Avalanche Tricolor: Pepê é mais um talento com direito a nome próprio

 

Grêmio 2×1 Vasco
Brasileiro — Arena Grêmio

Atacantes

 

Faz pouco tempo que assistimos à ascensão de Everton. Lembrei parte dessa história na Avalanche anterior, ao escrever sobre nosso empate na Copa do Brasil. O atacante, hoje cobiçado por alguns dos mais importantes clubes da Europa, até se firmar entre os titulares, tinha de esperar as substituições que Renato fazia no segundo tempo, geralmente em lugar de Pedro Rocha. No Mundial de Clubes, Rocha assistiu àquele jogo quase ao meu lado na arquibancada — ele já havia sido vendido ao exterior, onde ficou pouco tempo para retornar ao Cruzeiro. Mesmo assim, Everton ainda era um reserva de luxo. Fernandinho era o preferido do treinador.

 

Na época do entra e sai no time, Everton oscilava em suas apresentações. Quando encarava os marcadores já cansados no segundo tempo, levava vantagem com sua velocidade e habilidade com a bola. Fez gols importantes na campanha vitoriosa da Copa do Brasil, em 2016. Porém, sempre que saía jogando, seu futebol era colocado em dúvida, pois a excelência que se esperava dele não costumava aparecer da mesma maneira. Repetia assim o mesmo que já havia ocorrido com Pedro Rocha —— inclusive nas críticas, injustas, a imprecisão nas finalizações a gol. 

 

Rocha também demorou para se firmar entre os titulares. Havia torcedores que arrancavam os cabelos todas às vezes que assistiam ao nosso atacante disparar em direção ao gol e desperdiçar suas oportunidades com chutes sem precisão. Até que, com a confiança demonstrada pelo técnico, seu futebol amadureceu, ganhou personalidade, transformou-se em titular reverenciado por todos os torcedores e valorizado a ponto de ser a maior transação gremista de todos os tempos: foi negociado por 12 milhões de euros —- 45,2 milhões de reais —- para o Spartak Moscou, da Rússia.

 

Mesmo depois do gol que nos levou à final do Mundial, em 2017, Everton voltou a ocupar o banco de reservas, ao menos mais uma vez. Na partida decisiva, em Abu Dhabi, só entrou no segundo tempo. Com apenas 21 anos, trilhava o mesmo caminho de seu antecessor e sabia que sua hora estava para chegar.

 

Foi no ano seguinte, 2018, que Everton se notabilizou, tornou-se titular absoluto e um dos maiores goleadores da Arena Grêmio, tendo seu nome cogitado para a seleção brasileira. Neste 2019, após a consagração na seleção campeão da Copa América, mantê-lo no elenco virou missão impossível e estamos aqui apenas contando os dias que faltam para o jogador anunciar sua despedida do clube.

 

Nós torcedores já estamos resignados com essa situação: todo ano, dar adeus ao menos a um dos nossos jovens craques. Já não nos indignamos mais com a saída precoce deles e nos consolamos com as cifras absurdas que os estrangeiros pagam para contratá-los, nos contentando com uma espécie de competição paralela com os nossos rivais na qual quem consegue vender seu talento por uma preço maior é o vencedor.

 

Aos gremistas nos resta a satisfação de saber que a fábrica que produz jogadores com a qualidade e velocidade de Pedro Rocha e Everton dá sinas de estar em plena atividade. Haja vista, o crescimento de Pepê a cada partida que disputa. Ele jogou na base do Athletico Paranaense, foi para o Foz do Iguaçu —- na cidade natal —, passou rapidamente pelo Coritiba e chegou nas nossas bandas em 2016, após uma operação sigilosa da diretoria gremista que temia perder o jogador para os concorrentes mais próximos.

 

Fez sua estreia no time profissional em 2017 e, veja como a história é cíclica, substituindo Everton. Fez seu primeiro gol já na terceira partida que disputou e sempre que chamado por Renato apresenta-se com uma vitalidade incrível que lembra …. bem, lembra Everton.

