Avalanche Tricolor: a capacidade de levar fé onde houver dúvida

 

Grêmio 2×0 Universidad Católica
Libertadores — Arena Grêmio

 

Gremio x Universidad Catolica

A festa com os torcedores em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Há pouco mais de um mês saímos de campo derrotados, no Chile, pelo mesmo adversário desta noite. Um derrota pesada, pois fechava o primeiro turno da fase de classificação muito aquém da nossa expectativa. Era o terceiro jogo e somávamos um só ponto na tabela, conquistado apenas na primeira rodada. Já havíamos registrado até uma derrota dentro da Arena. E a combinação de resultados com os demais concorrentes às duas vagas da chave era desfavorável.

 

Nas reportagens havia lamento; na troca de olhar de alguns torcedores, desconfiança; nas mensagens que recebia de amigos, um tom de deboche; e nas palavras da crítica esportiva, muitas críticas. Os estatísticos remexiam nos números e na história para revelar que ninguém, ou quase ninguém, havia se recuperado de campanha tão pífia em uma largada de Libertadores.

 

Incrédulos! Parece que não conhecem a história que nos fez Imortal. Parece que esqueceram de nossas façanhas. E até hoje não entenderam que se há uma só esperança, nela nos agarraremos. Por ela lutaremos.

 

E aí de quem duvidar dessa nossa capacidade: será driblado como são driblados os marcadores de Everton; será desarmado como são desarmados todos que se atrevem a enfrentar Geromel e Kannemann.

 

Escrevo hoje com a tranquilidade de quem nunca desacreditou. E registrou em palavras essa crença. Sim, releia a Avalanche daquela noite de 5 de maio e procure nas linhas e entrelinhas qualquer desespero ou desesperança deste escrevinhador.

 

Mesmo diante daquele cenário, mesmo consciente do que estava acontecendo, mesmo sabendo que não tínhamos feito o combinado até então, jamais pensei em desistir. Inspirado na fala de Everton ao fim daquele jogo, que lembrou que a partir daquele momento “era vida ou morte”, não tive dúvida em cravar no alto da Avalanche: “Se é vida ou morte então é com a gente!”.

 

E assim a história se fez mais uma vez, confirmando nosso poder de recuperação. Nossa capacidade de encontrar esperança, onde houver desespero. De levar luz onde houver treva. De levar alegria onde houver tristeza. De levar fé onde houver dúvida — e aqui me inspiro nas palavras de Padre Zezinho, em sua Oração de São Francisco.

 

A cada nova rodada, o Grêmio revelava-se. Fizemos a lição de casa, ao vencer o Rosário por 3 a 1. Desacreditamos as previsões negativas ao fazer 2 a 0 no Libertad, fora de casa. E não bastassem esses placares, os resultados paralelos conspiravam a nosso favor. Chegamos a decisão de hoje apenas precisando de um empate e diante de nossa torcida.

 

O Grêmio jogou muito sério nesta noite de quarta-feira. Sabia do tamanho de sua responsabilidade. Marcou forte e eliminou qualquer risco que o adversário pudesse apresentar. Foi pragmático sem abrir mão do talento. Mesmo sem o espetáculo de outras partidas, buscou em sua qualidade técnica a solução para a classificação.

 

O lançamento de Michel, que colocou Alisson no caminho do gol, foi magistral. O drible de Alisson, primeiro ajeitando a bola com o peito e depois desviando do goleiro, foi incrível. A entrega de Leonardo, que de marcador virou atacante, roubou a bola, foi ao fundo e cruzou para o segundo gol, foi impressionante. E a chegada veloz de Thaciano para concluir a jogada, foi fulminante.

 

Incrédulos e crentes, o Imortal voltou!

Avalanche Tricolor: chega pra lá, bruxa!

 

Grêmio 4×5 Fluminense
Brasileiro – Arena Grêmio

 

Gremio x Fluminense

Kannemann comemora um dos gols em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

“No creo en brujas, pero que las hay, las hay” diz o ditado espanhol que ouvi meu pai repetir algumas centenas de vezes, geralmente quando revelava ceticismo em relação a alguma coisa da vida. Lembrei-me dele não apenas pela oportunidade de estar ao lado do pai nestes últimos cinco dias, em visita a Porto Alegre. Mas pelos fatos que se sucederam desde que fui embarcar em um avião de volta a São Paulo.

