Avalanche Tricolor: Não inventem, sejam criativos

 

Grêmio 1 x 2 Fluminense
Brasileiro – Olímpico

Faltam ainda 15 minutos para o fim da partida. Começo a escrever antes de assistir ao fim do jogo porque pouco deve mudar até lá. Porque mesmo que mude, nossos problemas não estarão resolvidos.

A superação que sempre nos marcou talvez tenha escondido nossas carências e, provavelmente, nos iludirá caso a vitória ou o empate (já nos contentamos com pouco) seja alcançado.

As dificuldades para tratar a bola, a inexistência de soluções no elenco, a insegurança daqueles que costumam render muito mais e a incapacidade de alguns jogadores, seja por questões técnicas, físicas ou de espírito, impedem uma reação.

O passe melhorou com o retorno de Souza no segundo tempo. Até ali ninguém em campo se mostrava em condições – ou com desejo – de proporcionar uma situação melhor ao companheiro. O problema é que mesmo qualificando o meio de campo, quando a bola de Souza chega, chega para o Ninguém (assim mesmo, com letra maiúscula).

Nosso time está fora de campo, os jogadores que imaginávamos ser solução passaram o ano sofrendo com músculos, ligamentos, joelhos e ombros estourados. Por que tantos machucados ? Hoje, entramos em campo com parte do time reserva. Os dois jogadores de ataque saíram do banco para substituir uma dupla que não tem substituto no elenco deste ano.

O jogo termina, perdemos em casa – onde já fomos imbatíveis. Ainda fizemos um gol.

Paro de escrever, paro para pensar, paro e ouço o presidente do clube anunciar a demissão do técnico e do diretor de futebol. Simplesmente substituí-los não resolverá as dificuldades que encontramos nesta temporada, não irá recuperar nossas qualidades.

A persistirem os sintomas (e a forma como o clube tem sido dirigido até aqui) temo pelos substitutos que serão anunciados. Corremos o risco de soluções mágicas, da convocação daqueles nomes que tem história no clube, mas não tem conhecimento técnico, de enganadores que se vendem como milagreiros.

Uma faixa no fundo do campo que cobria parte da torcida na arquibancada dizia: “Tem que deixar a alma em campo”. Não nos enganemos mais uma vez. Apenas a alma, apenas nossa história e apenas a saída do técnico e do diretor de futebol não recuperarão o nosso futebol.

É preciso inteligência e criatividade.

Avalanche Tricolor: Democracia e futebol

Moro na borda do Morumbi, bairro que nesta quarta-feira viveu uma noite especial.

Desde o fim da tarde – fria como tem sido todas desta semana – havia uma agitação saudável pelas principais avenidas, que causava um murmurinho capaz de alcançar as ruas mais calmas da região. Havia muito congestionamento, também, de onde se podia perceber uma mistura de ilusão e confiança que tomava conta dos militantes que seguiam para a sede da TV Bandeirantes; e dos muitos torcedores que caminhavam para o estádio.

Democracia e futebol dominavam o ambiente. E assim que os dois jogos se iniciaram o esforço de cada partido e equipe para conquistar a vitória se evidenciava. Alguns dissimulados, outros nervosos. Gente que batia acima da canela, pessoas que tiravam de letra. O do estádio me parecia mais instigante do que o do estúdio, apesar de que este não deixou de ser esclarecedor.

Houve vacilos, como a bola que teimou em escapar das mãos do goleiro, como os dados estatísticos usados de maneira incorreta. Houve grandes lances, como a pergunta capciosa respondida de forma assertiva, como o chute de lado de pé que quase enganou o adversário, mas que gerou uma bela defesa.

De casa, ouvi a torcida se lamuriar quando o atacante perdeu a chance de gol e se vangloriar na hora do gol. Era uma barulho mais sincero do que aquele que vazava do estúdio onde assessores – os pagos e os partidários – tentavam demonstrar entusiasmo e intimidar o adversário (convenhamos, o futebol também tem disso).

