Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o retrato do brasileiro e os pilares que conectam marcas às pessoas

Cristo Redentor no RJ Foto: Oliver Schmid on Pexels.com

Uma pesquisa nacional com mais de 10 mil entrevistas reforça três forças que organizam a vida do brasileiro: família, fé e música. O tema foi analisado no comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a partir de um estudo encomendado pela Globo à Quaest.

O levantamento, batizado de Brasil no Espelho, mostra como esses pilares influenciam decisões, expectativas e vínculos. Para 96% dos entrevistados, a família é a coisa mais importante da vida. O dado não apenas confirma uma percepção comum, como dá escala ao sentimento. Cecília Russo observa que “só constrói marca forte quem entende de gente” e lembra que, quando os números aparecem, “fica ainda mais claro” o peso da família nas relações e escolhas do dia a dia.

Esse centro familiar orienta sonhos e comportamentos. O maior desejo declarado é ver a família feliz. No campo das marcas, a consequência é direta: ignorar esse valor custa caro. “Qualquer marca que fira o sentido de família tem altas chances de ser descartada”, afirma Cecília. Não se trata de romantizar, mas de reconhecer um vetor real de decisão.

Ao lado da família, a fé aparece com força semelhante. Também para 96% dos brasileiros, Deus está no comando da vida; mais de 80% dizem ter fé em algo. A religiosidade ajuda a explicar a positividade apontada pela pesquisa e pede cautela na comunicação. Jaime Troiano reforça que “no campo da fé, as marcas precisam de muito respeito”, sem uso oportunista, traduzindo crença em mensagens de confiança e futuro.

O terceiro pilar é a música. Quase a totalidade da população ouve música, com preferência majoritária pela produção nacional. Aqui, identidade fala alto. “No Brasil, música não é fundo, é protagonismo”, diz Jaime. Quando marcas escolhem trilhas, artistas e ritmos com atenção ao território, comunicam pertencimento: “estão dizendo ‘eu entendo quem você é’”.

Da análise emerge um recado simples e exigente. Marcas não podem ser apenas funcionais; precisam ser simbólicas. “Marcas que entendem o brasileiro não vendem apenas produtos, vendem proteção, cuidado, esperança e pertencimento”, resume Jaime. Por isso cenas de mesa cheia, riso solto e pequenas celebrações funcionam: vendem o que está no coração.

A marca do Sua Marca

Entender pessoas vem antes de vender produtos. O comentário mostra que estratégias eficazes partem do reconhecimento de valores centrais — família, fé e música — tratados com respeito e coerência.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os cortiços da Vila Carioca receberam as famílias da usina de cana


Fábio J. Orenhas

Ouvinte da CBN

Esquina da Vila Carioca Foto: Google Street View

São Paulo, década de 1940. Primeiro vieram os Carinalli, que saíram de uma pequena cidade do interior, Cosmópolis, para tentar a sorte em São Paulo. Eram moradores de colônias construídas na fazenda para abrigar os trabalhadores da Usina Ester, produtora de açúcar e álcool. Depois vieram os Baron, Rosa, Tejeda. Todos atraídos pela força da cidade grande.

O local escolhido não por consenso, mas por decisão do primeiro que chegou: Ipiranga, Vila Carioca. Moravam em um espaço de dois ou três quarteirões, tendo como centro a Rua Lício de Miranda. Viviam em cortiços ou em casas, próximos uns dos outros. Formavam a comunidade da Usina Ester, em São Paulo.

Minha mãe que herdou o nome da usina de açúcar, Dona Esther,  chegou no fim dos anos 1940. Da família Todero, viúva, veio com a filha mais velha, morar no mesmo quarteirão dos Rosa, do marido falecido. Conheceu meu pai, que era de Birigui. Foi aí que nasci, e passei a morar na comunidade da Usina Ester.

Lembro dos casamentos, muitos entre famílias que vieram da Usina.  Eu mesmo casei com minha esposa, também de Cosmópolis, e continuei morando na Vila Carioca. Quando vinha alguém lá da usina ou da cidade natal era uma festa — oportunidade de lembrar as histórias de antigamente. 

