Marina diz que ninguém vai passar por cima de decisão técnica para explorar petróleo na foz do Rio Amazonas

No calor dos debates e discussões que caracterizam a Cúpula da Amazônia,  em Belém do Pará, Marina Silva, a ministra do Meio Ambiente, foi enfática sobre a importância das decisões técnicas do Ibama serem respeitadas no caso da exploração de petróleo na região do Foz do Rio Amazonas. Em entrevista ao Jornal da CBN, ela foi perguntada sobre o parecer da AGU — Advocacia Geral da União que pode abrir espaço para que o presidente Lula autorize as operações da Petrobras no local. Marina destacou que tais decisões levam em conta critérios ambientais e Lula jamais passaria por cima dessas avaliações:

“Às vezes as pessoas usam um termo equivocado: flexibilizar o licenciamento ambiental. Ninguém flexibiliza uma cirurgia do coração, uma cirurgia do rim, uma cirurgia do olho. Por que que o olho e o coração da natureza a gente quer flexibilizar?”


O desmatamento na Amazônia também foi abordado na entrevista, e Marina compartilhou dados promissores sobre a reversão da curva de crescimento do desmatamento no primeiro semestre. Ela ressaltou a importância do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia (PPCDAm), destacando seu papel na redução do desmatamento ao longo dos anos. No entanto, a Ministra também apontou para a necessidade de mudanças no modelo de desenvolvimento, promovendo setores como turismo, bioeconomia e agricultura de baixo carbono.

Ouça a entrevista completa da ministra do Meio Ambiente Marina Silva ao Jornal da CBN

Estados podem ter dificuldade de acesso à verba federal se não usarem câmeras em policiais

Foto: Reprodução/ Fabiano Rocha / Agência O Globo

O Ministério da Justiça e Segurança Pública está considerando a incorporação de câmeras nos uniformes de todas as polícias sob comando federal, incluindo a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional e a polícia penal. O programa que está em fase inicial também vai privilegiar os estados que aderirem ao sistema de câmeras. Em entrevista ao Jornal da CBN, Marivaldo Pereira, secretário de acesso à justiça do Ministério, nega que a ideia seja criar alguma restrição aos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública. Prefere falar em “prioridades”: 

“Não é restrição, é priorização de quem utilizar ou seja quem adotar essa tecnologia receberá mais recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública. São critérios que ainda estão em discussão na Secretaria Nacional de Segurança Pública e deve constar nas regras que vão disciplinar o acesso a recursos do Fundo”

Bahia é primeiro estado a aderir ao programa nacional

O plano de implementação das câmeras nas polícias estaduais está em discussão com a Secretaria Nacional de Segurança Pública, e estados como a Bahia já estão se preparando para adotar a tecnologia. A previsão é de que o acordo de cooperação com a Bahia seja concluído, e a licitação para implementação das câmeras ocorra até abril do próximo ano.

Marivaldo Pereira diz que ainda está em andamento um estudo para avaliar a demanda e a quantidade de câmeras que seriam necessárias. A intenção é que as câmeras possam ser compartilhadas por mais de um policial, permitindo o uso durante as operações.

O projeto tem como meta começar com um piloto de 200 câmeras na Polícia Rodoviária Federal ainda este ano. O objetivo é testar a tecnologia e implementar em locais onde a demanda pelo uso das câmeras é maior.

Para Governo Federal, câmeras protegem policiais

O uso das câmeras visa melhorar a qualidade da segurança pública e a transparência das operações policiais. Estudos mostram que a adoção de câmeras tem contribuído para a redução do número de policiais e civis mortos em confrontos e aprimorado os processos judiciais com a disponibilidade de imagens.

O secretário ressaltou a importância de estabelecer um protocolo padrão e certificação de equipamentos para garantir que as imagens não sejam alteradas e que apenas as autoridades competentes possam acessá-las. 

A ideia é que a Polícia Rodoviária Federal seja um modelo a ser seguido por outras instituições. A implementação começará por locais onde os índices de reclamações e problemas são mais altos.

A adoção das câmeras é vista como um passo importante para avançar na transparência e garantir a segurança tanto dos policiais quanto dos cidadãos. A tecnologia visa aprimorar a qualidade das operações policiais e agilizar os processos judiciais, tornando a justiça mais efetiva.

