Avalanche Tricolor: o campo escurece o que o algoritmo iluminava

Vitória 1×0 Grêmio
Brasileiro — Barradão, Salvador (BA)

Campeonato Brasileiro - Vitória x Grêmio - 07/09/2026
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Durante quatro dias, minhas redes sociais foram inundadas pelas imagens da vitória gremista no clássico pela Copa do Brasil. Eram os gols de Carlos Vinícius, os desarmes de Kannemann e as molecagens de Amuzu, driblando e cruzando de cara virada. Havia torcedores dançando valsa nas arquibancadas e jogadores exibindo alegria no vestiário.

O algoritmo agia a meu favor. Enchia de dopamina a mente do torcedor e me fazia acreditar que a história começava a ser reescrita nesta temporada. Depois da classificação para a semifinal da Copa do Brasil, viria a redenção no Brasileiro. Abrir o celular era motivo de satisfação — e retenção.

Assim foi durante o fim de semana e boa parte deste feriado de 7 de setembro. Ao menos até a bola começar a rolar na penumbra do Barradão, em Salvador.

A luz que atingiu nosso goleiro antes mesmo do apito inicial, derrubando-o no gramado, parecia um prenúncio: o brilho tricolor exibido nas redes sociais estava prestes a dar lugar à escuridão.

No primeiro tempo, mesmo oferecendo espaços para o adversário, o Grêmio se portou bem quando avançava. O meio de campo trocava passes, e as bolas esticadas encontravam seu destino. Faltava transformá-las em chutes a gol — detalhe que, no futebol, costuma separar intenção de perigo, expectativa de realidade.

Ainda havia em campo uma sombra do time que nos havia alegrado na quinta-feira. Era apenas sombra.

No segundo tempo, a realidade ficou escancarada. Mal atacávamos e nos defendíamos como era possível. O futebol mediano praticado pelas duas equipes não fluía. Em uma partida mergulhada na falta de criatividade, foi premiado quem demonstrou algum ímpeto para avançar.

O Grêmio segue sem vencer fora de casa no Brasileiro, uma competição de pontos corridos que já chegou à 25ª partida. A situação só não custa mais caro porque a concorrência também tropeça. Há uma multidão tentando fugir do escuro, e ninguém parece saber exatamente onde fica o interruptor.

A classificação na Copa do Brasil permanece. A vitória no Gre-Nal também. Não foram invenções do algoritmo. O problema é que aquelas imagens mostravam apenas a parte iluminada de um time que ainda convive demais com as próprias sombras.

Agora, por favor, deixem-me voltar à ilusão das redes sociais.

Avalanche na Copa: Sempre acreditei. Como todo torcedor.

Brasil 2×1 Japão
Copa do Mundo – Houston, EUA

Allez Brasil!
Foto: Breno Beck no Flickr

Era cedinho e a turma da padaria já palpitava no microfone da CBN. Na voz do povo, os gols da vitória sairiam dos pés de Vini Jr., Neymar e Endrick. O primeiro é compreensível: virou o craque desta seleção. Já os outros dois dependeriam das substituições de Ancelotti — se é que entrariam em campo. Mas ninguém estava preocupado com esses detalhes. A voz do povo não perde tempo com pormenores. Se o repórter perguntasse por Casemiro, seria vaiado. Se sugerisse Martinelli, ouviria um sonoro: “Quem?”

Torcer é retorcer a lógica do futebol. É acreditar que o salvador da pátria está sempre no banco de reservas. É procurar um culpado antes mesmo do apito final. É ter certeza de que o técnico errou — sobretudo quando ele acerta.

Na arquibancada ou diante da televisão, excomungamos o atacante que perdeu um gol, aposentamos o zagueiro que falhou e condenamos o goleiro que levou um chute indefensável. Ora, se está no gol, que defenda.

Também nos sentimos no direito de julgar todas as decisões do treinador. Se repete a escalação, faltou coragem. Se muda o time, faltou convicção. Se mexe bem durante a partida, a conclusão é inevitável: escalou mal.

O primeiro tempo da seleção parecia confirmar cada uma dessas teorias. O Brasil sofria com a marcação japonesa, circulava pouco a bola e dava espaços na defesa.

