Avalanche Tricolor: a esperança entrou em campo!

Grêmio 6×2 Santa Cruz

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Du Queiroz e Pavón comemoram em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Veio do banco o ânimo que o torcedor do Grêmio buscava para ter esperanças de uma boa temporada em 2024. Faltando três rodadas para o final da fase de classificação, mesmo sem ter corrido nenhum risco e estar disputando a ponta da competição desde o início, havia um burburinho que expressava a desconfiança com o elenco. 

Mal acostumados com a excepcional contratação de Luis Suarez, no ano passado, os gremistas sinalizávamos decepção com os poucos reforços que haviam chegado; sem contar a frustração com a lesão de Soteldo, que despontava como o grande destaque no início da temporada.

Antes de fechar a janela de contratação, porém, a direção trouxe Diego Costa, Du Queiroz e Cristian Pavón – os três com status para serem titulares. Se o primeiro ficou no camarote, enquanto recupera a forma física, os dois últimos já estavam à disposição do time e assistiram do banco o primeiro tempo instável da equipe. 

Após dois gols marcados rapidamente, pelos pés de Gustavo Nunes (que baita guri, hein!) e Cristaldo, o time cedeu o empate e revelou a fragilidade no esquema defensivo. O muxoxo do torcedor aumentou assim que os jogadores deixaram o gramado no intervalo. 

Na volta do vestiário, Pavón e Du Queiroz estavam escalados. E, em campo, demonstraram um entusiasmo que contagiou os colegas e a torcida. 

O atacante argentino infernizou o jogo pelo lado direito com dribles, velocidade, passes qualificados e disposição na marcação. Enquanto isso, o meio campista recém-chegado da Rússia se aproximou de Pavón, tabelou, distribuiu bem a bola de um lado e de outro, apareceu dentro da área, criou chances de gol e desarmou quando foi exigido.

Pavón saiu de campo aplaudido por todos após marcar o gol que colocou o Grêmio à frente do placar e dar duas assistências para consolidar a goleada, que nos eleva à liderança parcial do campeonato, com melhor ataque e melhor saldo de gols. 

Na entrevista, ao fim da partida, o argentino disse estar feliz com a estreia. Felicidade esta compartilhada por todos nós torcedores que estávamos apenas a espera de algum sinal para voltar a acreditar no potencial do Grêmio. Os sinais foram vistos hoje à tarde na Arena! 

Avalanche Tricolor: o que ganhamos nesta Quarta-feira de Cinzas?

Ypiranga 0x0 Grêmio

Gaúcho – Colosso da Lagoa, Erechim/RS

Gustavo Nunes em foto de Guilherme Testa/GREMIO FBPA

Quero ganhar sempre! Na vida e no futebol. Quero ganhar até no toss — como chamávamos antigamente o sorteio que acontece antes de a partida se iniciar para escolher “bola” ou “campo”. Jogar com o que houver de melhor disponível, portanto, será sempre minha opção. O fato, porém, é que minha única responsabilidade em relação ao clube pelo qual torço é de torcer, torcer e torcer. E torcer para ganhar! 

Quem precisa administrar o clube, gerenciar o elenco, planejar a temporada e selecionar prioridades não pode pensar como um torcedor. Sua responsabilidade é muito maior. Extrapola o resultado de uma partida de futebol. Tem de pensar a longo prazo. Fazer escolhas e identificar prioridades. 

Diante disso, não condeno a decisão do Grêmio e seus gestores para a partida da noite desta quarta-feira, em Erechim, cidade que fica há cerca de 370 quilômetros de Porto Alegre. De ônibus, uma viagem com mais de cinco horas de duração. Um desgaste físico que não condiz com a prioridade do resultado na oitava rodada do Campeonato Gaúcho. 

Considerando o que nos interessa em 2024 e o próprio regulamento da competição que disputamos, que classifica os oito primeiros colocados de 12 participantes à fase seguinte, manter o time principal retomando o fôlego e treinando por mais tempo, em Porto Alegre, faz todo o sentido. 

