Morre Oscar Schmidt, um gênio que brilhou muito mais do que o ouro olímpico

Mário Quintana, meu poeta, jamais teve o privilégio de sentar em uma cadeira da Academia Brasileira de Letras. Assim como Zico, um dos maiores jogadores que o futebol já viu, nunca conquistou uma Copa do Mundo. Lembro desses dois craques no ofício a que se dedicaram ao me deparar com a notícia da morte de Oscar Schmidt, aos 68 anos. O ‘Mão Santa’ despediu-se das quadras sem conquistar uma medalha olímpica nem jogar na maior liga de basquete do mundo, a NBA.

Quintana, Zico e Oscar são dessas figuras geniais que conseguem ser grandes por si sós. Não precisaram que seus talentos fossem certificados por uma instituição, um diploma ou uma medalha. No caso de Oscar, bem que ele sonhou com o pódio olímpico e lamentou não ter colocado uma das cobiçadas medalhas no peito. Quanto à NBA, foi escolha própria. Preferiu ficar longe do basquete americano para seguir servindo à seleção brasileira — isso não o impediu de receber inúmeras homenagens da liga de basquete dos Estados Unidos.

Oscar foi superlativo. É o maior cestinha da história do basquete mundial, o maior pontuador da seleção brasileira e detém o recorde absoluto de pontos em Jogos Olímpicos. Era uma máquina de fazer cestas — o que lhe rendeu o apelido ‘Mão Santa’, criado pelo locutor Álvaro José —, ainda que ele preferisse explicar o próprio talento pela intensidade com que treinava: “Não existe mão santa, existe mão treinada”. Meia verdade e muita humildade de um ídolo nacional. Mesmo que alguém treine tanto quanto ele treinava, só os gênios chegam onde ele chegou.

Curioso notar que aquele que lamentava não ter uma medalha olímpica nos entregou outra conquista que ganhou peso semelhante pelo que representou: o ouro do Pan-Americano de 1987. O Brasil venceu a seleção universitária dos Estados Unidos, na casa dos adversários, em Indianápolis. Oscar marcou 46 pontos. Converteu sete bolas de três quando a regra ainda não era explorada como estratégia de jogo.

Aquela vitória obrigou os Estados Unidos a levarem as competições internacionais mais a sério e abriu caminho para o surgimento do ‘Dream Team’. Também clubes e seleções passaram a entender que a linha de três pontos não era um detalhe, mas uma escolha tática.

Oscar, como Quintana, não coube nas molduras oficiais. Não precisou delas. Fez da quadra o seu livro, das cestas os seus versos e da repetição incansável o seu estilo. Se Quintana escreveu poesia sem depender da Academia, Oscar compôs a sua com a bola nas mãos — um poeta das quadras, que dispensou glórias para ser lembrado.

Avalanche Tricolor: é o duro caminho da reconstrução!

Grêmio 1×0 Deportivo Riestra
Sul-Americana — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Deportivo Riestra
Amuzu faz o gol da vitória. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Sabemos o que é o Grêmio”, disse o folclórico goleiro Ignacio Arce ao fim da partida. A frase veio depois de 90 minutos — e alguns acréscimos — com os 11 jogadores do Deportivo Riestra enfileirados no campo de defesa. Nem mesmo após a expulsão de Nardoni, aos dois minutos do segundo tempo, o adversário se aventurou ao ataque.

Não foi covardia. Foi cálculo. E também respeito a um clube que construiu sua história em noites improváveis, títulos marcantes e uma identidade associada à entrega.

Nós, torcedores, também sabemos o que é o Grêmio. Por isso, a cobrança é sempre alta. Espera-se um time dominante, capaz de impor seu jogo e oferecer mais do que o resultado. Há cinco partidas sem vencer e, há 12 dias, sem marcar, essa expectativa vinha sendo frustrada. A vitória desta noite interrompe o jejum, mas não resolve a inquietação.

