Avalanche Tricolor: te mete com eles!

 

Grêmio 2×0 Inter
Brasileiro —- Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

 

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Pepê, Rômulo, Geromel e Matheus em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O domingo estava apenas começando e o movimento no entorno da Igreja do Menino Deus era grande. Tinham fiéis a caminho da missa das 10 e uma gurizada acompanhada por pais, tios e avós que seguiam na direção da Escola São Francisco, que fica logo atrás e onde, pelo que percebi, haveria alguma competição esportiva. O guri mais à minha frente estava de mãos dadas com o pai e a mãe, com toda a parafernália de um promissor craque. Em seguida vinham os avós que ouviam o neto falando alto provavelmente do que pretendia fazer assim que a bola começasse a rolar. “Te mete com ele!”, ouvi a vó dizer para o vô, em tom de orgulho e com um sotaque típico da terra.

 

“Te mete com ele!” soa espanhol e quando dito no ritmo desgarrado da fala do gaúcho se revela um alerta para que os atrevidos fiquem à distância. É uma demonstração de confiança no outro. Mas pode ser entendido também como um desafio: pode vir que ele está pronto para encarar qualquer bronca.

 

Fui à missa, enquanto a família ficou no portão de ferro da escola. Mas a voz da vó ficou nos meus ouvidos. “Te mete com ele!” me acompanhou no churrasco com a família, na casa da Saldanha, e no caminho para o aeroporto, de onde partiria de volta a São Paulo. Permaneceu na minha cabeça mesmo diante da frustração provocada pela companhia aérea que levou para o Salgado Filho um avião com 50 lugares a menos do que o previsto e atrasou o vôo por mais de uma hora e 15, desacomodando alguns passageiros e incomodando a todos.

 

Frustrou-me porque havia programado o desembarque em São Paulo a tempo de chegar em casa e assistir ao Gre-Nal na televisão —— antes que você pergunte, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, meu compromisso na CBN me impediria de ir ao jogo na Arena no fim do domingo, mesmo estando em Porto Alegre. Com o atraso, passei a maior parte do jogo no ar e somente quando o avião tocou a pista de Congonhas pude conferir o gol de Geromel, marcado de cabeça ainda no primeiro tempo. Disseram, também, que ao lado de Kannemann, o nosso Mito colocou o ataque adversário no bolso e fez com que Paulo Victor assisti-se à partida de graça. Te mete com ele, logo pensei enquanto puxava a bagagem.

 

Não demorou muito para perceber pela narração esportiva que o Grêmio dominava o Gre-Nal a ponto de levar o goleiro deles a cometer o suicídio em campo.

 

Soube ainda pelos comentaristas que àquela altura Matheus Henrique já havia colocado a bola embaixo do braço e comandado a vitória, sem errar passe, se desvencilhando da marcação dura e deixando seus companheiros em condições de gol. Te mete com ele, balbuciei comigo mesmo, fazendo com que o passageiro que estava à minha frente olhasse para trás na tentativa de entender o que eu dizia.

 

O Grêmio ainda faria o segundo gol assim que Pepê, em sua primeira jogada, alucinava seus marcadores e encontrava Rômulo, que também entrara no segundo tempo, chegando para marcar um golaço em pleno Gre-Nal. Logo ele, tão criticado, tão sofrido nesses últimos tempos. Te mete com ele, agora! — falei sorrindo com a motorista de táxi que me levava para casa. E não entendeu coisa nenhuma.

 

Quando cheguei ao meu destino, o jogo já havia acabado. A alegria estava no meu rosto. E a imagem daquele guri acompanhado pelos pais e avós a caminho do futebol se mantinha na minha cabeça. Ele era Geromel, se preparando para bater bola nos campinhos da Vila Maria; era Matheus Henrique, desfilando talento aos sete anos na várzea, em Paradas de Taipas; era Rômulo, correndo descalço atrás da bola, em Picos; era cada um daqueles jogadores que um dia sonharam jogar futebol e vestiram a camisa do Grêmio neste domingo de Gre-Nal.

