Avalanche Tricolor: o revés do Octa que me batizou gremista

Inter 1×1 Grêmio 

Campeonato Gaúcho – Beira-Rio, Porto Alegre, RS

Gre-Nal em 1969 em foto de arquivo

Era uma quarta-feira à noite quando o Grêmio desperdiçou a possibilidade de conquistar, pela primeira vez, o octacampeonato gaúcho: 17 de dezembro de 1969. Empatou o Gre-Nal, sem gols, no recém-inaugurado estádio José Pinheiro Borba, apelidado Beira-Rio.

Eu era apenas um guri de calções curtos, que havia completado seis anos em agosto de 1969. Lembro pouco daquele período, mas imagino que minha infância fosse muito mais simples do que a dos guris de hoje, expostos a todo tipo de estímulos digitais e uma infinidade de informações.

A história pessoal mais marcante daquele 1969 não ficou gravada na minha memória — porém, descobri, muitos anos depois, que estava registrada no meu coração. Ela era sempre contada pelos mais velhos nas reuniões em família, acompanhada de risadas, o que me levou a acreditar que fosse apenas um desses mitos familiares transmitidos entre gerações.

Por incrível que pareça, foi somente na vida adulta, já morando em São Paulo, que os fatos relatados pelos parentes foram confirmados por um dos protagonistas: meu pai, que dispensa apresentação aos caros e raros leitores desta Avalanche.

Vamos aos fatos: a perda do octacampeonato gaúcho fez com que o lado colorado do Rio Grande do Sul entrasse em êxtase. A flauta corria solta pela cidade, e os gremistas, desacostumados com aquela situação, andavam de cabeça baixa, provocados constantemente.

Lá em casa, na Saldanha Marinho, nas vizinhanças do Olímpico, falar de futebol passou a ser um tema proibido pelo meu pai – ao menos por aqueles dias. Eis que um primo de segundo grau resolveu fazer uma brincadeira (sem graça) e, aproveitando-se da minha ingenuidade, vestiu-me com uma camisa vermelha e me fez entrar em casa, com uma bandeirola colorada nas mãos, cantarolando “Papai é o maior”, espécie de hino não oficial do coirmão. Meu pai, irritado, pegou a bandeira e me deu umas palmadas para que eu aprendesse a lição.

Foi durante uma troca de posts em um blog de gremistas, ao contar como inspirei meus dois filhos a torcerem pelo Imortal Tricolor, que meu pai me surpreendeu com um pedido público de desculpas. Ele escreveu que eu havia sido muito mais inteligente do que ele na maneira de criar dois gremistas em casa e demonstrou arrependimento pelo ocorrido.

Além de dar boas gargalhadas ao descobrir que a história familiar era verdadeira, disse ao meu pai que ele não deveria se desculpar, pois a forma desajeitada com que agiu, talvez típica da educação da época, foi justamente o que me moldou gremista. A reação dele foi meu verdadeiro batismo. Foi a lição que precisei para entender qual era o lado certo da força, e eu agradecia por ele ter me conduzido na vida de torcedor.

Aprendi com meu pai, desde aquele dezembro de 1969, que os gremistas foram feitos para o sofrimento, para a luta eterna contra o improvável, para superar adversidades; somos imortais não porque não morremos, mas porque jamais desistimos, sabendo que a derrota de hoje nos fortalecerá para as conquistas futuras.

Sim, porque foi aquele Grêmio derrotado em 1969, que amargou oito anos seguidos de frustrações regionais na sequência, que se tornou forte o bastante para ganhar o título estadual de 77 e conquistar o Brasil, a Libertadores e o Mundial nos anos 1980.

O revés do octa de 1969 foi meu batismo tricolor. Que em 2025 muitos outros gremistas nasçam desta mesma essência épica e sofrida—mas por métodos mais saudáveis. Apesar de que das palmadas que levei, felizmente só restou mesmo o amor pelo Grêmio.

De Guri a Cavaliere: uma jornada de raízes e honrarias italianas

Recebo o título das mãos de Domenico Fornara e Lívia Satullo

Um domingo de memórias, emoções e lágrimas. Um dia para reviver os tempos daquele guri que, de mãos dadas com os pais, visitava a família Ferretti, em Caxias do Sul. A casa preferida na serra gaúcha era a da Tia Olga, na avenida Júlio de Castilhos. Um casarão de madeira com dois andares, cujo piso rangia a cada passo, e me encantava com suas enormes maçanetas de ferro nas portas dos quartos. Na mesa de jantar, a fartura de sempre, com sabor de massa caseira. No quintal, um poço que abastecia a família.

Sou italiano de origem e de temperamento, embora o nome que carrego no jornalismo não deixe isso claro. Sou Ferretti por obra e acaso do bisnonno Vitaliano, que, aos 20 anos, deixou Ferrara, na região da Emília-Romagna, para seguir o caminho de milhares de outros italianos rumo ao Brasil. Chegou aqui em 1897, passou por Minas Gerais, desceu para Porto Alegre e se estabeleceu em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Casado com a bisa Elvira, Vitalino teve 11 filhos. Uma delas foi minha nonna Ione, mãe do meu pai, a quem devo a gratidão por me batizar com o sobrenome Ferretti.

