O dia de amanhã

Foto de Leonid Sobolev no Pexels

“Eis a minha doença: não me restam lembranças, 

tenho apenas sonhos. 

Sou um esquecedor de sentimentos”

Mia Couto

Se amanhã não é apenas mais um dia – seja porque é o primeiro do ano seja porque não deveria existir um dia qualquer – que dia será o amanhã? Fiz-me a pergunta ao ler o texto da psicóloga Simone Domingues, publicado neste blog. Dela recebi a amizade e o conhecimento na parceria que se iniciou no caos da pandemia. E desses veio o tema que me provocou a pensar, enquanto vejo o mar quebrar no arrecife. 

Assim como levarei comigo o que ganhei nesse ano que se encerra, levo meus segredos. Carrego minhas dores (muitas das quais ainda guardo em silêncio). Sobre os ombros estão as marcas das alças de uma mochila de emoções que dizem devemos esvaziar ao longo da jornada. Como se essas fossem objetos dos quais nos desfazemos porque desbotaram, saíram de moda, se tornaram obsoletos, sem funcionalidade. Não o são. Ao menos para mim, não! Sou um acumulador de emoções.

Em um desses livros deixados sobre a mesa da casa de veraneio de uma temporada para outra, encontro em destaque o texto do escritor moçambicano Mia Couto, que no romance “O mapeador de ausências”, diz ser um esquecedor de sentimentos. Queria um dia ter esse talento. Não o de escrever. O de esquecer!

Amanhã, no primeiro do ano, as marcas não desaparecerão. Estarão na minha lembrança, como estiveram ontem e como estarão depois de amanhã.

Terei vincos mais profundos na pele, que com o tempo perde o viço e o poder de suportar as perdas que acumulamos na vida. Cheguei a me convencer numa época qualquer de que com as cicatrizes o couro se fortaleceria, se tornaria resistente. Desconfio que me enganei. Não há botox, massagem linfática e cremes milagrosos das orientais suficientes para desfazer o que fizemos. Nosso passado está presente no enrugar da testa, no amarrotado das expressões ou no olhar que tentamos disfarçar quando flagrados pelas lentes das câmeras. 

Isso não significa que desisti de ser feliz. 

Recuso-me a falência da esperança – sentimento que sempre me acompanhou em vida e assim foi descrito pelo amigo Mário Sérgio Cortella, na orelha do livro “É proibido calar!”. E se na recusa me rebelo é porque ainda sou capaz de enxergar o que construí. Tenho consciência do meu saber. Dos meus méritos. Autoconheço-me (com o perdão da conjugação do imperativo afirmativo na inexistente primeira pessoa do singular) !

Tenho o privilégio de ter a companhia de alguém que me ama no dia a dia, a despeito do que sou e sinto. De ter ajudado a criar duas criaturas incríveis, que talvez sequer me merecessem como criador (com letra minúscula, claro). De ter amigos que me oferecem um carinho tão despretensioso quanto profundo. De ter você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog – uma gente que sequer me conhece bem, mas deposita confiança no que faço e digo.

São eles, cada um deles, cada um de vocês, motivo e razão, para que no amanhã – seja qual for esse amanhã – , eu levante da cama e acorde como tenho acordado todos os dias que se passaram até aqui: com o peso da minha mochila de emoções, pecados e desejos, e com a vitalidade que o propósito de ser uma versão melhorada de mim mesmo me oferece – mesmo que suspeite da minha incapacidade de sê-lo.

Feliz Amanhã!

3 comentários sobre “O dia de amanhã

  1. Excelente texto, traz uma ótima reflexão!
    Sabe, ando com problemas de memória, fixar na mente o novo, filtrar as velhas…Por isso cada avez mais penso que carregar as mochilas da vida é um privilégio, por mais surradas que elas estejam, é nossa história que lá está, vamos ajeitando o peso.
    Abração Milton, um ano mais saudável, com democracia e muita reconstrução após toda tormenta dos últimos anos.

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