Avalanche Tricolor: uma noite em família

Grêmio 2×2 Montevideo City Torque
Sul-Americana – Arena do Grêmio

Sul-Americana - Grêmio x Montevideo City Torque - 26/05/2026
Mec comemora o primeiro gol do Grêmio Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Hoje era aniversário da sogra. E, ao contrário do senso comum, sogra a gente respeita, sim. Especialmente quando a festa é de 89 anos. Depois de tudo que ela já enfrentou na vida, estava ali, ao lado da família, feliz e celebrando. O olhar sempre lacrimejando de emoção brilhava — sinal da luz que faz questão de manter acesa por muitos anos mais. Vê-la à mesa, cercada pelas filhas, netos e genros, traz esperança de que caminhamos para uma vida longa.

Em meio aos brindes regados a vinho, aos porpetones de entrada e à massa servida como prato principal, encontrei espaço para desviar o olhar até a televisão, onde o Grêmio seguia sua saga em busca da reconstrução. Os passes errados na defesa, a marcação frouxa pelas laterais, as lesões logo cedo e a ausência de dois de seus principais jogadores no meio-campo cobraram um preço alto no primeiro tempo.

Na volta do vestiário, já com Arthur e Gabriel Mec, o time rendeu muito mais. Ficou mais ofensivo e chegou ao empate duas vezes — insuficiente para as pretensões desta reta final antes da Copa do Mundo. A intenção era garantir a classificação em primeiro lugar e evitar os jogos de playoff na Sul-Americana. Não conseguimos. Consola o fato de seguirmos vivos na competição, assim como na Copa do Brasil.

O resultado desta noite aumentará a pressão para a partida de sábado pelo Brasileiro, quando teremos a obrigação de entrar em campo com os onze melhores que estiverem à disposição — sem direito a poupar nem economizar esforços.

Se antes um empate em casa era tratado com certa parcimônia, agora haverá cobrança pelos três pontos. Uma vitória será importante para aliviar a pressão nas arquibancadas e nas redes (antis)sociais. Também dará mais tranquilidade para os trabalhos durante a parada da Copa do Mundo e para a retomada da temporada, em julho.

Confesso que o tropeço desta noite não me afetou como em outros tempos. Talvez porque eu confie na possibilidade de um Grêmio melhor no segundo semestre. Talvez porque a maturidade ensine a relativizar derrotas e empates. Ou talvez porque, diante de uma mesa cercada de afeto, celebrando 89 anos de vida, o futebol tenha sido colocado no lugar que lhe cabe: importante, apaixonante, mas incapaz de superar a grandeza de uma noite em família.

Avalanche Tricolor: eu acredito no Grêmio de Luís Castro

Grêmio 3×2 Santos
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Brasileirão - Grêmio x Santos - 23/05/2026
Luís Castro comanda a equipe na vitória de hoje. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio tinha uma missão neste mês que antecede a Copa do Mundo: vencer os quatro jogos que restavam na Sul-Americana e no Brasileiro. Depois da conquista no meio da semana, cumpriu mais uma etapa dessa jornada na noite de sábado. Mesmo com as dificuldades que têm marcado este período de reconstrução, conseguiu se recuperar duas vezes da desvantagem no placar e virar o jogo — feito raro em 2026. A última vez que isso havia acontecido foi em fevereiro.

Independentemente da performance do time, dos tropeços e das pisadas na bola, lutamos pelos três pontos. E como temos lutado! Para mim, essa foi a maior mudança que Luís Castro conseguiu provocar no elenco: mais do que as variações na escalação e na formação tática, percebe-se uma equipe disposta a vencer de qualquer jeito. Há entrega total de cada jogador, apesar das limitações técnicas.

Se a redenção de Pavón marcou a vitória na Sul-Americana, hoje foi a vez de Tetê, que entrou no segundo tempo. Nosso atacante pela direita aproveitou bem o passe recebido na entrada da área, driblou e chutou com precisão para fazer o gol da vitória. A comemoração com os companheiros expressou essa união entre os jogadores que faz diferença dentro de campo.