Estas comunidades duraram até os anos 1990. Perderam-se, substituída pelos barracões e pelo crescimento da cidade. Os cortiços já não estão mais lá, a comunidade se espalhou por outros lugares — eu estou morando em Paulínia, pertinho de Cosmópolis. As ruas Licio de Miranda, Albino de Moraes, Brás de Pina e Colorado resistem bravamente, assim como o calçamento de paralelepípedo e um solitário portão de uma das antigas casas. 

Sobraram saudades que tentamos passar para as novas gerações; lembranças deste tempo que se foi na garoa e na neblina de São Paulo. O progresso levou embora as colônias da Usina Ester. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fábio J. Orenhas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: partimos de Pirituba e trouxemos a saudade

Rose Mari Sibinel Fasciani

Ouvinte da CBN

Estação de Pirituba construída pela companhia inglesa São Paulo Railway

Vivíamos em Pirituba: pais, a nona e cinco filhos. A rua era de terra, não era asfaltada. Eram os anos de 1970. Em frente de casa passava o trem suburbano que fazia o trajeto entre Jundiai e ABC. Nosso transporte era o trem.

Fomos criados brincando na rua desde pequenos. Um olhava pelo outro. Aos domingos, a mãe nos ensinou a frequentar a paróquia São Luiz Gonzaga. Para chegar lá, se passava por um caminho ermo e  com escadas de terra. Apesar de pequenos, fazíamos tal passagem, muitas vezes, sozinhos.

Sempre havia o Sol.

Sempre havia a calmaria.

Sempre tinha bolo, polenta, pudim de pão amanhecido.

Sempre vizinhos para bater papinho.

Já na juventude havia as domingueiras no clube Piritubão. Lá, a gente se divertia. Eu, como a mais velha do grupo, liderava as moças mais jovens. Fazia com que ficassem juntas e não saíssem com os garotos para fora do clube. As mães confiavam em mim.

Dançávamos bastante e às dez da noite bora para casa que na segunda tinha  de pegar trem para trabalhar, retornar à noite, tomar sopa de feijão com macarrão na nona e estudar no Colégio Xavier Antunes que ficava meia hora de caminhada pelos trilhos do trem. E lá íamos com nossa capa branca de estudante noturno.

Tudo passou, crescemos, partimos de Pirituba, parentes se foram e a saudade ficou.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Rose Mari Sibinel Fasciani é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: encontrei mãe, irmãs e irmão que aqui já estavam

José Geraldo Leite Coura

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

Cheguei em 1978. Vim de onde o mar é o céu. Meio dia de viagem, na rodoviária Julio Prestes chegamos. Eu vim acompanhado de dois dos sete, quem nos trouxe foi outro. Atravessei o rio, esse já estava sujo; continua, apesar do já gasto. Chegamos na Freguesia do Ó. De lá corri por dias das férias em campo de cimento, diferentemente dos de terra e mato.


Encontrei mãe, irmãs e irmão que aqui já estavam. Todos agora nos juntamos a ele que veio bem antes para fazer o futuro. Essa chegada me fez vislumbrar uma São Paulo que ao longo do tempo aprendi a admirar e temer. Sempre atravessei a cidade no trem, no ônibus e no metrô.

No início foi na Cidade de Deus onde aprendi minha primeira profissão: mecanógrafo. De lá, técnico eletrônico. E, a partir deste, rodei por agências consertando tudo que mandavam. Nos intervalos, futebol e bailes. Colegas de todos os lugares. As domingueiras eram sempre animadas.

Já se foram 37 anos e hoje ou só hoje consigo parar para contar essa trajetória de luta e sucesso; de alguns tombos que me fizeram o que sou; de amigos que passaram e outros que continuam. Entre minha chegada e minha estada, são dois filhos e uma filha, todos paulistanos. Mas ela que me acompanha, também veio da minha terra natal.

Agora termino para agradecer a cidade que me fez este profissional e o cidadão que sou.  