 

Foi assim, nesse sábado quando o Grêmio venceu de virada com dois gols do nosso jovem atacante. O primeiro entrando em velocidade pelo lado direito da área e aproveitando passe preciso de Luan; e o segundo, pasmem, de cabeça após um cruzamento-passe de Leo Moura — sim, ele tem no máximo 1,75 de altura, mas estava dentro da área e muito bem colocado. Pepê cabeceou de olhos abertos e com o movimento clássico que esperamos dos atacantes sempre que a bola é alçada para a área. Já é um dos nossos goleadores do Campeonato Brasileiro. Sim …. ao lado de Everton.

 

Ontem mesmo já havia quem estivesse chamando-o de Novo Everton.

 

Vamos combinar o seguinte, assim como aprendemos a respeitar o futebol de Everton com a saída de Pedro Rocha, vamos aprender a admirar o futebol de Pepê com a saída de Everton. E dar a ele direito a nome próprio: Pepê, o novo craque!

Avalanche Tricolor: a primeira das últimas noites de Everton

 

Grêmio 1×1 Bahia
Copa do Brasil — Arena Grêmio

 

Gremio x Bahia

Everton comemora mais um gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Empatar em casa e ter de decidir vaga à próxima fase da Copa do Brasil no campo do adversário pouco me importa nesta noite em que o Grêmio voltou a jogar, após a parada para a Copa América. Time acostumado a essas situações e maduro o suficiente para encarar a pressão de um estádio lotado, como deve encontrar na próxima quarta-feira, tem capacidade para vencer, seja no tempo normal seja na cobrança de penaltis —- especialmente porque a atual edição da Copa não tem o tal gol qualificado fora de casa. E digo isso com todo o respeito ao time montado por Roger que, sabemos muito bem, é craque em organizar equipes.

 

Esta noite tinha algo muito mais especial a fazermos na Arena ou diante da televisão —- como foi o meu caso, exilado aqui em São Paulo e distante do meu time há muitos anos. Tínhamos Everton a assistir em campo. Jogador que o Brasil pediu em sua seleção, consagrou-se como goleador e o melhor da final da Copa América. Um cara que nos fez acreditar que futebol-arte não é coisa de nostálgicos. Joga a moda antiga. Encara o marcador — aliás, os marcadores, pois ninguém mais se atreve a deixá-lo no mano a mano. Tem sempre um ou dois na sobra com o olhar de quem está prestes a tomar um drible.

 

Everton tem um elenco de dribles à disposição. Na velocidade ou no gingado do corpo, deixa a turma para trás. Se encostam demais, ele trança as pernas e faz a bola se esgueirar no pouco espaço que sobra. Se recuam para não sofrer o drible, bate de fora na busca do gol. É um raro jogador que não tem medo de arriscar e quanto mais arrisca mais ganha a admiração do torcedor.

 

Aqui em casa, nos apaixonamos por ele naquela noite em que disputávamos vaga à final do Mundial, contra o Pachuca do México, no estádio de Al Ain, em dezembro de 2017. Sim, naquela vez eu estava no estádio. Eu e meus meninos estávamos na arquibancada, próximos do gramado, ao lado da área em que o Grêmio atacava. Área que Everton invadiu, desvencilhou-se dos marcadores e com um chute de curva colocou seu nome na história do tricolor.

 

Se para Everton aquele chute foi o pontapé inicial para uma fase incrível que vivencia até hoje com a camisa gremista, para mim foi um momento inesquecível em que comemorei um gol abraçado com meus dois filhos em uma arquibancada de futebol —- como fazia antigamente ao lado de meu pai. Pulamos como crianças, nos abraçamos, choramos —- sim, eu juro que vi os olhos deles cheio de lágrimas, repetindo o que fiz muitas vezes quando guri e assistia aos jogos no estádio Olímpico.

 

É essa alegria marcante que Everton me faz relembrar todas as vezes que entra em campo e parte em disparada na direção do gol. Fez isso quando estava na seleção —- e vibrei cada um dos seus gols na Copa América como se fosse do Grêmio. Fez isso na noite de hoje, em Porto Alegre. E o fará não sei mais por quanto tempo.