Ao torcedor que quer ver seus principais jogadores em campo e vencer sempre e a todo custo, resta ter paciência. Esperar os momentos decisivos para cobrar desempenho mais apurado, esforço redobrado e resultados condizentes com a história do clube. 

Foi, assim, com complacência que assisti à disputa desta Quarta-feira de Cinzas, no Colosso da Lagoa. E, apesar de mais um empate, que nos mantém na segunda colocação do campeonato e invictos a sete jogos, saí da partida com a expectativa de que a “maquininha” de fabricar ponteiros esquerdos segue ativa pelos lados de Humaitá. Depois de Pedro Rocha, Everton, Pepê e Ferreirinha, fomos apresentados a Gustavo Nunes. 

O atacante tem apenas 18 anos, nasceu no litoral paulista, e chegou no clube em 2021. Foi destaque no ano seguinte na campanha de finalista do Grêmio no Campeonato Brasileiro Sub-17. Em 2023, conquistou o Campeonato Gaúcho Sub-20. Fez sucesso na Copa São Paulo de futebol júnior, em 2024, com três gols e duas assistências em seis partidas disputadas. 

No jogo passado, partiu dos pés dele a assistência para o gol de empate do Grêmio. Hoje, só deu Gustavo Nunes: encarou a marcação forte, demonstrou habilidade no trato da bola e se impôs aos adversários com velocidade. Mais não fez porque estava cercado de colegas que estão aquém do seu futebol, sem contar a nítida falta de entrosamento.

Saímos de Erechim com apenas um ponto a mais na tabela de classificação, e a esperança de que ganhamos mais um atacante. E eu quero ganhar sempre! 

Avalanche Tricolor: entre o tedioso jogo e a glória literária

Grêmio 1×1 São Luiz

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Na iminência de mais uma Avalanche Tricolor, me vi diante de um dilema peculiar: dedicar minha atenção ao Grêmio que se desdobrava na televisão ou ao que repousava, imortalizado, sobre a mesa do meu escritório. O jogo mal-jogado, nesta tarde de sábado de Carnaval, fez inclinar minha balança de forma inesperada., infelizmente. Preferia ter tido uma escolha mais acirrada, daquelas que surgem sob o signo da incerteza, que exigem reflexão e, muitas vezes, nos proporcionam soluções criativas. 

A falta de criatividade no campo e o tedioso futebol de um time que parecia derreter no calor de 34 graus de Porto Alegre, desfez qualquer hesitação: o Grêmio eternizado em minha mesa revela-se superior. É um Grêmio de glórias, repleto de conquistas, batalhador e vencedor! Um time que supera limites, transcende a lógica e faz história. É um Grêmio que sofre! Em alguns momentos também é sofrível. Mas que, mesmo assim, merece a devoção de seus torcedores fervorosos e eloquentes.

Na minha mesa estão dois livros que merecem ser lidos pelos gremistas de todos os rincões. Os não-gremistas podem se atrever também, pois estarão diante de capítulos importantes da história do futebol brasileiro. Talvez fiquem com inveja, especialmente se tiverem oportunidade de ler “120 anos de glória”, livro comemorativo escrito por Léo Gerchmann. Um convite à reflexão sobre futebol, arte e Brasil se apresenta em “Onde o Grêmio estiver”, de João Campos Lima.

Minha sugestão é que você os compre agora, os dois. Desfrute da boa escrita de meus colegas de profissão e de torcida: Léo e João são jornalistas e gremistas apaixonados. Refletem essas duas baitas qualidades nos textos que me encantam neste feriado de Carnaval. Uma delícia de leitura que suaviza a amargura de um jogo tão insípido quanto o presenciado.

