Saíamos de Belo Horizonte bem cedinho, com destino à cidade de São Paulo, pela rodovia Fernão Dias, em um pequeno veículo, um DKW-Vemag. Na direção, meu avô. No banco ao lado, minha avó. Atrás, minha mãe, eu, com dez anos, e mais duas primas, também crianças.
Na metade do trajeto, em Campanha, onde havia uma parada da Cometa, estacionávamos na beira da estrada e, à sombra de eucaliptos, a vovó estendia uma toalha xadrez para um lanche com farofa e quitutes.
Chegávamos a São Paulo à noitinha e nos hospedávamos na casa de uma tia, no bairro da Bela Vista, talvez na Rua Dr. Plínio Barreto.
Da varanda, no sexto andar, eu avistava a boca do túnel da 9 de Julho e, na praça, via aqueles pequenos carrinhos Romi-Isetta e também os Fuscas da polícia, pintados de preto e branco. Era tudo novidade para o mineirinho.
Fazíamos passeios pelo centro da cidade, pelo Viaduto do Chá e pelo Vale do Anhangabaú. As compras eram no Mappin e na Sears. Não existiam os shoppings.
No fim de semana, descíamos a serra pela Via Anchieta, apreciando a mata, os viadutos e os túneis, com destino a Praia Grande, passando por Santos, São Vicente e pela ponte estaiada, até uma pequena casa de praia da tia, bem ao lado de um pequeno aeroclube.
Os banhos de mar eram em água limpa, numa praia de areia limpa e plana. Era um passeio maravilhoso que deixou saudades.
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Hamilton P. Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcas do Conte Sua Historia de São Paulo
Cerca de 4% a 5% dos presos autorizados a sair temporariamente apresentam alguma irregularidade no retorno ao sistema prisional. O significado desses números e os efeitos da proibição das visitas familiares foram discutidos na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN.
Participaram do debate César Dario Mariano da Silva, procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo e professor de Direito Penal e Processual Penal, e Renato Vieira, mestre e doutor em Direito Processual Penal e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.
A saída temporária foi incorporada à legislação brasileira em 1977 e organizada pela Lei de Execução Penal, de 1984. Destinava-se a presos do regime semiaberto e permitia, mediante autorização judicial, visitas à família, frequência a cursos e participação em atividades de reintegração social.
Em 2024, o Congresso derrubou vetos presidenciais e proibiu as saídas para visitas familiares e atividades de retorno ao convívio social. A legislação manteve a autorização relacionada aos estudos. O debate, portanto, é sobre preservar essa restrição ou recuperar o instrumento com novos critérios.
Evasões e riscos para a população
César Dario afirmou que trabalhou por mais de 15 anos na área de execução penal e citou um índice de evasão próximo de 4%. Segundo ele, diante da liberação de aproximadamente 30 mil presos em cada período, o percentual representava cerca de 1.200 pessoas que não retornavam.
“Se nós tivermos mais presos na rua e a grande maioria deles sem a devida fiscalização, nós teremos o aumento da prática de crime”, afirmou.
O procurador também criticou a forma ampla como o benefício era concedido e a falta de fiscalização. Sua posição, porém, não é favorável a uma proibição sem exceções. Ele defendeu a possibilidade de saída para presos sem periculosidade, condenados por crimes sem violência ou grave ameaça, com bom comportamento, exame criminológico e monitoramento eletrônico.
Para César Dario, restringir as visitas familiares não elimina a individualização da pena, porque o condenado ainda pode progredir do regime fechado para o semiaberto e, depois, para o aberto. Ele também lembrou que a pena não tem apenas a função de ressocializar, mas procura desestimular a prática de novos crimes.
Fiscalização e retorno à sociedade
Renato Vieira reconheceu que os dados oficiais indicam irregularidades no retorno de 4% a 5% dos beneficiados. Ressalvou, contudo, que esse grupo inclui presos que voltaram com atraso. Portanto, o número não pode ser apresentado automaticamente como percentual de fugitivos ou de autores de novos crimes.
Para ele, falhas de fiscalização exigem uma resposta do Estado, e não a eliminação de um instrumento destinado a pessoas que já cumprem pena no regime semiaberto e se aproximam da liberdade.
“Quando nós cassamos esse benefício, nós estamos tirando a possibilidade de uma progressão do regime como manda a Constituição, que é a individualização da pena”, afirmou.