 

Tudo leva a crer que esses momentos estão chegando ao fim. Everton é objeto de desejo da maioria dos grandes clubes no exterior, contra os quais o futebol brasileiro não consegue mais competir. Assim como nesta noite, todas as demais se encerrarão com a mesma pergunta: quando Everton vai embora? E o fim desse roteiro conhecemos muito bem. Por isso, como disse no início desta Avalanche, pouco me importa se empatamos em casa. Tudo o que eu quero aproveitar, até o minuto final, até o instante do adeus, é Everton correndo, driblando e beijando a camisa do Grêmio a cada gol marcado.

 

Hoje, vivenciei a primeira das últimas noites de Everton no Grêmio.

Avalanche Tricolor: nem sempre ganhando

 

 

 Grêmio 1×2 Santos
Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

 

Gremio x Santos

Everton faz o gol do Grêmio em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

Vivendo e aprendendo a jogar
Vivendo e aprendendo a jogar
Nem sempre ganhando
Nem sempre perdendo
Mas, aprendendo a jogar

A música de Elis Regina me acompanhou ao longo de todo esse domingo que se iniciou cedo no futebol. A voz dessa artista genial —- e gremista —- balbuciou a letra de “Aprendendo a jogar” em meus ouvidos até que eu sentasse para escrever esta Avalanche que você, caro e raro leitor, lê a partir de agora.

 

O Grêmio entrou em campo quando muita gente ainda curava a ressaca do sábado à noite. E se não conseguiu acordar em tempo, desperdiçou um belíssimo jogo — ainda que o resultado final não tenha sido positivo para nós.

 

Duas equipes que sabem tratar a bola deram espetáculo de variação de jogadas, movimentação intensa, marcação efetiva e talento individual. O Grêmio demorou um pouco para entender o tamanho do futebol do adversário e pagou caro demais para quem tem o time que tem e fez o segundo tempo que fez.

 

O gol que marcamos já ao fim do jogo, foi um gol com a nossa cara. Tabela pela direita e troca de passes precisos entre Diego Tardelli e Maicon, e a agilidade no drible e a velocidade no chute de Everton. Mas quando marcamos, já era tarde para uma reação.

 

Aliás, foi o próprio Everton quem lembrou ao fim da partida e ainda ao lado do gramado que a impressão que tinha é que o Grêmio jogaria mais 90 minutos e a bola não entraria —— estava certamente impactado pela quantidade de vezes que viu a bola rondar o gol adversário, bater no travessão depois de uma bicicleta, escorregar para fora após um chute esperto, esbarrar no goleiro e se desviar de seu destino.

 

Por mais curioso que fosse —- mas não injustificável —- mesmo com a diferença que se manteve no placar a maior parte do tempo em favor do adversário, não conseguia me irritar com o Grêmio. E se esse sentimento não se fazia em mim é porque soube reconhecer tanto o talento de quem nos enfrentava quanto o esforço gremista em reproduzir o futebol aprendido nestes tempos de Renato.

 

O campeonato está apenas se iniciando e o Grêmio já declarou que conquistá-lo faz parte do cardápio que pretendemos oferecer nesta temporada de 2019. Portanto, claro que se lamenta a perda de três pontos logo no seu começo, em casa. Mas é injusto imaginar que esses serão determinantes na competição.

 

O mais importante neste momento é perceber que nem sempre venceremos mas não podemos jamais abrir mão de jogar o futebol que aprendemos a jogar — e jogar muito bem.

 

Sobe o som porque quero ouvir um pouco mais de Elis Regina:

Vivendo e aprendendo a jogar
Vivendo e aprendendo a jogar
Nem sempre ganhando
Nem sempre perdendo
Mas, aprendendo a jogar

Avalanche Tricolor: salve, salve gurizada!

 

Grêmio 2×1 São Paulo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Ser torcedor gremista como sou e estar radicado em São Paulo como estou —- já falei sobre isso com você caro e raro leitor deste blog — me remete a situações estranhas. Quando você mora na terra do seu time do coração, a maior preocupação é com o clássico regional. Não dá pra perder de jeito nenhum. Quando mora fora, aumentam as chances de encontrar corneteiros no caminho.

 

Aqui na capital paulista, para ter ideia, tenho torcedores de ao menos quatro grandes querendo tirar uma da minha cara na primeira tropeçada do Grêmio contra o time deles. Por isso, a cada rodada contra um representante paulista, sofro uma espécie de Gre-Nal fora de época.