Ouça aqui a entrevista completa no Jornal da CBN

“Escute, expresse e fale!” é destaque no portal coletiva.net

Com direito a Júnior no sobrenome, o que muito me orgulha, o lançamento do livro Expresse, escute e fale! ganhou destaque, nesta semana, no Coletiva.net, portal de notícias e revista digital, dedicado a assuntos relacionados a carreiras e negócios nas áreas de Marketing e Comunicação, no Rio Grande do Sul: 

A seguir, reproduzo alguns trechos da entrevista: 

Comunicar-se de forma efetiva, seja pessoalmente ou virtualmente: essa é a proposta do novo livro do jornalista gaúcho Mílton Jung Jr.

“O livro pretende ajudar as pessoas a terem uma comunicação poderosa nas relações pessoais e profissionais”, explica Mílton. 

Ainda de acordo com ele, os quatro autores são unidos pelo “sonho de fazer da habilidade, a competência que nos capacite a sermos humanos evoluídos em um mundo melhor”. Vocabulário, escuta, abertura para o outro, identificação de emoções e o uso da voz são algumas ferramentas exploradas pela obra.

Embora a estreia da produção esteja marcada primeiramente para a capital paulista, o objetivo é poder lançar, também, em Porto Alegre. 

Junto com o gaúcho, estão os escritores António Sacavém, doutor em Gestão e especializado em comunicação não verbal, e Leny Kyrillos, fonoaudióloga da TV Globo de São Paulo, da rádio CBN e pesquisadora da voz. Além deles, assina a obra, também, o prático em escutatória, comunicação verbal e padrões de linguagem colaborativos, Thomas Brieu.

Leia aqui a reportagem completa e outras informações no Coletiva.net

Avalanche Tricolor: da esperança na política e no futebol

Grêmio 0x1 Ituano

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Gabriel Silva dribla em foto de LucasUebel/GrêmioFBPA

Venho de três dias especiais para quem dedica sua vida ao jornalismo. Cobertura de eleição por si só é daqueles momentos para os quais nos preparamos com parcimônia, apuro e equilíbrio. No meu caso, tive o privilégio de mediar as entrevistas com três dos candidatos a presidente da República — infelizmente, os dois principais refugaram, fugiram da raia e se furtaram da oportunidade de conversar com milhões de pessoas que nos acompanham na CBN e nos jornais O Globo e Valor. São daquele tipo que têm medo de perder e só arriscam o resultado quando é inevitável.

Quando estamos diante de pessoas que se candidatam ao cargo máximo do país há necessidade de planejamento e estratégia, pesquisa antecipada e atenção redobrada. Por candidatos que são têm suas artimanhas para transformar a entrevista em palanque eleitoral, driblar os temas mais complicados e contra-atacar no primeiro vacilo do “adversário”. É preciso estar atento, saber a hora de dar a bola para ele jogar e saber a hora de retomá-la; respeitar o adversário, sem subserviência; atacá-lo, sem violência. Qualquer vacilo de nossa parte: gol deles!

Há uma cobrança intensa do público, parte dele contaminado por suas ideologias e “torcidas organizadas” — termo usado por Lula, em entrevista ao Jornal Nacional, para definir o papel dos militantes dos partidos. Uma visão reducionista sobre a política, como fez questão de lembrar Ciro, do PDT, candidato que esteve na sabatina promovida pela CBN, O Globo e Valor Econômico, nessa sexta-feira, no Rio — cidade que me abrigou nesses últimos dias.

Foi, aliás, pouco antes de se iniciar essa sabatina, quando os jornalistas costumam trocar algumas palavras amenas com o entrevistado, a espera do início dos trabalhos, que Ciro falou de futebol. Disse ser torcedor do Guarany de Sobral, cidade em que nasceu, no interior do Ceará. Citou dois ou três clubes pelos quais tem admiração pelo Brasil e quando soube que eu sou gremista, lembrou que o candidato dele a governador no Rio Grande do Sul era o presidente do Grêmio, Romildo Bolzan, que quando caiu para a segunda divisão, teve de abrir mão de suas pretensões políticas.

Você não tem ideia como eu adoraria saber, nesta altura do ano, que Romildo estaria candidato e bem cotado no Rio Grande do Sul. Não, não tem nada a ver com as minhas preferências políticas, mas é que se ele estivesse candidato, certamente o Grêmio não estaria na B.

