“Desejo não envelhece.” A afirmação do Dr. Fabrício Oliveira poderia ser apenas uma provocação retórica se não viesse sustentada por mais de uma década de trabalho clínico com pessoas idosas e pela escuta atenta a histórias muitas vezes silenciadas dentro de casa. No programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube, o psicólogo e gerontologista defendeu com firmeza que envelhecer não significa perder vontade, nem identidade.
A entrevista trata de um tema ainda cercado por preconceitos: a sexualidade na maturidade. “As pessoas confundem sexualidade com ato sexual. Sexualidade é afeto, é toque, é desejo, é companheirismo. E isso não tem prazo de validade”, disse Fabrício, que, desde 2010, atua no universo do envelhecimento com foco no bem-estar emocional, psicológico e relacional dos idosos.
“Eu só atendo idosos”
A decisão de se especializar no público idoso nasceu de um encontro entre a sensibilidade clínica e a demanda reprimida. Tudo começou com um trabalho de conclusão de curso que virou referência acadêmica. Depois, veio uma reportagem de televisão que repercutiu de forma inesperada. “Os idosos começaram a me procurar porque se sentiram representados. Eles diziam: ‘doutor, eu tenho vontade de reencontrar o primeiro amor, mas os meus filhos acham isso uma bobagem’”.
Fabrício entendeu que não bastava escutar. Era preciso acolher, orientar e também educar as famílias. Por isso, passou a oferecer atendimento domiciliar. “O idoso vai muito ao médico. Psicólogo? Só se for alguém que vá até ele. No consultório ele não aparece”, explicou. A visita à casa do paciente, segundo ele, abre espaço não só para a escuta terapêutica, mas também para a reorganização do ambiente doméstico — desde a retirada de tapetes até conversas com os filhos que, sem perceber, reforçam o etarismo.
Miss Longevidade e o protagonismo invisível
Se os consultórios ainda são pouco acessados, as passarelas podem ser caminhos de transformação. Foi assim que surgiu o projeto Miss e Mister Longevidade, idealizado por Fabrício em João Pessoa e já realizado em várias cidades da Paraíba. “A mulher passa o ano pensando no vestido. A neta vai à escola e diz: ‘minha avó é Miss’. Isso muda tudo.”
Mais do que promover autoestima, o concurso combate um estigma estrutural: a exclusão social da velhice. “A maior violência contra o idoso no Brasil não é a financeira. É a psicológica”, alertou. E parte dela começa na infância, quando se ouve frases como “cuidado com o velho do saco” ou se vê bruxas velhas como vilãs em contos infantis. Para ele, mudar isso exige uma presença ativa: “O idoso precisa ser protagonista. Quando ele afirma sua identidade, a família pensa duas vezes antes de zombar da idade ou fazer comentários discriminatórios”.
A velhice como escolha de vida
Perguntado sobre o que espera da própria velhice, Fabrício respondeu sem rodeios: “Eu não quero ser um velho cheio de manias. Mania afasta. Eu quero ser o velho legal, que abre a casa para os amigos, que está de boa”. Ele aposta na leveza como estratégia de convivência e qualidade de vida. E reforça: “Envelhecer é natural. O que não é natural é se isolar, deixar de viver, parar de amar”.
Ao fim da conversa, deixa uma sugestão simples, mas poderosa: “Acorde, olhe no espelho e diga: hoje eu envelheci mais um dia. E que bom que estou vivo”. Para ele, aceitar o processo com naturalidade e presença é a chave para viver bem — e melhor — os anos que virão.
Assista ao Dez Por Cento Mais
A entrevista completa está no canal Dez Por Cento Mais, que você assiste no YouTube. Inscreva-se no canal e receba as atualizações sempre que um episódio inédito for ao ar. Você também pode ouvir o programa em podcast, no Spotify.
Foto publicada por Fernando Sobrinho em Memorias Paulistanas
“Vila Prudente,/ bairro que nos seduz/ De dia falta água/ De noite falta luz/ Abro o chuveiro/ Oi, não cai um pingo/ Desde segunda até domingo/ Eu vou pro mato/ Oi, pro mato eu vou/ Vou buscar um vagalume pra dar luz em meu chatô”
Para iniciar essa narrativa com bom humor, eu coloquei em destaque a letra da marcha carnavalesca “Vagalume”, de 1954, autoria de Vitor Simon e Fernando Martins, trocando apenas Rio de Janeiro por Vila Prudente, bairro onde fui criado, vivi boa parte da minha vida e de onde trago muitas recordações. Ouvi muito a marchinha ser cantada, em forma de paródia, pelos antigos moradores do bairro como forma de levar a vida…
Entre buracos, balões e bolinhas de gude
Durante a infância, nos anos 1950, as famílias vilaprudentinas sofriam bastante com a falta de água e energia elétrica. O bairro era caçula da região, comparado com a Mooca e Ipiranga, ambos limítrofes, fundados no século XVI, e já bem desenvolvidos. Faltava infraestrutura, por isso muita coisa o bairro ainda carecia. Lembro da coleta de lixo em carroças puxadas por burros, que não aparecia todos os dias. Em dia de chuva, o bairro se complicava com enchentes na região próxima à estação do Ipiranga, parava tudo. Se não chovia, a porteira é que parava todo o trânsito. O problema só se resolveu quando foi construído o Viaduto Capitão Pacheco Chaves.