 

Desde o início da semana já era fácil de perceber o sorriso maroto de alguns amigos tricolores —- tricolores paulistas, é lógico. Esfregavam as mãos, analisavam estratégias e faziam contas: uma vitória e estaremos na liderança do Campeonato. Tinham razão para o otimismo, afinal a equipe está embalada e tem muitos méritos.

 

Dentre eles, com as cautelas de ocasião, estava o meu companheiro de todas as manhãs no Jornal da CBN, Teco Medina, que, no ar, chegou a dizer que ficaria satisfeito com o empate na Arena —- quem o conhece sabe que o gosto da vitória era o seu preferido. Foi mais sincero no Instagram, quando pediu para seu guri mandar um recado a este escriba: “Salve, salve, Miltinho, o São Paulo vai vencer, por 1 a 0, e com gol de Diego Souza.

 

Mal começada a partida deste início de noite, em Porto Alegre, em uma rara falha de Geromel, a visão do pequeno são-paulino se realizava, com o ex-atacante gremista marcando 1 a 0 e assustando a torcida do lado de cá. Deve ter sido bonita a comemoração do meu amigo Teco e seu pimpolho. Eu e ele sabemos como é legal comemorar um gol abraçado no filho. O que eles não contavam, porém, é que o Grêmio também tinha suas armas.

 

O Grêmio tem Everton. Tem Everton enlouquecido com a bola no pé, capaz de encontrar espaço onde este não existe. Que passa correndo por um lado enquanto a bola vem pelo outro. E o pobre coitado do seu marcador não sabe para que lado vai. Pede ajuda para um companheiro, olha desesperado para o técnico, reclama qualquer coisa do árbitro — nada mais do que manobras para ver se ninguém percebe que ele está mesmo é perdido, sem saber o que fazer diante daquele guri endiabrado.

 

Everton resolveu uma vez, nos acréscimos do primeiro tempo, colocando justiça no placar, afinal o Grêmio — exceção ao gol logo no início e um contra-ataque abortado pelo incrível Kanennman quase no fim — controlou o jogo. Chegou a ter 79% de posse de bola.

 

Na volta do segundo tempo, Everton resolveu outra vez, aos 15 minutos, em lance com as mesmas características do gol anterior. Balança para cá, balança para lá e quando parece que não há mais o que fazer, ele chuta no canto mais improvável e marca.

 

Verdade seja dita: Everton só consegue resolver dessa maneira porque, além de jogar muita bola, tem ao seu lado um time talentoso, inteligente e paciente. Capaz de trocar um número incrível de passes antes de decidir a jogada. Um tipo de jogo que irrita o adversário e o obriga a cometer uma sucessão de faltas para tentar alcançar a bola —- é isso que explica os cartões amarelos distribuídos pelo árbitro.

 

Graças a Everton e ao estilo de jogo do Grêmio a festa aqui em casa foi mais completa e eu pude por duas vezes comemorar abraçado com os meus guris. E assim como eu, Teco, você sabe como é mais legal ainda comemorar dois gols com os nossos filhos. 

 

Salve, salve!

Avalanche Tricolor: o futebol tem dessas coisas

 

Bahia 0x2 Grêmio
Brasileiro – Arena Fonte Nova/Salvador-BA

 

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Everton em mais uma tentativa de ataque, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O futebol tem dessas coisas.

 

Fizemos jogos incríveis nesta temporada e saímos lamentando a falta de gol, o empate injusto, o erro do árbitro ou o campo maltratado. Desperdiçamos pontos e perdemos a oportunidade de estar no topo da tabela.

 

Na tarde em que tivemos o pior desempenho do ano, esquecemos de trocar passe no ataque, perdemos o controle do jogo — chegamos a tropeçar na bola, coisa rara neste time — e efetuamos chutes distorcidos, saímos do gramado com uma vitória de 2 a 0 e na vice-liderança da competição.

 

Verdade que os dois gols que fizemos foram resultado daquilo que temos de melhor: a velocidade com que se trabalha a bola e com que se escapa da marcação.

