Quando o céu ameaça, o jogo muda: o alerta que falta no futebol brasileiro

O jogo entre Palmeiras e Al Ahly, pela Copa do Mundo de Clubes, foi interrompido no MetLife Stadium, em Nova Jersey, não por uma falta dura nem por um apagão no VAR. A partida parou por causa de um alerta meteorológico — que contrastava com o céu azul e o sol que causava um calor absurdo. O aviso chegou pelos celulares dos torcedores, foi exibido no telão e, quase sem discussão, jogadores e público se afastaram do campo: “Para a sua segurança, por favor, deixe o assento externo e a área do campo…”. A orientação era clara, objetiva e respeitada. Era uma questão de segurança, de cuidado com a vida.

A cena, que se repetiu três vezes em três dias durante o torneio, contrasta com o que estamos acostumados a ver no Brasil, onde jogos seguem mesmo com o gramado alagado, raios cortando o céu e torcedores encharcados nas arquibancadas. A bola rola, ainda que boie.

Por aqui, o futebol resiste ao temporal como se fosse uma prova de virilidade nacional. Jogadores deslizando na lama são lidos como heróis épicos e o torcedor que não abandona o estádio, mesmo sob chuva torrencial, vira exemplo de paixão. Poucos se perguntam: e a segurança? E os protocolos? E o direito à proteção?

Aqui, faço uma confissão. Sou apaixonado por jogadores bravos e corajosos, como Kannemann, meu eterno zagueiro do Grêmio, que, numa partida contra o Huachipato, do Chile, pela Libertadores da América, no ano passado, protagonizou uma imagem que me marcou profundamente. Ele aparece com o uniforme branco tomado pela lama — símbolo da entrega total, da luta até o fim, do espírito de um guerreiro. A fotografia é espetacular (lamento não ter descoberto o nome do fotógrafo que fez o registro). Mas ela só é possível, e talvez por isso mesmo tão incômoda, porque há uma estrutura que impõe aos jogadores essa condição extrema. O que leio como bravura também é, em certa medida, um retrato da imprudência.

A diferença de postura entre os dois países não se resume à organização de um evento. Ela revela o quanto o alerta, como política pública, é uma ferramenta poderosa de cultura preventiva. Nos Estados Unidos, sistemas de monitoramento climático estão integrados a eventos esportivos, e a decisão de interromper uma partida é técnica, não emocional. Parte-se do princípio de que nenhuma paixão justifica o risco à integridade física.

No Brasil, os alertas existem — o sistema da Defesa Civil funciona e pode ser acionado por SMS, por exemplo — mas sua articulação com o cotidiano das grandes aglomerações ainda é frágil. O futebol, que movimenta milhões e mobiliza multidões, não tem como rotina a checagem climática como critério para iniciar ou suspender uma partida. Espera-se que o céu caia — literalmente — para tomar alguma decisão.

Esse episódio na Copa do Mundo de Clubes serve como um lembrete: é possível agir antes do pior acontecer. É possível levar o torcedor a sério. É possível interromper um espetáculo esportivo em nome do bem-estar coletivo, sem que isso seja visto como fraqueza ou desrespeito ao jogo.

Quem dera os estádios brasileiros se preparassem para o tempo ruim não apenas com drenagem no gramado, mas com cultura de prevenção. Porque quando a sirene toca e a chuva cai, o que está em jogo é muito mais do que os três pontos. É a capacidade de um país proteger seus cidadãos — dentro ou fora de campo.

Avalanche Tricolor: do Grand Slam à grande sofrência

Grêmio 1×0 Sportivo Luqueño
Sul-Americana — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Riquelme comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Sentei à noite diante da televisão ainda sob o impacto da vitória de João Fonseca em Roland Garros, no meio do dia. O jovem brasileiro eliminou o francês Pierre-Hugues Herbert por três sets a zero, com autoridade e talento que saltavam aos olhos. Desde sua estreia no Grand Slam de Paris, tenho dividido com amigos e ouvintes o prazer de torcer por alguém que vence com brilho próprio — sem precisar de pênalti forçado ou gol chorado.