Por outro lado, saudades do padeiro que trazia o pão em domicílio de carroça, onde eu adorava comer as raspas que ficavam no fundo, o tintureiro nissei que buscava roupa pra lavar e levava tudo por entre o braço, os amoladores de faca com aquelas gaitinhas características, o vendedor de suspiro, o bijuzeiro com aquela placa com um som de reco-reco, o homem do realejo com o periquito da sorte, os moleques que vendiam pirulitos, que eram pura água com açúcar, com o infalível grito: “Piruliteeeeeeeeeiro! Tira dooois por um cruzeirooooooooo!!!” Promoção. Era o marketing.
Na minha rua, a Cananéia, as famílias que lá moravam, em sua maioria, vieram para realizar o sonho da casa própria, porque pagavam aluguel em bairros mais desenvolvidos e, com sacrifício, adquiriram terrenos da Cia Cerâmica e construíram suas casas. Meu avô paterno foi um deles, veio do Cambuci. No terreno, ele construiu 3 casas (mas daquelas bem improvisadas) para ele com minha avó, e as filhas já casadas e com filhos — um deles era eu.
De lá de casa eu avistava o “morrão”, onde havia muitos campos de futebol, suficientes para cada agremiação de várzea daquela parte do bairro. Atuavam no morrão: Portuguesa, Flamengo, Ouro Verde, Comercial. Mais tarde o “morrão” seria o Crematório de Vila Alpina e Cemitério São Pedro, previstos muitos anos antes. A gente não acreditava.
A infância onde tudo era campo
Para nós, moleques de rua, as dificuldades não eram tão sentidas, afinal nossas preocupações eram a de brincar o dia inteiro até escurecer, jogando bola, rodando pião, jogando bolinha de gude, empinando pipas (que também chamávamos de quadrado), brincar de pique, acusado, mãe da rua (essa era violenta…), unha na mula, maçaneta (jogo com tacos que recebia outras denominações em outros bairros)… Tomar banho? Não era algo tão relevante.
As meninas também tinham suas brincadeiras: pular corda, amarelinha, casinha, corre cipó, pique (que pronunciávamos “piques”)…
Havia uma espécie de calendário que determinava a época de cada brincadeira. Assim, nos meses de vento, a partir de julho, as pipas dominavam; antes, em junho, os balões, as lanternas feitas de lata de óleo; no início do ano, pião — e assim íamos… Já futebol era todos os dias em nosso campinho, quer realizando peladas com a nossa turma mesmo, ou jogando contra outras turmas do bairro, sempre descalços, vira 6, acaba 12… Mas para a realização dependia de termos a chamada “bola de capotão”, o que às vezes nenhum membro da turma tinha, e amargávamos férias futebolísticas, a não ser quando o adversário trazia a bola.
Existiam muitas turmas naquela região da Vila… muitas. Nós éramos da “Turma da Serragem”, porque nosso campinho ficava num terreno de uma serraria com serragem em toda a extensão e com uma certa altura, que lembrava até as dunas da cidade de Natal. Éramos bem pacatos, com time de fraco pra regular, mas cheios de garra. Outras turmas eram mais briguentas, como a da Padaria Amália e a Turma da Cananéia, ambas rivais.
A Padaria Amália era muito conhecida e virou referência no bairro, a tal ponto que, quando alguém que morasse próximo a ela era indagado onde morava, dizia: “Na padaria Amália” ou, para descer do ônibus, dizia ao motorista: “Descerei na padaria Amália”. Essa característica era muito comum de existir em bairros de São Paulo, sempre com uma referência comercial para facilitar o deslocamento e localização.
A festa junina da minha família
Na rua, ainda de terra, por ocasião das festas juninas, cada família fazia a sua festa com fogueira, canjica, pipoca e outras guloseimas, na véspera ou no dia de determinado santo junino. E todas as outras famílias participavam até a fogueira ficar em brasa para esperar as batatas-doces. A festa da nossa família acontecia sempre no dia de São Pedro, e a festa do dia 28 de junho de 1958 foi inesquecível para mim: o Brasil ganhara o campeonato mundial de futebol pela primeira vez nesse dia, na Suécia. Nunca vi tantos balões no ar, foguetório… Muita alegria do povo.
Essa convivência da rua se limitava a uma dimensão de um quarteirão. Lembro que nesse pedaço somente uma família possuía televisão, justamente do nosso lado. Claro que nós e muita gente éramos “televizinhos”. Aos domingos, os moleques iam assistir ao “Circo do Arrelia”, pelo canal 7, e logo após vinha a transmissão do futebol de partida do campeonato paulista. Daí vinham os rapazes mais velhos, na maioria palmeirenses, que se juntavam aos rapazes da casa, também palmeirenses. Nós, moleques, saíamos. Todos eles jogavam em um time lá do “morrão”, nos jogos de várzea que aconteciam aos domingos. Aliás, muitos jogadores profissionais saíram dos times lá do morro.
