A boa entrevista que eu não fiz porque o omelete não virou

 

 

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Foto: Pixabay

 

 

Jornalista gosta de bom entrevistado. Gente que esclarece. Fala claro. Diz o que pensa. Ajuda o outro. Faz do fato, notícia. Gera aspas (sim, mesmo no rádio ainda usamos esta jargão do impresso). Um ou outro desses aspectos —- todos juntos é o ideal — faz uma boa entrevista. Ficar de fora dela ou não ter sequer a oportunidade de fazê-la, sempre frustra. Foi o sentimento que tive nesta sexta-feira.

 

 

O dia já não começou bem. De madrugada, ao acordar, o calendário da cozinha informou ser hoje o 90º dia de isolamento em casa — por mais que a turma daqui tenha me facilitado as coisas, o ritmo da redação e o contato com outras pessoas, diversas e diferentes, faz bem à alma.

 

 

Na sequência, a máquina de café quebrou e o omelete não virou. A regra é clara: quando essas coisas acontecem, liga para a firma, avisa que não vai dar e volta para cama. Eu não entendi o recado. Insisti.

 

 

O programa começou e logo descobri que o “moço da internet” não estava a fim de trabalhar, também. O sinal da rádio era entregue aqui em casa, mas não tinha ninguém para levar o meu para lá. Falava e interrompia. Voltava e caía. Troquei do cabo para o sem cabo, do sem cabo para o 4G, do 4G para o sinal de fumaça. E nada de a coisa funcionar como o encomendado (e pago).

 

 

Daí minha frustração. Hoje, tinha tudo para fazer uma boa entrevista, mas a telecomunicação não ajudou.

 

 

Nosso convidado no Jornal era o Dr Atila Iamarino; o rapaz da ciência que fala no YouTube e no Twitter e por lá atende por @oatila. Ele é biólogo por formação, doutor em microbiologia, tem pós-doutorado pela USP e pela Yale University. Para ser melhor: sabe traduzir tudo isso que aprendeu falando a língua da gente. Pelo conjunto da obra faz sucesso há algum tempo na internet —- não aquela que pifou aqui em casa, mas aquela outra que permite que informações circulem em grande volume e frequência e da qual conseguimos tirar muita coisa que presta. As do Atila prestam. Têm credibilidade.

 

 

O chamo de Atila, assim, pelo primeiro nome, sem a pompa do doutor e do senhor, como pedem os bons modos do jornalismo. Não apenas por ele ser jovem — nasceu no ano em que eu estreava no jornalismo profissional —, mas porque é assim que todos o chamam por aí. E foi dessa maneira que conquistou admiradores —- e detratores.

 

 

Sim, é impossível ser um sucesso no mundo virtual sem que o ódio dos medíocres se expresse. Eu escrevi ódio e medíocres. Não tem nada a ver com aquelas pessoas que discordam das ideias, identificam fragilidades nos argumentos, apresentam pensamentos lógicos e contrapõem com a gentileza dos civilizados, fazendo o bom debate. Esses serão sempre bem-vidos à conversa, pois permitem que, a partir da reflexão, sejamos provocados a pensar ainda mais e a recuar, se entendermos que erramos na forma ou no conteúdo. Perdão se usei o plural na frase anterior — é força do hábito. Não tive a intenção de me comparar à capacidade de doutores e professores em argumentar. Sou só jornalista. Sem direito à extensão do curso.

 

 

Dito isso, vamos retornar ao episódio que se iniciou sem café nem omelete. Para a entrevista recebi um ótimo material da produção. Coisa de primeira. Muito mais do que precisaria. Suficiente para me dar segurança na conversa. Tinha tudo para dar certo. E até que começou certo.

 

 

Às vésperas de alcançarmos a marca de 1 milhão de infectados e termos nos aproximado em alta velocidade dos 48 mil mortos, quis logo entender o que é a estabilização da Covid-19, no Brasil, que havia ouvido na fala oficial do General que usa crachá de ministro interino e no comentário da OMS. Com a sabedoria de doutor e a transparência do Atila, ele explicou. Simples, direto e objetivo, seguindo o que assumi como sendo meu mantra da boa comunicação.