Pavón, aliás, fez mais uma excelente partida. E não apenas pelas assistências. Foi dele o passe para dois dos três gols do Grêmio. Participativo, intenso e disposto a buscar o jogo o tempo todo, vive talvez seu melhor momento desde que chegou ao clube.

Assistimos ainda a Carlos Vinícius voltar a marcar. E duas vezes. Na primeira, de cabeça, aproveitando cruzamento de Amuzu. Na segunda, fugindo da marcação para receber a bola, dominar com o pé esquerdo e concluir nas redes. O “pastor” é um centroavante muito especial porque não se limita a fazer gols — o que, convenhamos, já seria suficiente. Incomoda os defensores o tempo todo, passa o jogo na resenha, tira os zagueiros do sério e exerce uma liderança importante para o time.

Uma menção especial ao retorno de Arthur, que estava lesionado havia algumas semanas. Saiu do banco e entrou no intervalo. O Grêmio é outra equipe quando a bola passa pelos pés dele. Não importa a pressão que sofra, é capaz de controlar o jogo e encontrar companheiros mais bem posicionados, fugindo do passe “lugar-comum”, aquele que pouco acrescenta à dinâmica da partida. Todas as vezes que sofre uma falta, fico arrepiado ao pensar que possa ter sofrido uma lesão capaz de tirá-lo da próxima partida.

(Será que a FIFA não pode criar uma norma proibindo que os adversários façam falta em Arthur?)

Devaneio à parte, a vitória descomprime a pressão sobre o técnico e sua difícil tarefa de reconstrução do time. As vitórias até a parada para a Copa oferecerão a tranquilidade que Luís Castro precisa para recompor a equipe.

Hoje, por exemplo, ele já pôde trazer Villasanti para o banco de reservas. Em breve, nosso volante paraguaio estará em campo, e poderemos ver como será sua atuação ao lado de Arthur. Na retomada da temporada, Marlon deve voltar para a lateral esquerda. Na zaga, a esperança é que os titulares estejam recuperados fisicamente e que o sistema defensivo ganhe mais consistência, especialmente porque os jovens que vêm ocupando essas posições ainda precisam amadurecer.

Posso parecer otimista demais diante do conjunto da obra até aqui. Talvez seja. Mas é esse sentimento que precisamos recuperar para a retomada da temporada assim que a Copa do Mundo terminar. As vitórias de agora — e só faltam duas — podem ser decisivas para o restante da temporada gremista.

Diga o que disserem, eu acredito no Grêmio – e no trabalho de Luís Castro.

Avalanche Tricolor: Pavón é um exemplo a ser seguido

Grêmio 2×0 Palestino
Sul-Americana — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Conmebol Sul-Americana - Grêmio x Palestino-CHI - 20/05/2026
Pavón foi o destaque do jogo. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Até a Copa, havia quatro jogos a vencer. O primeiro foi superado nesta noite. Com os três pontos conquistados, decidiremos em casa, na semana que vem, o primeiro lugar do Grupo F da Sul-Americana. Se persistirem os sintomas, o Grêmio está prestes a cumprir mais uma meta da temporada. A primeira, vale lembrar, foi a reconquista do Campeonato Gaúcho.

Para um time ainda em construção, apesar das dificuldades enfrentadas e das fragilidades já expostas, alcançar objetivos iniciais traz algum respiro ao treinador e à comissão técnica. E o que Luis Castro mais precisa neste momento é tranquilidade para ajustar a equipe. A parada para a Copa será ideal para esse trabalho.

O Grêmio desta noite mostrou alguns dos méritos que podem levá-lo a uma performance melhor no pós-Copa. Jogadores jovens, como Viery, Luis Eduardo e Pedro Gabriel; talentos como Gabriel Mec e Amuzu; atacantes com fome de gol, como Braithwaite e Carlos Vinícius; além de um goleiro gigante: Weverton.

Nada, porém, foi mais importante nesta partida do que a atuação de Pavón. Com todas as restrições que o torcedor já teve em relação a ele, jamais se poderia criticá-lo por falta de entrega. Poucos jogadores se dedicam tanto quanto o argentino. Aceitou recuar para a lateral e, diante da falta de alternativas, acabou se firmando na posição. As dificuldades técnicas de posicionamento foram compensadas pela disposição na marcação.

