50 debates para o Brasil: educação domiciliar divide opiniões sobre liberdade e direitos das crianças

Ensinar os filhos em casa coloca em confronto a liberdade de escolha das famílias e o direito de crianças e adolescentes à convivência escolar e à proteção contra abusos. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Carlos Vinícius Reis, presidente da Associação Nacional de Educação Domiciliar, e Ariel de Castro Alves, advogado e membro da Comissão Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB.

Carlos Vinícius defendeu que os pais possam escolher a educação domiciliar, desde que a prática seja regulamentada, avaliada e fiscalizada pelo poder público. Segundo ele, a modalidade permite um ensino mais personalizado e oferece uma alternativa às famílias que não consideram a escola convencional a melhor opção para os filhos.

“Quando falamos de educação domiciliar, estamos falando de liberdade educacional”, afirmou. Para Carlos, a decisão do Supremo Tribunal Federal de 2018 reconheceu a compatibilidade da prática com a Constituição, embora sua adoção dependa de uma lei que estabeleça regras. Ele ressaltou que a proposta não significa abandonar a supervisão estatal: “Estamos falando de liberdade com responsabilidade.”

Questionado sobre o risco de crianças submetidas a abusos ficarem afastadas de uma rede capaz de identificá-los, Carlos disse não haver dados que associem famílias adeptas da educação domiciliar à violência. Acrescentou que as escolas também registram episódios de agressão e sustentou que o debate deve oferecer opções às famílias, sem transformar o ensino em casa em oposição à educação escolar.

A escola como espaço de proteção

Ariel de Castro Alves afirmou que a educação dos filhos não está sob decisão exclusiva dos pais. Pela Constituição e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, explicou, família, Estado e sociedade compartilham a obrigação de proteger crianças e adolescentes e garantir sua formação.

“A escola, além do papel do ensino formal, do ensino curricular, tem o papel de formar crianças e adolescentes para a cidadania”, disse. Para ele, a convivência com colegas de diferentes origens, etnias e condições prepara o estudante para as relações sociais, para o mercado de trabalho e para as frustrações da vida adulta.

Ariel ressaltou ainda que professores e outros profissionais da educação ajudam a perceber sinais de violência doméstica, exploração do trabalho infantil e abuso sexual. “Dificilmente esses dados vão aparecer porque geralmente as escolas possuem protocolos específicos”, afirmou ao responder por que podem faltar registros de violência envolvendo crianças educadas apenas em casa.

O centro do debate está nos limites da autoridade familiar. Os defensores da educação domiciliar entendem que os pais devem poder escolher a forma de ensino, sob acompanhamento do Estado. Os críticos consideram que a escola oferece algo que não pode ser plenamente reproduzido dentro de casa: contato com a diversidade, formação cidadã e uma rede externa de proteção.

A discussão, portanto, não se resume ao lugar onde a criança aprende português ou matemática. Trata de quem decide sua educação, de como o Estado acompanha esse processo e de quais garantias devem prevalecer quando a escolha dos adultos pode afetar os direitos das crianças.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

50 debates para o Brasil: ensino religioso nas escolas públicas divide espaço entre cultura, fé e formação básica

O ensino religioso está previsto nas escolas públicas brasileiras, mas a matrícula é facultativa e sua aplicação provoca dúvidas sobre laicidade, diversidade e prioridade curricular. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com Adecir Pozzer, coordenador-geral do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso, e Claudia Costin, especialista em políticas públicas e educação.

Embora tenham partido de posições diferentes, os debatedores concordaram em dois pontos: a disciplina não deve servir à conversão religiosa e a participação do estudante deve continuar facultativa. A principal divergência apareceu na forma de oferecer esse conhecimento e no espaço que ele deve ocupar em uma grade escolar já limitada.

Adecir Pozzer defendeu o ensino religioso como uma área de conhecimento dedicada ao estudo das diferentes crenças, tradições e experiências espirituais produzidas pela humanidade. Segundo ele, as religiões influenciam a formação das pessoas, a organização das sociedades e a maneira como diferentes grupos interpretam o mundo.