Fora Ancelotti! Tira esse Casemiro. O homem se arrasta em campo, erra passes, chega atrasado, leva cartão amarelo e nem faz a falta para impedir o chute que termina em gol. E essa saída de bola do Danilo? Não é ele o homem de confiança do técnico? Vai confiando…

Chega o intervalo e descobrimos que Endrick só entrará porque Paquetá está machucado. Casemiro continuará em campo, mesmo amarelado. E o Neymar? Vai passar a Copa inteira como peça de decoração no banco? Para que levou esse cara?

Eu já começava a aceitar que tinha sido condenado a torcer por times ruins em 2026.

Mentira.

Bastava a bola chegar aos pés de Vinicius Júnior para a esperança reaparecer. Eu voltava a acreditar no futebol arte, no Brasil das grandes Copas, no Hexa. Torcer nos concede esse privilégio: acreditar e desacreditar em questão de segundos; idolatrar e condenar o mesmo jogador no intervalo de uma jogada; cometer injustiças e revogá-las antes mesmo do replay.

Quando muitos de nós já imaginávamos como seria triste assistir ao restante da Copa sem o Brasil — enquanto o sempre simpático Everaldo Marques resgatava estatísticas da última eliminação brasileira antes das oitavas de final — o roteiro resolveu nos desmoralizar.

Gabriel Magalhães levantou a bola na área. Casemiro, justamente Casemiro, apareceu para cabecear e empatar o jogo.

O vilão virou herói.

Calem-se! Deixem o homem trabalhar. Ancelotti sabe exatamente o que faz.

Só havia uma dúvida.

Por que Martinelli? Por que não Neymar? Será que o treinador não ouviu os gritos da torcida? A gente tem de virar esse jogo, mister!

Pois foi Martinelli quem recebeu o passe de Bruno Guimarães dentro da área e marcou o gol da classificação.

Nunca critiquei.

Ou melhor: critiquei, sim. E voltaria a criticar amanhã, se fosse preciso. Porque torcedor não muda de opinião. Apenas troca de certeza.

Hoje, por exemplo, tenho absoluta convicção de que o Brasil vai rumo ao Hexa.

Avalanche Tricolor na Copa: vitória em ritmo de São João foi comandada por Vinícius Jr

Escócia 0x3 Brasil
Copa do Mundo – Miami, EUA

Allez Brasil!
Foto de Breno Peck no Flickr

No Brasil, a disputa pelo título de maior São João do mundo mobiliza duas cidades: Campina Grande, na Paraíba, e Caruaru, em Pernambuco. As duas estendem a festa para além do calendário, multiplicam atrações e competem pelo carinho dos brasileiros. Nesta noite de 24 de junho, porém, imagino que paraibanos e pernambucanos concordariam em pelo menos uma eleição. O melhor jogador do Brasil hoje atende pelo nome de Vinícius Júnior.

Enquanto quadrilhas ocupavam arraiais e fogueiras iluminavam o país, Vinícius iluminava Miami. Desde a estreia, havia sido o principal protagonista da seleção brasileira. Participou das melhores jogadas, marcou um gol em cada uma das duas primerias partidas da fase de grupos e, diante da Escócia, foi além: balançou as redes duas vezes. Só não saiu com um hat-trick porque o árbitro anulou equivocadamente um terceiro gol. Quase todo lance de perigo passou por seus pés.

Era exatamente isso que se esperava do atacante do Real Madrid antes da Copa do Mundo. Assim como Messi liderou a Argentina, Mbappé conduz a França e Cristiano Ronaldo continua sendo a principal referência de Portugal, Vinícius assumiu o papel de protagonista da seleção brasileira. Dos grandes jogadores se espera liderança. E foi isso que ele entregou. Com sua atuação — e não apenas por causa dela — o Brasil encerra a fase de grupos na primeira colocação e transmite ao torcedor uma confiança que ainda parecia distante há poucas semanas.

Matheus Cunha também deixou sua marca. Fez o terceiro gol brasileiro e chegou ao terceiro na competição. Depois de começar a Copa fora da equipe titular, conquistou espaço e se firmou como centroavante em um setor onde a concorrência é intensa.

A vantagem construída com relativa tranquilidade permitiu que Carlo Ancelotti promovesse mudanças no segundo tempo e atendesse a dois desejos da torcida: rever Neymar em campo e acompanhar mais alguns minutos de Endrick.

