Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a fábrica de doces de São Miguel Paulista

 

Por Arnaldo Bispo do Rosário
Ouvinte da CBN

 

 

Em criança, na Vila Nitro Operária, pertinho de minha casa, em São Miguel Paulista, havia uma pequena fábrica de bolos e doces. Sua provocante chaminé, logo de manhã, lançava ao ar aromas de baunilha, canela, chocolate, avelã e outras fragrâncias de guloseimas de dar água na boca, saídos do forno ainda bem quentinhos. Acorria que eu, Itamar, Dorival, Marcos e Cia Bela não tínhamos dinheiro algum para comprar aquilo ou, como dizia meu pai, “andávamos mais lisos do que popô de santo”, mas com faro e salivação de constranger cão perdigueiro. Todavia, nem tudo estava perdido, pois, como marotos que éramos, descobrimos que o empreendimento, de pequeno porte, também se servia de lenha reciclada para acender a fornalha. Eureca! Eis ai a possível chave para termos acesso aquelas delícias!

 

A solução por nós encontrada, considerada nossa lamentável impecuniosidade crônica, era o escambo, ou seja, trocar madeira pelos aprazíveis confeitados, manjares de deuses. Assim, saíamos empurrando pelo bairro afora uma carriola com rodas de bicicleta — essas tomadas sob regime de cessão temporária do seu Zé, dono de um ferro-velho, na Rua da Maçonaria, mas sem seu consentimento. Procurávamos restos de poda, galhos e troncos secos, bem como tudo o que algum dia foi árvore, que descartados como inservível pudessem ser trocados por doces na tentadora fabriqueta.

 

Esbaforidos, perambulávamos como uma trupe mambembe, seduzidos pelo mito da recompensa, fruto justo do árduo trabalho, recolhendo toda madeira que encontrássemos pelo caminho. À tarde, após a aula, nos dirigíamos para a fábrica de delicias gastronômicas e trocávamos tudo o que havíamos coletado por bolos, broas e, principalmente, sonhos.

 

O tempo passou e alguns meninos daquela turminha — que tive a fortuna de conhecer e pertencer, com pureza de criança — já nem existem mais. Uma parte deles, frágeis como dentes-de-leão, no primeiro soprar do vento tiveram suas vidas e sonhos ceifados pelo aparato opressor do Estado ou pelas mãos implacáveis de agentes do tráfico de drogas, e jazem em sono profundo, restando, pois, na caverna da minha memória, um misto de nostalgia e indeléveis cicatrizes. Outros tiveram seus sonhos petrificados nas geleiras da antiga Febem ou cárceres correlatos, sem deixarem vestígios, rastros ou notícias, apenas lembranças.

 

Como nem tudo é só tristeza, muitos dos amigos daquele tempo são, hoje, chefes de família, repletos de responsabilidades, com breves noites para descanso e sono, pois acordam de madrugada ao som estridente do despertador, pulam de chofre da cama e, depois de um rápido banho e lépido café, seguem direto para o ônibus ou trem, rumo à lida, em busca do sustento da prole, alimentando o sonho de um futuro melhor e mais doce para si e, principalmente, para os seus.

 

De outra banda, uma diminuta parcela, os chamados resilientes (como é bom andar com quem nos ensina, pois aprendi esta palavra com uma pessoa inteligente!) conseguiram se formar professores, engenheiros, contadores, advogados, ou algo assim. Eu, por meu turno, na qualidade de advogado, continuo a trocar o meu labor – agora “madeira de lei” — por outros sonhos, individuais e coletivos. Assim, alicerçado na razão, emoção e tendo a palavra como instrumento, procuro atuar nos fóruns da vida para a realização desses sonhos, sobretudo, o da construção de uma pátria mais justa e de um mundo melhor, mais alegre e, de preferência, mais doce.

 

Nesta altura de minha existência, olhando pelo retrovisor e relembrando algumas das inúmeras lutas que participei, ombreado com outros trabalhadores como eu, muitas vezes, no exercício de meu mister, lutando para evitar que fossem despejados de suas casas por grileiros inescrupulosos, infectados pelo deletério vírus da ganância, percebi que ganhamos muitas, mas compreendi também que tudo aquilo que fiz, diante do latifúndio de desigualdade, não passa de um diminuto, tênue e fluído risco de giz.

 

Arnaldo Bispo do Rosário é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar desta série especial de aniversário da cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

A Guerra da Guararapes: ação do MPT leva maior fábrica de confecção do mundo a deixar o Brasil

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Protesto contra ação do MPT  em São José do Seridó, no RN (Foto: Divulgação/ Governo do RN)

 

Em 2010, o Grupo Guararapes tinha na cidade de Estremoz, divisa com Natal RN, a maior fábrica de roupas do mundo. Eram 20 mil funcionários. Sob o aspecto governamental esta grandiosidade, em contraponto com a pobreza da região castigada pela seca, mostrou que a criação de unidades fabris de produção de roupas era uma boa e, talvez, única solução para absorver mão de obra local.