Eu gostava de acompanhar o Vasco da Gama da Vila Prudente, cujo campo não era no “morrão”, e sim onde hoje está situada a Igreja São Carlos de Borromeu, na Rua do Oratório, em direção à Rua do Orfanato. Meu tio me levou pra lá a primeira vez em um festival com o campo lotado, cada jogo melhor que o outro, com os times do morro participando. Fiquei extasiado com a atmosfera do evento. Eu lembro que os troféus aos times vencedores eram entregues num palanque, com erguimento, e o grito de vitória da agremiação sempre era o mesmo: “1, 2, 3… 4, 5… 6… 7, 8, 9… para 12 faltam 3… tchi bum bá… iu maracará… zum… zum… zum… rá… rá… rá!!” Uma festa que geralmente se estendia em “chopada” na sede do clube. O bicho-papão do bairro era o Búfalo, da fábrica de papel do mesmo nome.
O Vasco, embora não possuísse grande torcida, tinha um torcedor que era um espetáculo à parte. Seu grito de incentivo para o time era “Vamo Dibuiá!”, que ecoava por todo o campo. Os torcedores do barranco aplaudiam e até o apelidaram de Dibuiá. Grande figura.
Do pião à CEPAM: a vila que virou cidade
O curso primário eu fiz, como a maioria da molecada fez, no Grupo Escolar República do Paraguay, que existe até hoje, bem em frente à também antiga Biblioteca. À noite, se chamava Colégio Estadual Professor Américo de Moura (CEPAM), com curso ginasial, extremamente concorrido para os candidatos que vinham do curso de admissão. Era mais difícil que a Fuvest entrar para cursar o ginásio do estado. O curioso é que depois o colégio se mudou para a Vila Bela (subdistrito de Vila Prudente) e a sigla foi utilizada para denominação de uma padaria que hoje é a referência do bairro, talvez a maior da cidade e quiçá do Brasil: Padaria CEPAM.
Perto dela morei por alguns anos e meus filhos cresceram nessa região.
No terceiro ano do grupo, inconscientemente, fiz uma confusão danada na aula de religião, pois pensei que eu fosse de alguma religião evangélica, que o povo denominava como “crentes”, mas na verdade eu era católico, sem ter essa certeza e sem consultar previamente os meus pais. Havia aulas somente para os católicos e para os crentes. Então… eu ia às aulas dos crentes normalmente, embora estranhasse o pouco número de participantes. Um dia resolvi contar para os meus pais que, além da bronca que me deram, determinaram de forma incisiva que eu desfizesse toda essa encrenca. Minha professora, católica fervorosa, como toda a escola, vibrou de alegria quando falei que queria ser “convertido”. Fiquei até conhecido pela decisão. Um dia, sem eu esperar, perante toda a classe, ela trouxe o padre, que se dispôs a me batizar no próximo domingo. E o pior: que eu trouxesse meus pais para também serem batizados… Gelei!!… Pensei… O que vou dizer em casa?… E agora? Porém (e sempre tem um porém, como dizia Plínio Marcos), independentemente da religião, Deus me ajudou. Houve um recesso escolar e o assunto foi esvaindo, era final de ano, veio o quarto ano, outra professora. Fato marcante: nesse ano, um colega de classe, japonês, budista, recém-chegado do Japão, se converteu ao catolicismo… Eba!… Deixei de ser o único (só que ele não havia mentido…). No mesmo ano, fizemos primeira comunhão juntos na Igreja de Santo Emídio. A professora do terceiro ano me presenteou com um livro. Final feliz.
Na vila era comum aparecerem circos e parques de diversões em terreno em frente à Padaria Amália ou onde pudesse. Vi muitos acampamentos de ciganos nesses locais. Os mais velhos falavam para não chegarmos perto… Vinham também shows de artistas em início de carreira e também profissionais, como a “Caravana do Peru que Fala”, do Silvio Santos, ou a “Galera dos Bairros”, sempre em um dos 2 cinemas do bairro: Vila Prudente ou o Amazonas. Show de rua também acontecia com o “Sete Belo”, comediante da TV Record. Nesses shows, de vez em quando surgia umas briguinhas entre turmas rivais. Já políticos, em época de eleição, promoviam muitos shows. O Jânio Quadros sempre foi o preferido da rua.
Quando o asfalto chegou à nossa Vila
O bairro começava a se desenvolver e veio o asfalto. Começava a desenvolver. Nossas brincadeiras mudaram um pouco. Os carrinhos de rolemã (ou rolimã) entraram em cena, alguns moleques tinham bicicleta. As meninas andavam de patins. Jogar bolinha de gude só em terrenos isolados. Começaram construções de casas e sobrados. Rodar pião estava difícil. Carros começavam a passar pela rua em grande intensidade. Os moleques já estavam adolescentes e muitos começaram a trabalhar ou foram aprender ofício no Senai, e outros foram estudar. Minha família foi morar em Vila Salate, Penha.