Minutos depois, a realidade me trouxe de volta à Arena. Bastaram alguns toques na bola para que o sofrimento habitual se escancarasse. Nem mesmo um adversário fragilizado foi capaz de facilitar a missão. O Grêmio não conseguiu apresentar um futebol minimamente agradável. Sequer o árbitro, figura tantas vezes questionada, servia de bode expiatório. Foi preciso, correto ao marcar o pênalti e justo nas expulsões dos paraguaios.

Mesmo com um a mais em campo durante boa parte da partida — e dois nos minutos finais — desperdiçamos a penalidade e mal conseguimos aproveitar a vantagem numérica. Dizer que estávamos com um time alternativo, poupando titulares para o Campeonato Brasileiro, pouco aliviava a frustração. Pelo contrário: aumentava a preocupação ao ver Mano Menezes recorrer a nomes que já deveriam ter sido deixados para trás há algum tempo.

Para tornar a noite ainda mais amarga, o empate entre Godoy Cruz e Atlético Grau, na Argentina, teve gosto de oportunidade perdida. Os argentinos chegaram a estar perdendo, mas reagiram, e com o empate em 2 a 2 mantiveram a liderança do grupo. Bastariam mais dois gols do Grêmio — contra um adversário com dois a menos — para que conquistássemos a vaga direta à próxima fase. Dois gols. Não parecia pedir demais.

O que consola este torcedor é a aparição de Riquelme. Saído do banco no segundo tempo, foi ele quem marcou o único gol da noite. Aos 18 anos, mesma idade de João Fonseca, decidiu a partida e salvou o Grêmio de um vexame maior.

Será que ao menos isso… pode me dar alguma ilusão?

Avalanche Tricolor: o Grêmio venceu!

Grêmio 1×0 Bahia — Campeonato Brasileiro
Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Kannemann é um dos nossos méritos. Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA

Fazia tanto tempo que eu não via um árbitro marcar pênalti para o Grêmio que, no primeiro momento, nem reconheci o lance como tal — entenda como quiser essa frase. A verdade é que não temos o luxo de discutir as circunstâncias de uma vitória — elas têm sido raras demais. Esta foi apenas a segunda nas últimas treze partidas.

Apesar das limitações repetidas e dos riscos desnecessários de sempre, o Grêmio teve alguns méritos neste início de domingo. A resiliência diante de um adversário mais organizado e com talento no meio-campo foi um deles. E não dá para reclamar da entrega dos nossos jogadores que, visivelmente, têm redobrado esforços para impedir qualquer triunfo adversário. Surpreendentemente, hoje, não tomamos gol. Mesmo aqueles que, ao receberem a bola, parecem não saber exatamente para que serve aquele objeto, correm intensamente no gramado — registre-se: o mais feio da Série A do Campeonato Brasileiro.

Christian Oliveira, pelo lado direito, também está na restrita lista de méritos gremistas. Pena que não tenhamos sido competentes para transformar seus dribles e cruzamentos em finalizações. Ao lado dele, Kannemann. Apesar das duas cirurgias recentes e dos 34 anos, continua um exemplo de dedicação. Vê-lo protagonizando jogadas ofensivas — hoje, deu chapéu, cruzou para a área e ainda deu assistência — revela tanto o destemor do nosso zagueiro quanto o grau de desorganização que ainda nos define. Tem ainda a cobrança de pênalti certeira nas redes de Braithwait — um surpresa se pensarmos que nossos jogadores não têm tido o costume de ver árbitros apitando pênalti a nosso favor.

Por fim, é claro, os três pontos. Conquistados a despeito de todas as condições, são o que temos a comemorar, por enquanto. O Grêmio venceu! Portanto, que comemoremos!