 

 

Entusiasmado, esperei o Atila responder à Cássia Godoy e engatei uma segunda pergunta. Explica aí por que o vírus está deixando o Norte, invadindo o interior e crescendo no Sul? O omelete não virou. Ops, a resposta não chegou. Não chegou para mim que estava apresentando o programa de casa. Menos mal que foi até os ouvintes que acompanhavam o Jornal no rádio. Minha internet —- com todos os sinais das operadoras que prestam o serviço — desapareceu. E com ela, eu.

 

 

Da entrevista não ouvi mais nada. Desconecta um cabo aqui. Conta até 30. Desconecta o outro ali. Conta de novo. Zera o sistema. Desliga o computador. Religa o celular. O que é que está acontecendo? É o upload que não sobe. É o download que não desce. É o Mílton que enlouquece.

 

 

A Cássia seguiu em frente em voo solo — com toda autoridade. E o Atila atendeu a expectativa do ouvinte — dele também não tinha dúvida. A mim restaram a frustração de ficar de fora de uma boa entrevista. E o consolo de Bocelli e Geromel, que se enroscaram nas minhas pernas, subiram na mesa e ronronaram no microfone para me acalmar.

 

 

Lição aprendida: se a máquina do café quebrar, o omelete não virar, a internet pifar e a boa entrevista frustrar, que ao menos tenhamos bons companheiros ao lado para nos consolar.

 

 

PS: a entrevista da Cássia com o Atila você ouve na sequência. Vale a pena!

 

 

miltonjung · Jornal da CBN entrevista Atila Iamarino sobre o estádio da pandemia no Brasil

Live semanal da Abraji fala sobre rádio e pandemia com Mílton Jung nesta terça

 

Texto publicado no site da Abraji — Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo

 

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A oitava edição das lives da Abraji sobre os impactos da pandemia no cotidiano dos jornalistas tem a participação de Milton Jung, âncora do Jornal da CBN e do programa Mundo Corporativo. A conversa é nesta terça-feira (9.jun.2020), das 21h às 22h, no Instagram.

 

O espaço virtual de discussão tem o objetivo de compartilhar experiências e desafios enfrentados pela imprensa desde a chegada do novo coronavírus ao Brasil. Em razão dos cuidados de saúde necessários, Jung organizou um pequeno estúdio em casa, de onde tem apresentado o programa matinal e diário da CBN. A conversa com a equipe é feita por aplicativos de mensagem e um sinal de internet conecta sua casa à sede da rádio.

 

Apesar dos desafios diários, ele afirma que a maior dificuldade é dos repórteres, que garantem o conteúdo e a apuração do programa. Para aqueles em trabalho remoto, o esforço é redobrado para que não haja riscos à informação apurada.

“Os que saem, por sua vez, se expõem a dois tipos de perigo: o de se contaminar pelo vírus e o de ser agredido pela ignorância. Neste momento de pandemia, ainda sofremos de um outro mal na sociedade brasileira, que é o fortalecimento de discursos extremistas e totalitários, que não aceitam o jornalismo profissional e a imprensa livre”, afirma.

Apesar dos desafios, Jung entende que o rádio revela sua importância no contexto de uma crise sanitária. O meio de comunicação é o mais presente no Brasil, de acordo com a terceira edição do Atlas da Notícia, divulgado em 2019. Em um contingente de 13.732 veículos mapeados em todo o país, 35% eram radiofônicos.

“O radiojornalismo ganhou protagonismo nesta pandemia ao expressar algumas de suas principais características, como agilidade, velocidade e interatividade, úteis especialmente quando a população sofre de ansiedade diante dos riscos à saúde e quando as novidades surgem a todo momento”, explica.

Entre outros livros, o jornalista é autor de Jornalismo de Rádio (Editora Contexto, 2004), Conte Sua História de São Paulo (Editora Globo, 2006) e É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos (BestSeller, 2018). Também é coautor de Comunicar para Liderar (Editora Contexto, 2015).