Em “120 anos de glória”, coube a Léo Gerchmann esbanjar o talento de um camisa 10, essencialmente ausente nos gramados atuais, para tecer de forma épica a história do Grêmio, tendo os 40 anos do título mundial como inspiração. O caminho que escolheu para nos entregar essa obra literária, ao escrever de forma não linear e entrelaçando fatos e paixões, é daqueles que só os craques da caneta são capazes. Faz um livro-arte com ilustrações de momentos incríveis e outros pouco conhecidos, imagens antigas e históricas, e textos que nos ajudam a explicar o amor que temos pelo clube. Léo transcende as quatro linhas utilizando esta chance singular para reiterar seu maior engajamento em favor do Grêmio: a confirmação da pluralidade do Clube de Todos. Uma luta que hoje se expressou na camisa 0 de Villasanti, em alusão à campanha “Zero Assédio”, focada na prevenção da violência contra as mulheres.

Em “Onde o Grêmio estiver”, João Campos Lima vestiu a camisa 5, que representa a coragem, a garra, o futebol sem medo, capaz de superar qualquer adversidade, protagonizado por Vitor Hugo, China, Dinho e Luis Carlos Goiano. Destemido, aceitou o desafio imposto por amigos de WhatsApp e arquibancada e se transformou em cronista do Grêmio na série B. Não a da Batalha dos Aflitos, que ele assistiu na casa de um vizinho quando era guri de calças curtas. A de 2022, sem graça nem glamour. De jogos duros de roer, time limitado, técnicos trocados e futebol claudicante. Tarefa árdua esta assumida pelo autor. Ao fim e ao cabo, sua audácia nos premiou com textos que, ao lado do desempenho do Grêmio em campo e nos bastidores, costuram fatos que marcaram o cotidiano de todos os brasileiros, destaques da arte e da cultura, e, sim, um paralelo muito bem traçado com a histórica jornada de 2005. Inclusive com coincidências que não reproduzo aqui para atiçar sua curiosidade.

Num e noutro livro, encontraremos as diversas nuances do nosso Grêmio, algumas históricas e outras apenas passageiras. Todas escritas com paixão, apuro e criatividade — qualidades que estiveram ausentes do Grêmio que se apresentou na minha televisão, neste sábado.  

Avalanche Tricolor: de pé em pé e evoluindo

Grêmio 2×0 Novo Hamburgo

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Comemoração do primeiro gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

De pé em pé e com paciência até as redes. Foi essa a estratégia do Grêmio para somar mais uma vitória na sua jornada recém-iniciada de 2024. Se no primeiro tempo, a bola teimosamente negou-se a entrar, no segundo, toques de talento e trocas de passes bem feitas forjaram o resultado, na Arena.

Desde o início do jogo percebeu-se um Grêmio mais à vontade no gramado, apesar da desconfiança que ainda existe por parte do torcedor.  Havia uma dinâmica diferente na movimentação dos jogadores se compararmos com as partidas anteriores. A bola rodava com mais velocidade a despeito da retranca montada pelo adversário.

Boa parte da evolução passa pelos pés de Pepê que já havia se destacado nos jogos anteriores desta temporada. Hoje, foi sua melhor atuação, jogando um pouco mais à frente, conduzindo a bola colada no pé, driblando a forte marcação, distribuindo o jogo, aparecendo para facilitar a vida dos companheiros e arriscando bons chutes de fora da área.

Foi André Henrique quem conseguiu furar o bloqueio com um belíssimo gol, logo no início do segundo tempo. Recebeu passe de João Pedro dentro da área. Puxou com a esquerda e de três dedos bateu com a direita, tirando do alcance do goleiro. Golaço!

A vitória se realizou com a cobrança de pênalti de JP Galvão e a demonstração de apoio de todo o grupo de jogadores ao atacante que tem a cruel tarefa de ocupar o espaço de Luis Suarez. O lance da penalidade já havia sido mérito dele que serviu a bola para Nathan Fernandes entrar na área, por trás dos marcadores, e sofrer a falta (queira o santo protetor de todos os jogadores que a lesão sentida por Nathan seja leve). JP, vaiado até mesmo antes de a partida começar, saiu de campo sob o aplauso do torcedor. 