 

O atraso do voo, por motivos jamais explicado pela companhia aérea, nos fez embarcar no avião quase 40 minutos depois do combinado — o que já seria suficiente para atrapalhar minha agenda desta noite de domingo: assistir ao jogo do Grêmio pela televisão.

 

Como desgraça pouca é bobagem — perdão, hoje esta Avalanche está cheia de ditados —-, assim que as portas do avião fecharam, o céu em Porto Alegre fechou junto, e um temporal de vento passou a balançar a aeronave na pista do aeroporto Salgado Filho. A torre cancelou decolagens e aterrisagens. E lá ficamos todos presos a espera da liberação.

 

Costumo não ser ansioso nessas horas, mesmo porque a segurança é a prioridade. Mas estava na cara que meus planos tinham ido por água abaixo —- opa, lá foi mais um lugar-comum. Na melhor das hipóteses assistiria ao segundo tempo da partida. A chuva só se acalmou depois de uma hora e 45 de atraso.

 

Assim que desembarquei no aeroporto de Congonhas, liguei meu “radinho de pilha” do celular e fui surpreendido com um 3×0 acachapante, conquistado em 21 minutos, como exaltava o locutor esportivo. Feliz com aquela que seria a primeira vitória gremista no Campeonato Brasileiro me dirigi para o estacionamento onde um carro me aguardava.

 

Nem bem havia chegado ao estacionamento, ouvi o primeiro e o segundo gols adversários. No caminho para a casa veio o terceiro. E quando me sentei diante da televisão, pude ver o 3×4, o 4×4 e o 4×5. E tudo que consegui pensar era que “la bruja” no caso era eu, pois enquanto não acompanhava a partida estava tudo bem. Bastou começar a ouvir o jogo e o meu time desandou.

 

A me apaziguar o coração o fato de “el diablo saber más de viejo que por diablo” —- outro ditado que meu pai repetia à exaustão ao se referir à experiência que só o tempo nos oferece. Pois de tanto assistir ao futebol também sei que nem sempre é o nosso pé frio que muda o placar da partida. Às vezes “la bruja está suelta” no pé de um goleiro desastrado, de um atacante atabalhoado, de um time desconcentrado ou no apito de um juiz mal-intencionado (longe de mim levantar suspeita contra qualquer um dos personagens dessa última frase).

 

Independentemente onde “la bruja” tenha pousado, terminei o fim de semana com o desejo que ela já tenha feito todos os seus feitiços em campo e vá voar para bem longe da Arena, porque na quarta-feira, não pode haver espaço para o azar: “arriba y avante porque la Libertadores viene adelante“.

Avalanche Tricolor: viajei no tempo

 

Avaí 1×1 Grêmio
Brasileiro – Ressacada/Florianópolis-SC

 

 

Gremio x Avai

Thaciano é destaque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Viajei muitas vezes ao lado de meu pai atrás do Grêmio. Ele, profissionalmente. Era escalado para narrar os jogos pela rádio Guaíba de Porto Alegre, onde trabalhou por quase 60 anos. Eu, apaixonadamente. Pegava carona nas Kombis e Veraneios que transportavam a equipe de esportes da emissora. Era sempre um sensação bacana chegar ao estádio a bordo daquelas viaturas, pois a turma da rádio era muito respeitada pelos torcedores-ouvintes. Ficava orgulhoso de ver a maneira como meu pai e seus colegas eram recebidos.

 

Nos anos de 1970, lembro de o pai ter sido escalado para narrar uma partida do Grêmio em Florianópolis. Aproveitou que sairia de férias em seguida, mandou a família arrumar as malas, colocou todos nós no seu Corcel azul marinho e pegou a estrada em direção a Santa Catarina. Deixou a turma em um hotel assim que chegou à capital catarinense e foi comigo para o estádio Adolfo Konder, que também atendia pelos apelidos Majestoso e Pasto do Bode. O adversário era o Avaí, time do qual eu pouco havia ouvido falar.