Encontramos dificuldades diante de um adversário limitado, que jogou exatamente como podia — e como precisava. Fechou-se, travou o ritmo e apostou no erro. Arthur resumiu bem, ainda à beira do campo: “é mais fácil destruir do que construir”. A frase serve para o jogo. E serve para o momento.

O Grêmio vive um processo de reconstrução. Mudou a comissão técnica, reformulou o elenco, reduziu custos e passou a apostar mais na base. É um caminho conhecido no discurso, mas difícil na prática. Reconstruir exige tempo. E o futebol brasileiro tem pressa.

Em meio ao desespero para chegar ao gol, nesta noite, passei a pensar mais seriamente sobre isso depois de ouvir meu colega de programa de rádio, Paulo Vinícius Coelho, que comentava o jogo na transmissão da Paramount. Ele informou que este era apenas o 24º jogo de Luis Castro no comando do Grêmio. Nesse período, já houve vitória em clássico e título estadual. Ainda assim, a sequência irregular pesa mais na avaliação. A memória curta é um traço do futebol. O resultado mais recente costuma engolir o anterior.

Não se trata de ignorar os problemas. Eles estão em campo. Falta fluidez, sobram erros de execução, o time ainda oscila. A pergunta que fica é outra: quanto tempo estamos dispostos a conceder para que algo consistente seja construído? Porque não há atalho. A reconstrução cobra seu preço. Cobra paciência. Cobra tolerância ao erro. Cobra a capacidade de enxergar processo onde ainda não há resultado pleno.

Enquanto isso, vamos nos apegar aos sinais. Ao drible de Enamorado, que abre espaço. À movimentação de Amuzu, que desta vez terminou em gol. À presença de Carlos Vinícius brigando dentro da área. À lucidez de Arthur organizando o meio-campo. À firmeza de Viery, que, mesmo jovem, já se comporta como dono da defesa. São fragmentos. Ainda não formam uma obra acabada.

A vitória por 1 a 0 não autoriza euforia. Também não recomenda desprezo. Ela revela, com alguma clareza, o tamanho da tarefa.

O Grêmio venceu. E, ao vencer assim, lembrou algo que talvez incomode: reconstruir não é um espetáculo. É um trabalho lento, por vezes pouco vistoso, quase sempre tenso.

A pergunta que fica, para quem está dentro e fora de campo, é simples — e desconfortável: temos disposição para atravessar esse caminho até o fim?

Eu tenho. E torço por ti, Grêmio!

Avalanche Tricolor: o pior Gre-Nal de todos os tempos (ou quase)

Inter 0x0 Grêmio
Brasileiro – Beira-Rio, Porto Alegre RS

Grenal 452
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Gre-Nal desta noite foi uma sucessão de falhas. De um lado o passe curto saía errado, do outro o passe longo era equivocado. Os dribles morriam antes de nascer, travados pela falta de habilidade; e os cruzamentos pela falta de destino. As raras tentativas de chute pouco exigiram dos goleiros — justiça seja feita, o nosso mostrou segurança quando acionado, enquanto o deles protagonizou um erro constrangedor.

Certamente, entre os 452 Gre-Nais disputados ao longo de 117 anos, houve partidas ruins. Minhas lembranças começam nos anos 1970, quando me entendi como torcedor. Ainda assim, fiquei com a sensação de ter assistido ao pior Gre-Nal de todos os tempos. Senão o pior, um dos que mais decepcionaram.

Verade que Gre-Nal ruim costuma ser aquele que se perde. Para quem aprecia o jogo bem jogado, porém, o que vimos no Beira-Rio foi indigesto. Imagino que o torcedor adversário também não tenha saído satisfeito. Eu, como gremista, espero mais. Sempre espero mais. Insisto em não aceitar a ideia de disputar campeonato apenas para evitar o rebaixamento.

Para não dizer que escrevo movido apenas pelo mau humor de um sábado mal aproveitado, há registros positivos. Weverton foi seguro nas saídas e nas intervenções. O time se entregou. Correu, marcou, disputou cada bola como se fosse a última. Ninguém se omitiu. Ainda assim, essa disposição pareceu nascer mais das dificuldades com a bola nos pés do que de uma proposta consistente de jogo — e também das limitações do adversário.

