De viagem, vida e leveza

 

Por Maria Lucia Solla
(escrito em 2008)

 

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Imagina que está arrumando as malas para passar um mês num país distante.

 

Calcula o tempo necessário, pensa se começaria a separar o que pretende levar com antecedência, ou se faria tudo de véspera. Imagina também que você mora sozinho e é o único responsável pelos pagamentos de contas e tudo o que envolve a administração da casa. Não estou de brincadeira, não, faz isso por alguns minutos. Elenca mentalmente o que levaria e como deixaria as coisas organizadas, para não ser surpreendido na volta pelo caos. Garanto que o exercício vale a pena. Sente o que não daria para deixar para traz. Que livros, roupas, jóias e o computador. Os brinquedinhos de cada um. Analisa tua personalidade, se é mais para o social ou esportivo. Da tua casa só dá para levar duas malas que precisam se encaixar nas medidas e no peso determinado pela companhia aérea, e é com isso que você vai viver, por um mês.

 

Eu já deixei minha casa para traz mais de uma vez para morar longe, e da última foi por um tempo bem longo. O interessante desses deslocamentos é dar-se conta de como é preciso pouco para viver e ser feliz. Em casa, no que chamamos de ‘minha casa’, tendemos a criar raízes e achar que tudo em volta é nosso, e que não se pode viver sem nem um alfinete que seja. Engano agudo, se por sorte não for crônico. Dá para viver, sim, e muitíssimo bem. O fato de dispor de espaço limitado e ter que escolher o que levar, leva a pensar, a optar por isso em vez daquilo, e avaliar a necessidade.

 

Cada um é diferente, e não há receita de tamanho único.

 

A única coisa da qual tenho certeza, e que poderia oferecer como receita, é que o melhor é viajar leve nas viagens e na vida. Se carregamos muita coisa, nos transformamos em seus escravos, tendo que arrastar um peso enorme e cuidar para que ninguém nos tire o que chamamos de nosso.

 

Nas viagens e na vida.

 

Sempre que meus filhos viajam, repito o mesmo conselho, feito disco riscado. Digo, filho, abre bem os olhos do corpo e os olhos da alma.

 

Fotografar faz parte da nossa cultura, mas muitas vezes, enquanto a gente se preocupa em enquadrar bem uma cena, está perdendo tudo o que está fora do quadro. Equilíbrio é fundamental, e as fotos não devem exceder, em número, as situações em que a gente se deixa encharcar pelo momento. Aquele momento em que se agradece pai e mãe por estar vivo e poder vivenciar a beleza, o sabor e a alegria de cada nova experiência.

 

Quando viajo, começo a descarregar meus pesos antes da partida. Levo comigo o mínimo possível e parto de mãos dadas com a curiosidade que é assim comigo: unha e carne. Quero viver a vida do povo do lugar, comer suas comidas, entender sua maneira de pensar e de sentir, e principalmente falar a sua língua. Observar e aprender.

 

Levo muito mais o que mora em mim, do que aquilo que considero meu. Levo pensamentos, sentimentos, e emoções. Levo muito pouca saudade dos que ficam, porque na realidade, aqueles que amo não ficam. Estão comigo sempre, onde eu estiver.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Meu irmão é filho único, o filme

 

Por Biba Mello

 

Olá, quero começar minha vida nesta coluna me apresentando…Meu nome é Gabriela Moreira Mello, mas gostaria que me chamassem de Biba Mello, pois é assim que meus amigos se referem a mim. Sou paulistana, diretora de cinema, mãe de um pequeno de três anos e casada há cinco. Tenho 37 anos recém completados, sendo destes anos, vinte e um dedicados ao cinema publicitário. Vou dirigir meu primeiro longa metragem em breve, uma comédia escrita por mim intitulada “Celulite”. Falarei sobre cinema e assuntos femininos, minhas duas grandes paixões. Com o tempo, perceberão que meus textos serão balizados principalmente pelo humor. Mesmo na tragédia, busco a comédia…E para começar nossa história, indico um filme perfeito para nosso momento político atual, acredito que ele ilustra minha personalidade e coloca em discussão o fanatismo político.