Para Pozzer, esse conteúdo pode ajudar os estudantes a compreender a diversidade cultural e a conviver com pessoas que professam outras crenças ou não seguem nenhuma religião.

“Não podemos educar para a segregação, do ponto de vista da religião, mas para a integração, para a convivência”, afirmou.

Ele ressaltou que a proposta não deve ser confessional. Isso significa que a escola pública não pode ensinar os princípios de uma religião específica como verdade nem tentar conquistar seguidores. A disciplina deveria apresentar tradições indígenas, afro-brasileiras, asiáticas e de outras matrizes, com base nas ciências da religião.

Pozzer também defendeu a formação específica dos professores e a existência de objetivos pedagógicos claros. Sem esses cuidados, o ensino religioso pode deixar de promover a diversidade e passar a reproduzir preconceitos.

Claudia Costin concordou que os estudantes precisam conhecer diferentes crenças e aprender a respeitá-las. Também defendeu uma abordagem não confessional e sem proselitismo — termo usado para definir a tentativa de converter alguém a determinada religião.

Sua ressalva está na criação de uma disciplina específica em uma escola que dispõe de poucas horas para ensinar conteúdos fundamentais. Claudia lembrou que muitos estudantes brasileiros permanecem apenas quatro horas por dia na escola, enquanto sistemas educacionais com melhores resultados oferecem jornadas mais longas.

“O que me preocupa é que o Brasil tem uma jabuticaba: só quatro horas de aula no ensino fundamental. Nenhum país com bom sistema tem menos de sete”, disse.

Na avaliação da especialista, conhecimentos sobre religião, cultura e diversidade poderiam aparecer em matérias como história e sociologia. Essa alternativa evitaria aumentar a fragmentação da grade e preservaria mais tempo para leitura, escrita, matemática e ciências.

O professor no centro da questão

Os debatedores também convergiram sobre o risco de uma formação inadequada dos educadores. Para Claudia, mesmo um currículo plural pode ser prejudicado pelos preconceitos e pelas preferências pessoais de quem ensina.

O desafio, portanto, não está apenas em decidir se o ensino religioso deve permanecer na escola. É preciso definir quem vai ensiná-lo, com qual preparação e de que maneira serão representadas as crenças minoritárias, além das pessoas ateias e agnósticas.

O debate mostrou que a discussão vai além da oposição entre religião e Estado laico. A questão central é saber se a escola pública consegue transformar o conhecimento sobre as religiões em instrumento de convivência, sem doutrinação e sem retirar espaço de aprendizagens essenciais.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

E se a escola do seu filho proibir IA na sala de aula como fez Nova Iorque?

A maior rede pública de ensino dos Estados Unidos decidiu restringir o uso da inteligência artificial nas escolas. Em Nova Iorque alunos da educação infantil ao oitavo ano não poderão usar essas ferramentas. No ensino médio, o acesso será limitado, com programas selecionados e supervisão dos professores.

A decisão alcança cerca de 600 mil estudantes e levanta uma pergunta para os pais aqui no Brasil: qual seria a sua reação se medida semelhante fosse adotada na escola do seu filho?

O Brasil já restringiu o uso de celulares nas escolas públicas e particulares. A regra procura reduzir distrações, melhorar a concentração e recuperar a convivência entre os estudantes. O aparelho pode ser utilizado em atividades pedagógicas autorizadas pelo professor e em situações específicas.

O celular, porém, é um objeto. Pode ser guardado na mochila. A inteligência artificial é mais difícil de trancar no armário.

Ela já está presente em mecanismos de busca, editores de texto, aplicativos de estudo, programas de tradução e plataformas educacionais. Proibir a IA por completo seria como tentar fechar uma porta enquanto a tecnologia entra pelas janelas, pelo telhado e, provavelmente, pela própria lousa digital.

Há motivos legítimos para preocupação. Um estudante pode pedir à máquina que escreva a redação, resolva o exercício ou resuma um livro que não leu. Se entregar à inteligência artificial todo o esforço de pensar, corre o risco de economizar justamente aquilo que deveria desenvolver.