 

O Grêmio passou fácil pelo adversário. Se não me engano aplicou-lhe uma goleada, o que levou alguns torcedores que nos encontraram após a partida a fazer brincadeiras relacionando o placar do jogo com um seriado famoso da época, chamado Havaí 5.0, protagonizado por uma força especial de policiais que combatia o crime  no estado do Havaí, nos Estados Unidos.

 

Uma das imagens que tenho na memória é a de um passeio de mãos dadas com o pai e ao lado de parte da equipe de esportes da Guaíba, que fizemos à noite pelas ruas de Florianópolis. Guri de calça curta, eu ficava sempre muito alegre naqueles momentos em que tinha a oportunidade de acompanhá-lo com seus colegas —- eu praticamente não abria a boca, apenas ouvia o que eles conversavam, mas era o suficiente para ter a sensação de que fazia parte daquele time de craques. Curiosamente, muitos anos depois trabalhei com alguns deles, no início da minha carreira, já na metade dos anos de 1980.

 

Alguns desses momentos voltaram à mente na noite dessa quarta-feira quando fui ao apartamento do pai, aqui em Porto Alegre, para assistir, pela televisão, ao segundo jogo do Grêmio, no Campeonato Brasileiro. Viajei no tempo, enquanto a bola rolava no Estádio da Ressacada, batizado Aderbal Ramos da Silva. Relembrei do passeio à Florianópolis e de muitos outros que fizemos juntos, quase sempre a caminho das partidas do Grêmio. De como nos divertíamos com as histórias que ouvíamos, de como comemorávamos as vitórias e arrumávamos justificativas para as derrotas.

 

Eram tantas lembranças que surgiam que tive a impressão de não ter me dedicado à partida como estou acostumado. Sabe quando a gente está em um lugar mas a cabeça está em outro? Pois é, foi o que aconteceu comigo nesse fim de feriado do Dia do Trabalho. Verdade que eu tinha um bom motivo para tal. Estou vivendo um momento em que tenho o desejo de recuperar cada experiência ao lado do pai. E nada parece ser mais importante agora.

 

Quem não podia ter perdido o foco mesmo era o Grêmio. Pois isso sempre acaba cobrando um preço alto ou nos tirando pontos preciosos, como aconteceu nessa noite, em Florianópolis — até porque o adversário há algum tempo deixou de ser aquele time desconhecido para o qual fui apresentado lá nos anos de 1970.

Avalanche Tricolor: nem sempre ganhando

 

 

 Grêmio 1×2 Santos
Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

 

Gremio x Santos

Everton faz o gol do Grêmio em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

Vivendo e aprendendo a jogar
Vivendo e aprendendo a jogar
Nem sempre ganhando
Nem sempre perdendo
Mas, aprendendo a jogar

A música de Elis Regina me acompanhou ao longo de todo esse domingo que se iniciou cedo no futebol. A voz dessa artista genial —- e gremista —- balbuciou a letra de “Aprendendo a jogar” em meus ouvidos até que eu sentasse para escrever esta Avalanche que você, caro e raro leitor, lê a partir de agora.

 

O Grêmio entrou em campo quando muita gente ainda curava a ressaca do sábado à noite. E se não conseguiu acordar em tempo, desperdiçou um belíssimo jogo — ainda que o resultado final não tenha sido positivo para nós.

 

Duas equipes que sabem tratar a bola deram espetáculo de variação de jogadas, movimentação intensa, marcação efetiva e talento individual. O Grêmio demorou um pouco para entender o tamanho do futebol do adversário e pagou caro demais para quem tem o time que tem e fez o segundo tempo que fez.

 

O gol que marcamos já ao fim do jogo, foi um gol com a nossa cara. Tabela pela direita e troca de passes precisos entre Diego Tardelli e Maicon, e a agilidade no drible e a velocidade no chute de Everton. Mas quando marcamos, já era tarde para uma reação.

 

Aliás, foi o próprio Everton quem lembrou ao fim da partida e ainda ao lado do gramado que a impressão que tinha é que o Grêmio jogaria mais 90 minutos e a bola não entraria —— estava certamente impactado pela quantidade de vezes que viu a bola rondar o gol adversário, bater no travessão depois de uma bicicleta, escorregar para fora após um chute esperto, esbarrar no goleiro e se desviar de seu destino.