No paralelo dos dois embates, destacaram-se até mesmo as lágrimas ao final. Ou tentativas de lágrimas, no caso dos políticos.

Tentar assistir a estes espetáculos ao mesmo tempo – com duas televisões ligadas a minha frente – talvez tenha prejudicado minha avaliação. Mas não me impediu de ver que tanto os candidatos no debate como os jogadores na decisão lutavam pelos objetivos que haviam traçado no início da disputa, suaram a camisa (ou o tailleur) para defender seus ideais, não deixaram seus torcedores/eleitores envergonhados.

No futebol, o vencedor ficou bem claro; na política ainda tem muito jogo pela frente, apesar de o nome dos favoritos serem bastantes conhecidos.

Foi uma noite especial esta no Morumbi – já não posso dizer o mesmo daquela que vi, mais cedo, também pela televisão, no Serra Dourada, onde meu time do coração empatou em 1 a 1 com o Goiás, pela Copa Sul-Americana.

Avalanche Tricolor: Ele voltou

 

Inter 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Porto Alegre

Tivemos as melhores chances de gol. Sem exagero, tivemos as únicas chances de gol desta partida. Haja vista, ter sido o goleiro adversário o destaque do jogo. O time dele, aliás, teve seu ataque anulado. Mesmo quando estava mais tempo com a bola nos pés, não era capaz de impor perigo a Vítor, sempre seguro, principalmente agora com uma defesa que parece mais bem armada, protegida e com capacidade de sair jogando.

Gostei, também, de ver o time vencer boa parte das divididas de bola e das disputas pelo alto, das brigas em que se envolveu, da coragem de jogar contra toda a pressão que havia no estádio e que havia dentro da própria torcida, angustiada com a falta de resultados.

Aliás, o resultado não veio de novo. E você, caro e raro leitor deste Blog, deverá me cobrar promessa feita na Avalanche Tricolor de domingo passado, quando disse que a reação neste campeonato se iniciaria. Abri o texto lembrando que o Gre-Nal costumava proporcionar coisas mágicas e mudanças inacreditáveis na trajetória dos clubes.

Ratifico o que escrevi.

Faltavam poucos minutos para se encerrar a partida. E o técnico Silas sacou do banco Souza que voltava ao time após quase sete meses de recuperação de cirurgia que sofreu no joelho. Ele entrou em campo para enfrentar o time contra o qual havia se machucado no início do ano. E na sua primeira jogada, um carrinho na lateral do campo, com o qual roubou a bola adversária e armou o ataque. Sem medo, sem medir riscos, sempre pronto para oferecer o que tem de melhor. Talento e gana.

Souza ainda teve tempo de ensaiar alguns dribles do outro lado do campo e chutar uma bola em direção ao gol. O mais importante, porém, foi sinalizar que a retomada de seu futebol pode estar próxima e – se isto realmente acontecer – a nossa redenção, também.

Que assim seja.

Avalanche Tricolor: Vai começar

Cruzeiro 2 x 2 Grêmio
Brasileiros – Sete Lagoas (MG)

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Há certas coisas mágicas no futebol gaúcho. Campanhas sofríveis se transformaram em vitoriosas, graças a uma superação surgida sei lá de onde. Momentos de desespero culminaram em atos de heroísmo. Jogadores de passagem medíocre por clubes de outros Estados foram levados a condição de ídolo após alcançarem resultados impressionantes.

E nenhuma outra coisa é mais relevante para que esta mutação se realize do que um clássico Gre-Nal. E nele deposito a esperança de ver este time que tem lutado muito e conquistado pouco – e me refiro ao que fez nas duas últimas partidas – encontrar o instante da virada.

Dentro de campo, confesso, me surpreendi com alguns momentos, apesar da lentidão na armação das jogadas. Mesmo fora de casa, dominamos o jogo. Houve trocas de passes que chamaram a atenção, jogadores que marcavam bem, movimentação capaz de complicar o adversário, muita gente com vontade de chutar a gol – às vezes não sabendo conter este desejo – e tentativas de dribles com bons resultados – haja vista, o desempenho de Jonas.