Vila Prudente, sempre chamada de quintal da Mooca, principalmente pelos próprios mooquenses, crescia. Muitos anos se passaram para chegarem à conclusão de que a Ford ficava no bairro e não no Ipiranga (até a linha do trem é Vila Prudente). O crescimento vertical não tardou a chegar, inclusive na região do crematório se estabeleceu uma área nobre do bairro.
A Vila tornou-se centenária. Com muito prazer, eu, com os artistas Pipoquinha e Kakareko, participamos da festa alusiva à efeméride e o troféu representando o “Obelisco do Centenário” guardamos com muito carinho. Eu era o palhaço Xinxolim.
De repente, a Vila Prudente detém ótimos colégios, um jornal de grande circulação, dois shoppings, uma faculdade, estação de metrô. As famílias emergentes que sonhavam morar na Mooca ficaram na Vila. Há outras vilas famosas como Vila Zelina, Vila Ema, Vila Alpina, Vila Diva — todas pertencentes ao subdistrito Vila Prudente — que os moradores falam com muito orgulho, mas que, no fundo, todos são vilaprudentinos. Diferentemente dos bairros do Ipiranga e Mooca, cujos nomes vêm da língua tupi e mantêm uma forte relação com os moradores e com a cidade. Mas, por tudo, viva a Vila Prudente, bairro que realmente nos seduz.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Diante da plateia do Teatro da FAAP, sob os refletores que iluminavam a cena, eu me vi mais uma vez ao aldo de um grande mestre e amigo: Mário Sérgio Cortella. Um filósofo que não apenas pensa, mas ensina com a força de quem coloca a alma em cada palavra. Estávamos ali para falar sobre Faça o Teu Melhor, seu mais novo livro, publicado pela editora Planeta. Como sempre acontece quando se está ao lado de Cortella, falávamos, na verdade, sobre a vida.
A felicidade daquele momento veio acompanhada de um senso de responsabilidade: estar à altura do conhecimento que Cortella compartilha é um desafio. É preciso estar atento, conectado, disposto a mergulhar nas ideias e, claro, fazer o meu melhor para acompanhar a profundidade dos seus pensamentos. E ali, no palco, cercado pelo olhar atento do público, percebi que essa era exatamente a essência do que discutíamos. Fazer o nosso melhor não significa superar o outro, mas sim superar a nós mesmos, a cada dia, na condição que temos, enquanto não temos condições melhores para fazer ainda melhor.
O livro de Cortella nasce dessa provocação. Inspirado na citação de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, ele nos convida a colocar quanto somos no mínimo que fazemos. Não é sobre grandeza medida por status ou reconhecimento externo, mas sobre excelência como um compromisso pessoal. Um antídoto contra a mediocridade, essa doença silenciosa que se esconde no vou fazer o possível quando, na verdade, deveríamos dizer vou fazer o meu melhor.
No palco, entre reflexões e risadas, Cortella lembrou de sua infância em Londrina e da decisão que tomou aos 12 anos de idade: fosse qual fosse sua profissão, ele se recusaria a ser medíocre. E essa recusa não era uma obsessão pela perfeição, mas um compromisso com a entrega. “Não quero ser o melhor professor do mundo, quero ser o melhor professor que eu posso ser”, disse ele, com aquela clareza desconcertante que nos obriga a olhar para dentro.
Fazer o nosso melhor, explicou Cortella, não significa apenas aperfeiçoar uma técnica ou adquirir mais conhecimento. Envolve um compromisso ético e estético: fazer bem o que precisa ser feito e, ao mesmo tempo, fazer de forma bela, digna, significativa. Como um cozinheiro que não apenas prepara um prato, mas coloca ali seu esmero. Como um jornalista que não se contenta com uma pauta mediana, mas busca um ângulo mais profundo. Como um médico que não apenas prescreve, mas se importa. Como um professor que não apenas transmite, mas transforma.
Esmero foi a palavra que ganhou lugar privilegiado no palco e, ao fim da noite, no autógrafo grafado nos exemplares dos livros levados carinhosamente pelos leitores presentes. Cortella a descobriu em Os Maias, de Eça de Queirós, na cena em que Baptista recebe Carlos e “preparava com esmero um grogue quente”. Para ele, esmero vai além do cuidado: é o refinamento que dá polimento ao que fazemos, elevando cada ação ao seu melhor acabamento possível.
Conversamos também sobre a síndrome do possível, essa armadilha do conformismo em que nos contentamos com o mínimo necessário para seguir adiante. Quantas vezes ouvimos (ou dizemos) eu fiz o possível quando poderíamos ter nos esforçado mais? E o quanto essa mentalidade, tão enraizada, nos afasta da excelência? No palco, rimos da lembrança de um boletim escolar cheio de notas medianas e da justificativa clássica: pai, deu para passar. Passar não é suficiente. Viver no rascunho não basta.
Entre tantas reflexões, ficou um ensinamento precioso: a excelência não é um ponto de chegada, mas um horizonte. Não é um troféu para ser ostentado, mas um compromisso diário. Não exige perfeição, mas exige que estejamos em movimento. Fazer o nosso melhor, na condição que temos, enquanto não temos condições melhores para fazer ainda melhor.