Renato defendeu o monitoramento dos presos e lembrou que o atraso ou o descumprimento das condições da saída pode ser considerado falta grave, com a regressão para um regime mais rigoroso. Na avaliação dele, impedir o contato familiar aproxima o regime semiaberto do fechado e pode prejudicar a preparação para a liberdade.
O confronto entre os dois argumentos expõe o centro da discussão. A saída temporária precisa proteger a sociedade, prever critérios rigorosos e permitir fiscalização. Ao mesmo tempo, o sistema penal terá de decidir como preparar o preso para voltar ao convívio social. Afinal, para a maioria dos condenados, a porta da prisão um dia será aberta de forma definitiva.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
O Brasil registra seis estupros de menores de 14 anos por hora e, ao mesmo tempo, enfrenta a controvérsia sobre até onde a escola deve ir ao abordar sexualidade com crianças e adolescentes. O tema foi discutido na série 50 Debates Para o Brasil, do Jornal da CBN, por Luciana Temer, advogada, professora de Direito Constitucional da PUC-SP e diretora-presidente do Instituto Liberta, e Guilherme Schelb, procurador da República em Brasília, mestre em Direito Constitucional e especialista em infância e educação.
A discussão não se resume a ensinar ou não ensinar educação sexual. Envolve definir o que deve ser abordado, em qual idade, por quem e com quais limites. Também coloca em debate como dividir essa responsabilidade entre escola, família, Estado e sociedade.
Guilherme Schelb defende que qualquer conteúdo deve partir da legislação e respeitar o estágio de desenvolvimento de crianças e adolescentes. Para ele, a escola pode abordar questões relacionadas à sexualidade, mas precisa estabelecer fronteiras claras para evitar a exposição precoce a conteúdos próprios da vida sexual adulta.
“O ponto central é respeitar a integridade psicológica e sexual da criança”, afirmou. Schelb argumentou que crianças não devem ser tratadas como “adultos pequenos” e que os conteúdos precisam considerar a vulnerabilidade própria de cada faixa etária.
Luciana Temer prefere fazer uma distinção. Em vez de tratar todo o conteúdo sob o rótulo de educação sexual, defende prevenção da violência sexual para crianças e sexualidade saudável e responsável para adolescentes.
Ela sustentou a posição com dados sobre violência. Segundo Luciana, o Brasil dos estupros de menores de 14 anos registrados, 30% das vítimas têm até nove anos e 60% dos casos acontecem dentro da casa da vítima, praticados por familiares.
“Se a criança não tem uma preparação na escola, é (preciso) falar sobre percepções e prevenções de violência. Isso é possível? É possível”, disse.
Para os adolescentes, Luciana citou outro dado: cerca de 30 bebês nascem por dia no Brasil de mães com até 14 anos. Também mencionou pesquisa do IBGE segundo a qual muitos jovens iniciam a vida sexual aos 13 ou 14 anos. Na avaliação dela, deixar de conversar sobre o assunto não impede que adolescentes tenham contato com a sexualidade; apenas aumenta o risco de que recebam informações inadequadas ou distorcidas.
Quem decide o que será ensinado
Um ponto de aproximação entre os debatedores apareceu na necessidade de estabelecer critérios para os conteúdos.
Schelb criticou a falta de padronização. “Cada um faz o que bem acha melhor”, afirmou, ao defender regras que estabeleçam o que pode ser abordado em cada idade. Para ele, as famílias também precisam participar desse processo e ser orientadas para conversar com os filhos.
Luciana também defendeu conteúdos adequados às diferentes fases do desenvolvimento. Citou como exemplo que, com crianças pequenas, a prevenção pode ocorrer por meio de atitudes protetivas, enquanto crianças maiores podem receber orientações sobre violência digital e adolescentes podem discutir responsabilidade e sexualidade.
“O que nós não podemos mais é não fazer esta conversa”, afirmou. Para ela, a responsabilidade não deve ficar exclusivamente com a família nem exclusivamente com a escola. A Constituição estabelece que a proteção de crianças e adolescentes é dever compartilhado pela família, pela sociedade e pelo Estado.
A divergência, portanto, está menos na necessidade de proteger crianças e adolescentes e mais em como transformar essa proteção em conteúdo escolar. De um lado, há o receio de que a escola ultrapasse limites e exponha alunos precocemente a temas inadequados. Do outro, o argumento de que o silêncio também produz riscos, especialmente diante da violência sexual e do início da vida sexual na adolescência.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
O sentimento de pai não percorre a estrada da genética, mas a autoestrada do coração.