 

Te mete como eles!

Avalanche Tricolor: se ele falou, tá falado!

 

 

 

 

Vasco 1×3 Grêmio
Brasileiro — Estádio de São Januário, RJ

 

 

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Renato em destaque na foto do GRÊMIOFBPA, no Flickr

 

 

Tem quem não goste dele. Acham que fala de mais. Marrento, costumam chamá-lo. Um falastrão, criticam outros. Há quem entenda nas palavras dele à imprensa recados apenas para animar seus jogadores no vestiário.

 

 

Digam o que quiserem, Renato é genial.

 

 

Na noite desta quarta-feira, mais uma vez ele mostrou o que alguns dizem ser a “estrela” de Renato. Para mim, é visão de jogo mesmo. Atrevido, tanto quanto era como jogador, mexeu no time ainda no primeiro tempo, antes da primeira meia hora de partida. E quando o fez foi para substituir um marcador por um atacante. Sabia que precisava de mais intensidade lá na frente se realmente quisesse fazer valer sua promessa da semana passada de que o Grêmio estará na Libertadores 2020.

 

 

Trocou Michel por Pepê e o guri maluquinho correspondeu — como, aliás, tem feito uma partida atrás da outra, inclusive contra esse mesmo adversário, no primeiro turno, quando marcou os dois gols da nossa vitória. Depois de forte pressão gremista, aproveitou um chute de fora da área para empatar o jogo.

 

 

O intervalo ainda não havia chegado e Renato já estava fazendo sua segunda substituição. Perdeu Thaciano machucado. Sua escolha foi por outro guri, Darlan — que teve personalidade para colocar a bola embaixo do pé, organizar o meio de campo e trocar passes com seus companheiros. Que baita jogador, disse um dos comentaristas da televisão.

 

 

Mal iniciado o segundo tempo, a escolha de Renato mais uma vez correspondeu. Foi  Darlan quem desarmou o adversário no meio do campo e deu início à jogada do segundo gol, marcado por Everton — o endiabrado Everton.

 

 

O Grêmio de Renato, mesmo tendo sido escalado sem sete dos jogadores considerados titulares — alguns fora por suspensão e outros por lesão — e saído atrás no placar, não apenas virou a partida e ampliou a diferença com um gol de pênalti, sofrido e marcado por Luciano, como, também, dominou o jogo. Fez de São Januário sua casa. 

 

 

Ao fim da partida, o Grêmio já aparecia na quinta posição do Campeonato Brasileiro. Mesmo que possa haver alguma mudança com os resultados dessa quinta-feira, o justo e o certo é que Renato está cumprindo com sua palavra. Ele garantiu que o Grêmio estará na Libertadores novamente. E se ele falou, tá falado!

Avalanche Tricolor: incontestável, meninos

 

Flamengo 5×0 Grêmio
Libertadores — Maracanã, RJ

 

Gremio x Flamengo

Everton em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Meninos,

 

Vocês nunca viveram o que vivi. Não sabem o que foram os anos na fila sem um só campeonato para comemorar. Em uma época em que os campeonatos se limitavam a um só —- ao estadual. Nosso horizonte não se estendia além da fronteira do Rio Grande. Era ser campeão gaúcho ou não se era nada.

 

O pai passou por longos e intermináveis anos sem um só título. Sofrendo no cimento do Olímpico. Amargando o sabor da sequência de derrotas. Chorando no ombro do vô. Era ele quem me abraçava, passava a mão no cabelo molhado pelo suor, beijava minha testa e sempre tinha uma palavra de consolo. Sempre era capaz de me estimular a acreditar que no ano que vem seria diferente. Foi um ano, foram dois, três, quatro …. oito anos sem qualquer motivo para comemorar.

 

Nas manhãs após a derrota, eu acordava e pedia para a mãe para não ir a aula. Alegava uma dor no estômago. Uma indisposição qualquer. Ela, solidária, me mandava de volta para a cama com olhar de compaixão. Compreendia que a dor era no coração. Um coração apaixonado e forjado no sofrimento.