O camisa 10 do Santos, recuperado de mais um período afastado por lesão, atuou cerca de quinze minutos. Movimentou-se bem, distribuiu passes, cobrou escanteios e finalizou uma vez. Para quem até poucos dias era dúvida para a Copa, sua participação oferece mais uma alternativa ao treinador. Resta saber se Ancelotti pretende utilizá-lo por períodos maiores quando os desafios forem mais exigentes.

Antes mesmo de conhecer o adversário da próxima fase, o técnico italiano terá trabalho. A defesa brasileira voltou a apresentar momentos de desorganização que passaram sem maiores consequências diante da Escócia. Em confrontos eliminatórios, erros desse tipo costumam cobrar um preço mais alto.

Daqui para frente, a Copa não admite tropeços. Cada partida será definitiva. Ainda assim, o torcedor brasileiro tem motivos para aproveitar o São João com mais tranquilidade. Seja em Campina Grande, em Caruaru ou na quermesse da escola do bairro, a fogueira pode continuar acesa. Pelo menos por enquanto, o futebol da seleção também.

Avalanche Tricolor na Copa: o gol que faltou

Brasil 3×0 Haiti
Copa do Mundo – Filadélfia, EUA

Allez Brasil!
Foto de Breno Peck no Flickr

Faltou um gol.

Não para o Brasil vencer. Não para o Brasil se classificar. Faltou um gol para melhorar meu desempenho no bolão da firma.

Apostei em quatro a zero sobre o Haiti. Parecia um palpite razoável diante da fragilidade do adversário. A Seleção fez quase tudo o que eu esperava. Ficou devendo apenas o quarto gol.

Alguns manuais de jornalismo consideram goleada qualquer vitória por três gols de diferença. No meu manual privado de torcedor, goleada começa no quarto gol. Por isso, assisti aos minutos finais da partida com uma esperança diferente da maioria dos brasileiros. Não buscava a confirmação da vitória. Procurava aquele golzinho extra que me renderia pontos preciosos na classificação do bolão.

O curioso é que o gol que me faltou pode acabar fazendo falta também ao Brasil.

A disputa pela liderança do grupo deverá ser travada com Marrocos na última rodada. Enquanto enfrentaremos a Escócia, os marroquinos terão pela frente justamente o Haiti. Dadas as circunstâncias, os africanos parecem ter uma oportunidade mais favorável para ampliar o saldo de gols e garantir a primeira colocação da chave.

Mesmo sem o quarto gol, a vitória merece ser celebrada.

O Brasil apresentou um primeiro tempo de boa qualidade e confirmou uma impressão deixada na estreia: Vinicius Junior é, até aqui, o principal jogador da equipe. Marcou seu segundo gol na competição, participou diretamente dos outros dois e mostrou ser o atleta mais capaz de mudar o rumo de uma partida por iniciativa própria. Em uma Copa do Mundo, isso costuma fazer diferença.

Matheus Cunha também cumpriu o que se espera de um centroavante. Fez dois gols. No primeiro, aproveitou o rebote diante do goleiro. No segundo, movimentou-se bem para receber o passe e concluir com precisão. Nada de extraordinário. Apenas aquilo que todo torcedor deseja de quem veste a camisa 9.

A equipe de Carlo Ancelotti mostrou mais mobilidade do meio para a frente e pareceu mais leve do que na estreia. Houve ainda espaço para atender a um desejo da torcida. Endrick entrou no segundo tempo e chegou a balançar as redes. O impedimento impediu que o lance entrasse para a estatística, mas não diminuiu a expectativa em torno do jovem atacante.

Na verdade, não foi apenas o Brasil que me deixou esperando um gol a mais. Marrocos venceu a Escócia por apenas um a zero. Paraguai e Estados Unidos também triunfaram sem colaborar com meus prognósticos. Bastava um golzinho adicional aqui, outro ali, e eu teria gabaritado a rodada.

Apesar disso, não tenho do que reclamar. Pela primeira vez acertei todos os vencedores. Não é exatamente um feito destinado aos livros de história dos bolões, mas já representa algum avanço para quem começou a Copa colecionando tropeços.

Assim como a Seleção Brasileira.

E, quem sabe, tanto eu quanto o Brasil estejamos guardando nossos melhores resultados para os jogos decisivos.