 

Por mais curioso que fosse —- mas não injustificável —- mesmo com a diferença que se manteve no placar a maior parte do tempo em favor do adversário, não conseguia me irritar com o Grêmio. E se esse sentimento não se fazia em mim é porque soube reconhecer tanto o talento de quem nos enfrentava quanto o esforço gremista em reproduzir o futebol aprendido nestes tempos de Renato.

 

O campeonato está apenas se iniciando e o Grêmio já declarou que conquistá-lo faz parte do cardápio que pretendemos oferecer nesta temporada de 2019. Portanto, claro que se lamenta a perda de três pontos logo no seu começo, em casa. Mas é injusto imaginar que esses serão determinantes na competição.

 

O mais importante neste momento é perceber que nem sempre venceremos mas não podemos jamais abrir mão de jogar o futebol que aprendemos a jogar — e jogar muito bem.

 

Sobe o som porque quero ouvir um pouco mais de Elis Regina:

Vivendo e aprendendo a jogar
Vivendo e aprendendo a jogar
Nem sempre ganhando
Nem sempre perdendo
Mas, aprendendo a jogar

Avalanche Tricolor: carta para o meu filho

 

Libertad 0x2 Grêmio
Libertadores — Assunção/Paraguai

 

Gremio x Libertad

Everton marcou os dois gols. Foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Oi, Greg

 

Tudo bem por aí?

 

Tenho certeza que a experiência do outro lado do mundo vai ser incrível. Se sentir saudades da gente, não se preocupe. É da vida. Eu também já morro de saudades, mas sei que daqui a alguns meses você estará de volta. E de volta com muito mais experiência, conhecimento, amizades, maturidade e aquele sorriso bonito que você costuma dar — um sorriso que nos revitaliza.

 

Estou escrevendo para contar que aqui nas nossas bandas, o Grêmio segue provando sua imortalidade.

 

Lembra que quando você estava fazendo as malas, a coisa andava feia para o nosso lado?

 

Tinha gente até que apostava que deixaríamos a Libertadores bem antes da hora. Falavam em crise. Em queda de produção. Problemas no vestiário —- é o que dizem quando querem espalhar que o grupo de jogadores não está se entendendo.

 

Aí vencemos na rodada passada da Libertadores.

 

Mesmo assim o pessoal questionava nossa chance de seguir em frente. Fazia projeções. Combinava resultados. E olhava com desconfiança para nossa capacidade de recuperação. Gente incrédula essa, não é mesmo? Parece até que jamais ouviu falar das nossas façanhas.

 

Chegou a final do Campeonato Gaúcho e ganhamos mais uma vez.

 

Eu e você vibramos juntos as defesas do Paulo Victor tanto quanto os gols marcados nas cobranças de pênalti. Lembra?

 

Você talvez não tenha percebido, mas quando corri para dar-lhe um abraço e comemorar o título gaúcho era um abraço de despedida. Quase que querendo que você ficasse por aqui. Mas consciente que não seria justo segurá-lo, diante das oportunidades que a vida lhe oferecia.

 

Hoje à noite, sabia que você não estaria mais por aqui. Sabia que não poderia contar com meu companheiro de sofrimento e de torcida. Sabia que não teria como lhe abraçar mais uma vez.

 

Mas também sabia que o Grêmio não nos deixaria na saudade.

 

Que voltaria a ser o Grêmio que me fez cobrir seu berço com camisa tricolor quando você recém havia nascido e nós conquistávamos o bicampeonato brasileiro, em 1996. Que lhe forjou gremista na histórica Batalha dos Aflitos, em 2005. Que nos encheu de orgulho enquanto assistíamos da arquibancada à presença do Tricolor no Mundial de Clubes, nos Emirados Árabes, em 2017.

 

E foi assim, Greg, que na noite de hoje, todos aqueles momentos que curtimos lado a lado voltaram à memória.