Avalanche Tricolor: luto, lamentos e lágrimas

São Paulo 2×1 Grêmio
Brasileiro – Morumbi, São Paulo (SP)

O luto na braçadeira dos jogadores. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É tarde da noite, neste sábado, e não me arrependo da decisão de não ter ido ao Morumbi — que fica próximo de onde moro desde que vim para São Paulo. Ao longo do dia, considerei algumas vezes a ideia de assistir ao jogo no estádio, experiência que sempre me trouxe prazer, mesmo quando o resultado não colaborava.

Ver o Grêmio apenas se defendendo desde o primeiro minuto, sem demonstrar qualquer vontade ou possibilidade de atacar, foi o suficiente para me convencer de que tinha feito a escolha certa ao permanecer diante da televisão. Evitei o desconforto de chegar ao estádio, o ingresso sempre mais caro do que o espetáculo merece, a arquibancada descoberta e fria, e a insegurança de voltar para casa no fim da noite.

Foi, então, que em um raro contra-ataque, Aravena balançou as redes. Já passava da meia hora de jogo quando, pela primeira vez, o time entrou na área adversária e chutou em direção ao gol — e ao fim da partida, saberíamos que isso só se repetiria outras duas vezes, sem o mesmo sucesso.

O gol, aos 36 minutos, foi o único instante em que minha memória afetiva me fez questionar a ausência no estádio. Que saudade de poder pular na arquibancada, comemorar uma conquista, abraçar quem estivesse ao lado com aquela intimidade que só os torcedores sabem exercer. Uma sensação fugaz.

Infelizmente, os fatos que se seguiram confirmaram que a alegria seria momentânea, e a ausência no estádio, longe de ser lamentada. Abdicamos da posse de bola, insistimos em apenas nos defender e repetimos os vacilos na marcação que têm sido frequentes nas últimas três temporadas. Sim, há três anos o Grêmio sofre uma quantidade absurda de gols, e essa sangria parece não ter fim — seja quem for o técnico na casamata.

O pênalti marcado — e, como sempre, discutido — além de irritação, deveria provocar reflexão. Independentemente da qualidade dos árbitros e dos erros do VAR, é preciso admitir: o Grêmio se expõe a esses riscos por conta das circunstâncias do seu jogo. Um time que vive com a bola sendo jogada dentro ou ao redor da própria área está sempre à beira do desastre, seja por trapalhadas do juiz, seja pelas próprias falhas defensivas.

Lamento pelo futebol mal jogado e por estarmos de volta àquela zona que você sabe qual é. Mas esse é o tipo de lamento que se dissolve no jogo seguinte. Sempre há espaço para recuperação, seja daqui uma semana, seja algumas rodadas à frente.

Confesso, porém, que me envergonha ficar desanimado com as coisas do futebol quando a vida impõe tragédias reais, como a enfrentada por Mano Menezes. A morte de dois de seus ‘netos de coração’ em um acidente automobilístico é uma dor infinita, que eterniza uma cicatriz na alma. A ele e a todos os familiares que choram por essas duas crianças, nossa solidariedade e nossas lágrimas de tristeza e consternação.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: sete maneiras de sabotar sua própria marca

Prometer e não cumprir, ignorar o cliente, mudar o que deveria ser preservado e agir como se uma marca fosse indestrutível são caminhos certos para levá-la à ruína. Foi sobre isso que tratou o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo, que desta vez inverteram a lógica da construção de marca para alertar: muitas empresas estão falhando justamente por não perceberem os erros que elas mesmas provocam.

“A primeira grande falha é não ter uma identidade clara. Quando a marca não sabe o que quer significar, ela pode ser qualquer coisa”, alertou Cecília Russo. Ao lado disso, ela destacou a incoerência na comunicação — desde o silêncio até a mudança constante de tom verbal ou visual — e o distanciamento em relação ao consumidor: “Criar produtos sem entender as dores do cliente é fatal”.

