas, como ressaltou certa vez o jornalista Daniel Piza, apenas parece ter um fio de voz, porque, em sua juventude, cantava à la Lúcio Alves. Ouça João Gilberto e aprenda a lição que soa em meio à canção. Um tapa de luva naqueles que pensam em se transformar em líder na marra. Para quem não entendeu que no mundo da comunicação não se vence no grito. Mas na fala afinada com o bom senso.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

A retórica de Donald Trump: exagerada, colorida e fácil, até uma criança entende

 

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Era muito cedo ainda quando analistas tentavam explicar a vitória de Donald Trump na corrida presidencial dos Estados Unidos. Dos muitos aspectos que ouvi nas entrevistas que rodaram na CBN ou circularam por outros meios e tive acesso, quero me ater a um que considero fundamental: a comunicação.

 

Há três meses, o cientista político e especialista em comunicação Martin Medhurst, da Baylor University, no Texas, já havia analisado a retórica do novo presidente americano, repetindo estudo que realiza há mais de 40 anos: “sua linguagem é muito colorida, é fácil ouvi-lo” – isso não significa, reforço eu, que tenhamos que gostar do que ele diz, mesmo porque Trump não fala para mim ou para você. Fala para o americano mediano, medíocre. E aqui não vai crítica, apenas uma constatação.

 

Trump não usa sintaxe ou pontuação regular, prefere frases curtas e vocabulário mais restrito: “até mesmo uma criança pode entender”, lembra Medhurst.

 

Passa portanto no teste da linguagem simples, desenvolvido pelo jornalista Todd Bishop do The New York Times, sobre o qual trato no livro “Comunicar para liderar” (Editora Contexto,2015), co-escrito com a fonoaudióloga Leny Kyrillos.

 

Para avaliar a qualidade do discurso, Bishop criou quatro índices:

 

  1. Índice de palavras duras – é assim considerada qualquer palavra que tiver mais de três sílabas, ou seja, todas as polissílabas. São difíceis de articular e exigem atenção muito maior do ouvinte. Quanto menos palavras duras você usar na sua fala, melhor.

  2. Índice de frases curtas – o cérebro é preguiçoso e só entende aquilo que pode assimilar rapidamente. Frases com orações subordinas, apostos e muitas conjunções só funcionam na escrita. Quanto mais curtas forem as frases mais fácil de se fazer entender.

  3. Índice de densidade léxica – indica a facilidade ou dificuldade em ler um texto.

  4. Índice de legibilidade – sugere a quantidade de anos de escolaridade que um leitor teoricamente requer para compreender o discurso.

Trump é useiro e vezeiro em utilizar essa estratégia: repete slogans como letras de música pop, martela o ouvido das pessoas até impregnar na mente delas algumas expressões como “construir paredes” e “fazer a América grande novamente”, ensina Medhurst.

 

Usa a hipérbole como estratégia de guerra. Exagera nos exemplos e grifa ideias com ênfase suficiente para entorpecer sua mente, fala de maneira dramática, sem medo de errar. Aliás, o erro é proposital. “Um pouco de hipérbole nunca dói”, escreveu no livro “A arte da negociação”, publicado aqui no Brasil pela Campus, em 1987.

 

Seus exageros ultrapassam qualquer limite da responsabilidade, pois é capaz de despejar palavras e suspeitas contra seus adversários sem perdão: por exemplo, disse que Obama poderia ser o fundador do ISIS, e colocou em dúvida a origem americana do atual presidente.

 

Acusação e difamação que, cuidadosamente, vem seguidas de expressões como “não sei bem se é isso”, “talvez”, “quem sabe” ou “é o que costumam dizer” – lembra muito aquele seu amigo que compartilha posts com denúncia, mas tenta se defender escrevendo que “não sei se é verdade, mas ….”.

 

A propósito, como comunicação é tema que há muito é estudado pelos americanos, foi de um analista ouvido pela americana CNN, na madrugada dessa quarta-feira, e lembrado por Dan Stulbach, no nossa bate-papo no Hora de Experiente, do Jornal da CBN, o paralelo traçado entre três presidentes dos Estados Unidos:

 

“JFK entendeu como ninguém a retórica da televisão, Obama a da internet e Trump a das redes sociais”.

 

Tem razão, Trump sabe como poucos fazer o discurso que “faz acontecer” nas redes: é polêmico, usa frases de efeito, cria vilões, transforma-se em vilão, agride se necessário; apaga tudo e começa de novo, como se nada tivesse dito.