Crianças menores também precisam de proteção. Elas ainda estão formando o vocabulário, aprendendo a organizar ideias, conviver com dúvidas, errar e tentar novamente. Nenhum aplicativo deve substituir esse processo nem ocupar o lugar dos professores e dos colegas.

A proibição absoluta, porém, pode ser um pouco demais?

A escola não tem apenas a tarefa de proteger os alunos da tecnologia. Precisa ensiná-los a conviver com ela. Isso inclui saber fazer perguntas, conferir informações, identificar erros, reconhecer preconceitos reproduzidos pelos sistemas e entender por que uma resposta convincente pode estar completamente errada.

Talvez a discussão não deva ser simplesmente entre liberar e proibir. A questão é definir com que idade, para qual finalidade, durante quanto tempo e sob a orientação de quem a inteligência artificial pode ser utilizada.

Pais e professores precisam participar dessa escolha.

Se uma proibição como a de Nova Iorque fosse proposta no Brasil, você seria favorável? Consideraria a medida uma proteção necessária ou entenderia que a escola estaria afastando os alunos de uma ferramenta que eles precisarão aprender a usar?

Proibir pode parecer uma resposta simples. Educar para o uso responsável dá mais trabalho. E talvez seja exatamente esse trabalho que não possa ser terceirizado para uma máquina.

50 debates para o Brasil: a expansão das escolas cívico-militares divide opiniões sobre a educação

A busca por uma escola mais segura e capaz de garantir aprendizagem de qualidade está no centro do debate sobre a expansão das escolas cívico-militares no Brasil. Hoje, são cerca de 1.500 escolas desta modalidade, em mais de 800 cidades. Na série 50 Debates para o Brasil, promovida pela CBN, discutimos esse tema com o professor do Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba, Jevuks Mateus de Araújo, favorável à adoção desse modelo em determinadas situações, e a presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, que defendeu o fortalecimento da gestão pedagógica tradicional.

Ao defender as escolas cívico-militares, Jevuks ressaltou que elas não devem ser tratadas como uma solução para todos os problemas da educação, mas como uma alternativa para contextos específicos. Segundo ele, um estudo realizado sobre a experiência de Goiás identificou efeitos positivos sobre o desempenho dos estudantes. “O programa se insere em um leque de programas e oportunidades de políticas públicas. Ele não é uma solução mágica que vai resolver todos os problemas”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, os resultados estão associados principalmente à redução da violência nas escolas. A pesquisa identificou queda nas ameaças a profissionais da educação, na presença de drogas e armas e nos casos de roubo, fatores que contribuíram para melhorar o ambiente escolar e favorecer a aprendizagem. Para ele, diferentes redes de ensino enfrentam desafios distintos e, por isso, devem dispor de diferentes instrumentos de gestão. “Esses programas não sejam excludentes e que atendam a realidades diferentes, a objetivos diferentes”, resumiu.

Priscila Cruz reconheceu a importância de estudos que avaliam políticas públicas, mas questionou se esse modelo responde aos objetivos mais amplos da educação. Segundo ela, a escola precisa formar cidadãos preparados para viver em diferentes ambientes sociais e profissionais, desenvolvendo autonomia, criatividade e liderança. “A escola tem que formar para um ambiente mais amplo, para uma gama muito maior de situações que esse jovem vai encontrar fora da escola”, afirmou.

Na avaliação da presidente-executiva do Todos Pela Educação, parte dos resultados obtidos em Goiás também pode estar relacionada ao maior investimento e à atenção recebida por essas unidades. Ela citou experiências em estados como Ceará e municípios como Sobral e Vitória, onde avanços na aprendizagem e na redução da violência ocorreram por meio da melhoria da gestão escolar e da formação de professores, sem recorrer à militarização. “A militarização não é a solução”, concluiu.

