De areia

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Ô meu Pai, e falar de quê?

 

Como o poeta de flores e amores, mesmo que as noites me tragam dores?

 

que dor?
dor de quê?
dor onde?

 

a minha ué!
disso e daquilo
por toda parte

 

e vai dizer que a tua é diferente?

 

com certeza sei que é
na intensidade no momento
na falta de alento
na onda da diversidade

 

dor é global
corre solta na informática
é única na história
quando vira vitória
só sei que dói e pronto
e que a minha é minha
sem etcétera e tal

 

dor não dá ponto em pesquisa
te faz feia
leva embora tuas cores
afasta amigos e amores
que escorrem das mãos feito areia

 

E assim decido falar de não-falar.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

 

De amor e dor

 

Por Maria Lucia Solla

 

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a vida dá mais a mim do que eu a ela
ainda assim gemo
sinaliza que tem pedra no caminho
me esforço e caminho
sentida com ela
desespero blasfemo

 

depois de cavar dia a dia
canso
entre dor e prazer esperança e desesperança
olhos e corpo cansados
descalça descanso

 

E falar de quê? Do mundo, de mim, de você. Da vida? Quem já não falou e quem é que não fala. Nunca falamos tanto e dissemos tão pouco. Mergulhamos no que não é de nossa alçada e nos frustramos. Ao menos eu me frustro.

 

ando farta
de tanta maldade
tenho fome de tranquilidade
meu coração
saudade
do que foi do que será do que teria sido
do presente
da alegria hoje ausente

 

difícil acreditar
nossa raça vira fumaça
o homem que se acha super
está mais para lobisomem

 

descartável a matéria
contamina o etéreo
descartável a relação humana
pressa de viver
pressa de morrer
faz parte do mistério

 

não é?
fala sério!

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

De tempos difíceis

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Toda dor passa? Passa, mas deixa cicatriz.

 

Não acredito em dor grande, média ou pequena. Já tive dor de todo tipo, uma danada dor de dente que levou a intervenção no seio da face, uma cirurgia na coluna e, ai que dor! morfina por três dias. Tive dor de parto e de partida, de fratura e contratura, de incompreensão e solidão. Toda dor é simlesmente dor. Material e imaterial.

 

Já tive muita dor de amor e pouca dor de cabeça, sofri a dor da insegurança, das duas faces do ciúme, da indiferença, de maus-tratos e preconceito. Sofri a dor da traição, tanto de amor quanto de amigo, a do desdém, da descrença, da maledicência e do abandono.

 

Agora, levando em conta a tradição céu-terra-inferno, ou a dor passa aqui na terra, ou a gente perde a parada para ela e se joga, não na vida, mas para fora dela. Fica pulando entre inferno e terra, cada vez mais longe do céu.

 

O que fazer? Onde se apoiar? Na comida, na bebida, nos amigos, nos amores, na promessa do céu? Não. O apoio não está longe e muito menos fora. Está dentro. Mas onde? Como deixar irem as crenças embaladas desde o berço? Virar tudo de cabeça para baixo? Aceitar a situação em que o mundo se encontra, vivendo desencontros e desencantos?

 

Não sei. Confesso. Enquanto se está neste lugar de dor, fica tudo turvo, sem sentido.

 

Diz-se que é preciso dar valor a cada dia que costura os viezes da existência, que é preciso ter fé, é preciso meditar, comer bem, malhar, tomar vitaminas e regulador de humor, não descuidar dos afazeres nem dos amigos verdadeiros, aceitar as falhas alheias e as nossas, com uma boa pitada de humor.

 

Será?

 

Freud diz que humor é preciso, porque é o princípio do prazer que combate a crueldade das circunstâncias reais, mas o fato é que a cada dor que passa, outra chega, como se estes tempos estivessem mais inclinados à dor do que ao amor.

 

E então? Qual a saída quando a dor insiste em não dar trégua?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De susto

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

A vida é assim, por vezes um lago calmo, por outras um mar revolto; e o segredo para sofrer menos é manter a calma e não perder a esperança. Fácil dizer difícil fazer, mas com treino se consegue quase tudo.