 

Vocês, meninos, nunca viveram o que vivi.

 

Quando apresentei o Grêmio a vocês já não cabíamos mais no Rio Grande. Havíamos conquistado o Brasil, a América e o Mundo. Verdade que o primeiro título que festejamos lado a lado foi aquele da Batalha dos Aflitos —- mesmo assim vocês só se aprochegaram ao time no momento mais épico da temporada. Não tiveram a amargura de ver nossa camisa nos campos da Segunda Divisão.

 

Vocês, meninos, descobriram o Grêmio quando a Imortalidade já havia migrado do hino para a nossa história, com vitórias incríveis, impossíveis. Por isso, não devem ter entendido bem o que aconteceu nessa quarta-feira, no Maracanã, especialmente depois dessa sequência de anos em que nos acostumamos a dar a volta olímpica, levantar troféus e comemorar títulos após títulos. Como é possível perder de forma tão acachapante como nesta semifinal? —- imagino que seja o que passa na cabeça de vocês nesta noite quando me olham em silêncio. Respeitosamente.

 

Meninos, vocês não viveram o que eu vivi.

 

E por viver o que eu vivi, posso lhes dizer com toda a segurança que o resultado desta noite foi a vitória de uma equipe que soube ser superior —- muito superior —-, que investiu muito mais do que qualquer um dos seus adversários, que se estruturou para chegar onde chegou, que pensou grande e jogou como os grandes. Uma equipe que merece nosso aplauso pelo que faz.

 

A superioridade neste momento é incontestável, meninos. E reconhecer essa superioridade é necessário, por mais dolorosa que uma derrota como esta possa ser para cada um de nós —- para o pai principalmente, né!

 

Agora, se tudo que vivi com o Grêmio até hoje realmente valeu a pena — seja vibrando, seja sofrendo, seja chorando —- é porque aprendemos no revés, identificamos as falhas, soubemos levantar a cabeça, corrigimos os erros e fomos resilientes ao enfrentar os piores de nossos momentos. E assim será mais uma vez, tenho certeza — mesmo que hoje eu esteja me sentindo como aquele menino, lá dos tempos de Porto Alegre, com vontade de pedir licença para a mãe para não sair da cama e esperar a dor passar. 

 

Avalanche Tricolor: com cheirinho de Libertadores

 

Atlético MG 1×4 Grêmio
Brasileiro — Independência, BH/MG

 

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Festa do segundo gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Em dez dias, o Grêmio decide vaga à final da Libertadores. E esse tem sido o assunto preferido de seus torcedores. Não há uma só conversa entre nós que não passe por previsões e expectativas para a partida que se realizará no Rio de Janeiro.

 

Hoje cedo, no passeio pela vizinhança, encontrei dois gremistas no caminho. O roteiro foi o mesmo. Cumprimenta um. Abraça o outro. Fala do tempo —- o calor dominical estava insuportável aqui em São Paulo. O mais gentil pergunta pela família. Mas é tudo subterfúgio. Papo periférico para chegar onde mais gostamos: “e a Libertadores, heim?!?”

 

Por curioso que seja, sequer comentamos sobre a partida que fecharia a rodada do Campeonato Brasileiro, neste domingo. O que não quer dizer que às sete da noite, eu e eles não estávamos diante da televisão para assistir ao Grêmio, em Belo Horizonte. Claro que sim. Até porque jogar bem, ganhar confiança, dar ritmo de jogo ajudam na preparação para a decisão sulamericana.

 

E Renato tem aproveitado bem esse intervalo entre os dois jogos.

 

Verdade que o time escalado hoje não contava com Kannemann, Matheus Henrique e Everton —- os três servem à seleção. Estava sem Jean Pyerre, que segue lesionado, Léo Moura que estava no banco, mas não arriscou sequer aquecer, e Tardelli que ficou de repouso. Por outro lado, se apresentava com Geromel, que dá sinais de total recuperação, Maicon, que faz uma baita diferença no nosso meio de campo, e Luan que parece ser um avião disposto a decolar novamente. Tivemos ainda a oportunidade de assistir a Paulo Victor fazendo defesas importantes, oferecendo segurança e enviando uma mensagem ao torcedor desconfiado: pode contar comigo.