Hoje, nos altos do centenário Edifício Martinelli, recebi o título de Cavaliere Dell’Ordine Della Stella D’Italia, concedido pelo presidente da Itália, Sérgio Mattarella. A honraria me foi entregue pelas mãos do cônsul-geral Domenico Fornara e da vice-cônsul Lívia Satullo, que têm desempenhado um trabalho admirável ao fortalecer a marca da italianidade contemporânea no Brasil, continuando uma história que ajudou a moldar São Paulo.

O orgulho foi ainda maior ao saber que essa homenagem veio no ano em que celebramos os 150 anos da imigração italiana no Brasil. Foi graças a gente como o bisnonno Vitaliano que muito do que somos e fazemos hoje se tornou possível. Em várias regiões do Brasil — com destaque especial para o meu Rio Grande do Sul — a cultura italiana se faz presente nos sotaques, nos sabores, nos saberes e nos dizeres.

Nas poucas palavras que consegui articular, dominado pela emoção do momento, ao participar do lançamento da 13ª Settimana della Cucina Regionale Italiana, lembrei da minha infância com a vó e os tios Ferretti, em Caxias do Sul. Aproveitei para agradecer a todos que me abriram as portas da Itália e me apresentaram parte da riqueza histórica que o país guarda. E aqui fiz minha reverência especial aos cunhados Buccoliero e Guccione.

Tive ainda tempo para recordar a calorosa recepção que recebi no consulado italiano em São Paulo, por Filippo La Rosa, atualmente de volta a Roma — um diplomata de generosidade e cultura ímpares. Além disso, fiz questão de mencionar Walter Fanganiello Maierovitch, meu amigo e colega, que você ouve toda quinta-feira no Jornal da CBN. Ele foi essencial nessa jornada, despertando em mim o interesse e a curiosidade pela história das famílias italianas.

Haveria muitos outros nomes para citar nessa caminhada que me levou à honraria da República da Itália, mas a emoção restringiu minha memória, e a prudência pedia que o discurso fosse breve, para que todos pudessem aproveitar o prosciutto e o vinho nazionale servidos com esmero no evento.

Em memória de minha querida cunhada Helena Zang

Por Christian Müller Jung

Photo by Engin Akyurt on Pexels.com

A vida me ensinou a ter casa cheia!

Se há algo que guardo na memória do tempo de adolescente, é a quantidade de pães, presuntos e queijos que minha mãe trazia do supermercado. A geladeira sempre cheia, porque nunca se sabia quem mais poderia chegar. E assim eram os cafés da tarde, os jantares. A mesa rodeada de amigos que se misturavam aos meus irmãos. Família completa que habitava aqui mesmo, onde moro. Ao todo, éramos seis integrantes, mas houve tempos em que éramos mais. Na ordem de precedência, pai, mãe, irmã, irmão e uma prima.

Por duas vezes, as avós também vieram morar aqui. A mãe da minha mãe, que ficou por muitos anos, e depois a mãe do meu pai, que veio para receber os cuidados de saúde necessários para não precisar ir para uma clínica. Minha mãe sempre acolhia a todos. E assim, a mesa sempre repleta de pessoas. Parentes e amigos que se misturavam a toda hora. Os colegas do basquete do meu irmão, os meus colegas do Rosário, da banda de jazz, gente que entrava e saía e já sabia até onde ficava a chave da porta. E por isso aquela pilha de queijo sempre presente na geladeira.

E assim, eram as festas de final de ano. Faltava espaço e sobrava alegria. Por uma infelicidade, dessas tantas que se abatem sobre nós, ainda mais quando já somamos alguns anos de vida, minha mãe também se foi, muito antes do que o previsto na tabela do tempo, e eu me vi perdido, tentando juntar as pessoas como peças que caíam da caixa do jogo de xadrez. E a casa foi se esvaziando, cada um saindo aos poucos, tomando seu rumo, desenhando suas histórias. Para mim, um tanto de sofrimento de ver os cômodos vazios, precisando naquele momento, não de pão, presunto e queijo abarrotando a geladeira, mas de vozes se cruzando ao redor da mesa.

Mas essa vida é uma roda. Casei e a família da Lúcia passou a ser também a minha família. Ali, onde eu me agregava a uma turma nova, também trazia os meus a se somarem. E aos poucos fomos ocupando os espaços. Os filhos, cunhados, tios, avós, uma enorme corrente que novamente se unia formando um grande grupo. Recebi por herança essa vontade de reunir. Talvez por isso a casa tenha três churrasqueiras e quatro fogões. De fato, estar com as pessoas é o que mais nos enriquece, afinal precisamos uns dos outros. E ainda assim, a vida insiste em escorregar por nossas mãos.

Nessa roda que já citei anteriormente, muita gente que aparece nas fotos que se misturam entre álbuns, gavetas e paredes vai se indo. E não depende de nós esse controle. É um jogo que devemos aproveitar, não pra ganhar, mas por saber que teremos pessoas à volta dispostas a estarem contigo o tempo que lhes for dado. Que, à medida que tombamos no caminho, saibamos repor e dar espaço a novas vidas que se agregam. Os amigos do filho. Da filha. O genro, a nora, afilhados, sobrinhos, gente querida que dá prazer de novamente abarrotar a geladeira de queijo e presunto só pra ter a mesa novamente repleta de felicidade e toalha suja de comida. Pratos que se acumulam na pia e uma casa que no final do dia temos que colocar em ordem.