 

No primeiro, Everton foi talentoso para driblar e preciso ao encontrar Ramiro no meio da área, onde sofreu o pênalti. Por curioso, só fizemos o gol depois de Maicon errar a cobrança — outra raridade nestes últimos tempos.

 

No segundo, Everton, o “imparável” voltou a funcionar com uma escapada que deixou marcadores estatelados no chão. Depois foi uma corrida para ver quem conseguia empurrar a bola para dentro. Entre Pepê e Thaciano, ficou com esse último a tarefa de decidir o jogo.

 

Fora esses lances, pouca coisa se tirou da partida. Para não ser injusto, destacou-se a defesa que pressionada em boa parte do jogo soube afastar os perigos que se avizinhavam.

 

Torcedores devem estar a se perguntar: é melhor jogar bem e empatar ou jogar mal e ganhar os três pontos? A quem ainda tem essa dúvida, minha resposta: jogar o melhor futebol do Brasil como vínhamos fazendo até aqui e ganhar. Essa é a nossa missão e voltaremos a cumpri-la assim que as principais peças estiverem em forma novamente. Porque jogar bem e não conseguir o resultado até acontece — o futebol tem dessas coisas. Agora, jogar mal e vencer, é muito mais difícil — apesar de que o futebol, como vimos hoje, também apronta dessas. Ainda bem que dessa vez foi a nosso favor.

Avalanche Tricolor: uma vitória com o talento de Everton, o “imparável”

 

Ceará 0x1 Grêmio
Brasileiro – Arena Castelão/Fortaleza CE


 

 

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Everton em mais uma escapada, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Começo esta Avalanche com um pedido de desculpas — e endereçado a Thonny Anderson, o menino que em um minuto e meio fez aquilo que vínhamos tendo dificuldade para fazer durante esta e as duas últimas partidas pelo Campeonato Brasileiro.

 

Aos 35 minutos do segundo tempo, de cabeça, Thonny fez o único e necessário gol nesta vitória sobre mais um adversário que enfrentamos que estava na zona de rebaixamento — os dois times anteriores, para os quais desperdiçamos quatro pontos dos seis disputados, também estiveram ou estão por lá.

 

Peço desculpas a Thonny Anderson porque o lógico seria escrever esta Avalanche sobre ele, que aos 20 anos, emprestado ao Grêmio, tem sido colocado à prova desde o Campeonato Gaúcho. Cotado para sair jogando na partida deste domingo, havia quem o desafiasse a mostrar seu talento, pois estaria devendo o futebol que prometeu nas suas primeiras aparições.

 

Lamento, Thonny, mas meu coração pede para escrever sobre outro jogador — aquele que protagonizou a jogada que permitiu que você fizesse o gol. 

 

Foi Everton quem, no fim do ano passado, me proporcionou a lembrança mais emocionante do futebol nos últimos tempos. Eu estava ali, ao lado dele, em Al Ain, quando nosso atacante entrou na área, cortou para a direita e marcou o gol, já na prorrogação, que nos colocou na final do Mundial de Clubes.

 

Aquele gol parece ter feito nosso atacante desencantar. Parece ter provado a ele próprio o quanto era capaz de fazer com a camisa do Grêmio.

 

Até ali, Everton ameaçava dribles, arriscava alguns chutes e até decidia partidas, mas sempre deixava a ideia de que mais desperdiçava oportunidades do que as aproveitava. Era o jogador que entrava no segundo tempo quando o time não encontrava solução.

 

Hoje, com apenas 22 anos, Everton está muito mais maduro e preciso, sem perder o desejo de ser moleque, que lhe faz acreditar em todas as jogadas, mesmo com a marcação dobrada. Quando recebe a bola, não se satisfaz com o passe para o lado ou o lance burocrático. Quer mais. Olha para frente. Arrisca o drible e consegue passar pelos marcadores.

 

É duramente marcado, empurrado, acossado, mas resiste a todos os algozes. Ele não desiste. Não para nunca. Hoje, sofreu dois pênaltis. No primeiro, o pé foi puxado pela mão do zagueiro, mas o árbitro titubeou e voltou atrás. No segundo, foi derrubado em cima da linha, e o árbitro marcou fora.