Ao mesmo tempo, tinha a nítida impressão de que o que se construía não era sustentável. E os poucos cruzamentos que chegaram a nossa área mostraram isso. Parecia faltar alguém ou alguma coisa a unir aqueles jogadores.

O que aconteceu no vestiário depois da partida ninguém sabe ao certo. Falam isso, falam aquilo; uns desmentem, outros enaltecem. Sabe-se que boa parte das vezes, o que dizem que houve, houve mesmo. E se houve é preciso que se resolva tudo lá dentro do próprio vestiário. Que se tenha competência para que qualquer incidente seja canalizado para o bem.

Os erros, os resultados, a indisciplina (se houve), tudo isso tem de servir de lição, ser superado, reciclado. E se aproveitar que a tabela do Campeonato nos ofereceu na 12a. rodada a ocasião certa para a redenção.

Domingo que vem é a hora certa para que se inicie a Avalanche Tricolor.

Arena do Corinthians em Itaquera interessa à São Paulo

 

Estadio Corinthians

Desde que Ricardo Teixeira descartou o Morumbi para a Copa do Mundo, surgem ideias de todos os lados. A última é a construção do estádio do Corinthians no bairro de Itaquera, na zona leste da capital paulista. Não sei quanto de fantasia existe na proposta que estaria conectada as comemorações dos 100 anos do clube, mas que investidores coloquem dinheiro naquela região me parece mais interessante para a cidade.

Em 2002, o fundo americano Hicks Muse negociou com a prefeitura terreno ao lado da rodovia Raposo Tavares para levantar uma arena esportiva que seria usada pelo Corinthians. Na época, lembrei várias vezes do erro estratégico para a cidade se aceitasse a proposta.

Já que é para levantar um estádio – sem dinheiro público, é lógico – que o seja onde mais possa interessar a São Paulo. A Arena do Corinthians poderia induzir o desenvolvimento da zona leste, alvo de uma série de projetos que pouco andam por falta de interesse do poder público. Com Poá, Ferraz de Vasconcelos e parte de Guarulhos e Itaquaquecetuba, o leste metropolitano de São Paulo tem a maior concentração populacional da região.

O aeroporto internacional de São Paulo está para aquele lado, assim como as rodovias Dutra, Fernão Dias e Airton Senna, o que facilita o acesso de outras partes do País. Já existem linhas de metrô e trem atendendo aqueles bairros. Teriam de aumentar sua capacidade de transportar passageiros.

Há carência de equipamentos culturais, artísticos e esportivos na zona leste paulistana. A Arena atenderia esta demanda transformando-se em boa opção para os moradores que, atualmente, precisam cruzar a cidade em busca de atrativos.

Melhoria da estrutura viária, saneamento e rede hospitalar seriam bem-vindos para aqueles moradores, também.

Os recursos voltados à zona leste teriam reflexo no mercado de trabalho e, a partir de ações bem planejadas, se teria um plano de expansão que poderia tornar a região auto-sustentável, benefício para toda a cidade com renda mais bem distribuída, redução no número de viagens e qualidade de vida.

Duvido muito da capacidade de se construir um estádio com 65 mil lugares que comporte a abertura da Copa do Mundo de 2014, já que o projeto corintiano chega ao máximo de 45 mil. Verdade que, há dois anos, o jornalista Victor Birner divulgou um esboço da Arena que poderia ter até 77 mil assentos – é o desenho que você vê reproduzido aqui no post.

Não, sei também, se há dinheiro para tocar esta obra em tempo de receber jogos do Mundial. Há quem aposte que sim.

Mas quanto a Copa da Fifa que se preocupem aqueles que se comprometeram em fazê-la. Eu, ao acreditar no desenvolvimento da zona leste, tendo a Arena do Corinthians como âncora, penso em São Paulo e seus moradores, apenas.