Avalanche na Copa: nem o Brasil salvou meu bolão

Brasil 1 x 1 Marrocos
Copa do Mundo — New Jersey/New York, EUA

Allez Brasil!
Foto: Breno Peck/Flickr

A parada da Copa me deixou com saudades desta Avalanche, espaço em que divido com o caro — e cada vez mais raro — leitor alegrias e angústias provocadas pelo meu time. Sem o Grêmio em campo desde o fim de maio, não via a hora de o Mundial de Seleções começar. Copa do Mundo é sempre um grande evento. Até mesmo esta, em que a FIFA ampliou o número de participantes, prejudicando a competitividade, e Donald Trump se esforça para estragar a festa.

Confesso que comecei mal nos palpites. Minha participação no bolão que criamos lá na rádio é pífia — consegue ser mais sofrível do que o desempenho do Grêmio na primeira parte da temporada. Próximo do encerramento do terceiro dia de jogos, alcancei míseros 20 pontos de 150 possíveis.

Antes de me zoar pelo aproveitamento irrisório, saiba que a culpa não é minha. Minhas apostas eram muito boas, calçadas na lógica e sustentadas pelo histórico de cada seleção. Que responsabilidade tenho eu se os protagonistas não entregam o que deles se espera?

Veja o caso do Catar. Chegou à Copa predestinado a ser goleado no Grupo B. Não apenas resistiu à pressão da Suíça, que chutou 27 vezes, dez delas no gol, como ainda surpreendeu os astros europeus ao empatar a partida nos minutos finais. E a Coreia? Em vez de se contentar com uma derrota simples — que me garantiria 25 pontos —, virou o jogo sobre a Tchéquia. Sem contar o Paraguai, seleção que sempre foi aguerrida, vendia caro suas derrotas, tinha uma defesa firme e uma marcação no limite da violência permitida. Levou quatro gols dos Estados Unidos.

Eu havia apostado em uma vitória brasileira. Palpite enviesado, é lógico. É difícil registrar um placar desfavorável para o Brasil. O coração fala mais alto. Fui de 2 a 1, considerando que Marrocos era o adversário mais forte da chave e vinha se destacando positivamente — atual campeão mundial sub-20 e quarto colocado na Copa de 2022.

Levar um gol de contra-ataque, com os dois zagueiros sendo surpreendidos pela velocidade do atacante adversário aos 21 minutos do primeiro tempo, não me espantou. Estava na conta. E, convenhamos, os marroquinos dominavam a partida até aquele momento. Mal conseguíamos organizar um ataque, errávamos passes na saída de bola e o risco era iminente. Apesar disso, bastaria uma virada, como a Coreia havia conseguido diante da Tchéquia. Por que o Brasil não seria capaz?

O empate não demorou a chegar, especialmente pelo talento de Vini Jr., que desde o início era o principal jogador brasileiro. Era Vini e mais dez. Ou seria Vini e menos dez? Aos 32 minutos, em um dos raros momentos em que a seleção conseguiu trocar passes com qualidade, ele recebeu a bola, driblou um marcador, deixou outro para trás e estufou a rede. Era o empate abrindo caminho para a virada e para a confirmação do meu bolão.

Ledo engano. Mesmo com Marrocos reduzindo o ritmo, seguia sendo a seleção mais organizada em campo. O Brasil até aumentou a intensidade, mas a dificuldade para articular jogadas, trocar passes com precisão e demonstrar força ofensiva impediu a virada.

Para piorar, à medida que assistia ao Brasil de Ancelotti e àquele latifúndio sem dono no meio de campo, relâmpagos iluminavam minha mente e me faziam imaginar a utilidade que teria um jogador com a qualidade de Arthur, do Grêmio. Como pode o Brasil, essa máquina de exportar jogadores, não ter alguém capaz de segurar a bola, cadenciar o ritmo conforme a partida exige e distribuir o jogo de maneira organizada e produtiva?

Cheguei a delirar em alguns momentos. Imaginei Pavón ocupando a ala direita, diante da ineficiência dos laterais utilizados por Ancelotti. E até Carlos Vinícius dentro da área para aproveitar alguma bola alçada sobre os zagueiros adversários.

Sim, eu sei. Essas alucinações talvez expliquem por que meus palpites no bolão têm sido um desastre. Mas, se a seleção tivesse jogado um pouquinho melhor, provavelmente essas ideias malucas nem teriam passado pela minha cabeça.

Que Ancelotti tenha mais sorte do que eu — ou mais critério — nas próximas escalações.