Ao longo do debate, os dois convidados convergiram em um ponto: a violência nas escolas representa um desafio que precisa ser enfrentado. A divergência esteve na estratégia. Enquanto Jevuks defendeu que o modelo cívico-militar pode ser uma resposta eficaz em determinados contextos, Priscila sustentou que os mesmos objetivos podem ser alcançados com investimento em gestão, formação docente e integração entre as áreas de educação e segurança pública.

A principal marca deste debate foi mostrar que a discussão não se resume a escolher entre dois modelos de escola. Ela passa por uma questão mais ampla: quais políticas públicas conseguem oferecer segurança, melhorar a aprendizagem e formar estudantes preparados para exercer a cidadania e enfrentar os desafios da vida.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente.

Conte Sua História de São Paulo: da metalúrgica à missão de ser professor

Flávio Santino Bizarrias

Ouvinte da CBN

Quadro negro
Foto: Isa Lima Universidade de Brasília/Flickr

Nasci em São Paulo, em 1973. Filho de um metalúrgico analfabeto e de uma servente, migrantes do nordeste.  Aos cinco anos tive uma doença grave que comprometeu 70% da visão de um dos olhos. Eu não sabia, mas isto seria determinante para eu me tornar professor. 

Aos 13 anos, era hora de ir trabalhar. Um tio metalúrgico e um cunhado metalúrgico tinham iniciado um primo no SENAI. E eu deveria seguir esse caminho, também. Mas o destino e a natureza tinham outros planos. Com uma semana, fui cortado do SENAI. O risco de um cavaco acertar meu olho bom era muito alto, e os adultos, prudentes, cancelaram minha matrícula. 

Lembro quando fui chamado em meio a aula. O nordestino é antes de tudo um forte, então eu honrei meu pai, e não chorei ali não. Chorei em casa. 

Aquele cunhado me levou para trabalhar na empresa dele: uma metalúrgica. E me colocou em uma atividade administrativa. Mas eu fazia de tudo: operava máquina, carregava caminhão, atendia telefone, vendia no balcão..  e estudava a noite. 

Foram 13 anos na metalúrgica. O paulistano é, antes de tudo,um forte, me perdoe seu Euclides. Ok, ok… o paulistano, filho de nordestino, é antes de tudo um forte. 

Na escola, eu admirava a dona Benedita, professora de matemática; dona Genézia, de história.; o prof. Evanildo de geografi Eram os meus ídolos. Foi quando comecei a perceber que eu gostava de explicar. Veio o cursinho, com o professor Riccieri, que arrematou o destino. Eu queria ser professor. 

No chuveiro, um palco de ensaio geral — vocês sabem o que estou falando —, eu começava a sonhar em dar aulas, ensinar, brincar com os alunos. Fiz vestibular para matemática. E fui estudar na USP. 

Dona Benedita ficou tão orgulhosa que chamou minha mãe na sala de aula para homenageá-la — mamãe era servente na escola. Imagina a emoção! 

Mas eu vivia um dilema. Estudava pra ser professor, mas trabalhava na metalúrgica. Fui, então, estudar administração. Meu cunhado dizia que era isso que a empresa precisava

Os anos passaram e um destes anjos de plantão, que aparecem na vida da gente, me deu a oportunidade de participar de um processo seletivo em uma universidade, que aceitava especialistas, gente que fazia MBA, e eu tinha feito dois. 

Entrei na universidade como professor. E nunca mais sai. Naquela época, havia deixado a metalúrgica e trabalhava em uma grande empresa. Fui viver uma vida dupla. Escritório de dia, professor à noite. Até que tomei a decisão de deixar o escritório pela sala de aula

Hoje sou professor há 18 ano —  mais do que o tempo na metalúrgica e mais do que o tempo na multinacional. A natureza cumpriu seu papel, e tirou de mim o fruto mais perfeito que eu poderia dar: ensinar.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Flavio Santino Bizarrias é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: para Luiz Alberto Ferla, do Dot Digital Group, a educação digital é uma aceleradora de pessoas

Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Precisamos acelerar as pessoas também para que elas se desenvolvam e estejam preparadas para todas essas transformações.”