Avalanche Tricolor: Uma noite perdida

 

Grêmio 1 x 1 Vasco
Brasileiro – Olímpico

Gremio e Vasco embaixo da água

Havia chovido quatro horas seguidas antes de a partida se iniciar, em Porto Alegre. A previsão era, inclusive, de granizo. Mas o árbitro Héber Roberto Lopes entendeu que havia condições de se jogar futebol.

Choveu durante todos os 45 primeiros minutos. E com vento forte a atrapalhar. Isto não foi suficiente para ele cancelar o jogo. Talvez tenha se iludido com o fato de as duas equipes terem conseguido marcar gols logo no início (quando a condição do gramado era apenas precária).

As equipes retornaram para o segundo tempo embaixo d’água, e sofreram até o fim com um aguaceiro que apenas aumentava a cada minuto. Nada, porém, convenceu o árbitro de impedir a continuidade da partida. A chuva era tal que ele foi incapaz de enxergar um pênalti no minuto final que favoreceria o time da casa – se é que não viu.

Muitos dos poucos torcedores que foram ao estádio, na noite desta quarta-feira, vaiaram o técnico Silas e a diretoria gremista assim que o jogo se encerrou, descontentes com a campanha do Tricolor (imagino que ninguém esteja feliz).

Deveriam, no entanto, ter se indignado com o principal personagem deste triste espetáculo aquático encenado no Olímpico. Faltou responsabilidade ao árbitro Hérber Roberto Lopes que desrespeitou o público e expôs atletas profissionais a um risco desnecessário.

A lamentar, ainda, o fato de que no intervalo e fim do jogo não houve nenhuma declaração dos jogadores contra a autoridade que permitiu a realização deste evento. Deveriam ter tido a coragem de pedir o cancelamento da partida por total falta de condições para a prática esportiva.

Esperar, porém, que jogadores de futebol se unam em defesa de seus direitos talvez seja um pouco demais, já sinalizaram em várias oportunidades de que são incapazes de se articular sem que estejam sob a tutela de seus empresários.

É uma pena. Desperdiçou-se uma noite de futebol, no estádio Olímpico.

TT: Tira Teixeira

 

Por Carlos Magno Gibrail

Copa 2014Tira Teixeira é a campanha recém lançada para a saída de Ricardo Teixeira da CBF e pela transparência na COPA 2014, encabeçada por Eduardo Rocha Azevedo, um dos fundadores da BM&F.

Pelas condições de manutenção de poder das entidades do futebol, FIFA, CBF, e demais, talvez demore um pouco a saída da CBF. Entretanto não há motivo para desânimo, pois um processo vigoroso de oposição popular e de lideranças políticas, esportivas, empresariais e dos meios de comunicação começa a tomar corpo pelo controle dos gastos públicos a serem realizados para a Copa 2014. Principalmente em São Paulo, a primeira vítima dos ataques do secretário geral da FIFA, Gêrome Valcker.

E é de São Paulo que virá a resposta sugerida ano passado por Juca Kfouri ao então governador José Serra, através de seu sucessor Alberto Goldman para o presidente da CBF e do COL (Comitê Organizador Local): “São Paulo abre mão da abertura da Copa caso o Morumbi permaneça vetado pela CBF”.

É o que o jornalista Juca Kfouri relatou domingo na Folha e no seu blog no UOL.

Goldman difere de Serra e segue o mesmo padrão da Premier da Alemanha, Angela Merkel, que se impôs à FIFA ao manter o Estádio Olímpico de Berlim para a final sem alterações exigidas na fachada com colunas e preservando os “pontos cegos” apontados pela equipe de Blatter.

O que a FIFA não conseguiu na Alemanha, que investiu apenas U$ 2 bilhões em estádios, dos quais apenas 1/3 do governo, veio alcançar na África do Sul. Ganhou U$ 3,2 bilhões e deixou à África uma conta de U$ 1,1 bilhão de dólares para pagar. Prejuízo que nem os mais de 100 participantes do COL africano puderam evitar. Ganharam nota 9 de Blatter, que tinha dado 8 para a Alemanha, mas pelo apetite demonstrado pelo secretário geral, espera um 10 do Brasil.

