Mundo Corporativo: “o novo normal, não vai ser novo nem normal”, diz Marcelo Miranda, CEO na Espanha

 

 

“Se existe algum novo normal esse novo normal é a mudança constante porque quando ele chegar, o novo normal, não vai ser novo nem normal para a gente, nós vamos viver, por muitos meses, mudanças constantes” — Marcelo Miranda

Há dois anos no comando de um empresa da área de construção civil, em Saragoça, na Espanha, o executivo brasileiro Marcelo Miranda teve de enfrentar os efeitos sanitários e econômicos da pandemia bem antes de seus compatriotas. Com pouco tempo para se adaptar às medidas restritivas e aos riscos da doença, a empresa da qual é o CEO, a Consolis Tecnyconta, líder na Europa em concreto pré-moldado, teve de ser ágil para mudar processos, trabalhar à distância e oferecer segurança aos seus profissionais.

 

Os primeiros casos de contaminação, entre os espanhóis, apareceram entre o fim de janeiro e as primeiras semanas de fevereiro. Em 14 de março, o país teve de parar, com a decretação de regras que limitaram a circulação de pessoas e obrigaram o fechamento da maior parte das atividades econômicas. A Espanha foi uma das regiões que mais sofreram com a COVID-19 e atualmente registra perto de 28 mil mortes e cerca de 254 mil pessoas infectadas, tendo uma população em torno de 47 milhões de habitantes.

 

Ao programa Mundo Corporativo, da CBN, Marcelo Miranda falou das estratégias usadas para enfrentar a primeira onda do coronavírus no país e de como a empresa se organizou para a retomada das atividades. Ele identificou três estágios importantes diante da crise: o primeiro que foi o de pensar na sobrevivência com o acolhimento das pessoas e suas famílias; o segundo, o de como operacionalizar os sistemas para manutenção dos negócios; e, o terceiro, o de repensar a empresa:

“… esse repensar tem andado ao lado da construção: digitalização; tecnologias de industrialização e pré-fabricação de construções; e o lado humano das construções, de como a arquitetura pode ajudar a vivermos de uma maneira mais humana e com mais qualidade de vida”.

Para Miranda, inovação é resolver problemas e, assim, as empresas precisam identificar quais serão os problemas daqui para a frente. Nesse momento, ele vê a necessidade de o setor da construção civil como um todo, e não apenas a sua empresa, passar por uma intensa transformação. Pois diz que essa indústria ainda é de pouca confiabilidade, de grande impacto ambiental e que emprega mão de obra não-qualificada:

“O que vai acontecer é a celebração de uma transformração dessas empresas com visão mais consciente do seu papel na sociedade”.

Para os empresários brasileiros que planejam como gerir seus negócios após a pandemia da Covid-19, Miranda sugere que se busque criar ambientes mais saudáveis nas relações de trabalho, nos quais os profissionais sintam-se confiantes em implantar transformações e tenham espaço para errar e corrigir rapidamente sempre que necessário:

“Essa cultura organizacional de facilitar as decisões, de facilitar a comunicação, de aproximar as pessoas, de ser uma cultura mais horizontal e mais voltada para resultados mesmo de curto prazo é o que realmente tem feito diferença para quem já tem isso desenvolvido. Às empresas que não têm, nunca é tarde para começar e aprender”

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados no Jornal da CBN. O programa tem a colaboração de Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Conte Sua História de São Paulo: o leão de bronze amigo da família

 

Por Isabel Rubio Vazquez Conde

 

 

Faço parte de uma família de imigrantes espanhóis e tenho muitas histórias para contar mas esta que conto agora acho especialmente interessante:

 

Viemos da Espanha, meu pai, minha mãe e eu, em julho de 1949 — eu com um ano e meio de idade. Inicialmente, ficamos em Rio Claro, interior de São Paulo, onde meu pai tinha uns primos. Alguns meses depois viemos para São Paulo, onde meu pai foi trabalhar na Cia. de Gás, na Rua do Gasômetro, no Brás. Fomo morar próximo da fábrica.

 

Lembro-me do meu pai me levar para brincar no Parque Dom Pedro II, onde tinha uma estátua de bronze de um leão —- era a reprodução de uma obra do artista francês Prospér Lecourtier, especialista em construir estátuas com imagens de animal. Como bom imigrante, tudo que meu pai registrava em foto, ele enviava para a família na Espanha. Era para acompanharem meu crescimento. Isso deve ter sido no início dos anos de 1950.