 

Apesar das ausências, Renato levou a campo o esboço do que o Grêmio se propõe a ser independentemente do adversário que esteja enfrentando. Dono da bola, passes precisos, jogadores se movimentando para oferecer opção de jogada, dribles sempre que necessários e muita paciência para decidir cada lance no ataque. Na defesa, a ideia é marcar com intensidade, evitar as faltas, diminuir o espaço dos atacantes e reduzir os riscos de gol.

 

Sofremos mais do que deveríamos, mas soubemos resistir quando a pressão ocorreu —- e isso é um bom sinal. Nossa insistência no ataque foi premiada com um lance de sorte de Galhardo, pela direita, e um pênalti provocado pelo drible de Cortez, pela esquerda —- ou seja, nossos dois alas funcionando muito bem. Depois do revés no fim do primeiro tempo, a conversa de vestiário voltou a ajustar a equipe. E o Grêmio foi veloz para chegar ao terceiro gol com Pepê —- aquele mesmo guri atrevido que saiu do banco e nos colocou de volta à decisão da vaga à final da Libertadores. Deu tempo de marcar o quarto gol, desta vez pela esperteza de Alisson e Luciano, em uma cobrança de escanteio.

 

Com a segunda goleada em Belo Horizonte, neste campeonato, o Grêmio não apenas demonstrou que o time está mais ajeitado para a decisão que nos interessa, como também já está entre os seis primeiros do Brasileiro — o que nos permite sentir o cheirinho de Libertadores, mais uma vez.

 

Pelo visto, esse vai continuar sendo o nosso assunto preferido no ano que vem.

Avalanche Tricolor: o gol do guri da Vila Maria

 

Grêmio 2×1 Ceará
Brasileiro — Centenário, Caxias do Sul/RS

 

Gremio x Ceara

Geromel comemora o gol, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Sou suspeito para escrever. Sei que sou. Minha Avalanche do último fim-de-semana escancara ainda mais essa suspeição, especialmente diante do tema que pretendo dedicar esse post. O que importa, também, se sou ou não isento no que escrevo? Jamais neguei que essa coluna, mantida desde muito tempo, foi ocupada por um torcedor apaixonado em vez de um jornalista em busca do equilíbrio. Portanto, azar do que pensem.

 

Por torcedor apaixonado e gremista que sou, assim como todos os demais que compartilham comigo esse sentimento, como não se emocionar ao assistir ao primeiro gol desta noite em Caxias do Sul. Nem tanto pelo caminho que usamos para chegar ao gol —- apesar de torcer muito para que cobranças de escanteio, assim como as de falta, se transformem em nosso diferencial competitivo, principalmente nos jogos mais intricados desta e das demais competições da temporada.

 

Emocionei-me pelo protagonista do gol.

 

Geromel estava voltando à equipe. Vamos lembrar que ele ficou de fora da primeira decisão da Libertadores por uma lesão isolada em partida do Campeonato Brasileiro. Já estávamos ganhando o jogo com larga vantagem quando ele despachou a bola para frente e o músculo acusou o golpe. Uma dor que foi sentida na alma de cada gremista. E como nos fez falta.

 

Todos sabem que Geromel impõe respeito ao adversário, oferece segurança aos colegas de equipe e é a esperança do torcedor de que se tudo der errado, ele vai fazer o certo. É um dos jogadores mais simbólicos deste Grêmio que Renato construiu nos últimos três anos. É unanimidade nas arquibancadas da Arena. E hoje ainda entrou com a braçadeira de capitão — que lhe caiu muito bem.

 

Diante de tudo isso, vê-lo saltar mais alto que seus marcadores e desviar de cabeça para as redes me fez ainda mais feliz nesta noite. Porque não era apenas um gol de escanteio ou um gol para abrir o caminho da vitória. Era um gol do filho de Seu Valmir e da Dona Eliane. Do irmão do Ricardo. Do guri da Vila Maria. Um gol de Geromel. De GeroMito. 