Sempre gostei de casa cheia. E pra cada um desses que se foram e que passaram por aqui, saibam que a casa sempre será de vocês, porque onde se soma alegria, mesmo na memória, o certo é que nos veremos um dia.

Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung — o irmão dele, com muito orgulho.

O rádio de madeira no balcão de casa

Por Christian Jung

 Este texto foi escrito originalmente para o site Coletiva.Net

O rádio SEMP em que ouvia o pai. Foto: Arquivo Pessoal

Na casa onde nasci e ainda moro, no período que tinha família com mãe, pai e irmãos morando juntos, havia um rádio de madeira da marca SEMP. Ficava em lugar privilegiado sobre o balcão da sala de jantar. Era nesse aparelho que ouvíamos as notícias, ao longo dos dias. Além da programação musical e os jogos de futebol.

Não por acaso, o rádio sempre esteve muito presente em minha vida e dos meus irmãos: era dentro daquela caixinha de madeira que nós escutávamos a voz do pai. Ele era o locutor do principal noticiário do rádio gaúcho, o Correspondente Renner, e narrador esportivo. O forte apelo emocional que o futebol tinha sobre o público e o fato de o rádio ser o único veículo a levar ao ar as emoções da bola, naquela época, faziam dos narradores esportivos, personalidades.

O pai era famoso pela precisão e velocidade na locução; e o jargão mais conhecido dos torcedores era o grito de gol: “Gol, gol, gol!”. E assim, por muitas vezes, quando andava com ele pelas ruas de Porto Alegre, escutava as pessoas gritando do outro lado da calçada:  “Milton Jung, o Homem do Gol, Gol, Gol!”

Mas voltemos ao SEMP. 

A imagem do velho rádio, que revi dia desses, me remeteu à ingenuidade da minha infância. Escutava o pai mais de uma vez por dia lendo as notícias “chatas de adultos”, que nada resolviam os meus problemas de criança. E diante dos meus momentos de malcriação, a mãe me repreendia e lembrava que o pai, dentro daquela caixinha, estava me escutando. 

Mesmo não achando muito provável, ao menos em frente ao rádio, procurava manter o silêncio. Era uma época em que a figura paterna impunha muito respeito. E os pais costumavam cobrar de forma austera. A bem da verdade, o pai não era desses de dar grandes broncas.

Apesar de desconfiar que estava sendo ludibriado, um fato me deixava em dúvida: ao voltar para almoçar em casa, o pai já sabia de tudo que eu havia aprontado. E ainda me chamava com o seu vozeirão: “Christian, o que aconteceu hoje?”. A ideia de que o rádio teria me delatado persistia. Sem perceber que era a mãe quem me entregava assim que ele chegava em casa. Por um bom tempo respeitei a caixinha de madeira da sala de jantar.

Hoje, é meu irmão que ocupa o espaço – dentro da caixinha de madeira – aliás, dentro do rádio e em rede nacional, mas meus sobrinhos não sofrem do mesmo terror – bem mais espertos e comportados do que o tio, logicamente. 

Sem contar que o modelo “rádio de madeira” virou item de colecionador. Atualmente, são várias as plataformas que permitem a transmissão das notícias e levam a informação a locais muito mais distantes. Não se corre mais o botão do dial para sintonizar a emissora preferida. Basta apertar a tecla ou usar o comando de voz para se ouvir a rádio e o locutor desejados.

Se acessar as notícias ficou mais fácil, o mesmo não se pode dizer da tarefa de unir a família no almoço. Ainda mais quando, na maioria das vezes, as cabeças sequer olham as panelas sobre a mesa porque estão afundadas na tela do celular.

Para que não seja indevidamente difamado: lá em casa, não aprontei muito, e aprendi de mais sobre o poder da comunicação.

Este texto foi escrito, originalmente, para o site Coletiva.Net

Christian Jung é publicitário, locutor e mestre de cerimônias (macfuca@gmail.com)

Conte Sua História de São Paulo: brinquei entre os cavalos da repressão e as moças do hotel

Dalton Giovannini

Ouvinte da CBN

Av. Casper Líbero em foto Wikipedia

Nasci no coração de São Paulo, na Avenida Casper Líbero, durante a década de 1960. Minha infância foi marcada pela necessidade de adaptar-me às escassas opções de lazer na sobreloja do prédio onde morávamos.  Não havia espaço de convivência e jogar bola nos estreitos corredores era um desafio, enquanto pedalar meu triciclo nas calçadas se tornava um espetáculo encantador, apesar dos transtornos causados aos pedestres.

Em uma ocasião memorável, enquanto passeava com minha tia Lucia, uma confusão repentina nos fez buscar refúgio no fundo de uma loja. As portas de ferro foram baixadas apressadamente, revelando uma cena de cavalos em disparada e pessoas fugindo—um reflexo dos desafiantes tempos que enfrentávamos.