Sob o olhar da tabela, empatar fora de casa em Gre-Nal pode ser considerado ponto ganho, sobretudo em contraste com o empate anterior na Arena. O problema é que já deixamos pontos demais pelo caminho. Com um mínimo de organização e qualidade, era possível ter vencido.

O que mais incomoda é perceber que o que se viu em campo explica o momento do futebol gaúcho. Um clássico travado, de muita disputa e nenhuma técnica, passou a ser aceito quase como padrão. E isso diz muito sobre clubes e torcedores que já se acostumaram a mirar cada vez mais baixo.

O Grêmio ainda precisa evoluir. Luis Castro terá de ajustar posições, dar clareza ao modelo de jogo e exigir mais coordenação coletiva. Aos jogadores cabe algo mais básico: rever fundamentos. Passe, domínio, decisão. Sem isso, não há estratégia que sobreviva.

Porque, no fim das contas, o maior risco não está em empatar um Gre-Nal ruim. Está em se acostumar com ele.

Avalanche Tricolor: um empate para lamentar

Grêmio 0x0 Remo
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Brasileirão - Grêmio x Remo - 05/04/2026
Weverton comemora defesa de pênalti Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há derrotas das quais se tira aprendizado. E há empates que só se lamenta. Se, no meio da semana, busquei na juventude da equipe algum consolo para a perda de pontos fora de casa, do resultado desta noite de domingo restou apenas um ponto na tabela de classificação — e mais nada.

No primeiro tempo, fomos dominados e, não fosse Weverton, teríamos ido para o vestiário em desvantagem. Logo no início, nosso goleiro tirou, com um tapa, a bola que estava em cima da linha. Mais adiante, defendeu uma cobrança de pênalti. Aliás, afora Weverton, poucos apareceram para jogar na etapa inicial.

No segundo tempo, Luis Castro mexeu no time e colocou Arthur, Tetê e Gabriel Mec. Nosso capitão, camisa 8, faz toda a diferença quando está em campo. No mínimo, consegue manter a bola mais sob nosso domínio, e isso reduz o ímpeto do adversário.

Conseguimos pressionar e chegar mais perto do gol — insuficiente, porém, para criar aquilo que os narradores costumam chamar de chances claras. Foram alguns chutes de fora da área, cruzamentos nem sempre com a precisão necessária e um esforço que gerou mais suor do que futebol.

Nosso técnico terá de conversar muito com os jogadores, entender o momento de cada um e equilibrar o elenco para o primeiro compromisso da Sul-Americana, no meio da semana, sem perder o fôlego para o Gre-Nal do próximo fim de semana. Aliás, ter um clássico na sequência pode parecer perigoso para quem ainda busca equilíbrio. Quem conhece a nossa história, porém, sabe: são jogos assim que costumam definir destinos. Que venha o Gre-Nal!

Avalanche Tricolor: um tropeço que revela um caminho

Palmeiras 2×1 Grêmio
Brasileiro – Arena Barueri, São Paulo

Gremio x Palmeiras
Pedro Gabriel desarma o adversário. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio teve chances de sair com ao menos um ponto, apesar de jogar fora de casa e diante do líder do campeonato. Infelizmente, a desatenção em uma cobrança de lateral e a guarda baixa da defesa no momento de afastar a bola permitiram a vitória do adversário.

O jogo, porém, não foi perdido por completo. O Grêmio tem lições a tirar e aspectos positivos a ressaltar. Referir-se a Carlos Vinicius é chover no molhado. Nosso atacante não precisa de mais de três bolas no pé para marcar. Hoje, foi efetivo novamente. Na mínima chance que teve, e no espaço quase inexistente entre os zagueiros, livrou-se da marcação e bateu de fora da área para as redes.