O Grêmio termina mais uma rodada do Campeonato Gaúcho na certeza da liderança, engata sua quinta vitória consecutiva, marcou dez gols e tomou apenas três. Sem querer iludir o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, entendo que o futebol jogado nesta terça-feira à noite deu sinais de melhoras. Melhor assim!

Avalanche Tricolor: estávamos precisando de boas notícias

Avenida 0x1 Grêmio

Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos, Santa Cruz/RS

Nathan Fernandes no caminho do gol em foto de Everton Silveira | Grêmio FBPA

Começamos a partida desta noite de sábado em busca de boas notícias. Havia uma certa agonia do torcedor na arquibancada – e no meu sofá de casa, também. Primeiro porque entramos em campo precisando de um bom resultado para manter a liderança da competição, perdida parcialmente no meio da tarde. 

Pior ainda era saber que iríamos ao jogo sem o principal jogador neste começo de temporada. Soteldo, recém-chegado e já admirado pelo torcedor, foi o primeiro grande revés do ano. Não bastava a falta de notícias sobre reforços para posições essenciais, ainda tivemos de amargar essa perda, por grave lesão, por ao menos todo Campeonato Gaúcho.

O paradoxo é que diante do que assistimos em Santa Cruz, o alento surgiu exatamente na posição do baixinho. 

Nathan Fernandes que vem sendo aproveitado aos poucos saiu como titular e pelo lado esquerdo. Depois de algumas tentativas de ataque frustradas, tivemos a parada técnica devido ao forte calor. E Nathan parece ter entendido o recado que veio da resenha ao lado do gramado. Na primeira bola que lhe chegou, foi vertical, usou da velocidade para escapar da marcação e do talento para conduzir a bola. Bateu de fora da área e longe do alcance do goleiro. Marcou o primeiro gol dele no Gaúcho e o segundo como profissional do Grêmio. 

No segundo tempo, Nathan foi substituído por Lucas Besozzi, o garoto argentino que chegou no ano passado e teve seu potencial limitado pela timidez. Desta vez, porém, atreveu-se a driblar. Atrevimento recompensando. Fez ótimas jogadas, deixou o marcador para trás em todas suas tentativas, driblou com categoria, meteu a bola no meio das pernas do adversário, cruzou para seus companheiros e protagonizou um chute que só não teve nota 10 porque o goleiro fez excelente intervenção. 

Nathan Fernandes, às vésperas de completar 19 anos, e Lucas Besozzi, recém completados 21, foram as duas boas notícias do Grêmio. Suficientes para nos manter como líderes do Campeonato Gaúcho.

Avalanche Tricolor: tributo ao Seu Ênio

Grêmio 1×0 Juventude

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre.RS 

Era bem cedo ainda quando uma mensagem em rede social me fez o coração apertar. Era o perfil do Grêmio, no Instagram, celebrando o aniversário de Ênio Andrade. Lembrar dele é sempre um instante de alegria tanto quanto de saudades. Seu Ênio foi campeão como jogador e um dos técnicos mais vencedores do futebol brasileiro. No particular, foi das pessoas mais influentes na minha adolescência. Falei dessa minha admiração e respeito em Avalanche de 2014:

A experiência mais gratificante que tive com um técnico de futebol foi com Ênio Andrade quando, pela primeira vez, treinou o Grêmio, em 1975. Anos difíceis aqueles, nos quais o título gaúcho era quase uma utopia e sequer tínhamos direito de sonhar com o Brasil ou o Mundo, apesar de já estar escrito pelo destino que haveríamos de conquistá-los. Foi, por sinal, o próprio Ênio quem abriu caminho para essas vitórias quando voltou a ser nosso treinador nos anos de 1980, mas este foi outro momento da nossa vida como torcedor. 