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Geraldo Leite Coura é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Dez Por Cento Mais: Ilvio Amaral e Maurício Canguçu refletem sobre a vida diante do Alzheimer

Imagem da peça Maio, antes que você me esqueça

“Não adianta pesar o que já é pesado.”
Maurício Canguçu, ator

A perda da memória, provocada pelo Alzheimer, não atinge apenas quem recebe o diagnóstico. Ela se espalha pela rotina da família, redefine papéis e exige novas formas de afeto. Foi dessa experiência pessoal que nasceu Maio, antes que você me esqueça, peça protagonizada pelos atores Ilvio Amaral e Maurício Canguçu, em cartaz há quase quatro anos. O tema foi assunto da entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube.

Do luto à cena

A ideia de montar a peça surgiu após momentos difíceis vividos pelos dois atores: Ilvio perdeu o pai em consequência do Parkinson, enquanto a mãe de Maurício foi diagnosticada com Alzheimer. “Nós começamos a conversar sobre isso e falamos: vamos pedir para o Jair escrever uma peça para nós dois fazermos”, contou Ilvio, lembrando da parceria com o dramaturgo e neurocirurgião Jair Raso.

Mesmo com o texto pronto em meados dos anos 2000, os atores adiaram a montagem. “Eu disse: ‘não tenho estrutura para fazer essa peça agora’”, recorda Ilvio. Só durante a pandemia, diante das leituras feitas em casa, perceberam que era o momento de encarar o palco. A montagem estreou em formato reduzido, em uma live para a UFRJ, e rapidamente ganhou corpo e público.

O peso da doença e a leveza do afeto

No espetáculo, Ilvio interpreta um pai de 85 anos com Alzheimer, enquanto Maurício faz o papel do filho. A relação conflituosa entre eles se mistura à fragilidade trazida pela doença. “O Alzheimer não é uma doença só do paciente. Ele afeta muito mais quem está em volta, a família que convive todos os dias”, disse Ilvio.

A peça mescla humor e drama. Os atores lembram que, durante o espetáculo, as pessoas riem muito da inocência do personagem com Alzheimer e, em seguida, são levadas a refletir sobre perdão e reconciliação. De acordo com Maurício, o humor não vem de um esforço cômico, mas da própria realidade: “A gente não faz nada para ser engraçado ou emocionante. Nós apenas contamos a história. O público é quem encontra as emoções.”

Entre memória e esquecimento

As histórias de bastidores também revelam a força do tema. Ambos os atores passaram por episódios de amnésia global transitória, uma súbita perda temporária de memória. Para eles, a experiência pessoal reforçou ainda mais o vínculo com o espetáculo.

No palco ou fora dele, a peça desperta identificação imediata. “Tem gente que sai chorando e diz: ‘eu achei que só eu sentia isso em relação à minha mãe’. A peça mostra que não estamos sozinhos nessa experiência”, contou Maurício.

No fim, a reflexão que fica é sobre a permanência do afeto. “Se não há amor e respeito, não tem como ser feliz”, resumiu Ilvio.

Vá ao teatro

Maio, antes que você me esqueça

Teatro Estúdio

R. Conselheiro Nébias,891, São Paulo – São Paulo

Até 14 de Setembro

Sexta e Sábado às 20h30, Domingo às 18h00

Compre seu ingresso aqui

Assista ao Dez Por Cento Mais

Toda quarta-feira, ao meio-dia, tem um novo episódio no canal Dez Por Cento Mais, no YouTube. Você pode ouvir as entrevistas, também, no Spotify.

Avalanche Tricolor: o revés do Octa que me batizou gremista

Inter 1×1 Grêmio 

Campeonato Gaúcho – Beira-Rio, Porto Alegre, RS

Gre-Nal em 1969 em foto de arquivo

Era uma quarta-feira à noite quando o Grêmio desperdiçou a possibilidade de conquistar, pela primeira vez, o octacampeonato gaúcho: 17 de dezembro de 1969. Empatou o Gre-Nal, sem gols, no recém-inaugurado estádio José Pinheiro Borba, apelidado Beira-Rio.

Eu era apenas um guri de calções curtos, que havia completado seis anos em agosto de 1969. Lembro pouco daquele período, mas imagino que minha infância fosse muito mais simples do que a dos guris de hoje, expostos a todo tipo de estímulos digitais e uma infinidade de informações.