O que mais gostei de ver nesta noite foi a aposta de Luis Castro na juventude gremista. O treinador levou a campo ao menos oito jogadores com, no máximo, 24 anos. Cinco vieram da base, e três foram contratados nos últimos tempos.

Na zaga, Viery, com 21 anos, e Gustavo Martins, com 23, têm se consagrado como titulares. A lateral esquerda foi ocupada por Pedro Gabriel, que, aos 18 anos, fazia apenas sua segunda partida entre os profissionais. No meio de campo, Noriega (24), Nardoni (23), Monsalve (22), Zortéa (19) e Gabriel Mec (17) completaram a legião de jovens que esteve em campo. No banco, ainda havia Roger (17), Tiago (18) e Riquelme (19).

Se o Grêmio e sua torcida tiverem paciência, podemos estar assistindo ao nascimento de uma geração de talentos capaz de nos trazer muitas alegrias. São jogadores que ainda precisarão passar por ajustes de posicionamento, desenvolvimento físico e maior entendimento tático para atender às estratégias pensadas pelo treinador. Por isso, ter colegas experientes ao lado e um técnico com visão de futuro será importante.

Com os valores das contratações cada vez mais altos, os times que melhor souberem aproveitar a base tendem a colher resultados significativos. É preciso dar condições para que esses jogadores cresçam e para que os erros e tropeços, inevitáveis nesse processo, sejam vistos como lições próprias do amadurecimento.

Avalanche Tricolor: fim da quaresma antecipada. Que venha a Páscoa!

Vasco 2×1 Grêmio
Brasileiro – São Januário, RJ/RJ

Gremio x Vasco
Arthur articula no meio de campo. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio encerrou seu período de quaresma. Estava prestes a completar 40 dias sem ser derrotado, em uma sequência de três vitórias, cinco empates e um título gaúcho. Mesmo na partida desta tarde, no Rio de Janeiro, teve chances — poucas, é verdade — de estender essa fase de triunfo até as vésperas da Páscoa. Infelizmente, não conseguiu.

Pagou, sobretudo, por um primeiro tempo muito abaixo do que vinha apresentando. Erros repetidos permitiram que o adversário, em pouco mais de meia hora, estivesse com o placar nas mãos. O time escolhido por Luis Castro para iniciar a partida não funcionou. O gol gremista, ainda na etapa inicial, nasceu mais da força e da precisão de Carlos Vinícius do que de méritos coletivos.

A defesa esteve lenta e espaçada — sem a ajuda dos atacantes que jogam pelos lados. O meio de campo não articulava. Arthur, isolado, tentava segurar a bola e organizar o jogo. Os pontas encontravam dificuldade para superar os marcadores. E os alas chegavam à frente sem intensidade. Pavón foi exceção em alguns momentos, tentando compensar no ataque o que não conseguia entregar na defesa.

Luis Castro enxergou os problemas, mexeu no time no intervalo e conseguiu conter mais o adversário. O Grêmio passou a ter mais posse de bola. Faltou transformar domínio em perigo. Falhas de execução, às vezes em passes simples, impediram que o time avançasse com qualidade.

A melhor chance surgiu quase como um presente. No retorno após seis meses afastado por lesão, Braithwaite aproveitou um erro da defesa, roubou a bola e finalizou forte. Parou no goleiro.

Os três pontos que ficaram no Rio pesam mais quando lembramos dos empates recentes, um deles jogando em casa. Após oito rodadas, o Grêmio segue na primeira página da tabela antes da pausa para os jogos da seleção. Não é um cenário ruim. Exige atenção. A sequência será exigente, com retomada do Brasileiro e início da Copa Sul-Americana.

A despeito da derrota de hoje, o fato é que o Grêmio evoluiu em relação ao início da temporada. Luis Castro dá forma a uma ideia de jogo. Para o treinador, a parada será um período de ajustes e afirmações.

Está evidente que, neste momento, a dupla de zaga titular tem de ter os dois guris, Gustavo Martins e Viery. Nas laterais, ainda será preciso encontrar soluções definitivas, especialmente para substituir Marlon, que ficará fora de três a cinco meses.