 

Quando muitos já temiam mais dois pontos perdidos, a bola foi espantada da nossa área, em uma cobrança de escanteio, e encontrou Everton na nossa intermediária. Ele tocou a bola para a frente, cruzou o meio de campo, atropelou sem dó o marcador e seguiu conduzindo-a em velocidade impressionante.  Ao entrar na área, havia outro zagueiro para pressioná-lo. Everton não se incomodou. Tocou a bola pelo alto e na cabeça de Thonny. Deu de presente ao outro menino do nosso ataque o gol da vitória.

 

Everton comemorou o gol de Thonny apontado o dedo para o céu, enquanto todos nós, inclusive o autor do gol, apontávamos o dedo para ele — o “imparável” Everton.

Avalanche Tricolor: Grêmio ganha de virada, segura a ansiedade e conta os dias

 

Grêmio 3×1 Flamengo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Comemoração do gol na foto de LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

 

Ansiedade é o mal da sociedade moderna me disse ainda nessa semana Jairo Bouer, colega psicólogo que trabalha no meu programa de rádio. É resultado da maneira como encaramos nossas tarefas e desafios, profissionais ou pessoais. Queremos acelerar mais do que o tempo permite. Esperamos para agora resposta para algo que só poderá ser respondido amanhã. Impossível de ser alcançado. Pois tudo tem o seu momento certo.

 

Os torcedores gremistas, desde quarta-feira passada, temos percebido essa sensação de maneira ainda mais exarcebada. Queremos que o tempo voe, os dias se acabem, a semana passe e o 22 de novembro chegue o mais rapidamente possível. Tivéssemos esse poder, daríamos um salto no calendário para o 29 de novembro, data da última partida da Libertadores, quando esperamos (toc-toc-toc) estejamos todos comemorando o TRI.

 

O problema é que daqui até lá teremos longa espera e partidas intermináveis pelo Campeonato Brasileiro. Como a desta tarde de domingo, em Porto Alegre. Um jogo que para muitos sequer precisaria ter acontecido.

 

Dá pra deixar do jeito que dá?

 

Não, não dá!

 

E Renato está consciente disso. Até porque o tempo é seu melhor companheiro neste momento. Sabe da necessidade de decidir-se por este ou aquele jogador no time titular. Precisa recuperar fisicamente os mais desgastados e, principalmente, os lesionados, como Barrios, nosso comandante no ataque. Tem chance de testar jogadas ensaiadas, arriscar variações na forma de atacar e posicionar da melhor maneira possível nossa defesa, adaptando-se ao adversário da final.

 

Luan é o melhor exemplo. Depois de mais de 50 dias lesionado, voltou aos poucos, viu sua performance melhorar partida a partida e, como demonstrou hoje, está em plena ascensão. Voltou a marcar gol aparecendo como homem mais adiantado do time e por trás dos zagueiros. Da mesma maneira que na primeira partida da semifinal da Libertadores. Vai chegar à decisão nos trinques, expressão que costumava ouvir do Tio Ernesto, personagem que já lhe apresentei, caro e raro leitor, nesta Avalanche.

 

O tempo ajudará Renato a decidir-se, por exemplo, por Fernandinho ou Everton no time titular, apesar de eu ser adepto da ideia de que ambos foram feitos para entrar com a bola rolando – e não me pergunte porque eles têm essa característica.

 

Os dois gols da virada de hoje confirmaram o bom momento do menino que joga com sorriso no rosto e cara de “cebolinha” – perdão, já soube que ele pediu para que esquecêssemos seu apelido. Esqueceremos em breve. Quem sabe depois do dia 29. Everton dá mais velocidade, mas nem sempre mantém a performance quando sai jogando. Até para isso Renato terá tempo para testar.

 

Falei em gol da virada: eis aí mais uma boa notícia desta tarde.

 

Apesar de sairmos atrás do placar, mantivemos a mesma calma no toque de bola, na busca dos espaços e na tentativa de chegar ao gol. O que para muitos de nós às vezes é irritante, pois queremos ver aquela avalanche de chutes a gol. Somos ansiosos, eu sei. O time não foi, seguiu jogando seu futebol, dono da bola e contou com astúcia do seu técnico que encontrou no banco de reservas as duas soluções que faltavam para alcançar a vitória: Beto da Silva e Everton.