Avalanche Tricolor: Pavón é um exemplo a ser seguido

Grêmio 2×0 Palestino
Sul-Americana — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Conmebol Sul-Americana - Grêmio x Palestino-CHI - 20/05/2026
Pavón foi o destaque do jogo. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Até a Copa, havia quatro jogos a vencer. O primeiro foi superado nesta noite. Com os três pontos conquistados, decidiremos em casa, na semana que vem, o primeiro lugar do Grupo F da Sul-Americana. Se persistirem os sintomas, o Grêmio está prestes a cumprir mais uma meta da temporada. A primeira, vale lembrar, foi a reconquista do Campeonato Gaúcho.

Para um time ainda em construção, apesar das dificuldades enfrentadas e das fragilidades já expostas, alcançar objetivos iniciais traz algum respiro ao treinador e à comissão técnica. E o que Luis Castro mais precisa neste momento é tranquilidade para ajustar a equipe. A parada para a Copa será ideal para esse trabalho.

O Grêmio desta noite mostrou alguns dos méritos que podem levá-lo a uma performance melhor no pós-Copa. Jogadores jovens, como Viery, Luis Eduardo e Pedro Gabriel; talentos como Gabriel Mec e Amuzu; atacantes com fome de gol, como Braithwaite e Carlos Vinícius; além de um goleiro gigante: Weverton.

Nada, porém, foi mais importante nesta partida do que a atuação de Pavón. Com todas as restrições que o torcedor já teve em relação a ele, jamais se poderia criticá-lo por falta de entrega. Poucos jogadores se dedicam tanto quanto o argentino. Aceitou recuar para a lateral e, diante da falta de alternativas, acabou se firmando na posição. As dificuldades técnicas de posicionamento foram compensadas pela disposição na marcação.

Hoje, Pavón foi decisivo na vitória. No primeiro tempo, partiu dele o chute que provocou o rebote do goleiro e permitiu a conclusão de Braithwaite para as redes. O segundo gol foi praticamente todo obra do argentino. Um chutaço de fora da área, com uma precisão que há muito tempo ele não alcançava. Foi seu primeiro gol desde 11 de fevereiro de 2025 — comemorado com todo merecimento.

Ver jogadores como Pavón terem o esforço recompensado sempre me provoca uma alegria particular. Serve também como exemplo aos colegas. Mostra que o torcedor sabe respeitar quem demonstra vontade de melhorar, mesmo quando o melhor ainda não aparece por completo.

Para nos deixar ainda mais satisfeitos, tivemos o privilégio de assistir a um lance que relembrou os velhos e inesquecíveis tempos de Kannemann. Nosso zagueiro, já em fase de despedida, salvou um gol em cima da linha e repetiu uma cena que o consagrou ao lado de Geromel — resultado do esforço típico de quem jamais desiste.

E, no fim das contas, é isso que o torcedor quer enxergar no seu time. Ver, em cada jogada, nas bolas divididas, na marcação, na arrancada para o ataque, na tentativa de drible ou no chute a gol, jogadores comprometidos em fazer o melhor possível com as condições que têm — enquanto trabalham para alcançar condições ainda melhores.

Avalanche Tricolor: um tropeço que revela um caminho

Palmeiras 2×1 Grêmio
Brasileiro – Arena Barueri, São Paulo

Gremio x Palmeiras
Pedro Gabriel desarma o adversário. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio teve chances de sair com ao menos um ponto, apesar de jogar fora de casa e diante do líder do campeonato. Infelizmente, a desatenção em uma cobrança de lateral e a guarda baixa da defesa no momento de afastar a bola permitiram a vitória do adversário.

O jogo, porém, não foi perdido por completo. O Grêmio tem lições a tirar e aspectos positivos a ressaltar. Referir-se a Carlos Vinicius é chover no molhado. Nosso atacante não precisa de mais de três bolas no pé para marcar. Hoje, foi efetivo novamente. Na mínima chance que teve, e no espaço quase inexistente entre os zagueiros, livrou-se da marcação e bateu de fora da área para as redes.

O que mais gostei de ver nesta noite foi a aposta de Luis Castro na juventude gremista. O treinador levou a campo ao menos oito jogadores com, no máximo, 24 anos. Cinco vieram da base, e três foram contratados nos últimos tempos.

Na zaga, Viery, com 21 anos, e Gustavo Martins, com 23, têm se consagrado como titulares. A lateral esquerda foi ocupada por Pedro Gabriel, que, aos 18 anos, fazia apenas sua segunda partida entre os profissionais. No meio de campo, Noriega (24), Nardoni (23), Monsalve (22), Zortéa (19) e Gabriel Mec (17) completaram a legião de jovens que esteve em campo. No banco, ainda havia Roger (17), Tiago (18) e Riquelme (19).