E não devem faltar argumentos, pois pela composição do COL brasileiro há chances. Teixeira acumula o cargo de presidente, a sua filha Joana Havelange é a secretária executiva, o advogado de Daniel Dantas, Francisco Mussnich é o diretor jurídico, o assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva ocupa a mesma função no COL, o administrador do patrimônio pessoal de Teixeira, Carlos Langoni faz parte da diretoria financeira do COL.

O que Blatter, Valcker e Teixeira não consideraram é aquilo que Lula começou a perceber e que Alberto Goldman será o porta-voz. São Paulo, embora tardiamente, não se curvará, assim como a Alemanha e a França, no episódio com a entidade francesa de futebol, não se submeteram às exigências da FIFA.

Sobre o tema sugiro os artigos nos blogs:

Juca Kfouri – Em Clima de Paz


Victor Birner – Da Carta Capital e quem vigia Teixeira

Avalanche Tricolor: Desculpa, Vítor!

G.Prudente 2 x 0 Grêmio
Brasileiro – Presidente Prudente

 

Mal havia começado o segundo tempo. O time ainda tinha no ouvido a bronca que o Silas declarou ter dado no vestiário. A bola era do Grêmio e foi parar nos pés do adversário, de graça – como dizem os locutores de futebol. Sem recurso, o zagueiro fez o pênalti. E o juiz assinalou.

A desvantagem iria se ampliar ainda mais. Mas Vítor estava no gol. Braços abertos, cara séria como sempre, se agigantou. A cobrança foi forte, meia altura, para o lado esquerdo do cobrador. Nosso goleiro se esticou todo para o seu lado direito. E deixou mais uma vez sua marca. Defesa de Vítor !

Antes, Vítor já havia impedido um chute forte no meio da goleira em que o atacante apareceu livre diante da área. Havia espalmado uma bola de outro atacante que estava livre dentro da área. Havia feito várias defesas impedindo gols que a torcida adversária comemorava. Havia jogado como o torcedor gremista exige e gosta.

Se ao fim do jogo, o zagueiro Rodrigo disse que “tem de tomar uma atitude logo, antes que a gente não consiga mais sair de onde estamos nos enfiando” que esta atitude seja adotada a partir do que nosso goleiro tem demonstrado em campo.

Vítor não é capitão do Grêmio por acaso. Além de ser o melhor jogador no momento, é o exemplo a ser seguido para uma retomada neste Campeonato Brasileiro que apenas se inicia. Ele é líder, sério, guerreiro e talentoso. Reúne todas as características que se espera de um jogador que receba o privilégio de vestir a camisa do Imortal Tricolor.

Aqueles que não têm conseguido ser nem uma coisa nem outra, ao menos tenham a vergonha na cara de pedir desculpas a Vítor pelo que estão fazendo com ele. E com a torcida, também.

Ocasião e perversão

 

Por Carlos Magno Gibrail

A cena em Guantánamo, prisão norte-americana de segurança máxima e torturas idem, durante o governo republicano de Bush, da policial dirigindo um prisioneiro em uma coleira de cachorro não deve ter saído da mente de quem a viu.

torturaPois é, segundo psicólogos muito provavelmente eu e você agiríamos da mesma maneira.

Na Universidade de Stanford, em 1971, foi realizado um experimento científico de comportamento onde estudantes foram divididos entre encarcerados e carcereiros. A estes se deu poder total de ação. Os alunos pesquisados eram normais e de boa índole.

A experiência teve que ser interrompida em seis dias, tal a perversidade dos carcereiros.

Fernanda Torres, atriz e agora articulista da Folha, apropriadamente ao processo eleitoral que vivenciamos retomou Stanford, sábado em sua coluna, para questionar o apego da humanidade às regalias do poder e as conseqüências.