Na sequência, Jaime Troiano apontou que o problema vai além da falta de coerência e entra no campo da frustração: “Você nunca tem uma segunda chance de causar uma primeira boa impressão”. Para ele, marcas que prometem e não cumprem quebram a confiança e perdem espaço sem chances de retorno. Além disso, Troiano listou ainda o descaso com o atendimento e a resistência às mudanças. “Tão perigoso quanto mudar o tempo todo é não mudar nunca e perder o bonde da história”, explicou, lembrando que a inovação deve respeitar o ritmo e a essência de cada setor — especialmente no caso de restaurantes, onde pratos icônicos são parte da marca.

Em um tom provocativo para ironizar práticas comuns de má gestão de marca, Jaime sugeriu, por exemplo, que se você quer mesmo sabotar sua marca, basta “reduzir o investimento em comunicação” ou “mudar constantemente de agência”. Cecília completou com outras atitudes igualmente prejudiciais, como jogar fora os elementos tradicionais da identidade, ignorar pesquisas e recorrer ao improviso amador no design. “Você sempre tem uma sobrinha com um Mac em casa…”, disse com humor crítico.

O jogo dos sete erros

  1. Falta de identidade clara: A marca não sabe o que quer significar. Sem clareza, transmite confusão e não gera expectativa consistente no público.
  2. Incoerência na comunicação: Mudança constante de tom verbal, identidade visual, mensagens desencontradas ou mesmo o silêncio comprometem a credibilidade da marca.
  3. Desconexão com o consumidor: Criar produtos ou campanhas sem entender as dores e desejos dos clientes mina a relevância da marca e impede a criação de vínculos duradouros.
  4. Promessas não cumpridas: Entregar menos do que o prometido destrói a confiança. Como disse Jaime: “Você nunca tem uma segunda chance de causar uma primeira boa impressão.”
  5. Descaso com o atendimento Ignorar feedbacks, demorar para responder ou tratar mal o cliente gera prejuízo imediato e ecoa negativamente nas avaliações públicas.
  6. Resistência à inovação (ou mudança sem critério) Marcas que não se atualizam perdem relevância. Por outro lado, mudar tudo sem preservar elementos essenciais prejudica a identidade.
  7. Desvalorização da marca como ativo estratégico Cortar investimento em comunicação, ignorar pesquisas, improvisar no design e não cultivar relacionamentos duradouros com agências leva ao esquecimento e ao sucateamento progressivo da marca.

A marca do Sua Marca

O programa desta semana defendeu que mais importante do que saber o que fazer é reconhecer o que não deve ser feito. A marca do comentário é o alerta direto: erros aparentemente pequenos ou decisões econômicas equivocadas podem causar prejuízos profundos e irreversíveis à reputação de uma empresa.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: vamos comemorar!

Grêmio 1×0 Santos
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Uma vitória. É o que temos a comemorar. Independentemente do futebol apresentado, das dificuldades na articulação, da sofrência no ataque e da desconfiança na defesa — vencemos. Foi com um único gol, contra um adversário também em crise, mas foi uma vitória. E era disso que mais precisávamos nesta retomada do trabalho de Mano Menezes e Felipão.

Posso estar sendo comedido (ou ranzinza?) ao dizer que a vitória é o único grande motivo para comemoração neste domingo na Arena. Mas há, sim, outro: a qualidade técnica de Cristian Olivera. O atacante uruguaio, que fez o caminho inverso ao de Luis Suárez — trocou o futebol norte-americano pelo Grêmio — tem sido, desde sua estreia, a melhor contratação da temporada. Incisivo no ataque, dono de bom drible e velocidade, ele ainda recompõe a marcação, algo essencial diante da fragilidade defensiva que ainda carregamos.

Foi dele o gol da vitória, ao aproveitar a sobra de uma jogada iniciada pela direita e construída por outra boa notícia deste elenco: Alyson – ops, não é que encontrei mais uma razão para comemorar?!? Com apenas 19 anos, o atacante tem sido aproveitado nos segundos tempos e, na maioria das vezes, deixa sua marca com algum bom lance ou finalização. Hoje, roubou a bola do adversário, escapou pela linha de fundo e cruzou para a área, originando o lance decisivo.