 

O discurso da vitória, que ouvimos logo cedo, assim que se iniciava o Jornal da CBN, já revelava um personagem diferente do que conhecemos na campanha eleitoral. Trump falou com respeito de Hillary e chamou os Estados Unidos a se unirem, novamente. Fez o papel conciliador. Talvez já se preparando para sua nova versão: a de presidente dos Estados Unidos.

 

Diante das incertezas, fiquemos com uma frase do próprio Trump escrita no livro “Arte da Negociação”:

 

“Sempre entro num negócio esperando pelo pior. Se você espera pelo pior, o melhor virá por si mesmo”.

A língua certa para não cair da cadeira

 

A história quem contou foi Gaudêncio Torquato em coluna publicada no Estadão de domingo e tem como protagonistas Jânio Quadros e Delfim Neto, que não carecem de apresentações. Na campanha à prefeitura de São Paulo, em 1985, aquela em que Fernando Henrique caiu da cadeira, o candidato Jânio levou Delfim para um dos poucos comícios na periferia e o ex-ministro tascou do alto do palanque: “A grande causa do processo inflacionário é o déficit orçamentário”. Jânio chamou Delfim no canto e apontou para o público: “Olhe para a cara daquele sujeito ali. O que você acha que ele entendeu de seu discurso? Ele não sabe o que é processo, não sabe o que é inflação, não sabe o que é déficit e não tem a menor ideia do que seja orçamentário. Da próxima vez, diz assim: a causa da carestia é a roubalheira do governo”.

 

Falar a língua do povo é uma das habilidades necessárias para os políticos de plantão, mas serve também para todos que trabalham em comunicação. No jornalismo, há algum tempo os veículos têm adaptado o discurso ao seu consumidor. Um texto de economia do Valor, por exemplo, jamais deve ser reproduzido na programação de rádio. Estaria se cometendo dois erros: primeiro, no jornal escreve-se para quem lê, enquanto no rádio, para quem ouve; segundo, o leitor do Valor tem mais intimidade com os temas relacionados à economia do que o ouvinte do rádio. Isso significa que quem lê o Valor não ouve rádio? Não. Apenas que o rádio fala para um público mais amplo do que o jornal e o esforço é fazer com que todas as pessoas entendam perfeitamente a mensagem transmitida. Se você é um empresário e precisa se comunicar internamente tem de definir se seu público são os acionistas da empresa ou os peões do chão de fábrica. Mantém-se o conteúdo, mas muda-se a forma.

 

Do artigo dominical de Gaudêncio Torquato, no qual compara a fala de políticos do PT e do PSDB, destaco mais algumas colaborações para quem pretende falar a língua das pessoas. “Desconforto hídrico temporário” deve ser substituído por “seca braba”; “redução compulsória do consumo de energia elétrica” é “corte de energia”; “retracionismo na empregabilidade” significa “desemprego” e “compensação pecuniária às distribuidoras pelo déficit que enfrentam devido ao racionamento” nada mais é do que “aumento de tarifas de energia”. Importante, porém, lembrar que toda mudança na linguagem deve ser coerente com nossa personalidade. Quem passou a vida falando de maneira pernóstica e antiquada não vai convencer ninguém apenas porque convida as pessoas para um “papo reto”.

 


LEIA AQUI O ARTIGO “O PETÊ E O TUCANÊS” DE GAUDÊNCIO TORQUATO NO ESTADÃO

Mundo Corporativo: discurso e prática de gestão de pessoas

 

Discursos e práticas andam dissociados no ambiente do trabalho e isto tem impedido que empresas e profissionais desenvolvam todo o seu potencial. O alerta é do consultor Gustavo Boog que foi entrevistado pelo programa Mundo Corporativo, da rádio CBN, e falou sobre as revelações obtidas das pesquisas de clima organizacional realizadas em empresas brasileiras. Gustavo aproveita para mostrar como você pode se transformar em um líder sustentável: “é aquele que busca resultados com pessoas e com inovação”. Ao lado do sócio e filho, Marcelo Boog, ele lançou, no fim do ano passado, o livro “Discursos e práticas de gestão de pessoas e equipes”, pela editora Campus.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, às 11 horas, no site da CBN, com participação de ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn. O programa é reproduzido aos sábados, a partir das 8 da manhã, no Jornal da CBN.