Uma rodovia que, em simultâneo à sinalização das leis, emana o bálsamo do amor incondicional, transformando o vínculo em presença, cuidado e proteção.
Desde os primeiros quilômetros dessa jornada, revela-se uma das mais belas magias da vida: aquela que faz coexistirem o pai humano com suas limitações e o pai herói, visto pelos olhos do(a) filho(a).
Coexistência que serve de alicerce para a estrutura da personalidade e para a construção dos valores pessoais, nutrindo sentimentos que fortalecem o ser humano: confiança, coragem, segurança e esperança.
PAI, uma palavra de apenas três letras que, com simplicidade e beleza, abriga em si mesma o verdadeiro significado do sentimento de pai — Proteção, Amor e Inspiração.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad
Grêmio 2×2 Montevideo City Torque Sul-Americana – Arena do Grêmio
Mec comemora o primeiro gol do Grêmio Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Hoje era aniversário da sogra. E, ao contrário do senso comum, sogra a gente respeita, sim. Especialmente quando a festa é de 89 anos. Depois de tudo que ela já enfrentou na vida, estava ali, ao lado da família, feliz e celebrando. O olhar sempre lacrimejando de emoção brilhava — sinal da luz que faz questão de manter acesa por muitos anos mais. Vê-la à mesa, cercada pelas filhas, netos e genros, traz esperança de que caminhamos para uma vida longa.
Em meio aos brindes regados a vinho, aos porpetones de entrada e à massa servida como prato principal, encontrei espaço para desviar o olhar até a televisão, onde o Grêmio seguia sua saga em busca da reconstrução. Os passes errados na defesa, a marcação frouxa pelas laterais, as lesões logo cedo e a ausência de dois de seus principais jogadores no meio-campo cobraram um preço alto no primeiro tempo.
Na volta do vestiário, já com Arthur e Gabriel Mec, o time rendeu muito mais. Ficou mais ofensivo e chegou ao empate duas vezes — insuficiente para as pretensões desta reta final antes da Copa do Mundo. A intenção era garantir a classificação em primeiro lugar e evitar os jogos de playoff na Sul-Americana. Não conseguimos. Consola o fato de seguirmos vivos na competição, assim como na Copa do Brasil.
O resultado desta noite aumentará a pressão para a partida de sábado pelo Brasileiro, quando teremos a obrigação de entrar em campo com os onze melhores que estiverem à disposição — sem direito a poupar nem economizar esforços.
Se antes um empate em casa era tratado com certa parcimônia, agora haverá cobrança pelos três pontos. Uma vitória será importante para aliviar a pressão nas arquibancadas e nas redes (antis)sociais. Também dará mais tranquilidade para os trabalhos durante a parada da Copa do Mundo e para a retomada da temporada, em julho.
Confesso que o tropeço desta noite não me afetou como em outros tempos. Talvez porque eu confie na possibilidade de um Grêmio melhor no segundo semestre. Talvez porque a maturidade ensine a relativizar derrotas e empates. Ou talvez porque, diante de uma mesa cercada de afeto, celebrando 89 anos de vida, o futebol tenha sido colocado no lugar que lhe cabe: importante, apaixonante, mas incapaz de superar a grandeza de uma noite em família.
Tenho 66 anos. Sou paulistano. Moro no Alto de Pinheiros. Minha história em São Paulo não começa comigo. Inicia-se antes, bem antes, no fim do século XIX, em Piracicaba, com meu avô materno, Olégario José de Godoy.
Ainda moço, ele já dedilhava a viola e compunha suas próprias modas. A música, naquela época, não era sonho distante — era destino Olegário veio para São Paulo para fazer história: gravou, em 1934, o primeiro disco de música sertaneja do Brasil. Ficou conhecido como Sorocabinha, com a dupla Mandy e Sorocabinha. E, sem saber, deixou gravado não só uns discos, mas um legado.
Tempos depois, já instalado na capital, trouxe a família. Foi aqui que, nos anos 1940, minha mãe conheceu meu pai, na frente da igreja do Calvário, em Pinheiros — um jovem recém-chegado de Franca, como tantos outros, tentando a vida na cidade grande.