E quando o talk show chegou ao fim, depois de um mergulho profundo nessas ideias, deixei o palco com a certeza de que aquele encontro não terminava ali. As palavras de Cortella ecoariam nos pensamentos do público, assim como ressoavam em mim. Enquanto nos despedíamos, troquei com ele um sorriso e disse, com a simplicidade que o momento pedia:
— Valeu, Cortella.
E valeu mesmo. Porque foi um daqueles encontros que fazem valer a pena.
Ouça a entrevista completa com Mário Sérgio Cortella
Kátia Regina, da Nestlé, foi uma das mulheres entrevistadas Foto: Priscila Gubiotti
No sábado (01.02), o Mundo Corporativo estará de volta com entrevistas inéditas, marcando a abertura da temporada 2025. Ainda nesta semana, retomo as gravações para este que é o mais longevo programa de rádio sobre carreiras, gestão, liderança, empresas e empreendedorismo. No ar há 23 anos, sendo os últimos 14 sob minha direção, já conduzi mais de 600 entrevistas — por minha conta e risco, e, claro, sob a supervisão do jornalismo da CBN. Nesse período, conversei com CEOs, empreendedores, criadores e consultores, acompanhando as transformações do mundo corporativo.
Nosso objetivo sempre foi refletir as mudanças nas organizações, trazendo os temas mais relevantes para o mercado de trabalho. Entre eles, a crescente participação feminina e a importância da diversidade e equidade nas empresas.
Mas foi apenas em 2019 que me dei conta de que o Mundo Corporativo ainda não refletia, na prática, as transformações que discutíamos no programa. Até então, a maioria dos entrevistados eram homens brancos, o que espelhava a realidade das empresas: um mercado dominado por lideranças masculinas.
Identificada a desigualdade, busquei entender suas causas. Como programa tem relevância, recebemos muitas sugestões de entrevistas, com profissionais altamente qualificados. No entanto, uma conta simples mostrava que, a cada dez indicações, oito eram de homens e apenas duas de mulheres. Era com base nesse elenco que fazíamos nossas escolhas. Ou seja, a lista era enviesada.
Diante disso, decidimos agir. Se as empresas e agências de comunicação ainda não nos conectavam com as CEOs, empresárias, empreendedoras, conselheiras e consultoras, nós iríamos buscá-las.
Hoje, quando temos um tema que nos interessa e a escolha for entre um homem e uma mulher, optamos pela mulher. Jamais abriremos mão da excelência. Jamais. Porém, por muitos anos, os homens foram os privilegiados nessa escolha.
A partir daquela decisão, o Mundo Corporativo começou a mudar. E os números mostram a transformação.
Em 2019, entre os entrevistados, 35 eram homens e apenas 8 mulheres — um desequilíbrio de 81% contra 19%.
Em 2020, a mudança começou: 30 homens e 14 mulheres (68% a 32%).
O avanço mais expressivo ocorreu em 2023, quando as mulheres superaram os homens pela primeira vez: 24 entrevistadas contra 21 entrevistados, uma inversão da tendência anterior, com 53% de participação feminina.
Em 2024, o equilíbrio se manteve: fechamos 29 entrevistas com mulheres e 26 com homens (52,7% a 47,3%).
Essa evolução reflete um esforço contínuo para ampliar a representatividade e enriquecer o debate corporativo. Desde que assumi a apresentação do programa, em 2011, a presença feminina cresceu 480%.
Ao mesmo tempo que comemoro o resultado com toda a equipe de produção do Mundo Corporativo, é preciso reforçar: essa mudança não é um favor às mulheres. Tampouco uma concessão. É uma correção de rota. Transformações como essa só acontecem quando reconhecemos nossos vieses e nos propomos a agir.
E a diversidade não pode se limitar ao gênero. É preciso ampliar ainda mais esse olhar, promovendo maior inclusão racial e étnica para que o espaço seja verdadeiramente plural — onde talento e competência definam quem ocupa cada posição.
Não por acaso, a entrevista que marca o início da temporada 2025 será com Carlos Humberto, CEO da Diaspora.black, empresa que desenvolve o afroturismo e incentiva a incorporação da diversidade e inclusão no ambiente corporativo. Um tema que se torna cada vez mais urgente para atender às demandas das novas gerações.
Hoje, durante a apresentação do Jornal da CBN, ao lado da Cássia Godoy, vivemos mais um daqueles momentos que guardaremos para sempre na memória e no coração. Anunciamos, em primeira mão e ao vivo, para a atriz Valentina Herszage que o filme do qual ela é uma das protagonistas, Ainda Estou Aqui, acabara de ser indicado como finalista do BAFTA, o principal prêmio do cinema no Reino Unido.
Valentina, que interpreta Veroca, a filha mais velha de Eunice Paiva, reagiu visivelmente emocionada à notícia:
“Meu Deus, gente! Gente, que fantástico! É tanta coisa boa, a gente nem sabe mais como reagir, vai ficando sem palavras assim…” disse a atriz, aos 26 anos.
No silêncio que fiz após o anúncio, para acolher a emoção da atriz, acabei me emocionando também, como imagino ter acontecido com muitos dos ouvintes que nos acompanhavam.
