Cidadania mutilada: o desencontro entre o corpo envelhecido e a cidade contemporânea

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Foto: Georgy Druzhinin

A experiência cotidiana da pessoa idosa na cidade revela que o exercício da cidadania ultrapassa a garantia formal de direitos e depende, sobretudo, das condições concretas de apropriação do espaço urbano. 

Nessa perspectiva, a noção de cidadania mutilada, desenvolvida por Milton Santos, evidencia que parcela significativa da população não vivencia plenamente os direitos assegurados pela legislação, em razão das desigualdades produzidas pela organização do território. 

A cidade, longe de constituir um espaço neutro, expressa relações de poder que distribuem oportunidades, recursos e barreiras de maneira desigual, condicionando as possibilidades de inserção social de seus habitantes.

No envelhecimento, essas limitações tornam-se ainda mais evidentes.As transformações fisiológicas, sensoriais e cognitivas próprias dessa etapa da vida ampliam a dependência em relação às características do ambiente construído. 

A população idosa, que em 2025 representava 16,6% do total de brasileiros, estabelece uma relação distinta com a cidade, exigindo maior previsibilidade espacial, segurança, acessibilidade e conforto para realizar as atividades do dia a dia com autonomia. Quando esses requisitos não são atendidos, o ambiente urbano deixa de promover inclusão e passa a atuar como um agente de exclusão.

Essa realidade manifesta-se em ações aparentemente simples, como caminhar até uma padaria, uma farmácia ou uma praça. Calçadas irregulares, percursos interrompidos, obstáculos físicos, travessias inseguras, iluminação insuficiente, mobiliário inadequado e a ausência de locais para descanso transformam deslocamentos curtos em experiências marcadas pelo esforço físico, pela insegurança e pelo medo de quedas.

O espaço que deveria favorecer o encontro, a convivência e a vida cotidiana, converte-se em um ambiente de constante negociação entre as capacidades individuais e as barreiras impostas pela cidade.

O transporte coletivo amplia essa condição de vulnerabilidade. Longas distâncias até os pontos de embarque, veículos superlotados, intervalos prolongados, dificuldade para subir e descer nos ônibus, falta de assentos disponíveis e viagens desconfortáveis comprometem não apenas a mobilidade, mas também a saúde física e emocional da população idosa. O tempo excessivo dedicado aos deslocamentos reduz as oportunidades de participação social, limita o acesso à cultura e ao lazer e dificulta a manutenção de vínculos comunitários.  Nesse contexto, o direito à cidade deixa de ser apenas uma questão de circulação e passa a significar a possibilidade concreta de permanecer, usufruir e participar da vida coletiva.

Sob essa perspectiva, a cidadania mutilada não decorre exclusivamente da ausência de direitos formais, mas da incapacidade da cidade de proporcionar condições efetivas para seu exercício. O ambiente urbano atua como mediador entre o indivíduo e suas possibilidades de participação social, podendo ampliar ou restringir autonomia, capacidades e bem-estar. A distribuição desigual da infraestrutura, dos serviços públicos e das oportunidades produz diferentes experiências de envelhecimento, determinadas não apenas pelas características biológicas de cada pessoa, mas também pelas relações de poder materializadas no território.

No caso da pessoa idosa, a experiência corporal evidencia essas assimetrias de forma particularmente intensa. O corpo envelhecido torna perceptíveis obstáculos frequentemente invisíveis para outros grupos populacionais, revelando que acessibilidade, segurança, proximidade dos serviços, qualidade dos espaços públicos e mobilidade representam condições indispensáveis para o exercício da cidadania. 

Promover cidades mais inclusivas significa, portanto, superar a cidadania mutilada por meio de uma organização territorial que reconheça a diversidade das capacidades humanas e assegure que o direito à cidade possa ser efetivamente vivenciado ao longo de todo o curso da vida.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa em Fortaleza, Ceará. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

No Planeta Terra até o céu precisará de uma Lei Cidade Limpa

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

giant-ads-cubesats2-768x403

Reprodução do site da StartRocket

 

A civilização contemporânea que assiste a países desenvolvidos perpetuarem matança de baleias em extinção e outros nem tão desenvolvidos assim permitirem taxas de desmatamento da maior floresta tropical existente, não deverá se surpreender ao ver, no céu,  propaganda de produtos de consumo.