Se o Grêmio e sua torcida tiverem paciência, podemos estar assistindo ao nascimento de uma geração de talentos capaz de nos trazer muitas alegrias. São jogadores que ainda precisarão passar por ajustes de posicionamento, desenvolvimento físico e maior entendimento tático para atender às estratégias pensadas pelo treinador. Por isso, ter colegas experientes ao lado e um técnico com visão de futuro será importante.

Com os valores das contratações cada vez mais altos, os times que melhor souberem aproveitar a base tendem a colher resultados significativos. É preciso dar condições para que esses jogadores cresçam e para que os erros e tropeços, inevitáveis nesse processo, sejam vistos como lições próprias do amadurecimento.

Quando o céu ameaça, o jogo muda: o alerta que falta no futebol brasileiro

O jogo entre Palmeiras e Al Ahly, pela Copa do Mundo de Clubes, foi interrompido no MetLife Stadium, em Nova Jersey, não por uma falta dura nem por um apagão no VAR. A partida parou por causa de um alerta meteorológico — que contrastava com o céu azul e o sol que causava um calor absurdo. O aviso chegou pelos celulares dos torcedores, foi exibido no telão e, quase sem discussão, jogadores e público se afastaram do campo: “Para a sua segurança, por favor, deixe o assento externo e a área do campo…”. A orientação era clara, objetiva e respeitada. Era uma questão de segurança, de cuidado com a vida.

A cena, que se repetiu três vezes em três dias durante o torneio, contrasta com o que estamos acostumados a ver no Brasil, onde jogos seguem mesmo com o gramado alagado, raios cortando o céu e torcedores encharcados nas arquibancadas. A bola rola, ainda que boie.

Por aqui, o futebol resiste ao temporal como se fosse uma prova de virilidade nacional. Jogadores deslizando na lama são lidos como heróis épicos e o torcedor que não abandona o estádio, mesmo sob chuva torrencial, vira exemplo de paixão. Poucos se perguntam: e a segurança? E os protocolos? E o direito à proteção?

Aqui, faço uma confissão. Sou apaixonado por jogadores bravos e corajosos, como Kannemann, meu eterno zagueiro do Grêmio, que, numa partida contra o Huachipato, do Chile, pela Libertadores da América, no ano passado, protagonizou uma imagem que me marcou profundamente. Ele aparece com o uniforme branco tomado pela lama — símbolo da entrega total, da luta até o fim, do espírito de um guerreiro. A fotografia é espetacular (lamento não ter descoberto o nome do fotógrafo que fez o registro). Mas ela só é possível, e talvez por isso mesmo tão incômoda, porque há uma estrutura que impõe aos jogadores essa condição extrema. O que leio como bravura também é, em certa medida, um retrato da imprudência.

A diferença de postura entre os dois países não se resume à organização de um evento. Ela revela o quanto o alerta, como política pública, é uma ferramenta poderosa de cultura preventiva. Nos Estados Unidos, sistemas de monitoramento climático estão integrados a eventos esportivos, e a decisão de interromper uma partida é técnica, não emocional. Parte-se do princípio de que nenhuma paixão justifica o risco à integridade física.

No Brasil, os alertas existem — o sistema da Defesa Civil funciona e pode ser acionado por SMS, por exemplo — mas sua articulação com o cotidiano das grandes aglomerações ainda é frágil. O futebol, que movimenta milhões e mobiliza multidões, não tem como rotina a checagem climática como critério para iniciar ou suspender uma partida. Espera-se que o céu caia — literalmente — para tomar alguma decisão.

Esse episódio na Copa do Mundo de Clubes serve como um lembrete: é possível agir antes do pior acontecer. É possível levar o torcedor a sério. É possível interromper um espetáculo esportivo em nome do bem-estar coletivo, sem que isso seja visto como fraqueza ou desrespeito ao jogo.

Quem dera os estádios brasileiros se preparassem para o tempo ruim não apenas com drenagem no gramado, mas com cultura de prevenção. Porque quando a sirene toca e a chuva cai, o que está em jogo é muito mais do que os três pontos. É a capacidade de um país proteger seus cidadãos — dentro ou fora de campo.