O ministro da Fazenda Fernando Haddad anunciou o bloqueio de até 600 plataformas de apostas e jogos eletrônicos que funcionam no Brasil e não pediram a regulamentação ao Governo Federal. “Se você tem dinheiro em casa de aposta (ilegal), peça restituição já”, disse o ministro na entrevista que fizemos na edição desta segunda-feira, no Jornal da CBN.
Tirar do ar esses sites é apenas parte do problema. Os números divulgados pelo Banco Central na semana passada mostram o tamanho do desafio: entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões foram transferidos via Pix de pessoas físicas para a jogatina eletrônica, neste ano. O que mais causou espanto: em agosto, 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família destinaram R$ 3 bilhões para esses jogos online.
Proibir aposta com uso do cartão dos programas sociais e com cartão de crédito, acompanhamento do CPF dos apostadores com alertas para gastos excessivos e limite no uso do Pix são algumas das medidas que o Governo vai anunciar nesta semana, segundo o ministro.
Ao mesmo tempo que tenta controlar os gastos abusivos de jogadores endividados e viciados, Haddad tem a tarefa de controlar as contas públicas do Governo. O ministro reforçou a necessidade de respeitar o arcabouço fiscal aprovado pelo Congresso para controlar os gastos públicos e, assim, criar condições para a redução das taxas de juros e incentivar o investimento. Ele alertou que o descontrole das despesas pode levar ao aumento da dívida pública, comprometendo o crescimento econômico sustentável do Brasil.
A entrevista completa você assiste no vídeo acima.
Imagem da E.E. Heróis da FEB, no Parque Novo Mundo (reprodução Facebook)
Eu tinha nove anos, em 1970, quando minha família se mudou do Tatuapé, numa casa que sobreviveu à construção da estação do metrô, para um bairro próximo, do outro lado do Rio Tietê: o parque Novo Mundo, vizinho da Vila Maria, Penha e Guarulhos.
O nome do bairro é uma referência ao novo mundo surgido após a Segunda Guerra Mundial, com as ruas homenageando nossos combatentes da FEB, muitos dos quais tombaram na Itália, onde nosso exército lutou bravamente contra o nazifascismo.
Fomos morar na rua Soldado João Pereira da Silva, 16, esquina com a Pistoia, nome de uma cidade italiana, na região da Toscana. Em Pistoia, a cidade, localiza-se o Cemitério Militar Brasileiro onde foram enterrados os nossos soldados que morreram em batalha, mais tarde transferidos para o Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. As placas com os nomes permaneceram lá e também o Monumento Votivo Brasileiro da Segunda Guerra Mundial.
Nas cidades Italianas por onde a FEB passou, os brasileiros são reverenciados até hoje. Há um vídeo que registra uma solenidade em Montese, com as crianças cantando a Canção do Expedicionário num bom português. É realmente emocionante.
Voltando ao Parque Novo Mundo: na minha rua havia poucas casas e vários terrenos baldios. Naquela época não tinha iluminação pública, água encanada, esgoto e asfalto.
Só havia uma linha de ônibus atendendo o bairro que seguia para o Parque Dom Pedro II e dava a volta no mundo. O guarda noturno fazia sua ronda à cavalo, depois passou para a bicicleta e bem depois para a moto.
Na esquina de casa ficava o restaurante do Sr, João e da dona Olinda. A padaria dos Srs. José e Joaquim era na mesma quadra, esquina com a avenida principal. Os nomes dos proprietários já dizem tudo, moravam no bairro muitos imigrantes, não só portugueses, mas também espanhóis, italianos, japoneses, convivendo como deveria ser no Novo Mundo surgido.
Na rua Pistoia havia uma colônia japonesa num terreno bem grande, quase um quarteirão, e os japoneses jogavam beisebol e praticavam Tai chi chuan no pátio. Em 1988, no terreno foi construído um hospital, o Nipo-Brasileiro, com as presenças ilustres do Príncipe e da Princesa do Japão, do presidente José Sarney, do governador Orestes Quércia, do deputado Ulisses Guimarães e muitas outras autoridades
A única escola era estadual e chamava-se Heróis da FEB, mas não estudei lá não. Eu e minha irmã fomos estudar no Colégio Santa Catarina, na Ponte Grande em Guarulhos, que já não existe há muitos anos, dando lugar a um condomínio de prédios, onde inclusive hoje mora uma amigo meu. Íamos para escola com algumas crianças vizinhas numa perua Chevrolet já antiga para a época. O Tio e a Tia da Perua, como se diz hoje, eram chamados de senhor.e senhora, mas era outra época.
Nos vários terrenos baldios, a molecada fazia os seus campinhos de futebol. Jogávamos com uma bola “Dente-de-Leite” e calçando “kichutes”, um tênis preto que tinha travas de chuteiras e servia pra ir a escola, também.
No terreno atrás da nossa casa havia um morrinho de uns três metros de altura, o tobogã, que descíamos em caixas de papelão. Era a época dos quadrados, que hoje em dia são mais conhecidos como pipas; do peão de madeira e das figurinhas pra jogar bafo.