No meio, o desafio é encontrar o companheiro ideal que divida com Arthur a responsabilidade de organizar e acelerar o jogo. Nardoni e Léo Perez terão tempo para se adaptar. Noriega voltará. William e Monsalve poderão aprimorar a parte física.

No ataque, Enamorado e Amuzu, por enquanto, são os titulares nas pontas. Tetê ainda carece de adaptação e precisará entender que a forma de o Grêmio jogar exige recomposição rápida. Gabriel Mec é uma alternativa interessante, principalmente se ganhar força para resistir em pé à marcação pesada que sofre. Ainda teremos a opção de testar Carlos Vinícius e Braithwaite juntos, especialmente em momentos de maior pressão ofensiva.

A derrota interrompe a sequência. Não o processo. O Grêmio mostra caminhos. E terá tempo para ajustá-los. Quem sabe, antes mesmo de a Páscoa chegar.

Avalanche Tricolor: mais que vitória, um grito por Marlon

Grêmio 2×0 Vitória

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Vitoria
Antes da lesão, Marlon participou da comemoração do segundo gol Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A vitória do Grêmio, nesta noite de quinta-feira, era obrigação. O contexto pedia mais do que três pontos. Pedia resposta. O Grêmio entregou. E entregou bem. O time de Luis Castro não apenas venceu. Levou ao gramado da Arena um futebol qualificado, dominante.

A ideia que o treinador tem para esta temporada fica cada vez mais clara. Há sinais evidentes de um modelo em construção. A bola esticada pelas pontas, a tentativa constante de acelerar o jogo, a crença no poder do drible, a marcação alta que distribui responsabilidade a todos. Não é um desenho pronto, mas já tem traços reconhecíveis. E isso, no futebol, costuma ser meio caminho andado.

O resultado, no entanto, perdeu tamanho diante de uma cena que chocou a Arena – e todos nós apaixonados por futebol. Aos 25 minutos do segundo tempo, Marlon caiu. Não foi uma queda qualquer. Foi daquelas que fazem o estádio inteiro prender a respiração antes mesmo de entender o que aconteceu.

A imagem é difícil de esquecer. Preso entre dois adversários, tentando escapar em direção ao ataque, ele teve a perna retida no gramado, o corpo por cima, o pé em posição que não deveria existir. Há lances que dispensam laudo médico. O olhar já antecipa a gravidade.

Marlon é gremista de coração. É daqueles que carregam história junto com a camisa. Chegou aos 28 anos para viver o que muitos chamam de sonho. E tratou esse sonho com a seriedade de quem sabe o peso que ele tem.

Foi voz quando o silêncio seria mais confortável. Questionou arbitragem, assumiu responsabilidades em momentos difíceis, não se escondeu em uma temporada irregular. Dentro de campo, cresceu. Fora dele, se posicionou. Assim se constrói liderança — não com braçadeira, mas com atitude. A faixa, aliás, que carregava na noite de hoje, foi apenas um detalhe coerente com o papel que já exercia.

O estádio reagiu como se espera de quem reconhece os seus. Houve mãos na cabeça, olhos fechados, lágrimas soltas na arquibancada. Willian tentou esconder o choro sob a camisa. Cada um lidou à sua maneira com a cena. Nenhum de nós, no entanto, alcança a dor que ficou ali, naquele gramado.

A resposta veio em forma de canto. O nome de Marlon ecoou nas arquibancadas, transformando angústia em apoio. Um gesto simples, direto, que o futebol ainda sabe produzir quando tudo mais parece pequeno. E então, mesmo na dor, ele respondeu. Quando era levado para a ambulância, encontrou força, ergueu o corpo na maca, e com palmas agradeceu. Um gesto curto, mas cheio de significado. Há momentos em que o caráter se revela sem precisar de discurso.

A vitória fica registrada. O desempenho também. A noite, porém, será lembrada por outra razão.

Que Marlon encontre força para atravessar esse capítulo. O Grêmio e a sua gente estarão à espera. Não apenas pelo jogador. Pelo líder que fez da camisa algo maior do que um uniforme.