 

Desde os primeiros momentos da partida decisiva desta noite —- sim, era decisiva porque qualquer revés nos tiraria da competição —- estava na cara que aquele Grêmio que conhecemos estava em campo. Domínio total do jogo, bola de pé em pé, passes velozes e precisos, jogadores se deslocando de um lado ao outro para confundir os marcadores e aquela turma lá de trás acabando com a partida — sem dar chance aos adversários.

 

Você não imagina a defesa salvadora que o Paulo Victor fez no segundo tempo. Você não tem ideia o que jogaram Geromel e Kannemann. Gigantes!

 

E lá no ataque?

 

Bem, lá a gente tinha o Everton. E esse você conhece bem. Nós dois —- aliás, nós três, porque o Lorenzo estava com a gente na arquibancada —- vimos o Everton fazendo aquele gol no Mundial bem na nossa frente. Lembra?

 

Hoje, aquele Everton estava de volta.

 

No primeiro gol, ainda no primeiro tempo, ele tirou os marcadores e o goleiro para dançar  — confere na internet que vale à pena.

 

No segundo gol, com a ajuda do Pepê — sim, o Renato em lugar de trancar o time na defesa, o deixou ainda mais ofensivo no segundo tempo, colocando um dos nossos guris em campo —-, Everton driblou um, trançou a bola nas pernas do outro, limpou para a direita e bateu firme, definindo a nossa vitória.

 

Fizemos 2 a 0 contra o líder do grupo, que estava invicto na Libertadores, e na casa do adversário. Fomos superiores no primeiro tempo. E insuperáveis nos segundo. Com o resultado, estamos na luta mais uma vez, a uma vitória da classificação que será decidida em casa, na rodada final.

 

Para a festa ficar completa, só faltou você. Mas fique tranquilo porque sei que você tem um desafio super legal pela frente. E nós estamos torcendo muito para que tudo de certo aí do outro lado do mundo.

 

Vai em frente, curta cada momento da sua experiência. Eu me comprometo a manter você atualizado com as coisas que acontecem por aqui. Contando as façanhas do Imortal Tricolor —- que nesta noite revelou mais uma faceta da sua imortalidade.

 

Beijos e até mais!

Avalanche Tricolor: nem heróis nem vilões, o Grêmio tem multicampeões!

 

Grêmio 0 (3)x(2) 0 Inter
Gaúcho — Arena Grêmio, Porto Alegre

 

 

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O futebol sempre tem heróis. O futebol sempre tem vilões.

 

Heróis e vilões podem ser a mesma pessoa no futebol.

 

O goleiro que falha para defender o pênalti em seguida. O atacante que erra para se consagrar na cobrança final.

 

Às vezes, os vilões se travestem de heróis. Ludibriam o torcedor. E se consagram. Outras, o herói fragilizado é chamado de vilão. São as coisas do futebol.

 

O herói pode ser o dono da braçadeira de capitão que lidera sua equipe de forma aguerrida contra tudo e contra todos;  mas ele também pode ser o vilão.

 

Quem sabe o garoto que domina a bola como ninguém? Tem jeito de herói. Mas ai dele se perde o domínio na hora H.

 

O herói pode ser o  goleador. Pode ser o defensor. Pode ter saído jogando, pode ter vindo do banco.

 

Basta um vacilo. Uma decisão errada.  O pênalti mal cobrado. O gol desviado. E qualquer um deles pode se transformar em vilão.

 

O Grêmio, não! 

 

O Grêmio que ganhou este campeonato Gaúcho de forma invicta e tendo tomado apenas um gol em toda a competição não tem heróis nem vilões. 

 

O Grêmio tem um time de campeões.

 

Bicampeões!

 

Multicampeões!

 

 

Avalanche Tricolor: a vitória do Gre-Nal

 

Inter 0x0 Grêmio
Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre/RS

Pai

 

Cada um tem o seu Gre-Nal. E neste domingo, eu ganhei o meu em particular. Foi fora dos gramados e bem distante do campo de jogo. Não foi necessário marcar gols, dar carrinho para impedir o avanço do adversário e menos ainda peitar o árbitro para que ele mudasse de decisão. Foi uma vitória pessoal. Mais do que isso, emocional.