Depois, ganhamos a liberdade com uma bicicleta de duas rodas, a minha era uma Caloi dobrável; mas alguns tinham a Monareta e aí o bairro foi mais explorado pela turminha.
Infância muito feliz.
Só me mudei do bairro quando saí de casa para me casar, mas ainda trabalho no Novo Mundo. Hoje, já com água, encanada, iluminação nas ruas e diversas linhas de ônibus. Dizem que terá até uma estação de metrô. Vamos aguardar.
Ah, pra finalizar, numa busca na internet encontrei, em notícia de 2022, o soldado, hoje com a patente de Tenente, João Pereira da Silva, morador de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e com 98 anos de idade. Lutou na Itália, na tomada de Monte Castelo, em novembro de 1944, quando os brasileiros derrotaram as tropas alemãs.
Não sei se é a mesma pessoa que deu nome à minha rua, mas fica o meu agradecimento a todos esses bravos combatentes que lutaram para derrotar o totalitarismo na Europa e nos legaram um Novo Mundo.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Luiz Roberto de Almeida é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode ser personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Bia e Mateus em entrevista ao Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti
“O ESG nada mais é que uma sigla que comprova as práticas socioambientais de uma empresa. Só que o ESG se tornou algo muito grande e muito difícil para pequenas e médias empresas.”
Bia Martins
Como pequenas e médias empresas podem adotar práticas de sustentabilidade e se beneficiar das políticas ESG (Ambiental, Social e Governança)? Essa foi a questão central da entrevista com Bia Martins e Mateus Ferrareto, fundadores da ESG Pro Brasil, no programa Mundo Corporativo. Eles discutiram como transformar a governança ambiental, social e corporativa em algo acessível e aplicável a negócios de menor porte.
“Não tem como uma pequena empresa zerar carbono. Ela não sabe o que é isso e vai ser distante. Mas ela consegue trocar o copo plástico por um copo de vidro. Ela consegue apagar a luz quando não estiver usando. Ela consegue desligar o ar condicionado no dia que não está tão calor”.
Mateus Ferrareto
Estratégias e práticas
A ESG Pro Brasil é uma empresa dedicada a facilitar a adoção de práticas sustentáveis para pequenas e médias empresas. Ela oferece um selo de certificação ESG que valida e promove ações socioambientais corporativas. Além disso, a ESG Pro Brasil desenvolve trilhas de boas práticas em parceria com a Unesco, simplificando o processo de implementação dessas práticas. A empresa também colabora com mais de 180 ONGs, atendendo às metas de desenvolvimento sustentável da ONU, e fornece um sistema de benefícios e cashback para as empresas certificadas, incentivando o engajamento e a responsabilidade socioambiental no setor empresarial.
“Então, o que a gente é hoje, de uma forma bem prática: a gente é um selo e a gente quer democratizar o acesso ao ESG juntos”.
Bia Martins
Trajetória Profissional e Engajamento Social
Bia Martins começou seu envolvimento com questões sociais desde muito jovem. Aos seis anos, fundou a ONG Olhar de Bia, motivada por uma experiência pessoal marcante ao ver crianças em situação de vulnerabilidade. A partir dessa iniciativa, Bia se dedicou ao combate à miséria através da educação e da solidariedade. Sua trajetória é marcada por um profundo compromisso com a transformação social, que agora se estende ao seu trabalho na ESG Pro Brasil.
“O olhar de Bia nasceu de uma ação pontual no Natal, ajudamos 600 pessoas e hoje já impactamos mais de 450.000 vidas”
Bia Martins
Mateus Ferrareto, por sua vez, encontrou no empreendedorismo uma forma de aliar suas habilidades profissionais ao propósito de promover a sustentabilidade. Formado em Arquitetura, ele cofundou a Eco Flame Garden, empresa que desenvolve móveis para áreas externas. Entendeu logo no início o peso de carregar o nome “eco” no seu negócio. Perdeu seu primeiro cliente, porque não considerava os conceitos ESG nas suas práticas. Ao deparar com aquela realidade, percebeu que precisava se aprofundar no tema:
“A Eco Flame Garden se tornou uma empresa carbon-free, com projetos que utilizam materiais reciclados, como redes de pesca retiradas dos oceanos”.
Mateus Ferrareto
A experiência com a Eco Flame Garden inspirou Mateus a criar a ESG Pro Brasil. Sua jornada profissional reflete uma busca constante por soluções inovadoras que conciliem negócios e responsabilidade socioambiental.
Ouça o Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.
“O reconhecido jornalista Mílton Jung, âncora do Jornal da CBN e do Mundo Corporativo, ambos da rádio CBN, é um dos profissionais que amam o que fazem e, naturalmente, vem se destacando em meio a tantos outros. Além disso, sua paixão e sua entrega pelo Jornalismo, fizeram ele aprender tanto que passou a palestrar sobre Comunicação e Liderança para que os profissionais das empresas se tornem melhores, mais produtivos e mais felizes no ambiente de trabalho”
Assim, Analice Nicolau inicia entrevista na qual tive a oportunidade de falar da minha carreira e de projetos que realizo, além do rádio. Agradeço a ela e seu colega de coluna, Rafael Gmeiner, pela oportunidade que me ofereceram.