 

Assimilando essa posição e anexando-a a necessidade do crescimento e da agilidade que o Grupo que dirigia estava exigindo, Flavio Rocha convenceu o Governo do Estado a criar o projeto que viria se chamar PRÓ-SERTÃO.

 

Implantado em 2013, o sistema PRÓ-SERTÃO para Flávio Rocha era a realização de um sonho originado ao visitar a ZARA, quando o fast-fashion começava a dar as cartas. Na Galícia, a ZARA operava um processo de produção ágil o suficiente para fabricar a tempo as novidades da moda.

 

Do sonho, o “Galícia Potiguar”, conforme vislumbrava Flávio, veio o sucesso com a adesão de cidades, marcas importantes como a Hering e pequenos empreendedores que formavam um robusto parque industrial de faccionistas.

 

Entretanto, um enorme contratempo, que já se delineava desde 2010, surgiu em julho deste ano. O MPT – Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Norte, através do Grupo de Procuradores do Trabalho, vinculados à CONAFRET – Coordenadoria Nacional de Combate a Fraudes, cobra da Guararapes R$ 37,7 milhões de indenização. Valor correspondente a parte do lucro obtido com o trabalho das facções, em uma ação baseada na suposição da existência de subordinação estrutural e responsabilidade estrutural da empresa na operação das facções.

 

Essa ação, encabeçada, como todas as anteriores, pela promotora Ileana Mousinho, exige a contratação direta de todos os empregados das facções, elevação dos preços pagos, abastecimento garantido, etc.

 

A empresa que congrega, além da fábrica, as LOJAS RIACHUELO, devido a multas e indenizações impetradas pela Dra. Ileana de R$ 41 milhões e acordadas em R$ 6 milhões, reduziu a participação de mão de obra local de 60% para apenas 20%. Na fabricação, tem expandido suas operações fora de nossas fronteiras, na China e Paraguai.

 

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Centenas de pessoas se reuniram em Seridó do RN contra ação do MPT (Foto: Divulgação)

 

Essa compulsória migração de mão de obra reflete provavelmente o atraso de nossa legislação trabalhista. Entretanto, há aqui algo a investigar, quando o principal executivo do Grupo acusa ser vítima de perseguição. Em recente manifesto dirigido à promotora Ileana Mousinho, Flavio Rocha pede:

 

“O nosso setor tem o potencial de transformar a realidade socioeconômica do Rio Grande do Norte. Basta que a Sra. deixe o ódio de lado e nos deixe trabalhar”.

 

É oportuno observar a difícil tarefa de estabelecer deveres e direitos, pois se não houver equilíbrio o direito defendido poderá tornar-se desnecessário pela extinção do propósito.

 

As costureiras domiciliares, que tanto serviram à periferia carente, que não podia sair de forma convencional para o trabalho, devido a obrigações com parentes idosos ou doentes, foram extintas pela exigência formal.

 

As oficinas externas, se passarem a responsabilidade das contratações de mão de obra e as demais obrigações empresariais aos contratantes, também serão extintas.

 

Quem irá contratá-las?

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

 

LEIA MAIS SOBRE O TEMA EM REPORTAGENS PUBLICADAS NA INTERNET

Mundo Corporativo: Vijay Gosula, da McKinsey, fala do desafio de melhorar a produtividade da sua empresa

 

 

“Harmonizar as demandas e ofertas durante o processo inteiro é um trabalho que requer muito planejamento e muito entendimento da capacidade produtiva de cada elo da cadeia. Isso requer, realmente, que você sente, observe, mapeie, conte, contabilize, etc, e muita gente não está acostumada a fazer isso”. A opinião é de Vijay Gosula, sócio-diretor da McKinsey, em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo da rádio CBN. Gosula apresenta algumas das estratégias para que as empresas aumentem sua produtividade e competitividade. Ele conta que, atualmente, o Brasil produz 20% do que a média dos países da América Latina e um sexto do que é produzido pelas empresas nos Estados Unidos..

 

Você assiste ao programa Mundo Corporativo, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, acessando o site http://www.cbn.com.br. E envia perguntas para o e-mail mundocorporativo@cbn.com.br ou para o Twitter @jornaldacbn e @miltonjung (#MundoCorpCBN). O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN. Participam do Mundo Corporativo Paulo Rodolfo, Douglas Mattos e Ernesto Foschi.