Avalanche Tricolor: uma ótima leitura e as boas notícias de sábado

 

Grêmio 0x0 Corinthians
Brasileiro — Arena Grêmio Porto Alegre, RS

 

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Que o cara entendia do riscado, eu já havia ouvido falar —- dele próprio quando o entrevistei em um dos programas que apresento na CBN, o Mundo Corporativo. Que era o verdadeiro craque da família mas que não seguiu carreira, soube nesse sábado enquanto aguardava na fila para pedir-lhe um autógrafo. Era o que um dos mais próximos de mim contava entusiasmado: o Geromel bom de bola era ele —- só não lembro bem se jogava na mesma posição ou de lateral. Mas jogava muito, falava com entonação capaz de me fazer acreditar no que dizia.

 

Estávamos falando de Ricardo Geromel, 32 anos, empreendedor e escritor, que pelo sobrenome tem parentesco que carece de apresentações, especialmente a você caro e raro leitor desta Avalanche. Ele era o destino da fila que se estendia do salão da Livraria da Vila até o corredor do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo. Estava lançando o livro “O poder da China” (Editora Gente).

 

Com escritório sediado em Xangai, Ricardo é um entusiasmado com os avanços que a China implementou nos últimos anos, transformando-se de “fábrica” do mundo em fabricante de bilionários, além de uma das maiores criadoras de startup do oriente ao ocidente.

 

Para ter ideia, havia 64 bilionários chineses em 2010. Oito anos depois, já eram 372. A cada 3,8 dias nasce um novo unicórnio no país —- são aquelas empresas de capital fechado com valor de mercado de US$ 1 bilhão ou mais. E tudo isso impactando a vida das pessoas em seu cotidiano, pois, em cerca de 30 anos, a China tirou 850 milhões de pessoas da situação de pobreza. Tem porque se entusiasmar, não é mesmo?

 

Se quiser outros motivos, leia o livro —- ou ouça a entrevista que fiz com ele no Mundo Corporativo. Eu já avancei alguns capítulos apenas neste fim de semana e recomendo (se é que vale alguma coisa a minha recomendação).

 

Mas vamos voltar a esta Avalanche.

 

Sou resistente a essas histórias que já foram contadas nas mais variadas famílias do futebol brasileiro. Sempre haverá alguém para garantir que Dondinho, pai de Pelé, é quem jogava muito. Teria feito cinco gols de cabeça em uma só partida de futebol. Sem contar os que descrevem as habilidade de Zoca, irmão do Rei, que aliás jogou ao lado dele no Santos.

 

Edu, por sua vez, tinha futebol refinado, dribles curtos e desconcertantes, passes e lançamentos precisos —- o que parece ser verdade, mas não o suficiente para torná-lo maior do que Zico, o irmão mais moço. A não ser nas palavras da turma que sempre gosta de uma boa história para puxar papo.

 

Diante de tudo isso, ouvi os elogios ao futebol que Ricardo Geromel jogou no passado e coloquei na conta dos contadores de história. Prefiro admirá-lo por aquilo que ele é do que por aquilo que poderia ter sido. Até porque duvido muito que alguém pudesse ser maior do que Geromel, o Pedro —- zagueiro que trouxe uma nova maneira de jogar dentro da área, tem uma ótima leitura de jogo e forma, ao lado de Kannemann, uma das maiores duplas de zaga que já passaram pela história do Grêmio.

 

Abracei Geromel, o Ricardo, o cumprimentei pelo livro que lançava, recebi orgulhoso o autógrafo dele, e voltei para casa para assistir ao Grêmio no Campeonato Brasileiro. Do sofá, vi o meu time tentar o gol de várias maneiras sem sucesso e terminar mais uma partida contra o Corinthians no zero a zero.