 

Com as mudanças no Parque Dom Pedro II, a estátua do leão foi transferida para o Parque do Ibirapuera, nos anos de 1960. E havia perdido o contato com ela. Eis qual foi minha surpresa, muitos anos depois, passeando com meu marido e meus filhos, dou de cara com o leão —- e foi aquela festa, contei a história da estátua para meus filhos, lembrei da minha infância …

 

Os anos se passaram e o leão continuou a me acompanhar. Em 2011, visitei a família na Espanha. Minha prima Isa pegou uma foto toda amassadinha na qual aparecia eu, com mais ou menos cinco anos, montada no leão de bronze. Isa me contou que quando recebeu a foto, tinha uns quatro anos e levava a imagem na escola para mostrar para as amiguinhas e contar que tinha um prima que morava no Brasil e montava em uma leão. Era a sensação das meninas. Achei aquilo incrível.

 

Dois anos depois, essa mesma prima esteve no Brasil. E eu não tive dúvida: levei-a ao Parque do Ibirapuera, sem dizer nada, e a apresentei, ao vivo, ao leão mais famoso da nossa infância. Tudo, como aprendi com meu pai, registrado em foto.

 


Isabel Rubio Vazquez Conde é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: fui recebido na cidade pelo Henfil

 

Por Alejandro Rosas Vera

 


 

 

Morava no Chile quando surgiu a possibilidade de uma viagem para Belo Horizonte. Era janeiro. Eu deveria estar lá em março. Por tanto, e para fazer hora, fui pelo Norte: –Assim aproveito e conheço a Amazônia–, disse aos meus pais. – É só dar a volta por cima, descer pelo litoral, e do Rio a Minas, um pulinho.  Os mapas mentem descaradamente. Passei mais de um ano viajando pelo Brasil e meu compromisso em BH foi para as cucuias.
 

 

São Paulo me chamou mais forte com seus cantos de sereia, e acabei fixando como destino final da minha viagem essa cidade da qual ouvia falar em cada estradinha da Amazônia, casinha do Nordeste ou bar dalgum morro carioca.
 

 

Aprendi português na viagem, e quando cheguei na Rodoviária do Tietê,  carregava todos os sotaques possíveis do Brasil e a mochila suja do pó da estrada. Olhei um mapa e assustado pelo tamanho da cidade e da minha solidão decidi buscar alguém em quem pudesse confiar para me dar uma aula de sobrevivência neste mundo por descobrir. Como não conhecia ninguém e ninguém  sabia de mim, era livre de escolher a qualquer um dos milhões de habitantes para pedir um glosário paulistano, mapa prático, diagnóstico emocional ou um simples cafezinho para me dar as boas vindas. Fui até a banca de jornal, pedi uma Veja, anotei um telefone e liguei. 
 

 

–Oi, bom dia, acabo de chegar e busco o Henfil
 

 

Era o ano 1983, e a doce voz do outro lado, sem perguntar nada, me passou um número. Agradecido, desliguei e respirei fundo.
 

 

No dia seguinte passei cinco horas com o maestro Henfil, que depois de me chamar de cara de pau, me recebeu no seu apartamento perto de Higienópolis e me deu dicas preciosas, me contou do desastre que foi sua estadia nos Estados Unidos pois seus desenhos escandalizaram a sociedade. Disse-me que as viagens de avião são violentas porque não dão tempo de se adaptar ao novo destino, e que para chegar a um lugar como se deve é necessário o mesmo tempo que demoraria se você fosse caminhando.
 

 

Pensava ficar uns meses em São Paulo, mas demorei 20 anos em conhecê-la e me apaixonar. Talvez o tempo que teria demorado em percorrer todas as suas ruas caminhando.

 

Hoje, moro na Espanha, e de São Paulo trouxe comigo o melhor: a saudade, o sentimento de ser parte daquela loucura, e uma paulista que conheci uns dias depois que ao Henfil, que ama a Graúna e cujo celular toca Sampa cada vez que liga alguma de minhas três filhas, paulistas, obviamente.