 

Nas semanas anteriores, o espaço virtual das lives da Abraji teve a participação de Ana Lucia Azevedo (O Globo), Raull Santiago (Coletivo Papo Reto), Kátia Brasil (Amazônia Real), Vinícius Assis (correspondente brasileiro na África), Ciara Carvalho (Jornal do Commercio), Tai Nalon (Aos Fatos) e Ruben Berta (Blog do Berta). A íntegra das conversas está disponível no Instagram.

O microfone merece respeito

 

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O diabo sabe mais por velho do que por diabo —- o ditado que ouvi muitas vezes de meu pai, uso sem parcimônia, especialmente nesses tempos em que os colegas de redação já têm idade para serem meus filhos e a turma, às vezes, fica a espera de uma palavra mais madura e experiente —- o que não significa que seja apropriada. Mesmo que eu me entenda ainda como um jovem, disposto a novidades e desafios, sei da responsabilidade que é conviver com duas ou três gerações que vieram depois de mim.

 

O passar dos anos nos ensina nem que seja pela dor. Cometemos erros, tomamos puxão de orelha e passamos constrangimento; mas tudo isso pode ser pedagógico, se soubermos observar as situações enfrentadas e nos esforçarmos para mudar de comportamento.

 

Lembro de duas situações constrangedoras que vivenciei na apresentação de programas de rádio que me serviram de lição, as duas quando estive à frente do CBN São Paulo.

 

A primeira foi em 2007, durante entrevista com autoridade municipal que insistia em negar os fatos e os números que revelavam a precariedade do serviço prestado pela cidade. Fiquei incomodado com as respostas e fui agressivo nas perguntas. Perdi o controle da entrevista, bati boca com o entrevistado e fui punido pela crítica implacável da maior parte dos ouvintes.

 

Anos depois, estava diante de candidato ao governo de São Paulo, representante de um partido sem noção nem argumentos. Fiz perguntas que entendi pertinentes, que buscavam esclarecer as críticas que o político fazia a seus adversários e escancarar a sua falta de lógica e conhecimento. Mesmo que insistindo em algumas questões, jamais levantei a voz ou me excedi. Minha postura tirou o candidato do sério. Sentido-se acuado, reagiu como um animal: partiu para o ataque; levantou-se da cadeira; apontou o dedo em minha direção; ofendeu-me e, acredito até hoje, não foi às vias de fato porque me mantive impassível, sereno e sentado. A maior parte das mensagens que chegou a rádio foi de solidariedade e apoio a minha postura.

 

Na marra. Fazendo. Errando. Corrigindo. Pedindo desculpas. Eu aprendi. E das muitas coisas que aprendi uma delas é que na posição de jornalista —- especialmente diante de um microfone, em que nossa voz, opinião e comportamento são transmitidos em tempo real —- temos responsabilidade dobrada.

 

É preciso respeito ao entrevistado, sem ser subserviente; é preciso ser firme na busca da verdade, sem ser violento; temos obrigação de questionar, duvidar e cobrar; e quanto mais argumentos, dados e fatos tivermos em mãos, para contrapor, melhor. Gritar e ofender, jamais —- mesmo que seu entrevistado haja desta maneira. Se errar, peça desculpas. Seja humilde. Humildade não é vergonha, é virtude.

 

Entrevista não é boxe. É xadrez. Pede inteligência, sensibilidade e perspicácia. Jamais força e estupidez. Não tem lugar para a arrogância. É preciso senso de justiça, também. Deixar a entrevista encerrar para proferir uma crítica ao entrevistado é desonesto. Ele tem de ter o direito ao contraditório. Toda vez que criticar algo ou alguém, meça o peso de sua palavra e seja sincero, bem sincero, consigo mesmo: você teria coragem de fazer aquela crítica se estivesse diante da pessoa? Se não, não a faça longe dela. É covardia.

 

O microfone merece respeito. Porque é através dele que nos relacionamos com o cidadão — seja um entrevistado seja um colega seja um ouvinte. Respeitar o microfone é respeitar seu público e sua profissão.

 

Tem gente que nem por velho nem por diabo aprende a lição.

Mundo Corporativo: “tem hora de ralar e tem hora de colher”, ensina Max Gehringer. Qual é a sua hora?