 

Jogo que não foi de todo perdido, pois tivemos ao menos duas boas notícias para quem entra em campo no Brasileiro mas tem a cabeça na semifinal da Libertadores: Léo Moura está de volta e Maicon desfila talento com a bola no pé — leio nas estatísticas de que de 111 passes que deu, errou apenas três.

 

A terceira boa notícia, tive lá na livraria mesmo: Geromel, o Pedro, não jogaria logo mais à noite, mas está prestes a voltar ao time titular depois da lesão que o tirou da primeira semifinal da Libertadores. Que o Ricardo faria diferença se tivesse seguido em sua carreira como jogador, deixo por conta dos amigos de infância que o viram jogar. Mas que o Pedro faz uma baita falta para a gente, ah, isso eu garanto!

Avalanche Tricolor: vamos ao que importa

 

Fluminense 2×1 Grêmio
Brasileiro — Arena Grêmio

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O time era o alternativo. O jogo era pelo Brasileiro. E o resultado pouca coisa mudaria nas nossas pretensões e expectativas na temporada. Claro que ganhar seria bom — é sempre bom. Se tivéssemos saído de campo com o empate também estaria muito bem resolvido. Verdade, também, que nunca gosto de perder, mas, convenhamos, quem se importa?

 

Cheguei a ouvir críticas de comentaristas à falta de intensidade dos nossos jogadores que estavam em campo, que estariam desperdiçando a oportunidade de apresentar suas credenciais ao “chefe”. Soou-me exagerado para um time totalmente modificado, atletas sem o ritmo necessário e com justificável desentrosamento.

 

Leve-se em consideração, estarem encarando o desespero do adversário que vive um reboliço administrativo, pressionado e desrespeitado por alguns torcedores e precisando pontuar em casa de qualquer maneira. Além de um árbitro cego pela prepotência, incapaz de enxergar um jogador parar a bola com a mão dentro da área mesmo que todas as câmeras sejam oferecidas a ele.

 

Ao fim da partida, Rômulo ainda foi perguntado pelo repórter da televisão o que o placar do fim de tarde de domingo influenciaria na partida da próxima quarta-feira à noite —- que é o que nos importa.

 

Nosso meio de campo fez cara de quem não estava entendendo muito bem o que o jornalista queria saber. Foi lacônico ao responder que não mudaria nada e saiu pela tangente falando de duas bobeadas na defesa e das chances perdidas de gol.

 

Fez certo. Afinal, a três dias de uma decisão do tamanho das Américas, quem, caro e raro torcedor desta Avalanche, realmente estava preocupado com o que aconteceria neste fim de semana no futebol?

 

Fala sério? Quem se importa ? Só quem não tem Libertadores para decidir, é lógico. E o Grêmio tem!

Avalanche Tricolor: gol para quem precisa

 

 

Grêmio 6×1 Avaí
Brasileiro — Arena Grêmio Porto Alegre/RS

 
 

 

Gremio x Avai

Luan é a cara do gol, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA


 

 

A gente merece. Sabe que a vida não será fácil logo ali em frente. O desafio é enorme. Gigante. Libertador. Vamos testar nossa Imortalidade. Nosso coração. Sendo assim, foi muito boa a oportunidade que a tabela do Campeonato Brasileiro nos ofereceu, nesta quinta-feira à noite. Um jogo em casa, com time (quase) titular e muitos gols à disposição.
 

 

Haverá quem justifique a goleada desta 21a rodada à fragilidade do adversário. Para que não se tire conclusões antecipadas e distorcidas, vamos lembrar que enfrentávamos um daqueles times que jogava a vida para escapar da zona de rebaixamento, vinha embalado com duas vitórias seguidas e está na lista de “toucas” do Grêmio —- é como chamamos os adversários que costumam ser encrenca mesmo diante da diferença técnica.
 

 

O Grêmio só fez o que fez porque se impôs diante do adversário. E o fez com intensidade e talento: passe de pé em pé, deslocamentos de um lado e de outro, jogadores sempre se apresentando para receber e toques de bola precisos e rápidos.
 