A entrevista com o prefeito de Caxias do Sul, Adiló Didomenico, nesta manhã de segunda-feira, no Jornal da CBN, trouxe à tona memórias e emoções profundas. A cidade, ainda despertando de mais um pesadelo, teve sua área rural devastada pelas fortes chuvas e passou a madrugada sob o impacto de um tremor de terra que, segundo relato de moradores, durou cerca de meia hora.
Caxias do Sul não é apenas um ponto no mapa; é um lugar de recordações pessoais vividas quando criança, durante as férias escolares, sempre ao lado dos Ferretti. Foi lá que meu bisavô, Seu Vitaliano, viveu. Foi lá que nasceu minha avó, Ione, e para lá que ela voltou apenas para parir meu pai. Das muitas lembranças, recordo das Tias Ema e Olga, esta última residia no casarão de madeira da Nove de Julio. A avenida, famosa pelo desfile da Feira da Uva, é um símbolo de momentos felizes da minha infância.
Adolescente, retornei a Caxias para jogar basquete com os amigos do Recreio da Juventude, clube esportivo e social da cidade. Essas experiências construíram uma conexão forte e duradoura com a região, tornando a entrevista desta segunda-feira especialmente tocante.
Durante a conversa, vários sentimentos se misturaram. O prefeito lembrou que Caxias do Sul era o maior produtor de hortifrutigranjeiros do Rio Grande do Sul, e as recentes calamidades dificultaram o acesso aos centros de consumo devido aos bloqueios nas rodovias. Desde o início, áreas de risco foram evacuadas e passagens foram abertas nas regiões de deslizamento para permitir o trânsito de veículos e o transporte de mantimentos para as famílias ilhadas.
Cobrir essa tragédia em Caxias do Sul, mesmo à distância, é um desafio que vai além do profissional, evocando lembranças de tempos passados. Cada relato faz com que eu sinta a dor da comunidade como se fosse minha, reforçando a importância de uma cobertura empática e comprometida com a verdade e a solidariedade.
Manter o equilíbrio e a frieza jornalística em momentos como esse é uma tarefa complexa. Esforço-me para imaginar o que estão sofrendo os colegas jornalistas que presenciam a tragédia no “campo de batalha”. Muitos deles gaúchos como eu. A psicologia dessa cobertura exige um controle emocional que nem sempre é fácil de alcançar. É aqui que os ensinamentos de estudiosos do jornalismo se tornam particularmente valiosos.
Philip M. Seib, em “Broadcasts from the Blitz: How Edward R. Murrow Helped Lead America into War”, discute como jornalistas precisam equilibrar empatia e profissionalismo durante a cobertura de crises. Ele ressalta a importância de preservar a objetividade enquanto se reconhece o impacto emocional das histórias que estão sendo cobertas. Isso se aplica diretamente à minha experiência ao entrevistar o prefeito de Caxias do Sul, onde cada palavra e expressão trazia à tona uma mistura de sentimentos pessoais e responsabilidades profissionais.
Para abordar a necessidade de equilíbrio emocional no jornalismo, a obra de Anthony Feinstein, “Journalists under Fire: The Psychological Hazards of Covering War”, oferece uma análise detalhada dos efeitos psicológicos que os jornalistas enfrentam ao cobrir conflitos e desastres. Feinstein destaca a importância de intervenções psicológicas e de apoio profissional para ajudar os jornalistas a lidarem com o trauma e o estresse associados a essas coberturas.
Adicionalmente, os ensinamentos de Dan Harris, jornalista e autor do livro “Dez Por Cento Mais Feliz” — que já foi referência neste blog — são especialmente úteis. Harris defende a prática da meditação como uma ferramenta para melhorar a saúde mental e emocional, lição que aprendeu duramente após sofrer “panes” enquanto apresentava telejornais nos Estados Unidos. A meditação ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade, proporcionando uma maior clareza mental e um senso de calma, fundamentais para jornalistas que cobrem crises. Incorporar essas práticas pode fazer uma diferença significativa na capacidade de manter o equilíbrio durante coberturas emocionalmente desafiadoras.
Essas referências sublinham a importância de buscar um equilíbrio psicológico durante a cobertura de tragédias. Técnicas como a respiração controlada, a meditação e o estabelecimento de limites claros entre o pessoal e o profissional são cruciais – não, infelizmente, eu não as pratico. Além disso, buscar apoio em colegas e profissionais de saúde mental, reconhecer e aceitar as próprias emoções, sem deixá-las dominar a cobertura, são passos essenciais para realizar um trabalho ético e eficaz.
Revisitar Caxias do Sul em meio a uma tragédia — e ressalto, mesmo que à distância — me trouxe à mente não apenas a responsabilidade jornalística, mas também a necessidade de cuidar de meu próprio bem-estar emocional. Assim, posso continuar a fornecer uma cobertura que não só informa, mas também honra a resiliência e a humanidade da comunidade que tanto significa para mim.