 

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Mílton e Max bate papo descontraído em evento da CBN Foto: CBN

 

“É muito importante começar cedo, ter experiências, que não sejam imorais e ilegais, mas ter experiências; e conseguir o primeiro emprego o mais rápido possível, mesmo que seja uma atividade assistencial, uma ONG, onde aprende-se o que é disciplina, respeito, o que é organização”— Max Gehringer

Aos jovens que ainda planejam sua carreira mas também àqueles que já se perguntam quando vai chegar a hora de parar. Aos profissionais que estão empregados, mas em dúvida se o caminho que percorrem é o correto, e aos que, fora do mercado de trabalho, pensam quando surgirá a oportunidade para voltar. Max Gehringer, comentarista da rádio CBN, falou para todos os públicos, deu dicas importantes de carreira, identificou alguns comportamentos comuns do ambiente de trabalho e deixou conselhos incríveis sobre a nossa vida —- tudo isso durante conversa que teve com os ouvintes, em um bate-papo, mediado por Mílton Jung, na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, em São Paulo.

 

Ouça aqui o podcast com a entrevista completa de Max Gehringer

 

Em meio a todo conhecimento apresentado, Max contou histórias de sua carreira e de outros profissionais que cruzaram seu caminho, compartilhou com o público lições que recebeu dos seus pais e fez tudo isso ao longo de uma hora e meia de conversa sempre de maneira divertida:

“A hora que a gente perde o bom humor, a gente perde a essência, que nos faz ter vontade de voltar para trabalhar no dia seguinte”.

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Público lotou o deck da Livraria Cultura Foto: Vitor Santos/Ouvinte

 

Max diz nunca ter perdido a vontade de trabalhar, pois sempre buscou fazer algo novo na carreira, desde que se iniciou como locutor de rádio, na cidade de Jundiaí, onde nasceu; depois na indústria de alimento, onde teve sua primeira oportunidade como “chefe”, aos 21 anos, e se transformou em presidente; até quando decidiu que se dedicaria a escrever, o que acabou abrindo portas para as redações de revista, rádio e TV. Mesmo assim, defende que temos de nos preparar para encarar uma fase que muitos nunca param para pensar:

“Eu acho que existe uma coisa que todo mundo deveria pensar e eu acho que ninguém pensa que chama desaceleração programada. É preciso que haja um momento em que eu perceba que o meu preparo físico não era o que eu tinha nos meus 18 anos”.

Para ele, a desaceleração se iniciou quando foi presidente de empresa pela segunda vez, pois percebeu que, a partir dali, seria “mais do mesmo” e precisava encontrar outro caminho na vida. Max contou que é comum no meio empresarial ouvir executivos que anunciam que “agora chega, daqui três ano vou parar” —- um discurso que se repete ano após ano, sem que nunca o profissional consiga se desligar da carreira.

“É perfeitamente possível ter uma carreira profissional de muito sucesso e uma excelente qualidade de vida, mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo … é bíblico, ao menos era o que estava escrito no rascunho: “tempo de ralar e tempo de colher”. Existe um tempo para cada coisa”

 

O Mundo Corporativo vai ao ar, aos sábados, no Jornal da CBN; aos domingos, às 10h30 da noite, em horário alternativo; e está na lista de podcast da CBN.

Comunicar para liderar foi destaque em Felicidade iLTDA

 

 

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A experiência de ser entrevistado nem sempre me deixa à vontade. Fui treinado para entrevistar pessoas. Quando se está do outro lado, sempre fica a apreensão de que seu desempenho poderia ser melhor. A resposta não foi tão clara quanto gostaria. Talvez tenha desperdiçado a oportunidade de contar algo mais produtivo para as pessoas. Dia desses tive de encarar esse desafio a convite de João Paulo Pacífico, empreendedor, inspirador e apresentador do programa Felicidade iLTDa, na Rádio Globo.

 

Verdade que a tarefa de ser entrevistado foi facilitada pela forma simpática e tranquila com que o Pacífico fez a mediação. Além de o fato de estar sentado à mesa com uma colega super competente e minha grande amiga: a Leny Kyrillos, com quem escrevi o livro “Comunicar para liderar” (Contexto). Ao lado dela, a conversa sempre se torna agradável e produtiva.