Todos os dias, eu e minha irmã atravessávamos a magnifica Estação da Luz a pé, passando pelo parque em direção à escola estadual Prudente de Morais, que hoje faz parte da Pinacoteca. Admirávamos suas fontes, hoje secas, e brincávamos com os girinos que se reproduziam nas águas. 

Durante aquela época turbulenta, nossa escola, por vezes, recebia ameaças. Sem entendermos bem o que ocorria, vivíamos o inesperado prazer de sermos levados ao quartel da ROTA, situado em frente à escola. Ali, passávamos horas explorando os carros e equipamentos da polícia até que a situação se esclarecesse—momentos que se gravaram em minha memória.

Após as aulas, eu frequentemente visitava um pequeno hotel na rua Washington Luis, cujas funcionárias me recebiam com balas, doces e carinho. Embora na época eu não compreendesse exatamente o que elas faziam ali, essas visitas eram sempre um ponto alto do meu dia. Curiosamente, também me intrigava um bar na Avenida Cásper Líbero, que escondia pequenos “quartos” em seu interior. Sempre que tentava espiar, o dono do bar me repreendia carinhosamente, chamando-me de “mosquitinho elétrico”.

Outro momento inesquecível era a chegada dos primos que moravam nos bairros residenciais de São Paulo. Eles ficavam fascinados com o elevador do nosso prédio, que era cenário de muitas brincadeiras e frequentes reprimendas do zelador.

Apesar de ser um garoto tipicamente urbano, minha infância naquele cenário foi excepcional, permeada por garrafas de leite de vidro e emoções intensas. Naquela época, não era comum ter redes de proteção nas janelas, e brincar de se pendurar nelas era um passatempo recorrente.

Em 1970, aos oito anos, mudei-me para o bairro do Tucuruvi, na Vila Mazzei, onde vivenciei uma infância diferente, com algumas deficiências que trouxe do centro: nunca aprendi a empinar pipa e jamais avancei além da posição de goleiro. Mas foi lá que conheci Zé Grilo, um amigo que permanece ao meu lado até hoje e cuja memória fantástica guarda histórias que até eu duvido ter vivido. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Dalton Giovannini é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 470: um passeio nas lembranças da casa na Augusta

Miguel Chammas

Ouvinte da CBN

Hoje o dia está chuvoso e frio; perfeito para sentar em qualquer canto, calar a voz e permitir que o peito, através das lembranças, chore e ria o quanto e como quiser.

Não será preciso nenhum toque especial, nenhum gole de álcool ou qualquer outro motivador que seja. Basta, apenas, relaxar e esperar as memórias começarem a aparecer.

Bem pensado. Imediatamente colocado em prática. Surge uma dúvida: O que lembrar?

Bem, eu queria voltar no tempo, ir para as décadas de 40/50, e lá, naquele casarão da Rua Augusta, encontrar a minha infância, encontrar meu avô Gidi, minha avó Siti, minhas tias Neide e Zazá, meus primos Sonia e Roberto, minha mãe, meu pai, meu irmão.

Queria subir pelas escadas de mármore, ganhar o corredor, entrar no quarto da frente, encontrar meu avô, já doente, lhe fazer um cigarro de palha para, depois, ler uma boa parte do jornal até ele ressonar tranquilamente.

Depois, continuar percorrendo o longo corredor, ultrapassar o primeiro quarto onde dormiam eu, meu irmão, meu pai e minha mãezinha. Passar, logo em seguida, pelo segundo dormitório que era ocupado por minha tia Neide e meus primos Sonia e Roberto e, finalmente, chegar à sala de jantar onde as reuniões familiares aconteciam. Onde a árvore de Natal era montada todos os anos, e os presentes do ”Papai Noel” eram desembrulhados a cada dia 25 de Dezembro. Onde as macarronadas dos almoços domingueiros eram realizadas, onde os pacotes de doces do Bar Viaducto, comprados por meu pai, eram abertos e os doces devorados por todos, onde nós, crianças, a cada almoço, tínhamos, divididas com justiça, garrafas de deliciosas Tubainas.

Sala onde eu presenciei ainda garoto, os bailecos promovidos por minha tia, recheados de trilhas sonoras com Fernando Albuerne, Gregório Barrios, Lucho Gatica. Bing Crosby, Frank Sinatra, Tommy Dorsey, Glenn Miller e outros sons doces e melodiosos e, depois, passados alguns anos, mudado de assistente a promotor, passei a realizar bailinhos, não de garagem, mas de sala, abrilhantados por “Pick-up e sus Negritos”, amparados por “sandubas” de “Carne-Louca” e espetinhos de Salsicha e Picles enfeitando abacaxis ou outros que tais, regados a Ponche confeccionados com muita guaraná, Cinzano, frutas picadinhas e gelo.

Sala de mil lembranças, inclusive tristes, como os velórios de meu avô e depois de minha tia, quando era transformada em morgue, forrada de panos pretos, e iluminada por velas em castiçais prateados e flores de odor doce e nauseabundo, arejada por um pequeno aparelho emissor de ozônio de barulho irritante.