Avalanche Tricolor: Grêmio joga leve, vence bem e até o cusco dá show

Grêmio 3×0 Monsoon
Gaúcho – Estádio do Vale, Novo Hamburgo (RS)

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Antes de mais nada, meu protesto: jogo do Campeonato Gaúcho às dez da noite de uma quarta-feira deveria ser proibido — especialmente se esse jogo é sempre do seu time.

Ainda bem que o Grêmio tornou menos árdua a tarefa de assistir à partida até depois da meia-noite. E o fez jogando um futebol leve, com boa movimentação no ataque, troca de passes eficiente e uma defesa segura. Até chegou a assustar o torcedor nos primeiros segundos, com a falha de marcação do estreante Cuéllar, mas o gol não saiu porque o atacante adversário estava impedido.

A partir daquele instante, o Grêmio colocou a bola no chão e, mesmo com um time bastante modificado em relação à partida anterior, esboçou o estilo de jogo que Gustavo Quinteros busca nesse começo de trabalho. Sem cair na ilusão típica de início de temporada, arrisco dizer que nosso técnico está moldando um time mais bonito e produtivo do que no ano passado, mesmo com um elenco aparentemente mais enxuto.

É cedo para uma análise definitiva — especialmente vinda de mim, mais torcedor do que entendedor. Sabemos que o time precisa de reforços, principalmente na defesa. Também falta enfrentar adversários mais qualificados para um teste real. Mas o fato é que, até aqui, o Grêmio tem entregado bons resultados com bom futebol.

Arezo marcou seus dois primeiros gols com a camisa tricolor; Monsalve mostrou qualidade no toque de bola no meio de campo; Edmilson jogou intensamente; Aravena se movimentou bem, apesar de desperdiçar algumas chances; André Henrique deu sinais de que pode ser um jogador importante para o grupo e ainda deixou o dele. E teve também Gabriel Mec, estreando no time principal aos 16 anos.

Tudo isso faz valer a pena dormir apenas quatro horas antes de encarar a quinta-feira de trabalho.

Ah, e não podemos esquecer: três jogos sem sofrer gols e, de quebra, a diversão de ver um cusco driblando jogadores e gandulas ao invadir o campo no primeiro tempo.

Rádio, João Fonseca e um capítulo para guardar

O rádio ao vivo é uma paixão antiga, dessas que o tempo só faz crescer. Em quase 40 anos de jornalismo, já vivi de tudo: tensão, tragédia e êxtase. Cada transmissão é como uma corda bamba, e o equilíbrio depende do improviso, da escuta e da alma. Planejar? Quase sempre é apenas um desejo.

Foi assim na manhã desta terça-feira, 14 de janeiro de 2025 — guarde essa data. Enquanto apresentava o Jornal da CBN, algo especial aconteceu. Eu compartilhava com os ouvintes os momentos decisivos de uma partida de tênis. Mas não era uma partida qualquer. Era a estreia de João Fonseca, uma promessa de 18 anos, no Aberto da Austrália, um dos torneios mais importantes do circuito internacional.

João enfrentava Andrey Rublev, o número 9 do mundo. E, no instante do match point, bem no momento em que falávamos sobre economia e a fake news da taxação do PIX (não haverá taxação, que fique claro), pedi licença à Cássia Godoy e à Marcella Lourenzetto. Não dava para deixar aquele momento escapar.

Ali, com o microfone em mãos, vivi algo que só o rádio pode proporcionar. Era como se estivéssemos todos na beira da quadra, testemunhando um jovem brasileiro escrevendo sua primeira página em um Grand Slam. A vitória veio: 3 sets a 0. João Fonseca, que muitos já apontam como a grande revelação do tênis internacional, deu um passo gigante para cravar seu nome na história.

Em meio a tudo isso, chegou uma mensagem de Ribeirão Preto. Um ouvinte dizia que, ao ouvir sobre João, sentiu-se transportado para os tempos de Gustavo Kuerten, quando o Guga surgia como um furacão no tênis mundial. “Revivi a emoção de acompanhar a CBN nos anos 90”, escreveu ele.

Por sugestão do Paschoal Junior, nosso mestre das operações de áudio, decidi guardar no meu arquivo pessoal o anúncio dessa vitória. Não é sempre que temos o privilégio de contar, ao vivo, o começo de algo que pode se tornar histórico.

E, como bem sabe quem ama o rádio, o histórico começa sempre com uma voz.