Seu Ênio, como sempre respeitosamente o chamei, foi muito mais do que o técnico do meu time de coração. Adotei-o como padrinho pelo carinho que sempre teve comigo desde que fui apresentado a ele por meu pai, Milton Ferretti Jung, que você, caro e raro leitor, conhece muito bem. 

Além de acompanhar a todos os treinos do Grêmio ao lado do gramado, tinha o privilégio de assistir às conversas que eles travavam ao fim dos trabalhos em uma mesa que lhes era reservada na cozinha do bar que funcionava dentro do estádio Olímpico. 

Aprendi muito sobre futebol naqueles tempos e não apenas sobre estratégias em campo, mas do jogo de tramoias e injustiças que se desenrola na maioria das vezes distante dos olhos do torcedor. 

Convidado por ele, me travesti de gandula para funcionar como “pombo-correio” do técnico que, na época, não podia sair da casamata, como era chamado o banco de reservas. Seu Ênio me passava as instruções e eu corria até atrás do gol gremista para transmiti-las ao goleiro Picasso. Inúmeras vezes, percebia que a orientação tinha um sentido e jogávamos a bola para o outro. 

O aprendizado mais importante se deu no campo pessoal: foi ele o responsável por me convencer de que eu seria muito mais honesto se procurasse meu pai para contar-lhe que havia rodado de ano na escola, notícia que eu relutava em anunciar, apesar de todos na família já saberem.

Honestidade, amizade, correção, companheirismo, criatividade, inteligência, e bom humor. Alguns dos muitos valores que Seu Ênio dividiu com todos que tivemos o privilégio de conviver com ele. Alguém que sempre fará falta ao futebol, ao Grêmio e ao meu coração. 

Na noite em que o Grêmio venceu e assumiu a liderança do Campeonato Gaúcho, mesmo tendo sofrido muito mais do que deveria, em sua casa, dedico esta Avalanche a Seu Ênio, um treinador e um ser humano que deveria ser referência a todos que vestem a nossa camisa.

Avalanche Tricolor: sobre confirmações, pronúncias e o gol de sinuca

Brasil 0x1 Grêmio

Gaúcho – Bento Freitas, Pelotas/RS

André comemora o gol da vitória em foto de Everton Silveira / Grêmio FBPA

É contra a retranca, o gramado ruim e o torcedor no alambrado. Tem bafo na nuca, correria do adversário e chute na canela, sem direito a VAR. Campeonato Gaúcho é assim mesmo. Já foi bem pior!

Jogar em Pelotas, então, nem se fala. A coisa lá pegava antes de a partida começar. No caminho para o estádio havia pressão. E se você fosse repórter de campo, como fui por algum tempo no início da carreira, tinha de estar disposto a ouvir todo tipo de impropério, porque na melhor das hipóteses você era o adversário a ser atacado. 

Hoje, me parece que a vida dos colegas é um pouco mais simples, apesar das confusões que assistimos na partida deste domingo à tarde, em que os burocratas da federação e os auxiliares do árbitro fizeram algumas trapalhadas diante das substituições de jogadores. Na volta do intervalo, chegaram ao ponto de sacar JP Galvão em vez de Nathan Fernandes. Era o que estava registrado na súmula, segundo o repórter de televisão. Do ponto de vista técnico, talvez até tenham feito melhor escolha.

Gostaria de assistir ao Grêmio com dois jogadores incisivos nas pontas: Soteldo na esquerda e Nathan pela direita. Quando tivemos um não tivemos o outro, o que deixa o time jogando por um lado só e facilita a vida do adversário que se arma para não levar gol. De certa maneira, foi o que se buscou na partida. Esse equilíbrio na movimentação de ataque. Não foi o que se conseguiu. O jogo aconteceu quase todo pela esquerda, onde Nathan esteve no primeiro tempo e Soteldo no segundo.