Queria continuar atravessando o corredor, passando pelo pequeno quartinho ocupado por minha tia, quando de sua solteirice, passando, depois, pela porta do único banheiro da casa que, no seu interior, guardava uma antiga cômoda de madeira usada para guardar materiais de higiene e toalhas de rosto e banho. Tinha, também, uma enorme banheira de ferro fundido, usada de quando em vez, para banhos alegres das crianças que, depois de se refestelarem na água represada, usavam o chuveiro elétrico que ao centro da banheira para o desensaboamento.

Chegaria, então, ao cômodo mais importante da casa, a cozinha, onde a vida inteligente da família se reunia nos dias não festivos para consumirem os alimentos (poucos no pós-guerra), mas elaborados com carinho e maestria por Tia Neide e minha mãe. A cozinha era simples, tinha um fogão de ferro onde eram acesos, com a ajuda de cascas de laranja secas que eram penduradas na barrinha em frente para transformarem os carvões inertes dentro das bocas do fogão, em brasas vivas, e emprestarem o seu calor para uma perfeita cocção dos alimentos.

Tinha também uma mesa antiga, de madeira já bastante gasta nas bordas arredondadas, um armário para guardar pratos e copos, uma pia que, nos seus baixos, tinham sido empilhadas umas tábuas para acondicionarem-se as panelas que, por sua vez, eram escondidas por uma cortininha de pano estampada com pequenas flores azuis.

A geladeira, que chegou um dia, para gáudio de todos, estava instalada ao lado da pia e, pasmem, era alimentada por barras de gelo que recebíamos diariamente através do “geleiro” e sua carroça básica.

Finalmente, descerrar a porta da cozinha e deparar com o cenário de minha pobre, mas alegre infância o quintal que, ainda hoje, povoa minhas lembranças.

No seguimento da porta da cozinha ficava uma escada que descia pela parede até o piso do quintal. Uma pequena parte do quintal, em que estava instalado o tanque onde um dia eu mergulhei como se fora um super-herói e quase matei de susto minha mãe, o corredor lateral e todo o porão da casa eram cimentados, O resto do enorme quintal era em terra bruta, onde além dos varais de roupa, suspensos por taquaras secas existiam, também, alguns mamoeiros, uma goiabeira de frutos vermelhos, onde eu saciava minha gula, uma velha parreira de uvas vermelhas e deliciosas e algumas ervam aromáticas, um enorme e pesado pilão de cimento dos tempos de minha avó e, a minha paixão, uma touceira de hortênsias azuis que eram o meu esconderijo preferido depois de alguma travessura.

Esta era minha casa, meu mundo, minha vida, minha querência querida.  Ah que bom seria poder voltar a ela e matar as saudades que hoje moram no meu coração.

Infelizmente, a realidade é cruel e sei, pesarosamente, ser impossível meu desejo, então tento amenizar estas saudades escrevendo e descrevendo o velho casarão.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Miguel Chammas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Seja você também personagem dos 470 anos da nossa cidade. O texto que você ouvirá a seguir foi adaptado para ser apresentado no rádio.

Escreva a sua história e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos leia o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Dez Por Cento Mais: na prevenção ao suicídio, a conversa que importa

A sociedade está passando por mudanças rápidas e os adolescentes enfrentam uma montanha-russa de desafios emocionais. Estamos em uma era de constantes conexões digitais, pressões acadêmicas e sociais, e uma exposição sem precedentes a informações e estímulos. Mas, ao mesmo tempo, testemunhamos uma mudança positiva: o aumento das conversas sobre saúde mental e a prevenção ao suicídio

A Dra. Nina Ferreira, médica psiquiatra, colaboradora deste blog, foi entrevistada no programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, quando falou do Setembro Amarelo, mês dedicado a prevenção ao suicídio. Na conversa mediada pela jornalista Abigail Costa e a psicóloga Simone Domingues, que também escrevem aqui no blog, os desafios enfrentados pelos adolescentes foi um dos destaques.

A necessidade de uma abordagem empática

É crucial adotar uma abordagem empática ao lidar com adolescentes e suas famílias, de acordo com Nina Ferreira, que é especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Para ela, compreender as necessidades emocionais, oferecer apoio genuíno e fornecer orientação apropriada são passos fundamentais na promoção da saúde mental dos jovens.

Um ponto essencial destacado na entrevista é que desafios emocionais fazem parte da jornada de todos nós. Sofrimento e incertezas são sentimentos comuns, e buscar ajuda profissional não é sinal de fraqueza, mas de coragem e responsabilidade consigo mesmo.

A responsabilidade pela saúde mental é compartilhada

A importância da família e da comunidade também foi ressaltada. A base de apoio fornecida por entes queridos e pela comunidade desempenha um papel vital na saúde mental dos adolescentes. A comunicação aberta, o respeito pelas emoções dos jovens e o compartilhamento de preocupações são cruciais.

Além disso, devemos lembrar que a responsabilidade pela saúde mental não recai apenas sobre os ombros dos profissionais de saúde mental. É uma responsabilidade compartilhada que abrange toda a sociedade. Todos nós temos um papel a desempenhar na construção de uma cultura de apoio.

É preciso criar uma cultura de apoio

Outro ponto importante é a necessidade de criar um ambiente em que os adolescentes se sintam à vontade para falar sobre suas emoções e buscar ajuda quando necessário. Conversas sobre saúde mental devem ser encorajadas, e o estigma associado a esses tópicos deve ser superado.