 

Segunda-feira passada, dia quatro de junho, íamos meu filho e eu pela Marginal Pinheiros. Meu filho dirigindo o carro dele, e eu de carona ao seu lado. Íamos quietos. Exauridos pela pressão de dias difíceis, em busca de alívio. O tráfego era denso, mas ainda sem congestionamento. Não chovia, não ventava, e o sol ainda não tinha terminado a tarefa de brilhar neste canto do mundo. Fazia a sua parte, como sempre faz desde o começo dos tempos, e nós fazíamos a nossa, cada um na sua medida, segundo sua capacidade.

 

À nossa frente ia um carro pequeno, vermelho, dirigido por uma moça. Trafegávamos na pista da esquerda da via expressa. Nosso destino, a Marginal do rio Tietê. Pedi ao meu filho que ligasse o rádio e sintonizasse na 90.5 para ouvirmos as notícias na CBN. O assunto era o de todos os momentos nos últimos tempos, a bandalheira generalizada entre os dirigentes, que escolhemos para cuidar do interesse social, e seus tentáculos egocêntricos, gananciosos e criminosos. Bandidos. Verdadeiras quadrilhas. Eu ouvia atenta, de coração apertado, sentindo que minha esperança insistia em me abandonar, na força contrária do meu esforço para mantê-la viva e por perto. Estava triste e sonolenta. Tínhamos saído mais cedo para evitar o sufoco do congestionamento, mas a fila de carros já se adensava.

 

Os carros foram brecando, até que o carro vermelho à nossa frente parou. Meu filho, atento, parou também. Foi aí que o mundo virou de cabeça para baixo, a tristeza tomou forma de dor, e a sonolência virou desespero. Atrás de nós, uma ambulância transportava um menino de quinze anos, que tinha sofrido uma cirurgia num hospital de São Paulo, acompanhado de seus pais, Voltavam para Catanduva, cidade onde moram. Além deles, conduzindo a ambulância, apenas um motorista desatento e apressado. Não havia um médico acompanhando o paciente. Essa ambulância, que vinha em alta velocidade, não parou e nos atingiu violentamente, nos atirando contra o carro da frente. O baque foi forte demais. Meu corpo frágil foi projetado para frente como se tivesse sido arremessado por um estilingue e, com a mesma violência, voltou para trás. Uma dor lancinante se apossou de mim. Meu peito, apertado pelo cinto de segurança, queimava e me apresentava a uma dor que eu nunca sentira.

 

Quatro e cinquenta. Meu filho ligou para 190. Pediu socorro policial e uma ambulância. Um carro da CET chegou rapidamente e fechou todas as pistas, para remover os carros acidentados até a faixa zebrada que separa a pista expressa do acesso à pista local, que tem entrada para a Avenida Rebouças. Desimpediram o tráfego que engordava em ritmo acelerado. E nós? Ali ficamos. Eu, gemendo pela dor insuportável, mal conseguia respirar. Meu filho, desesperado, assistia ao meu sofrimento, fazendo o que podia. Ligava insistentemente para a polícia e para amigos que tinham contato com policiais que também tentavam ajudar por telefone. Cada um apelando aos contatos possíveis e aos que porventura estivessem por perto. A moça do carro vermelho era dentista. Pediu para ver a minha boca e mediu meus batimentos cardíacos, dizendo que iria embora porque o carro dela estava bem. Só tinha amassado um pouco o pára- choque, e ela tinha pressa. Algo nos dizia que a documentação dela ou a do carro não estivesse em ordem e ela preferiu ir embora. Disse que também iria tentar falar com a polícia no 190, para que viessem nos socorrer.

 

Cinco e meia. Seis horas. Sete, sete e meia. Oito horas. A noite caía e a dor subia. Por volta das oito e meia chegou a ambulância do Samu. Dra. Naira e o motorista me imobilizaram com perícia e rapidez admiráveis, me instalaram na ambulância e me levaram ao hospital mais próximo. A dor foi comigo. Se apegara a mim. A polícia, no entanto, só deu o ar da graça por volta das nove e meia da noite. O carro foi rebocado pelo guincho da companhia seguradora, e meu filho foi à delegacia para o procedimento necessário nessas situações. O caso era de lesão corporal grave. Meu filho pediu a um amigo que fosse ao hospital e me acompanhasse. Enzo não saiu do meu lado nem por um instante. A polícia também esteve no hospital para verificar os fatos e a minha situação. Fui parcialmente imobilizada devido a contusões graves no osso esterno e na musculatura que o suporta, e ganhei um colar cervical que protege a medula espinhal e imobiliza o pescoço. Meu filho só foi liberado da teia burocrática, à uma e meia da manhã.