 

Elsa e Fred: para pensar sobre a única certeza da vida

 

 

Por Biba Mello

 

FILME DA SEMANA
“Elsa e Fred Um Amor de Paixão”
Um filme de Marcos Carnevale.
Gênero: Amor.
País:Espanha/Argentina

 

Dois senhores se apaixonam… Elsa é cheia de vida e Fred rabugento e melancólico. Fred é o novo vizinho de Elsa e ele acabou de perder a esposa. A urgência pela vida é grande. Os dois não terão um futuro juntos. Querem viver o momento; cada um a seu modo.

 

Por que ver:
É um daquele filmes que te leva a uma reflexão profunda sobre nossas vidas seja qual for o momento dela. Nos leva a pensar sobre a única certeza que insiste em estar presente a cada resfriado que pegamos… a morte. Será que estou inteira em minha vida, no meu trabalho, com meu marido e filho, amigos? Cada vez que assisto a este filme, me dá uma vontade louca de viver, um momento Carpe Diem total.

 

Existem duas versões do filme, uma mais atual, com um de meus atores favoritos na pele de Fred, Christopher Plummer, e, interpretando a Elsa, a Shirley Maclaine; e a versão argentina que foi a que eu vi. Portanto, estou falando da versão original, ok?
Nessa, a atuação do casal é tão soberba, precisa e tocante, que a cada olhar e a cada gesto nos faz estar na pele daquele personagem, expondo nossa própria história com uma crueza cortante. É aí que fica evidente o quanto este filme/roteiro foram construídos em cima do talento destes atores que são capazes de nos despirem com suas atuações.

 

Como ver:
Com alguém bom de papo. A conversa vai durar por horas.

 

Quando não ver:
Se você tiver menos de 10 anos(classificação do filme), no mais, vale tudo.

 


Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Aqui no Blog do Mílton Jung, sempre disposta a oferecer uma boa sugestão para você

Relatos selvagens: o que te faria surtar?

 

Por Biba Mello

 

 

FILME DA SEMANA:
“Relatos Selvagens”
Um filme de Damián Szifron.
Gênero: Suspense, Comédia, Drama.
País:Argentina, Espanha

 

Um avião, uma estrada, uma mansão,um restaurante, uma repartição pública e um casamento; nessas locações acontecem situações prosaicas mas com desfecho inesperado e muito selvagem.

 

Por que ver:
Este diretor consegue te capturar em um ritmo incrível. É um filme 6×1; seis histórias diferentes, e completas, em apenas um filme. Por vários momentos me questionei se não reagiria da maneira que os personagens reagem. Muitas vezes essa identificação com a história não é imediata, mas esse filme te faz imergir e se colocar no lugar de cada história te fazendo flertar com a babárie. As situações são tão corriqueiras e vão tomando uma proporção de loucura plausível em um ritmo perfeito entre direção, atuação e roteiro. Nesse filme, os personagens vão um pouquinho além e te levam junto… O que te faria surtar? Me conte nos comentários abaixo.

 

Como ver:
Depois de um dia duro de trabalho. Diversão na certa! Um dos melhores filmes dos últimos tempos.

 

Quando não ver:
Se você tiver raivinha de Argentinos… Vai te dar mais raiva ainda ao perceber quão talentosos este hermanos foram na execução desse filme. Não quero te ver surtar, hein! Está avisado(a)…

 


Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Escreve no Blog do Mílton Jung

A Pele que Habito: cenas elegantes e história provocante

 

 

FILME DA SEMANA:
“A Pele que Habito”
Um filme Pedro Almodovar
Gênero: Drama/Suspense
País:Espanha

 

Um cirurgião plástico famoso vive o drama de ter perdido a amada esposa, vítima de suicídio após ficar deformada por queimaduras decorrentes de um grave acidente de carro. Ele então desenvolve uma pele, que pode ser ultilizada em humanos, à prova de queimaduras que se regenera em caso de cortes. Os meios que ele ultiliza para chegar a esta descoberta nos leva a desvendar “vários esqueletos do armário”.

 

Por que ver:
Eu simplesmente amo o Almodovár. Na minha opinião, ele é um hibrido entre Fellini e Kubrick, outros dois grandes mestres. Este filme me faz lembrar de “Laranja Mecânica” com pitadas de “Amarcord”.