Na entrevista, a Dra. Nina Ferreira destacou a importância da comunicação. Na dúvida, devemos falar sobre questões relacionadas à saúde mental. A comunicação é a ponte que nos liga aos outros, e é fundamental para compreender e apoiar aqueles que estão passando por momentos difíceis.

Busque tratamento adequado

Histórias de superação e recuperação também foram compartilhadas pelas pessoas que assistiram ao programa, ao vivo. Elas nos lembram de que, com a ajuda adequada, é possível encontrar esperança e melhorar a qualidade de vida. Ter uma rede de apoio composta por amigos, familiares e profissionais de saúde é uma parte fundamental desse processo.

Prevenir problemas de saúde mental e buscar tratamento adequado quando necessário são aspectos vitais de nossa jornada. A Dra. Nina enfatizou que a saúde mental é a base para a saúde como um todo, e cuidar de nossa mente é essencial para uma vida plena e saudável. 

Sugestões para falar sobre suicídio 

  • Seja empático e compreensivo.
  • Evite julgamentos ou culpabilização.
  • Ofereça apoio e solidariedade.
  • Reforce que o suicídio é uma doença que pode ser tratada.
  • Incentive a pessoa a procurar ajuda profissional. 

Se você está pensando em suicídio, procure ajuda imediatamente.

Ligue para o CVV no telefone 188 ou acesse o site do Centro de Valorização da Vida

Assista aqui à entrevista completa com a Dra Nina Ferreira. O programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa e Simone Domingues, vai ao ar, todas às quartas-feiras, oito horas da noite, ao vivo, no YouTube:

Quem cuidará de nós?

Por Diego Felix Miguel

Foto de Georgy Druzhinin

Quantas vezes tivemos a oportunidade de refletir sobre como estamos envelhecendo? Ou ainda, sobre as condições que teremos na velhice? E aqui tomo a liberdade de problematizar um pouco mais, em não limitar essa reflexão a uma visão estritamente biológica.

Com quem chegaremos na velhice e será que essa ou essas pessoas estarão dispostas ou terão condições de cuidar de nós em caso de necessidade?

O aumento da expectativa de vida é uma conquista e talvez a maior evidência do quanto crescemos cientificamente e em estruturas socioculturais que foram fundamentais para a longevidade.

Relações e cuidados na velhice

Muitas mudanças aconteceram nos últimos anos e não necessariamente foram ruins, muito pelo contrário, comprovam que evoluímos e questionamos condicionamentos que reforçam a desigualdade nas relações de poder, o preconceito e a discriminação. 

As novas composições familiares que não atendem um padrão tradicional e heterossexual, o ingresso da mulher no mercado de trabalho, a migração dos filhos motivados por novas oportunidades de trabalho e estudo, são apenas alguns exemplos desse novo contexto social, que torna diferente o olhar e a vivência sobre o cuidado na velhice. 

Desigualdade social na velhice

Infelizmente, no Brasil, não conseguimos resolver um problema que nos submete a um cenário de insegurança e vulnerabilidade: a desigualdade social; aspecto que nos últimos anos têm preocupado a Organização Pan-americana de Saúde, por considerar que na velhice podem surgir demandas complexas que necessitem de cuidados de longa duração, seja em âmbito domiciliar, em serviços de saúde ou de assistência social.

Os cuidados de longa duração, de modo geral, são os cuidados que demandam uma atenção especializada ou de auxílio de outras pessoas – em caráter de cuidadores, atuando no controle de doenças crônicas, reabilitação, residência e demais assistências que garantam a independência, a autonomia e uma maior qualidade de vida na velhice.

Políticas públicas e família

Por outro lado, políticas públicas com foco nos cuidados de longa duração caminham lentamente, e muitas vezes, com discursos que reforçam uma ideia pejorativa sobre os serviços, atribuindo à família a responsabilidade do cuidado, desconsiderando sua composição, a intensidade das relações e os vínculos afetivos constituídos ao longo da vida entre seus membros. Como mencionado na Constituição Cidadã de 1988:

“Art. 229. Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores,

e os filhos maiores têm o dever de ajudar

e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade.

Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de

amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação

na comunidade, defendendo sua dignidade e

bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.

§ 1o Os programas de amparo aos idosos

serão executados preferencialmente em seus lares.”

Cuidados de longa duração

Um exemplo disso são as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) – que antes eram conhecidas por “asilos”, e que trazem em sua história um estigma associado ao abandono, pobreza, solidão e incapacidade.

Além dos aspectos culturais que nos distanciam desses serviços, ainda nos deparamos com fatores econômicos, pois são serviços caros por demandarem um cuidado especializado.

No Mapa das ILPI do Ministério Público de São Paulo, consta que existem cerca de 2257 instituições no estado de São Paulo que acolhem aproximadamente 42 mil pessoas idosas, porém somente 498 dessas instituições são filantrópicas – a maioria de caráter religioso e 48 instituições são públicas.