Aproveitando a linha de raciocínio de Fernanda, que alerta que a ocasião faz o ladrão e, dado também o momento do futebol, não há como deixar de visualizar por todo o mundo o absurdo da quase totalidade das entidades representativas e dos respectivos Clubes dirigidos por pessoas que usam os cargos como ditadores. Poder total e tempo indeterminado.

A pesquisa de Stanford mostrou que é só dar um poder absoluto sobre alguém que a pessoa começa a tomá-la como posse e a tratá-la como um objeto. Donde podemos intuir que a posse tanto pode ser sobre pessoas ou sobre organizações. Este sentimento de propriedade gera apego e, certamente, fez com que surgissem guerras e demais ações de dominação, subjugando terceiros. Quer pessoas, espécies, animais e entidades.

O meio ambiente com seus mares, floras e faunas atacados por predadores, é testemunha viva deste problema. A política e o futebol, também.

Fernanda Torres conclui que: “A humanidade tem apego às regalias e a danação divina já não mais ameaça. A Lei da Ficha Limpa pode servir para proteger o político de sua própria fraqueza”.

Para o futebol, o presidente Lula já indicou o caminho democrático de no máximo oito anos de poder ao Ricardo Teixeira, que não concorda, pois, comprovando o experimento de Stanford, a CBF é possessão sua. Como tal, faz dela o que bem entender. E, assim, sucessivamente, a maioria dos presidentes das federações estaduais com o mesmo sentimento de posse vai tocando as entidades e apoiando a CBF, que por sua vez a apóia, que por sua vez apóia também a quase totalidade dos presidentes de Clubes, subservientes a estas entidades dos estados. É uma troca recíproca de favores iguais entre idênticos interesses.

Se os psicólogos de Stanford alertam que provavelmente eu e você faríamos o mesmo, é melhor atender a atriz e o presidente.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e, às quartas, escreve no Blog do Mílton Jung

Copa da África é vermelha como o sol de Toscana

 

Direto de Ansedônia/Itália

Sol em Toscana

Nem Itália nem Brasil no fim da Copa, me deixaram orfão neste domingo em que pessoas no mundo todo se reuniram para assistir a partida final do Mundial 2010. Aqui onde passo as férias, Toscana, bares e restaurantes promoveram timidamente encontros para receber torcedores dispostos a acompanhar a partida. Espanha e Holanda não ofereciam aos italianos motivação especial, a não ser à turma de Milão, com dois representantes na seleção holandesa: Sneijder, da Inter, e Huntelaar, do Milan (que nem em campo estava).

Restou-me aceitar o convite da Zia Puppa para ver o jogo com a família. Ela só assiste ao futebol em Copa, e, ultimamente, tem reclamado muito das partidas. Acha que ninguém “joga, assim, assim …” e reforça a frase com as duas mãos sacudindo a sua frente.

Pedaços de pizza, queijos cortados, salame ‘italiano’ e cerveja servida me aguardavam. Logo que cheguei, perguntei pelo coração dela. Tanto faz, mas o sol, hoje, está mais pra Espanha do que Holanda.

Fui conferir. Aqui do alto de Ansedonia, onde fica a casa dela, o sol desce no Mediterrâneo e pode ser apreciado, no verão, até oito e meia, quase nove da noite. Tinha razão, o vermelho era especial.

Nada especial era o jogo na televisão. Apesar de final de Copa do Mundo, as seleções se apresentavam com futebol aquém do esperado. Ou jogavam aquilo mesmo que Zia Puppa há algum tempo reclama. Um jogo sem graça, com poucos lances de gol e muito pontapé. “Porca la miseria” disse Zia ao ver o holandês acertar com a chuteira o peito do espanhol.

Quis saber porque a Espanha ainda estava na Copa se tinha perdido um jogo. Tive de explicar que foi só o primeiro do Mundial e depois ela se recuperou. Quis saber, também, como o Brasil perdeu para esta Holanda ? “Pergunta pro Dunga, Zia”.

