A permissão para ser suficiente

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicolog

 

Imagem: Pixabay

“Tristeza não tem fim. Felicidade sim”. Esse trecho da música de autoria de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes valoriza algo que todos nós experimentamos: as emoções. Porém, ao contrário do que dizem os versos dessa belíssima canção, as emoções, tais como amor, felicidade, tristeza e medo, não são estáveis e não têm duração definida.

Diversas pesquisas em Neurociências buscam compreender o processamento das emoções, destacando que as experiências emocionais são o resultado de interações complexas entre estímulos sensoriais, circuitos cerebrais, experiências passadas e ativação de sistemas de neurotransmissores. 

Algumas emoções, como o medo e a raiva, apesar de caracterizarem sentimentos desagradáveis, são naturais e têm funções adaptativas, como possibilitar comportamentos de proteção e fuga diante dos perigos. Entretanto, somos bombardeados com a exigência de modelos de positividade exagerada, uma cobrança de que sentimentos desagradáveis devem ser eliminados. 

Essa positividade exagerada, além de invalidar as emoções, incentiva a busca pela perfeição, atalhos para o sucesso e alto desempenho, num coro: “você só não consegue se não quiser”, difundido especialmente pelas redes sociais, através de influenciadores e frases motivacionais.

Amparado nesse positivismo de que é possível fazer tudo ou ser quem você quiser – que é possível ter o corpo perfeito, humor impecável e ser multitarefa – sobram apelos motivacionais e falta capacitação, dedicação e competência. A positividade excessiva não aceita desculpas para não ser produtivo ou perfeito.

Em seu livro “Sociedade do cansaço”, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, aborda que o excesso de positividade conduz a uma sociedade na qual todos precisam estar sempre produzindo, e que tudo depende da força de vontade individual. Isso produziria pessoas deprimidas, decorrente da pressão pela infalibilidade.  

Na contramão do trabalho como protagonista da vida contemporânea e do excesso de produtividade, Ieda Rodhen, doutora pela Universidade de Deusto, na Espanha, destaca a importância do ócio construtivo, caracterizado pelas atividades de lazer, como esporte, arte ou turismo, bem como pela decisão de um livre não fazer nada. Para Ieda, tais atitudes somente podem ser consideradas ócio se envolverem liberdade, se forem uma escolha da própria pessoa, não podendo ser decorrentes de modismos ou realizadas para agradar a sociedade. 

Desse modo, algumas experiências podem ser solitárias e aparentemente passivas, como aquelas que envolvem introspecção e autoconhecimento. Experiências que nos permitem compreender que não precisamos estar sempre felizes, produtivos, com corpos perfeitos ou em padrões que não nos cabem.

Isso nos conduz à compreensão de que algumas coisas não são possíveis. Talvez nunca sejam possíveis. Nunca seremos tudo. E tudo bem! Somos seres limitados e por isso precisamos uns dos outros. Temos habilidades e dificuldades, riso e choro. Isso nos humaniza, nos individualiza.

Se buscamos a felicidade é porque em alguns momentos ela nos falta. Mas não são assim as emoções? Não queremos ser excesso, mas também não somos escassez. Sejamos suficientes, porque como dizia Epicuro, “nada é suficiente, para quem o suficiente é pouco”. 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento: inscreva-se no canal 10porcentomais no Youtube.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Louco pra correr pro abraço!

 

Por Christian Müller Jung

 

1*3nOBhI35oTrX57r67ZGASQ

 

Fui instigado a escrever algumas linhas pelo meu irmão Mílton. Não tenho o hábito de escrever quando estou em casa, normalmente arrumo tempo no trabalho na espera entre uma agenda e outra. A questão é que neste momento precisamos ficar em casa!

 

Gosto de estar por aqui, porém a determinação de não sair parece criar uma áurea nebulosa que não me permite relaxar. Faço o de sempre. Atividades que normalmente fazemos quando moramos em uma casa: retoco a pintura, lixo alguma parede, conserto o degrau da escada, rejunto o piso de basalto do pátio … pequenos ajustes para preencher o tempo, ocupar a cabeça e disfarçar o peso das informações.

