Por Carlos Magno Gibrail

Kassab administra uma cidade com mais de 12 milhões de habitantes, 11 milhões de turistas anuais, 50 milhões de passageiros nos aeroportos e terminais rodoviários em 2008 e seis milhões de usuários de transporte por dia. Para circular tal contingente dispõe de 55 estações de metrô, 83 km de linha, 200 heliportos, 32 mil táxis e 15 mil ônibus.
Não estão nesta conta 650 + 650 ônibus fretados e X + Y motos. Ou seja, transporte rodoviário particular que se origina de bairros distantes ou cidades próximas do centro expandido. 650 de manhã + 650 de tarde. E “X” motos clandestinas como táxis + “Y” motos a espera da regulamentação das motos-táxis, em tramitação no Senado.
A partir de 27 de julho, os 1.300 fretados estarão proibidos de circular no centro expandido e, segundo Kassab, apenas 50 mil pessoas deverão ser afetadas.
Nos próximos dias, o Senado deverá regulamentar os motoboys com permissão para as motos-táxis. Sucesso em Paris e uma série de outras capitais. Em São Paulo ainda em regime clandestino como no resto do país, alcançando a estimativa de 500 mil motos-táxis.
Kassab é contra e seu Secretário de Transportes antevê uma carnificina.
Numa cidade em que pedágio urbano é palavrão, fretado é congestionamento, moto-táxi é carnificina, qual a solução?
E se a solução for o pedágio urbano, o fretado e a moto-táxi?
Estaremos, portanto, diante de uma possível inversão. E, certamente, já contamos com uma visível incongruência.
É o que analisa Luiz Nassif:
“Enquanto se ataca a União pelo que se considera aumento da estatização, a prefeitura de São Paulo estende a mão regulatória sobre os ônibus fretados – elementos essenciais na redução da circulação de veículos na capital. Por seu custo, o ônibus fretado é específico para substituir automóveis. Qual o seu problema? Não é regulado pela Prefeitura, não precisa de concessão, não precisa beijar a mão do prefeito”.
Mais perguntas e respostas:
“O que propõe Kassab, então? Primeiro, tirar os fretados do centro e colocá-los nas imediações, sob a falsa alegação de que a medida melhorará o congestionamento do trânsito. Depois, criar sete novas linhas expressas e semi-expressas. Quem vai criar as linhas e selecionar os concessionários? Obviamente, a prefeitura. É a pesada mão do Estado avançando sobre um setor que funciona corretamente, de acordo com as leis de mercado”. Complementa Nassif.
Outra incoerência é evitar a “punição” ao usuário com o pedágio urbano e aplicá-la aos consumidores do transporte fretado. Kassab não concorda: “As pessoas vão se adaptar e acabarão avaliando o custo”.
E acrescenta: “Não estamos tomando medidas contra o transporte fretado, estamos tentando organizar os fretados”.
Da seguinte forma (leia se estiver a fim ou pule para o parágrafo seguinte):
A proibição vale de segunda a sexta-feira, das 5h às 21h, e deve incluir 650 fretados de manhã e outros 650 no fim do dia. Os usuários desses ônibus terão que desembarcar em pontos específicos fora da zona de restrição para fazerem integração com outros meios de transporte – ônibus públicos, metrô, trens e linhas especiais. No total, 17 vias, que somam cerca de 70 km, compõem a zona de restrição: Marginal Pinheiros, as avenidas Bandeirantes, Ricardo Jafet, Professor Abraão de Moraes, Afonso d’Escragnolle Taunay, Vereador José Diniz, Roque Petroni Júnior, Professor Frederico Hermman Júnior, Sumaré, Auro Soares de Moura Andrade, Marquês de São Vicente, Do Estado, Tereza Cristina e Pedroso de Morais, e as ruas Cardeal Arcoverde, Norma Gianotti e Sérgio Tomás.Para receber os passageiros, a Prefeitura criou 13 pontos de embarque e desembarque. Nas linhas do metrô, eles ficam nas estações Imigrantes e Sumaré (linha verde); Nas linhas de trem da CPTM foram reservados espaços nas estações Morumbi, Berrini, Cidade Jardim, Hebraica/Rebouças, Pinheiros e Cidade Universitária – todas na linha que percorre a Marginal Pinheiros. Haverá também uma conexão no terminal Sacomã (zona sul da cidade) do Expresso Tiradentes. A Prefeitura criou sete linhas de ônibus para atender regiões em que não há conexão direta com os destinos mais procurados pelos usuários dos fretados. São elas: Gasômetro-Paulista (via Alameda Santos), Paulista Gasômetro (via São Carlos do Pinhal), metrô Belém-Berrini, metrô Imigrantes-Chácara Santo Antônio, metro Imigrantes-Faria Lima, metrô Jabaquara-Berrini e metrô Vila Madalena-Berrini. Todas estarão em funcionamento entre 5h e 9h e entre 16h30 e 21h. Para estabelecer os limites para os fretados, a prefeitura utilizou como referência a zona de restrição à circulação de caminhões, que abriga aproximadamente 100 km de vias. Haverá exceções para transporte escolar, ônibus de turismo e que realizam transporte para seminários (feiras, simpósios, exposições, entre outros), hotéis e eventos religiosos e culturais. As empresas que prestam esse serviço terão que fazer credenciamento especial junto à prefeitura.
Como se vê, o mercado natural de fretados regido por oferta e procura foi substituído por um ordenamento estatal, que complexo visa ainda revitalizar o sistema de transportes, comandado por Kassab, sem reajuste de tarifa para que o prefeito cumpra sua promessa de campanha.
Quanto as motos-táxis, próximo inimigo das empresas de ônibus, será melhor tirá-las da clandestinidade em vez de ignorá-las.
Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Milton Jung.
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