A história pessoal mais marcante daquele 1969 não ficou gravada na minha memória — porém, descobri, muitos anos depois, que estava registrada no meu coração. Ela era sempre contada pelos mais velhos nas reuniões em família, acompanhada de risadas, o que me levou a acreditar que fosse apenas um desses mitos familiares transmitidos entre gerações.

Por incrível que pareça, foi somente na vida adulta, já morando em São Paulo, que os fatos relatados pelos parentes foram confirmados por um dos protagonistas: meu pai, que dispensa apresentação aos caros e raros leitores desta Avalanche.

Vamos aos fatos: a perda do octacampeonato gaúcho fez com que o lado colorado do Rio Grande do Sul entrasse em êxtase. A flauta corria solta pela cidade, e os gremistas, desacostumados com aquela situação, andavam de cabeça baixa, provocados constantemente.

Lá em casa, na Saldanha Marinho, nas vizinhanças do Olímpico, falar de futebol passou a ser um tema proibido pelo meu pai – ao menos por aqueles dias. Eis que um primo de segundo grau resolveu fazer uma brincadeira (sem graça) e, aproveitando-se da minha ingenuidade, vestiu-me com uma camisa vermelha e me fez entrar em casa, com uma bandeirola colorada nas mãos, cantarolando “Papai é o maior”, espécie de hino não oficial do coirmão. Meu pai, irritado, pegou a bandeira e me deu umas palmadas para que eu aprendesse a lição.

Foi durante uma troca de posts em um blog de gremistas, ao contar como inspirei meus dois filhos a torcerem pelo Imortal Tricolor, que meu pai me surpreendeu com um pedido público de desculpas. Ele escreveu que eu havia sido muito mais inteligente do que ele na maneira de criar dois gremistas em casa e demonstrou arrependimento pelo ocorrido.

Além de dar boas gargalhadas ao descobrir que a história familiar era verdadeira, disse ao meu pai que ele não deveria se desculpar, pois a forma desajeitada com que agiu, talvez típica da educação da época, foi justamente o que me moldou gremista. A reação dele foi meu verdadeiro batismo. Foi a lição que precisei para entender qual era o lado certo da força, e eu agradecia por ele ter me conduzido na vida de torcedor.

Aprendi com meu pai, desde aquele dezembro de 1969, que os gremistas foram feitos para o sofrimento, para a luta eterna contra o improvável, para superar adversidades; somos imortais não porque não morremos, mas porque jamais desistimos, sabendo que a derrota de hoje nos fortalecerá para as conquistas futuras.

Sim, porque foi aquele Grêmio derrotado em 1969, que amargou oito anos seguidos de frustrações regionais na sequência, que se tornou forte o bastante para ganhar o título estadual de 77 e conquistar o Brasil, a Libertadores e o Mundial nos anos 1980.

O revés do octa de 1969 foi meu batismo tricolor. Que em 2025 muitos outros gremistas nasçam desta mesma essência épica e sofrida—mas por métodos mais saudáveis. Apesar de que das palmadas que levei, felizmente só restou mesmo o amor pelo Grêmio.

De Guri a Cavaliere: uma jornada de raízes e honrarias italianas

Recebo o título das mãos de Domenico Fornara e Lívia Satullo

Um domingo de memórias, emoções e lágrimas. Um dia para reviver os tempos daquele guri que, de mãos dadas com os pais, visitava a família Ferretti, em Caxias do Sul. A casa preferida na serra gaúcha era a da Tia Olga, na avenida Júlio de Castilhos. Um casarão de madeira com dois andares, cujo piso rangia a cada passo, e me encantava com suas enormes maçanetas de ferro nas portas dos quartos. Na mesa de jantar, a fartura de sempre, com sabor de massa caseira. No quintal, um poço que abastecia a família.

Sou italiano de origem e de temperamento, embora o nome que carrego no jornalismo não deixe isso claro. Sou Ferretti por obra e acaso do bisnonno Vitaliano, que, aos 20 anos, deixou Ferrara, na região da Emília-Romagna, para seguir o caminho de milhares de outros italianos rumo ao Brasil. Chegou aqui em 1897, passou por Minas Gerais, desceu para Porto Alegre e se estabeleceu em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Casado com a bisa Elvira, Vitalino teve 11 filhos. Uma delas foi minha nonna Ione, mãe do meu pai, a quem devo a gratidão por me batizar com o sobrenome Ferretti.