 

Cada toque de mensagem no celular nesses dias tem sido um novo susto, que vem acompanhado de mais uma medida do Governo; mais um áudio de um médico qualquer que jamais ouvimos falar, mas que fala pelos cotovelos; mais um vídeo com o Marcos Mion e aquele visual de quem brigou com o barbeiro.

 

Claro que o problema não é visual, mas o conteúdo do vídeo: um alerta catastrófico do que poderemos vivenciar em alguns dias se as medidas que estão sendo tomadas não forem observadas com seriedade pela população. Como se diz aqui no sul: “me caiu os butiá do bolso“!

 

Lembro sempre como seria bom se tivesse mantido a terapia. A gente fraqueja. Mas como tudo na vida sempre tem o lado bom.

 

Nunca achei que a falta de uma abraço fosse tão significante. Sinto falta de tudo, de tudo aquilo que até poucos dias estava ao meu alcance e eu passava sem dar muita atenção: o passeio das pessoas, as bicicletas se enfileirando entre os carros e os malabaristas nos semáforos. Aliás, como será que tá essa gente que vive sempre nessa corda banda da vida!

 

Do meu pátio, consigo enxergar toda a metade do prédio que construíram faz pouco tempo aqui na frente de casa. São apartamentos bonitos e bem caros, diferentes da realidade da minha rua quando fui apresentado a ela, há 52 anos. Quase não tenho mais os vizinhos de antigamente uns entregaram os terrenos em troca de uma boa oferta em dinheiro, outros entregaram os pontos e já partiram desta para uma melhor. E lá do pátio, tentando me distrair com rejunte do piso, olho pra cima, vejo alguém na janela ou na sacada e sinto uma baita vontade de gritar.

 

Um grito de afeto que fica engasgado. Não sei o que essa gente que não me conhece iria pensar, mas independentemente da minha angústia ou loucura, tenho me sentido pronto para vivenciar cada detalhe, cada pequena criatura que queira tão somente dividir o espaço nesse planeta, só pelo simples fato de estar viva.

 

E lá vai mais uma dupla de sabiás tomar banho no prato d’água da minha Golden Retriever. Ela não se importa. Sem sequer dar um latido, divide o pote que muitas vezes fica seco pela bagunça que os pássaros fazem. Talvez saiba lidar melhor com essas coisas para as quais deveríamos dar mais atenção sem que tivéssemos que ficar enclausurados para reconhecer: o poder das pequenas coisas do dia a dia.

 

Dizem que a gente aprende no amor ou na dor. A vida tem disso. Nos apronta algumas para nos ensinar o valor de algo tão simples como o direito de sair à rua só para ver alguém sorrindo!

 

Não vejo a hora de correr para o abraço!

 

Christian Müller Jung é publicitário, mestre de cerimônia e meu irmão

Avalanche Tricolor: festa para o Campeão!

 

Grêmio 1×0 São Paulo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

IMG_0348

Fãs, admiradores, colegas e amigos na festa para o nosso Campeão!

 

Estou no caminho de volta a São Paulo, onde consta há um campeão brasileiro comemorando seu título. Daqui de onde saio, havia outra festa: a vitória na Arena garantiu a vaga na Libertadores do ano que vem, o que para quem é obcecado por esta competição não é coisa pouca. 

 

Assisti pouco da partida, especialmente do primeiro tempo quando saiu o gol, resultado de uma jogada da qual fez parte nosso setor defensivo: Edílson, Geromel e Kannemann, que empurrou a bola para dentro e marcou o único e necessário gol da partida.

 

Daqui pra frente, convenhamos, quem se importa com o Brasileiro: somos todos Libertadores!

 

Vi pouco do jogo na Arena, apesar de estar em Porto Alegre desde cedo, porque o feriado foi dedicado a outro campeão. Estivemos em família durante toda tarde e início da noite, na Feira do Livro de Porto Alegre, na praça da Alfândega, centro da cidade. Foi lá, no Pavilhão de Autógrafos, que meu pai recebeu seus amigos e admiradores ao lado da jornalista Katia Hoffman, autora do livro “Milton Ferretti Jung: Gol gol gol um grito inesquecível na voz do rádio”.