Hoje, Pavón foi decisivo na vitória. No primeiro tempo, partiu dele o chute que provocou o rebote do goleiro e permitiu a conclusão de Braithwaite para as redes. O segundo gol foi praticamente todo obra do argentino. Um chutaço de fora da área, com uma precisão que há muito tempo ele não alcançava. Foi seu primeiro gol desde 11 de fevereiro de 2025 — comemorado com todo merecimento.

Ver jogadores como Pavón terem o esforço recompensado sempre me provoca uma alegria particular. Serve também como exemplo aos colegas. Mostra que o torcedor sabe respeitar quem demonstra vontade de melhorar, mesmo quando o melhor ainda não aparece por completo.

Para nos deixar ainda mais satisfeitos, tivemos o privilégio de assistir a um lance que relembrou os velhos e inesquecíveis tempos de Kannemann. Nosso zagueiro, já em fase de despedida, salvou um gol em cima da linha e repetiu uma cena que o consagrou ao lado de Geromel — resultado do esforço típico de quem jamais desiste.

E, no fim das contas, é isso que o torcedor quer enxergar no seu time. Ver, em cada jogada, nas bolas divididas, na marcação, na arrancada para o ataque, na tentativa de drible ou no chute a gol, jogadores comprometidos em fazer o melhor possível com as condições que têm — enquanto trabalham para alcançar condições ainda melhores.

Avalanche Tricolor: o risco de se acostumar

Bahia 1×1 Grêmio

Brasileiro – Arena Fonte Nova, Salvador BA

Gremio x Bahia
Viery abriu o placar com gol de cabeça. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Ao ver o protesto dos torcedores adversários antes de a partida se iniciar, nas arquibancadas da Arena Fonte Nova, fui conferir a classificação do campeonato. Pensei que a revolta se devesse ao fato de o time da casa estar em uma posição de risco, daquelas em que a zona-você-sabe-qual já aparece no horizonte. Foi o meu Grêmio que encontrei por lá. O adversário, sob protestos, estava em oitavo lugar.

Há muito tempo o Grêmio não ocupa uma posição de destaque na tabela de classificação. Em 2025, terminamos em nono lugar, após uma recuperação na reta final; na temporada anterior, em décimo quarto. Neste ano, lembro de termos ficado entre os dez primeiros talvez uma ou duas rodadas, se muito.

Em abril, logo depois do clássico regional — o pior de todos os tempos —, escrevi nesta Avalanche que o maior risco não estava em empatar um Gre-Nal ruim; estava em se acostumar com ele.

Sou defensor da ideia de que estamos em um processo de reconstrução. Dezenas de jogadores foram embora e outra dezena de jovens passou a formar o elenco. Muita gente chegou neste ano ou ainda está se recuperando fisicamente. Há também os que estão muito aquém da expectativa que criamos. Ao técnico Luis Castro cabe administrar as carências do elenco e se virar com o que tem à disposição.

A despeito de tudo isso, o que estamos assistindo é um Grêmio pouco audacioso para o tamanho da sua história. Se jogamos contra os líderes do campeonato, nos satisfazemos com uma equipe que resiste até onde é possível. Se jogamos fora de casa, o empate vira motivo de comemoração. Quando ganhamos na nossa Arena, tudo bem que tenha sido por pouco. O que vale são os três pontos, nos consolamos.

Na partida desta tarde de domingo, concluímos apenas três vezes a gol. É muito pouco para quem tem a pretensão de subir na tabela de classificação. Por essas coisas que só o futebol é capaz de proporcionar, apesar disso ainda saímos na frente no placar, após a cobrança de escanteio de Pedro Gabriel e o cabeceio de Viery. Obra do acaso.

Antes e depois do nosso gol, fomos pressionados. Sofremos com bolas no travessão e no poste. Assistimos aos atacantes cruzarem na nossa área e aos meio-campistas entrarem tabelando. Contamos, mais uma vez, com o gigantismo de Weverton — quero muito que ele seja premiado com a convocação para a Copa do Mundo.