Hoje, nos altos do centenário Edifício Martinelli, recebi o título de Cavaliere Dell’Ordine Della Stella D’Italia, concedido pelo presidente da Itália, Sérgio Mattarella. A honraria me foi entregue pelas mãos do cônsul-geral Domenico Fornara e da vice-cônsul Lívia Satullo, que têm desempenhado um trabalho admirável ao fortalecer a marca da italianidade contemporânea no Brasil, continuando uma história que ajudou a moldar São Paulo.

O orgulho foi ainda maior ao saber que essa homenagem veio no ano em que celebramos os 150 anos da imigração italiana no Brasil. Foi graças a gente como o bisnonno Vitaliano que muito do que somos e fazemos hoje se tornou possível. Em várias regiões do Brasil — com destaque especial para o meu Rio Grande do Sul — a cultura italiana se faz presente nos sotaques, nos sabores, nos saberes e nos dizeres.

Nas poucas palavras que consegui articular, dominado pela emoção do momento, ao participar do lançamento da 13ª Settimana della Cucina Regionale Italiana, lembrei da minha infância com a vó e os tios Ferretti, em Caxias do Sul. Aproveitei para agradecer a todos que me abriram as portas da Itália e me apresentaram parte da riqueza histórica que o país guarda. E aqui fiz minha reverência especial aos cunhados Buccoliero e Guccione.

Tive ainda tempo para recordar a calorosa recepção que recebi no consulado italiano em São Paulo, por Filippo La Rosa, atualmente de volta a Roma — um diplomata de generosidade e cultura ímpares. Além disso, fiz questão de mencionar Walter Fanganiello Maierovitch, meu amigo e colega, que você ouve toda quinta-feira no Jornal da CBN. Ele foi essencial nessa jornada, despertando em mim o interesse e a curiosidade pela história das famílias italianas.

Haveria muitos outros nomes para citar nessa caminhada que me levou à honraria da República da Itália, mas a emoção restringiu minha memória, e a prudência pedia que o discurso fosse breve, para que todos pudessem aproveitar o prosciutto e o vinho nazionale servidos com esmero no evento.

Em memória de minha querida cunhada Helena Zang

Por Christian Müller Jung

Photo by Engin Akyurt on Pexels.com

A vida me ensinou a ter casa cheia!

Se há algo que guardo na memória do tempo de adolescente, é a quantidade de pães, presuntos e queijos que minha mãe trazia do supermercado. A geladeira sempre cheia, porque nunca se sabia quem mais poderia chegar. E assim eram os cafés da tarde, os jantares. A mesa rodeada de amigos que se misturavam aos meus irmãos. Família completa que habitava aqui mesmo, onde moro. Ao todo, éramos seis integrantes, mas houve tempos em que éramos mais. Na ordem de precedência, pai, mãe, irmã, irmão e uma prima.

Por duas vezes, as avós também vieram morar aqui. A mãe da minha mãe, que ficou por muitos anos, e depois a mãe do meu pai, que veio para receber os cuidados de saúde necessários para não precisar ir para uma clínica. Minha mãe sempre acolhia a todos. E assim, a mesa sempre repleta de pessoas. Parentes e amigos que se misturavam a toda hora. Os colegas do basquete do meu irmão, os meus colegas do Rosário, da banda de jazz, gente que entrava e saía e já sabia até onde ficava a chave da porta. E por isso aquela pilha de queijo sempre presente na geladeira.

E assim, eram as festas de final de ano. Faltava espaço e sobrava alegria. Por uma infelicidade, dessas tantas que se abatem sobre nós, ainda mais quando já somamos alguns anos de vida, minha mãe também se foi, muito antes do que o previsto na tabela do tempo, e eu me vi perdido, tentando juntar as pessoas como peças que caíam da caixa do jogo de xadrez. E a casa foi se esvaziando, cada um saindo aos poucos, tomando seu rumo, desenhando suas histórias. Para mim, um tanto de sofrimento de ver os cômodos vazios, precisando naquele momento, não de pão, presunto e queijo abarrotando a geladeira, mas de vozes se cruzando ao redor da mesa.