 

É importante dizer que, apesar da demora inimaginável do socorro, a equipe do Samu me atendeu com perícia e carinho. No entanto eu, apesar de pagar alta mensalidade por um plano de saúde, precisei esperar na maca da ambulância, num dos corredores do hospital que transpirava sofrimento e dor. Enfermeiros e médicos cansados e apressados corriam para lá e para cá. A dra. Naira precisou correr atrás de um médico para que me atendesse. Ela dizia que não podia entender a demora do pessoal do 190 em chamá-los. Disse também que deram a eles a posição errada de onde estava o nosso carro, e que por isso tiveram que rodar um bocado até nos encontrarem.

 

Hoje, aqui estou, felizmente pra mim, viva e de volta ao jogo da vida. As dores insistem em não me abandonar, apesar dos remédios fortíssimos para driblá-las. O colar mantém meu pescoço onde deve estar. Meu filho fica atento a tudo, dia e noite. Me ajuda a deitar, a sentar, a levantar e a me alimentar. Inverteram-se os papéis. É ele quem cuida de mim.

 

E nós dois, o que temos a dizer? Só podemos agradecer à vida, pela vida, e aos amigos que torcem por nós e que têm mantido contato diário. Ao Dr. Cristóvão Colombo dos Reis Miller, amigo querido que nos orienta na sequência dos procedimentos legais e pelas orações dos que estão longe.

 

Durante esse tempo todo, quatro dias e dezenove horas, não me sai da cabeça a oração que diz:

 

Senhor, dá-me serenidade para aceitar o que não pode e não deve ser mudado. Dá-me força para mudar tudo o que pode e deve ser mudado, e sabedoria para distinguir uma coisa da outra.

 

Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

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De arte

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

é o representante do povo
um indivíduo legal
é ele que escolhe a rota
ou sou eu que norteio
a ausência do meu sonho
pelo seu desmando

 

penso no que conheço
e naquilo que desconheço
e me vem de pensar no crime e na justiça social
na escolha e no escolhido
e me vem de chorar
de fatos tristes lembrar
sem compreender
encolhida tolhida sofrida
pelo  homem que rapina e o que é rapinado
o que assassina e o que é assassinado
pelo agressor e o agredido
que vivem nas margens virtuais e opostas do mesmo rio
afogados e estufados de razão
altivos nocivos agressivos
mumificados

 

na cena da tv
vejo o bandido que é triste de ver
feio na minha visão
que na sua não-aceitação
do que considera oposto 
me leva a retroceder

 

e retrocedendo percebo
que o que não gosto nele
é o que não gosto e reprimo em mim

 

no tempo em que bando se armava
de palavra lápis e papel
era o estado reconhecido
a banda aceita por quem lhe era fiel
que trucidava e escondia no porão
onde jazia o dito ilegal
que acabava morto 
por valoroso federal

 

tudo meio legal
valendo
e acontecendo
em dia de trabalho e no Natal
um sem-fim de ossada
enterrada na surdina
e haja família destroçada

 

hoje é ainda
o colarinho branco meio legal
que prepara o mingau indigesto
é a banda podre e marginal
que atiro sem dó no lixo
como se podre fosse mesmo o que é
apagando do meu pensamento
o que quero e desconsidero

 

não é arma nem repressão
inconformismo
e muito menos agressão
que vão resolver nossa situação

 

na verdade considero
a arte e não a dor
o poder civilizador
e não sou eu quem o digo
mas o francisco que me disse que quem disse
foi Oscar o Wilde
e eu que nada sou
os bendigo.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De dor

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Quero falar de dor, mas como é que se fala de dor? Quando é muito forte não se consegue dizer nada, e quando não abala os alicerces da tribo não vale a pena piar. Ninguém está interessado na dor alheia. Cada um tem sua alegria ou sua própria dor para lidar e sempre a toma como medida padrão. Dor faz parte dos sentidos vivos, está em cada célula. Tem a dor do amor não correspondido, a do adeus não pretendido, a do parto, a do você fica e eu parto, e parto, de lambuja, um pedaço das nossas vidas. Dor não avisa, não dá sinal de chegada, chega e pronto, ou será que somos nós que nos esquecemos da sua aparência, que procuramos ignorar sua presença? Será que somos nós que não damos a ela a atenção devida, e ela cresce para lembrar que alguma coisa não anda bem? Venha de onde vier, depois de quantas tiverem vindo e ido, cada dor parece sempre a primeira e a mais dolorida. Não adianta que a gente não se acostuma. Doer dói e pronto; em você e em mim.