Avalanche Tricolor: há futebol além do empate

Chapecoense 1×1 Grêmio
Brasileiro — Arena Condá, Chapecó SC

Gremio x Chapecoense
Nardoni fez seu primeiro gol pelo Grêmio. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Ponto fora de casa se comemora. Ao menos esse é o comportamento padrão no futebol, principalmente em uma competição de longo alcance como o Brasileiro. Apesar dessa máxima, o torcedor do Grêmio não saiu satisfeito da partida desta segunda-feira à noite.

Especialmente depois de ter desperdiçado dois pontos na rodada anterior dentro de casa — jogo sobre o qual decidi não desperdiçar minha escrita —, o Grêmio precisava recuperar terreno em relação àqueles que estão na parte mais alta da tabela. Não foi capaz.

Apesar de ter sido superior na maior parte do tempo, o time de Luis Castro não conseguiu transformar esse domínio em vitória. Não fosse uma falha grosseira do goleiro adversário talvez estivéssemos até agora tentando marcar um gol.

O curioso é que, se olharmos momentos específicos da partida, encontraremos motivos para acreditar no potencial deste time.

Ao contrário de outras jornadas nas quais nada se via de produtivo, o Grêmio dá sinais de que pode encontrar boas soluções dentro do próprio elenco. Há um esboço de futebol que permite imaginar uma caminhada mais consistente neste ano de 2026.

Que Arthur, lesionado, faz tremenda falta ao time é inquestionável. Nosso volante mais ofensivo tem uma capacidade de organizar as jogadas acima da média. O meio de campo perde muito na ausência dele. Não significa, porém, que o trio Nardoni, Noriega e Monsalve não possa apresentar qualidade. Em alguns instantes houve troca de passes interessante. Faltou a conclusão.

Nossos ponteiros são atrevidos. Amuzu, Tetê e Enamorado arriscam dribles, encaram os marcadores e chegam perto da área. Precisam caprichar mais nos cruzamentos. Carlos Vinícius, por mais perdigueiro de gols que seja, depende da ajuda deles para transformar presença na área em bola na rede.

William, que tem entrado no segundo tempo, aparece tanto pelo meio quanto pelos lados do campo. Tem um toque de bola diferenciado. Falta acertar a definição das jogadas.

Temos carências nas laterais. Marlon é o melhor deles e fez muita falta na partida de hoje. Pavón me comove pelo esforço, mas não é da posição. Também tem demonstrado dificuldade no toque final para os companheiros dentro da área — o que já acontecia quando atuava como atacante.

O Grêmio não perde há sete jogos. Destes, porém, venceu apenas dois — é verdade que um deles valeu o título do Campeonato Gaúcho. Ainda assim, para quem quer subir na tabela do Brasileiro, empatar virou pouco.

Empate fora de casa pode ser motivo de comemoração. Mas também pode ser o sinal de que ainda falta ao time transformar promessas de futebol em vitórias de verdade.

Avalanche Tricolor: bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário

Inter 1×1 Grêmio
Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre (RS)

Final Gauchão Volta - Internacional x Grêmio - 08/03/2026
Festa do Imortal no Beira Rio Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário. Não há o que discutir!”. A frase de um dos maiores dirigentes que tivemos, Nelson Olmedo, sacramentou a conquista gaúcha mais marcante da história gremista: o título de campeão de 1977. Havia dirigentes e torcedores adversários questionando a vitória devido à confusão no minuto final da partida, que levou à invasão de torcedores tricolores ansiosos por um troféu que estava longe do Olímpico havia oito anos.

Desde aqueles tempos em que eu era um guri de calça curta e camisa tricolor, levado pela mão do pai até as arquibancadas do Monumental, o choro de perdedor é livre. Até aquele 25 de setembro de 1977, eu já havia chorado muito. O fato é que, digam o que disserem, reclamem o que reclamarem, o resultado em campo fala mais alto. E neste 2026, quando já sou um guri de 62 anos, o Grêmio foi maior.