Pode parecer pouco para quem ainda nutre pretensões de título em uma das três competições que disputamos (Brasileiro, Copa do Brasil e Sul-Americana). E é mesmo. Mas você, caro — e cada vez mais raro — leitor desta Avalanche, há de concordar comigo: diante da escassez de boas novas, vencer uma partida e sair daquela zona-que-você-sabe-qual-é já são razões mais do que suficientes para comemorar.

O resultado deste domingo dá um respiro ao elenco e à dupla Mano-Felipão, que poderão pensar nos próximos adversários com um pouco mais de tranquilidade — a começar pelo desafio da Sul-Americana no meio da semana. Há muito a ser ajustado: o posicionamento dos defensores na marcação por zona, a movimentação e a troca de passes no meio-campo, a chegada mais precisa no ataque.

Mas, só por hoje, vamos comemorar!

Avalanche Tricolor: o desafio de Mano e Felipão

CSA 3×2 Grêmio
Copa do Brasil – Rei Pelé, Maceió (AL)

Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA

Mano Menezes e Luiz Felipe Scolari terão muito trabalho pela frente. A tarefa da dupla de velhos conhecidos do torcedor gremista vai além do posicionamento tático em campo. A impressão é que os jogadores perderam completamente a autoestima — e isso impacta de forma contundente a confiança nas decisões tomadas durante as partidas.

Na noite de hoje, mesmo considerando que jogamos fora de casa e diante de uma torcida ensandecida, é impossível ignorar que enfrentamos um time da Série C. Nas fases anteriores da Copa do Brasil, nossas classificações também foram sofridas contra adversários distantes da elite do futebol brasileiro.

É preciso reconhecer que vivemos um novo momento. Mano chegou há pouco mais de uma semana. Felipão desembarcou de madrugada em Maceió para iniciar seu trabalho na coordenação técnica. O elenco mal teve tempo para treinar e assimilar as ideias do treinador. O ajuste acontece durante os jogos.

Com boa vontade, é possível identificar mudanças de comportamento e posicionamento em campo, em comparação ao que víamos sob o comando de Quinteros. Ainda assim, seguem evidentes — e fatais — as falhas de marcação e a dificuldade de afastar a bola da nossa área. A todo momento, o adversário ameaça nosso gol. E, de tanto insistir, acaba sendo recompensado. Desta vez, nem o empate conseguimos manter, mesmo após termos virado o placar.

Alguns jogadores parecem receosos ao receber a bola. Têm medo de arriscar jogadas mais ousadas e hesitam na escolha dos passes que podem levar ao ataque. Quando pressionados, sofrem para afastar o perigo e cometem faltas desnecessárias, como se esse fosse o único recurso para frear o adversário.

Resgatar a confiança do elenco e dar um mínimo de organização tática ao time são os grandes desafios de Mano e Felipão. Resta-nos, mais uma vez, acreditar que a história e a experiência de ambos sejam suficientes para superar as limitações que o Grêmio tem apresentado nesta temporada.

Avalanche Tricolor: o sabor do empate

Godoy Cruz 2×2 Grêmio
Sul-Americana – Malvinas Argentinas, Mendoza, ARG

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Empate é o tipo de resultado curioso no futebol. Você não ganha, mas também não perde. Costuma-se dizer que, fora de casa, ele tem um valor; dentro, outro. No entanto, o que realmente define seu sabor são as circunstâncias da partida. Quando seu time sai atrás — tomando três gols ainda no primeiro tempo, por exemplo — e consegue se recuperar, sai de campo como se tivesse vencido. Quando está na frente — como fez o Grêmio duas vezes nesta noite — e cede o empate ao adversário, fica sem saber bem o que comemorar.