 

Falamos de comunicação e liderança, contamos curiosidades de nossas carreiras —- como o motivo que me levou a deixar o esporte pelo jornalismo — e apresentamos dicas para ajudar os profissionais a se relacionarem melhor com seus colegas, parceiros de negócios e clientes.

 

O programa —- como o próprio nome nos induz a pensar — é sobre felicidade no trabalho e se propõe a tratar de assuntos que mostrem como as empresas podem contribuir para um futuro melhor. Foi o que me fez lembrar do poder da palavra na comunicação e o cuidado que devemos ter ao nos dirigirmos às outras pessoas, especialmente quando estamos diante da necessidade de avaliar o seu comportamento ou o seu desempenho profissional:

 

“… uma palavra bem dita, muda e transforma a vida do outro; assim como a palavra mal dita, fere”.

 

Esse poder é ainda maior quando se aprende — como disse Leny Kyrillos — que a comunicação contagia e constrói imagens. A propósito, ao ser provocada a identificar os  pecados na comunicação dos líderes, Leny ressaltou que o mais grave deles é a falta de autenticidade:

 

“(a pessoa) se sente cobrada e pressionada por uma série de coisas e começa a acreditar que ela precisa desempenhar um papel que não é o dela, e muitas vezes perde sua essência”.

 

Espero ter sido autêntico na conversa com a Leny e com o João Paulo Pacífico — mesmo quando fui levado a contar uma piada em um dos quadros propostos pela produção do programa.

 

Ouça  muitas outras dicas e curiosidades no podcast de Felicitade iLTDA.

 

No ar, ética e cidadania; nos bastidores, o descontrole no uso das redes sociais e da tecnologia

 

 

 

 

O livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” me levou a ser entrevistado pela jornalista Thais Herédia, no programa “É pessoal”, do canal de You Tube “My News”. A gravação foi ao ar sexta-feira, dia 7 de dezembro, e tudo que penso sobre como devemos assumir a educação de nossos filhos na plenitude você pode conferir no vídeo acima e está disponível na internet.

 

 

O que não está gravado, porém, quero contar parcialmente neste post.

 

 

Antes de iniciarmos o programa, no estúdio de TV da B3, centro de São Paulo, conversei com Thais, respeitada jornalista de economia, sobre pai, mãe e filhos. Ela compartilhou algumas das experiências que têm em família e fiquei muito impressionado com a maneira como consegue conter os impulsos provocados pela alta tecnologia à disposição.

 

 

Claro que não contarei detalhes, pois não pedi autorização para revelar os cuidados que ela tem em relação aos filhos. E se ela quiser contar suas experiências, tem muito mais autoridade do que eu para tal. Porém, nosso bate papo antes do programa, me levou a pensar se eu não deveria ter tido um maior controle em relação ao uso dos equipamentos eletrônicos pelos guris aqui em casa. Mais: se nós pais ainda conseguimos ter algum controle em relação a este tema. Aliás, somos capazes de nos controlar diante das tentações tecnológicas?

 

 

Nossa conversa me remeteu a provocação feita por Ana Paula Carvalho, primeira psiquiatra brasileira certificada pela International Board of Lifestyle Medicine, que tem se dedicado, entre outros temas, a falar sobre a importância das relações em tempos de hiperconectividade. Ela defende o uso comedido das redes sociais e da tecnologia pois entende ser tênue a linha entre ônus e bônus desta relação:

 

 

“A internet – especialmente redes sociais e aplicativos de comunicação – proporcionou reencontrar pessoas que fizeram parte de nosso passado: amigos de escola, colegas de faculdade, vizinhos antigos…mas o quanto estar conectado por meio do computador ou do celular significa estar conectado com aquela pessoa?”