 

Em meio ao jogo corrido que se desenrolava no Beira Rio, fui agraciado com uma foto de um torcedor gremista —- enviada pelo meu irmão, o Christian. Não era um torcedor qualquer. Era o pai. Sim, o meu pai, Milton Ferretti Jung. Aquele que me forjou gremista. Que usou de estratégias pouco ortodoxas —- acho que já falei delas por aqui — e outras mais corriqueiras para me fazer torcer pelo time que ele sempre torceu.

 

O pai, poucos devem saber, segue sua saga pela vida, mesmo que na maior parte do tempo não tenha consciência do mundo que gira em torno dele. Em seu apartamento, onde recebe todos os cuidados e os carinhos que sua história merece e onde é abraçado pelos filhos e filha, por noras e netos, por toda a família, além de um grupo incrível de pessoas generosas, voltou a vestir a camisa do Grêmio, neste domingo.

 

Sentado na poltrona da sala, diante da televisão e com com seu corpo franzino e resiliente, fixou o olhar na tela e assistiu ao Gre-Nal. Foi como se tivesse reencontrado-se naquela realidade da qual foi um dos protagonistas através da crônica esportiva.

 

O pai vivenciou o futebol gaúcho com intensidade. Sempre esteve muito próximo do Grêmio, é lógico. Frequentava os corredores e bastidores do estádio Olímpico. Visitava o gramado durante os treinos. Era confidente de alguns treinadores e respeitado por todos os outros que passaram pelo clube. Diretoria e jogadores também o reverenciavam. Nos dias de jogos, recebia aplauso de torcedores a caminho do Olímpico, para onde seguia a pé, pois morou na vizinhança a maior parte da vida.

 

Nas muitas vezes em que fiz essa caminhada ao lado dele, ouvia gritos de “gol-gol-gol”, que ecoavam no Largo dos Campeões —- portão principal de acesso ao Olímpico. Eram admiradores que o saudavam repetindo o grito de gol que marcou sua carreira. Você deve imaginar como aquelas cenas me enchiam de orgulho.

 

Apesar de sua relação íntima com o Grêmio, tratava o adversário com muito respeito e em suas narrações fazia a voz vibrar e o torcedor se emocionar independentemente de quem fosse o gol. Foi dele um texto produzido pela rádio Guaíba de Porto Alegre e lido pelo narrador Pedro Carneiro Pereira, em homenagem a inauguração do Beira-Rio, em 1969. De tão belo e nobre ficou gravado em placa de bronze no estádio. Um texto escrito por um gremista que sabia reconhecer os méritos do adversário.

 

O pai sempre viveu neste mundo, como radialista, como cronista e como torcedor. E, na tarde deste domingo, deu sinais de que se reconectava à vida diante daquele espetáculo proporcionado pelas duas equipes.

 

Ao vê-lo em fotografia, tive a impressão de que havia voltado no tempo, quando ele descrevia com precisão cada lance de uma partida. Ou quando comemorava os gols gremistas ao meu lado nas cadeiras cativas, do Olímpico.

 

Mais do que isso: o pai estava com cara de moleque —- como a do guri que escapava das salas de aula do internato, que subia no telhado para ler os gibis proibidos, que fazia brilhar os metais da bicicleta que o acompanhava nas corridas pela 16 de Julho, no bairro São João.

 

O Gre-Nal aproximou o pai da realidade. E o clássico me proporcionou, mesmo sem gols, a alegria de uma vitória conquistada. Vitória que compartilho com o Christian e a Jacque, meus irmãos. E com você, caro e raro leitor desta Avalanche. Porque essa é uma vitória de vida. Daquelas de dar lágrimas nos olhos.

Avalanche Tricolor: de volta à Libertadores

 

Grêmio 3×1 Rosário Central
Libertadores – Arena Grêmio

 

Gremio x Rosario Central

Comemorando mais um gol, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

Vamos Grêmio tu és copeiro
E hoje temos que ganhar
Eu te sigo desde pequeno
Já não posso mais parar

Tu és a vida, tu és a paixão
O sentimento vai além da razão
E não importa se perder ou ganhar
O tempo inteiro eu vou te apoiar!

