Avalanche Tricolor: só faltam sete

Grêmio 3×1 Atlético GO

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Villasanti comemora o gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A temporada 2024 não tem sido fácil para o torcedor do Grêmio. A tragédia provocada pelas enchentes no Rio Grande do Sul nos atingiu de forma contundente. Fomos obrigados a jogar fora do nosso estado e do nosso estádio, muito mais do que qualquer outro time gaúcho. Voltamos a Arena há menos de dois meses e a Arena voltou a ser toda nossa apenas na tarde deste sábado, na trigésima-primeira rodada do Campeonato Brasileiro.

O prejuízo técnico e tático que a equipe sofreu foi enorme, mesmo que não explique a baixa qualidade do futebol apresentado em muitos dos jogos. Boa parte dos melhores reforços chegou apenas no meio da temporada, o que tornou mais complexo o funcionamento daquela engrenagem que os times bem treinados costumam apresentar. Verdade que a essa altura do campeonato já deveríamos estar oferecendo um trabalho coletivo mais competente, mas o time tem enfrentado dificuldades para “pegar no tranco”, como costuma-se dizer no popular.

A sequência de fatos e defeitos reduziu nossas expectativas. A equipe que começou o ano prometendo presença competitiva em todas as disputas, encerrará apenas com a comemoração do Hexacampeonato Gaúcho, nos primeiros meses de 2024. Na Copa do Brasil e na Libertadores fomos despachados nas disputas eliminatórias. No Brasileiro, depois de um esforço para não correr o risco de rebaixamento, nos contentaremos com uma classificação à Copa Sul-Americana, o que me parece garantido após a vitória deste sábado.

A partida que marcou a volta definitiva da Arena, com quase 37 mil torcedores presentes, apresentou muito do que temos assistido neste ano de futebol mediano. Cometemos pênalti com uma facilidade de chamar atenção. E os vemos ser convertidos quase sem reação. Temos uma fragilidade defensiva capaz de transformar o lanterna do campeonato em uma equipe perigosa no ataque.

Dependemos de jogadas individuais como a que nos levou ao gol de empate, porque falta entrosamento. Nossos destaques são Soteldo e Villasanti, não por acaso dois dos que marcaram nossos gols. Justiça seja feita ao esforço de Braithwaite que luta contra os zagueiros e se entrega de uma maneira cativante. O primeiro e o terceiro gols tiveram a participação importante dele.

Como escrevi, a vitória de hoje foi crucial para eliminar as possibilidades de rebaixamento e nos colocar na Sul-Americana, apesar de matematicamente ainda haver condições para o pior dos cenários.  Mesmo que algumas partidas que nos restem sejam de alta periculosidade, acredito que ocupamos agora o quinhão que nos está reservado para esta temporada. Desejo apenas que saibamos mantê-lo até o fim, que, felizmente, está próximo. Só faltam sete partidas para nos despedirmos de 2024.

Conte Sua História de São Paulo: do “ding-dong” à banda de São Miguel Paulista

Atsushi Asano

Ouvinte da CBN

Foto de Hugo Martínez

Estudei no Colégio Estadual D.Pedro I, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. Não é saudade, são flashes de memórias acesas pelos estímulos do Conte Sua História. 

Eram os anos de 1967 a 1973. Em pleno Governo Militar. O bairro era distante dos movimentos civis e de estudantes em defesa da Democracia. Estudava conforme as regras da época imposta aos estudantes do ginásio. No colégio, de famoso, havia estudado Antonio Marcos, o da Jovem Guarda.

Naqueles anos, do outro lado da Estrada Velha São Paulo-Rio,  em frente a escola, em um terreno vazio, levantava-se o prédio do mercado municipal e uma alta caixa d’água. Lá em cima da torre instalou-se um grande e único relógio com quatro faces.  Seus ponteiros marcavam a hora certa ao som do “ding-dong” que pautava o dia de moradores e estudantes.

Mais um flash se acende. 

