Por Abigail Costa
Depois de uma discussão boba entre mãe e filho, alguém sempre diz uma besteira. E foi ela quem soltou essa:
– Olha que troco a fechadura e você não entra mais aqui.
O rapaz dá de ombros e sai para o trabalho. Passa a noite com os amigos bebendo e volta pra casa na manhã seguinte. Enfia a chave na fechadura e a porta não abre. Tenta mais umas três vezes. Resolve tocar a campainha. Uma duas, cinco vezes.
– Tudo bem, não vai abrir? vou embora e não volto mais – diz pra ele mesmo.
E foi.
Alugou um pequeno apartamento no centro de São Paulo e convidou a namorada para morar juntos. Assim, dormindo lado a lado, não tardou para primeira gravidez. Ele na empresa, trabalhando. A mãe na casa dela. Entre eles, nenhum telefonema. Nenhuma explicação.
Veio a segunda filha. E o anos passando.
Um dia recebe uma notícia: A mãe está doente.
O moço, agora chefe de família, resolve levar as netas para conhecer a avó.
Entre uma conversa e outra ele faz a pergunta que ficou na garganta por mais de 10 anos:
– Mãe, por que você fez aquilo comigo?
– Aquilo o quê?
-Você trocou a fechadura.
-Eu? Não troquei nada!
-Não?
– Naquele dia a minha chave quebrou, e eu fui atrás de conserto.
-Por que você não me disse?
-Você nunca perguntou?
A história acima é verdadeira. Uma vida que poderia ser diferente por uma volta na fechadura. Coisa de segundos.
Uma falta de comunicação que mudou vidas, separou pessoas, causou infelicidade, remorso.
Quantos hoje estão separados por conta de uma volta mal dada na fechadura de casa?
Abigail Costa é jornalista, escreve no Blog do Mílton Jung e não dá voltas pra dizer o que pensa.