Cantar, cantar e cantar. É o que me resta neste resto de noite quando voltamos à Libertadores.

 

Driblamos os piores prognósticos com o talento de Everton, a elegância de Jean Pyerre e o poder de decisão de Leonardo Gomes. Tivemos Matheus Henrique, Maicon, Tardelli e André, também. E quando foi preciso lá estavam Paulo Victor, Geromel, Kannemann e Cortez.

 

Mais do que cada um deles, tivemos um time disposto a mostrar à América (e aos descrentes) que somos Imortais porque construímos essa história dentro de campo — na luta, na garra e, especialmente, no futebol muito bem jogado.

 

Uma história que acompanho desde que mal sabia assoviar os acordes de nosso hino. Porque, como diz o título da música que embala esta Avalanche, Grêmio “eu te sigo desde pequeno”. E confiarei sempre na tua redenção!

Avalanche Tricolor: uma goleada na minha ansiedade

 

Grêmio 3×0 São Luiz
Gaúcho — Arena Grêmio

 

Gremio x Sao Luiz

André comemora gol e me manda recado, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

No salão de embarque do aeroporto de Congonhas, escrevo esta Avalanche. Estou a caminho do Rio, onde apresento o Jornal da CBN, na segunda-feira. Esperei o jogo se encerrar para sair de casa, porque sabia que haveria tempo de chegar para o embarque sem correria.

 

Poucas coisas me incomodam ou geram ansiedade mais do que o relógio correndo enquanto se aproxima a hora da viagem. Deve ser coisa de outras vidas —- se é que você acredita nelas —-, já que não lembro de uma viagem perdida por me atrasar.

 

Tendo, porém, a imaginar que o trânsito estará mais complicado do que já costuma estar — mesmo com o advento do Waze penso em alguma intercorrência momentânea; imagino que a chegada em Congonhas será caótica —- e motivos não me faltam dada algumas trapalhadas feitas por quem gerencia o acesso de carro ao aeroporto; que o excesso de passageiros vai travar o setor de fiscalização e controle; e outros quetais preocupantes. Curiosamente, a única preocupação que deixo na mala é a da viagem de avião.

 

Independentemente de todas minhas ansiedades, estou aqui a espera do voo e em tempo de escrever esta Avalanche. Mas é que gosto de ter controle sobre as coisas — ao menos daquelas que posso ter controle.

 

Estava ansioso antes de a partida de hoje, também. Especialmente depois de três jogos sem gols e um tropeço frustrante no meio da semana, na Libertadores. Sabe como é que é. A gente tem a melhor campanha, está invicto, havia levado apenas um gol em toda a competição, é muito melhor do que o adversário … mas vai que dá errado. Sei lá, nosso chute bate no travessão, levamos o contra-ataque e no desvio do zagueiro colocamos fora a passagem à final.

 

Verdade que ao ver nossa equipe, a firmeza de nossa defesa, o talento dos volantes, a qualidade do toque de bola no meio de campo e a velocidade de nossos atacantes, fica difícil não confiar.

 

Sem contar que, ao lado do campo, tem Renato, sempre dedicado, chamando atenção de um jogador aqui, posicionando outro ali, pedindo marcação alta — é assim que se chama o que um dia já foi conhecido por “pega ratão”, né!? —, cobrando mais velocidade na troca de bola e aplaudindo a boa jogada.

 

Tudo isso é motivo para deixar nossa confiança em alta, mas vai que o domingo é um dia daqueles pra esquecer … haja ansiedade!

 

O primeiro gol veio antes de meia hora de jogo, após um lance de muito talento de Jean Pyerre que fazia fila entre os marcadores adversários e só foi parado após uma falta dura. Em vez de ficar se lamentando, Geromel cobrou com rapidez, pegou a defesa fora de posição e depois de a bola cruzar pela área, André fez a assistência para Alisson completar.

 

O gol era para dar tranquilidade a este torcedor ansioso, mas aí o locutor lembrou que o Gaúcho tem “gol qualificado” e, assim, após empatar fora de casa em zero a zero, um só golzinho do adversário nos tiraria da final. Caramba!