Vejo agora a estrada velha, de pista simples, mão-dupla, calçadas por paralelepípedos. Vejo pela janela, na carreira de carteiras da sala de aula. Pela cortina aberta, observava: hora passavam carros, ônibus e caminhões. Hora passavam charretes e carroças. Muitas vezes presenciava as patas dos cavalos escorregarem com suas ferraduras nas pedras do piso liso e desgastado.

As lembranças seguem por aqui.

Todos os anos, lembro-me que eu desfilava pela escola, uniformizado, em marcha, seguindo a banda do colégio, com um sentimento que me faz viajar nas memórias de São Miguel Paulista.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Atsushi Asano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: me ilude que eu gosto!

Grêmio 3×1 Fortaleza
Campeonato Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Aravena comemora primeiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio enfrentou três dos clubes mais bem classificados do Campeonato Brasileiro nas últimas quatro rodadas. Hoje, venceu o Fortaleza (3º); no domingo passado, havia empatado com o Botafogo (1º); e, há menos de duas semanas, superou o Flamengo (4º).

Vai entender um time assim!

É verdade que a campanha nesse segundo turno da competição é uma das melhores entre todos os participantes. Porém, convenhamos, quem nos vê na tabela, com “aquela-zona-que-você-sabe-qual-é” no retrovisor, não deveria esperar sucesso contra as equipes que estão disputando o título. O fato é que, apesar dos defeitos, o Grêmio se afasta do maior risco e ocupa um lugar no meio da tabela.

Nesta sexta-feira à noite, a articulação da bola, do meio para a frente, foi de qualidade, com velocidade nos passes, deslocamentos pelos lados e intensa participação dos atacantes. Braithwaite praticamente não desperdiçou uma bola que chegou aos seus pés. Distribuiu o jogo e abriu espaço para os companheiros entrarem na área. E, como se não bastasse, ainda fez o gol que encaminhou a vitória.

Aravena demonstrou talento, movimentação e precisão no chute, o que o levou a marcar o primeiro gol, após jogada entre Braithwaite e Cristaldo pelo lado direito. Edmilson também apareceu bem no ataque, além de fechar o meio de campo para conter as investidas do adversário.

A vitória foi ratificada com um chute de Soteldo, que entrou na parte final da partida e, mais uma vez, teve uma participação intensa no ataque. Fez o gol após uma assistência de Igor, um garoto de apenas 19 anos, que teve importante presença na marcação e se apresentou com qualidade na frente.

Ver a dupla de zaga Geromel e Kannemann de volta, uma contingência da lesão de Gustavo Martins – justamente na semana em que nosso capitão anunciou que se aposentará do futebol no fim do ano –, foi um presente extra para os torcedores, exaustos de tanto sofrimento nesta temporada. Faz bem ao coração vê-los lado a lado, dominando a área por cima e por baixo, mesmo com todos os problemas do sistema defensivo e sabendo que a condição física, especialmente de Geromel, já não é a mesma do passado.

Temos problemas a serem resolvidos e ainda não dá para respirar aliviado, imaginando que estamos livres do perigo maior. Mas nós, torcedores, estávamos merecendo um resultado como este.

Grêmio, me ilude que eu gosto!

Avalanche Tricolor: um sofrimento por vez

Grêmio 1×2 Criciúma

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Cristaldo aparece no ataque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio reforçou o grupo no meio da temporada. Trouxe jogadores de talento ascendente ao perceber suas carências. Apostou em um centroavante gringo experiente, diante da falta de gols. Encheu seu elenco de estrangeiros, considerando o risco de rebaixamento que se desenhava na primeira parte da competição. Mais recentemente, até para a Arena retornou, o que parece não ter sido suficiente para conquistar o torcedor, incapaz de lotar os poucos lugares disponíveis.

Mesmo que tenha enfrentado todos os elementos para percorrer aquilo que os mais românticos — e confesso que assim fui até há algum tempo — exaltariam como sendo parte da  jornada do herói, em que viajamos do mundo dos comuns, aceitamos o chamado e encaramos a provação suprema, o Grêmio segue sendo um time propenso a oferecer sofrimento ao seu torcedor, uma partida após a outra.  