O fato é que, diante da nossa incapacidade de reter a bola, controlar o jogo e reduzir a pressão, inevitavelmente acabamos levando um gol. E não levamos dois porque contamos com a imprecisão e o azar dos atacantes adversários. Saímos de campo agradecendo o ponto conquistado e, ao menos, o fato de irmos dormir fora daquela zona-você-sabe-qual.

Há algo muito errado quando um clube do tamanho do Grêmio sai de campo satisfeito apenas por não terminar a rodada entre os últimos. Não podemos nos conformar com essa situação.

Conte Sua História de São Paulo: joguei futebol no córrego da Traição

João Pedro Marchina
Ouvinte da CBN

Futebol arte
Imagem: Léo Pires/Flickr CBN SP

Estou com 70 anos e, há quase cinco anos, moro numa Kombi Home, viajando pelo Brasil, mas não é isso que importa agora. Quero mesmo é falar de São Paulo.

Nasci no bairro do Aeroporto, num sobrado novinho, onde, muitos anos depois, em 2007, cairia um avião da TAM em frente. Eu já não vivia mais lá. Em 1958, nos mudamos para o Planalto Paulista, para uma casa térrea recém-construída e bela. Ali foram 50 anos de história.

Mas sabe o que realmente quero contar? É sobre o Córrego da Traição, onde hoje está a Avenida dos Bandeirantes.

Por incrível que até mesmo a mim pareça, quando tinha por volta de 10 a 15 anos, o córrego era meu destino com os amigos. Pegávamos peixinhos lebistes para manter no aquário que tínhamos em casa. Caçávamos passarinhos usando visgo, o que hoje é uma maldade e proibido.

No cimo da atual avenida, onde há um atacado de plantas — um garden, como chamam por aí —, no meu tempo havia dois campos de futebol do time Flor do Guarani. Era o espaço onde fazíamos as aulas de ginástica às sete horas da manhã, sob intensa garoa e neblina. Sim, havia garoa e neblina lá pelos anos de 1965.

Os cabides para pendurar as roupas, enquanto nos exercitávamos, eram os pés de mamona plantados ao lado do campo. Mamona que também servia de munição para as batalhas de estilingue.

Recordações quase impossíveis de acreditar para quem só conheceu a região depois que a Bandeirantes foi inaugurada, em 1970.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

João Pedro Marchina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: boa notícia

Confiança 0x3 Grêmio
Copa do Brasil — Batistão, Aracaju/SE

Gremio x Confianca
Braithwaite marcou duas vezes Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foram necessários poucos minutos e uma boa jogada de ataque para o Grêmio confirmar sua classificação à próxima fase da Copa do Brasil. Em lance que surgiu de um cruzamento de Enamorado pela direita, Gabriel Mec apareceu dentro da área para receber e bater forte para o gol. A defesa parcial do goleiro fez com que a bola encontrasse Amuzu pela esquerda. Nosso atacante driblou para dentro e provocou o pênalti. Braithwaite bateu forte, no meio do gol, e converteu.


Com 13 minutos de jogo o Grêmio ampliou a vantagem que havia sido construída na primeira partida na Arena. Depois do gol até houve uma tentativa de reação do adversário, mas havia pouca qualidade técnica para gerar algum perigo. 

O Grêmio ficou confortável em campo e sequer precisou pressionar mais para chegar aos outros dois gols. No segundo tempo, Braithwaite concluiu de cabeça o cruzamento de William, fazendo 2 a 0. Mais tarde, o próprio William completou o placar ao converter o pênalti sofrido por ele.

Nossa atuação, talvez também influenciada pela facilidade com que se chegou à vitória, foi protocolar. Nada que nos ofereça mais confiança para a sequência da temporada. No fim de semana, já estaremos novamente diante da obrigação de conquistar três pontos fora de casa para tentar nos livrar da incômoda posição em que estamos no Campeonato Brasileiro.