Luiz Alberto Ferla, Dot Digial Group

A educação corporativa está passando por uma revolução tecnológica sem precedentes. Com a ascensão de novas ferramentas digitais, como inteligência artificial e realidade aumentada, empresas estão transformando a maneira como capacitam seus colaboradores. Segundo Luiz Alberto Ferla, CEO e fundador do Dot Digital Group, “o aprendizado ao longo de toda a vida é a palavra-chave do mundo corporativo hoje”. Essa abordagem, conhecida como lifelong learning, é essencial para que profissionais acompanhem as rápidas mudanças tecnológicas e permaneçam competitivos no mercado. O tema foi destaque na entrevista concedida ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Educação como estratégia de transformação

Ferla destacou que o propósito do Dot Digital Group vai além da capacitação técnica: “Nós transformamos a vida das pessoas por meio da educação. Esse é o nosso propósito”. A empresa, que já capacitou milhões de brasileiros, utiliza tecnologias como vídeos interativos, podcasts, realidade virtual e cursos via WhatsApp para tornar o aprendizado mais acessível e dinâmico. “Hoje, 98% dos brasileiros acessam o WhatsApp. Isso nos permite levar conhecimento a qualquer lugar”, explicou.

Outro ponto abordado foi a personalização dos conteúdos educacionais. Segundo Ferla, “as empresas querem soluções desenhadas especificamente para suas necessidades”. Essa customização garante maior eficácia no treinamento dos colaboradores e contribui diretamente para a competitividade das organizações.

O impacto da inteligência artificial

A inteligência artificial (IA) na educação corporativa está acelerando o desenvolvimento de conteúdos e permitindo maior personalização no aprendizado: “Essa é a maior revolução que estamos vivendo desde o advento da internet”, diz Ferla. Ele também ressaltou que a tecnologia não deve ser vista como uma ameaça aos empregos, mas sim como uma oportunidade de crescimento: “O risco não é a inteligência artificial, mas perder espaço para quem sabe usá-la”.

Para Ferla, o futuro da educação está cada vez mais ligado à integração entre tecnologia e aprendizado contínuo. Ele acredita que ferramentas como computação quântica irão potencializar ainda mais essa transformação nos próximos anos.

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir também em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Após 40 anos de jornalismo, começa uma nova jornada que une educação e comunicação

Quarenta anos se passaram desde o meu primeiro dia em uma redação. Eram 10 de agosto quando sentei em frente a máquina de datilografia  e os cheiros da lauda, do carbono e da tinta que imprimia as letras no papel me faziam sentir pronto para desbravar o mundo com palavras —  uma ilusão, pois, não estava tão pronto assim; de verdade, ainda era um estagiário, um jovem aprendiz.  

Essa trajetória que se iniciou há quatro décadas me levou às mais diversas redações e forjou minha experiência no campo da comunicação. Aprendi na lide e com os leads, entrevistando, com os entrevistados e com os colegas. Da profissão que escolhi, surgiram as oportunidades para desenvolver novos conhecimentos. E de tanto aprender peguei o gosto por ensinar. Comecei pelo microfone, depois passei aos palcos, nas palestras, e, mais tarde, às páginas dos livros. Já escrevi cinco até agora.

Começar uma nova etapa profissional, em paralelo a todas as demais que seguirei exercendo, é como folhear um livro cujas páginas ainda não revelam o que está por vir. Mas sabemos que a história será rica. Talvez seja a oportunidade de retomar alguns fatos já contados, com um novo olhar e de um novo jeito. Talvez, a chance de acessar outros conhecimentos e se espantar com o mundo de sabedoria que temos para explorar. A comunicação é uma criatura viva, inquieta. Sempre em busca de novas maneiras de se expressar, de se conectar. Não há um fim; há sempre um novo começo. 