 

 

Ela própria responde:

 

 

“É extremamente benéfico usar as redes sociais para reencontrar amigos que se afastaram pelo tempo ou distância, desde que as pessoas transponham essa conexão para a realidade. Amizades virtuais não equivalem às reais; a troca não é a mesma. Uma pessoa que passa seus dias se relacionando com os outros por meio de smartphones ou tablets não deixa de estar em isolamento social, principalmente se desmarca programas com amigos em virtude de jogos eletrônicos ou interações pela internet”

 

 

 

 

Estudos comprovaram que o isolamento social é tão ou mais nocivo ao organismo quanto a obesidade e pode desencadear doenças físicas e psiquiátricas, como problemas cardíacos e depressão:

 

 

“O ser humano não foi programado para ficar sozinho. Precisamos uns dos outros e quando me refiro à companhia, é aquela real, olho no olho”

 

 

Não escondo minha paixão pela tecnologia, mas a reflexão sobre o uso dela é fundamental. No livro “É proibido calar!” abordo esta questão em vários momentos. Em um deles, lembro que o desenvolvimento tecnológico e a velocidade dos processos influenciam a disposição dos profissionais:

 

 

“Somos muito mais Charlie Chaplin em Tempos modernos,
despendendo tempo para a máquina, do que Santos Dumont na criação do avião, ganhando tempo com a máquina.
É uma distorção”.

 

 

Aproveito tudo isso para perguntar: qual foi a última vez que você jantou com seus filhos e deixou o celular dentro da bolsa? Quando foi conversar com um amigo e esqueceu de conferir as mensagens do WhatsApp?

 

 

Ana Paula Carvalho alerta que esse comportamento tem sérios reflexos sobre nossa qualidade de vida.

 

 

Pense nisso enquanto confere a entrevista ao programa “É pessoal”.

Do outro lado da corrupção tem a ética

 

 

“Fala-se muito de corrupção no noticiário. Do outro lado da corrupção está a ética” — foi assim que Heródoto Barbeiro introduziu a entrevista que fez comigo sobre o livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”, no jornal que apresenta na Record News. Falamos de comportamentos que devemos ter nas diversas situações do cotidiano, desde a relação com colegas de trabalho até a convivência na sala de aula.

Pai que deixa a educação dos filhos só com a mãe tem a cabeça no passado

 

 

No lançamento do livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” (editora Best Seller), fui entrevistado pelo Jornal da Cultura — onde tive minha primeira oportunidade como âncora, nos anos de 1990. Na conversa ao vivo com a repórter Marcela Terra, que esteve na livraria Saraiva do Shopping Ibirapuera, falei sobre a proposta do livro e a participação de Miriam Leitão e Mário Sérgio Cortella, que escreveram o prefácio e a orelha, respectivamente.

 

Em tempo: minha passagem pela TV Cultura, ao longo de oito anos, foi fundamental na minha formação como jornalista, por isso fiquei muito contente em ter meu trabalho destacado na programação da emissora.

Educar para a vida é o nosso desafio de pai

 

Por Olga de Mello

 

Entrevista publicada no Blog da Editora Record

 

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Diante de um cenário econômico, social e político conturbado, pais e mães precisam trazer a discussão sobre valores para o âmbito do lar, acredita o jornalista Mílton Jung, autor de “É proibido calar – Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”. A base para esse primeiro de seus livros a não tratar de jornalismo ou de comunicação veio de duas missões pessoais: ser pai e ser cidadão, diz Mílton, que tem dois filhos. A preocupação com o crescimento de intenções de anulação de votos pelo desalento dos eleitores, que buscam se distanciar da política, o motivou a propor que se desenvolvam ações para a construção de uma sociedade justa e generosa. A principal dessas ações se fundamenta no diálogo – e no exemplo – entre os membros da família, como explica Mílton Jung nesta entrevista.

 

Ética se ensina ou se pratica?