Dito isso, de volta as conversas e fatos de uma eleição. 

Foi uma semana interessante, mesmo diante de candidata que, em princípio, teria pouco a contribuir para o debate nacional, como é o caso de Vera, do PSTU, partido de linha trotskista, entrevista na quarta-feira. Não desdenho de suas propostas que, inclusive, agradaram parte da audiência, pelo que li nas mensagens recebidas. Quando digo que teria pouco a contribuir, o digo porque não tem expressão na opinião pública como mostram as pesquisas. Foi uma boa surpresa ouvir algumas de suas histórias. Aprendo sempre. E mais uma vez aprendi. Permitir-se ouvir os diferentes, nos torna melhor, nos enriquece.

Estive à frente de Simone, do MDB, na quinta-feira. A candidata repetiu algumas das frases que marcaram sua campanha. Tentou mostrar otimismo mesmo diante das dificuldades eleitorais que tem para assumir uma posição mais competitiva. Tem percentual de intenção de voto quase tão inexpressivo quanto sua outra colega de disputa, Vera. Saiu da entrevista sem marcar gols. E conseguiu se defender bem de algumas investidas dos jornalistas.

Ao fim e ao cabo, cumpri minha missão, ao lado de excelentes colegas jornalistas da CBN, Globo e Valor, e deixei o Rio satisfeito pelo resultado do trabalho, mesmo que o foco que tive de ajustar tenha me mantido longe deste blog por alguns dias. Talvez você, caro e raro leitor desta Avalanche, não tenha percebido. Mas eu senti falta, sim. Adoro a arte da escrita, mesmo que não seja exatamente um arteiro nessa prática.

Cheguei em São Paulo ao fim da tarde. Em tempo de me atirar no sofá, e ligar a TV com a intenção de me divertir assistindo ao Grêmio jogar em casa. Não foi exatamente uma diversão que meu time me proporcionou como o resultado, destacado no alto desta Avalanche, deixa explícito. Frustrei-me com a possibilidade de subirmos na tabela de classificação, abrirmos vantagem sobre os adversários que estão menos cotados e demonstrarmos um time mais maduro diante de seus adversários.

Menos mal que nossa chance de passar para o segundo turno, ou melhor, para a série A, permanece, apesar de três partidas com resultados insatisfatórios. Para me consolar, lembrei de frase dita por Ciro, que está bem distante dos dois primeiros colocados na pesquisa, mas mesmo assim insiste em dizer que, se os adversários vacilarem, quem sabe ele não consegue dar uma volta de 180 graus, esticar a perna no alto, alcançar uma bola cruzada e se consagrar marcando um gol de bicicleta ao fim do jogo. Se Ciro tem essa esperança, quem sou eu, como gremista, para não tê-la.

Dez recomendações para uma entrevista de excelência

Photo by Volkan Erdek on Pexels.com

Foi-se mais um dia de entrevista. Planejada, programada, pensada, pesquisada — sim, quando nos propomos  a estar diante de uma fonte que tem relevância, é preciso que se cumpra uma série de etapas. Quem nos ouve diante do microfone perguntando, replicando e contextualizando talvez não tenha ideia do trabalho prévio que uma boa entrevista exige. Especialmente, se do outro lado estiver alguém que se sente capacitada a assumir o cargo mais alto que se pode desejar no país: o de presidente.

Esse é o desejo de Ciro Gomes, com quem conversamos na terça. Esse é o desejo de Simone Tebet, com que deparamos nesta quarta-feira, no Jornal da CBN. É também o de André Janones, a ser entrevistado na quinta. Todos eles sabem que ocupar esses espaços se faz essencial para expor pensamentos e convencer o cidadão a apoiá-los, a despeito das dificuldades que as pesquisas eleitorais revelam.

Certamente e com grandes possibilidades de se transformar em realidade, tornar-se presidente — mais uma vez —- é o que almejam Lula e Bolsonaro, apesar de que esses querem repetir a experiência sem ter de se expor ao escrutínio do jornalismo profissional. Preferem ocupar os microfones amigos, as falas sob controle, que não questionam, que não apontam contrariedades e falta de lógica. Privilegiam o cercadinho no Palácio ou os palcos montados por correligionários. Lamentavelmente, se escondem atrás da popularidade que o cargo que ocupam ou ocuparam lhes oferece.

De volta às entrevistas — tema central desta nossa conversa. 