Porém, considerando as trapalhadas e os sofrimentos enfrentados na edição passada da Copa do Brasil, a vitória por cinco a zero no placar agregado, nesta fase da competição, foi uma boa notícia. Assim como ver Braithwaite se reencontrando com os gols depois de longo período de lesão.

Avalanche Tricolor: nem sorte, nem juízo

Grêmio 0x1 Flamengo
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Brasileirão - Grêmio x Flamengo - 10/05/2026
Noriega disputa a bola. Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Dona Ruth costumava dizer que eu tinha mais sorte do que juízo, sempre que me encontrava diante de uma daquelas situações em que a enrascada teria sido grande não fosse alguma ocorrência fortuita que me livrasse da tragédia. Neste domingo de Dia das Mães lembrei dela, lógico. Não pela frase em si, mas por tudo que representou na minha vida, mesmo tendo tido a oportunidade de conviver com ela muito menos do que gostaria. Esteve na minha memória na missa matinal, no almoço em família e nas conversas com os parentes que se reuniram nesta data.

A frase, por sua vez, me veio à mente durante a partida desta noite, na Arena. À medida que o adversário acumulava passes, dribles, cruzamentos e chutes a gol, a máxima da Dona Ruth se fazia presente. Por sorte, uma bola deu no travessão; a outra foi chutada para o alto. Em seguida, foi nosso goleiro quem nos safou de um placar aberto ainda nos primeiros minutos. O primeiro tempo inteiro foi assim. Por sorte.

A ausência de juízo nos fez dar espaço para um dos times mais talentosos do campeonato. Permitimos que seus armadores tocassem a bola com maestria, sem a marcação aguerrida que o jogo exigia. Mesmo com três zagueiros na área, dois volantes diante dela e alas mais recuados, faltavam harmonia e ajustes. E isso oferecia ao adversário um espaço privilegiado. Nas poucas vezes em que a bola esteve nos nossos pés, faltou discernimento para chegar com perigo ao gol.

Voltamos para o segundo tempo sem tirar nem pôr. Nem na escalação nem no comportamento. E, para tamanha falta de juízo, não haveria sorte capaz de nos salvar. Aos 23 minutos da etapa final, levamos o único gol de uma partida que tinha tudo para se transformar em goleada a favor do adversário. Não bastasse isso, ainda amargamos uma combinação de resultados que nos deixa naquela zona-você-sabe-qual.

Ah, Dona Ruth! Depois de tudo, volto a lembrar da senhora. Que falta me fará amanhã cedo, quando estarei de volta ao trabalho. Nos nossos tempos em família, lá em Porto Alegre, eu acordava nas segundas-feiras pós-derrota e, ao sentar para o café da manhã, alegava dor de barriga, algum mal-estar, talvez um princípio de gripe. E a senhora, compreensiva, me permitia voltar para a cama, ficar embaixo das cobertas para não precisar encarar a flauta dos adversários na escola.

Avalanche Tricolor: vitória para afastar a zica

Deportivo Riestra 0x3 Grêmio
Sul-Americana — Estádio Nuevo Gasómetro, Buenos Aires, ARG

Deportivo Riestra x Grêmio
Carlos Vinícius comemora gol de pênalti. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Zica é daquelas palavras curiosas que surgem no vocabulário popular com sentidos opostos. Na maior parte das vezes, aparece como sinônimo de urucubaca, uma energia negativa que tentamos afastar batendo três vezes na madeira. É possível encontrar a expressão associada ao azar, à má sorte, na maioria dos dicionários brasileiros, como o Michaelis. Mais raro nos registros oficiais, porém comum nas conversas de rua, é o uso da palavra para definir algo muito bom, marcante, de alta qualidade: “esse jogo foi zica” ou “ideia muito zica” são exemplos que encontrei no Priberam.

Na partida desta noite, na Argentina, os opostos se encontraram para alegria do torcedor gremista.

Foram jogadores zica, como Gabriel Mec e Amuzu, que nos ajudaram a nos livrar da maior das zicas que nos acompanhavam nesta temporada: ficamos 104 dias sem vencer fora de casa. O três a zero que nos leva à liderança temporária do Grupo F da Sul-Americana foi apenas a terceira vitória longe de Porto Alegre desde o início do ano.