 

A ética não é o que eu digo — ou apenas o que eu digo — é o que eu faço — especialmente o que eu faço. E é fazendo, a melhor maneira de ensinarmos os outros. Nosso comportamento está sendo observado em casa, no trabalho, na escola e em todos os grupos sociais — inclusive digitais — dos quais participamos. E nos transformamos em referência. A ideia do faça o que eu digo, não faça o que eu faço, faliu. Por isso, os pais têm de estar muito atento às decisões que tomam diante das diferentes situações que encaramos no cotidiano. Posso pedir para meu filho respeitar os professores ou seus colegas, mas se no trânsito jogo o carro sobre os pedestres, faço qualquer manobra para levar vantagem, meu pedido perde valor — ele precisa ser validado pelas minhas atitudes. Não existe esta história de ter um comportamento ético com meu filho, meio-ético com os amigos e ser um crápula nos negócios. Falar é preciso, fazer é essencial.

 

Transgredir é uma característica da adolescência. Como estabelecer o limite entre a transgressão “natural” e a que pode configurar um delito?

 

Educar seus filhos sob valores e princípios éticos muito bem estabelecidos, desenvolver nas crianças o senso de dever e de responsabilidade a partir de ensinamentos, conversas e tomadas de atitudes diante das mais diversas situações que enfrentamos no cotidiano, certamente oferecerá a eles um repertório mais sofisticado de escolhas — o que os fará tomar a decisão certa e compreender seus limites. Os pais , porém, não têm controle — nem devem se iludir nesse sentido — sobre o que acontecerá com seus filhos. O que está sob nosso controle são as ações que adotamos com determinadas finalidades. No caso da ética, a finalidade de alcançar o bem. No caso de sermos pais, a de oferecermos aos nossos filhos a educação que lhes permitirá fazerem as melhores escolhas.

 

Excesso de trabalho, cansaço e um certo comodismo têm sido apontados como causas para alguns pais em estabelecer limites para os filhos. A educação é uma tarefa/compromisso que se torna cada vez mais árdua?

 

Educar para a vida é o nosso desafio de pai — que assumimos no instante em que aceitamos ser o responsável pela criação de um filho. É um compromisso ético que temos com ele, com a família e com a própria sociedade. O distanciamento dos pais na formação dos filhos pelos mais diversos motivos tem levado muitos de nós a não contrariar as crianças. Assim, ensinamos que os filhos tudo podem e nada devem. E podem muito mesmo, cada vez mais. Porém, da mesma maneira têm de ter consciência de que seus deveres crescem na mesma proporção. Por mais restrito que seja o tempo que conseguimos ficar ao lado deles, é fundamental que se crie um ambiente baseado na ética e na confiança, no qual se entenda que o ‘não’ faz parte desta convivência.

 

Campanhas governamentais ajudam a modificar comportamentos, inibindo práticas como o bullying, a homofobia e o racismo? Qual é o papel da família diante dessas questões – lembrando que boa parte dos brasileiros vê na aceitação de diferenças um ataque às tradições?

 

Uma família intolerante e preconceituosa tende a formar filhos intolerantes e preconceituosos. Porém, apesar de casos de racismo, homofobia e sexismo que surgem, tenho uma visão otimista em relação a mudança de comportamento da sociedade. Nossos filhos nasceram em um novo mundo e o debate intenso sobre essas práticas ajuda na transformação de nossas atitudes. Creio que muitas famílias já são impactadas de maneira positiva pelo comportamento de seus jovens que enxergam as diferenças de maneira saudável. Em relação ao bullying, cito no livro estudo que mostra que crianças que presenciam atos de violência na escola costumam ser o principal antídoto para essa prática ao intervir e convencer colegas a mudarem de comportamento — são mais efetivos que pais e professores. O mesmo estudo mostra que para essa intervenção ocorrer, as crianças devem ser estimuladas pelos pais.

 

Há momentos em que os pais devem ser autoritários, sem qualquer explicação?

 

Entre o autoritarismo e a permissividade, existe a autoridade. Com autoritarismo se impõe o medo e se inspira a rebelião. Com autoridade se dialoga, se ensina e se convence. Não fazer, não deixar ou não aceitar — é parte da educação para a vida. Porém, não se engane: seu filho vai querer saber “por que não”. Esteja preparado para argumentar e contra-argumentar.

 

Como é a família nos dias de hoje? Instituição falida, o pilar da sociedade, um refúgio, a fonte de todas as neuroses?