 

Disse tudo isso até aqui, elogiei a calma gremista e a tranquilidade do nosso técnico no planejamento para a final, estou consciente que devemos controlar nossa ansiedade e dar tempo ao tempo, mas, confesso, enquanto assistia à partida pelo Brasileiro, não saia da minha cabeça a festa que estamos preparando para receber o Grêmio na Arena, no dia 22 de novembro.

 

Só faltam 17 dias! Ainda faltam 17 dias!

Avalanche Tricolor: pragmático, óbvio e classificado à semifinal da Copa do Brasil

 

Palmeiras (2)1×1(3) Grêmio
Copa do Brasil – Allianz Parque

 

 

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Jogadores comemoram classificação (reprodução da TV)

 

“Quando a gente tá com a bola ataca, quando não tá, defende”…

 

Assim Renato explicou como o Grêmio deveria se comportar em campo, ao responder pergunta feita pelo repórter da televisão, um minuto antes de se iniciar a partida dessa quarta-feira à noite, em São Paulo.

 

Foi simples, direto e objetivo, como ensina o mantra da boa comunicação.

 

Foi óbvio, também! Talvez porque tivesse como meta, naquele momento que antecedia a decisão, apenas se livrar da conversa com o jornalista, afinal o que interessava mesmo é o que viria a acontecer em seguida no gramado – no ruim gramado do Allianz Parque.

 

Por mais simples que tenha parecido a explicação do técnico gremista colocar a ideia em prática seria extremamente complexo, como se viu ao longo do jogo.

 

Nem sempre quando a bola esteve com o Grêmio, conseguimos atacar; muitas vezes tropeçamos nas nossas deficiências de movimentação e, em outras, na eficiência da marcação.

 

Nem sempre quando a bola estava com o adversário, conseguimos marcar; muitas vezes deixamos mais espaço do que deveríamos e a bola chegava com perigo dentro da área. Nos safamos de algumas boas quando só nos restava contar com a sorte e a coragem. E coragem não faltou a nossos defensores que se atiravam de qualquer maneira para evitar o gol.

 

Sem colocar em prática a obviedade proferida por Renato, torcíamos para que o relógio andasse mais rápido do que nosso toque de bola, já que o empate nos bastava. Chuleávamos para que em um lance fortuito conseguíssemos fazer um gol, o que nos levaria a respirar um pouco mais.

 

O gol saiu, mas não foi do nosso lado. Foi contra nós, e pelo alto, como sempre.

 

O resultado já não nos interessava mais. O relógio que parecia bater em um ritmo lento, começou a rodar com rapidez. E o nosso futebol não andava lá essas coisas, apesar de algumas chances criadas.

 

Isso não quer dizer que havíamos desistido de lutar … afinal, ainda assim, nos bastava apenas um gol, não mais do que isso para a vaga estar garantida.

 

Foi, então, que aos 15 minutos do segundo tempo, Renato mais uma vez usou a lógica e colocou em campo aquele que não nos tem faltado nas últimas partidas: Everton.

 

Nosso atacante foi o personagem da classificação: foi dele o lance que resultou na expulsão que fragilizou o adversário, assim como foi dele o lance que desnorteou a defesa, deslocou o zagueiro e abriu espaço para fazer o gol.

 

Everton entrou em campo e cumpriu a ordem de Renato: quando a gente tá com a bola, ataca. O que permitiu que o restante do time fizesse a outra parte: quando a bola não tá, a gente defende.

 

Com o pragmatismo de Renato, a dedicação do time e o talento de Everton estamos na semifinal da Copa do Brasil, mais próximos da Libertadores e de um tão desejado título.

Avalanche Tricolor: os nossos “alternativos” mandaram bem, na Vila

 

 

Santos 1×1 Grêmio
Brasileiro – Vila Belmiro SP/SP

 

 

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Renato em foto do arquivo no Flickr de LUCASUEBEL/GREMIOFBPA


 

 

Havia quem esperasse pouco do time escalado para jogar neste domingo. Eu, por exemplo. Você, talvez. Quero acreditar que o próprio Renato não apostaria todas suas fichas em um resultado positivo.
 