 

Um gol, dois gols, três gols, quatro gols, cinco gols, seis gols …. uma goleada que começou a ser construída ainda no primeiro tempo. Um mais bonito do que o outro e com a presença de jogadores que precisam se firmar no grupo: Tardelli, Braz, Luciano, Cortez, André e Luan —- especialmente Luan que, aposto com você, será o ponto de desequilíbrio no momento em que mais precisarmos nesta temporada.
 

 

A gente merecia —- como disse logo na abertura desta Avalanche. E esses jogadores, também. Fazem parte do grupo. E como Renato insiste a cada entrevista, temos um grupo e um grupo forte, formado por jogadores que precisam se destacar sempre que as oportunidades surgem.
 

 

Foi o que aconteceu hoje, especialmente no primeiro tempo quando ouvi do comentarista da Sportv Carlos Eduardo Lino a frase que se transformou em titulo desta Avalanche: gol para quem precisa de gol.
 

 

E se estes jogadores mereciam o gol que fizeram. Nós merecíamos um jogo tranquilo como o desta quinta-feira à noite. Porque, a partir de agora, é concentração total, mente focada e coração na ponta da chuteira. A partir de agora —- mesmo que haja uma partida no fim de semana —- é a alma tricolor que precisará se expressar para nos colocar na final da Libertadores da América.

Avalanche Tricolor: os “pitucas” do Renato estão batendo um bolão

 

Santos 0x3 Grêmio
Brasileiro — Vila Belmiro/SP

 

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Everton, Matheus e Luan foram destaques, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Passei a semana ouvindo que o adversário do Grêmio, na noite de sábado, não teria um dos seus principais jogadores do meio de campo, Pituca. Estaria lesionado, é o que relatavam os repórteres esportivos. Confesso que nunca havia ouvido falar dele. E não é menosprezo, é desatenção mesmo. Com tanta coisa para cuidar no dia a dia, acabo deixando de lado o interesse pela escalação dos adversários. Reconheço um craque de cada time ou o jogador mais expressivo, mas não peça para escalá-los ou comentar o desempenho deles individualmente —- talvez esteja aí uma boa explicação para meu pífio desempenho na Liga Hora de Expediente CBN, do Cartola FC.

 

Do time da Vila sei que vem há algum tempo disputando a ponta da tabela, tem um técnico gringo, inteligente e agitado, uma turma boa de bola e habilidosa, e um ou outro camarada que já passou lá pelo Rio Grande. Sei, também, que não costuma perder jogos dentro de casa. Mas não sabia que tinha um jogador chamado Pituca e a ausência dele poderia prejudicar o desempenho da equipe. Disseram-me que era quem botava a bola embaixo do braço e acionava o ataque veloz e talentoso, com sua ótima visão de jogo. Fui pesquisar e descobri que o volante já jogou Libertadores, marcou 19 gols na carreira e está com 27 anos —- além de, coincidentemente, fazer aniversário no mesmo dia que eu.

 

Assim que os times entraram em campo e a televisão confirmou a escalação das duas equipes, levei um susto: Pituca estava entre os titulares. Se já era difícil fazer três pontos em um time que diante de sua torcida é imbatível, imagine fazer em um time que diante de sua torcida é imbatível e tem o Pituca escalado? Temi pelo pior.

 

O frio e a chuva na Baixada santista somados a intensidade de jogo do adversário nos primeiros 25, 30 minutos também não facilitavam as coisas para o nosso lado. E a gente mal conseguia ficar com a bola no pé. A se destacar, a boa perfomance de Paulo Victor e uma defesa firme que conseguia nos safar de algumas boas investidas de Pituca e sua turma. Houve momentos de talento individual, também: a janelinha de Everton e o chapéu de Alisson, foram dois deles, que a TV e as redes sociais não se cansam de repetir.

 

Somente no fim do primeiro tempo redescobrimos nossa capacidade de chegar ao gol adversário. O fizemos por duas vezes com perigo, mas sem sucesso. Eram apenas ensaios do que viria a acontecer no segundo tempo.