Mas essa vida é uma roda. Casei e a família da Lúcia passou a ser também a minha família. Ali, onde eu me agregava a uma turma nova, também trazia os meus a se somarem. E aos poucos fomos ocupando os espaços. Os filhos, cunhados, tios, avós, uma enorme corrente que novamente se unia formando um grande grupo. Recebi por herança essa vontade de reunir. Talvez por isso a casa tenha três churrasqueiras e quatro fogões. De fato, estar com as pessoas é o que mais nos enriquece, afinal precisamos uns dos outros. E ainda assim, a vida insiste em escorregar por nossas mãos.

Nessa roda que já citei anteriormente, muita gente que aparece nas fotos que se misturam entre álbuns, gavetas e paredes vai se indo. E não depende de nós esse controle. É um jogo que devemos aproveitar, não pra ganhar, mas por saber que teremos pessoas à volta dispostas a estarem contigo o tempo que lhes for dado. Que, à medida que tombamos no caminho, saibamos repor e dar espaço a novas vidas que se agregam. Os amigos do filho. Da filha. O genro, a nora, afilhados, sobrinhos, gente querida que dá prazer de novamente abarrotar a geladeira de queijo e presunto só pra ter a mesa novamente repleta de felicidade e toalha suja de comida. Pratos que se acumulam na pia e uma casa que no final do dia temos que colocar em ordem.

Sempre gostei de casa cheia. E pra cada um desses que se foram e que passaram por aqui, saibam que a casa sempre será de vocês, porque onde se soma alegria, mesmo na memória, o certo é que nos veremos um dia.

Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung — o irmão dele, com muito orgulho.

O rádio de madeira no balcão de casa

Por Christian Jung

 Este texto foi escrito originalmente para o site Coletiva.Net

O rádio SEMP em que ouvia o pai. Foto: Arquivo Pessoal

Na casa onde nasci e ainda moro, no período que tinha família com mãe, pai e irmãos morando juntos, havia um rádio de madeira da marca SEMP. Ficava em lugar privilegiado sobre o balcão da sala de jantar. Era nesse aparelho que ouvíamos as notícias, ao longo dos dias. Além da programação musical e os jogos de futebol.

Não por acaso, o rádio sempre esteve muito presente em minha vida e dos meus irmãos: era dentro daquela caixinha de madeira que nós escutávamos a voz do pai. Ele era o locutor do principal noticiário do rádio gaúcho, o Correspondente Renner, e narrador esportivo. O forte apelo emocional que o futebol tinha sobre o público e o fato de o rádio ser o único veículo a levar ao ar as emoções da bola, naquela época, faziam dos narradores esportivos, personalidades.

O pai era famoso pela precisão e velocidade na locução; e o jargão mais conhecido dos torcedores era o grito de gol: “Gol, gol, gol!”. E assim, por muitas vezes, quando andava com ele pelas ruas de Porto Alegre, escutava as pessoas gritando do outro lado da calçada:  “Milton Jung, o Homem do Gol, Gol, Gol!”

Mas voltemos ao SEMP. 

A imagem do velho rádio, que revi dia desses, me remeteu à ingenuidade da minha infância. Escutava o pai mais de uma vez por dia lendo as notícias “chatas de adultos”, que nada resolviam os meus problemas de criança. E diante dos meus momentos de malcriação, a mãe me repreendia e lembrava que o pai, dentro daquela caixinha, estava me escutando. 

Mesmo não achando muito provável, ao menos em frente ao rádio, procurava manter o silêncio. Era uma época em que a figura paterna impunha muito respeito. E os pais costumavam cobrar de forma austera. A bem da verdade, o pai não era desses de dar grandes broncas.

Apesar de desconfiar que estava sendo ludibriado, um fato me deixava em dúvida: ao voltar para almoçar em casa, o pai já sabia de tudo que eu havia aprontado. E ainda me chamava com o seu vozeirão: “Christian, o que aconteceu hoje?”. A ideia de que o rádio teria me delatado persistia. Sem perceber que era a mãe quem me entregava assim que ele chegava em casa. Por um bom tempo respeitei a caixinha de madeira da sala de jantar.