 

O time era o alternativo, como repetiu o repórter de campo durante a transmissão da televisão. Não sei se no rádio disseram o mesmo. Chamou-me atenção porque no meu tempo costumávamos dizer que este era o time reserva.
 

 

Bem que gostei da ideia de batizá-lo como alternativo. Creio que isso seja coisa do Renato e os jornalistas estejam apenas levando à frente. Nos dá um olhar diferente sobre os jogadores que estão em campo. Não os impõe a pecha de segundo escalão, apenas de diferentes.
 

 

E foram diferentes em campo. Surpreendentes, eu diria.
 

 

Além de se fecharem bem na defesa, sem vergonha de admitir a diferença em relação ao adversário, usaram o contra-ataque como poucas vezes vimos na competição. Capacidade que se revelou logo no início da partida com gol que surgiu de jogada na qual Everton soube combinar sua velocidade com domínio de bola e precisão no chute. Coisa rara de se ver no futebol.
 

 

Conter a pressão de um time pouco acostumado a derrotas em seu campo seria tarefa das mais complexas. Por isso, o gol que tomamos de cabeça parece que já estava mesmo na nossa conta. E veio para ratificar que se a zaga principal parece ter se ajeitado por cima, a alternativa ainda tem o que melhorar.
 

 

O segundo tempo, apesar de nosso gol não ter saído – e foi por detalhe -, voltamos a surpreender. A marcação foi mais alta, na saída de bola do adversário, e isso desorganizou a chegada do ataque deles. Mudança, com certeza, que teve o dedo de Renato.
 

 

Estivemos sob fogo cruzado boa parte do jogo, mas vimos nossos defensores se multiplicarem para segurar o empate. Em alguns casos chegamos a ter dois jogadores marcando a mesma bola. Houve aquilo que a turma gosta de chamar de entrega total em campo.
 

 

Ao fim da partida Maicon definiu o empenho da equipe: “se não vai no entrosamento, vai na vontade”.
 

 

Os nossos alternativos demonstraram muita vontade e estão de parabéns, pois neste domingo, jogando pelo Campeonato Brasileiro, seguraram a onda da turma que descansou para, na quarta-feira, “jogar a vida” na Copa do Brasil.

Avalanche Tricolor: fizemos a lição de casa com elegância e muito frio

 

Grêmio 2×0 Cruzeiro
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Douglas comemora com o time o segundo gol, em foto de LUCAS UEBEL/GrêmioFBPA

 

Um jogo de aparente tranquilidade no qual a bola esteve quase sempre sob nosso domínio. E quando não esteve, foi logo recuperada por uma marcação eficiente que impediu riscos de gol.

 

Até demoramos para chutar, mas quando o fizemos fomos definitivos, como no fim do primeiro tempo no cabeceio de Luan que abriu o placar após cruzamento preciso de Everton, em jogada, aliás, iniciada pelo próprio Luan.

 

No segundo tempo, sequer foi preciso aquecer muito, pois aos seis minutos já havíamos ampliado para 2 a 0 após mais uma jogada de muito talento com a participação de Luan e conclusão de Douglas, também de cabeça.

 

Até a sorte esteve ao nosso lado, pois o pênalti marcado com atraso pelo árbitro, na rara oportunidade de gol do adversário, foi para fora.

 

Com a vitória na mão, a troca de passe foi ainda mais segura sem jamais perder a elegância. O torcedor deu-se até o direito de ensaiar um olé … fazia tempo que não ouvia este grito.

 

Com todo o respeito que o adversário e sua tradição merecem, nesta noite de domingo o maior desafio foi enfrentar o clima. O termômetro marcou de seis a sete graus celsius e uma forte névoa embaçou a imagem durante todo o jogo.

 

E foi o frio, pelo que pude perceber, que impactou a condição física de nossos jogadores e nos levou a perder Geromel, Walace e Michael, todos lesionados e jogadores que podem fazer muita falta nas próximas partidas, especialmente em um momento no qual estamos beirando a liderança.

 

A despeito das lesões, o importante é que fizemos a lição de casa e seguimos na briga pelo título do Brasileiro.