Não surpreende que o gol tenha saído pelo lado esquerdo. Após ativação de Reinaldo e Soteldo que abriram espaço para Villasanti. Nosso volante uruguaio foi inteligente e preciso. Primeiro, por buscar a jogada ofensiva com um movimento de corpo que deslocou o marcador — me dá nos nervos a frequência com que se prefere recuar a bola, e isso não é só no Grêmio. Depois, pela assistência na medida certa e dentro da área pequena.

André foi quem completou a jogada, marcando um gol de sinuca na segunda oportunidade que surgiu depois que entrou no intervalo. Na primeira, recebeu o cruzamento pelo alto e cabeceou conscientemente, obrigando o goleiro a uma defesa difícil. Na segunda, não deu chance ao deslocar de “prima” a bola bem passada por Villasanti. Nosso atacante ainda participaria de mais um ou dois bons lances ao ser acessado por seus colegas, reforçando a boa impressão que tem deixado sempre que a ele é dado tempo para jogar. Quem sabe não esteja na hora de André sair jogando em um dos próximos compromissos pelo Campeonato Gaúcho.

Lá atrás fomos bem pouco pressionados. Na única intervenção em que foi exigido, em uma excelente cobrança de falta que tinha o endereço das redes, Agustín Marchesin cumpriu seu papel com excelência. É para isso que precisamos de goleiro: nas bolas ordinárias demonstrar segurança, nas extraordinárias, brilhar. 

A propósito: Marchesin é argentino e por argentino que é seu sobrenome deve ser pronunciado com o som de “tche” e não de “que”, como seria se italiano fosse. Ele próprio já recomendou os jornalistas que assim o chamem: “Martchesin” ou “Martche”, para os íntimos.

Ao fim e ao cabo, deixamos o alçapão de Pelotas com mais três pontos na conta, uma performance segura, apesar de não ter sido exuberante, e com subsídios para avaliar alguns jogadores que estão chegando ao clube – casos de Marchesin, Soteldo e Dodi – e outros que estão se firmando no elenco – Nathan Fernandes e André, por exemplo.

Avalanche Tricolor: dia de festa

Grêmio 4×1 São José

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Soteldo é destaque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

No dia em que escrevo esta Avalanche é feriado em São Paulo. 25 de Janeiro é a data de fundação da cidade que completa 470 anos. Vivi aqui meus últimos 33 anos e agradeço sempre pelas oportunidades que recebi. Sinto-me paulistano e digo isso sem nenhum demérito à cidade em que nasci. Porto Alegre é parte crucial de minha história. Nela tenho os registros da infância e da adolescência, as marcas do início da carreira, parte da família e, claro, o clube do coração. Foi lá que o meu “gremismo” foi forjado. É do Grêmio, aliás, que falo neste espaço como bem sabe o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche.

Ontem, dia 24 de Janeiro, foi dia de muita festa para o torcedor gremista. À noite, reencontrou-se com o time na Arena, pela primeira vez nesta temporada. Depois do revés na estreia do Campeonato Gaúcho, jogando fora, o Grêmio se impôs e goleou seu adversário em casa. Quem mas se divertiu foi o venezuelano Soteldo que, a persistirem os sintomas, tende a ser o ponto forte da equipe. Driblou como poucas vezes vimos, fez a festa com a bola no pé para desespero de seus marcadores, deu assistência para o gol que abriu a goleada e marcou pela primeira vez com a nossa camisa.

Agustin Marchesín, goleiro argentino contratado este ano, também fez boa estreia, apesar de o lance do pênalti, mal sinalizado pelo árbitro, ter sido motivado por uma falha dele. Foi seguro em todas as demais oportunidades em que o adversário ameaçou nosso gol e demonstrou personalidade forte para comandar o setor defensivo que precisa evoluir muito neste ano de 2024. Aliás, no que se refere à defesa, que alegria ver Geromel e Kannemann lado a lado mais uma vez. 