 

FILME DA SEMANA:
“Meu irmão é filho único”
Um filme de Daniele Luchetti.
Gênero: comédia dramática.
País:Itália/França

 

 

Accio, o condutor dos conflitos deste filme, é o irmão mais novo de uma família sulista. Ele estuda e mora em um seminário, questiona abertamente os dogmas da igreja e acaba sendo expulso, tendo que voltar a conviver com os “seus”. Sua ideologia é Facista, o que acaba gerando sérios problemas com seus familiares, comunistas fervorosos. Seu irmão Manrico é seu oposto. Operário comunista, galanteador nato, e namorado da que vem a ser o seu grande amor, a bela Francesca. O filme é um baile virtuoso! A direção é imperceptível, de tão perfeita, e a atuação genial!

 

Por que ver: é um filme italiano delicioso e que mostra o absurdo de qualquer fanatismo e o perigo da intolerância(qualquer semelhança com a realidade não é coincidência). Perfeito para nosso momento político atual… A despeito disso, se você assim como eu, tiver uma família italiana totalmente louca como a minha(desculpe tias, tios e primos, mas é a realidade), a identificação será imediata, e o fará comprar o DVD( lembrem de mim “no tapa na nuca” …Impagável!). E por último, mas não menos importante, é a trilha sonora, ah que delícia de trilha!!! (clica no vídeo abaixo, enquanto lê o restante do texto)

 

 

Como ver: Dopo il pranzo della domenica! Depois do almoço de domingo! Sim…Depois daquela vitela com macarrão que vai te empanzinar maravilhosamente, te convido a assistir a esta obra de arte do cinema italiano. Mais perfeito impossível.

 

Quando não ver: com o seu filho aborrecente! Nesta fase sabemos que esses “seres” adoram nos irritar e portanto ele/a talvez achem linda a rebeldia do Accio ou Manrico, e provavelmente tentarão imitá-lo para a sua desgraça! Ou, então, com aquele seu amigo que só gosta dos blockbusters americanos e se sente incomodado quando algo menos raso venha à baila( não que eu não goste…adoro filmes água com açúcar e “homens aranhas”da vida, mas não só isto).

 

Até semana que vem querido leitor!
Um tapa na nuca para você!

 

Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Escreve no Blog do Mílton Jung, a partir de hoje, a qualquer momento em sessão de cinema extraordinária. (na verdade, eu iria definir um dia da semana melhor, mas estava muito ansioso para publicá-la)

De bom e ruim

 

Quem está vivo, sempre aparece. Ditado antigo que ganha atualidade na minha caixa de correio ao identificar entre tantas mensagens uma assinada por Maria Lucia Solla, comentarista de primeira hora deste blog. Após alguns meses distante de todos nós, ela reaparece com seu texto típico e suas histórias atípicas, para alegria deste blogueiro e, com certeza, de você, caro e raro leitor. Seja “re-bem-vinda”, Malu! E que seja apenas o primeiro de uma nova série:

 


Por Maria Lucia Solla

 

Já nem sei o que dizer.
Meus pensamentos, tal qual instrumentos de orquestra, andaram executando melodias misteriosas e explícitas ao mesmo tempo. Imagina um dueto entre surdo e flauta? Alguma coisa entre o trágico, o humano, o incrível e o inesperado do desumano.
Adrenalina.

 

Fui vítima de um golpe muito comum, divulgado, decifrado nos mínimos detalhes, por toda parte. Aquele do celular não identificado que te chama, e você -que não tem o hábito de atender a esse tipo de chamada- naquela hora daquele dia, atende.

 

Uma voz angustiada, de homem diz de longe:

 

– Mãe, fui sequestrado, estou amarrado; faz o que eles pedem.
– Filho? Fala comigo! Onde você está?

 

Ele está no cativeiro, senhora. Tá imobilizado. e a vida dele está nas suas mãos.
Senhora?? Quem é que está falando? Meu D’us! Quem é você? Quero falar com meu filho!

 

Os detalhes da história estavam no meu Caminho, e não no teu, então pulamos essa parte.

 

Já está tudo bem, meu filho está bem, e tudo anda por aqui. Eu, dura na queda, vou me equilibrando na beleza da vida.
E tem lugar melhor?