Desafios do cuidado domiciliar

Ao pensarmos no cuidado da pessoa idosa em casa, também enfrentamos outros desafios, e neste sentido, darei ênfase a dois deles: como estamos vivendo mais, já é uma realidade conhecermos pessoas idosas que cuidam de outras pessoas idosas. Sejam cônjuge ou filhos que cuidam de pais – e vice e versa. Sabemos que há poucas estruturas de apoio para essas pessoas, que muitas vezes sofrem por sobrecarga de atividades e estresse.

Por outro lado, aumentaram significativamente empresas e profissionais que se dedicam ao cuidado de pessoas idosas, porém além de envolver um custo que muitas famílias não possuem condições de arcar, ainda não há a regulamentação dessa profissão, assim como, uma estrutura formal mínima pedagógica que padronizem a formação profissional.

Nos últimos anos, as questões relacionadas ao cuidado a pessoas dependentes, principalmente de pessoas idosas, estão tomando uma maior notoriedade pública, muitas dessas, que emergiram em decorrência da pandemia de covid-19 onde revelou o Brasil como um país idadista, que não valoriza as pessoas mais velhas, em especial, as que demandam de cuidados de longa duração e que vivem em ILPI, que, ainda estão invisíveis paras as políticas públicas brasileiras, conforme aponta a Carta-manifesto “Quem vai cuidar de nós quando envelhecermos?”, lançada em maio de 2023, em menção ao Decreto nº 11.460 de 30 de março de 2023, que instituiu o Grupo de Trabalho Interministerial com o objetivo de elaborar a Política Nacional de Cuidados e o Plano Nacional de Cuidados, onde, de acordo com governo, serão consideradas as desigualdades sociais, com recortes relacionados a raça e classe social.

Engajamento e futuro da velhice

Pensar sobre quem cuidará de nós, caso tenhamos essa necessidade em algum momento da vida, é fundamental, assim como, nos engajarmos politicamente, enquanto sociedade civil, para garantir que num futuro próximo, possamos vivenciar a velhice de uma forma digna, com acesso garantido aos cuidados especializados.

Diego Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e membro da Diretoria da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo

Avalanche Tricolor: eu vim ver o Grêmio e venci!

Grêmio 1×0 Atlético MG

Brasileiro – Arena Grêmio

Ronald comemora o gol da vitória em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Estar em Porto Alegre é estar em família. É reviver o passado. É relembrar a vida que se foi e me trouxe até aqui. É homenagear os que me legaram a carreira que percorri e reencontrar o principal protagonista da minha história nas casas que frequentei quando criança, nas ruas pelas quais passei na adolescência e nas esquinas que me provocavam a escolher um caminho em busca do amadurecimento — eu mesmo.

Todas essas sensações percorrem as veias e mexem com as emoções quando chego à cidade. Estando aqui não há como esquecer o quanto minha história com o Grêmio foi importante — mais do que o time de futebol, aquele espaço que hoje é ruínas, muito próximo da casa em que vivi e me abriga sempre que visito a capital gaúcha foi meu palco de vida, onde forjei parte da personalidade que me representa, construí relações familiares e fraternais e aprendi a valorizar tanto vitórias quanto derrotas.

Estar na Arena, na noite desse sábado, ao lado do Christian, meu irmão, e da Jacque, minha irmã, é evocar aos céus a presença daquele que me fez gente e gremista — meu pai, que nos deixou há quatro anos em um 28 de julho. Por isso, mais do que o resultado, o que me importava era a solenidade do ato: vestir a camisa do Grêmio, sair de casa em direção ao estádio com meus irmãos, sentar-me em uma cadeira e ao lado deles torcer pelo que desse e viesse.

Veio uma vitória que nos projetou à vice-liderança do Campeonato Brasileiro. Vitória sofrida! Nem tanto pela forma como se construiu. O gol chegou cedo em uma cobrança de escanteio que foi concluída nas redes por Ronald, de apenas 20 anos, que está no clube desde pequeno e estreou hoje realizando o sonho de todos nós que já fomos um guri gremista.

O sofrimento deu-se na sequência quando o adversário se adonou da bola. Mesmo que não tenha sido capaz de transformar esse ato em superioridade técnica, exigiu uma atenção redobrada dos nossos marcadores. Nesse quesito, Walter Kannemann foi a referência do torcedor, foi gigante ao anular toda e qualquer tentativa de ataque. Nas vezes em que as ações passavam distante da intervenção de nosso zagueiro, Grando voltou a ser grande. Defendeu as bolas que por ventura não eram interceptadas por nossos defensores. E o fez mesmo naquelas em que o nível de dificuldade exigia rapidez e habilidade.

Saber sofrer é preciso. E o gremista ontem aprendeu mais um pouco. Entendeu o momento da equipe, apoiou do início ao fim, e comemorou de gol marcado a bola despachada pela lateral; de gol anulado a cartão amarelo para o adversário —- foi a primeira vez que assisti à revisão do VAR no estádio, e gostei, especialmente porque foi providencial. Sabia que os três pontos se faziam necessários e a torcida esteve ao lado do time — uma prévia do que acontecerá na quarta-feira, na Copa do Brasil. 

Nenhuma ausência no gramado me fez frustrar a expectativa de estar na Arena, porque vim a Porto Alegre, vi o Grêmio e venci (dentro e fora do campo)!