Pensando no futuro do Grêmio na Copa Sul-Americana, empatar contra o time que briga pela liderança da chave, fora de casa, deveria ser considerado um excelente resultado. O Grêmio segue no topo da tabela, mesmo com desvantagem no saldo de gols, e disputará duas das três partidas restantes diante de sua torcida. Uma delas, provavelmente decisiva pela liderança do grupo, será contra o adversário desta noite.

Por que, então, essa dúvida que paira na cabeça do torcedor neste momento? Pelo menos na cabeça deste torcedor que escreve?

A ideia de começar a nova jornada de Mano Menezes no comando do Grêmio com uma vitória fora de casa era animadora. Renovaria a esperança depois dos tropeços no início da temporada. A vitória nos faria, mais uma vez, acreditar que os astros estariam se alinhando e o universo conspiraria a nosso favor. Tudo dependeria apenas da boa vontade dos deuses do futebol.

Infelizmente, as coisas não funcionam dessa maneira. A crença de que existe uma mística que determina o que vai acontecer nos gramados se encaixa bem no imaginário do torcedor e no romantismo dos cronistas esportivos — especialmente daqueles que sabem tratar o texto com o refinamento de um camisa 10.

O futebol, no entanto, é mais pragmático do que parece. Para vencer, é preciso mais do que vontade, raça e determinação. É necessário treinamento apurado, inteligência tática, refinamento na movimentação e posicionamento, esmero na construção das jogadas e precisão na finalização. Também é indispensável um ajuste fino na marcação para reduzir os riscos que o adversário inevitavelmente vai impor.

Mano Menezes, que reestreou na casamata gremista, não teve tempo para tudo isso. Nos poucos dias de treino, fez os ajustes possíveis. Praticamente repetiu o time do Gre-Nal. Reforçou o espírito de luta que já havia se destacado no fim de semana. E, por pouco, não saiu com êxito. Por duas vezes teve a vitória nas mãos, com os gols de Edenílson, no primeiro tempo, e Aravena, no segundo. Por duas vezes viu seu sistema defensivo falhar e ceder o empate.

A despeito de tudo que aconteceu esta noite, na Argentina, e do que vem se repetindo com o Grêmio nesta temporada, sendo tão pragmático quanto o futebol exige, o empate fora de casa, contra um adversário direto, e que ainda virá à Arena, é para ser comemorado. Mas, confesso: fiquei com um gosto amargo na boca. Porque, por instantes, provei o doce sabor da vitória.

Avalanche Tricolor: Kannemann voltou!

Grêmio 1×1 Inter
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFPBA

Seis meses após ser submetido a uma nova cirurgia no quadril, Kannemann voltou. E voltou em grande estilo: no Gre-Nal deste Sábado de Aleluia, substituiu Wagner Leonardo aos 29 minutos do primeiro tempo. Foi ovacionado pelo torcedor e aplaudido a cada bola interceptada na defesa.

De verdade, Kannemann já estava em campo antes mesmo de ele entrar. O zagueiro, que é símbolo maior de raça e determinação, lembrança dos maiores títulos que conquistamos nos últimos anos, esteve presente no espírito do time que entrou na Arena para o seu quarto clássico regional do ano.

Desde os primeiros minutos, era possível perceber uma postura diferente por parte dos jogadores escalados pelo interino James Freitas. De novidade, apenas Marlon na lateral esquerda e mais duas mudanças na escalação dos últimos jogos: Dodi e Monsalve entraram como  titulares. Todos os demais vinham jogando nas partidas anteriores, mas o comportamento em campo era completamente outro.

Jamais saberei explicar que fenômeno é esse que a demissão de um treinador provoca nos brios dos atletas. O fato é que o time apático das rodadas anteriores se transformou: impôs marcação forte na saída do adversário, soube jogar de maneira mais compacta e ofereceu menos espaço para o toque de bola. Não havia dividida perdida nem jogada desperdiçada. Quando partia para o ataque, colocava a bola no chão e explorava especialmente o talento de Cristian Oliveira. Houve até troca de passes no meio-campo como alternativa aos lançamentos longos.