 

O livro, sobre o qual já escrevi neste blog, Katia conta várias passagens da vida do pai desde sua infância. Estão lá alguns acontecimentos da adolescência e pós-adolescência que levaram o editor, professor Paulo Ledur, a descrevê-lo como tendo sido um jovem transviado. Achei curioso, pois apesar de conhecer boa parte das artes feitas pelo pai, sempre contadas pela ótica dele, nunca as identifiquei desta maneira. Gostei de saber que o pai foi transviado, diminui a culpa de muitas das coisas que aprontei na minha juventude.

 

A versão mais conhecida dele – a de jornalista – também é relatada com detalhes interessantes.

 

Das transmissões de futebol, há histórias das viagens ao exterior, das trapalhadas que a precariedade técnica proporcionava aos profissionais da época, da paixão que sempre cultivou – e jamais escondeu – pelo Grêmio. Diante da insistência dos gestores da rádio Guaíba para que seguisse narrando futebol, em uma época em que já revelava cansaço da rotina esportiva, negociou com a emissora: só transmitiria jogos do Grêmio e no Olímpico. Proposta imediatamente aceita.

 

Do locutor de notícias, a autora destaca a maneira com que exigia dos redatores – dela inclusive – precisão no relato dos fatos e nas informações divulgadas. Os exageros na pronúncia de palavras estrangeiras, que chegaram a ser cobrados pelo então dono da Companhia Jornalística Caldas Junior, Breno Caldas. E o dia em que apesar de estar sofrendo um AVC, insistiu em ler o Correspondente até o fim. 

 

Na fila que se estendeu para fora da área coberta do pavilhão da Feira do Livro, encontramos outros pedaços e lembranças desses 60 anos dedicados ao rádio. Estiveram lá vários dos amigos que dividiam redação, estúdio e cabines de estádio de futebol com ele. Vozes que fizeram parte da minha infância, que visitavam minha casa presencialmente ou através do rádio. Como tive o prazer de compartilhar alguns momentos de minha carreira com o pai, nos amigos dele encontrei colegas de trabalho que foram importantes na minha formação.

 

Havia muitos amigos e muitos fãs, também. Ouvintes que faziam questão de lembrar alguma passagem ainda viva na memória. Um gol inesquecível descrito pelo voz do pai. Uma notícia que marcou. E todos queriam uma foto para eternizar aquele instante. Alguns vestindo a camisa do Grêmio.

 

Para cada um deles, o pai dedicou um olhar, um sorriso e uma assinatura, sempre sob supervisão da Katia, que carinhosamente cuidou dele nas muitas horas dedicadas a sessão de autógrafo. Nós, os filhos, netos, noras, assistimos a tudo de perto, orgulhosos. Emocionados. Frequentemente o pai nos procurava com os olhos como se quisesse entender por que tantas pessoas, por que tanto carinho …

 

Porque, pai, você é um Campeão!

Mundo Corporativo: Vera Martins diz o que é preciso para desenvolver sua inteligência emocional

 

 

A pessoa inteligente emocionalmente, diante de uma situação difícil, não fica focada no problema, foca na solução; a pessoa que não é assertiva, foca no problema para se desculpar de tudo que está enfrentando. Essa diferença de comportamento define na maior parte das vezes o sucesso frente aos desafios que o profissional encara no mercado de trabalho, segundo a educadora e coach Vera Martins. Em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN, Martins elenca aspectos importantes que nos ajudam a desenvolver a inteligência emocional, tais como resiliência, atitude e auto-percepção. Vera Martins é autora do livro “O emocional inteligente – como usar a razão para equilibrar a emoção” (Auta Books Editora).

 

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site e na página da CBN no Facebook. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN, e tem a colaboração de Juliana Causin, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Rafaela Silva e o atrevimento de ser medalha de ouro no Brasil

 

 

rafaela_silva

Reproduçao da transmissão da SportTV

 

Hoje, reverenciamos Rafaela Silva, a jovem carioca que aos 24 anos ganhou a medalha de ouro, no judô olímpico. O primeiro ouro brasileiro na Rio2016. Falamos seu nome com orgulho. Há quem a considere uma heroína, outros a transformaram em sinônimo de superação; e todos a queremos como referência e exemplo para os jovens que nascem desgraçados da vida.