Hoje, é meu irmão que ocupa o espaço – dentro da caixinha de madeira – aliás, dentro do rádio e em rede nacional, mas meus sobrinhos não sofrem do mesmo terror – bem mais espertos e comportados do que o tio, logicamente. 

Sem contar que o modelo “rádio de madeira” virou item de colecionador. Atualmente, são várias as plataformas que permitem a transmissão das notícias e levam a informação a locais muito mais distantes. Não se corre mais o botão do dial para sintonizar a emissora preferida. Basta apertar a tecla ou usar o comando de voz para se ouvir a rádio e o locutor desejados.

Se acessar as notícias ficou mais fácil, o mesmo não se pode dizer da tarefa de unir a família no almoço. Ainda mais quando, na maioria das vezes, as cabeças sequer olham as panelas sobre a mesa porque estão afundadas na tela do celular.

Para que não seja indevidamente difamado: lá em casa, não aprontei muito, e aprendi de mais sobre o poder da comunicação.

Este texto foi escrito, originalmente, para o site Coletiva.Net

Christian Jung é publicitário, locutor e mestre de cerimônias (macfuca@gmail.com)

Conte Sua História de São Paulo: brinquei entre os cavalos da repressão e as moças do hotel

Dalton Giovannini

Ouvinte da CBN

Av. Casper Líbero em foto Wikipedia

Nasci no coração de São Paulo, na Avenida Casper Líbero, durante a década de 1960. Minha infância foi marcada pela necessidade de adaptar-me às escassas opções de lazer na sobreloja do prédio onde morávamos.  Não havia espaço de convivência e jogar bola nos estreitos corredores era um desafio, enquanto pedalar meu triciclo nas calçadas se tornava um espetáculo encantador, apesar dos transtornos causados aos pedestres.

Em uma ocasião memorável, enquanto passeava com minha tia Lucia, uma confusão repentina nos fez buscar refúgio no fundo de uma loja. As portas de ferro foram baixadas apressadamente, revelando uma cena de cavalos em disparada e pessoas fugindo—um reflexo dos desafiantes tempos que enfrentávamos.

Todos os dias, eu e minha irmã atravessávamos a magnifica Estação da Luz a pé, passando pelo parque em direção à escola estadual Prudente de Morais, que hoje faz parte da Pinacoteca. Admirávamos suas fontes, hoje secas, e brincávamos com os girinos que se reproduziam nas águas. 

Durante aquela época turbulenta, nossa escola, por vezes, recebia ameaças. Sem entendermos bem o que ocorria, vivíamos o inesperado prazer de sermos levados ao quartel da ROTA, situado em frente à escola. Ali, passávamos horas explorando os carros e equipamentos da polícia até que a situação se esclarecesse—momentos que se gravaram em minha memória.

Após as aulas, eu frequentemente visitava um pequeno hotel na rua Washington Luis, cujas funcionárias me recebiam com balas, doces e carinho. Embora na época eu não compreendesse exatamente o que elas faziam ali, essas visitas eram sempre um ponto alto do meu dia. Curiosamente, também me intrigava um bar na Avenida Cásper Líbero, que escondia pequenos “quartos” em seu interior. Sempre que tentava espiar, o dono do bar me repreendia carinhosamente, chamando-me de “mosquitinho elétrico”.

Outro momento inesquecível era a chegada dos primos que moravam nos bairros residenciais de São Paulo. Eles ficavam fascinados com o elevador do nosso prédio, que era cenário de muitas brincadeiras e frequentes reprimendas do zelador.

Apesar de ser um garoto tipicamente urbano, minha infância naquele cenário foi excepcional, permeada por garrafas de leite de vidro e emoções intensas. Naquela época, não era comum ter redes de proteção nas janelas, e brincar de se pendurar nelas era um passatempo recorrente.

Em 1970, aos oito anos, mudei-me para o bairro do Tucuruvi, na Vila Mazzei, onde vivenciei uma infância diferente, com algumas deficiências que trouxe do centro: nunca aprendi a empinar pipa e jamais avancei além da posição de goleiro. Mas foi lá que conheci Zé Grilo, um amigo que permanece ao meu lado até hoje e cuja memória fantástica guarda histórias que até eu duvido ter vivido. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Dalton Giovannini é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.