Meu pai montou uma oficina mecânica, trabalhou muito, como se trabalhava naquela época: com as mãos, com o corpo e com esperança. Em 1943, ele e minha mãe se casaram. Construíram uma família simples, sólida, cheia de valores.
Tiveram três filhos. Eu fui a rapa do tacho. Nasci em 1959. Cresci aprendendo pelo exemplo o valor do trabalho, da honestidade e do afeto. Honro profundamente meus pais por isso — pela educação, pela formação e, sobretudo, pelo carinho.
A vida seguiu seu curso. Quase aos 50 anos, me casei com uma mulher maravilhosa. Trabalhamos bastante, sou engenheiro, viajamos pelo mundo, conhecemos muitos lugares. Mas há algo curioso: por mais bonitas que sejam outras cidades, o coração sempre bate mais forte quando o avião pousa em São Paulo.
Foi aqui que nasci. Aqui fui criado. Aqui trabalho. Aqui me casei. E é aqui que exercemos um dos maiores aprendizados da vida: o de servir. Somos voluntários do Grupo Solidar, uma ONG onde preparamos e servimos café da manhã para pessoas em situação de rua. Em cada xícara de café, em cada pão entregue, há respeito, dignidade e humanidade — valores que São Paulo também carrega, mesmo em meio ao concreto.
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Valmir Roney da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Cristo Redentor no RJ Foto: Oliver Schmid on Pexels.com
Uma pesquisa nacional com mais de 10 mil entrevistas reforça três forças que organizam a vida do brasileiro: família, fé e música. O tema foi analisado no comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a partir de um estudo encomendado pela Globo à Quaest.
O levantamento, batizado de Brasil no Espelho, mostra como esses pilares influenciam decisões, expectativas e vínculos. Para 96% dos entrevistados, a família é a coisa mais importante da vida. O dado não apenas confirma uma percepção comum, como dá escala ao sentimento. Cecília Russo observa que “só constrói marca forte quem entende de gente” e lembra que, quando os números aparecem, “fica ainda mais claro” o peso da família nas relações e escolhas do dia a dia.
Esse centro familiar orienta sonhos e comportamentos. O maior desejo declarado é ver a família feliz. No campo das marcas, a consequência é direta: ignorar esse valor custa caro. “Qualquer marca que fira o sentido de família tem altas chances de ser descartada”, afirma Cecília. Não se trata de romantizar, mas de reconhecer um vetor real de decisão.
Ao lado da família, a fé aparece com força semelhante. Também para 96% dos brasileiros, Deus está no comando da vida; mais de 80% dizem ter fé em algo. A religiosidade ajuda a explicar a positividade apontada pela pesquisa e pede cautela na comunicação. Jaime Troiano reforça que “no campo da fé, as marcas precisam de muito respeito”, sem uso oportunista, traduzindo crença em mensagens de confiança e futuro.
O terceiro pilar é a música. Quase a totalidade da população ouve música, com preferência majoritária pela produção nacional. Aqui, identidade fala alto. “No Brasil, música não é fundo, é protagonismo”, diz Jaime. Quando marcas escolhem trilhas, artistas e ritmos com atenção ao território, comunicam pertencimento: “estão dizendo ‘eu entendo quem você é’”.
Da análise emerge um recado simples e exigente. Marcas não podem ser apenas funcionais; precisam ser simbólicas. “Marcas que entendem o brasileiro não vendem apenas produtos, vendem proteção, cuidado, esperança e pertencimento”, resume Jaime. Por isso cenas de mesa cheia, riso solto e pequenas celebrações funcionam: vendem o que está no coração.
A marca do Sua Marca
Entender pessoas vem antes de vender produtos. O comentário mostra que estratégias eficazes partem do reconhecimento de valores centrais — família, fé e música — tratados com respeito e coerência.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
São Paulo, década de 1940. Primeiro vieram os Carinalli, que saíram de uma pequena cidade do interior, Cosmópolis, para tentar a sorte em São Paulo. Eram moradores de colônias construídas na fazenda para abrigar os trabalhadores da Usina Ester, produtora de açúcar e álcool. Depois vieram os Baron, Rosa, Tejeda. Todos atraídos pela força da cidade grande.
O local escolhido não por consenso, mas por decisão do primeiro que chegou: Ipiranga, Vila Carioca. Moravam em um espaço de dois ou três quarteirões, tendo como centro a Rua Lício de Miranda. Viviam em cortiços ou em casas, próximos uns dos outros. Formavam a comunidade da Usina Ester, em São Paulo.
