A boa entrevista que eu não fiz porque o omelete não virou

 

 

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Foto: Pixabay

 

 

Jornalista gosta de bom entrevistado. Gente que esclarece. Fala claro. Diz o que pensa. Ajuda o outro. Faz do fato, notícia. Gera aspas (sim, mesmo no rádio ainda usamos esta jargão do impresso). Um ou outro desses aspectos —- todos juntos é o ideal — faz uma boa entrevista. Ficar de fora dela ou não ter sequer a oportunidade de fazê-la, sempre frustra. Foi o sentimento que tive nesta sexta-feira.

 

 

O dia já não começou bem. De madrugada, ao acordar, o calendário da cozinha informou ser hoje o 90º dia de isolamento em casa — por mais que a turma daqui tenha me facilitado as coisas, o ritmo da redação e o contato com outras pessoas, diversas e diferentes, faz bem à alma.

 

 

Na sequência, a máquina de café quebrou e o omelete não virou. A regra é clara: quando essas coisas acontecem, liga para a firma, avisa que não vai dar e volta para cama. Eu não entendi o recado. Insisti.

 

 

O programa começou e logo descobri que o “moço da internet” não estava a fim de trabalhar, também. O sinal da rádio era entregue aqui em casa, mas não tinha ninguém para levar o meu para lá. Falava e interrompia. Voltava e caía. Troquei do cabo para o sem cabo, do sem cabo para o 4G, do 4G para o sinal de fumaça. E nada de a coisa funcionar como o encomendado (e pago).

 

 

Daí minha frustração. Hoje, tinha tudo para fazer uma boa entrevista, mas a telecomunicação não ajudou.

 

 

Nosso convidado no Jornal era o Dr Atila Iamarino; o rapaz da ciência que fala no YouTube e no Twitter e por lá atende por @oatila. Ele é biólogo por formação, doutor em microbiologia, tem pós-doutorado pela USP e pela Yale University. Para ser melhor: sabe traduzir tudo isso que aprendeu falando a língua da gente. Pelo conjunto da obra faz sucesso há algum tempo na internet —- não aquela que pifou aqui em casa, mas aquela outra que permite que informações circulem em grande volume e frequência e da qual conseguimos tirar muita coisa que presta. As do Atila prestam. Têm credibilidade.

 

 

O chamo de Atila, assim, pelo primeiro nome, sem a pompa do doutor e do senhor, como pedem os bons modos do jornalismo. Não apenas por ele ser jovem — nasceu no ano em que eu estreava no jornalismo profissional —, mas porque é assim que todos o chamam por aí. E foi dessa maneira que conquistou admiradores —- e detratores.

 

 

Sim, é impossível ser um sucesso no mundo virtual sem que o ódio dos medíocres se expresse. Eu escrevi ódio e medíocres. Não tem nada a ver com aquelas pessoas que discordam das ideias, identificam fragilidades nos argumentos, apresentam pensamentos lógicos e contrapõem com a gentileza dos civilizados, fazendo o bom debate. Esses serão sempre bem-vidos à conversa, pois permitem que, a partir da reflexão, sejamos provocados a pensar ainda mais e a recuar, se entendermos que erramos na forma ou no conteúdo. Perdão se usei o plural na frase anterior — é força do hábito. Não tive a intenção de me comparar à capacidade de doutores e professores em argumentar. Sou só jornalista. Sem direito à extensão do curso.

 

 

Dito isso, vamos retornar ao episódio que se iniciou sem café nem omelete. Para a entrevista recebi um ótimo material da produção. Coisa de primeira. Muito mais do que precisaria. Suficiente para me dar segurança na conversa. Tinha tudo para dar certo. E até que começou certo.