Luis Castro repetiu a escalação com três zagueiros, mas colocou apenas um volante à frente deles. Esperava que William conseguisse suprir a ausência de mais um marcador no meio e chegasse à frente. Se não alcançou êxito com nosso capitão, foi recompensado pelo desempenho de Mec, que parece ter assumido de vez a posição de titular. O guri foi zica: driblou adversários, distribuiu o jogo e cavou faltas.

Caído pela esquerda e sempre cortando para dentro em direção ao gol, Amuzu foi zica também. Voltou muito bem da lesão. Mais uma vez, foi o atacante mais perigoso. Fez o segundo gol ao completar uma belíssima triangulação com Carlos Vinicius e Mec. Antes, já havia sido dele o drible dentro da área que provocou o pênalti no primeiro tempo. Lance que nos livrou de outra zica: Carlos Vinicius, que havia errado três cobranças na partida da semana passada e vinha de dois gols anulados, impôs-se com personalidade e confiança. Marcou seu décimo quarto gol na temporada.

O terceiro gol também foi bonito. E teve mérito inicial de Pavón, que já foi zica no mau sentido e, com um esforço brutal, improvisado na lateral, conseguiu reverter essa imagem. Ele cobrou a falta que explodiu na barreira e deixou a bola pronta para o contra-ataque adversário. Foi o próprio Pavón quem apareceu para marcar e, de carrinho, impedir a ação ofensiva. Com a bola recuperada, tabelou, chegou à linha de fundo e cruzou para Braithwaite. O dinamarquês fez um golaço, o primeiro desde a parada de nove meses por lesão. Outra zica da qual nos livramos nesta noite.

Entre trancos e barrancos, Luis Castro segue no desafio de reconstruir o time. Nas últimas oito partidas, a equipe não sofreu gols em sete. Isso não significa que os problemas defensivos estejam resolvidos. Há muito posicionamento para ser ajustado. Ganhamos fora de casa, finalmente, mas sem nenhuma ilusão de que o resultado se repetirá automaticamente nas demais competições. Ainda é preciso melhorar muito. Alguns jogadores zicas, porém, me dão esperança de que podemos encontrar um caminho com menos zicas pela frente. A começar domingo quando vamos enfrentar o time do Zico.

Avalanche Tricolor: um ponto fora de casa e algumas fatias de torta

Athletico-PR 0x0 Grêmio
Brasileiro – Arena da Baixada, Curitiba PR

Athletico-PR x Grêmio
Gabriel Mec em jogada de ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Um ponto ganho ou dois perdidos? Para quem ainda busca estabilidade na temporada, ponto fora de casa deve sempre ser comemorado. Sobretudo diante de um adversário que tem sido imbatível quando está frente à sua torcida. A maioria dos que passam por lá sai de bolso vazio. Não tem o que festejar.

A lamentar, o fato de não sabermos, mais uma vez, usar a nosso favor a superioridade numérica. A expulsão de um dos jogadores adversários poderia ter sido mais bem aproveitada. Luis Castro preferiu ser conservador e manter a principal novidade na escalação: três zagueiros. Ao menos conseguiu conter a força ofensiva do time da casa. Não arrisco dizer que foi esse o motivo que nos impediu de vencer.

Em um raro momento da minha jornada de torcedor, não pude assistir à partida de hoje. Uma amiga querida estava aniversariando, e estar ao lado dela para comemorar esse momento me parecia mais apropriado. Entre conversas divertidas, companhia de amigos e comida de qualidade, fiquei de olho nas atualizações que piscavam na tela do celular. Teria sido a ansiedade que me levou a comer tantas tortas, quitutes e docinhos?

Sem assistir à partida, contentei-me com os melhores momentos quando cheguei em casa. Mas esse resumo do jogo nem sempre está à altura do desempenho de uma equipe. Tanto esconde falhas como pode omitir momentos de qualidade. Fui ler alguns comentários em redes sociais e reportagens. Pouco ajudou. A incerteza sobre a performance gremista nesta noite de sábado ficou mais confusa que o nosso meio de campo sem Arthur.