Dia desses, na preparação de um curso de rádio e podcast, que em breve estará à disposição do caro e raro leitor deste blog, falei que este é o momento mais incrível da nossa profissão — também tratei em parte do assunto no texto anterior a este. Assim sendo, é preciso estarmos muito bem preparados e, se você me permite, listarei a seguir, algumas recomendações para caso você decida um dia estar nesta privilegiada posição de entrevistador:

  1. Escolha bem o entrevistado. Tem pessoas que realmente são muito inteligentes, geniais, mas que falam muito mal, também. Não sabem se expressar, são prolixas, não completam as frases, falam de maneira entrecortada, que, podem acabar com a entrevista. 
  2. Após escolher o entrevistado, faça uma boa pesquisa. Conheça o perfil dele, saiba como se comporta, o que pensa, o que já falou sobre o tema que você pretende abordar. Quanto mais elementos você tiver em mãos, melhor será sua abordagem e mais difícil será de o entrevistado enrolar você e o seu público.
  3. Com base na pesquisa prévia, prepare um roteiro — alguns colocam os tópicos mais relevantes; outros preferem escrever as perguntas. O importante é que você tenha ideia de onde pretende chegar
  4. Jamais seja refém do seu roteiro e de suas perguntas. Esse material é apenas o ponto de partida. Esteja atento ao que o entrevistado vai dizer, porque a qualquer momento o rumo da conversa pode enveredar por um caminho que você não imaginava.
  5. Uma boa entrevista tem perguntas na medida certa: nem curta demais, a ponto de o entrevistado e o ouvinte não entenderem sobre o que você está falando; nem tão longa que você acabe tomando o espaço dele. Muitas vezes, cometemos o pecado de querer mostrar nosso amplo conhecimento pelo tema e esquecemos que o personagem principal na entrevista é o entrevistado
  6. Uma boa maneira de se posicionar diante do entrevistado é pensar com a cabeça do ouvinte; o que ele estaria interessado em saber daquela pessoa que está sendo entrevistada;
  7. O ideal é não interromper o pensamento do entrevistado, mas sabemos que algumas pessoas falam sem parar e sem ponto de corte; pior, algumas pessoas começam a divagar; se desviam do tema da pergunta — às vezes sem querer, outras de propósito. Cabe a você que está entrevistando, pontuar essas situações.
  8. Trate o entrevistado com o devido respeito — isso não significa que você será subserviente a ele; ou deixará dizer o que bem entender, sem questionamento; 
  9. Sempre que necessário questione o que está sendo dito: lembre-se de uma máxima do jornalismo: notícia é aquilo que alguém não quer que publique.
  10. Esteja preparado para caso o entrevistado tenha uma postura arrogante ou agressiva. Não cabe a você se equiparar a ele. Siga de forma respeitosa, sem deixar de pontuar os erros que ele comete.

Repasso essas e outras sugestões todas as vezes que estou diante de entrevistas com a importância das que estamos realizando nesta semana, na CBN. Aprendo a cada entrevista uma nova lição. Para não parecer exagerado, em algumas sou apenas relembrado de lições que aprendi anteriormente. Ao fim da entrevista, refaço toda a trajetória da conversa na mente, penso como poderia ter abordado o assunto de uma maneira diversa e se deixei de contrapor à altura alguma resposta mal feita pelo entrevistado. 

Amanhã tem mais!

Brasileiro terá de fazer esforço maior do que nossas medalhistas para não perder na disputa do Imposto de Renda

Começamos a edição do Jornal da CBN com o bronze da Mayra Aguiar, no judô, e encerramos com a prata da Rebeca Andrade, na ginástica artística. Mayra é a primeira brasileira a conquistar três bronzes em três Olimpíadas seguidas. Rebeca é a primeira ginasta a conquistar uma medalha olímpica para o Brasil. Ah, se a quinta-feira se resumisse a esses dois fatos, haveria bons motivos para comemorar.

Ok, ok! Não serei tão pessimista assim. Falar de frio e neve — como fizemos  logo na abertura do Jornal — também pode ser agradável se ficarmos só no campo da curiosidade, dos recordes e dos turistas. 

O problema começa quando lembramos que essa terceira onda de frio, no inverno brasileiro, resulta de efeitos da mudança climática, e muitas pessoas não têm um abrigo decente para se proteger. Igrejas foram abertas em São Paulo, o ginásio de esportes lotou em Porto Alegre e outras ações se fizeram necessária para oferecer um mínimo de conforto a famílias que vivem em situação de rua. 