Nessa quarta-feira, havia gremistas com motivos ainda mais especial para festejar. O paraguaio Mathias Villasanti, um dos melhores volantes em atividade no futebol brasileiro, completou 27 anos com mais uma atuação segura. 24 de Janeiro também é aniversário do uruguaio Luis Suárez, que pelo que fez em um ano com a camisa tricolor será nosso eterno craque. 

Aliás, os astros merecem ser investigados porque todas as vezes que se alinharam nesta data nos ofereceram grandes nomes. Foi o que fizeram, por exemplo, em 1945, quando lá na pequena Brochier, interior do Rio Grande do Sul, nascia Loivo Ivan Johann, que anos depois se consagraria como o “Coração de Leão” pela forma valente e impetuosa com que jogava com a camisa 11 do Grêmio. Ponta esquerda raiz, com chute forte e ídolo de todos nós torcedores, Loivo completou ontem 79 anos de vida muito bem vivida.

O aniversário de Loivo, ontem, me levou a escrever texto em que compartilhei a experiência que o craque me proporcionou quando eu ainda era um guri de calção curto e camisa tricolor esturricada: o dia em que entrei de mãos dadas com ele no gramado do Olímpico. O relato que, com outras palavras, havia sido contado nesta Avalanche publiquei em grupo de WhatsApp no qual gremistas ilustres participam, dentre eles o próprio Loivo. 

Foi então que a minha festa particular se iniciou: o celular tocou e do outro lado era o craque a falar e a agradecer pela história que contei. Imagine a emoção deste escrevinhador que teve de controlar a batida do coração, a lágrima no rosto e a voz que fraquejava. O jornalista voltou a ser o guri do Olímpico,  comemorou o feito com a mesma alegria infantil daqueles tempos e com o desejo de abrir a janela do apartamento e gritar: “Gol, gol, gol, gooool de Loivo, o Coração de Leão!”. 

Avalanche Tricolor: que baita saudade de ti!

Caxias 2×1 Grêmio

Gaúcho – Centenário, Caxias do Sul/RS

A bela foto de Lucas Uebel/GremioFBPA registra o gol de Gustavo Martins

Foram 44 dias desde a última vez que vi o Grêmio jogar. Que jogo! Lembra? Impossível esquecer: foi a despedida de Suárez, que marcou dois gols no Maracanã, na vitória sobre o campeão da Libertadores. 

Desde lá, a  bola só rolou em campos alheios e por aqui deu espaço para o irritante jogo das especulações. Vende um, contrata outro e negocia com um terceiro. O torcedor se ilude com a promessa do craque, se decepciona com a transferência do ídolo e tem pouco a comemorar com renovações de contrato nem sempre inspiradoras.

Ao mesmo tempo, o coração, acostumado ao sofrimento do jogo jogado, dói pela ausência do futebol de verdade. Como se sofresse com a abstinência da adrenalina que somente nosso time é capaz de nos fornecer. A ansiedade faz tabelinha com a saudade. E as duas dominam o peito e a mente do apaixonado que somos.

Até que o árbitro trila o apito e a bola começa a rolar novamente. O Campeonato Gaúcho começa. E começa em um dos estádios mais tradicionais do interior. O Centenário, palco de pelejas das mais duras e emocionantes já disputadas no Sul do País, oferece à vizinhança vista privilegiada, em camarotes improvisados nos telhados das casas, e aos torcedores, arquibancada de cimento, contrastando com as arenas do Campeonato Brasileiro.

Fiz alguns jogos na Serra Gaúcha, em um tempo no qual os repórteres de rádio tinham acesso ao gramado e correr atrás do craque do jogo era obrigação ao fim da partida — não existia essa coisa de assessor de imprensa escolher quem vai falar e entrevista com palco cheio de patrocinadores. Sinto saudade daqueles momentos, o que não significa que queira voltar.