Consta que Tetê fez sua melhor apresentação desde que retornou à equipe. Por outro lado, houve quem reforçasse as críticas ao nosso atacante. De minha parte, quero crer que ele ainda desencantará e se tornará um jogador decisivo na temporada. Lembre-se: meus níveis de glicose e insulina estão altos neste momento — a torta de chocolate estava deliciosa.

Por mais que ainda estejamos perseguindo três pontos fora de casa, voltar a Porto Alegre com o empate nos mantém praticamente na mesma posição da tabela. Pode ser que seja apenas reflexo da minha felicidade por ter estado com colegas e amigos — e por não ter visto o jogo jogado por nosso time —, mas vou dormir com a sensação de que o ponto conquistado tem seu valor e merece ser comemorado. Entre a mesa cheia e o placar vazio, fico com a sensação de que o empate encontrou seu lugar.

Avalanche Tricolor: quando o dia vence e a noite escapa

Palestino 0x0 Grêmio
Sul-Americana — La Cisterna, Chile

Conmebol Sul-Americana - Grêmio x Palestino-CHI - 29/04/2026
Tetê busca jogada no ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA


Dia cheio e diverso. Assim foi essa quarta-feira que terminou diante da televisão assistindo ao Grêmio. Começou cedo como sempre começam os meus dias. Atualizar o ouvinte com as notícias mais relevantes foi minha primeira missão. 

Antes mesmo de encerrar essa jornada cotidiana, já estava a postos para outra tarefa: mediar discussões sobre como podemos inovar e tornarmos as cidades mais inteligentes. A noite chegou e eu estava no palco de uma festa beneficiente para ajudar a construção da matriz da igreja que frequento. O clima era de tango e comida argentina.

Agenda intensa. Nem por isso distante do jogo.

Quando consegui me conectar à partida, Carlos Vinícius já havia entrado para a história — daquelas que ninguém deseja protagonizar. Três cobranças de pênalti, três erros, hat trick. Rapidamente, surgiram comparações apressadas. Citaram Palermo, que desperdiçou três pênaltis em um jogo da Argentina contra a Colômbia, em 1999. Referência fora de lugar.

Carlos Vinícius perdeu o terceiro. Os dois primeiros foram defendidos após irregularidades que exigiram nova cobrança. O detalhe faz diferença.

Chama atenção a pressa com que parte da torcida encontrou um culpado. Nas redes sociais, não faltaram críticas a Luis Castro por manter o atacante como cobrador. Há um traço comum nesses julgamentos: ignoram o contexto. E tenho a impressão de que há um esforço em punir o técnico, sem justificativas.

O centroavante é o principal nome do ataque. Tem histórico, confiança e responsabilidade. Tirá-lo da cobrança naquele momento seria mais gesto de insegurança do que de estratégia. O jogador foi quem bancou a decisão de seguir na cobrança. E tem crédito.

O futebol, como a vida, costuma testar convicções.

Carlos Vinícius chegou a marcar um gol que poderia mudar a narrativa da noite. Recebeu fora da área, driblou o marcador e finalizou com precisão. Lance de atacante completo. O árbitro, porém, identificou irregularidade de Tetê na origem da jogada e anulou o gol. Não era a noite dele.

O Grêmio deixa o campo com um ponto. Queria três. Poderia ter três. O resultado não compromete o cenário, mas cobra atenção. A equipe segue com chances de liderança no grupo, mas precisará resolver um problema recorrente: vencer fora de casa.

O calendário ajuda. Restam dois jogos na Arena e apenas um como visitante. A conta é clara.

Antes de se deixar levar pelo ruído que domina parte do debate esportivo, vale ouvir o próprio protagonista. Carlos Vinícius resumiu bem: há dias — e noites — em que nada dá certo.

A frase serve para além do futebol.

Enquanto o resultado em campo frustrou, o dia fora dele foi produtivo. Houve troca de conhecimento, contribuição para uma causa relevante e encontros que justificam a correria.

O futebol não deixa esquecer: nem sempre o esforço entrega o placar esperado. A vida, por sua vez, lembra que o jogo não se resume ao resultado.