Outra encrenca sobre a qual dedicamos parte do programa é o projeto de reforma do Imposto de Renda, que está nas mãos do relator Celso Sabino, deputado federal do PSDB do Pará. O texto que saiu do Ministério da Economia era uma geringonça e coube ao parlamentar ajustar até onde fosse possível, reescrevendo trechos, eliminando regras e incluindo o que fosse necessário para que se tenha um projeto tributário mais justo. E quando falamos em justiça tributária, a regra é simples: os ricos pagam mais e os pobres pagam menos. Complexo é fazer essa regra ser cumprida.

Na entrevista ao Jornal da CBN, o deputado Celso Sabino se esforçou para nos convencer de que o texto reescrito traz a solução para o disparate que existe atualmente. E que todo mundo vai pagar menos impostos. Confirmou, por exemplo, a manutenção da isenção das empresas cadastradas no Simples da cobrança sobre lucros e dividendos.  Também garantiu a retirada de um tremendo bode que haviam colocado dentro da reforma que retiraria benefícios das empresas que oferecem o vale-refeição e o vale-alimentação. Disse que o assunto sequer será citado no texto, pois sabe que basta um vacilo e é dali que a equipe econômica vai tentar arrancar um pouco mais de dinheiro. E quem vai pagar: o trabalhador. 

Apesar do discurso otimista de Celso Sabino — ele ainda não havia se reunido com os representantes dos governadores e prefeitos —, se nada mais for mexido no texto, nem todos os 32 milhões de contribuintes vão ganhar como ele tenta nos convencer.

Pouco menos de uma hora depois da entrevista, a Miriam Leitão estava no ar para ratificar este alerta: uma enorme fatia da Classe C — daqueles que ganham entre R$ 40 mil e R$ 80 mil anuais —- perderá o direito de fazer a declaração simplificada usufruindo do desconto padrão. Eu havia questionado Sabino sobre o assunto, mas ele puxou um número daqui, uma alíquota dali e uma percentual de acolá para provar que tinha total razão. 

O curioso — e cheguei a expor isso na entrevista — é que a própria equipe econômica calcula que arrecadará de R$ 10 bilhões a R$ 11 bilhões com essa mudança da regra. Se o governo vai ter esse dinheiro a mais, alguém vai pagar a conta e não serão apenas os mais ricos.

A intenção é que o relatório seja votado até o fim de agosto na Câmara dos Deputados e aprovado pelo Senado até o fim do ano para que as regras possam ser aplicadas já em 2022. Até lá muita pressão haverá e quem tem lobby mais forte costuma ganhar esta briga. Pra garantir seu lugar na reforma, o trabalhador brasileiro vai precisar de um esforço descomunal, maior do que Mayra Siqueira teve de fazer para arrancar o bronze olímpico, ou Rebeca para garantir sua prata.

Assista à entrevista completa com o deputado federal Celso Sabino, relator da reforma do Imposto de Renda:

A grande sacada de Naomi Osaka: a coragem de confessar que tem medo

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Twitter de @naomiosaka

A tenista Naomi Osaka foi punida com uma multa de 15 mil dólares por não ter participado da coletiva de imprensa após ter vencido a primeira rodada, na estreia do torneio de Roland Garros. Para a surpresa de todos, Naomi desistiu de participar do torneio e divulgou que sofre de depressão, desde 2018, apresentando crises de ansiedade antes de conceder entrevistas. O fato ocorreu no fim de maio, em 2021, e a sinceridade da tenista número 2 do mundo, provoca debates sobre a saúde mental dos atletas até agora.

Diferentemente do medo ou ansiedade adaptativa, aquela que a maioria das pessoas experimenta numa entrevista de emprego ou num primeiro encontro amoroso, o transtorno de ansiedade é caracterizado por medo e ansiedade excessivos, desproporcionais e persistentes, causando sofrimento ou prejuízos no funcionamento social, profissional ou em áreas importantes da vida da pessoa.