Às vezes, esboça boas jogadas no ataque, sem, porém, transformá-las em risco de gol. Ao mesmo tempo, não resiste à mínima pressão do adversário na defesa. Nos últimos quatro jogos, levou nove gols. Nas 26 partidas disputadas no campeonato, foram 34 gols sofridos. Essa equação é insustentável. 

Rodada após rodada a batalha que nos aflige é a proximidade com aquela-zona-que-você-sabe-qual-é.  Não há um dia de sossego. Quando pensamos que o olhar se voltará para o alto, que poderemos sonhar com alguma conquista, por mais medíocre que seja, a realidade se impõe. Pode ser com os melhores do elenco em campo, pode ser na sua casa ou pode ser contra adversários de menor expressão. O Grêmio só tem a oferecer sofrimento. E assim será para todo e sempre, nesta temporada.

Avalanche Tricolor: Jeg er allerede illuderet!

Cuiabá 1×3 Grêmio

Brasileiro – Arena Pantanal, Cuiabá MT

Martin Braithwaite comemora gol, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

Diga o que você quiser! Lembre-me que o adversário não vencia há sete jogos em casa. Diga que enfrentamos um time que está naquela zona-que-você-sabe-qual-é. Grite que eles nunca ganharam da gente em toda a história do futebol e, no máximo, tinham arrancado um só empate contra nós em sete partidas disputadas. 

Eu já estou apaixonado! 

Nada do que você disser mudará minha percepção. O que assisti na Arena Pantanal, no início da noite deste sábado, me deslumbrou. A corrida em direção à bola, o tranco no zagueiro, a tomada de frente na jogada, o toque para o companheiro concluir a gol, aos 14 minutos de jogo, bastaram para eu acreditar que estava diante de um jogador que chegou para fazer história no Grêmio.

Claro que estou falando do dinamarquês Martin Braithwaite, que estreou  com a nossa camisa, neste 10 de agosto de 2024. O lance que descrevi foi o primeiro protagonizado por ele em campo. Depois disso, só maravilhas. Eu sei que teve o gol contra dele. Este, porém, além de uma fatalidade, serviu para escrever com perfeição sua primeira jornada do herói no Imortal Tricolor.

Aos 33 anos, o atacante saciou a fome de gol anunciada em sua primeira entrevista coletiva ao chegar ao clube. Antes de marcar, foi o responsável pela jogada que deu início à vitória. Tabelou com Edenílson e chutou na trave. No rebote, Gustavo Nunes conclui de cabeça.

Quando a partida estava empatada, no segundo tempo, e o adversário pressionava de forma preocupante, Braithwaite foi preciso no toque da bola em direção às redes, que colocou o Grêmio na frente mais uma vez. Que se faça justiça: o autor intelectual da jogada foi Miguel Monsalve. O colombiano driblou todos seus marcadores, entrou na área e deu o gol de presente para o centroavante. 

O terceiro gol gremista e o segundo de Braithwaite, porém, foi todo mérito dele. Após mais uma assistência de Cristaldo, primeiro venceu os defensores no jogo aéreo. Diante da defesa do goleiro, não se fez de rogado: de bate-pronto e com a perna esquerda, pegou o rebote e fulminou as redes. 

Forte, preciso, talentoso, insaciável e inteligente! Adjetivos que acompanharam Braithwaite do primeiro ao último ato nesta estreia, inspirando meu otimismo com tudo que vi em campo. Tenho certeza que a maior parte do torcedor gremista comunga deste mesmo sentimento neste instante. 

Sim, eu sei que é apenas o começo. Sei o que você está pensando, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche. Sei que vai repetir todos os argumentos descritos no primeiro parágrafo deste texto. Pode lembrar, falar e gritar. Diga o que quiser, mas eu já estou iludido ou, como se diz na língua de nosso craque, “jeg er allerede illuderet!”

Avalanche Tricolor: o Grêmio renasce nas águas de Chapecó

Grêmio 1×0 Vasco

Brasileiro – Arena Condá, Chapecó SC

reprodução canal Premiere

O Grêmio escolheu Chapecó e sua Arena, símbolos de superação e resiliência, diante de um desastre que marcou o futebol e nossas vidas, para enfrentar o adversário desta noite de domingo. Sabia da importância do resultado e do impacto que teria no ânimo e nas possibilidades do time para o restante da temporada. Avizinham-se as decisões da Copa do Brasil e da Libertadores. Encarar as duas competições fora daquela zona-que-você-sabe-qual-é no Campeonato Brasileiro seria fundamental para nossas pretensões.