 

Como ver: vinho tinto deve e pode acompanhar o filme. Combina com o clima. E lógico que você deve estar acompanhada/do. Mesmo os amantes de “hollywood movies” vão gostar. As cenas são elegantes e a textura do filme bem americana.

 

Quando não ver: com filhos ou parentes ascendentes… Meio “fortchenhas” as cenas de sexo. Oba! Adoro! É hoje! Rsrsrsrs

 

Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos.

Maus hábitos: um filme perturbador e ousado

 

Por Biba Mello

 

FILME DA SEMANA
“Maus Hábitos”
Um filme de Simon Bross
Gênero: Drama
País:espanha

 

 

Conta a história de uma família unida por uma variedade de distúrbios alimentares. Sua fé, seu amor, sua vaidade são postas à prova. Uma feira, uma socialite, um homem insatisfeito com sua vida conjugal contam esta história perturbadora e ousada.

 

Por que ver: estamos em uma época em que se coloca a vaidade acima de tudo e para nos encaixarmos em um modelo estético “aceitável” cometemos algumas loucuras; este filme levanta a questão e nos faz refletir se realmente vale a pena nos submeter a certos sacrifícios desmedidos. Estudei este roteiro quando estava escrevendo o meu longa e simplesmente não consigo tirá-lo da cabeça.

 

Como ver: sua mãe ou marido o perturbam por seus quilinhos a mais? Pegue estes dois chatos e os coloque para assistir! Será um tapa na cara da sociedade! Kkkkkkkk

 

Quando não ver: no início de uma dieta… Vai pirar a cabeça! Melhor não arriscar!

 


Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos

Conte Sua História de SP: E nasce uma família na cidade

 

Do livro Conte Sua História de São Paulo (Editora Globo), reproduzo aqui o texto da ouvinte-internauta Luciana Gerbovi. “E nasce uma família na cidade” descreve como a família dela se encontrou na capital paulista:

 

Ouça aqui o texto sonorizado pelo Cláudio Antonio que foi ao ar nesse sábado, no CBN São Paulo

 

Foi São Paulo quem recebeu, em 1925, meu bisavô nascido e criado na antiga Iuguslávia. Por amos à família, à vida e à paz, saiu da cidade de Vela Luka carregando consido a esposa, um filho e três filhas, uma das quais se tornaria minha avó.

 

Foi São Paulo quem recebeu, anos depois, um adolescente também nascido na antiga Iuguslávia, que mais tarde se tornaria meu avô.

 

Foi São Paulo o lugar em que os então jovens iugoslavos se conheceram, casaram e tiveram três filhos, um dos quais seria meu pai.

 

Muitos anos antes daquele 1925 marcado pela chegada de meu bisavô, foi São Paulo quem recebeu meus trisavós, saídos da Itália e da Espanha, que aqui casaram e tiveram filhos e netor. Esses netos de espanhóis e italianos aqui se conheceram e tiveram seus filhos. A menina um dia seria minha mãe.

 

Foi em São Paulo, já na década de 1960, durante um trajeto de ônibus, que o jovem filho de iuguslavos e a jovem neta de espanhóis e italianos se encontraram, se apaixonaram e, a partir de então, protagonizam uma das mais belas histórias de amor e de respeito que conheço.

 

Foi também em São Paulo que esse casal teve sua primeira filha: eu.

 

Ainda que a vida profissional de meu paiu tenha me levado a passar a infância e a adolescência no interior do Estado, nunca deixei de estar em São Paulo: aqui mora toda a parte brasileira da história de nossas famílias.

 

Foi São Paulo quem me acolheu para os estudos de nível superior, onde encontrei grandes amigos e conheci o meu amor. É aqui que rpetendo ter e criar meus próprios filhos.

 

Foi, é e sempre será São Paulo

A Copa na visão de um busólogo

 

A seleção do Dunga deixou a desejar. Mas, no quesito ônibus, o Brasil conquistou a África do Sul. A campeã, Espanha, é referência na fabricação de ônibus e atua aqui pela Irizar.

