Thaciano comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
“Nem sempre ganhando nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar” —- cantava Elis Regina, gremista de nascença, em uma de suas letras mais conhecidas. Nem sei bem porque, mas lembrei-me da música assim que sentei para escrever esta Avalanche de um jogo que fui impedido de assistir na televisão. É inacreditável que com a quantidade de plataformas que temos à disposição, ainda existam partidas de futebol profissional disputadas às cegas, no Brasil.
Hoje, no fim da tarde de domingo, ganhamos uma partida que, contaram os narradores e comentaristas do rádio, não teve muitas emoções. Alguns poucos lances de ataque, arriscadas de Ferreirinha pela lateral em dribles com a bola colada no pé, um chute colocado de Jean Pyerre, e a força de Churín e Thaciano, que juntos protagonizaram o único gol da partida já no segundo tempo. Foi o suficiente para marcarmos mais três pontos na tabela de classificação e nos levar de volta a Libertadores.
Por linhas tortas minha memória me remeteu a voz de Elis, imagino, porque mesmo como um campanha capenga o Grêmio alcançou mais uma marca na sua história: garantiu presença pela sexta vez consecutiva na competição. É a vigésima-primeira vez que disputará a Libertadores — só mais dois times brasileiros estiveram tantas vezes por lá —, a qual vencemos em três oportunidades, a última em 2017. Nesta temporada, que ainda não se encerrou, botamos o pé na Libertadores com uma sequência monótona de empates, 17 até aqui. Ou seja “nem sempre ganhando nem sempre vencendo, mas aprendendo a jogar”, como cantava Elis.
É por saber jogar e decidir que, mesmo diante de performances distantes do que nos acostumamos a ver nos anos anteriores, estamos na Libertadores de novo e ainda confiamos que Renato será capaz de reorganizar o time para o último desafio que temos neste ano de 2020, que teima em permanecer entre nós: a Copa do Brasil.
Diego Souza comemora seu 28º gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Eita aninho mala esse que não termina! A gente está encerrando a primeira quinzena de fevereiro de 2021 e 2020 ainda não foi embora. Sem contar este Carnaval sem graça. Que me perdoem os caros e ainda mais raros leitores foliões desta Avalanche: essa história de festa em laive —- como escreve meu cronista Artur Xexeo —- é pra folião dormir, né. Vestir uma fantasia, levantar o som do notebook, jogar confete, gliter e serpentina para o alto e dar seus pulinhos na sala de casa, é muito sem graça. Não que eu seja desses que curte ir para a avenida, desfilar no bloquinho ou assistir à desfile na televisão. Mas gosto de saber que as pessoas reservam essa data para extrapolar e se divertir. E fico triste ao ver que a turma este ano teve de conter a folia.
No futebol, a coisa também não está das melhores. Exceção àquele campeonato estadual lá no início de 2020, o resto foi uma sequência de frustrações. Até vimos momentos de esperança, mas a frequência com que empatamos ou desperdiçamos pontos nos fez patinar no Campeonato Brasileiro e nos eliminou na Libertadores. Que a Copa do Brasil reverta essa expectativa!
Das pouca diversões que o futebol me ofereceu neste ano interminável, foi saber que o filho do meu querido amigo Luiz Gustavo Medina é fã de Diego Souza —- vista qual camisa esteja vestindo. Foi daí que surgiu minha ideia: a cada gol marcado por nosso atacante, fotografo a comemoração da tela da TV e envio a imagem pelo WhatsApp para o Teco. Até esta noite, foram 28 fotos enviadas —- poucos centroavantes seriam capazes de me proporcionar tantas imagens em um só ano. Pena que não basta um Diego Souza no time para resolver todos os nossos problemas. E ainda bem que o Teco se conteve e não me retribuiu com uma foto do Luciano.
Matheus comemora o 5º gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Fizemos 5 gols. Tomamos 2. Fizemos de bola tocada, de bola colocada e de falta cobrada. Teve gol de Churín. Gol de pênalti. Gol de Jean Pyerre. De falta. Teve o primeiro do Alisson. E os dois últimos do Matheus Henrique. Do último, tiro inspiração para esta crônica.