 

A família não está perdida, sem rumo e sem regra — como muitos costumam falar. Entendo que está apenas diferente. Muito diferente. As relações evoluíram, novos direitos foram conquistados e oportunidades surgiram, há uma exigência maior de se viver em condições de igualdade — ainda bem.

Ter filhos é como ter o coração fora do corpo, diz Obama

 

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A entrevista de Barack Obama para o jornalista David Letterman, em seu novo programa, agora no Netflix, é recomendável por inúmeros aspectos. Desde a forma como o entrevistador atua no palco e conduz a conversa até a performance do ex-presidente dos Estados Unidos. Fala-se do atual momento do país, da luta pela igualdade racial, da desigualdade social, da baixa participação política do eleitor americano, de retrocessos e ensinamentos.

 

Há uma proposital falta de isenção nas perguntas de Letterman, o que torna a conversa ainda mais íntima e reveladora. Depois de assisti-los e rever alguns trechos, quis escrever para você, caro e raro leitor deste blog, para chamar atenção à parte em que Obama conta da sua relação com as filhas, no instante em que a mais velha está prestes a ir para a Universidade.

 

Nos Estados Unidos, especialmente, esse estágio costuma significar a saída do filho de casa, pois vai morar no campus da Universidade, geralmente distante de onde a família habita. Esse desligamento costuma ser traumático, principalmente para os pais. Obama, líder político ainda muito influente, que já foi o homem mais poderoso do mundo, revela-se um pai como qualquer um de nós. Com certeza, como eu. Com as mesmas fraquezas, dúvidas e tristezas que surgem quando nossos filhos deixam a casa.

 

Obama diz que uma das melhores descrições que já ouviu é que ter filhos é como ter o coração fora do corpo com o agravante que eles estão por aí, atravessando ruas e pegando avião, entre outras atividades para as quais nunca temos certeza se eles estão realmente preparados. Confessa ao jornalista o desejo de dizer para os filhos: “venham, nós queremos que voltem para a barriga”. Fez o comentário para explicar o sentimento de levar Malia, a filha mais velha, na faculdade: “foi uma cirurgia cardíaca”.

 

A conversa com Letterman foi além. O ex-presidente contou que nos dias que antecederam a viagem de Malia, cada um reagia de maneira diferente para disfarçar a tristeza. Michelle, a mãe, limpava a casa, tentando por ordem nas coisas. A irmã mais nova, Natasha, preferiu criar alguma conexão com o pai e o convidou para uma tarefa doméstica: montar uma luminária. Coisa de 10 minutos mas que durou por mais de meia hora, em um silêncio perturbador. Era a família absorvendo a nova realidade que se concretizaria com a saída de casa da filha mais velha.

 

Os pais são mesmo figuras estranhas. Guiam seus esforços para que os filhos cresçam, tenham personalidade, alcancem conhecimento e encontrem na educação respostas para sua independência e felicidade no futuro. Eles crescem, ganham personalidade, alcançam conhecimento e se capacitam para estudar na melhor faculdade que estiver ao seu alcance. Nos enchemos de orgulho pela conquista obtida, mas somos incapazes de esconder a dor no peito de vê-los saindo de casa. Sofremos pela distância, reclamamos que não respondem as mensagens na velocidade que desejamos e arrumamos qualquer desculpa para que voltem com mais frequência para nos visitar.

 

Aqui em casa, o mais velho nos deu a chance de estudar na própria cidade, mas como já está trabalhando, tem sua agenda tomada de compromissos. Ao menos conseguimos garantir a presença dele por algumas horas da noite e nos fins de semana, quando não rola algum compromisso com amigos. O mais novo tomou outro rumo: pelas características de sua profissão, mora em outra casa, a mais de uma hora e meia de distância, e só aparece por aqui a cada 15 dias. Pai e mãe ficam muito felizes com a responsabilidade que ambos assumem e o sucesso que estão alcançando. Felicidade que se mistura à angústia de saber que nossos “corações” estão não apenas fora de nosso peito, como mais distantes.

 

A ouvir Obama, ratifico a ideia que pais são mesmo figuras estranhas. Estranhas, mas normais.

 

Que nossos filhos saibam entender nossas contradições!