 

Foram necessários mais 13 minutos até marcarmos o segundo gol, em jogada na qual André teve todo o mérito, pois foi preciso ao driblar o zagueiro dentro da área e ágil ao bater de primeira. Correu para a torcida e com a mão direita fez um sinal que muita gente estranhou. Eu logo entendi. Mandava dizer para mim que agora estava tudo OK, pode ficar tranquilo porque já estamos na final — se não foi isso, foi assim que entendi.

 

O segundo tempo ainda nos daria um ou outro susto, mas nada que me tirasse da cadeira. A não ser o gol de Everton que voltou a marcar, logo cedo, aos 13 minutos. O passe de Jean Pyerre, enquanto Everton entrava na área, foi genial. Nosso atacante, ao seu estilo, cortou o marcador, limpou e chutou fora do alcance do goleiro. Na saída do campo, na entrevista, tenho certeza que mandou outro recado para mim: precisa controlar a ansiedade, disse ao explicar o tempo que ficou sem fazer gols.

 

Quando o Grêmio joga com essa supremacia não tem mesmo motivos para ficar ansioso. Que venha a final do Gaúcho! Que venha a Libertadores! Putz … já comecei a ficar ansioso de novo.

Avalanche Tricolor: se é “vida ou morte”, então é com a gente

 

Universidad Católica 1×0 Grêmio
Libertadores – Santiago do Chile

 

Gremio x Universidad Catolica

Kannemann,  o melhor do nosso time, é destaque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

A experiência em assistir, ao vivo,  à uma partida pelo Facebook começou muito mal — em todos os sentidos. Meus computadores da Apple me deixaram na mão.  A bola já estava rolando e em nenhum dos meus equipamentos, em nenhuma das minhas contas e em nenhum dos links que os amigos gremistas me enviaram fui capaz de ver o futebol gremista.

 

Cheguei a pensar que era uma conspiração das máquinas — logo elas que sempre haviam me tratado bem e oferecido facilidades para trabalhar e me divertir ao longo do tempo. Demorei para perceber que aqueles computadores estavam apenas querendo me alertar. Mandavam recados do tipo “não insista”, “hoje nada vai funcionar” ou “quem sabe quando a transmissão for pela televisão?”. Não entendi a mensagem. Insisti.

 

Busquei a salvação no Windows de um dos filhos. Mas quando descobri que ali estava a solução, já tínhamos quase meia hora de jogo. E, sim, o pior já havia acontecido. Não, minto. Pior mesmo foi ver o que vi na sequência. Já com a imagem tomando conta de todo o super-monitor que um dos meus guris joga seu games e disputa suas partidas virtuais, ficou muito claro que não seríamos capazes de sequer operar um milagre em campo, nesta noite de quinta-feira.

 

O atraso comum no sinal da internet — coisa de 30 segundos, não muito mais do que isso —, mesmo com uma banda larga de qualidade aqui em casa, refletia o atraso do futebol que apresentávamos. A bola chegava atrasada no pé do companheiro, o marcador chegava atrasado no atacante adversário, o passe saia para trás. 

 

Mesmo com a boa conexão que gerava uma imagem de qualidade, não fui capaz de ver o futebol gremista em campo, simplesmente porque o futebol gremista não se apresentou em campo, nesta terceira partida da Libertadores. 

 

Para ter ideia, a melhor notícia da noite foi saber que tanto nosso técnico  quanto nossos jogadores — e jamais desconfiei que agiriam diferente — saíram de campo conscientes de seus erros, em lugar de buscar desculpas naqueles elementos que geralmente os times que jogam mal se debruçam para justificar uma derrota. 

 

Foi ali, ainda ao lado do gramado, que ouvi de Everton a frase: “agora é vida ou morte”. Como sou um eterno torcedor e otimista, voltei ao meu Apple, abri a calculadora, fiz as projeções, somei três pontos aqui, mais três ali, menos três do adversário acolá, e cheguei a conclusão de que está muito difícil mas ainda temos chance nesta Libertadores. 

 

Até porque, caro e raro leitor desta Avalanche, se “agora é vida ou morte”, chegou a nossa hora. Que venham os próximos compromissos, mas , por favor, que sejam só na televisão, porque esse negócio de Facebook dá um baita azar.