De condicional

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Ah se eu pudesse…

 

…me consertaria todinha, voltaria a fita e desfaria os males que causei, mesmo aqueles dos quais nem conta me dei. De mim isso aliviaria o fardo, mesmo que fosse muito, muito difícil, eu o faria sorrindo e de bom grado.

 

Pediria desculpas a quem magoei, mas jamais engoliria as lágrimas que chorei. Choraria ainda mais, até que o engasgo desengasgasse, até que meu coração desafogasse.

 

Ah se eu pudesse…

 

…seria melhor mãe do que tenho sido, desataria os nós que atei, faria de novo, e faria bem, tudo aquilo em que falhei.

 

Beijaria mais, abraçaria abraços apaixonados, apertados e compridos, enxugaria as lágrimas dos sofridos e dos desesperançados, muito mais, mas muito mais do que até hoje enxuguei.

 

Ah se eu pudesse…

 

…confessaria meu amor sem pudor, acariciaria o corpo do homem amado com muito, mas muito amor, sem recato, e não mais aceitaria o vazio do abstrato.

 

Curaria as feridas dos corações dos meus filhos, uma a uma, sem medo nenhum de facilitar-lhes a vida, e recolheria cada pétala de cada dor por eles sentida.

 

Ah se eu pudesse…

 

…diria todos os dias, a todos os meus amigos, o quanto eu quero tê-los sempre comigo, lhes ofereceria abrigo, mesmo que seus queixumes não fizessem, para ninguém mais no mundo, nenhum sentido.

 

Continuaria a andar, feliz, pela estrada do sonho e por aquela da realidade, viajaria e cantaria, sem medo de desafinar. E mesmo não conhecendo os caminhos, para todo canto eu iria, pelo simples prazer de andar. Sem rumo, sem idade, para pôr minhas energias no prumo.

 

Ah se eu pudesse…

 

…não abandonaria jamais o banco da escola, daria aula de graça porque essa sempre foi minha cachaça.

 

Dançaria mais, muito, mas muito mais. Todo dia rodopiaria, de noite e de dia, num crescente espiral que me transportasse em transe e me colocasse frente a frente com o plano espiritual.

 

Ah se eu pudesse…

 

…adoçaria os corações amargos, desarmaria os armados, acalentaria os desesperados, animaria os desanimados, resgataria suas almas perdidas, cicatrizaria suas feridas, uma a uma, sem hesitação nenhuma.

 

Escreveria a história da minha vida e contaria ao mundo cada momento vivido, aqueles dos quais me orgulho e aqueles inverossímeis, dos quais mesmo eu duvido. Despiria meu êxtase, meus suspiros, meus gritos mais aflitos meus impulsos contidos, meus desejos proibidos. Um a um; não mascararia nenhum.

 

Ah se eu pudesse…

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

14 comentários sobre “De condicional

  1. Ah, se eu pudesse… Enviaria isso pra todo mundo e diria que fui eu que escrevi. Que coisa mais linda, querida!!! E quando eu fosse desmascarada, diria pra todos sem pudor, com aval de Quintana: “Qualquer ideia que te agrade é por isso mesmo Tua. O autor só vestiu a verdade, que dentro de ti já estava nua”. Boa semana. Vou ler de novo.

  2. tem uma história pequena que diz mais ou menos assim:

    O mestre chega para o seu discípulo e diz: Para você viver do lado bom da vida é preciso fazer boas escolhas; o discípulo pergunta: E como posso ter boas escolhas? – o mestre diz: Através da experiência meu filho – discípulo: Mestre, como eu posso adquirir experiência? – mestre: Más escolhas meu filho…

    Nunca é tarde para amar, sorrir, corrigir, viver….buscar não errar….experiência nós já possuímos..rsrs

  3. Sempre ouvi dizer que ninguém aprende com as experiências dos outros, precisamos viver, sentir, para entender e aprender. Mas tendo a graça de fazer parte da sua vida, posso SIM deixar de cometer seus erros, acertar com seus acertos, e enxergar a vida com esses olhos que são tão sensíveis, tão grandiosos, tão verdadeiros! Você é maravilhosa! Obrigada por cada lição!

  4. Elizabeth querida,

    você se ouve? você se lê?