No transtorno de ansiedade ou fobia social, o indivíduo é mais temeroso, evitando interações ou situações sociais nas quais exista a possibilidade de ser avaliado, como encontrar pessoas que não sejam familiares ou falar em público. Nessas situações, a pessoa teme agir de maneira que evidencie seus sintomas, como ruborizar, tremer ou tropeçar nas palavras, o que poderia gerar um julgamento ou avaliação negativa por parte das outras pessoas.

Evitar intencionalmente essas condições, o que chamamos de esquiva, em geral, reduz momentaneamente o nível do medo ou da ansiedade. Por outro lado, essa evitação irá reforçar a ideia de risco ou ameaça, fortalecendo também a crença de incapacidade para enfrentar e superar tais circunstâncias. 

Será que dizer NÃO para situações que possam causar prejuízos à saúde mental seria um sinônimo de esquiva ou evitação?

Infelizmente, muitas pessoas não conseguem ou não podem assumir as próprias dificuldades, fragilidades ou vulnerabilidades.

O que as pessoas pensariam? 

Como reagiriam ao saber que uma pessoa que obtém tantas vitórias, que é competente ou talentosa no que realiza, sofre de um transtorno mental?

“Ansiedade? Depressão? Coisa de quem não tem o que fazer ou quer chamar a atenção”

O preconceito e os estereótipos nos conduzem a julgamentos rápidos e conclusivos. Multas, punições, expulsões… Foram essas as soluções inicialmente pensadas para o caso da tenista. Naomi abandonou o torneio não porque estava fugindo de enfrentar os perigos ou ameaças, mas, possivelmente, porque percebeu a necessidade de se afastar de situações tóxicas, impostas, que exigiam dela algo que naquele momento não poderia ou não queria realizar. Percebeu que precisava se afastar como um sinal de cuidado consigo. De preservação de sua saúde mental. 

Recuar não é fácil, mas, por vezes, necessário; não como fuga, mas como saída para que o sofrimento seja notado. Envolve limite e autocuidado, além do cuidado com o sofrimento de outras pessoas que passam por situações semelhantes. 

Em saúde mental, por vezes é necessário que alguém traga à tona as suas dificuldades para que as pessoas despertem e se solidarizem com todos os que passam por situação semelhante.

Após o desabafo de Naomi Osaka sobre a sua saúde mental e sua repercussão, a organização dos torneios Grand Slam mudou seu discurso e lhe ofereceu apoio e assistência, mencionando a possibilidade de mudança nas regras, a fim de melhorar a qualidade de vida dos atletas.

Naomi, você não fugiu dos seus temores! 

Ao escancará-los, sinalizou que os transtornos mentais não são exclusivos de fracos e derrotados, fazem parte da vida humana, da vida de qualquer pessoa. Se esquivar nem sempre é a melhor saída, mas pode ser o caminho que nos permita um recomeço. 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

De gatos, gafes e gafanhotos

A imagem de um advogado com cara de gato participando de sessão virtual em um tribunal do Texas circula na velocidade da internet e leva as pessoas às gargalhadas, onde quer que esteja sendo assistida. O caso —- vou repetir por praxe jornalística já que todos vocês, caros e raros leitores deste blog, devem ter visto o vídeo — teve como protagonista Rod Ponton que apareceu conversando com os colegas e o juiz tendo em lugar de seu rosto o avatar de um gato de pêlo branco e olho azul. O juiz bem que tentou avisá-lo, mas era tarde e enquanto buscava entender o que acontecia, saiu-se com um “estou aqui ao vivo, não sou um gato”. Ufa, devem ter respirado aliviado os coadjuvantes da cena. 

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Vídeo gravado, divulgado e viralizado —- está na hora de eliminarmos esta expressão diante de tudo que o vírus corona tem nos proporcionado —-, vieram as explicações. Na  plataforma Zoom para reuniões virtuais é possível usar filtros que cobrem a sua face mantendo as expressões dos olhos e o movimento da boca. —- uma forma de se divertir nos encontros com os amigos. Ponton alegou que usava o equipamento de uma assistente e para surpresa dele o filtro foi ativado, causando o constrangimento e a frase esclarecedora.

Estas assistente, viu! Servem sempre de desculpas para as nossas gafes.