A decisão de ensinar me pareceu natural. É como compartilhar um segredo, só que sem mistério.  Agora, sinto que estou entrando em uma nova fase com a produção de um curso de comunicação, que se inicia on-line e pode se expandir nos mais diversos formatos, ampliando essa conversa. Um livro em branco, pronto para ser preenchido com histórias e descobertas, mas com a vantagem de que, dessa vez, a jornada não será solitária — será acompanhada de parceiros, mestres e de cada aluno que decidir fazer parte desse percurso.

A nova aventura, que se soma a maior delas que realizo diariamente na rádio CBN, surge a partir da parceria proposta pela WCES — empresa americana de educação e consultoria. Desde os primeiros contatos, Thiago Quintino, o fundador da startup e especialista em experiência do cliente, me dizia: “Comunicação é coisa séria.” E isso me fez lembrar de uma lição que aprendi ainda criança.

Lá no início, quando eu era pequeno e andava de mãos dadas com meu pai, ele me levava ao estúdio da rádio onde apresentava o principal noticiário do Rio Grande do Sul. Enquanto ele transmitia as notícias, eu ficava quieto, sentado num canto, quase sem me mexer, consciente da seriedade daquela missão. Foi ali, naquele estúdio silencioso, que aprendi a respeitar o microfone — aquele equipamento mágico que amplificava a voz do meu pai e fazia suas palavras chegarem longe. O microfone me ensinou que comunicação é coisa séria.

A decisão de participar de um curso, nos moldes do proposto pela WCES, não é apenas um passo a mais; é um salto. É reconhecer que o mundo mudou, que a comunicação não conhece mais barreiras físicas, e o ensino também precisa se adaptar a essa nova realidade. Assim como na rádio, onde a voz precisa alcançar o ouvinte onde quer que ele esteja, o nosso curso tem essa mesma missão: chegar ao público, onde quer que ele esteja, com a mesma paixão e compromisso de quem acredita no poder da comunicação para transformar.

Nessa caminhada, tive o privilégio de contar com mestres generosos que aceitaram o convite de ampliar o conhecimento. O filósofo Mário Sérgio Cortella vai falar de ética na comunicação; a futurista Martha Gabriel compartilhará sua visão sobre a importância do pensamento crítico em tempos de transformação digital; Leny Kyrillos, fonoaudióloga e colega de diversos projetos, trará sua expertise sobre a comunicação efetiva e afetiva; e meu companheiro de livro, Thomas Brieu, vai nos mostrar como o exercício da escuta pode ser transformador para as relações humanas. Novas vozes se juntarão a nós em breve, pessoas que têm muito a ensinar e que, assim como eu, acreditam que, por meio da educação, podemos nos tornar melhores.

Este é o momento de pegar a experiência acumulada, os aprendizados ao longo da carreira, as lições de nossos parceiros e transformá-los em algo acessível, prático e, principalmente, transformador. Afinal, a comunicação é isso: uma jornada constante de troca, de aprendizado e de evolução. E agora, esse caminho se faz na tela, na conexão entre professor e aluno, num espaço virtual que promete ser tão envolvente quanto uma boa crônica.

Participe do lançamento de “Comunicação Profissional – técnicas e práticas para o sucesso no trabalho”

Convidado especial: Milton Beck, Diretor-geral do LinkedIn 

Vagas limitadas 

Inscrição gratuita 

Dia: 26 de setembro, quinta-feira 

Hora: das 19h às 21h30 

Local: Edifício Milano | Espaço Olos 

Avenida Mário de Andrade, 1.400, 14º andar, Água Branca/SP 

Inscreva-se aqui:

https://abrir.link/JLqvh

São Paulo é o estado que tem menor adesão à pesquisa sobre ações antirracistas nas escolas

Foto de Arthur Krijgsman

No Brasil, o combate ao racismo nas escolas é uma questão de urgência cívica e social. No entanto, apenas metade das instituições de ensino público havia adotado ações contra o racismo em 2021. Para entender o cenário atual e preparar a política nacional de educação antirracista, o Ministério da Educação convocou prefeitos e secretários de educação para participarem de uma pesquisa sobre as ações desenvolvidas pelas redes de ensino para enfrentar o racismo.