 

Quando meus filhos estavam na fase aguda do crescimento, em que espicham a ponto de nem os ossos, nem eles mesmos, saberem como lidar com a velocidade do crescimento, e com os enormes braços e pernas que na semana anterior não estavam ali, eu sentava um pouquinho na beirada da cama deles e ouvia, entre histórias e sonhos, a queixa: mãe, a perna tá doendo; e dizia: filho, eu sei, crescer dói. Fazia uma massagem nas pernas e eles dormiam entendendo que aquele tipo de dor não dava para impedir.

 

Cresceram, são homens feitos, têm barba e bigode, se quiserem, e eu digo bem alto para que eles ouçam de onde estiverem: meus filhos, meus amores, estamos sempre crescendo, e crescer dói. Tentar impedir é bobagem, e não existe atalho na dor, assim como não existe atalho na verdade. Seja ela do tamanho que for, é preciso permitir que entre e que percorra o seu caminho em nós; mas é da mesma importância deixar uma janela aberta para que ela, depois de fazer o que veio fazer, siga o seu caminho e nos deixe maiores. Mas quem sou eu para falar de dor.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

 

De crime e castigo

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De crime e castigo na voz e sonorizado pela autora

Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas é o título de um livro que li há muito tempo. Do conteúdo só me lembro o título, um mistério que me fascina, levada em caríssima conta a relatividade dos adjetivos ruins e boas. Me distancio, aperto bem os olhos, olho para o mistério dos acontecimentos, tento enquadrar uma tela onde o desenho do que percebo faça algum sentido, mas o desenho muda, muda sem trégua, e não vejo sombra de definição antes que uma cena tome o lugar de outra, e outra e outra.

Quem sabe? Se é que existe resposta que não mude de feitio no mesmo ritmo em que se cria a próxima pergunta. Ontem aquela ruga não estava ali, a dor do abandono também não. O novo amor, que parecia que nunca ia chegar, chegou e já foi embora também, como todos os amores de todos os tempos, de todos os mundos. Como tudo. Tanto chega e tanto vai, o movimento é contínuo; dele é feita a vida, mas a gente não passa incólume. Se permite marcar, se permite impressionar. E o registro se modifica também, como foto velha que desbota. A dor do parto cresce para ser lembrança de alegria; uma ou outra alegria, que estava na caixinha de pronto socorro contra a tristeza, foi se perdendo pelo caminho, e quando mais a gente precisa dela, cadê?

O Deus que mora em mim, e em quem eu moro, não tem fraqueza humana; é equilíbrio puro, na essência da pureza jorrada da fonte. Lá onde ela não nasce porque sempre jorrou. Ele não mantém um diário, ou blog, onde anota cada falha tua, cada escorregão meu para depois enviar-nos a sua ira em forma de dor. Sei que ruim e bom são faces da mesma moeda que nos serve de chão; agora, o difícil é deixarmos de ser a criança mimada que sofre a cada coisa que não acontece a seu contento. Somos pirralhos batendo os pés. Por isso sofremos. Não somos santos nem bandidos.

Não sei você, mas eu tenho a tendência de melhorar o ruim e enfeitar o bom. Para esse eu tenho sempre tempo e disposição para mais um retoque. O ruim da história é que à medida que camuflo as crateras, ando em círculo e caio no mesmo buraco. Aí, dói.

Sou inteligente, dura na queda, mas aprendo a viver devagar demais. Fico tentando puxar a vida para a minha estrada, quando o indolor seria andar livremente explorando quantas alamedas pudesse. Cabeça mais rápida que o coração. Imagino uma ponte entre os dois e tento mandar o conhecimento ponte adentro, estrada a fora, para chegar ao coração, onde tudo se concretiza, porque é só quando ele entende, quando ele aprende, que teoria cresce e vira compreensão.