Já com a braçadeira de capitão —- legado de Maicon que havia saído mais cedo —-, nosso camisa 7 marcou o quarto gol gremista depois de uma assistência de Isaque, aos 27 do segundo tempo. Da entrada da área e com a defesa no meio do caminho, encontrou um espaço para colocar a bola com classe na rede adversária. Foi um gol importante porque pouco antes havíamos levado o primeiro e, apesar de ainda estar 3 a 1, a saga de empates que marcou nossa jornada na temporada voltava a fazer sombra.
Se no primeiro que fez a comemoração foi tímida, no segundo, Matheus revelou o peso que estava sobre os seus ombros —— o mesmo que pesa nos ombros de toda a equipe. Aos 32, após mais uma assistência de Isaque, desta vez de calcanhar, Matheus entrou na área conduzindo a bola até encontrar o gol. Na festa, fez aquele movimento com as mãos sobre o próprio corpo que, em bom português, significa: “xô, zica!”
Zica tem diversos significados aqui no Brasil.
É nome do vírus que nos assustou anos antes da Covid-19. É como, em alguns estados, descrevemos jovens descolados, com estilo próprio, que têm a capacidade de fazer coisas que fogem do nosso comum. Matheusinho —- é assim que locutores de futebol gostam de chamá-lo para revelarem uma intimidade inexistente —- pode ser considerado um moleque zica ou um guri zica, apesar de a gíria não ser própria do Rio Grande. Naquele momento do gol, do seu segundo gol, a zica que Matheus queria afastar nem era uma nem era outra. Era a zica que vem acompanhada pelo azar, pelos lances de infortúnios, pelo tanto de coisa ruim que se acumula em um determinado momento de nossa vida.
O quinto gol gremista definiu o placar e encerrou uma interminável trajetória sem vitórias neste ano de 2021. Já passava de um mês desde a última conquista, em 6 de janeiro. De lá para cá, além de resultados doloridos e pênaltis esquisitos, tivemos um amontoado de empates que nos fizeram patinar na subida ao topo da tabela do Brasileiro, momentos depois de uma arrancada que chegou a nos dar alguma esperança.
A despeito da capacidade do adversário, tão abatido quanto rebaixado, que os gols de Alisson, de Jean Pyerre, de Churín, de Matheus Henrique, de pênalti, de falta, de bola passada e bola colocada, nesta noite de segunda-feira, sejam os gols que nos livraram da zika que carregamos nesta ano e marquem a virada de expectativas para as três rodadas finais do Brasileiro —- que ainda podem nos devolver, pela porta da frente, a Libertadores —- e nas duas partidas finais da Copa do Brasil.
Pepê volta a marcar, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Diego Souza marcou seu gol. O Grêmio tomou os seus. Tantos quantos eram suficientes para alcançar o décimo-sétimo empate no Campeonato Brasileiro e a sétima partida sem vitória. De tantos jogos empatados, podemos até separá-los por categorias: o merecido, o conquistado, o enjoado , o irritante …. o de hoje está na categoria do injustiçado.
Pela primeira vez neste ano vi a bola ser tocada de pé em pé desde o primeiro minuto de jogo. Bola que era passada na mesma velocidade com que nossos jogadores se deslocavam para recebê-la.
Foi assim no primeiro minuto de partida quando desperdiçamos o primeiro lance de gol. Foi assim especialmente no início do segundo tempo quando ampliamos o placar com mais dois gols de videogame. É como a gurizada se refere a esses lances em que a precisão do passe e do movimento é tal que só pode ter sido projetada em computador. Ledo engano. Lances assim são frutos da genialidade, só possível se protagonizados por seres humanos, craques humanos.
Que saudade que eu estava de assistir ao Grêmio jogando bonito. De Jean Pyerre passando no espaço infinito. De Pepê aproveitando-se da velocidade para surpreender o adversário. De Diego Souza concluindo a gol —- ops, sejamos justos com nosso goleador, ele tem entregue o que prometeu e chegou hoje a marca de 12 gols no Brasileiro e 27 na temporada. É a mais grata surpresa de 2020, um ano que ainda não acabou.
Fazia tempo que o Grêmio não jogava bem. E, por isso, o empate desta quarta-feira à tarde já mereceria seu registro na categoria dos injustos. Infelizmente, outros elementos surgiram para que essa sensação se expressasse em indignação. A marcação de dois pênaltis —- um em que Matheus Henrique foi forçado por trás e o outro em que a regra do pênalti foi esquecida pelo árbitro e seus amigos do VAR (copio a seguir o texto para quem tiver dúvidas) — e a falta de avaliação no lance do primeiro gol do adversário foram revoltantes, no factual e no contexto.
Sim, no jogo determinaram o resultado e no campeonato se somaram a uma série de decisões sem critério que tiveram seu ápice naquela partida que perdemos para você-sabe-quem, após um pênalti não sinalizado contra nós e outro, polêmico, marcado para eles. Uma sequência de erros e incoerências que não será suficiente para encobrir a queda de rendimento de um time acostumado a lutar pela vitória e pelos primeiros lugares em todas as competições das quais participa. Digo isso para você — caro e raro leitor —- não pensar que sou incapaz de observar nossas fraquezas nesta temporada.
Tenho saudades daquele tempo —- não muito distante —- em que éramos suficientes para driblar o adversário e a incompetência da arbitragem, e conquistarmos os títulos almejados. Hoje, sequer conseguimos superar nossos próprios problemas. Que essa saudade se desfaça quando março e a decisão da Copa do Brasil chegarem.
Renato orienta o time na beira do campo, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Assistimos a mais do mesmo: empate cedido e pênalti perdido. Um roteiro que se repetiu com frequência na temporada 2020 que parece nunca mais ter fim. Não o roteiro, mas a temporada. Hoje é 31 de janeiro, o Estadual de 2021 já tinha de ter começado, o Brasileiro do ano passado ainda não se encerrou —- ainda faltam 15 pontos para serem disputados — e a decisão da Copa do Brasil só em março, quando o verão estiver quase se despedindo. Um martírio por todos os aspectos que o ano nos propiciou.
Sequer o réveillon que sempre é uma data para nos trazer esperança, mudanças de ares e outros quetais foi suficiente para renovar nossas expectativas. Ao contrário. Se lembrar, antes de o ano encerrar, de acordo com o calendário gregoriano, nós havíamos conquistado a vaga para a final da Copa do Brasil em dois jogos contra o time que era considerado o favorito ao título e líder do Brasileiro. Foi trocar a folhinha presa no imã da porta da geladeira …. meu Deus do céu!
O primeiro jogo até ganhamos. Foi sufoco, mas ganhamos. Em casa e depois de termos cedido o empate. Foi, aliás, a única vitória em sete partidas disputadas em janeiro. Perdemos duas — uma delas você-sabe-contra-quem —- e empatamos quatro. Tomamos dez gols, fizemos oito, metade deles saiu dos pés e da cabeça de Diego Souza, que, no último que marcou, se machucou e passou a incluir a lista de dez ausências para este domingo.
Depois de termos dominado a partida no primeiro tempo, sem conseguir ir além de um gol convertido, entregado no segundo tempo, provocado um pênalti contra e errado um a favor, a única alegria que encontrei no calendário foi lembrar que janeiro, graças a Deus, terminou. Já vai tarde!
Diego Souza faz de cabeça em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA
Se é que existe alguém que passe neste blog com alguma frequência —- aqueles que costumo chamar de meus caros e raros leitores —-, deve ter percebido que o movimentei pouco nesta semana. De domingo até agora não mais de três postagens e uma delas graças a sempre pertinente participação da Simone Domingues, que nos ajuda a entender o que se passa na nossa mente e como tudo que está em volta influencia nosso comportamento.
Justifico-me: a semana está intensa e, não bastasse comandar quatro horas de Jornal da CBN com o volume de notícia gerada no mundo, assumi compromissos neste início de ano que têm me tomado boa parte do dia com estudos, planejamento, reuniões e aulas. São dois projetos distintos. Um voltado ao desenvolvimento de habilidades profissionais, com a imersão no conhecimento do marketing digital, e outro ligado a um desejo pessoal e fraterno que há muito alimentava, que é o de dominar a língua italiana — se não dominá-la, ao menos ter segurança para levar em frente outros projetos de vida relacionado ao país de meus ancestrais.
Foi na Itália que meu bisavô por parte de pai nasceu. Consta que o primeiro Ferretti —- da minha linhagem —- a desembarcar lá pelo sul do país, tenha sido o biso Vitaliano, nascido em Ferrara, na região da Emília-Romanha. Dele veio um casamento com um sem-número de filhos. E dos filhos, um era minha avó Ione, mãe do meu pai. Boa parte da minha infância foi próxima dos Ferretti, especialmente de Caxias do Sul, na serra gaúcha. Isso não foi suficiente para que eu absorvesse o conhecimento da língua, o que teria sido uma tarefa bem mais simples pois sabemos que o cérebro da criança é muito mais poroso do que o de adulto, já endurecido por sabotadores internos, viéses inconscientes e excesso de preconceitos consigo mesmo.
Divago entre uma agenda mais intensa do que se imagina para um início de ano, a desaceleração no ritmo de publicações e as relações familiares das quais tenho orgulho, porque foram esses motivos de minha falta de atenção com você que, por pouco e raro que é, merece minha dedicação e respeito. Nem sempre conseguirei entregar o que prometo, com a frequência que gostaria e qualidade que o leitor busca. Desatenção, cansaço, frustrações, escolhas nem sempre as mais certas, energia sendo sugada em outras frentes —- e você não tem ideia de que como esta pandemia também tem impactado esse meu comportamento — às vezes podem ser fatais no resultado que se busca.
Dito isso, assumo aqui o compromisso que a despeito de a escassez de tempo e de energia para dar conta de todas às frentes de trabalho, vou continuar insistindo em dar o que tenho de melhor e oferecer, aos que confiam alguns minutos do seu dia a me ler neste espaço, o pouco do conhecimento que tive o privilegio de adquirir em vida e me permite escrever e pensar com alguma lógica e razão.
Assumo esse compromisso com o desejo de ser retribuído com a sua confiança e leitura, assim como espero que o Grêmio de Portaluppi —- ops, olha aí outro de origem italiana que me apetece —- também esteja compromissado em entregar o que tiver de melhor nesta reta final de temporada. E o melhor que temos é a Copa do Brasil.
P.S: a coisa está tão intensa que este post foi salvo para ser publicado ontem à noite; descubro agora que por algum motivo ficou parado por aí. Nunca é tarde.
Nem omelete comi neste domingo para não arriscar que o ovo caísse fora do prato, o que —- como o caro e raro leitor desta Avalanche sabe —- é determinante no resultado do futebol dominical. Já falamos disso aqui. Caso seja necessário posso me estender no assunto … ok, deixemos para outra oportunidade. O que interessa é que o meu cuidado neste domingo era não permitir que nenhum fator externo interferisse no resultado do jogo. Preferi até ir à missa mais cedo em vez de deixar para o fim da tarde quando a partida já tivesse se encerrado. Não me perdoaria. Não que ao me ajoelhar, eu reze pela vitória gremista, porque —- também já disse a você — é melhor não preocupar Deus com essas coisas comezinhas. Mas sabe como é que é … vai que o Homem resolvesse me puxar a orelha.
Pode parecer exagero, mas cresci sabendo que Domingo de Gre-Nal não é um dia qualquer na vida dos gaúchos. Lá nas bandas da Saldanha, onde morei, em Porto Alegre, no meio do caminho do Olímpico Monumental e do Beira Rio, fosse onde fosse a partida, era dia de torcedor desfilar camisa nova do seu clube e bandeira ainda com vinco de tanto tempo dobrada. Pais passavam em direção aos estádios levando seus filhos pela mão, com peito em riste e contando histórias experimentadas em clássicos passados —- sempre daqueles em que saímos vitoriosos, é claro. Reveses? Deixemos que os outros contem.
Ao longo da minha carreira de vida tricolor assisti a todo tipo de clássico e nas mais diversas situações. Posso até colocar nesta lista um que joguei: foi quando fazia parte do elenco do time de basquete do Grêmio e fomos ao Gigantinho fazer a espera do show dos Globetrotters, aqueles malabaristas americanos que encantavam crianças e adultos fazendo estripolias nas quadras pelo mundo. Ganhei (e ai de quem me desminta).
Fui a Gre-Nal no Olímpico, no Beira-Rio e em estádio pelo interior gaúcho. Fui com o pai, com amigos, sozinho, com cartolas e com a delegação de futebol. Fui torcer nas cadeiras, nas sociais, nos vestiários e nas arquibancadas. Acompanhei jogos das cabines de rádio, como repórter dentro de campo e até como gandula.
Hoje mesmo, no início da tarde, por obra e arte do Edu Cesar, que mantém canal no Youtube, no qual preserva a memória do rádio esportivo, deparei com uma transmissão que há muito vinha procurando sem sucesso. A do único Gre-Nal em que trabalhei com meu pai, na rádio Guaíba de Porto Alegre. Era final do Campeonato Gaúcho de 1986, no Olímpico. Ele narrava e eu era um dos repórteres de campo, em uma época em que eu ainda atendia por Mílton Júnior.
Assim que Osvaldo marcou o gol, no início do segundo tempo, ele correu em direção ao pavilhão da social do Grêmio, diante do qual eu estava com o microfone da rádio. Com os dois braços erguidos para o céu, o meio-campista gritava: “obrigado, meu Deus!”. Ao registrar seus gritos e ser chamado pelo pai para descrever o lance do gol, iniciei minha participação repetindo o agradecimento do jogador. Até hoje, há quem jure que Osvaldo nunca disse aquilo. Eu teria sido flagrado comemorando com o céu o gol que nos daria o bicampeonato gaúcho. Pura maldade (como você pode conferir no vídeo que reproduzo a seguir). Mesmo que seja justo imaginar que por dentro era o que fazia com meu coração tricolor saltando pela boca.
Se já vivenciei todo tipo de Gre-Nal, evidentemente também sofri muito, chorei mais um tanto e sorri como nunca. Vencer o clássico é muito especial. Por isso, neste domingo em que mesmo com todos os cuidados que eu tomei aqui em casa e o time no campo, mesmo que estivéssemos melhor quando sofremos a virada e mesmo que o VAR estivesse de folga, assim que o árbitro deu o apito final —- sem direito a acréscimos depois de toda a parada do pênalti —, pensei cá com minhas camisas tricolores: não deve ter sido fácil a vida dos colorados que ficaram tantos anos e jogos sem vencer uma só vez o Grêmio. Deus me livre ter de passar por isso um dia (ops, desculpe, sei que o Senhor não tem nada a vera com isso: é só força de expressão)
Ferreirinha parte para o ataque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Sabe aquele jogo que começa e você já sabe qual vai ser o resultado? A gente fica torcendo para estar errado, mas a cada minuto que passa aumenta a certeza de sua previsão inicial. Foi assim neste sábado à noite. O empate —- o décimo terceiro no campeonato —- foi sendo desenhando no chute para fora, no cruzamento cortado pela defesa, na falta (quase) bem cobrada, no contra-ataque que se perdeu em um passe errado e no gol que por milímetros foi anulado. A previsão de que seria empate tem muito a ver com o time que vai a campo —- éramos na maioria reservas e, claro, paga-se um preço quando tomamos essa decisão. No caso, dois pontos desperdiçados na disputa pelo título do campeonato.
Verdade que outras vezes entramos em campo sem escalar os principais titulares e conquistamos a vitória mesmo assim —- mas, sei lá o motivo, assim que começou a partida deste fim de noite, tive a impressão de que não sairíamos do zero a zero. Impressão confirmada ao fim deste que foi o vigésimo-oitavo jogo gremista no Campeonato Brasileiro. Não que tenhamos jogado pelo empate. Longe disso. Tentou-se de um lado e de outro. Muitas vezes pelo meio. Chutou-se 12 bolas no gol — pelo que anotei — e forçamos o goleiro adversário a fazer defesas difíceis. Esforço fugaz.
Apesar de não termos saído com a vitória, que é o que todos queríamos, o empate nos mantém na disputa do título e entre os cinco primeiros classificados. O mais importante é que, independentemente do que acontecer no domingo, a ideia de que o campeonato será decidido em janeiro permanece. A partir de agora —- e aí entendemos a escolha pelo time reserva —- todo jogo será uma decisão direta pelo título. Nas próximas quatro partidas, o Grêmio terá de ser gigante porque enfrentará quatro adversários que estão embolados e disputando a liderança da competição.
Vanderson comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
A temporada 2020 está de volta. A mais atrapalhada das temporadas que já vivemos na era moderna, começou ano passado, parou em março com a pandemia, foi retomada em junho, intrometeu-se nas festas de fim de ano e só deu descanso para times e jogadores passarem o réveillon em casa. Apesar de estarmos, conforme calendário gregoriano, na primeira semana de 2021, ainda sofremos os percalços do ano passado. A impressão é que estamos vivendo a segunda temporada deste triste seriado que foi 2020 — e sequer estou fazendo menção ao que assistimos nesta quarta-feira, nos Estados Unidos; estou falando apenas de futebol.
Para o Grêmio, o mês de janeiro reserva algo raro nesta temporada: um mês inteiro dedicado a um só campeonato, o Brasileiro. A decisão da Copa do Brasil ficou para fevereiro, a persistirem os sintomas. Mês raro e importante, porque teremos jogos decisivos para as nossas pretensões na competição. Alguns dos adversários que enfrentaremos estão no meio do caminho do que pretendemos alcançar que é o título brasileiro, segundo Renato, naquela entrevista ao lado do campo a espera do apito inicial; ou o G4 que garante vaga direta na Libertadores do ano que vem … ops, deste ano.
Na partida de hoje, o adversário não era direto nem por isso os três pontos deixavam de ser importantes — vencer é sempre importante. Uma vitória agora, além de manter o time com moral alto e motivar para os próximos desafios, também cria gordura para qualquer percalço nos próximos 11 e decisivos jogos.
E o Grêmio venceu.
Não foi tão simples quanto parecia nos primeiros minutos de partida, quando impusemos nosso jogo bonito e qualificado, o que culminou com o primeiro gol de Vanderson, que aos 19 anos fez sua segunda partida como titular. O guri —- mais um dos guris gremistas —- fez uma assistência importante no primeiro jogo e hoje foi presenteado com um cruzamento pelo alto que o fez cabecear de maneira consciente no gol adversário. Chorou na comemoração. E nós comemoramos com ele.
Depois do primeiro gol, assistimos à uma sequência de atrapalhadas e espaços abertos que permitiram a proximidade do adversário na nossa goleira. Se o gol que marcaram no fim do primeiro tempo foi salvo pela linha de impedimento, no segundo tempo, fomos punidos logo no início com a bola desviando na cabeça de outro guri gremista, Rodriguez.
Coube a um dos veteranos decidir a nosso favor, em meio a uma série de jogadas erradas, passes mal dados, cortes mal-feitos e uma marcação malemolente em alguns momentos. Foi Diego Souza. Sempre ele. Infalível. E foi em um cobrança de falta tão estranha quanto o próprio jogo. A bola desviou na barreira, desviou no braço do goleiro e quando parecia que havia desistido de entrar no gol, foi parar no fundo da rede. E o que vale é bola na rede. E com esta bola, Diego marcou mais um gol decisivo para o Grêmio.
Somos o time que menos perdeu nesta competição, apenas três vezes; que mais empatou, 12 vezes; e estamos invictos há treze jogos no Brasileiro. Uma estatística suficiente para nos deixar na disputa do título. Cada vitória que vier a partir de agora nos colocará mais próximo dos nossos objetivos — se vier com uma bola do acaso, um desvio do goleiro ou em um gol contra, pouco me interessa. O que importa agora é a vitória.
Jogadores do Grêmio comemoram ao fim da partida Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Às vésperas do fim do ano, passeei de carro perto de casa. Não mais do que alguns quarteirões. Precisava respirar um pouco fora do ambiente ao qual fiquei confinado em boa parte desses últimos 285 dias, desde que a recomendação foi de mantermos distância, evitarmos aglomerações e encontros desnecessários. Fui ao lava-jato levar um carro que esteve durante todo este tempo acumulando poeira na garagem. De dentro dele não saí e pedi apenas uma boa ducha —- “caprichada”, me disse o atendente no posto de combustível, com um boné vermelho, preto e branco.
Por mais restrito que tenha sido este giro, foi impossível deixar de notar a quantidade de pessoas circulando pela região com a camisa do São Paulo. O motoqueiro que passou em alta velocidade pela minha esquerda, o menino que atravessava na faixa de segurança, o senhor de barriga acentuada que esperava a conclusão do serviço e o rapaz conduzido por um cachorro a caminho da praça mais próxima —- todos transmitiam um ar de confiança na partida que se realizaria dali a alguns quilômetros de distância. Sim, eu moro próximo do Morumbi, onde decidiríamos a vaga à final da Copa do Brasil.
Infelizmente, estar presente no estádio não era uma opção para qualquer um de nós. Restava-nos assistir ao jogo na televisão —- o que não me impediu de ouvir o espocar de fogos proporcionados por torcedores adversários que cercaram o local da partida para inspirar seus jogadores. Havia gritos, também, que partiam da varanda dos prédios ao redor de casa. Que se calaram assim que a bola começou a rolar.
Em campo, desde o primeiro minuto de partida, o Grêmio expressava uma personalidade típica de times acostumados às grandes decisões. Meu colega e amigo Paulo Vinícius Coelho disse com a precisão de sempre e com base em informações que levantou em conversa com porta-vozes gremistas de que jogaríamos um futebol adulto, maduro.
Era a confiança versus a maturidade.
E que maturidade!
Vanderlei sequer precisou ser gigante como em partidas anteriores. Cumpriu o seu papel em interceptar as poucas bolas que chegaram ao gol. Nossos zagueiros, Rodriguez e Kannemann, depois Paulo Miranda, despacharam para longe qualquer perigo que se desenhava. De um lado Victor Ferraz e de outro Diogo Barbosa foram precisos nas roubadas de bola. Lucas Silva e Matheus Henrique fecharam a entrada da área com uma tenacidade impressionante —- ganharam ainda o reforço de Thaciano, no segundo tempo. Alisson, Jean Pyerre e Pepê fecharam o meio de campo e deixaram seus marcadores sempre de prontidão diante do risco de uma escapada em contra-ataque. Diego Souza por pouco não se consagrou com um gol de bicicleta —- apesar de sua maior qualidade nesta noite ter sido a maneira como voltou para marcar e encurtar o espaço.
O Grêmio foi gigante diante de um adversário que tem revelado futebol de alta qualidade, apesar de incapaz de nos superar nos últimos quatro anos. Estamos sem perder para o tricolor paulista desde 2016 e sem tomar um só gol desde agosto do ano passado. E já se foram cinco partidas — a quinta, nesta noite no Morumbi quando entramos em campo pressionados e tensionados por um movimento que tem tração interna, proporcionada por torcedores frustrados que tentam descredenciar o excelente trabalho de Renato no comando gremista.
O Grêmio chega a sua nona final de Copa do Brasil. Já venceu cinco vezes esta competição. O desafio para ser hexacampeão é imensurável. Mas esse é um problema a ser encarado apenas no ano que vem. Por enquanto, incrédulos e crentes leitores — e caros torcedores — desta Avalanche, o que temos a celebrar é um feliz Ano Novo. Porque Renato e o Grêmio nos deram esta oportunidade de fechar 2020 —- que já vai tarde — com uma alegria no coração e uma lágrima de satisfação.