Era como se o espírito de Kannemann tivesse sido incorporado pelos onze titulares antes mesmo de ele entrar em campo. Por isso, não surpreendeu a ninguém (a não ser alguns repórteres de campo) o fato de, ainda ao lado do gramado, enquanto esperava a autorização para substituição, Villasanti já haver passado a braçadeira de capitão ao nosso maior zagueiro. O time sabe o que ele representa e o poder de sua liderança.

Em campo, Kannemann voltou a brilhar com a nossa camisa e encheu de esperança o torcedor que, justificadamente, estava acabrunhado com o que vinha assistindo nestes primeiros meses da temporada. Infelizmente, o retorno não foi ainda mais marcante porque, mais uma vez, fomos claramente prejudicados pelo árbitro da partida (alguém sabe me dizer se, nas mudanças das regras, existe alguma proibição de marcar pênalti a favor do Grêmio?). Mas até nesse momento, foi Kannemann quem nos representou, reclamando da injustiça cometida.

Sim, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, Kannemann está de volta. Que o Grêmio e a sua história voltem aos gramados também neste ano de 2025.

Avalanche Tricolor: devolvam o meu Grêmio!

Mirassol 4×1 Grêmio
Brasileiro – Campos Maia, Mirassol (SP)

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Uma vergonha! Uma vergonha atrás da outra.

Despindo-me de qualquer romantismo, a campanha do Grêmio na atual temporada é medíocre — a despeito de tudo que, apaixonadamente, já escrevi até aqui.

Fui logrado pela ilusão, levado pela história de superação que sempre foi motivo de orgulho do nosso torcedor. Enxerguei heroísmo e bravura em resultados que deveriam ter sido alcançados com facilidade — como nos dois primeiros jogos da Copa do Brasil, contra equipes sem nenhuma expressão.

No Gaúcho, fechei os olhos para o fato de que nossos melhores desempenhos foram contra times de categorias inferiores. Diante dos dois clubes da Série A, primeiro quase perdemos a classificação à final e, depois, fomos superados com extrema facilidade — especialmente diante da nossa torcida.

Na Sul-Americana, onde sustentamos uma campanha invicta e com duas vitórias, minhas alegrias esconderam a fragilidade dos adversários que enfrentamos. O principal teste ainda está por vir, na próxima semana.

No Brasileiro, após uma vitória improvável na estreia — considerando as falhas cometidas no início da partida — acumulamos uma sequência de derrotas. A mais vexaminosa aconteceu na noite desta quarta-feira, no interior paulista: uma goleada sofrida contra um time estreante na Série A, que ainda não havia vencido nenhum jogo na competição.

Minha paixão cega pelo Grêmio não me permitiu entender o que estava acontecendo na (des)construção do time. Bastavam alguns rompantes individuais de jogadores mais comprometidos com o clube para que eu acreditasse que, a partir dali, viria uma reação. Entusiasmo fugaz!

Hoje, os erros do Grêmio foram escancarados. A marcação é frouxa, feita à distância. O posicionamento defensivo é frágil. Bastam alguns toques de bola para o adversário aparecer na frente do gol. No instante em que recuperamos a bola, a desarticulação se manifesta em passes errados e movimentos sem sintonia. A impressão é de que cada jogador busca uma solução por conta própria. Até nas bolas paradas, como nos escanteios, percebe-se que não há uma ideia a ser executada: cruza-se na área e torce-se para que algo dê certo. Nada dá certo!

O Grêmio que estamos vendo nesta temporada não merece a presença do seu torcedor no estádio — o que explica muito do que falamos na edição dominical desta Avalanche. Parece um time qualquer, irreconhecível, que sequestrou o manto tricolor para entrar em campo. Veste nossa camisa tradicional, mas se despiu da nossa história.

Por favor, devolvam o meu Grêmio!
Antes que a torcida esqueça como é vestir a alma junto com a camisa.
Antes que a paixão silencie.
Antes que a imortalidade vire apenas uma lenda esquecida nos muros da Arena.