O prato de petiscos estava quase no fim, e o jogo não andava. Falta pra um, cartão amarelo pro outro, de vez em quando alguém tentava um drible. As poucas escapadas ao gol eram contra-ataques da Holanda que acabavam nas mãos (ou pés) de Casillas. A Espanha ensaiava um ataque, uma cobrança de escanteio, um cabeceio, mas a maior parte das bolas seguia pra fora.

“Desse jeito ninguém vai fazer gol”. No intervalo, a previsão da Zia Puppa já era de que a decisão seria nos pênatis. Os analistas da Rai Uno, com mais argumentos, diziam o mesmo. Um deles arriscou que o jogo iria melhorar no segundo tempo: “Até aqui a ordem era não perder a Copa no primeiro tempo”.

O segundo tempo se iniciou, e minha companheira de sofá dava sinais de cansaço. A cabeça as vezes caía pra frente como se estivesse dormindo. Despertava sempre que alguém na sala gritava mais alto por causa de um chute a gol. Ou uma falta, o que se repetiu muito mais. Ela só se levantou mesmo, indignada, quando o juiz inglês Howard Webb não puniu Iniesta que fez uma falta fora de jogo: “Ele amarelou” – traduzo eu para um português menos ofensivo. Aproveitou para fazer exercícios para as costas, estavam mais interessantes.

Apesar de uma pequena melhora na partida, o gol não surgia e a previsão da Zia Puppa ficava mais próxima: os temidos pênaltis. “E se der pênalti, este aí vai pegar tudo”, se referia a Casillas que naquela altura tinha participado dos lances mais emocionantes do jogo.

Já não havia mais sol lá fora, quando o 0 x 0 se confirmou e o jogo foi para o tempo extra: “é castigo, pra ver se eles acertam um gol”, disse se levantando para lavar a louça na cozinha. E lá de dentro ainda resmungou: “no meu tempo não tinha essas coisas, se ganhava no jogo mesmo”.

Engano dela, em 34 quando a Azurra da Zia ganhou o seu primeiro mundial, o título foi decidido na prorrogação. Aliás, finais de Copa com prorrogação já tinham acontecido, também, em 66, 78, 94 e 2006. Portanto, nenhum demérito aos que tentavam a conquista hoje, a não ser pela carência de futebol e excesso de violência.

O problema da prorrogação é que a cerveja tinha acabado. E os ‘comes e bebes’, também. Ao menos que tivesse mais futebol. Iniesta exitou e errou. Navas assustou com a bola batendo do lado de fora da rede. Sneijder cobrou falta pra fora. Tinha um holandês impedido numa jogada e mais um na outra. E um outro acabou expulsou. “E foi expulso porque fez falta naquele que nem tinha que estar mais em campo”, lembrou minha comentarista de plantão, se referindo ao fato de Heitinga ter agarrado Iniesta que corria pra dentro da área.

“Eles vão jogar a vida toda e não vão marcar gol”. Foi como se a Espanha resolvesse dar um #calabocazia, pois ela mal acabara de reclamar e Iniesta encheu o pé pra fazer o gol do título. Comemorei, nem tanto pelos espanhóis, menos ainda pela previsão errada dela, mas porque gol ainda é a coisa mais importante no futebol.

Curioso é ver que a Espanha que chegou com boa fama e boas previsões na Copa estava bem próxima do título tendo marcado apenas oito em sete jogos. E logo a seleção batizada como “Fúria”. Talvez a explicação estivesse não nos número de gols marcados, mas nos tomados: apenas dois. Ou quem sabe estava no equilíbrio destes números, uma defesa segura e um ataque que marca o necessário ?

Pensei em levantar esta bola pra Zia comentar, mas, sei lá de onde, surgiu mais um copo de cerveja. Dois, aliás. Um na minha mão e outro na dela que brindou a façanha espanhola – o jogo já havia acabado.

“Estava torcendo, Zia ?”

“Eu, não, mas o sol estava”.

E o vermelho do sol de Toscana era espanhol, sem dúvida. Assim como a Copa da África.