    Só conheço voçe pelas palavras, e você as expressa com arte.
    E a gente vai trocando, dividindo e multiplicando.
    Metendo o pé de cabra nas defesas do ego, e mandando ver!

    Obrigada e parabéns.

    Beijo e boa semana,

  5. Roberta queridíssima pequena,

    você ouviu dizer, ANTES de ir ao otorrino que te indiquei…!

    Onde você acha que eu aprendo? Estamos na mesma biblioteca, meu anjo. Sorte nossa!

    Beijo e bons chamegos (Com ch e com x) e bom semana

  6. Ah se eu pudesse… faria tudo igualzinho… para ter o prazer de sonhar em fazer diferente. Esse é o sabor da vida…

    Lindo, prima… lindo!

    Por favor, divulgue o texto integral nas redes sociais.

    Bjs

  7. Primeiro, sempre!… Bom dia Sr. Obama!

    (ele nos lê atentamente, a todos e cada um de nós, não é?)

    Bom, seguindo na mensagem…

    Salme Mama!

    Se eu pudesse. . . passava a semana contigo e o Luiz em Boca Raton. E não teria cortado o cabelo em 1993, nem deixado de morar no sítio em Camanducaia pra buscar emprego em Extrema.

    No meio da caminhada, na verdade, não trocava nada por nada mais…já que tudo que fiz, fiz com as ferramentas que tive, com a cabeça que separava minhas orelhas, com o coração que bate desde sempre, desde lá do céu. Usei o que tinha e o que esperava que funcionasse.

    Abri as janelas dos olhos, dos ouvidos, do nariz, da boca e de capa pedacinho de pele pra perceber e aprender com tudo que percebi, do que se passou ao meu redor.

    Se não me dediquei o bastante, foi a falta de ar ou de tempo. E veja bem, que somos os piores usuários do tempo entre todos os seres vivos da Terra…nós humanos. Péssimos com o tempo, cheios de coisas a fazer, além de nos ver drenar pela preguiça.

    Quando me faltou coragem, passei apuro com medo mesmo, e se prestei atenção, me coloquei a perguntar: “Como faz pra não ter mais medo?”

    Quando me faltou amar, dormi com solidão, pensando: “Como faz pra não doer assim?”.

    Quando me faltou sabedoria, bati a canela feio, xinguei o guarda e mandei a vó dele passear. Nem ele escutou, nem a vó aparecei pra contar como foi o passeio, e segui batendo a canela, cada dia com menor reação. Pensei: “Será que um dia a gente pára de bater a canela?”

    Quando me falou o ar, pensei que morreria, muitas vezes pensei assim: “Se eu morrer, melhora? Como é quando morre?”

    Quando me faltou força, caminhei cansado, achando que não sobreviveria para escrever este comentário. Mas aqui estou, escrevendo melhor do que ontem, que foi, com boa vontade, melhor do que anteontem.

    Em cada dessas peripécias, se pude, estiquei o braço e busquei ou ofereci ajuda, a quem quer que estivesse por perto, se estivesse por perto.

    Desse tanto de pensar, tô desconfiado que a cabeça sabe nada, sabe?

    Um velhinho tem dito que “melhor é desfazer das prateleiras de soluções e botar o coração pra pilotar o bonde”. OK, ele não disse assim, mas foi mais ou menos isso.

    Sugeriu que, se a gente capricha na fé, Alguém que mora dentro da gente, decide qual pé colocar no primeiro degrau. Depois, é só ir alternando os pés, que a gente só tem dois mesmo, e cada um encaixa direitinho no degrau qu e vem adiante, um depois do outro

    Importante! Não esquecer que o pé direito até pode inventar um alongamento, e se distanciar do pé esquerdo, mas só um tanto. Vale lembrar que ele não pode ir embora sem levar o outro junto com ele. Sozinho, sem irmandade, sem fraternidade, sem amor, não se vai!

    Beijos com amor Mama!

    Paulo

  8. Viu quanta coisa linda você desperta, Maria Poderosa! Quando as palavras estão dispostas ninguém segura. E vc tem sensibilidade para colhe-las, na hora certa. Aí vira isso, inspiração geral. Beijo, flor.

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