 

Entretanto, me surpreendi ao receber o artigo de João Ortega da STARTSE* sobre a ideia da PepsiCo em lançar propaganda no espaço.

 

Falamos com Ortega, que pesquisou o tema, e mostra evidente preocupação com o futuro desenvolvimento desse processo cujos detalhes seguem abaixo.

 

 

Em parceria com a startup russa StartRocket, a PepsiCo lançaria o produto ADRENALINE RUSH, um energético, cujo público alvo são jovens aficionados em jogos eletrônicos — e a campanha combateria o preconceito existente em relação aos games.

 

A notícia se espalhou rapidamente em todo o mundo.

 

Ecologistas, cientistas e cidadãos comuns expressaram desaprovação. A mais grave veio de cientistas cujo viés tecnológico envolve a questão de segurança planetária.

 

Para o funcionamento do sistema, dezenas de satélites são lançados a 450 km da Terra, feitos de material refletor para mantê-los iluminados de dia e visíveis a olho nu. São descartáveis em um ano e acompanhados pela SkolTech, universidade privada de Moscou.

 

A desistência da PepsiCo não descarta o interesse de outros anunciantes, ao mesmo tempo em que a StartRocket, alegando que a finalidade da comunicação será mais ampla do que vender, irá buscar US$ 24 milhões para tocar seu projeto, que deverá estar pronto em 2021.

 

A StartRocket imagina também um grande painel mundial de avisos gerais, tipo início das Olimpíadas ou alertas de possíveis catástrofes.

 

A imprensa britânica, através do Express, acredita que o plano é de arruinar o céu noturno, enquanto o astrônomo Patrick Seitzer cobra do plano o endosso da base científica e dos órgãos de segurança mundial.

 

O Projeto, com tantas margens de risco, infelizmente, como lembra Ortega, não é ilegal, pois ainda não existe legislação para essa ocupação do espaço celeste.
Esperamos que o mundo reaja de acordo com a velocidade dos negócios.

 

A PepsiCo, em dois dias, descartou a ideia para não correr riscos de imagem. Mas poderá surgir quem queira usufruir da novidade, mesmo correndo risco.

 

*StartSe é verbo

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

 

De espaço

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Espaço é um pedaço de espera a ser preenchido.

 

Esperança e espaço parecem não ter nada em comum, a não ser uma ou outra letra do alfabeto alinhada na mesma direção, mas esse olhar é o da falta de atenção. Espaço e esperança vivem por aí, de mãos dadas, independentes do tamanho.

 

Já tive muito espaço disponível que era pura esperança e tive esperança tão desmesurada que não havia espaço que a acolhesse.

 

Queria uma poltrona no meu quarto, e uma luminária que incidisse sobre a leitura, e só sobre ela. O que não aconteceu porque o espaço encolheu.

 

O espaço externo encolhe, diminui, se acanha, enquanto o interno se alarga irritante, assustadora e indefinidamente. Tão indefinidamente que me perco, e não me encontro em mim.

 

Perco-me na solidão que insiste em se apoderar do espaço, e me procuro na forma disforme, invisível e inatingível da esperança.

 

Não encontro nada.

 

Talvez porque sempre tenha mantido o olhar nas estrelas, enquanto meus pés mal tocavam o chão.

 

Já me despojei do espaço, agora só falta mandar embora a esperança.

 

Por falta de espaço.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Há 50 anos: “A Terra é azul”

 

Há 50 anos, o homem chegava ao espaço pela primeira vez. Em plena guerra espacial travada com os Estados Unidos, a União Soviétiva dava o primeiro grande passo na disputa com Yuri Gagari abordo da Cápsula Vostok 1. E lá do alto contou ao mundo que o Planeta Terra é azul.

A data foi lembrada ao fim do Jornal da CBN desta terça-feira, dia 12 de abril, e o encerramento reproduzo a seguir a pedido de ouvintes-internautas (ou seriam ouvintes-cosmonautas?):


Ouça o encerramento do Jornal da CBN