ônibus na Cidade do Cabo

Por Adamo Bazani

Domingo, 11 de julho de 2010. Final da Copa do Mundo. Copa que foi das surpresas, boas e ruins. Quanto ao futebol brasileiro, a seleção sempre favorita, em qualquer competição, não passou das oitavas de final. A Ditadura Dunga, do aquartelamento, mostrou que santidade pode ganhar o céu, mas não ganha jogo … Nem farra, também. No mundo da música, tanto na abertura quanto no encerramento, um país que não se classificou, a Colômbia, se destacou com a performance que chega perto da perfeição da estrela Shakira, que sacudiu e animou o mundo com sua beleza, simpatia e talento, interpretando a música tema do Mundial, Waka Waka. No mundo animal, destaque para o polvo que tem mais visão de jogo que muito técnico por aí.

Quanto ao mundo dos ônibus, nosso tema principal, o Brasil foi campeão. Cerca de 800 veículos brasileiros serviram os sistemas de Corredores Rápidos Modernos e Segregados que atenderam os espectadores do Mundial e ficarão como legado aos moradores da África do Sul. Deste total, 460, foram para servir, exclusivamente, a Copa. Fora os 32 ônibus da Hyundai, patrocinadora oficial, que ostentavam as frases de cada país participante, veículos que transportaram Comitê Organizador da Fifa, autoridades locais e mundiais, delegações e imprensa. Estes são um misto de São Bernardo do Campo (Mercedes Benz) com Caxias do Sul (Marcopolo). Eles ficarão lá na África, como legado brasileiro.

Mas já que no Planeta da Bola, a inédita Espanha faturou a Taça na Copa do Mundo aqui vai nossa homenagem a campeã. O destaque deste post é para uma fabricante espanhola de carrocerias, que atua antes mesmo de o ônibus se tornar popular no mundo.

A história da Irizar no Brail revela que o País tornou-se um mercado interessante para grandes fabricantes internacionais de ônibus. Além disso, mostra os problemas enfrentados pelo setor com a maxi-desvalorização do Real e a necessidade cada vez maior, frente às instabilidades econômicas, de as encarroçadoras não só se concentrarem no mercado local, mas já pensarem em ser exportadoras dos produtos brasileiros. É também um exemplo mundial de cooperativismo no setor de produção de ônibus.

A Irizar é de Ormaiztegi, região basca ao norte da Espanha. Até o início dos anos de 1990, as vendas se resumiam à própria Espanha, mais Itália, França e Israel. A diretoria decidiu que era hora de expandir os negócios para novos mercados. Foram analisados países que davam prioridade ao transporte rodoviário, o que representaria demanda por carrocerias de ônibus, e cujas malhas ferroviárias eram pouco expressivas ou subaproveitadas. A primeira fábrica da Irizar fora da Europa foi na China, em 1994, mas a empresa foi acionista minoritária no próprio empreendimento, pois as leis do país obrigam que, em qualquer empresa de capital internacional, o governo detivesse 51% das ações. Logo em seguida, foi aberta uma fábrica no Marrocos, ao norte da África.

GARCIA 7815 IRIZAR PB SCANIA

O Brasil entrou nos planos da encarroçadora em 1997, quando desembarcaram os primeiros executivos no País. Para divulgar os produtos, a empresa trouxe três ônibus europeus, comprados pela Viação Garcia, com Chassi Volvo, pela Tranbrasiliana, com Chassi Scania, e para a São Manoel, que usou um chassi Mercedes Benz. A idéia era procurar um parceiro nacional. Depois de várias ofertas foi firmado acordo com a Caio. A planta da Irizar foi instalada ao lado da parceira, na verdade, na desativada fábrica de matérias de fibra de vidro da Caio. Nesta época, não havia cercas e divisões entre as duas empresas.

O primeiro modelo produzido pela Irizar no Brasil foi o rodoviário de luxo Century, apresentado na Expobus de 1998. O veículo chamou a atenção pelo seu desenho e materiais inovadores. Depois foram fabricados outros modelos, como o Intercentury, em 2001, um modelo mais simples para linhas de menor distância e serviços de fretamento. Em 2007, houve um aperfeiçoamento do modelo, que foi dividido em duas categorias, Century Luxury e Century Semiluxury. Antes do lançamento da maior parte destes modelos, porém, a Irizar teve de aprender a se virar sozinha no mercado brasileiro. A crise que afetou a Caio, levando-a à falência em 2000, fez com que a parceria se encerrasse.

Em 1999, a Irizar no Brasil sofre outro susto: em janeiro, o Real sofreu uma desvalorização de 40%. O preço dos ônibus tiveram de ser reajustados principalmente quando se usava peças importadas. O mercado interno desaqueceu. Isso acelerou os planos da Irizar para exportar os produtos feitos no Brasil. Os demais mercados latinos estavam mais aquecidos e a desvalorização monetária tornava os produtos brasileiros mais atraentes para os compradores externos.

Chile, Uruguai e República Dominicana foram os primeiros compradores internacionais de ônibus brasileiros da Irizar. No ano 2000, a demanda européia registrou forte aumento. Para dar conta, a empresa mandava para o “Velho Continente” ônibus produzidos no Brasil. Em 2003, os produtos da Irizar do Brasil chegaram ao continente africano. A precoce onda de exportações deu versatilidade e credibilidade à marca Irizar no mercado interno, que sofria com boatos espalhados pela concorrência sobre a durabilidade dos ônibus e a manutenção da empresa no Brasil.

A empresa começou a sentir os frutos dos investimentos no Brasil em 2005, quando houve crescente procura por seus produtos. Um dos principais marcos da Irizar no Brasil foi o lançamento, entre 2008 e 2009, do modelo topo de linha, PB. As primeiras unidades foram adquiridas pela Viação Garcia, do Sul do País. O Irizar PB já tinha sido lançado na Europa em 2001, e mais uma vez chamou a atenção dos brasileiros pelo desenho diferenciado e os acessórios de luxo, como disposição de equipamentos e poltronas anatômicas exclusivas.

O início da Irizar no Brasil teve comando de Fabián Berridi passando em 2001 para Gotzon Gómes. A empresa surgiu na Europa, em 1889, fazendo carruagens de luxo para passageiros. Nos anos de 1910, começou a se dedicar a fazer carrocerias para ônibus. O nome Irizar é da família fundadora, mas desde os anos de 1950 pertence à cooperativa de seus funcionários. Cada trabalhador da planta espanhola, independentemente do cargo, tem a mesma cota de ações na empresa. No Brasil, o modo de gestão se assemelha ao da Espanha. Em 2008, a Irizar figurou no ranking das 150 melhores empresas para se trabalhar no Brasil, feito pela Revista Exame.

Uma campeã, assim como a seleção da Espanha.

Adamo Bazani é jornalista da CBN, busólogo, apaixonado pela Copa e mais ainda pela Shakira

Copa da África é vermelha como o sol de Toscana

 

Direto de Ansedônia/Itália

Sol em Toscana

Nem Itália nem Brasil no fim da Copa, me deixaram orfão neste domingo em que pessoas no mundo todo se reuniram para assistir a partida final do Mundial 2010. Aqui onde passo as férias, Toscana, bares e restaurantes promoveram timidamente encontros para receber torcedores dispostos a acompanhar a partida. Espanha e Holanda não ofereciam aos italianos motivação especial, a não ser à turma de Milão, com dois representantes na seleção holandesa: Sneijder, da Inter, e Huntelaar, do Milan (que nem em campo estava).

Restou-me aceitar o convite da Zia Puppa para ver o jogo com a família. Ela só assiste ao futebol em Copa, e, ultimamente, tem reclamado muito das partidas. Acha que ninguém “joga, assim, assim …” e reforça a frase com as duas mãos sacudindo a sua frente.

Pedaços de pizza, queijos cortados, salame ‘italiano’ e cerveja servida me aguardavam. Logo que cheguei, perguntei pelo coração dela. Tanto faz, mas o sol, hoje, está mais pra Espanha do que Holanda.

Fui conferir. Aqui do alto de Ansedonia, onde fica a casa dela, o sol desce no Mediterrâneo e pode ser apreciado, no verão, até oito e meia, quase nove da noite. Tinha razão, o vermelho era especial.

Nada especial era o jogo na televisão. Apesar de final de Copa do Mundo, as seleções se apresentavam com futebol aquém do esperado. Ou jogavam aquilo mesmo que Zia Puppa há algum tempo reclama. Um jogo sem graça, com poucos lances de gol e muito pontapé. “Porca la miseria” disse Zia ao ver o holandês acertar com a chuteira o peito do espanhol.

Quis saber porque a Espanha ainda estava na Copa se tinha perdido um jogo. Tive de explicar que foi só o primeiro do Mundial e depois ela se recuperou. Quis saber, também, como o Brasil perdeu para esta Holanda ? “Pergunta pro Dunga, Zia”.

O prato de petiscos estava quase no fim, e o jogo não andava. Falta pra um, cartão amarelo pro outro, de vez em quando alguém tentava um drible. As poucas escapadas ao gol eram contra-ataques da Holanda que acabavam nas mãos (ou pés) de Casillas. A Espanha ensaiava um ataque, uma cobrança de escanteio, um cabeceio, mas a maior parte das bolas seguia pra fora.

“Desse jeito ninguém vai fazer gol”. No intervalo, a previsão da Zia Puppa já era de que a decisão seria nos pênatis. Os analistas da Rai Uno, com mais argumentos, diziam o mesmo. Um deles arriscou que o jogo iria melhorar no segundo tempo: “Até aqui a ordem era não perder a Copa no primeiro tempo”.

O segundo tempo se iniciou, e minha companheira de sofá dava sinais de cansaço. A cabeça as vezes caía pra frente como se estivesse dormindo. Despertava sempre que alguém na sala gritava mais alto por causa de um chute a gol. Ou uma falta, o que se repetiu muito mais. Ela só se levantou mesmo, indignada, quando o juiz inglês Howard Webb não puniu Iniesta que fez uma falta fora de jogo: “Ele amarelou” – traduzo eu para um português menos ofensivo. Aproveitou para fazer exercícios para as costas, estavam mais interessantes.

Apesar de uma pequena melhora na partida, o gol não surgia e a previsão da Zia Puppa ficava mais próxima: os temidos pênaltis. “E se der pênalti, este aí vai pegar tudo”, se referia a Casillas que naquela altura tinha participado dos lances mais emocionantes do jogo.

Já não havia mais sol lá fora, quando o 0 x 0 se confirmou e o jogo foi para o tempo extra: “é castigo, pra ver se eles acertam um gol”, disse se levantando para lavar a louça na cozinha. E lá de dentro ainda resmungou: “no meu tempo não tinha essas coisas, se ganhava no jogo mesmo”.

Engano dela, em 34 quando a Azurra da Zia ganhou o seu primeiro mundial, o título foi decidido na prorrogação. Aliás, finais de Copa com prorrogação já tinham acontecido, também, em 66, 78, 94 e 2006. Portanto, nenhum demérito aos que tentavam a conquista hoje, a não ser pela carência de futebol e excesso de violência.

O problema da prorrogação é que a cerveja tinha acabado. E os ‘comes e bebes’, também. Ao menos que tivesse mais futebol. Iniesta exitou e errou. Navas assustou com a bola batendo do lado de fora da rede. Sneijder cobrou falta pra fora. Tinha um holandês impedido numa jogada e mais um na outra. E um outro acabou expulsou. “E foi expulso porque fez falta naquele que nem tinha que estar mais em campo”, lembrou minha comentarista de plantão, se referindo ao fato de Heitinga ter agarrado Iniesta que corria pra dentro da área.

“Eles vão jogar a vida toda e não vão marcar gol”. Foi como se a Espanha resolvesse dar um #calabocazia, pois ela mal acabara de reclamar e Iniesta encheu o pé pra fazer o gol do título. Comemorei, nem tanto pelos espanhóis, menos ainda pela previsão errada dela, mas porque gol ainda é a coisa mais importante no futebol.

Curioso é ver que a Espanha que chegou com boa fama e boas previsões na Copa estava bem próxima do título tendo marcado apenas oito em sete jogos. E logo a seleção batizada como “Fúria”. Talvez a explicação estivesse não nos número de gols marcados, mas nos tomados: apenas dois. Ou quem sabe estava no equilíbrio destes números, uma defesa segura e um ataque que marca o necessário ?

Pensei em levantar esta bola pra Zia comentar, mas, sei lá de onde, surgiu mais um copo de cerveja. Dois, aliás. Um na minha mão e outro na dela que brindou a façanha espanhola – o jogo já havia acabado.

“Estava torcendo, Zia ?”

“Eu, não, mas o sol estava”.

E o vermelho do sol de Toscana era espanhol, sem dúvida. Assim como a Copa da África.