De acordo com o levantamento do próprio ministério, pouco mais de 1.000 cidades, de um total de 5.570, tinham respondido ao questionário até o início do mês. Diante disso, a associação que reúne os tribunais de contas estaduais e municipais está convocando os prefeitos e secretários de educação a enviarem, o mais breve possível, as respostas necessárias ao MEC.

É preocupante notar que, apesar da importância dessa iniciativa, a adesão dos estados mostra um cenário desigual. A Atricon informa que o estado de São Paulo teve a menor adesão até o momento, com apenas 54,3% dos prefeitos paulistas respondendo à pesquisa. Amapá (56,3%), Rondônia (57,7%), Tocantins (58,3%) e Rio Grande do Sul (59,6%) seguem nesta lista de estados com menor adesão. Em contraste, Minas Gerais alcançou 100% de adesão, com todas as 853 cidades respondendo ao levantamento. Ceará e Alagoas também tiveram adesão total.

Surge a questão: a baixa adesão dos prefeitos à pesquisa seria por receio de serem vistos como omissos no combate ao racismo? Tal hesitação poderia refletir falta de responsabilidade ou comprometimento com suas obrigações.

O MEC prepara-se para lançar a “Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola”, um passo potencialmente transformador se acompanhado de envolvimento efetivo das esferas governamentais locais. Este momento é crítico: prefeitos e secretários municipais de educação devem reconhecer a importância de sua participação ativa nesta pesquisa, que não apenas moldará políticas futuras, mas também impactará diretamente na formação cívica e cultural de jovens estudantes.

Portanto, é imperativo que todos os estados e municípios brasileiros estejam alinhados e engajados com o MEC nesse esforço conjunto. A diversidade é uma riqueza inestimável do Brasil e deve ser refletida e respeitada em nossas salas de aula. Para que isso aconteça, é essencial que cada prefeito e secretário de educação responda à chamada do MEC, ajudando a transformar nosso sistema educacional em um espaço verdadeiramente inclusivo e representativo.

Mundo Corporativo: André Dratovsky, da Elleve, investe em cursos de alto impacto para mudar vida de jovens

Photo by Burst on Pexels.com

“Hoje a informação está muito latente. O conhecimento é muito perecível. Então para os profissionais de hoje em dia, o conhecimento precisa estar mais acessível, mais rápido e mais pontual”.

André Dratovsky, Elleve

Pode ser um curso de mecânico automotivo. Pode ser de cientista de dados. A despeito da área, o que importa é que o aluno ao ter acesso a esse conhecimento esteja capacitado a assumir funções que o mercado de trabalho mais necessita. Foi essa ideia que moveu André Dratovsky e seus sócios a criarem a Elleve, uma fintech dedicada ao financiamento estudantil de cursos livres, técnicos e profissionalizantes A plataforma conecta o estudante diretamente com as instituições de ensino e com o mercado de trabalho, ajudando na evolução da carreira profissional. 

André foi entrevistado pelo Mundo Corporativo, programa que está completando 20 anos, em 2022. A educação sempre foi uma crença do nosso trabalho, pois sabemos que é através dela que podemos desenvolver pessoas – e desenvolvê-las não apenas profissionalmente. Nós investimos na educação com a disseminação da boa informação; a Elleve, o faz oferecendo crédito especialmente a alunos de baixa renda:

“Nós pensávamos: como é que a gente cria um impacto na vida das pessoas que seja perene, que seja duradouro, e que seja autossustentável. A resposta para isso não foi muito difícil, nós chegamos nela através da educação. Na educação baseada em competências e que trouxesse no curto prazo aquilo que as pessoas precisam para inserção ou para o crescimento profissional”.

Nem todo aluno tem condições de encarar quatro ou cinco anos de uma formação superior, devido a aspectos econômicos e a necessidade de manter uma jornada de trabalho intensa. A solução é investir em cursos de curta duração e alto impacto. Um exemplo que André trouxe ao programa:

“Até hoje, se você queria trabalhar com marketing digital com vendas digitais e e-commerce,  a formação mais tradicional era a de administração de empresas, que te leva através de um currículo de quatro anos, bastante denso, mas muitas vezes desnecessário para aquela atividade que você precisa fazer”.