Como se a pressão do resultado e as dificuldades enfrentadas devido à tragédia ambiental no Rio Grande do Sul não fossem suficientes, nos deparamos mais uma vez com uma tempestade no caminho. Já havia sido assim em momento decisivo da Libertadores, quando garantimos passagem à fase seguinte, em junho, no Chile. Hoje, um temporal se formou, tornando o futebol uma batalha arriscada e marcada pela lama e coragem.

Forjado no drama da enchente, o Grêmio parece se agigantar nesses momentos, apesar das dificuldades técnicas. Mesmo com o gramado encharcado e o domínio da bola sendo um desafio extraordinário no campo de jogo, o time se impôs. Fez o que pôde para ameaçar o adversário e se colocar em condições de marcar. Esteve quase sempre com a bola no pé e com o domínio da partida. 

Apesar de uma defesa consistente, com três zagueiros deixando pouco espaço ao adversário, e um meio de campo que logo entendeu como deveria jogar frente às intempéries, ninguém foi maior do que Soteldo. O venezuelano secou o gramado por onde passou, como bem disse Ledio Carmona, em transmissão do Premiere. No primeiro tempo, jogou pela direita e entortou quem se atreveu a marcá-lo. Trocou de lado no segundo tempo, e foi por lá que encontrou o gol que deu a vitória para o Grêmio.

Soteldo é polêmico por onde passa. Atrasou seu retorno ao time após a Copa América. E na última partida esbravejou ao ser substituído. Quando está em campo, porém, não há do que reclamar dele. Tem sido decisivo, especialmente depois de se recuperar da lesão que o afastou dos gramados, ainda no Campeonato Gaúcho. Fez gol domingo passado, quando abriu o placar para vencermos o Vitória, e voltou a marcar neste domingo. Foi fundamental nesse primeiro alívio que tivemos desde que entramos naquela zona-que-você-sabe-qual-é.

Sabemos que novas batalhas teremos pela frente e precisaremos de muito mais futebol para vencê-las. Os reforços estão chegando e os lesionados, especialmente Diego Costa, estão se recuperando. Nossa Arena, em breve ,estará reaberta. Das águas de Chapecó, renasce a esperança de tempos melhores em nossa caminhada. O Grêmio está vivo!

Avalanche Tricolor: de volta!

Grêmio 2×0 Vitória

Brasileiro – Centenário, Caxias do Sul/RS

Matías Arezo está chegando e fez diferença. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Estava de malas prontas e nos preparativos para o retorno ao Brasil quando o Grêmio entrara em campo para uma partida fundamental diante das suas pretensões de deixar aquela zona-que-você-sabe-qual-é, e voltar a disputar de verdade o Campeonato Brasileiro. 

Precisei contar com conexões nem sempre seguras de internet e sinais de vídeo claudicantes no meu caminho até o aeroporto de Curaçao de onde partiria para o Panamá, para acompanhar em “tempo real” o nosso desempenho. A demora na atualização das informações e das imagens colaboraram bastante com a ansiedade de quem estava a espera de um resultado positivo, assim como eu e toda a torcida gremista.

O Centenário lotado sinalizava que os torcedores haviam aceitado o desafio feito pelo time, especialmente após a entrevista coletiva da sexta-feira que colocou os dois maiores ídolos da atualidade, Geromel e Kannemann, ao lado de Renato, que é o maior deles, goste-se ou não de sua forma de falar, treinar e escalar a equipe. A impressão que fiquei, desde que a bola começou a rolar, é que a entrega dos jogadores também estava sintonizada com o apoio das arquibancadas. Digo impressão porque seria injusta uma análise mais aprofundada com base no que lia nos sites que atualizam as informações do jogo e os rompantes de imagens que recebia no meu celular.