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De esperança

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

sou avessa a dor
mas prefiro dor a dores
que a palavra no plural se pulveriza
clona a si mesma
se banaliza

saudades não me caem bem
mas se inevitável
que venha a saudade
pura sem gelo
já que você não vem

aos ciúmes sou avessa
mas tem hora que não dá para evitar
e acabo topando
com ele
o ciúme singular

Andamos íntimos demais da dor. Com quem falo quem encontro está doendo de mal do corpo ou de mal do amor. Uns mais, outros menos mais. Hóspedes do planeta dor, temos explorado os seus caminhos, andarilhos e curiosos que somos, mas neste ponto do tempo parece que chegamos ao seu ponto central, e é ali que estamos agora, eu doendo aqui, você doendo ali, e a dor do outro sempre parecendo mais branda que a nossa. Pimenta no olho do outro pode não arder na hora, mas acaba respingando na gente, e a pimenta de agora não é fraca não.

Quanto à minha coleção de perrengues, se é aprendizado, resgate ou acerto de contas, se é praga, trabalho-feito ou mau-olhado, depois de espernear, acabo agradecendo por falta de alternativa melhor. Fico “de bico”, que não sou santa e nem de ferro, mas já aprendi que se não impuser resistência, é como picada de injeção, dói menos.

anda duro de roer o osso
pela perda
do que nunca tivemos
pela posse
do que nunca foi nosso

hoje dói é certo
mas o lugar não é ruim não
para onde quer que você vá
se afasta do olho do furacão

amanhã traz nova chance
que é a sua função
a nossa é encarar a fraqueza
a preguiça e a solidão

ontem olhei pela janela do quarto
e vi estrelas no céu
quem sabe meu deus
nem tudo está perdido
no cardápio dos teus sonhos
e na receita dos meus

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De dor

 

Por Maria Lucia Solla

No assado

Aqueles ali na frente se arrastam na inundação; uns perdem tudo, outros perdem todos. Os do lado esquerdo morrem do calor que mata gente, mata bicho e planta. Tudo morre, ou chega perto. Os da direita se debatem na neve. Tem vulcão enfurecido, e tem mar dando mostra do que é capaz de fazer. Gente da polícia mata criança e ladrão merreca ataca com arma de brinquedo. Ladrão merreca e meia vai de fuzil e dinamite, e ladrão merrecão, com cheque quente no talão, com pinta e título falso de doutor, ataca de celular e caneta. Tudo covarde. Uma merrecada só; boa de botar numa gaiola bem grande e jogar no mar, já que o rei das águas está acostumado a receber, de nós, o lixo.

E tem mais isso e tem mais aquilo, e nem vale a pena desfiar o rosário inteiro. É um tal de como vai? tá difícil! é… aqui também; ela está doente, ele em depressão; ele mente, ela trai. O pai de um tem Alzheimer, a mãe do outro também. E você quer saber? A epidemia de Alzheimer faz sentido. Ninguém está mais a fim de lembrar de tudo. Tem coisa boa, é claro, mas é tão pouca que a gente marca um par de dias por ano para fazer festa, acender velinha, bater palma e ficar contente.

Agora, honestamente? Não é culpa do povo do lado de cá nem do lado de lá, não é ele e nem é ela, somos nós, é o teu pensamento negativo e o meu, tua soberba e a minha que desembestam feito besta de dente afiado, e depois voltam para nós, seus amos e senhores. Portanto, não adianta pôr a culpa em Plutão e Saturno, os duros na queda, não adianta pedir clemência divina, buscando fora o que está dentro, que se chama consciência e que nunca se desligou da origem. Não nos servem mais as profecias, que só chegam até ali na esquina, porque a continuação da nossa história é responsabilidade nossa. Podemos rasgar os dogmas porque é aqui, neste ponto da existência, que nossa raça chega ao ponto central, de fim e de início, de morte e de vida. Ou resgata e desperta a consciência, ou não.

Confesso que tenho vivido uma luta de foice no escuro atrás da outra. Aprendo um pouco, subo um degrau e escorrego três para trás. E dá-lhe lambada! mas quem é teimosa sobrevive. O encontro com a gente mesmo, quando a gente se olha como olha o outro, não é fácil, mas quem disse que a vida é fácil? e quem prometeu um jardim de rosas? Portanto, força aí que eu vou me segurando aqui, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung