Tudo é muito coisa

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Reprodução do filme

“Eu sou aquela mulher
a quem o tempo muito ensinou.
Ensinou a amar a vida
e não desistir da luta,
recomeçar na derrota,
renunciar a palavras
e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos
e ser otimista”

Cora Coralina

O filme francês O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001) conta a história de uma jovem sonhadora que dedica a vida a consertar pequenas dores de outras pessoas: devolve um brinquedo esquecido, junta casais ou espalha bilhetes anônimos para fazer alguém sorrir. Ela faz tanto pelos outros que, por um bom tempo, esquece de si mesma, deixando sua vida cheia de histórias alheias, mas vazia do próprio cuidado.

Assim como Amélie, muita gente acredita que precisa ser útil, boa e generosa ao extremo para garantir que será aceita, valorizada ou pertencente.

Evidentemente, esse não é um padrão que alguém escolhe ter de maneira consciente.

Em geral, a ideia de que ser amado está associado a ser útil nasce de experiências antigas, de situações nas quais a criança, cedo demais, entendeu que precisava fazer além do que podia para receber amor, atenção ou segurança.

Às vezes é o filho mais velho que, ainda pequeno, assume o cuidado de irmãos menores enquanto os pais trabalham, e aprende, sem se dar conta, que precisa ser “responsável” para ser elogiado ou notado; ou a criança que nota que os pais estão sobrecarregados, doentes ou emocionalmente ausentes, e então tenta não dar trabalho, engole a própria dor, faz tudo para ajudar em casa, acreditando que isso evita brigas e mantém a família unida. Em outros casos, é a criança que recebe afeto apenas quando tira boas notas, faz tudo “certinho”, ajuda em tudo e percebe que não há espaço para ser apenas criança, com erros e limites.

Assim, muito cedo, a mensagem se instala: “Eu só sou amado quando faço algo por alguém”.

E o que era apenas uma forma de sobreviver emocionalmente vira, na vida adulta, um padrão invisível, difícil de perceber, mas que faz a pessoa se doar além da conta, enquanto carrega, lá no fundo, a sensação de nunca ser suficiente.

Ser generoso, amoroso ou disponível não é um defeito. É algo valioso! O risco está em oferecer tudo sem critério. E quem já me conhece sabe que sempre digo: tudo é muita coisa!

Porque quando se faz demais, corre-se o risco de atrair quem só fica enquanto se beneficia. O resultado?  O que era afeto disponível vira recurso de utilidade.

Talvez dentro de você exista uma Amélie: doce, cuidadosa, disposta a juntar pedaços do mundo dos outros. Que bom! Mas, hoje, faça o compromisso de cuidar também do seu próprio mundo, de cuidar de você.

Quero lhe propor um desafio: Pense em alguém importante na sua vida e se pergunte: “Essa pessoa me procuraria se ela não precisasse de nada?”


Se a resposta for não, talvez seja hora de rever esse laço, não com amargura, mas com a leveza de quem entende que vínculos verdadeiros não funcionam como caixas eletrônicos, onde alguém passa, retira o que quer e vai embora. Relações autênticas são presenças vivas em vias de mão dupla.

Penso que o tempo nos ensina… Nos ensina a amar, a não desistir, a recomeçar, a acreditar nos valores humanos e ser otimista!

Há sempre um jeito de seguir sendo generoso, sem se sacrificar, mas com respeito, equilíbrio e limites.

Afinal, afeto saudável não se mede pelo quanto você faz pelos outros, mas pelo quanto você consegue permanecer inteiro depois de se doar.

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das fundadoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Pais, onde estamos na vida de filhos com deficiência?

Christian Müller Jung

Foto de Dobromir Dobrev

Esses dias assistindo a um desses programas dominicais na televisão deparei com mais uma reportagem a respeito da criação de filhos com deficiência.

Sem surpresa na abordagem. Lá estavam, novamente, duas coisas que me incomodam quando o tema é tratado. Primeiro, a figura paterna não existe. Segundo, o amor pelos filhos com deficiência é colocado em uma escala acima daquele que se tem pelos filhos sem deficiência.

Vamos partir do princípio que todo filho é uma dadiva. O amor incondicional não passa a existir com a presença ou não de uma deficiência. Existe porque existe. Porque se ama. Se é que você me entende!

Evidentemente, o envolvimento com o filho deficiente tem maior intensidade em razão dos cuidados, físicos e psicológicos, que ele exige. Ter um filho deficiente mesmo que seja uma escolha, como no caso de adoção, não é tarefa fácil! Deixe-me, porém, voltar ao assunto dos pais.

Como sou pai de uma menina deficiente, eu sei e já vi muitas dessas histórias de pais que pulam fora quando o problema surge. Não suportam o tanto de dedicação e paciência que é preciso, porque a partir daquele momento, em muitos casos, não se terá um filho que será independente quando chegar na fase adulta. Teremos alguém que vai precisar da gente para o resto de nossas vidas. Tem-se ainda a real preocupação do que será deles e quem os cuidará, já que pela expectativa de vida nós iremos embora antes deles. Não é coisa pra gente fraca!

Porém, conheço muitos pais que são exemplo de dedicação. Pais que casam com mulheres que já tem um filho deficiente e foram deixadas de lado no primeiro casamento por este motivo.

Pais que assumem com o maior carinho esse filho como sendo seu de sangue. Superam qualquer problema futuro em nome de um amor e dedicação. Pais que dividem a tarefa pesada da criação de um filho deficiente com a mãe dando equilíbrio a um casamento que algumas vezes se abala com esse inesperado acontecimento e que ninguém saberá lhe dar apoio a não ser o próprio tempo.

Eu sei o que fiz pela minha filha e o que venho fazendo. Quando ficamos sabendo que teríamos uma menina, pintei todo o quarto, montamos tudo para recebê-la da melhor forma. Por quase dois meses, com ela em coma, tinha que passar pela porta e ver o berço vazio sem saber se algum dia ela iria deitar ali. Lembro de quantas noites, depois dela ter chegado em casa, dormi no chão ao lado da cama com medo que ela tivesse uma convulsão como tantas que já tivera no hospital. Medo que parasse de respirar ou qualquer coisa do tipo. 

Você se dedica, se envolve, compartilha funções com a mãe, o casal enfrenta todas as barras pesadas que surgem no seu caminho e quando chega ao médico – e fomos há muitos neste tempo todo – você é considerado apenas uma figuração. O pai participativo não existe para aquele especialista. É como se falássemos com as paredes.  Eles olham e prestam atenção na mãe. O pai não existe, mais ou menos assim como nas reportagens da TV.

Claro que nem todos os médicos agem desta maneira, mas é preciso que se saiba que nem todos os pais agem da mesma maneira, também. É necessário entender a realidade de cada família.

Agora, pense comigo, se até profissionais acostumados com o cotidiano das crianças com deficiência nos tratam assim, imagine na reportagem da televisão.

Como escrevi logo no início, o outro aspecto que me incomoda é maneira como os filhos com deficiência são descritos. Por favor, não me veja como alguém cruel. Mas essa áurea de algo especial é muito mais bonita nas reportagens do que no dia a dia de quem se dedica a buscar uma melhor qualidade de vida aos seus filhos. E de forma geral as abordagens referentes aos filhos com algum tipo de problema é que eles são muito especiais. Sim, é lógico que são! Como todos os filhos são especiais para nós! Todos exigem cuidado, atenção e dedicação. 

Sem dúvida, quem tem maiores limites exigirá mais do que os que caminham e pensam por conta própria. Aliás, um alerta: é preciso cuidar muito desses que caminham e pensam por conta própria, porque eles também correm o risco de serem esquecidos em detrimento dos filhos com deficiência. E sabemos como é importante e necessário a atenção dos pais nas diversas fases da vida, sabemos das carências que eles tem, das dúvidas, das contradições que a infância e a adolescência nos impõe.

Não quero com este texto que você pense que sou um pai revoltado ou desgostoso com o que a vida me preparou, mas quero sim que saiba que a vida que levamos com os filhos deficientes é muito diferente de uma propaganda de margarina. Muito diferente da maioria das reportagens que assistimos. É uma vida dura, sim. Por vezes, é triste. É de eterna adaptação, é de estado de alerta. Muitas vezes temos de nos levar a superação para tolerar até mesmo comportamentos intempestivos. Fazemos de cada limão uma limonada. Tentamos tornar os dias o mais próximo do que idealizamos para eles. E, claro, também, sorrimos, nos emocionamos e comemoramos. 

Porque somos pais presentes, existentes! 

Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão e pai da Vitória e do Fernando. Colabora com o blogo do Mílton Jung — o irmão dele, com muito orgulho.

Na guerra, as crianças são as primeiras vítimas

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Reprodução de vídeo em que pai se despede da filha na Ucrânia

Em 2014, quando eu fazia meu pós-doutorado na França, grupos jihadistas extremistas, como Al-Qaeda e Estado Islâmico, se envolveram na guerra civil que ocorria na Síria, desde 2011,  agravando a crise humanitária existente. Naquela época, diversos refugiados tentavam migrar para países da Europa, numa busca por sobrevivência. 

Recordo-me do dia que minha filha chegou em casa após a aula e, muito desolada, tentava compreender como uma colega de sala, que acabara de chegar na escola, poderia viver na França sem falar o idioma, com apenas 13 anos de idade e nenhum familiar por perto. Essa colega havia sido resgatada, após o barco no qual estava ter naufragado. Seus pais? Não conseguiram dinheiro para viajar com ela e, numa tentativa de salvá-la, optaram por lhe permitir uma vida melhor, longe dos conflitos em seu país.

Infelizmente, esse não é um relato isolado da colega de escola da minha filha, mas reflete um cenário catastrófico a que são submetidas todos os dias, milhares de crianças e adolescentes ao redor do mundo, vítimas de conflitos armados.

Quais os impactos que essas situações tão extremas, tão traumáticas, podem ter sobre a saúde mental de crianças e adolescentes? 

Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, eventos traumáticos são situações experimentadas ou testemunhadas pelo indivíduo, nas quais houve ameaça à vida ou à integridade física própria ou de pessoas ligadas por laços afetivos. Na infância e adolescência, essas situações podem envolver abuso físico ou sexual, negligência, acidentes automobilísticos, assaltos, desastres naturais ou guerras.

Ao longo da vida, muitas pessoas vão experimentar eventos traumáticos e algumas poderão, inclusive, reagir de maneira resiliente. Entretanto,  vivenciar essas situações nos primeiros anos de vida, pode impactar o desenvolvimento infanto-juvenil em diferentes níveis, com alterações neurobiológicas, psicológicas e sociais, cujas consequências podem se prolongar na vida adulta. 

Apesar de não se manifestar da mesma maneira em todas as crianças, cerca de 20% daquelas expostas a eventos estressores irão apresentar alguma reação pós-traumática mais desadaptativa,  com grave sofrimento e perda de funcionalidade, tais como pesadelos, ansiedade, depressão, comportamentos suicidas, irritabilidade, comportamentos agressivos e baixo rendimento escolar.

As guerras prejudicam o acesso à educação; geram deficiências e limitações físicas por lesões ou perdas de membros, como braços e pernas. Geram falhas no crescimento e no desenvolvimento causadas pela desnutrição. 

As guerras separam famílias, distanciam pais e filhos que talvez nunca mais se encontrem.

Nas guerras, crianças são sequestradas, abusadas, recrutadas como soldados… Crianças são mortas!

Somente na Síria, mais de 9 mil crianças foram mortas ou feridas. Os conflitos no Iêmen, dizimaram a vida de 10 mil crianças.

Crianças e adolescentes, como Kim Phúc, a menina que em junho de 1972, aos nove anos, apareceu correndo com os braços abertos, o corpo nu queimado e a expressão de terror no rosto, após ser atingida por uma bomba química no conflito entre Vietnã e Estados Unidos. 

Crianças e adolescentes como Alan Kurdi, o menino sírio de três anos de idade que morreu afogado numa praia da Turquia, em 2015, quando seus pais tentavam fugir como refugiados do conflito na Síria.

O trauma da guerra pode ser tão devastador quanto o potencial bélico das nações: gera  medo… Encurta a vida.

Como explicar, como definir todo o sofrimento imposto pelos conflitos armados para vidas tão prematuras? Como explicar que colocar um filho num barco, sozinho, pode ser uma grande prova de amor? 

Talvez pela sorte e felicidade de não ter vivenciado algo parecido, minhas respostas devem ter sido simples e superficiais diante das indagações da minha filha. Não passei por essa dor e não consigo dimensioná-la.

O relato comovente da esposa do jogador Maycon, a mãe que conseguiu sair da Ucrânia juntamente com seus filhos, nos dá uma ideia dos horrores que a guerra produz: comeu o caroço das maçãs que tinha, uma para cada filho. Ela ainda cantou para eles, possivelmente no auge do seu desespero, numa tentativa de tranquilizá-los.

Lyarah Barberan, a mulher que não comeu a maçã, só o seu caroço para enganar a fome, não foi expulsa do paraíso. Apenas desejava fugir do inferno, enquanto protegia as suas crianças.

Assista ao programa Dez Por Cento Mais, todas às quartas-feiras, 20h, no YouTube

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite, no Blog do Mílton Jung. 

Duas oportunidades para a gente conversar sobre “É proibido calar!”

 

 

Nesta sexta-feira, dia 10 de agosto, estarei na Bienal do Livro, em São Paulo, onde participarei de uma conversa, com o filósofo Luis Felipe Pondé, mediada pela colega de CBN Fabiola Cidral. O tema central será “Em tempos tão difíceis como os atuais, como a filosofia pode nos ajudar?”. O convite surgiu a partir do lançamento do livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” (Best Seller) sobre o qual conto algumas histórias em vídeos que publicarei aqui no blog, a partir de hoje. O encontro na Bienal será das 18h30 às 19h30, na Arena Cutural – M080. Se for até lá, será um prazer conversar com você.

 

Já antecipo que o lançamento oficial do livro será na segunda-feira, dia 13 de agosto, às 19 horas, na Livraria Saraiva do Shopping Ibirapuera, em São Paulo. E lá eu terei ao meu lado a Cássia Godoy que aceitou o convite para conversar comigo sobre histórias e pensamentos que me levaram a escrever “É proibido calar!”. Logo depois do talk show, que será gravado para ser reproduzido na programação da CBN, teremos a sessão de autógrafos.

 

Nos próximos dias, também confirmo datas e locais de lançamento no Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba e Vitória.

Se é proibido calar, então vamos falar!

 

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Contextualizando pauta e roteiro do livro ontem anunciado pelo Mílton Jung, cabe ressaltar o raro e grave momento em que o nosso país precisa deste fio de esperança.

 

Mílton tem absoluta razão a registrar, a feliz oportunidade de discutir os males causados pelo incessante individualismo vigente, açodado pelo infeliz desrespeito ao bem público, em benefício ao próprio bolso. Em sua fase mais aguda. Num tempo em que ainda há chance de mudança.

 

E dentro desse cenário gostaria de sinalizar e aplaudir, que tanto os pontos referendados da ética e da cidadania levantados teriam mesmo que ser levados à nova geração. E, o começo pelos filhos é providencial e genial.

 

Não tenho dúvida e nem esperança que a velha ou a atual geração hoje no poder possa ser modificada.

 

O caminho é o indicado pelo autor de “É proibido calar!”. Precisamos pregar aos nossos filhos, a civilidade plena. Ética e moral. Não podemos calar. Vamos falar.

 

E votar.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

O que aprendi com os meninos que não saem da frente do computador

 

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Fiquei em algumas filas a espera da loja de games abrir para que eles participassem do campeonato da vez. Lembro de atuarmos ao menos de duas acirradas disputas, de Mario Kart e Super Mario Strikers – nesta, a falta de um colega de equipe para um menino que estava sozinho na fila me fez entrar no jogo, também. Meus dois filhos, por motivos óbvios, preferiram formar eles próprios uma dupla.

 

Nunca chegamos a ganhar um campeonato, pois sempre aparecia alguém mais bem preparado e, geralmente, mais velho do que eles para ficar com o prêmio maior. Lembro que em uma das competições até fomos bem longe e ficamos entre os finalistas, mas tivemos de nos contentar com a diversão.

 

Levá-los à diversão eletrônica equivalia aos passeios proporcionados pelo meu pai aos jogos de futebol e basquete, em Porto Alegre. Naquela época, jogávamos bola em campo de areia e pracinhas de cimento irregular. O primeiro jogo eletrônico que foi parar nas minhas mãos era um Atari, que dois amigos tinham ganhado de presente. Já eram os anos de 1980.

 

Os guris aqui de casa também jogaram futsal e a quadra era sintética, na escola. Hoje, se exercitam na academia e preferem os equipamentos de musculação.

 

Desde pequenos, eles curtem os jogos eletrônicos – como praticamente todos os seus amigos. Motivo para termos ouvido muito a frase que ecoa nos lares brasileiros: “eles ficam o tempo todo no computador”.

 

Nunca fiquei assustado com a concorrência desse mundo, pois percorremos juntos este caminho. Em casa, nossos computadores sempre estiverem na mesma mesa, e nossa mesa sempre esteve na mesma sala, a de jogos, televisão e trabalho. Assim, nos acostumamos a estar juntos e não ficar isolado no quarto tanto quanto a compartilhar o que estávamos fazendo. E ninguém reclamou da quebra de privacidade.

 

A proximidade me fez entender algumas coisas que percebo são difíceis para muitos pais. Por exemplo, estarem à frente do computador por muito tempo não significa que estejam alienados. Conversam com os colegas, se informam e trocam informações. Se relacionam (e desses relacionamentos surgem novas amizades).

 

Há pais que creditam ao hábito o mau desempenho escolar dos filhos. Como castigo, decidem cortar a internet. Não dá mais, “eles ficam o tempo todo na frente do computador” – reclamam. E em respeito a autoridade paterna, apenas os ouço e me calo.

 

Geralmente, o baixo rendimento na escola está relacionado a outros fatores e não ao acesso indiscriminado às redes. Em casa, aprendi observando: eles não ficam o tempo todo no computador. Eles ficam todo o tempo fazendo um monte de coisas no computador, inclusive estudando.

 

Deparei-me várias vezes com os dois batendo papo pela rede com outros colegas de sala de aula, resolvendo questões mais complexas passadas pelo professor e tirando dúvidas enquanto se preparavam para os testes que seriam aplicados na escola. Na falta de solução compartilhada, eles próprios navegavam na internet em busca de resposta e esta podia ser encontrada em uma página ou em um vídeo no You Tube. No intervalo dos estudos, já os “flagrei“ assistindo a seriado no Netflix ou tentando passar mais uma etapa no jogo. Quando não, fazendo uma coisa e outra ao mesmo tempo.

 

Por mais de uma oportunidade, foram eles que me chamaram atenção para algo que estava se destacando no noticiário: a bomba que explodiu na Europa, o comentário desastroso de algum líder político, a celebridade que se meteu em mais um escândalo, o lançamento de um novo seriado e a última novidade eletrônica, que movimentará milhões de dólares, apresentada nos Estados Unidos. Ouviram no rádio? Viram na TV? Claro que não!

 

“Eles não saem da frente do computador”.

 

Tenho pensado muito sobre a trajetória deles no momento em que começam a traçar carreiras. O mais velho que enveredou pelo jornalismo, já trabalhou em um site de esportes eletrônicos, fez programa na rádio da faculdade sobre o mesmo tema e hoje escreve textos como especialista no assunto. O mais novo estreia no palco do Lol – League of Legends, neste sábado: é técnico estrategista de uma das equipes que disputam o título brasileiro (#TôNaTorcida). Ano passado já esteve no cenário como assistente na organização que representou o Brasil no Mundial.

 

Dos meus bate-bolas no campinho de areia ao estúdio de alta tecnologia montado para as partidas de Lol, onde estará meu pequeno. Do meu primeiro programa de rádio dedicado ao esporte amador na Guaíba AM, em Porto Alegre, ao programa de e-sports na WEB da ESPM, onde esteve meu maior. Lá se foram muitos anos, cada um com sua influência e seu atrativo. Uma diferença que não nos distanciou. Nos alinhou.

 

O que aprendi nesta experiência é que eles “não saem da frente do computador”, mas isso não é um problema. O problema é quando nós saímos do lado deles.

De tenho saudade de mim

 

Por Maria Lucia Solla

 

Detalhes

 

Nunca pensei que um dia eu diria isso. Na verdade acho que é a primeira vez que sinto saudade de mim, mas é o que estou sentindo agora. Agorinha. Vai ver até já faz tempo que essa saudade anda por aqui, e eu é que não percebia. Não distinguia.

 

É uma saudade inebriante que tira o chão, puxa rédeas que a gente imagina ter seguras nas mãos. Pois certamente não as temos, e se quiser saber, acho que nem existem, as tais rédeas. Nem as rédeas, e quem sabe, nem as mãos. Só barras imaginárias que retardam a caminhada. Às vezes se abre uma brecha e a gente passa, mas se não passa, o tempo passa.

 

Vou trazer essa saudade de mim, mais a admiração e a saudade que sinto dos meus filhos, confessando sempre minha gratidão pelo tanto que aprendo com eles, trazendo de volta meu segundo texto neste blog, em dezessete de junho de dois mil e sete.

 

“De música e família

 

Olá,

 

Fui passar o final de semana na casa do meu filho, no extremo sul de Minas Gerais. Ele mora com a família, no topo de uma montanha cercada de vales, de outras montanhas e da natureza toda, com a qual convivem respeitosa e agradecidamente.

 

Sempre aprendo, e aprendo muito lá.

 

No final da tarde de sexta-feira estava lendo, tranqüila na sala, quando comecei a ouvir meu filho no banheiro, administrando um de sete, um de cinco e uma de três, no banho. O resultado era um quarteto afinado, composto de uma só família de instrumentos que emitiam sons completamente diferentes.

 

Ouvi de gritos de Tarzan a choro, e risadas de quase perder o fôlego. Às vezes meu filho, o primeiro violino, conseguia um solo surpreendentemente calmo e equilibrado, mas era por pouco tempo porque os outros instrumentos se atiravam literalmente em cena. Os movimentos da peça eram inesperados e surpreendentes. Tinham começado hesitantes, na entrada do banheiro, num adagio ma non troppo, e crescido até chegarem ao allegro. Tudo indicava que haveria um segundo movimento, mas não demorou para que quebrassem todas as regras e ziguezagueassem entre extremos.

 

Sem aviso prévio nem sutil indicação, um ou outro instrumento se retirava do conjunto, por espaços de tempo descompassados, e o andamento continuava surpreendendo. Havia ais, havia uis, havia sai daí que agora é minha vez, e olha ele pai! E eu, de camarote, sorria, me deliciando. Lavou bem a orelha filho? Ai pai, meu olho! Enxuga bem no meio dos dedos. Deixa eu ver atrás da orelha. Ai!

 

Quando estavam todos vestidos e cheirosos, meu filho pediu para eu secar os cabelos da criançada, e plugou o secador na tomada ao lado do sofá onde eu tinha sentado para ler.

 

Terminada a tarefa, dei graças aos céus por serem só três cabecinhas molhadas. Era o meu limite. Os cabelos da pequena, além de longos, finos e loiros, são cacheados. Bastaria um deslize para que eu perdesse pontos preciosos da sua confiança.

 

Entrei no quarteto, no meio de nova execução, quando fui à saleta de televisão onde se acomodavam todos para ver um filme, mas não demorou para eu perceber que a melodia resultante era bem diferente da que eu ouvira antes, vinda do banheiro. Saí de cena para testar e percebi que a melodia recobrava a harmonia original.

 

Tomei então a decisão de conter meu instrumento. De hoje em diante vou tocar mais baixinho, acompanhando mais do que solando. Quem tem ensaiado junto todos os dias, ano após ano, tem maestria do conjunto. Eu não. Sei que toco bem, sem falsa modéstia, mas no conjunto, sem ensaio, faço apenas o que posso, de improviso, no momento da apresentação.

 

Nunca tinha olhado para nós mesmos, através dessa lente. Gostei. Não posso dizer que vejo mais, mas seguramente vejo melhor.

 

Quem disse que vovós e vovôs não ouvem e não veem bem?”

 

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De dor

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Quero falar de dor, mas como é que se fala de dor? Quando é muito forte não se consegue dizer nada, e quando não abala os alicerces da tribo não vale a pena piar. Ninguém está interessado na dor alheia. Cada um tem sua alegria ou sua própria dor para lidar e sempre a toma como medida padrão. Dor faz parte dos sentidos vivos, está em cada célula. Tem a dor do amor não correspondido, a do adeus não pretendido, a do parto, a do você fica e eu parto, e parto, de lambuja, um pedaço das nossas vidas. Dor não avisa, não dá sinal de chegada, chega e pronto, ou será que somos nós que nos esquecemos da sua aparência, que procuramos ignorar sua presença? Será que somos nós que não damos a ela a atenção devida, e ela cresce para lembrar que alguma coisa não anda bem? Venha de onde vier, depois de quantas tiverem vindo e ido, cada dor parece sempre a primeira e a mais dolorida. Não adianta que a gente não se acostuma. Doer dói e pronto; em você e em mim.

 

Quando meus filhos estavam na fase aguda do crescimento, em que espicham a ponto de nem os ossos, nem eles mesmos, saberem como lidar com a velocidade do crescimento, e com os enormes braços e pernas que na semana anterior não estavam ali, eu sentava um pouquinho na beirada da cama deles e ouvia, entre histórias e sonhos, a queixa: mãe, a perna tá doendo; e dizia: filho, eu sei, crescer dói. Fazia uma massagem nas pernas e eles dormiam entendendo que aquele tipo de dor não dava para impedir.

 

Cresceram, são homens feitos, têm barba e bigode, se quiserem, e eu digo bem alto para que eles ouçam de onde estiverem: meus filhos, meus amores, estamos sempre crescendo, e crescer dói. Tentar impedir é bobagem, e não existe atalho na dor, assim como não existe atalho na verdade. Seja ela do tamanho que for, é preciso permitir que entre e que percorra o seu caminho em nós; mas é da mesma importância deixar uma janela aberta para que ela, depois de fazer o que veio fazer, siga o seu caminho e nos deixe maiores. Mas quem sou eu para falar de dor.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

 

Assim se faz uma limonada

 

Por Abigail Costa

Tenho  me sentido meio-ácida.

Tudo bem que se botar na ponta do lápis tinha lá meus motivos para o meu lado limão. A semana começou com o meu pequeno no hospital, só isso já me deixa sem rumo. Nada me tira mais do eixo do que a febre de filho. Chego até me preparar para de vez em quando… Só que quando o termômetro bate na casa dos 38,5º, me desespero.

Alguns dias de preocupação e depois vai passando.