 

Nem sempre foi assim.

 

Como você já deve saber, Rafa – sim, nos atrevemos a tratá-la pelo apelido que antes só servia aos íntimos – é de família muito pobre, da Cidade de Deus, superou-se ao encontrar projeto social que investe no esporte e teve seu desempenho financiado com o cartão de crédito do treinador Geraldo Bernardes.

 

A coragem de se transformar em vencedora, vivendo em um lugar onde seus moradores não têm este direito, cobrou dela preço muito caro: classificou-se para representar o Brasil nas Olimpíadas de Londres, em 2012 – o que seria um orgulho para qualquer atleta. Uma irregularidade cometida no tatame, porém, tirou-lhe a chance de medalha e a colocou no centro de ataques racistas.

 

Rafaela não esqueceu o que enfrentou. A mãe dela também não.

 

A atleta queria ficar esquecida dentro de seu quarto. Escondida. A mãe contou com o apoio dos amigos para a jovem voltar a treinar. Voltou e foi campeã mundial.

 

Nem assim Rafaela esqueceu. A mãe também não.

 

Desde a primeira entrevista ainda suando e ofegante da última luta desta terça-feira  até a fala com os jornalistas após tomar um banho dourado pela medalha conquistada, Rafaela e a mãe repetiram à exaustão as palavras que foram usadas para atacar a jovem: macaca. E assim que falam, choram. Só elas sabem o tamanho desta dor. Elas e todos os que como elas são frequentemente atacadas por essa gente estúpida e racista.

 

Foi esta jovem, a crença de sua mãe e o poder transformador do esporte que me fizeram chorar escondido por mais de uma vez e todas às vezes em que ela apareceu na televisão, após o ouro olímpico. Chorei emocionado pelo que conquistaram. E envergonhado pelo que sofreram.

Fora da Área: quem chora por último chora campeão

 

 

Chorei muito na vida. Nas conquistas pessoais, nas vitórias de amigos e nas mortes, também. Nas arquibancadas do velho Olímpico Monumental chorei muitas derrotas. Os colegas mais próximos começavam a me preparar a medida que o jogo se aproximava do fim, pois sabiam que meu choro era inevitável diante da partida perdida. Quando fui para dentro do campo ou das quadras, chorei mais ainda. De alegria, mas principalmente de raiva por não alcançar os resultados que sonhava. Chorava ao ver injustiças acontecendo à minha frente. Às vezes o choro me levava ao descontrole e as lágrimas se transformavam em violência. Tinha de me conter. A maioria das vezes, ser contido. Ao deixar o esporte competitivo, voltei a chorar de emoção em especial nas vitórias de meu time do coração. O esporte, sempre o esporte a mexer comigo. O mais feliz de todos os choros foi na incrível conquista da Segunda Divisão, em 2005, quando o Grêmio foi protagonista da Batalha dos Aflitos. Naquele dia, levei os filhos a chorar, também. E não tive vergonha. Me orgulhei. Até hoje quando revejo o filme que conta essa epopeia, os olhos enchem de água. Encharco as vistas com muito mais facilidade do que se possa imaginar, às vezes com notícias que me tocam, favores que recebo ou me permitem oferecer.

 

Talvez é de tanto chorar que não me surpreende a reação dos jogadores brasileiros nesta Copa. A cantoria do hino à capela nos estádios tem tocado muitos deles. É nítida a tensão com que cada um está enfrentando a responsabilidade de disputar o Mundial dentro do Brasil. São todos muito jovens e forjam suas personalidades jogo a jogo. A reação de Julio Cesar antes de partir para seu maior desafio, a cobrança de pênaltis na decisão da vaga às quartas de final, contra o Chile, chegou a me assustar, pois transparecia insegurança. Descobrimos, após duas defesas, que era apenas agradecimento pelo destino lhe oferecer a oportunidade de reescrever a história na seleção. Os olhos marejados de Thiago Silva, o capitão, desde a primeira partida, poderiam embaçar sua liderança, mas a torna transparente e humana. Nada disso, porém, tem convencido muitos críticos e torcedores que se incomodam com os chorões da nossa seleção. Não é por acaso. Crescemos ouvindo que homem que é homem não chora. Meninos não choram (Boys Don’t Cry), é o que diz o refrão da música do The Cure, que conta a história de personagem que ri diante do sofrimento do amor perdido, “escondendo as lágrimas em meus olhos”.