Fui vítima de uma delas —- no papel de coadjuvante, é verdade. Em 2003, apresentava o Jornal do Terra, o primeiro ‘telejornal’ na internet. Entrevistava o procurador geral do Estado de Roraima, Darlan Airton Dias. Era coisa séria. O Ministério Público havia deflagrado a Operação ‘Praga do Egito’ que logo ganhou o apelido de ‘Gafanhoto’. 85 denúncias, 52 processos abertos e a família do governador  Neudo Campos envolvida até os bolsos —- naquele momento a mulher dele era alvo de investigação. Por ser governador, a operação lhe preservava até então. E por ironia, perguntei ao procurador se havia alguma possibilidade de toda a família estar envolvida e o governador não saber de nada. A resposta veio em forma de gargalhada com trejeitos de galanteio e seguida por um suspiro acompanhado do nome de uma mulher: “ahhhhh, Luciana!!!”.

Fiquei sem jeito apesar de logo perceber que havia uma linha cruzada. A entrevista se encerrou e a desculpa é que alguém na procuradoria, inadvertidamente, apertou o botão errado do PABX e levou em ‘rede mundial de computadores’  —- era assim que a gente chamava naquela época —- parte da sua conversa com uma das assistentes. O resultado da paquera, não quis saber. De minha parte, guardei o vídeo por curiosidade. Já o ex-governador Neudo Campos esteve preso até pouco tempo e foi libertado depois de o ministro do STF Gilmar Mendes reconsiderar a decisão que ele próprio havia tomado em favor da prisão do Rei dos Gafanhotos.

Liberdade de Expressão: o sigilo da fonte e o direito do cidadão em saber a verdade

“É mais fatal do que a pior gripe” foi uma das frases ouvidas pelo jornalista Bob Woodward em uma das 18 entrevistas gravadas com o presidente americano Donald Trump. Ele se referia, claro, ao novo coronavírus, que na época das conversas — esta em especial ocorreu em janeiro —- ainda era muito novo para todos nós, mas já deixava seu rastro de morte  e medo na Ásia. O mesmo Trump disse a Woodward que o vírus “era mortal”.  Está gravado.

Em público, Trump sempre negou os riscos à população, criticou seus principais assessores na área médica por serem alarmistas, afundou-se em teorias conspiratórias e desdenhou das medidas que poderiam reduzir o risco à saúde dos americanos. O comportamento do presidente foi um dos motivos que levaram os Estados Unidos a registrarem mais de 200 mil pessoas mortas e cerca de 6,8 milhões de contaminados pelo Covid-19.

A mentira de Trump foi revelada recentemente quando Woodward lançou o livro Rage (A Fúria), o segundo que escreve sobre o atual presidente. Ele é craque nessa jornada que se iniciou nas descobertas que fez no caso Watergate, ao lado de Carls Bernstein, nos anos 1970. Com acesso à Casa Branca como poucos outros jornalistas já tiveram, ao longo do tempo Woodward especializou-se em contar a história dos presidentes americanos, com respeito e sem bajulação — o que não impediu de ser criticado mesmo por colegas, que viram em algumas descrições reverência além do necessário para determinados líderes políticos.

Agora também é alvo de críticas. Nem tanto pela revelação que fez, mas por somente tê-la feito agora. Se tivesse levado a público as palavras de Trump assim que o presidente iniciou seu mantra negacionista, imagina-se, mortes teriam sido evitadas.

Inspirado por esse debate, hoje, no Jornal da CBN, discutimos no quadro Liberdade de Expressão o direito de o jornalista preservar informações e suas fontes, mesmo que isso coloque em risco a vida de pessoas. Participaram, Pedro Doria, jornalista, editor do Canal Meio e nosso colega no quadro Vida Digital, e Roberto Romano, professor titular aposentado de Ética e Filosofia da Unicamp. 

Ambos entendem o respeito que se deve ter ao sigilo da fonte, mas discordam do grau deste sigilo.

Doria defende a estratégia de Woodward e traz um argumento jornalístico. Havia um acordo entre o profissional e sua fonte, no caso o presidente Donald Trump. Sem esse acordo, o presidente não falaria ou não falaria tudo que falou.

‘O repórter faz um acordo com o entrevistado e cumpre esse acordo’, defende Pedro Doria.

Romano diz que o sigilo é uma garantia do trabalho jornalístico. Se esta informação põe em risco a segurança das pessoas passa a ser de interesse público: 

‘O compromisso do jornalista não é com a sua fonte apenas. Ele tem um compromisso com o público, com o coletivo, com os homens que nele confiam’

Se para Romano, Woodward não tinha motivos de respeitar um acordo com alguém que não respeita a profissão jornalística; para Doria, a maior arma que se pode ter contra quem é contra a Democracia é mais Democracia e a divulgação dos fatos às vésperas da eleição terá mais efeito sobre a reeleição de Trump do que se fosse feita na época da gravação.