(em tempo: avise às marcas que patrocinam as transmissões que é irritante ter de esperá-las se apresentar até podermos pular o anúncio toda vez que precisamos reconectar)

Dava para perceber o esforço em fazer a bola chegar ao ataque e de reduzir ao máximo os riscos impostos pelo adversário com uma marcação forte. A falta de precisão nos chutes, porém, impedia que o domínio em campo se traduzisse em gols – este maldito gol que teima em não sair na quantidade necessária para nos dar um respiro no campeonato.

As estatísticas eram gritantes: dez chutes a gol contra apenas dois do adversário, muito mais escanteios, passes trocados e posse de bola a nosso favor. Mesmo assim terminamos o primeiro tempo no zero a zero e levamos para o vestiário o temor de que o roteiro das últimas partidas se repetiria.

Eu já despachara as malas, quando o segundo tempo havia se iniciado e o que mais buscávamos nessa partida começava a se construir. A visão de jogo de Edenílson deu início a jogada que terminaria nos pés de Soteldo, que driblou duas vezes seus marcadores para chutar de dentro da área. Pouco me importou o sinal da internet deixar a imagem travada ainda antes do chute do venezuelano. Ver o 1 a 0 no placar do APP de esportes era o suficiente aquela altura.

Enquanto apresentava o passaporte no setor de  imigração e submetia as malas ao escaner da fiscalização, minha única preocupação era que o Grêmio, lá em Caxias, não deixasse nenhuma bola passar pela nossa defesa. Pelo que ouvi dos críticos, Rodrigo Ely e Geromel — que entrou ainda no início da partida devido a lesão de Kannemann — deram conta do recado.

A caminho do embarque, minha torcida era só pelo apito final. O um a zero seria o suficiente nesta altura da viagem. Fosse meio a zero, comemoraria igual os necessários três pontos ganhos. Tudo que queria era a vitória de volta. O árbitro, então, resolveu esticar a partida por mais cinco minutos. E o sofrimento pelo tempo estendido foi compensado: o sinal de WI-FI de uma sala VIP me permitiu assistir à jogada que culminaria no pênalti.

Claro que a cobrança de Reinaldo, de pé esquerdo, forte e no alto, me fez vibrar. Mas o que mais me fez feliz no lance, foi ver a presença de Matías Arezo dentro da área. O jovem atacante, que chegou nestes dias e mal desfez as suas malas, recebeu a bola e girou com velocidade em direção ao gol, levando o zagueiro a derrubá-lo. 

Sem ilusões, quero crer que tenhamos encontrado um jogador que sabe o que significa ser um número 9. E o lance tenha sido a primeira escala de uma longa e ótima viagem do uruguaio com a camisa do Grêmio. 

Dito isso, deseje-me boa viagem, também, porque assim como a vitória, eu estou voltando!

Avalanche Tricolor: ninguém apaga a história de Roger Machado no Grêmio

São Paulo 1×0 Grêmio

Brasileiro – Morumbis, São Paulo/SP

Roger Machado em foto de arquivo de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Décima derrota em 15 partidas disputadas no Brasileiro. A quarta partida seguida sem vitória. Vitória? Somamos apenas três até este momento na competição. Gols? Foram somente dez, o que nos coloca como o pior ataque do campeonato. E contrariando a máxima de que “quem não faz leva”, para cada gol que marcamos, levamos dois.

Tenho sempre a crença de que algo acontecerá para nos tirar dessa situação. Deposito minhas esperanças ainda na chegada de reforços e na recuperação de lesionados, em especial Diego Costa. Agora, diante de uma campanha como esta, me surpreende que a principal preocupação do torcedor gremista, nesta semana, foi o fato de um profissional de futebol aceitar um convite para trabalhar em um clube que lhe oferece a oportunidade de crescer na carreira e ser muito bem remunerado para exercer sua função.

Sim, eu sei que Roger Machado treinar o Internacional sensibiliza o coração de todos nós que o admiramos pelo futebol jogado no Grêmio em seu passado.  Temos a ilusão de que aqueles que vestiram a camisa tricolor e foram elevados a posição de ídolo devem reverência ao clube para o restante de suas vidas. Queremos acreditar que são como nós, torcedores e apaixonados, incapazes de cometermos o sacrilégio de vestirmos outro manto que não seja o do Imortal. E se o fizerem, que nunca, jamais e em nenhuma circunstância seja o do colorado.