 

Os meninos do Brasil não escondem as lágrimas de seus olhos. Não têm vergonha da sinceridade de suas lágrimas. E compartilham seu choro com toda a Nação. Que continuem a nos fazer chorar, também. Até a final desta Copa do Mundo, porque quem chora por último, chora campeão.

De auto-ajuda

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De auto-ajuda” na voz e sonorizado pela autora

Olá,

esta semana me fizeram uma pergunta que me levou a faxina em mim.

‘É só ser natural, não é?’ foi a pergunta.

Quando voltei para casa, à noite, continuava estacionada no conceito. Olhei bem para mim procurando o meu natural e, depois de algum tempo de senho franzido, ri aliviada. Não encontrei; vai ver não tenho um. Vai ver se foi com a placenta, na minha chegada. Vai ver ninguém tem.

O fato é que a pergunta desencadeou em mim mais um processo de limpeza de emoções – esta fica, esta vai, o que é que esta ainda está fazendo aqui? – e dei de cara com um evento, guardado na caixa de emoções, que era hora de transferir para a de lembranças. É bom fazer isso de tempo em tempo. Dá uma limpada boa. Melhora o desempenho da gente.

Encontrei ali um fato de anos atrás, quando fui ‘informada’ de que gente do meu grupo, da minha tribo, tinha dito que não entendia como alguém tão desequilibrado quanto eu tinha escrito um livro ‘de auto-ajuda’. Fiquei sentida porque, na época, andava ainda mais mergulhada do que hoje na ilusão de que somos o que o outro pensa que somos, e que se não somos amados incondicionalmente por aqueles que a gente ama, somos infelizes.

Foquei, então, na limpeza das emoções guardadas e transferi esse evento para a caixa de lembranças. No processo, revendo a fala deles, percebi que, fora o fato de não terem dito aquilo para mim, eu só questionava o codinome ‘de auto-ajuda’, atrelado ao meu livro, porque sempre vivi, mesmo, muito mais em desequilíbrio do que no prumo. Questiono o subtítulo ‘de auto-ajuda’ aplicado a livros que falam de vida, emoção, questionamento, de por quês e porquês, e dos que dão dicas porque, afinal, de médico e louco cada um tem um pouco.

Por que não chamam de livros ‘de auto-ajuda’, os romances de Tolstoy? Por que as peças de Nelson Rodrigues não recebem o carimbo de teatro ‘de auto-ajuda’? Uma noite de música na Sala São Paulo, a disputa pelo campeonato, no estádio do time do teu coração? Por que o pãozinho com manteiga, na padaria, e um capuccino, tudo fresquinho, feito no capricho, não são chamados de café da manhã ‘de auto-ajuda’? O primeiro beijo de cada novo amor, o milésimo beijo do amor de sempre. Por que não é chamado de auto-ajuda, o fato dolorido, a situação embaraçosa?

Mas o que é auto-ajuda?

Veja, o prefixo auto- quer dizer que você pratica uma ação, e é ao mesmo tempo o alvo dela. Você é o sujeito e o objeto da ação. Você faz a coisa para você mesmo. Portanto, nenhum livro, nenhuma peça, nenhuma criação musical, nenhuma partida de futebol, nada, nadica de nada pode ser chamado de ‘de auto-ajuda’.

Se algo externo a você te provoca o desejo de se perceber, de usar a consciência pra ela não enferrujar, se te ajuda a chegar aonde quiser ou puder, como der, esse algo simplesmente para a ser uma ajuda, se você quiser se ajudar. Simples assim. Auto-ajuda é o esporte que a gente pratica quando não se boicota. E olha que já está de bom tamanho! Você não acha? Vale dar uma chegada no porão ou no sótão onde estão armazenadas emoções antigas, emboloradas, e meter a mão na massa.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapueta, professora de línguas estrangeiras e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung