Avalanche Tricolor: de experiência, esperanças e fracassos

Inter 1×0 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

Kannemann em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Das boas coisas que o tempo nos oferece, a experiência é uma delas, a despeito de saber que essa também é feita da intensidade com que se vive as coisas — senão, como explicar jovens capazes de transformar o mundo como temos vistos recentemente.  No que se refere ao tema de sempre desta coluna,  sou muito experiente — e não escrevo isso para me gabar, apenas para constatar que de Grêmio já vivi muito e intensamente. Sofri como a maioria de vocês, nascidos nestes anos de 2000, nunca sofreram. Chorei na arquibancada, ao lado do gramado e dentro do vestiário, abraçado a meus ídolos. Chorei de dor e de amor. Vivenciei a escassez e a abundância de títulos — sequências que nos ensinam que nada daquilo que experimentamos no momento será eterno (vai passar!). 

Derrotas em clássicos sempre ocorreram. E em uma quantidade inimaginável para os tempos atuais. O que assistíamos até recentemente beirava o ineditismo, chegava ao limiar do impossível, a medida que falamos de uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro. Há quem diga que é a maior. Humilde, como os gaúchos devem ser, a coloco entre as maiores do futebol mundial. Portanto, não surpreende a turma do lado de lá ter dado volta olímpica, desfraldado bandeira, tocado tambor e até feito pose de foto do título(?). Das galhofas com símbolo adversário, prefiro não comentar. Me falta isenção. 

E por isento que não sou, uso a experiência em situações como essa. Em lugar de iniciar meu texto assim que o árbitro encerrou a partida e os jogadores ainda se engalfinhavam no gramado, preferi contemplar o cenário com um copo de vinho em mãos. Ao mesmo tempo que o álcool percorria meu corpo e ascendia ao sistema límbico, atingindo meu senso crítico, meu sangue corria menos quente entre as veias e esfriava meu ânimo. Nesse jogo de compensações que a biologia humana disputa em situações como essa, meu desejo de dizer algumas “verdades” arrefeceu – sim, entre aspas, porque a verdade a que me refiro tem a ver com a reação que costumamos expressar quando a razão se cala e a emoção exacerba, geralmente traduzida em ataques desnecessários, palavras deseducadas, e injustiças. Embevecido – ou seria embebido – preferi a cama às palavras. Deixei para escrever essa Avalanche em momento mais oportuno.

Que bela decisão tomei – pensa o humilde escrevinhador cá com as listras tricolores da sua camisa.

Hoje cedo, quando ninguém ainda estava acordado em casa, deparei com a crônica do colunista de esporte dominical de O Globo, Marcelo Barreto, que tinha como cena de fundo o clássico carioca Botafogo e Vasco, e protagonista, um torcedor vascaíno, desses que se apresentam como “doentes”, apesar de já dar sinais de consciência. O time carioca caiu quatro vezes para a Série B e a possibilidade de permanecer por lá ano que vem chega a ser maior do que a nossa de cair, nesta altura da competição. Ou seja, o clássico de hoje deve ser determinante em diversos aspectos.

Marcelo descreve as reações do amigo vascaíno que fez de sua paixão, resignação — a medida que a idade avançava. Hoje, com o coração endurecido no tempo e na intensidade, não impõe mais medo nos amigos, que temiam atos extremos e vida colocada em risco como resposta às frustrações em campo. O cronista diz que “meu amigo aprendeu a esperar. E ainda não perdeu a esperança. Mas está a um passo de normalizar o fracasso.” As duas primeiras frases guardarei como lição nesta tristeza que me abate; a última, lutarei até o fim para não me dominar. Porque se tem algo com que não devemos jamais nos contentar é com o fracasso, sob o risco de perdemos o título que realmente conta na nossa história: o da imortalidade.

Avalanche Tricolor: um pecado

Atlético MG 2×1 Grêmio

Brasileiro – Mineirão, Belo Horizonte/MG

Campaz comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Um pecado” falou Rafinha em entrevista ainda ao lado do gramado em que o Grêmio acabara de fazer uma de suas melhores partidas neste campeonato. Foi como o lateral gremista definiu o que aconteceu nesta noite em que enfrentamos o líder e virtual campeão do Brasileiro, um estádio estupidamente (no pior sentido da palavra) lotado — a despeito da pandemia que ainda vivenciamos — e a saga de azar que a temporada 2021 nos reserva.

Um pecado Borja perder o gol ainda no início do jogo em contra-ataque que parou no poste adversário. Um pecado saber que o gol que ele marcou na sequência foi anulado por um traço milimétrico e digital do VAR. O mesmo serviço auxiliar do árbitro que foi atento em ver irregularidade de Campaz ao se proteger de uma bola na barreira, mas foi incapaz de identificar a irregularidade na posição do jogador adversário que não respeitou o metro de distância da mesma barreira. Um pecado Chapecó ser tão preciso no lado em que saltou para defender o pênalti mas nem isso ter sido suficiente para alcançar a bola. 

O gol que não entra, o pênalti que é marcado, o gol que não evitamos … os pecados que o Grêmio está pagando por erros que não estão à altura da punição que recebemos. Até quando? Não sei. A noite de hoje, nos sinalizou mudanças de postura e de performance, que se reproduzidas nas demais partidas pode nos tirar deste sufoco que enfrentamos. 

É só não cometermos novos pecados … 

Avalanche Tricolor: que vergonha!

Grêmio 1×3 Palmeiras

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Geromel em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A tabela de classificação já não era favorável na noite de sábado, quando sentei diante do computador para planejar o domingo futebolístico. Confesso que, pela primeira vez, o abatimento se expressou no coração deste torcedor (quase) sempre crente nas conquistas impossíveis do tricolor. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche sabe da minha tese — diante do desespero que assistimos nesta temporada — de que estamos disputando uma Batalha dos Aflitos estendida, em que os aflitos somos nós próprios. E haveremos de vencer, mesmo que tudo aponte no sentido contrário.

O que era ruim, pior ficou.

Tomamos uma virada ainda no primeiro tempo, o VAR apitou mais do que o árbitro – acertou nos dois lances cruciais, registre-se – e o azar deu às mãos à intranquilidade e passeou pelo gramado da Arena. Com cada vez menos rodada para se recuperar e a dificuldade de o treinador e o time enxergarem soluções a curto prazo, a esperança de uma reviravolta se esvaía.

Foi, então, que, ao fim da partida, ouvi as palavras de Geromel, que voltou ao time dois meses depois de se recuperar de uma lesão no pé e fez um jogo quase impecável, a despeito da falta de ritmo:  

“Temos de trabalhar. Não podemos desistir. Só juntos sairemos desta situação. Sabemos que é uma situação incomoda. Faltam 11 jogos e precisamos de seis vitórias. Temos que sair desta situação”. 

A afirmação de nosso zagueiro e capitão mexeu com meu ânimo. Tudo que estava prestes a desmoronar, me pareceu novamente possível — ao alcance de um time que,  com um chacoalhão e a inclusão dos jovens que deram mais ritmo no segundo tempo, se revelará imortal, como dito em seu hino e história. Estava prestes a levantar do sofá, sacudir a poeira e fazer minha reverência à camisa autografada por Geromel que está estendida em um quadro no memorial que mantenho em casa. Mas as cenas que vieram em seguida, me abateram de vez. 

Os alucinados torcedores invadindo o gramado da Arena, quebrando o que viam pela frente, vandalizando o VAR e correndo como baratas tontas (e covardes) me levaram ao fatídico ano de 2004 quando fomos rebaixados. Uma época em que o clube estava destruído, ao contrário de hoje; tínhamos um time muito inferior ao atual; e a sequência de violência nas arquibancadas do Olímpico nos tirou o direito de jogar em casa e com torcida quando mais precisávamos deste apoio. Uma atitude que praticamente definiu nosso destino.

Os torcedores que assim agiram neste fim de domingo, em Porto Alegre, me fazem sentir muito mais vergonha do que o rebaixamento que nos ameaça de forma mais intensa a cada fim de rodada. 

Avalanche Tricolor: sofrer é preciso e acreditar é nosso delírio

Atlético Goianense 2×0 Grêmio

Brasileiro – Castelo do Dragão, Goiania/GO

Kannemann em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“A única certeza, pai, é que, esteja onde estiver, estarei torcendo pelo Grêmio”. 

Foi o que me disse, em tom de consolo, ao fim de mais uma derrota, o filho mais velho, que, nesta segunda (toc-toc-toc), completou 25 anos de vida. Gregório forjou-se gremista na insistência do pai, na Batalha dos Aflitos, nas Copas conquistadas, nas goleadas sofridas, nas imagens do passado e nas histórias contadas pelo avô.

Por mais gremista que seja, tenho sempre a impressão de que se senta ao meu lado para assistir aos jogos por solidariedade. A despeito do que esteja acontecendo, segue firme nesta missão de acompanhar o pai. Pode ser no cimento do Canindé, aqui em São Paulo, no calor de Humaitá, lá em Porto Alegre, ou nas cadeiras do Zayed Sports City, em Abu Dhabi. Esteve quase sempre comigo – quando não pode, pediu desculpas, como se isso fosse necessário.

Ao certificar-me de seu pensamento, imagino, é como se ele quisesse me dizer que, aconteça o que acontecer, eu não ficarei sozinho. Terei um companheiro para segurar na mão e a me oferecer o ombro, se for o caso de chorar – razões não faltam. Uma forma de amenizar a tristeza que assistir ao Grêmio em campo tem nos causado nesta temporada — exceção a um ou outro lampejo, e ao campeonato gaúcho, onde seremos hegemônico enquanto nossa hegemonia durar.

Há duas ou três rodadas, Gregório tem ensaiado esse discurso. E mesmo que faltem apenas 12 para encerrar o campeonato, não pense — caro e raro leitor desta Avalanche — que ele jogou a toalha. Isso nunca acontecerá porque sabe que sofrer é preciso, e acreditar é o nosso delírio. Está sintonizando com a ilusão que construi recentemente de que estamos fadados a disputar, neste fim de ano, uma espécie de batalha dos Aflitos estendida. 

Queria ter podido lhe dar essa vitória de presente. Mas, infelizmente, isso estava fora do meu controle e, pelo que assistimos, do nosso time, também. Consola-me saber que lhe dei um legado maior do que os três pontos que poderíamos ter conquistado nesta noite. O legado de ser um gremista de verdade — como revela a crença que expôs ao fim do jogo.

Avalanche Tricolor: “esse amor descontrolado, nunca vou deixar de lado”

Grêmio 3×2 Juventude

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Comemoração gremista em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Sentei à mesa com a família. Aquela pizza da casa, antecedida por um pãozinho quente com salsicha me esperava neste jantar de domingo. Tudo isso, regado a vinho — muito vinho. Não tenho pressa em beber, em comer e em dormir. Amanhã é segunda, mas estou de férias. Acordo quando der —- verdade que o corpo costuma pedir para sair da cama ainda de madrugada, impulsionado pelo hábito. Acordo se quiser. Tenho tempo para saborear as horas, o dia, e os prazeres que este me oferece.

Neste domingo, o prazer que senti foi o de uma vitória —- raro nos últimos tempos. Recheada de emoção, provocada por uma torcida que se fez presente em peso —- ou com o peso que lhe foi permitido, já que ainda estamos sobre restrições sanitárias. A cantoria das arquibancadas me encheu de esperança e, parece, contaminou o ânimo dos jogadores em campo, como se não bastasse estarem sob novo comando. 

Emocionei-me ao ouvir a cantoria que marcou nossa história. Que de tão intensa e genuína levou Guilherme Vilani, narrador da SportTV, a retransmiti-la como se fizesse coro com o nosso torcedor. 

“Esse amor descontrolado

Nunca vou deixar de lado

Sempre junto ao Tricolor

Eu te sigo aonde for

Com meu trapo e a bandeira

Venho pela camiseta

Hoje de qualquer maneira

Nós temos que ganhar”

Já não lembro se cantamos ‘Amor descontrolado’ tantas foram as letras entoadas pelo torcedor. Se não o fizemos, poderíamos ter feito, porque só ganhar nos interessava neste fim de tarde domingueiro. 

Uma vitória que passou pelos pés do sempre renegado Alisson, que já havia tentado um gol de calcanhar pouco antes de fazer a bola explodir no travessão e voltar para a cabeça de Douglas Costa. O mesmo Alisson que balançou na frente da área, deslocou os zagueiros e chutou forte, provocando o rebote do goleiro, aproveitado, com precisão, por Diego Souza.  

O baixinho e cabeçudo atacante gremista talvez seja a imagem do Grêmio atual. Nunca será reconhecido por seu talento, mas jamais poderá ser acusado de ter desistido. No último ponto que havíamos conquistado, foram deles os gols que nos levaram ao empate. Hoje, foram deles as assistências que nos deram a vitória. É, como dizem os entendidos do futebol, o principal ‘garçom’ do time gremista. Serve a seus colegas no ataque, serve ao time na defesa e serve a mim pela determinação que nunca nos negou —- mesmo diante de todas as críticas.

Sei que nada está resolvido, muito antes pelo contrário. A ‘Batalha dos Aflitos’ que enfrentamos nesta Série A teve apenas mais um capítulo. Insuficiente pra nos tirar do sufoco da zona-você-sabe-qual, mas necessária para quem acreditará até o fim, mesmo depois que decretarem a nossa morte — porque somos Imortal.

O jantar de domingo, o pão com salsicha, os pedaços de pizza e a garrafa de vinho — ao lado da família —-,  tiveram sabor especial nesta noite. O sabor da esperança “de que este amor descontrolado (que) nunca vou deixar de lado” haverá de me devolver a alegria de ser torcedor do Grêmio.

Avalanche Tricolor: chora, Brenno!

Santos 1×0 Grêmio

Brasileiro – Vila Belmiro, Santos/SP

Imagem reproduzida da SportTV

“Choro quando estou triste,

Lágrimas que queimam, mas que aliviam”

Brenno foi gigante enquanto pode. Defendeu as bolas quase impossíveis.  Uma a meia distância, com força e velocidade —- daquelas que o atacante comemora antes de ver a rede estufar. Outra no ângulo, em cobrança de falta perfeita que se fez imperfeita diante da perfeição de sua defesa. Despachou o perigo toda vez que este rondou nossa goleira. Sofreu no corpo o tranco adversário. Despencou das alturas e sentiu nos braços o choque violento com o gramado. 

Houve ao menos dois momentos em que parecia batido: foi quando sua áurea se estendeu além do corpo para impedir que a bola entrasse na cidadela — a fez desviar no poste ou impulsou seu zagueiro a tirar de cabeça. De tanto se fazer grande, Brenno transferiu aos atacantes o peso da responsabilidade de terem de ser maiores do que eles próprios eram capazes. Os fez pensar duas, três vezes antes de arriscarem o chute.

Apesar de fazer de tudo, Brenno não pode tudo. Por isso foi às lágrimas ao fim de tudo. Lágrimas de tristeza. De frustração. De indignação. Da injustiça de se ver batido na imprevisibilidade de uma bola desviada do seu rumo. 

Foi ao assistir às lágrimas de nosso jovem goleiro, que me veio a mente trecho de poesia que havia lido, nesta semana, quase por acaso, como foi o gol adversário. Por contraditório que seja, estava em busca de autores que definissem o poder das lágrimas provocadas por uma alegria. Encontrei Regiane Folter, outra jovem talentosa em sua arte da escrita, autora paulistana temporariamente erradicada no Uruguai —- ali onde se chega cruzando pelo Rio Grande do Sul. Na poesia de Regiane, agora, encontrei consolo para quem como Brenno — e eu — choramos diante da frustração:

“Choro quando estou frustrada,

Quando as coisas não saem e tudo parece perdido.

Cada gota que escapa leva um pouco de estresse acumulado,

E deixa espaço pro descanso tão necessário antes de recomeçar.”

Chora, Brenno! Amanhã tudo recomeça e vamos precisar de você gigante mais uma vez.

Leia a poesia “Choro para ser” de Regiane Folter

Avalanche Tricolor: vamos reviver a Batalha dos Aflitos

Grêmio 2×2 Cuiabá

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Alisson revive Aílton em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A Avalanche criada para ser o espaço em que expressava minha paixão tricolor enquanto o coração ainda pulsava intensamente pelas conquistas e sofrimentos alcançados nos gramados transforma-se em campo de previsões e expectativas — ao menos nesses tempos em que jogos sofridos e sofríveis se encerram tarde da noite, e a mim cabe madrugar para trabalhar.

Sem negar a origem desta coluna digital, que mantenho desde a primeira década deste século, olho adiante ainda impactado pelas cenas assistidas na noite de quarta-feira. Dos gols que tomamos em lances fortuitos aos que marcamos em meio a indignação pelo que estamos enfrentando, forjei uma esperança e desenhei uma jornada que talvez nada tenha de épica, mas que me mantém na crença de que seremos capazes de superar nossos limites, nossa mediocridades e nossas fraquezas.

Ao ver os acontecimentos da partida contra o estreante da série A que jamais venceu da gente, em lugar do desespero que encontrei atrás da máscara — daqueles que a mantiveram — de torcedores que foram à Arena, vislumbrei um horizonte azul, preto e branco, daqueles típicos dos nossos feitos.

Há quatro jogos, ouço comentaristas e amigos alardeando que se vencermos estaremos fora daquela zona-que-você-sabe-qual-é. Apesar das expectativas, é lá que nos mantemos na 24a rodada de um campeonato que tem 38 para serem disputadas. A despeito de tudo isso, consegui enxergar em cada um dos gols marcados pelo pequeno gigante Alisson e sua comemoração irada —- que me lembrou Ailton na final do Brasileiro de 1996 — sinais de que algo surpreendente está para acontecer a partir de agora. 

A cada jogo jogado, derrota somada, empate sofrido e vitória escasseada aumenta o contigente de avalistas da desgraça alheia. Uma turma que —- com a razão da performance e dos pontos desperdiçados —- vê aumentada sua descrença de que seremos capazes de sair da situação que estamos e sua expectativa de que aquela divisão-que-você-sabe-qual-é será nosso destino. 

A forma como o time se pronunciou no segundo tempo da partida de quarta, o sofrimento no rosto de cada um daqueles que estavam em campo vestindo nossa camisa tricolor e, claro, os gols e a determinação de Alisson me encheram de inexplicável esperança. Me fizeram entender de que estamos prestes a assistir à mais uma Batalha dos Aflitos. Uma batalha estendida  que não se resumirá a um jogo; a um pênalti salvo pelo goleiro ou desperdiçado pelo atacante; a sequência de expulsões que nos agigantou; ou a um gol improvável. 

Estamos diante de uma aflita batalha que será disputada até o apito final no minuto final, do jogo final deste campeonato. Que nos dará o prazer efêmero de nos mantermos na primeira divisão e a oportunidade de recomeçar uma nova e vitoriosa jornada em 2022.

Avalanche Tricolor: em livro sobre as “Poderosas do Foz”, jornalista dá ponte pé inicial para desvendar a história do futebol feminino no Brasil

Grêmio 0x2 Sport

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

Quem me lê nesta Avalanche — e são cada vez mais caros e raros —- sabe que a dedico ao meu tricolor de coração. E a publico poucas horas após o árbitro trilar o apito final. Como tudo está fora da ordem, da vida ao meu time de futebol preferido, abandonei meus compromissos com o leitor e com a coluna depois do resultado de domingo  passado. Não significa que abdiquei da minha paixão, porque esta é eterna, o que me faz acreditar mesmo no inacreditável —- o que não é o caso, ainda. Já havia desistido de escrevê-la pelo tempo passado e o desconforto com o tema. Foi então que “o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma cartão na mão”, como bem escreveu em Letras, Maria Bethânia.

No pacote que abri ansioso, sem saber o que me aguardava, encontrei livro, camisa e copos alusivos ao trabalho do colega de profissão e companheiro de Twitter, Bruno Zanette, com quem compartilho alguns amores. Nascido e vivido em Foz do Iguaçu, adora rádio e futebol, a assim como eu. Nos últimos tempos, dedicou-se a registrar os momentos vividos por um time que fez história no futebol feminino: o Foz Cataratas FC, campeão da Copa do Brasil, em 2011. 

Azul como meu Grêmio, mas bicolor por nascença, o Foz surgiu em 2010, estreou às vésperas do Dia Internacional da Mulher e foi vice-campeão da Copa do Brasil naquele ano.

A derrota na final para o Duque de Caxias (RJ) foi marcada por polêmica de arbitragem, expulsão, discussão e gás de pimenta. A despeito de justiça ter sido feita ou não, foi aquele jogo que forjou o caráter e a personalidade do time que conquistaria o Brasil no ano seguinte.

Bruno, que era repórter de campo e torcedor do Foz —- não necessariamente nesta ordem —- registra a história no livro “O ano em que o Foz Cataratas conquistou o Brasil”, publicado graças a sua coragem e talento —- características que também fazem parte do roteiro das ‘Poderosas do Foz’, como as meninas que jogavam na tríplice fronteira eram conhecidas. Da mesma forma que elas, o autor também contou com a torcida de apoiadores que aceitaram financiar a ideia de registrar um dos capítulos do futebol feminino, no Brasil.

Eis aí, entre tantos, o maior mérito deste trabalho realizado pelo Bruno. Como escreve a jornalista Patrícia Zeni, na apresentação do livro, “a história do futebol feminino ainda está escondida” e Bruno dá o ponta pé inicial para torná-la pública. Faz trabalho bem feito, com precisão, apuro e emoção —- similar ao que aquelas jogadoras aprestaram em campo quando desafiadas por suas adversárias.

Os feitos das “Poderosas” deixo para que o próprio Bruno conte. Ele tem autoridade no assunto e foi testemunha ocular daquela conquista que fez “a alegria das arquibancadas, com jogadas imortais de craques”—- como eternizado no hino do clube. De minha parte fica o convite para que você conheça e apoie o trabalho dele, inspirando outros jornalistas a contarem em livro a história do futebol feminino no Brasil.  E, também, deixo meu agradecimento ao autor que, ao me proporcionar a leitura destes feitos, ameniza a frustração dos resultados do meu time de coração.

Ps: aos leitores recém-chegados, explico: a Avalanche Tricolor registra resultados, jogo após jogo, alcançados pelo Grêmio, sem que, necessariamente, eu tenha o compromisso de escrever sobre eles, especialmente quando meu time nada faz por merecer.

Avalanche Tricolor: uma dose extra de paciência

Athletico 4×2 Grêmio

Brasileiro – Arena da Baixada, Curitiba-PR

Vanderson em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Nesta semana, a família concluiu seu segundo ciclo de vacinação contra a Covid-19. Mulher e filhos, além deste que lhe escreve: todos já estão com a segunda dose no braço. Dá um certo alívio, passado um ano e oito meses desde o início dessa desgraça que nos abateu. Lembro que no começo muitos imaginavam que tudo se resolveria rapidamente. Alguns falavam em duas semanas para voltarmos ao normal —- seja lá o que isso signifique. Apostei em ao menos dois meses, quando cheguei em casa no dia em que iniciamos a quarentena, em 20 de março do ano passado. Alertei a turma de que seria um período complicado, mas valeria a pena a reclusão.

Se o prazo final da pandemia estendeu-se muito mais do que a expectativa, a boa notícia foi saber que o prazo de conclusão das primeiras vacinas se encurtou bem mais do que todos acreditavam. No segundo semestre do ano passado, já surgiam os primeiros resultados. E no início de dezembro de 2020, havia países vacinando seus cidadãos —- o Brasil, lamentavelmente, demorou mais e permitiu que muita gente fosse embora antes da hora, apesar de a existência de uma vacina capaz de reduzir os riscos de contaminação grave, internação e morte.

Desde janeiro, quando a vacina começou a circular por aqui a ansiedade para que o processo se acelerasse foi enorme. Comemorava-se cada pessoa conhecida que tivesse sido imunizada. A agulha no braço era mais do que uma vitória individual. Era coletiva. Como se todos estivessem sendo protegidos. Aliás, todos estão sendo protegidos quando uma pessoa se vacina. Se aprendemos alguma coisa ao longo deste tempo, é que a busca da imunidade possível é uma responsabilidade ética que assumimos quando decidimos viver em comunidade —- lamento muito por aqueles que insistem no contrário e seguem com sua visão mesquinha e assassina.

Pela idade, minha mulher e eu tomamos a primeira dose antes dos filhos. No meio do caminho, o vírus me pegou, mas a proteção foi suficiente para não me abater. Viva a ciência! Os três meses de espera para a segunda dose foram intermináveis, mas chegaram com a devida celebração. Os meninos tiveram ainda mais sorte. Primeiro, porque foram contemplados com o que aqui em São Paulo chamados de xepa —- aquelas doses remanescentes que precisam ser aplicadas depois de abertas para evitar o desperdício. Segundo, porque em lugar de 12 semanas puderam tomar a segunda dose em apenas oito, graças a redução do tempo proposta pelo Governo de São Paulo.  

Este foi o primeiro fim de semana que passamos juntos com a certeza de que se a ciência cumpriu o seu papel, nós, como cidadãos, cumprimos o nosso. Não temos a ilusão de que estamos livres do vírus. Sabemos que é preciso seguir com as medidas de proteção, em especial com o uso da máscara. Não dá para baixar a guarda. Apesar disso, nos demos o direito de comemorar essa vitória.

O mesmo não posso dizer do meu Grêmio que no fim da tarde deste domingo desperdiçou mais uma oportunidade para sair da zona de … “você-sabe-qual”. Apostei que na primeira rodada do returno já estaríamos livre desse martírio futebolístico e percebo que estou sendo precipitado. Diante do que assisti em Curitiba talvez seja prudente tomar uma terceira, quem sabe, uma quarta dose da vacina da paciência.

Avalanche Tricolor: porque foi assim que aprendi a ti gostar

Flamengo 2×0 Grêmio

Copa do Brasil – Maracanã, RJ/RJ

Kannemann em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Sou gremista, não por agora. Sou gremista de nascença. Quem já conversou comigo, leu minhas palavras ou ouviu minhas conversas sabe muito sobre isso. E se começo a Avalanche reforçando essa ideia é porque muitos devem imaginar que momentos como esse que estamos enfrentando são suficientes para nos afastar daquilo que aprendemos a gostar. Quem viveu o que vivemos, não esmorece. Não se micha como dizem lá pelas nossas bandas. 

Na noite de ontem, mesmo diante do desastre da primeira partida, do time alternativo levado a campo, das carências de qualidade e talento, do poder financeiro e político do adversário —- que teve o privilégio de levar torcedores para o estádio e esfregar na nossa cara, sem máscara, o desrespeito aos quase 590 mil mortos por Covid-19  — , lá estava eu na torcida mais uma vez. Porque é assim que nos tornamos gremistas. Acreditando sempre, mesmo que não haja por que acreditar.

Posso lhe garantir, já foi pior. Muito pior. E se você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, for gremista como eu, sabe do que estou falando. Hoje, sofremos mais porque ficamos mal acostumados com a performance, resultados e títulos dos últimos anos. Tivemos um time de excelência e de futebol exuberante poucas temporadas atrás. E quando olhamos em campo, ainda vemos alguns resquícios desse passado recente: alguns cambaleando e outros apenas como um desenho mal esboçado do que foram. Tem até mesmo talentos em potencial, que não conseguem se expressar.

Nada disso … nem a bola mal tratada, nem a gestão mal acabada, nem as derrotas acumuladas, … nada disso me demove do desejo de torcer pelo meu Grêmio. De acreditar no meu Grêmio. De sofrer desta paixão. Por isso, a despeito do que esteja acontecendo, do que aconteceu na noite desta quarta e do que acontecerá em seguida, cá estou a ratificar este amor e a desejar-lhe um feliz aniversário, Grêmio!