Roger tem o direito de treinar o clube que bem entender. É profissional do futebol. Deve escolher a trajetória que lhe convier. É inteligente, tem personalidade amadurecida e um equilíbrio emocional que poucas pessoas alcançam. Certamente, precisou de muita coragem para tomar a decisão de se transferir para o Internacional. Calculou o risco que corria e a pressão que sofreria. Chego a imaginar com quem se consultou antes de aceitar o convite. Fez uma escolha bem pensada, porque foi assim que sempre se comportou ao construir sua carreira, especialmente desde que migrou de jogador para treinador. 

O conheci pessoalmente em 2015, em virtude de entrevista que participei a convite da ESPN. Vinha de uma sequência inédita de vitórias no Campeonato Brasileiro, edição em que o Grêmio terminou na terceira posição e com vaga na Libertadores, apresentando um futebol bonito de se ver. Ano em que venceu o Gre-Nal do Dia dos Pais com um histórico 5 a 0. 

A conversa que havia iniciado, antes da entrevista, diante de um ídolo do futebol, encerrou-se bem depois do programa de TV, frente a um ser humano admirável, que me inspira e respeito profundamente. Um cara que defende causas fundamentais para a humanidade, preza valores como integridade, justiça e solidariedade, e utiliza sua influência para promover o bem-estar social e a igualdade. Suas ações fora dos campos revelam um compromisso genuíno com a construção de um mundo melhor, fazendo dele um exemplo de cidadania e liderança.

Na época, revelou, ainda, uma visão estratégica para a vida. Assumir um clube de expressão como o Grêmio havia sido uma das etapas estabelecidas para seguir  na carreira. Desejava conquistar um título de expressão e concluir sua missão como treinador aos 55 anos. Está com 49. Cheguei a perguntar a ele se aceitaria treinar o Internacional. Respondeu-me que tinha uma relação histórica com o Grêmio e acrescentou: “me preparei para treinar grandes times”.

As glórias que teve pelo Grêmio e com o Grêmio ficarão registradas para todo e sempre no nosso coração (no meu com certeza). Fez parte de um dos maiores times que já formamos. Foi campeão Gaúcho, da Copa do Brasil, do Brasileiro e da Libertadores. Sempre que esteve com a camisa do clube, seja como jogador seja como técnico, honrou aquilo que gostamos de nominar como imortalidade. Nunca deu as costas aos compromissos que lhe eram propostos. Mereceu e seguirá merecendo cada homenagem que recebeu desde então: dos pés na calçada da fama ao título de atleta laureado. Qualquer movimento que busque apagar a história e importância de Roger Machado é apequenar o clube, não bastasse ser inútil. O que ele fez com a nossa camisa está nos registros e foi gigante. 

Melhor faremos se nos voltarmos para os problemas que levam o Grêmio a atual situação de dificuldade no Campeonato Brasileiro. Isso, sim, é preocupante e pode ser desastroso para a nossa história — esta que Roger ajudou a construir.

Avalanche Tricolor: quando sequer Suárez resolve!

Grêmio 0x2 Cruzeiro

Brasileiro – Centenário, Caxias do Sul RS

Panamenhos assistem, no terraço do bar, à Copa América Foto: eu mesmo

Acompanhei pela atualização do Google a partida do Grêmio. Era meu primeiro dia de férias e acabara de chegar ao Panamá, onde tinha uma agenda intensa de atividades, considerando que só ficaria um dia por aqui, antes de partir para outro destino. Fui surpreendido pelo que vi. Não na tela do celular, mas nos passeios previamente planejados. Surpreendi-me ao conhecer lugares impressionantes e histórias curiosas deste país da América Central, que costumo usar apenas como ponto de passagem para a América do Norte ou o Caribe. 