O debate foi rico nos argumentos e levanta questões que não são restritas ao campo do jornalismo. Interessa à sociedade como um todo, por isso, recomendo que você ouça o Liberdade de Expressão e desenvolva a sua própria visão crítica sobre o tema:

Avalanche Tricolor: de sorteio do porco à entrevista sem perguntas, coisas estranhas que vivi no futebol gaúcho

 

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Gaúcho —- Arena (?) Alviazul, Lajeado/RS

 

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Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA no Flickr

 

Futebol do jeito em que as coisas andam já é estranho por si só. Jogado em campo de várzea, sem torcida e com direito a lances bizarros, só da pra assistir com um copo de vinho na mão, um sofá inteiro para a gente se esticar e o cobertor para aquecer o frio que fez nessa tarde, em São Paulo.

 

O Grêmio jogou em Lajeado, no Vale do Taquari, região que está sob bandeira laranja há algumas semanas —- o que significa que tem risco médio de contaminação da Covid-19. A partida era para ser em Novo Hamburgo, na casa do adversário, mas lá a coisa está mais complicada ainda — a bandeira é vermelha. E se é vermelha, não se joga futebol.

 

O estádio escolhido para o jogo leva o apelido de arena. Que me desculpem os simpáticos torcedores do Lajeadense: as arquibancadas e o gramado não merecem o nome que recebem. A bola trocava de direção a cada passe, driblava por conta própria os marcadores e proporcionava cenas cômicas sempre que algum atacante tentava acertá-la em gol. Não foi de surpreender o zero a zero.

 

A precariedade da estrutura oferecida para o jogo serviu ao menos para me lembrar de momentos icônicos que vivenciei nos gramados do Rio Grande do Sul como repórter esportivo da rádio Guaíba de Porto Alegre.

 

Na segunda linha daquele timaço que formava o “Futebol da Guaíba”, cabia a mim as paradas mais difíceis, como os jogos de sábado à tarde, disputados pelo São José, em estádio que levava o nome do bairro do Passo D’Areia, na zona norte de Porto Alegre —- em uma época em que estádio de futebol era apenas um estádio de futebol. Para atrair torcedores, no intervalo das partidas, o clube promovia sorteios. Em uma das partidas fui convidado a tirar da urna o bilhete premiado. Com a pompa e a solenidade que o momento exigia, chamei pelos microfones do estádio o número vencedor e o prêmio maior lhe foi entregue: um porco vivo que, depois de sorteado, poderia ter o destino que o novo dono bem entendesse.

 

Naqueles tempos, eram os anos 80,  repórter de campo era repórter de todo campo. Tinha liberdade para circular pelo entorno do gramado, descrever o lance com os detalhes que só ele havia visto e reproduzir as cenas proporcionadas pelos técnicos e jogadores na casamata (que aqui em São Paulo preferem chamar de banco de reservas). Não havia esta história de só entrevistar jogador escolhido pela assessoria de imprensa do clube e esperá-lo na área reservada à imprensa. A medida que o cronômetro se aproximava do fim da partida, nos deslocávamos para o lado do gramado e nos preparávamos para uma corrida desesperada em direção ao personagem do espetáculo.

 

Em um jogo qualquer do Grêmio, pelo Campeonato Gaúcho, no estádio Olímpico Monumental —- esse sim merecia o título de Arena de Todos os Campeões —-, me posicionei a espera do final da partida. Nem bem o trilar do apito do árbitro havia se encerrado, abusei da minha juventude e com o microfone na mão e um fio enorme a me seguir, corri em busca da palavra do craque. O esforço para chegar antes dos concorrentes, me fez perder o fôlego. Sem conseguir dizer uma só palavra, restou-me estender o microfone em direção a ele que respondeu a uma pergunta que jamais consegui fazer. Após alguns minutos, nos quais o meu entrevistado disse o que bem entendia e minha respiração voltava ao ritmo normal, ao menos tive um saída espirituosa: “(fulano de tal) falou no microfone da Guaíba e mostrou que além de bom de bola é bom de papo, nem precisei fazer pergunta e ele já me respondeu”.