O Imortal teve uma vitória contundente na primeira partida na Arena (3×0) e administrou o resultado na segunda (1×1), na casa do adversário. Para ter dimensão desta conquista: é apenas a terceira vez que fizemos a festa no Beira-Rio — a última havia sido há 20 anos. Foi a primeira desde que o estádio foi reformulado. Claro que isso também tem a ver com o fato de que muitos dos títulos dos últimos anos nós decidimos em nossa casa porque tínhamos campanhas superiores.

O jogo desta noite em Porto Alegre e a postura que o Grêmio adotou estão diretamente ligados ao que aconteceu aos 31 minutos do primeiro tempo do Gre-Nal na Arena. Não pelo que o adversário alega, mas por aquilo que o Grêmio construiu. A expulsão em pouco mais de meia hora de jogo foi resultado de uma marcação precisa e de um contra-ataque veloz. Aquela escapada de Amuzu, que se repetiria no segundo gol, foi mérito do Grêmio. Assim como foram a pressão na bola, a qualidade na troca de passes, os ataques velozes e a precisão nos chutes que permitiram que o Grêmio chegasse com larga vantagem à partida final.

No jogo deste início de noite em Porto Alegre, o Grêmio teve maturidade e personalidade para encarar o desequilíbrio emocional do adversário. Amuzu foi agredido na primeira tentativa de drible. Arthur, mais uma vez, foi caçado em campo. Monsalve sofreu falta em quase toda jogada. Havia ainda a esperada pressão sobre nosso setor defensivo, com o adversário empurrado pela torcida local. Nesses momentos, Weverton foi gigante em suas defesas — especialmente aquela com o braço direito, aos 12 minutos de partida, impedindo o que seria um gol praticamente feito pelo adversário, que poderia ter mudado a história do jogo.

Além de nosso goleiro, que calou críticos e descrentes, tivemos uma defesa muito segura na marcação, seja pelo sistema armado por Luis Castro, seja pelo ímpeto de nossos jovens zagueiros. Viery (21 anos), com o perdão pelo risco que correu de ser expulso em um lance desnecessário, e Gustavo Martins (23 anos) me fizeram lembrar os tempos de Geromel e Kannemann, guardadas as devidas proporções. Espantaram os perigos que rondaram nossa goleira, deram pouquíssimo espaço para os atacantes dentro da área e ainda contaram com a sorte que acompanha os virtuosos.

Destaque maior, claro, para Gustavo Martins, que mais uma vez foi decisivo não apenas na defesa. Apareceu na frente e marcou o gol nos acréscimos do segundo tempo ao aproveitar uma bola que veio da cobrança de escanteio. Nosso zagueiro já havia sido fundamental em vitórias passadas. Quem não lembra o gol de bicicleta que ele marcou na semifinal do Gaúcho do ano passado, que nos proporcionou disputar o título? O jovem da base entra também para a história do Gre-Nal por ter marcado o 1.200º gol do clássico gaúcho.

Quis o destino que ainda tivéssemos o prazer de lembrar o passado recente de vitórias gremistas quando Kannemann foi sacado do banco para cobrir o buraco deixado por Wagner Leonardo, que havia substituído Viery e acabou expulso no segundo tempo. O argentino, no pouco tempo em que esteve em campo, mostrou sua bravura ao dar um peixinho no pé do adversário na entrada da área. Mesmo ferido, seguiu em campo e foi premiado com a faixa de capitão e o direito de erguer a taça de Campeão Gaúcho de 2026. Nada mais simbólico do que retomar o título estadual com Kannemann em campo.

O Grêmio de Luis Castro ainda tem muitos acertos a fazer e ninguém deve se iludir com o título neste início de ano. A temporada será longa e dura. Precisamos voltar a ser protagonistas no futebol nacional e sul-americano. Missão difícil, considerando o poder econômico dos principais adversários.