 

Durante o sequestro -onde na verdade fui eu a sequestrada- minhas antenas vibravam dentro e fora de mim. Parte de mim suspeitava de um golpe, como disse lá em cima, mas a outra parte, aquela que não pertence a classe nenhuma, me alertava que eu não podia colocar em perigo maior, a vida do meu filho. Não tinha garantia. Eles tinham o meu número, eu não tinha o deles. Passavam de um chefe para outro.

 

Fiz o que pediram. Saí, fui carregar um celular com prefixo do Rio de Janeiro, tudo a pé, porque não tinha braço para dirigir e eu não devia afastar o celular do ouvido. Além de sequestrada, monitorada.

 

Foi tudo surreal. Surreal ruim, não bom!

 

O que há de bom em tudo isso?
Ah, tanta coisa que nem tem papel suficiente -nem virtual- para elencar um punhado delas.

 

Um viva à Vida!

 


Maria Lucia Solla é escritora, pensadora e colaboradora deste blog.

Avalanche Tricolor: Obrigado, Pai!

 

Inter 2 x 0 Grêmio
Brasileiro – Beira-Rio (POA)

 

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Nascemos apenas com um nome. Não temos consciência do que é a vida, chorar é nossa única linguagem, e as pessoas são manchas diante de nossos olhos pequenos de mais para definir as coisas. Sentimos apenas que há duas pessoas que nos dedicam atenção especial, com sons carinhosos e toques gentis. Somente algum tempo depois saberemos que eles são pai e mãe, e serão eles os tutores que nos ajudarão a dar os primeiros passos que decidirão nossas caminhadas. Cada um a seu modo prestará ajuda e orientação. E foi assim na minha casa, com pai e mãe presentes – enquanto esta esteve viva. Meu comportamento na escola, minha relação com os amigos, a maneira como me portei diante dos fatos, o Deus em que acreditei, todas as escolhas que fiz tiveram a influência deles. No futebol, não tenho dúvida, meu pai foi definitivo. Nascido em uma estado onde existem apenas duas opções, a mim foi oferecida apenas uma: ser gremista. Houve um primo que arriscou-se e, ainda sem que eu tivesse certeza do que aquelas cores significavam, colocou em minhas mãos uma bandeira vermelha, me forçando a cantar um canto que desconhecia. Ingênuo, fui usado para provocar meu pai que naquele ano, 1969, assistia ao seu time de coração perder pela primeira vez um campeonato gaúcho depois de sete temporadas. A reação dele foi imediata e pedagógica. Apanhei, de leve, mas apanhei, com a bandeira adversária, em cena que sempre imaginei ser apenas lenda de família, porém confirmada pelo meu pai há pouco mais de dez anos e ratificada semana passada em texto publicado por ele aqui no Blog do Mílton Jung.

 

Aproveito este domingo de Dia dos Pais, no qual vivi emoções incríveis ao lado de meus dois filhos, com quem chorei abraçado após ouvir a declaração deles em programa da rádio CBN, produzido pela sensível e competente Pétria Chaves, para agradecer ao meu pai pela atitude corajosa que tomou há 45 anos. É bem provável que o tempo me daria as lições necessárias para seguir meu destino, pois tenho convicção de que nasci predestinado a ser gremista, mas, como escrevi logo na abertura desta Avalanche, se nasce apenas com um nome e, portanto, é preciso que pessoas e fatos o levem para o caminho traçado nem que seja aos trancos e barrancos. Às vezes, até com bandeiradas (de leve, mas bandeiradas). Meu pai não titubeou ao ver o guri correndo riscos e fez o que lhe veio na cabeça. Hoje, costuma pedir desculpas e dizer que não repetiria o gesto, quando tenho apenas gratidão a lhe oferecer. E o faço publicamente em um momento que muitos devem imaginar impróprio dado o resultado frustrante em campo – frustrante e injusto, registre-se. Por que o faço neste momento? Porque meu pai me ensinou muito mais do que para qual time torcer. Vem dele o meu desejo de acertar, minha cobrança sistemática pela perfeição, mesmo sabendo que não a alcançarei. Aprendi com ele que não devemos abrir mãos de nossas convicções e verdades, apesar de amigos e colegas muitas vezes nos forçarem a trilhar outras estradas. Adotei o desejo de lutar sempre, ainda que estejamos fragilizados diante do adversário. Ele me fez entender que as derrotas fazem parte da vida e jamais podemos desistir, pois lá na frente algo muito maior nos aguarda. Fui forjado a crescer no sofrimento e ter prazer na vitória.

 

É diante de tudo isso que, neste domingo, independentemente do quanto não merecíamos o resultado alcançado, que lhe agradeço pai por ter me ajudado a ser o homem que sou. E, claro, por ser gremista.

A lei da palmada e a falta de disciplina

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Não sei se sou apenas um senhor idoso,um velho impertinente ou um sujeito demasiadamente exigente sem que isso tenha alguma ligação com os meus quase 78 anos. É possível também que eu não preencha nenhum dos três quesitos que expus na primeira frase do meu texto desta quinta-feira e, neste caso,esteja cheio de razão quando não concordo com uma lei aprovada pelo Senado e com uma ideia do Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul. Vou por partes.

 

O senadores aprovaram na início de junho a Lei da Palmada ou lei do menino Bernardo,esse vitimado por crime hediondo cometido na cidade gaúcha de Três Passos. A legislação altera o Estatuto da Criança e do Adolescente na medida em que os pais não podem castigar os seus filhos de maneira a lhes impor sofrimento ou lesões. Até aí,não há o que se discutir. Há pais desnaturados que continuarão,com lei ou sem lei,a tratar os filhos com violência e até abusar sexualmente deles. Esses têm de arcar com os rigores da lei. O Estado – pergunta-se – teria poder para interferir na educação das crianças. Há controvérsias.Estaria correto coibir a “palmada pedagógica”? Penso que não. Trata-se do que eu chamaria de santa palmada,que não machuca e ajuda a dar a entender às crianças que elas precisam se dar conta de que os seus pais é que mandam em casa. Afinal,todos nós,seja no jardim-da-infância e daí para a frente sempre teremos que aceitar comandos de todas as espécies e em todos os estágios de sua existência.

 

Sou pai de três filhos e avô de quatro netos. Lembro-me,apenas,de ter dado um tapa na bundinha do Mílton ao vê-lo,no dia em que o Inter inaugurava o seu estádio,passear pela calçada com uma bandeirinha do nosso tradicional adversário,que lhe foi dada por “banditismo”de um parente colorado. Foi um exagero que me doeu por muito tempo. Quando criança e adolescente,levei chineladas da minha mãe. E ela sempre tirava o chinelo com boas razões.

 

Já o Conselho Estadual de Educação está,a meu modesto ver,prevendo que as escolas gaúchas não reprimam a indisciplina com afastamento do aluno ou sua transferência. Estamos diante de mais uma medida,no mínimo,polêmica. Desde já tenho pena dos professores se a ideia do Conselho for posta em prática. Tenho uma filha que é professora de uma escola situada em uma vila de Porto Alegre. Seus alunos são crianças entre cinco e seis anos. E ela passa enorme trabalho para os manter com um pouco de disciplina. Imagino o que os seus alunozinhos farão quando forem adolescentes. Conheço inúmeros professores que desistiram da profissão por se sentirem incapazes de dar aulas a adolescentes e outros já marmanjos,eis que esses,por dá cá aquela palha,chegam ao ponto de ameaçá-los fisicamente. A presidente do Conselho Estadual de Educação,Cecília Farias, entende que a escola não pode ser punitiva,mas deve investir na solução dos problemas dos alunos para mantê-los nos colégios”. Será que ela,atualmente,trabalha em sala de aula? Já Osvino Toillier,vice-presidente do Sinepe/RS,diz que a pretensão do Conselho “vai tirar o último resquício de autoridade da escola”. E concluiu afirmando: ”Se você tem algum aluno que coloca outros em risco,perde a liberdade de definir o afastasmento”. Li essas duas posições na ZH do último dia 4 de agosto. Fico com a do professor Toillier.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele), que aprendeu bem a lição.

Minha companheira inseparável

 

Milton Ferretti Jung

 

 

Desde que me conheço por gente – e isso já faz muito tempo – carrego comigo uma companheira inseparável,incômoda e que quase não me dá trégua:preocupo-me exageradamente com a minha mulher, os meus três filhos e agora,ainda por cima,os meus quatro netos. Não lembro que idade eu tinha quando essa senhora começou a atuar. Até hoje,embora pequeno fosse, não esqueci da sua primeira manifestação.

 

Ela iniciou suas aparições nos finais de tardes da minha infância. Bem na frente da casa onde morávamos havia uma pracinha triangular. Nessa,a gurizada e mesmo alguns um pouco mais velhos,praticavam vários esportes. Jogava-se uma espécie de futebol,vôlei e,apesar do piso em desnível e ondulado,basquete. A turma somente se recolhia quando as luzes dos postes próximos da nossa quadra se acendiam. Era,então,que eu entrava em casa e,sem sequer me lavar,postava-me à janela,olhando de soslaio o relógio do living e me perguntando por que o meu pai não chegava do trabalho. Durante a Segunda Guerra Mundial,ele voltava para casa de bonde. Esse veículo que a modernidade engoliu,deixava-o a uma quadra de casa. O seu atraso me afligia. O meu pai recusou-se a usar gasogênio no seu Chevrolet 39 e o colocou na garagem sobre cavaletes. Por isso,mas a Preocupação não me deixava perceber,demorava mais do que o habitual para chegar.

 

Casei em 1961 e Ruth,minha primeira mulher,falecida em 1986,deu-me três filhos. Dona Preocupação se fez sentir,o que não teve nada de espantoso,quando um dos três adoecia. Jacqueline,minha filha mais velha,era do tipo caseiro.Não me preocupava com ela. Já o Mílton,nascido em 1963,tão pronto completou dezoito anos,tratou de tirar carteira de motorista. Munido dessa,passou a pedir o meu carro para “dar uma banda” nas noites de sábado. E a Preocupação  apareceu com força. Enquanto ele não chegava em casa,eu não dormia.Morávamos,então,na Rua Saldanha Marinho,em um sobrado. Pior do que não dormir,eu ficava em pé numa área dos fundos da residência.Com olhos compridos,tentava,por uma brecha entre árvores,enxergar a Avenida Érico Veríssimo,que corria paralelamente à Saldanha. Na época,eu tinha um Passat,se não me falha a memória. Quando eu via o carro,tarde da noite que era,corria para a janela do quarto do casal,esperando que o Mílton guardasse o Passat na garagem do vizinho. Só aí caía na cama e fingia dormir. Em troca,a Ruth,mãe dele,dormia a sono solto,livre de qualquer preocupação.

 

Os meus filhos casaram. Dois netos – o Greg e o Lo – moram com o Mílton e a Abigail e,aí em São Paulo, não precisam de apresentação. A Vivi e o Fernando,filhos do Christian e da Lúcia,vivem aqui em Porto Alegre. A Jacque,embora tivesse carta de motorista há seis anos,só em 2011 comprou um carro. Fez aulas e mais aulas com um professor antes de se sentir capacitada para dirigir. Um pouco – ou muito – por minha culpa.Finalmente,livrei-a do meu controle. Já Maria Helena,com quem casei,e até a Micky,nossa gata,sofrem de perto com a Dona Preocupação. Esta,insiste em não me conceder divórcio.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e dono do Passat que eu pegava emprestado. Às quintas escreve no Blog do Mílton Jung (que passeava com o Passat do pai)

Conte Sua História de SP: o Amarelinho da CET que ajudou meu filho nascer

 

Por Marcelo Parra Vallone
Ouvinte-internauta da CBN

 

O Amarelinho que nos ajudou no dia do nascimento de meu Filho.

 

Após três anos de casados, eu e minha esposa resolvemos ter um filho. E após nove meses de gestação, no dia 16 de fevereiro de 2001, minha esposa acordou com dores. Ligamos para o médico e ele disse que a hora havia chegado. Fomos às pressas para o hospital. Apressados mas cuidadosos. Morávamos em Mauá. Precavido, eu já havia feito todo o percurso até o hospital, o Santa Joana, na avenida Paulista, algumas vezes. A malinha do bebê já estava pronta a um mês. Acontece que meu filho resolveu dar sinais que ia nascer às sete da manhã de uma sexta-feira: hora do maior trânsito em São Paulo. Na avenida Vergueiro o tráfego parou de vez. Minha esposa sentindo aquela dor que só mulher sabe como é. Os carros não andavam. Eu buzinava com esperança de alguém abrir caminho. Não adiantava. Quando parecia não haver mais horizonte à minha frente, dei uma olhada no retrovisor e avistei um carro amarelinho, aqueles da CET. Não tive dúvidas, esperei a viatura ficar ao meu lado, desci o vidro e pedi ajuda ao senhor que estava na direção. Foi quando ele gritou: “vem atrás de mim, vou te ajudar”. Ligou a sirene, sai atrás dele e o caminho se abriu até o hospital. Coisa de dez minutos já estávamos na porta do Santa Joana. Agradeci ao moço da CET, abri a porta, peguei a malinha, dei entrada com minha esposa na maternidade e … Ufa, que sufoco! … meu filho nasceu lindo como o pai e a mãe e com muita saúde. Obrigado, Amarelinho da CET.

 

 

Marcelo Parra Vallone é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em áudio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

De condicional

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Ah se eu pudesse…

 

…me consertaria todinha, voltaria a fita e desfaria os males que causei, mesmo aqueles dos quais nem conta me dei. De mim isso aliviaria o fardo, mesmo que fosse muito, muito difícil, eu o faria sorrindo e de bom grado.

 

Pediria desculpas a quem magoei, mas jamais engoliria as lágrimas que chorei. Choraria ainda mais, até que o engasgo desengasgasse, até que meu coração desafogasse.

 

Ah se eu pudesse…

 

…seria melhor mãe do que tenho sido, desataria os nós que atei, faria de novo, e faria bem, tudo aquilo em que falhei.

 

Beijaria mais, abraçaria abraços apaixonados, apertados e compridos, enxugaria as lágrimas dos sofridos e dos desesperançados, muito mais, mas muito mais do que até hoje enxuguei.

 

Ah se eu pudesse…

 

…confessaria meu amor sem pudor, acariciaria o corpo do homem amado com muito, mas muito amor, sem recato, e não mais aceitaria o vazio do abstrato.

 

Curaria as feridas dos corações dos meus filhos, uma a uma, sem medo nenhum de facilitar-lhes a vida, e recolheria cada pétala de cada dor por eles sentida.

 

Ah se eu pudesse…

 

…diria todos os dias, a todos os meus amigos, o quanto eu quero tê-los sempre comigo, lhes ofereceria abrigo, mesmo que seus queixumes não fizessem, para ninguém mais no mundo, nenhum sentido.

 

Continuaria a andar, feliz, pela estrada do sonho e por aquela da realidade, viajaria e cantaria, sem medo de desafinar. E mesmo não conhecendo os caminhos, para todo canto eu iria, pelo simples prazer de andar. Sem rumo, sem idade, para pôr minhas energias no prumo.

 

Ah se eu pudesse…

 

…não abandonaria jamais o banco da escola, daria aula de graça porque essa sempre foi minha cachaça.

 

Dançaria mais, muito, mas muito mais. Todo dia rodopiaria, de noite e de dia, num crescente espiral que me transportasse em transe e me colocasse frente a frente com o plano espiritual.

 

Ah se eu pudesse…

 

…adoçaria os corações amargos, desarmaria os armados, acalentaria os desesperados, animaria os desanimados, resgataria suas almas perdidas, cicatrizaria suas feridas, uma a uma, sem hesitação nenhuma.

 

Escreveria a história da minha vida e contaria ao mundo cada momento vivido, aqueles dos quais me orgulho e aqueles inverossímeis, dos quais mesmo eu duvido. Despiria meu êxtase, meus suspiros, meus gritos mais aflitos meus impulsos contidos, meus desejos proibidos. Um a um; não mascararia nenhum.

 

Ah se eu pudesse…

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Pais idosos

 

Por Julio Tannus

 

Cada vez mais a idade média da população aumenta. E surgem várias questões. Entre elas: os filhos tem obrigação de cuidar dos pais idosos?

 

Para responder a esta pergunta nada melhor do que o Estatuto do Idoso, em alguns artigos específicos:

 

Art. 1º. É instituído o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.
Art. 3º. É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.
Art. 37º. O idoso tem direito a moradia digna, no seio da família natural ou substituta, ou desacompanhado de seus familiares, quando assim o desejar, ou, ainda, em instituição pública ou privada.
Art. 43º. As medidas de proteção ao idoso são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados:
I – por ação ou omissão da sociedade ou do Estado;
II – por falta, omissão ou abuso da família, curador ou entidade de atendimento;
III – em razão de sua condição pessoal.
Art. 45º. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 43, o Ministério Público ou o Poder Judiciário, a requerimento daquele, poderá determinar, dentre outras, as seguintes medidas:
I – encaminhamento à família ou curador, mediante termo de responsabilidade;
II – orientação, apoio e acompanhamento temporários;
III – requisição para tratamento de sua saúde, em regime ambulatorial, hospitalar ou domiciliar;
IV – inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a usuários dependentes de drogas lícitas ou ilícitas, ao próprio idoso ou à pessoa de sua convivência que lhe cause perturbação;
V – abrigo em entidade;
VI – abrigo temporário.

 

À medida que crescemos e que os nossos pais envelhecem, os papéis dentro da família acabam por se inverterem: os mais velhos tornam-se cada vez mais dependentes dos mais novos. Ainda assim, estima-se que 85% da população idosa quer continuar a viver na sua própria casa.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Preocupações de pai

 

Por Milton Ferretti Jung

Assino embaixo de tudo o que o Mílton escreveu em sua Avalanche Tricolor depois do empate do último domingo, aquele malsinado Grêmio 2 x 2 Atlético GO. O texto, como já ocorreu várias vezes, me emocionou, mas não por ter driblado com maestria o que se viu em campo (ou seria o que não se viu?), nada agradável para nós, gremistas, mas pelas reminiscências nele contidas. Ainda há tempo de lê-las. Quem não fizer isso, perderá a mágica. Ou não é pura mágica trazer de volta ao nosso mundinho o seu padrinho de casamento Ênio Vargas de Andrade, meu inesquecível amigo e, na minha opinião, o melhor técnico de futebol dos muitos cujas carreiras acompanhei. Como os times de futebol, meu filho teve uma temporada infeliz nos estudos, o que lhe pareceu uma experiência trágica. Quem leu a Avalanche ficou sabendo que Ênio, tal qual deve ter feito muitas vezes com Renato Gaúcho, colocou a mão no ombro do menino, que não tinha coragem de contar para o seu pai que precisaria repetir o ano, aconselhando-o a encarar a bronca. Não lembro, creio, porém, que as “justificáveis reprimendas” não foram das mais azedas.

No tempo em que os meus filhos eram estudantes fui um pai um tanto ausente por culpa da profissão: narrador de futebol e outros esportes. Isso me ocupava, especialmente, quando era escalado para viajar. Recordo-me que fiquei 45 dias, certa vez, cobrindo a seleção brasileira. Por isso, não podia ser muito severo com eventuais notas ruins da menina e dos dois meninos. Acho que Greg e Lorenzo, os filhos do Mílton, não causam ao pai grande preocupação como estudantes. Prova disso, está na história que o responsável por este blog contou no mesmo dia em que produziu a Avalanche Tricolor: a alegria emocionada do Lorenzo ao ver seu esforço na segunda metade do ano pelo Conselho de Classe de sua escola. Esta permitiu ao pai satisfeito produzir esta frase no encerramento do seu texto (frase que gostaria fosse lida pelos jogadores do Grêmio): “O mérito da vitória não existe para aqueles que não lutaram por ela. Ele lutou e nós vibramos muito com isso. Não posso dizer o mesmo do meu time”. Nem eu, Mílton. Pior, porém, e preciso fazer isso à guiza de desabafo, é aturar os narradores de futebol televisivos. Todos entendem que têm de imitar os narradores das rádios. Se não fizerem isso, pensam, não passarão emoção aos telespectadores.Triste engano. Parecem acreditar piamente que somos todos deficientes visuais. Dizem tudo o que vemos. E ainda nos enchem com estatísticas que nada acrescentam. O pior é que os assinantes de PPV, com eu, necessitam pagar caro para ouvir obviedades.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)