Pais, onde estamos na vida de filhos com deficiência?

Christian Müller Jung

Foto de Dobromir Dobrev

Esses dias assistindo a um desses programas dominicais na televisão deparei com mais uma reportagem a respeito da criação de filhos com deficiência.

Sem surpresa na abordagem. Lá estavam, novamente, duas coisas que me incomodam quando o tema é tratado. Primeiro, a figura paterna não existe. Segundo, o amor pelos filhos com deficiência é colocado em uma escala acima daquele que se tem pelos filhos sem deficiência.

Vamos partir do princípio que todo filho é uma dadiva. O amor incondicional não passa a existir com a presença ou não de uma deficiência. Existe porque existe. Porque se ama. Se é que você me entende!

Evidentemente, o envolvimento com o filho deficiente tem maior intensidade em razão dos cuidados, físicos e psicológicos, que ele exige. Ter um filho deficiente mesmo que seja uma escolha, como no caso de adoção, não é tarefa fácil! Deixe-me, porém, voltar ao assunto dos pais.

Como sou pai de uma menina deficiente, eu sei e já vi muitas dessas histórias de pais que pulam fora quando o problema surge. Não suportam o tanto de dedicação e paciência que é preciso, porque a partir daquele momento, em muitos casos, não se terá um filho que será independente quando chegar na fase adulta. Teremos alguém que vai precisar da gente para o resto de nossas vidas. Tem-se ainda a real preocupação do que será deles e quem os cuidará, já que pela expectativa de vida nós iremos embora antes deles. Não é coisa pra gente fraca!

Porém, conheço muitos pais que são exemplo de dedicação. Pais que casam com mulheres que já tem um filho deficiente e foram deixadas de lado no primeiro casamento por este motivo.

Pais que assumem com o maior carinho esse filho como sendo seu de sangue. Superam qualquer problema futuro em nome de um amor e dedicação. Pais que dividem a tarefa pesada da criação de um filho deficiente com a mãe dando equilíbrio a um casamento que algumas vezes se abala com esse inesperado acontecimento e que ninguém saberá lhe dar apoio a não ser o próprio tempo.

Eu sei o que fiz pela minha filha e o que venho fazendo. Quando ficamos sabendo que teríamos uma menina, pintei todo o quarto, montamos tudo para recebê-la da melhor forma. Por quase dois meses, com ela em coma, tinha que passar pela porta e ver o berço vazio sem saber se algum dia ela iria deitar ali. Lembro de quantas noites, depois dela ter chegado em casa, dormi no chão ao lado da cama com medo que ela tivesse uma convulsão como tantas que já tivera no hospital. Medo que parasse de respirar ou qualquer coisa do tipo. 

Você se dedica, se envolve, compartilha funções com a mãe, o casal enfrenta todas as barras pesadas que surgem no seu caminho e quando chega ao médico – e fomos há muitos neste tempo todo – você é considerado apenas uma figuração. O pai participativo não existe para aquele especialista. É como se falássemos com as paredes.  Eles olham e prestam atenção na mãe. O pai não existe, mais ou menos assim como nas reportagens da TV.

Claro que nem todos os médicos agem desta maneira, mas é preciso que se saiba que nem todos os pais agem da mesma maneira, também. É necessário entender a realidade de cada família.

Agora, pense comigo, se até profissionais acostumados com o cotidiano das crianças com deficiência nos tratam assim, imagine na reportagem da televisão.

Como escrevi logo no início, o outro aspecto que me incomoda é maneira como os filhos com deficiência são descritos. Por favor, não me veja como alguém cruel. Mas essa áurea de algo especial é muito mais bonita nas reportagens do que no dia a dia de quem se dedica a buscar uma melhor qualidade de vida aos seus filhos. E de forma geral as abordagens referentes aos filhos com algum tipo de problema é que eles são muito especiais. Sim, é lógico que são! Como todos os filhos são especiais para nós! Todos exigem cuidado, atenção e dedicação. 

Sem dúvida, quem tem maiores limites exigirá mais do que os que caminham e pensam por conta própria. Aliás, um alerta: é preciso cuidar muito desses que caminham e pensam por conta própria, porque eles também correm o risco de serem esquecidos em detrimento dos filhos com deficiência. E sabemos como é importante e necessário a atenção dos pais nas diversas fases da vida, sabemos das carências que eles tem, das dúvidas, das contradições que a infância e a adolescência nos impõe.

Não quero com este texto que você pense que sou um pai revoltado ou desgostoso com o que a vida me preparou, mas quero sim que saiba que a vida que levamos com os filhos deficientes é muito diferente de uma propaganda de margarina. Muito diferente da maioria das reportagens que assistimos. É uma vida dura, sim. Por vezes, é triste. É de eterna adaptação, é de estado de alerta. Muitas vezes temos de nos levar a superação para tolerar até mesmo comportamentos intempestivos. Fazemos de cada limão uma limonada. Tentamos tornar os dias o mais próximo do que idealizamos para eles. E, claro, também, sorrimos, nos emocionamos e comemoramos. 

Porque somos pais presentes, existentes! 

Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão e pai da Vitória e do Fernando. Colabora com o blogo do Mílton Jung — o irmão dele, com muito orgulho.