Hoje, porém, era noite de lembrar o velho Olmedo. Porque, no fim das contas, o futebol costuma ser simples: o jogo termina, o resultado está no placar e a taça encontra o seu lugar. Desta vez, novamente, no armário tricolor. Como disse o cartola em 1977: “Bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário. Não há o que discutir!”.

Avalanche Tricolor: foi um baile!

Grêmio 3×0 Internacional
Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Final Gauchão Ida - Grêmio x Internacional - 01/03/2026
Enamorado comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Eu não teria pedido tanto. Queria um time jogando melhor do que no Gre-Nal passado. Imaginava uma equipe aguerrida, como tem se mostrado nas últimas partidas. Acreditava no resultado positivo, empurrado pela torcida. O Grêmio me deu muito mais. Deu um baile!

No Gre-Nal 450, foi superior ao longo de toda a partida, antes mesmo de ter se beneficiado da expulsão do adversário. Aliás, é importante que se diga: a expulsão foi resultado dessa imposição tricolor. Marcação lá em cima. Pouco espaço para o adversário. Saídas para o ataque com velocidade. Arriscando dribles pelas pontas.

A defesa dos guris Gustavo Martins e Viery deu pouca chance aos atacantes colorados. E não se limitou a marcar dentro da área. Saiu para o bote. Ganhou nas divididas. E foi numa dessas que Viery, vencendo duas disputas, desarmou o adversário e serviu Amuzu no segundo gol.

Pavon, improvisado na lateral direita mais uma vez, foi preciso na função. Em vez de escolher um dos laterais de ofício, Luis Castro aposta na velocidade do argentino, que consegue acompanhar o ponteiro adversário e aparecer na frente. Um achado. Marlon jogou com a segurança que se espera na esquerda

O meio de campo teve Arthur como maestro, conduzindo a bola para um lado e para o outro, fazendo seus marcadores perderem a passada — só foi parado com faltas (sem que nenhuma tenha sido punida).

Noriega atuou como um “batedor de carteira”, e Monsalve foi a surpresa de Luis Castro. Mais uma demonstração de que o técnico valoriza o que vê nos treinamentos e o que os jogadores entregam em campo. O colombiano vinha bem, se machucou e, recuperado, voltou a ser titular.

Por falar em baile, Enamorado pelo lado direito e Amuzu pelo esquerdo tiraram os marcadores para dançar. E não queriam saber de valsa. Foi em ritmo de rock and roll — ou teria diso reggaeton latino. Impuseram velocidade, driblaram, deram caneta, chegaram à área, fizeram assistência e marcaram os gols que abriram o placar e nocautearam o adversário.

Enamorado fez o seu primeiro gol desde que chegou ao Grêmio, minutos depois de o time ficar em superioridade numérica em campo, com um chute da entrada da área. O colombiano até aqui havia mostrado talento com a bola no pé, mas vinha concluindo mal a gol. Desta vez, estufou a rede.

Amuzu foi protagonista no lance da expulsão, marcou o segundo gol em mais uma escapada veloz e deu assistência para Carlos Vinícius fazer o terceiro. O belga ainda se deu ao luxo de arriscar um cruzamento de letra para desestabilizar de vez o adversário.

Nosso centroavante pode até não ficar com a autoria do gol — é preciso ver o que o árbitro colocará na súmula —, mas teve participação importante dentro da área, venceu todas as disputas com os zagueiros e completou sua atuação com um toque por cobertura sobre o goleiro, que proporcionou o gol definitivo da partida.

O Grêmio bailou na Arena como há muito tempo não víamos. E a torcida embalou com seu grito de “olé”. Luis Castro está de parabéns por ter encontrado a fórmula necessária para fazer o Grêmio jogar bola com harmonia.

A história mostra que raramente o time que sai na frente na decisão perde a taça no Campeonato Gaúcho. Nunca houve uma virada com três gols de diferença. Ainda assim, cautela. Não é hora de cantar vitória. É hora de repetir a intensidade, sustentar a vantagem e só transformar confiança em festa quando o árbitro encerrar a decisão.