Inexplicável

 

Por Julio Tannus

 

Há alguns anos estava em uma festa de aniversário de um sobrinho. Ao iniciar a projeção de um filme infantil, o equipamento de projeção deixa de funcionar repentinamente. O operador reinicia a projeção e logo após novamente a projeção é interrompida, aparentemente de forma inexplicável. Um observador atento constatou que o entra e sai de pessoas acionava uma lâmpada que desligava o disjuntor.

 

Recentemente meu notebook parou de funcionar. Após várias tentativas, voltou a funcionar. Depois de algum tempo, deixa de funcionar novamente, aparentemente de forma inexplicável. Ao verificar atentamente o equipamento, verifico que a luz indicativa da conexão sem fio estava apagada. Ao mudar a posição do aparelho para outro local, o travamento do aparelho foi explicado.

 

Tenho feito referências aqui a aumento de impostos e cobrança de impostos aparentemente inexplicáveis. É o caso do aumento do IPTU e a taxa de fiscalização de elevadores da Prefeitura de SP cobrada há anos, sendo que nunca apareceu um fiscal da Prefeitura para fiscalizar. Ao constatarmos que não existe qualquer resistência da população a essas cobranças, podemos encontrar aí uma boa explicação.

 

Aparentemente certos encontros e desencontros são inexplicáveis. Entretanto nossos poetas podem encontrar uma boa explicação:

 

Se procurar bem você acaba encontrando.

Não a explicação (duvidosa) da vida,

Mas a poesia (inexplicável) da vida.
Carlos Drummond de Andrade

O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.
Fernando Sabino

A imaginação é o nosso primeiro privilégio, tão inexplicável como o caso que a provoca.
Luis Buñuel

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung.

O que Palocci, Teixeira, Kahn e Trier têm em comum

 

Por Carlos Magno Gibrail

O traço mais evidente entre todos é o poder, que, conscientemente, usam e abusam. Cada um em sua área de atuação. Política, Futebol, Economia e Cinema.

Suspeitos, arrogantes, tiranos e competentes encontram agora o questionamento, embora tardio, bastante oportuno.

Lars Von Trier, o cineasta, em Cannes foi expulso do festival e teve seu filme desclassificado, embora tivesse tentado explicar-se, atribuindo sua declaração de admiração à Hitler pela provocação que tinha recebido.

O presidenciável francês, economista Dominique Strauss Kahn, celebridade do FMI, depois de assédios inclusive a européias esclarecidas, foi encontrar numa camareira imigrante uma denúncia de estupro que o levou à prisão em New York.

Ricardo Teixeira, mandatário longevo da CBF, incólume a CPIs graças à bancada da bola, invulnerável a pesadas acusações de coronelismo e corrupção, se defronta com denúncias sérias de dirigentes do futebol inglês. Dá-se ao luxo de soberanamente se recusar a responder.

Antonio Palocci, médico, ex-coordenador de caixa de campanha política, ex-ministro da Fazenda, atual Chefe da Casa Civil da Presidenta Dilma Rouseff, ganha 20 milhões em 1 ano, dos quais metade em dois meses entre o término da eleição e o inicio do atual cargo, e se recusa a dar explicação. O governo que serve, o serve; e ministros e governadores peso pesados e em peso o defendem:

Ministro da Justiça – José Eduardo Cardozo: “Palavras ao vento”.

O presidente nacional do PT – Rui Falcão, e os governadores petistas Tião Viana, Jacques Wagner, Agnelo Queiroz, Tarso Genro e Marcelo Déda: “O único fato é o faturamento da empresa por um ano”.

Ex-Chefe da Casa Civil – José Dirceu: “Mais uma crise forjada”.

Como podemos verificar, dos quatro citados, apenas os dois brasileiros não foram punidos, embora as suspeitas sejam tão forte quanto aquelas de Kahn e Trier.

Entretanto, o que mais desponta e desaponta é que estamos num sistema em que o brasileiro comum cada vez mais precisa estar dentro da lei, quanto mais distante do poder estiver. A inadimplência mesmo curta pode custar corte de luz, água, telefone, internet e, até mesmo, retenção de carro em estrada à sorte de uma carona. Ou qualquer restrição de crédito pode gerar seqüestro de contas bancárias. As grandes corporações, públicas e privadas, através de eficientes lobbies tem conseguido sistemas de blindagem de seus patrimônios. E justamente este fenômeno contemporâneo que é o lobby é o móvel principal do caso Palocci.

Causa e efeito, preceito e conceito, Palocci bem exemplifica a disfunção lobista. Não temos dúvida, Palocci deve explicação e o lobby a regulamentação.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.