 

Do vestiário, as palavras mágicas de Renato fizeram efeito sobre seus “pitucas”, ops, seus pupilos. A bola passou a ser passada de pé em pé, como estamos acostumados; Matheus Henrique tomou conta do meio de campo e distribuiu o jogo para lá e para cá; Luan encontrou seu espaço mais próximo da área, e Everton …. bem, Everton seguiu sendo Everton.

 

Aos nove minutos, Luan marcou nosso primeiro gol (e a grande notícia da noite foi perceber que ele está em fase de recuperação de seu talento); aos 41, Pepê completou um passe incrível de Matheus Henrique (nosso jovem atacante dá sinais de que recupera a confiança); e aos 47, Everton fechou o placar (bem, esse dispensa comentários extras).

 

Alcançamos um resultado que, dizem as estatísticas, jamais havíamos conquistado na Vila; seguimos em viés de alta  na tabela de classificação (mesmo tendo desdenhado de parte do Brasileiro); o time se reinventa diante das ausências de jogadores importantes do elenco como Geromel, Leonardo Gomes, Maicon e Jean Pyerre; sem falar nos “pitucas” do Renato que estão jogando um bolão.

Avalanche Tricolor: foi esplêndido, mas trocaria tudo isso por Geromel em forma

 

 

Cruzeiro 1×4 Grêmio
Brasileiro — Independência BH/MG

 

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Everton em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foi um espetáculo. Do goleiro ao 14º jogador a entrar em campo, todos ofereceram o que tinham de melhor ao atuar contra um adversário que buscava a redenção diante de sua torcida. E ao listar os 14 não exagero.

 

Paulo Victor foi preciso em três ou quatro defesas de extrema dificuldade, assim como os três que saíram do banco: David Braz, que manteve a segurança defensiva, Luan, que por pouco não fez um gol de placa na tentativa de encobrir o goleiro, e Pepê que usou de sua velocidade e chute forte, no pouco tempo em que esteve em campo.

 

Claro que Everton foi o mais incrível de todos.

 

Jogou como ninguém joga no futebol brasileiro. Cada bola, um perigo à vista. Deslocava-se da esquerda para a direita. Da direita para a esquerda. Às vezes, fazia um estágio pelo meio. Independentemente do lado em que estivesse era capaz de dar dribles alucinantes e impor uma velocidade de deixar seus marcadores desnorteados. Descrição que pode ser ilustrada pelo primeiro gol que marcou quando entrou na área pelo lado esquerdo e cortou para chutar com o pé direito. Com o espaço fechado pelo adversário, tocou para o pé esquerdo e bateu forte, no alto e no ângulo, sem qualquer chance de o goleiro reagir.

 

Antes de marcar seus gols, já havia dado assistência a Alisson que entrou em campo endiabrado contra seu ex-clube. Em uma primeira tentativa de drible foi empurrado dentro da área. O árbitro entendeu que era disputa de bola —- como deve ter entendido que o zagueiro que interrompeu a trajetória do chute com a mão dentro da área adversária também estava apenas disputando a bola (com a mão).

 

Alisson não desistiu. Sempre que tinha a bola no pé, partia contra o marcador, encontrava seus companheiros livres para passar ou recebia faltas. No lance de seu gol, iniciou a jogada na direita, entregou para Everton e se deslocou para a esquerda, surpreendendo a defesa. Apareceu livre para receber a bola e conduzi-la até o momento fatal.

 

Uma goleada que se iniciou com o gol de letra de Diego Tardelli que também estava em uma manhã inspirada. Nosso atacante marcou, desarmou, armou e concluiu a gol de calcanhar, completando a boa jogada pela direita de Galhardo — calando a vaia provocativa do torcedor adversário e arrancando aplausos mesmo de gremistas desconfiados.

 

A nota negativa ficou por conta da lesão de Geromel. E digo com toda a sinceridade: trocaria a esplêndida apresentação deste domingo e os quatro gols marcados por um Geromel totalmente em forma e em condições de jogar a Libertadores.