É incrível como unir a capacidade da engenharia e o poder da natureza possibilitou o funcionamento do Canal do Panamá, inaugurado às vésperas da Primeira Grande Guerra Mundial, em 15 de agosto de 1914. É um país resiliente, também. Com sua importância geográfica, matas ricas e  ouro a ser extraído foi explorado por franceses, espanhóis e americanos, entre outras nações e povos. Foi vítima da ditadura e de políticos gananciosos. Mas resiste! 

Tem riqueza e diversidade na sua floresta, que se parece com a nossa Amazônia. Beleza em suas praias, especialmente as do lado do Caribe. E uma capital que se expressa por arquitetura pujante, mesmo que de gosto duvidoso, a partir de prédios intermináveis de tão altos. No centro antigo, Casco Viejo, a reforma de parte das estruturas e a transformação em patrimônio histórico fizeram do local uma atração à parte, seguro para passear e com culinária típica.

Panamá não é um país tradicional no futebol. O pessoal parece se dar melhor com tacos de beisebol nas mãos. Porém, deparei-me com uma curiosidade. Sem uma seleção local de prestígio, os panamenhos se divertem torcendo para seleções alheias, especialmente as sul-americanas. Adoram o Brasil e estavam decepcionados com nosso desempenho na Copa América. Vibram com a Argentina, especialmente por causa de Messi. E têm rixa com a Colômbia, contra quem já enfrentaram algumas batalhas violentas — e não foi nos campos de futebol. 

Na noite de ontem, enquanto ainda me refazia de mais uma chulapada que levamos no Campeonato Brasileiro, as atenções na cidade do Panamá estavam voltadas para a semifinal da Copa América, entre Colômbia e Uruguai. Não havia um restaurante que não tivesse com a televisão sintonizada no jogo. Em alguns bares, situados no topo dos prédios baixos do centro antigo, havia festa e muita gente reunida para torcer. Na praça principal algumas pessoas estavam sentadas ao lado da catedral de onde conseguiam acompanhar à distância o telão de um bar no alto do prédio.

Por motivos óbvios estava mais interessado na comida servida à mesa e na conversa divertida sobre o início das férias. Só fui me atentar à partida quando Suárez apareceu ao lado do gramado para entrar em campo e tentar salvar o Uruguai. Foi um momento de nostalgia. Que saudade de nosso atacante! Aquele que nos levou ao vice-campeonato brasileiro, ano passado, a despeito de todos nossos defeitos.

Comecei a imaginá-lo de volta ao Grêmio e chegando para nos tirar dessa situação vexatória que estamos enfrentando. Puro exercício de imaginação, porque é evidente que o atacante uruguaio não tem a menor pretensão de retornar ao Brasil. Para piorar, pelo que assisti nas telas dos restaurantes panamenhos, há algumas situações no futebol que sequer Suárez resolve. 

Avalanche Tricolor: que inveja!

Grêmio 0x3 Juventude

Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

Havia consistência na defesa, com marcação forte e pressão para impedir que o adversário chegasse ao gol. O meio de campo voltava bem para ajudar os jogadores defensivos na saída de bola e tinha velocidade ao levá-la à frente. O posicionamento dos atacantes permitia o passe rápido e a abertura de espaço para o chute a gol. Nem sempre a bola chegava perfeita, mas a presença de um centroavante de ofício levava perigo a todo momento.  Por baixo, por cima, de dentro ou de fora da área.

Dava gosto de perceber que em campo havia um time bem treinado. Jogadores que sabiam quais são suas funções em campo. Conscientes de seu potencial e limite. Dispostos a oferecer ao torcedor a certeza de que, a despeito do resultado alcançado, jamais faltará esforço e dedicação.

Havia entrega e talento. Não individual. Coletivo. Daquele tipo que faz com que a bola saiba de onde vem e para onde vai. Que passa de pé em pé. E dos pés de seus jogadores só parte em chutão para frente diante do risco iminente. Um futebol que se permite a “olé” para satisfazer sua torcida e não humilhar o adversário.

Como deve ser bom torcer para um time que ainda é visto como pequeno, diante dos grandalhões do futebol brasileiro, mas que não se apequena quando entra em campo, especialmente no seu próprio campo.

Hoje, tive inveja dos torcedores do Juventude!