Foi com saudade e sem pretensão que me sentei à frente da TV para assistir à transmissão do jogo desta tarde de sábado. Sei que o Grêmio está apenas iniciando a temporada. A reapresentação foi há 12 dias e tem jogador com a perna dura para correr — tem também os pernas de pau que nunca vão aprender. A vontade é muito maior do que o fôlego e o que a cabeça pensa nem sempre o corpo é capaz de executar. 

Para minha surpresa foram necessários apenas seis minutos para matar a saudade do grito de gol, que surgiu em um cruzamento após cobrança de escanteio e no cabeceio de Gustavo Martins, zagueiro jovem e uma das boas promessas para a temporada. A lastimar que foi aquele o único gol que marcamos, insuficiente para impedir uma derrota logo na abertura da competição.

Para os saudosos, como eu, de um ponteiro esquerdo driblador e atrevido, o recém-chegado Soteldo deu sinais de que poderá ser um dos pontos fortes do time na temporada. O venezuelano de pernas pequenas e ágeis passou com facilidade por seus marcadores – perdão, pelo tanto que apanhou não foi tão fácil assim. Fiquei com a impressão de que não nos fará sentir saudades dos ponteiros que se foram. Mas é melhor não se precipitar.

Contemporizando as ausências no time e as lacunas no elenco; o pouco tempo de treino e a preparação física precária; a falta de entrosamento e a carência tática de início de temporada; ao fim dos 90 e tantos minutos, uma última saudade ainda permanecia em mim. Uma saudade que jamais serei capaz de deixar para trás: a de Luis Suárez. Que baita saudade de ti!

Conte Sua História de São Paulo 470: futebol no paredão de Pinheiros

Edison N. Fujiki

Ouvinte da CBN

Viajar para São Paulo, era uma aventura. O melhor era ir de trem: Estrada de ferro da Alta Paulista. Parava nas principais cidades: Adamantina, Marilia, Bauru, Limeira, Americana, Campinas e Jundiaí. Tinham outras que hoje já não me lembro mais. A viagem demorava 14 horas. Pela janela, a cada cidade que passava, meus sonhos ficavam para trás. 

Lá em Pacaembu, andávamos, descalço ou quando muito usava alpargatas, pescava e nadava num rio perto de onde morávamos. Levava o estilingue no pescoço, e minha paixão era jogar futebol.

Viemos morar com os irmãos num apartamento, na Cardeal de frente ao mercado de Pinheiros —- esse era um lugar que eu gostava: tinha verduras, uma banca que vendia animais e pássaros e aquilo me fazia lembrar dos meus tempos recém deixados para trás.  

Lá em Pinheiros, tinha a Cooperativa Agrícola de Cotia. Lembro que meus pais falavam deste grande empreendimento da colônia japonesa. E para meu deleite, onde os caminhões estacionavam para carga e descarga ficava vazio nos finais de semana. Eu pegava a minha bola de futebol, corria e chutava contra o paredão. Às vezes, transmitia a partida como um speaker de rádio.

Uma figura da época era o Luizão, que morava na rua. Fazia bico ajudando na descarga dos caminhões.  Quando estava embalado nos seus devaneios, Luizão gritava: “o tempo passa!”,  lembrando Pedro Luis, um dos maiores locutores esportivos de todos os tempos. A voz de Luizão ecoou pelas ruas de Pinheiros onde hoje está o Largo da Batata. O mercado não existe mais. O apartamento da Cardeal foi demolido. A sede da Cooperativa deu lugar a outros prédios. Meu campinho sumiu assim como o do Sete de Setembro, no fim da Rebouças que  agora é o Shopping Eldorado. 

O tempo, sim, o tempo passa!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Edison Fujiki é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Este texto foi adaptado para você ouvir aqui no rádio. Seja você também personagem dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos leia o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.