Minha mãe que herdou o nome da usina de açúcar, Dona Esther, chegou no fim dos anos 1940. Da família Todero, viúva, veio com a filha mais velha, morar no mesmo quarteirão dos Rosa, do marido falecido. Conheceu meu pai, que era de Birigui. Foi aí que nasci, e passei a morar na comunidade da Usina Ester.
Lembro dos casamentos, muitos entre famílias que vieram da Usina. Eu mesmo casei com minha esposa, também de Cosmópolis, e continuei morando na Vila Carioca. Quando vinha alguém lá da usina ou da cidade natal era uma festa — oportunidade de lembrar as histórias de antigamente.
Estas comunidades duraram até os anos 1990. Perderam-se, substituída pelos barracões e pelo crescimento da cidade. Os cortiços já não estão mais lá, a comunidade se espalhou por outros lugares — eu estou morando em Paulínia, pertinho de Cosmópolis. As ruas Licio de Miranda, Albino de Moraes, Brás de Pina e Colorado resistem bravamente, assim como o calçamento de paralelepípedo e um solitário portão de uma das antigas casas.
Sobraram saudades que tentamos passar para as novas gerações; lembranças deste tempo que se foi na garoa e na neblina de São Paulo. O progresso levou embora as colônias da Usina Ester.
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Fábio J. Orenhas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Vivíamos em Pirituba: pais, a nona e cinco filhos. A rua era de terra, não era asfaltada. Eram os anos de 1970. Em frente de casa passava o trem suburbano que fazia o trajeto entre Jundiai e ABC. Nosso transporte era o trem.
Fomos criados brincando na rua desde pequenos. Um olhava pelo outro. Aos domingos, a mãe nos ensinou a frequentar a paróquia São Luiz Gonzaga. Para chegar lá, se passava por um caminho ermo e com escadas de terra. Apesar de pequenos, fazíamos tal passagem, muitas vezes, sozinhos.
Sempre havia o Sol.
Sempre havia a calmaria.
Sempre tinha bolo, polenta, pudim de pão amanhecido.
Sempre vizinhos para bater papinho.
Já na juventude havia as domingueiras no clube Piritubão. Lá, a gente se divertia. Eu, como a mais velha do grupo, liderava as moças mais jovens. Fazia com que ficassem juntas e não saíssem com os garotos para fora do clube. As mães confiavam em mim.
Dançávamos bastante e às dez da noite bora para casa que na segunda tinha de pegar trem para trabalhar, retornar à noite, tomar sopa de feijão com macarrão na nona e estudar no Colégio Xavier Antunes que ficava meia hora de caminhada pelos trilhos do trem. E lá íamos com nossa capa branca de estudante noturno.
Tudo passou, crescemos, partimos de Pirituba, parentes se foram e a saudade ficou.
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Rose Mari Sibinel Fasciani é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Cheguei em 1978. Vim de onde o mar é o céu. Meio dia de viagem, na rodoviária Julio Prestes chegamos. Eu vim acompanhado de dois dos sete, quem nos trouxe foi outro. Atravessei o rio, esse já estava sujo; continua, apesar do já gasto. Chegamos na Freguesia do Ó. De lá corri por dias das férias em campo de cimento, diferentemente dos de terra e mato.
Encontrei mãe, irmãs e irmão que aqui já estavam. Todos agora nos juntamos a ele que veio bem antes para fazer o futuro. Essa chegada me fez vislumbrar uma São Paulo que ao longo do tempo aprendi a admirar e temer. Sempre atravessei a cidade no trem, no ônibus e no metrô.
No início foi na Cidade de Deus onde aprendi minha primeira profissão: mecanógrafo. De lá, técnico eletrônico. E, a partir deste, rodei por agências consertando tudo que mandavam. Nos intervalos, futebol e bailes. Colegas de todos os lugares. As domingueiras eram sempre animadas.
Já se foram 37 anos e hoje ou só hoje consigo parar para contar essa trajetória de luta e sucesso; de alguns tombos que me fizeram o que sou; de amigos que passaram e outros que continuam. Entre minha chegada e minha estada, são dois filhos e uma filha, todos paulistanos. Mas ela que me acompanha, também veio da minha terra natal.
Agora termino para agradecer a cidade que me fez este profissional e o cidadão que sou.
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José Geraldo Leite Coura é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.