Família, casa, cachorros e gato. Esse conjunto de vidas tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo no tema dependência.

Primeiro o filho: olhar dengoso do tipo fica-do-meu-lado-por-favor! Agora o cachorro. Acabei de dar remédio, banho…. Sim, o cão também teve febre. Coitado. Percebi que até emagreceu.

É assim, cuido, tomo conta, fico olhando se dormiu, comeu …. e me consumo. Energia gasta. Pilha quase no fim, mas me sinto uma privilegiada.

Essa acidez, prefiro lidar como um excesso de zelo. Enquanto vejo meus colegas enlouquecerem por conta do trânsito, este definitivamente não me amola. Atrasos, tiro de letra. Bem sei que de outra maneira já estaria batendo os pinos.

Chefes, se dá um jeito. Falta de dinheiro agora pra pagar as contas, deixa para o mês seguinte e se parcela.

Mas os meus problemas domésticos, estes não consigo repassar.

Tenho que estar por perto. Acompanho a chegada deles. Tem que ser eu a dar o diagnóstico, fazer o tratamento e presenciar a cura. Até chegar nos finalmentes, às vezes custa um pouco.

Falava sobre isso com um amigo. Com  simples perguntas ele me fez ver beleza nisso tudo.

“Quer preocupação mais gostosa do que essa?  Quer maior sinceridade, que a de alguém que pede ajuda só pelo olhar?”

Tem razão.

Cuidando de um,  de outro, dormindo menos, acordando mais cedo. Sabe que  nenhum cartão de crédito paga isso ? Sinto que em determinados momentos erro na dose. Mas  não abro mão da minha limonada.

Abigail Costa é jornalista e às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung sempre pronta a deixar a vida mais doce.

Alguns levados pelas mãos, outros no colo, mas todos vão

Por Abigail Costa

Voltar para casa é sempre bom. Mas ando enrolando as minhas saídas do trabalho às sextas-feiras. É como se o tempo gasto em conversas no fim do expediente me distanciasse de uma realidade com hora marcada Falo da movimentação de centenas de mulheres e dezenas de homens, carregando malas, pacotes, trouxas de roupa.  O ponto de encontro é numa praça vizinha ao terminal rodoviário da Barra Funda, aqui em São Paulo.

Eles de um lado, e muitos, mas muitos ônibus do outro.

O destino: penitenciárias no interior paulista.  Em meio a agitação  dos  camêlos que tentam vender mercadorias de útima hora e dos sanduíches reforçados de pernil, que valem por um jantar (sim, é preciso forrar bem o estômago, muitos viajam até 600 quilômetros.).

O que me faz “enrolar ” para deixar a redação, são imagens que ficam martelando na minha cabeça, cenas que me fazem imaginar histórias, sem muita expectativa de final feliz. Não são apenas homens e mulheres que vão visitar parentes nas celas. São filhos levados pelas mães, muitos ainda de colo, outros pequeninos que já andam,  arrastados pelas mãos. Eles também estarão no sábado pela manhã, num ambiente,  para eles familiar.

É aí que viajo: Que conversas eles ouvem ? O que passa nessas cabeçinhas ainda sem maturidade ? Eles tem idéia por que estão lá? Seria esse o lazer dessas crianças, o páteo das penitenciárias?

Nada contra filhos visitarem pais, ainda que nesses lugares. É direito assegurado por lei. É justo. Injustiça é o que pode vir pela frente.

Quanto eles  terão de lutar para ter uma vida diferente?
Quantos olhares maldosos de julgamentos desnecessários terão de ignorar?
Quantos deles terão o discernimento de pegar um atalho para outros rumos?

Desses que amanhã embarcarão mais um vez para uma longa viagem, sem mesmo ter noção de que rodovia estarão passando, quantos terão uma sorte diferente da que eles conhecem e convivem ?

Quantos?

Abigail Costa é jornalista, daquelas que jamais serão pautadas pela insensibilidade