A Elleve foi fundada em 2020 e está com cerca de 6 mil alunos financiados que pagam taxas que variam de 0% a 2%, ao mês, dependendo do programa. André conta que o modelo permite acesso aos jovens, independentemente da condição financeira dele, gera emprego e renda no futuro. Quanto as instituições de ensino, têm uma captação mais de alunos, risco menor de evasão escolas e garantia de pagamento das mensalidades.

“Se o curso tem muito sentido para aquele perfil de jovem, se a escola tem um bom histórico de empregabilidade dos seus alunos egressos, e se o mercado de trabalho está buscando profissionais com aquelas características daquele aluno pós-formado naquela escola, por mais que aquele aluno tenha problemas financeiros, ainda assim a gente consegue aprovar o crédito daquela pessoa”.

Conheça mais sobre a história da Elleve e como você pode usufruir dos benefícios da plataforma que conecta estudantes e escolas, assista à entrevista completa do Mundo Corporativo:

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Renato Barcellos.

Conte Sua História de São Paulo: no caminho do saber

Sonária Souza

Ouvinte da CBN

Foto de Pixabay no Pexels

Sou professora de Atendimento Educacional Especializado, trabalho na EMEF Benedito Calixto, unidade escolar na zona leste de São Paulo. A pandemia de Covid – 19 trouxe muitos desafios, e grandes oportunidades de aprendizagens.

No ensino da prefeitura, faz parte do currículo do 9º ano, apresentar no fim do ano o TCA — Trabalho de Conclusão Autoral. Mas com a pandemia como fazer?

Após um reunião online com a delegacia regional de ensino, nossa gestora, Cíntia, ficou entusiasmada com a ideia de realizar o TCA remoto: fazer um Diário de Bordo. Os professores abraçaram a proposta mesmo com dúvidas se daria certo fazer o trabalho de conclusão pelo Meet no Google Classroom. Começamos a planejar, compartilhar ideias e o trabalho foi ganhando forma, emoção, participação, inspiração…

Nos reuníamos com os alunos pelo Meet todas as quartas feiras das 10 ao meio-dia, abordávamos temas que traria repertório para a produção dos Diários de Bordo. Cada aluno trazia suas reflexões, havia momentos de escuta e escolhiam uma palavra-chave para representar aquele dia, e todos falávamos bem alto juntos. 

Organizamos as audições para apresentação previa dos trabalhos. Os alunos se mobilizaram para ter acesso a internet, contavam com doações de celulares, iam atrás de informações, contavam com parcerias dos colegas para elaboração e apresentação, tudo de forma remota.

As audições online foram espetaculares, cada aluno apresentava de acordo com suas habilidades e especificidades. Houve respeito, comprometimento, empatia, harmonia entre a equipe de docentes e alunos. Os professores faziam observações para contribuir com os trabalhos apresentados. 

Nos dias primeiro, dois e três de dezembro tivemos as apresentações do TCA definitivas, e cada trabalho foi simplesmente maravilhoso! Aprendi muito, conheci os alunos de modo amplo e particular. Nós professores tínhamos uma sintonia mágica, compartilhamos ideias, dávamos suporte um para o outro.

Gratidão por ter participado deste trabalho, com professores incríveis como: Alberto, Filomena, Igor, Jaqueline, Márcia, Maria Sandra, MarInez, Paulo, Rúbia, Tatiane. 

2020 ficará marcado para sempre na vida dos alunos e professores. Parabéns EMEF Benedito Calixto, Escola das oportunidades!

Descobri qualidades nos meus colegas antes não percebidas, pois no cotidiano escolar não tínhamos oportunidades de nos reunirmos com frequência para dialogar, e a tecnologia nos permitiu conhecer melhor os alunos, suas famílias, o grupo de professores e funcionários.

Gratidão a todos por estarmos juntos na caminhada do saber.

Sonária Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.