 

 

Às vésperas de alcançarmos a marca de 1 milhão de infectados e termos nos aproximado em alta velocidade dos 48 mil mortos, quis logo entender o que é a estabilização da Covid-19, no Brasil, que havia ouvido na fala oficial do General que usa crachá de ministro interino e no comentário da OMS. Com a sabedoria de doutor e a transparência do Atila, ele explicou. Simples, direto e objetivo, seguindo o que assumi como sendo meu mantra da boa comunicação.

 

 

Entusiasmado, esperei o Atila responder à Cássia Godoy e engatei uma segunda pergunta. Explica aí por que o vírus está deixando o Norte, invadindo o interior e crescendo no Sul? O omelete não virou. Ops, a resposta não chegou. Não chegou para mim que estava apresentando o programa de casa. Menos mal que foi até os ouvintes que acompanhavam o Jornal no rádio. Minha internet —- com todos os sinais das operadoras que prestam o serviço — desapareceu. E com ela, eu.

 

 

Da entrevista não ouvi mais nada. Desconecta um cabo aqui. Conta até 30. Desconecta o outro ali. Conta de novo. Zera o sistema. Desliga o computador. Religa o celular. O que é que está acontecendo? É o upload que não sobe. É o download que não desce. É o Mílton que enlouquece.

 

 

A Cássia seguiu em frente em voo solo — com toda autoridade. E o Atila atendeu a expectativa do ouvinte — dele também não tinha dúvida. A mim restaram a frustração de ficar de fora de uma boa entrevista. E o consolo de Bocelli e Geromel, que se enroscaram nas minhas pernas, subiram na mesa e ronronaram no microfone para me acalmar.

 

 

Lição aprendida: se a máquina do café quebrar, o omelete não virar, a internet pifar e a boa entrevista frustrar, que ao menos tenhamos bons companheiros ao lado para nos consolar.

 

 

PS: a entrevista da Cássia com o Atila você ouve na sequência. Vale a pena!

 

 

miltonjung · Jornal da CBN entrevista Atila Iamarino sobre o estádio da pandemia no Brasil

Personagens da semana: gatos, gatunos e carrões

 

Por Milton Ferretti Jung

 

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Sempre que não encontro inspiração para escrever o texto das quintas-feiras,compromisso que venho mantendo de longa data com o Mílton,procuro assunto no jornal Zero Hora. E encontro. Já estava quebrando cabeça quando resolvi apelar para a ZH e fui virando as páginas do fim para o começo. É um velho hábito. O futebol,em primeiro lugar,para ver o que se passa com o Grêmio e,como não,com o Inter. Aqui, no Rio Grande amado,Grêmio e Inter fingem que se odeiam. Na verdade,porém,são bem mais do que coirmãos:um não vive sem o outro. Creio que não sobreviveriam se não fosse assim. Dificilmente,no entanto,descubro assunto nas páginas dedicadas aos esportes,apesar da maioria deles. Só deixo minhas opiniões sobre aquele que cheguei a chamar,idoso que sou,de “esporte bretão”.

 

Passo agora para as matérias que me chamaram a atenção na Zero Hora,começando por uma lida na segunda-feira,22 de setembro (que bom reencontrar a primavera). A manchete é uma pergunta,coisa rara: “Comércio de animais deveria ser proibido?”. Lê-se abaixo que “ativistas estão elaborando projeto de lei e recolhendo assinaturas para tentar proibição da venda de cães e gatos em lojas especializadas”. Quando topo com qualquer coisa que parte de “ativistas” – que me desculpem pela desconfiança com a qual encaro o termo – mas temo pelo resultado.Esses, poucas vezes são satisfatórios.

 

Eu começaria a tirar os gatos da parada. Tenho uma gata preta cujas fotos enfeitam,volta e meia,o meu Facebook. Micky,é o nome dela, esteve fadada a ser um animal sem dono.Era o que aconteceria se eu e Maria Helena,minha mulher,não a tivéssemos achado, ainda bem pequena,miando baixinho,debaixo de uma cerca viva. É nossa desde 2007. Gatos a cães sobrevivem mesmo que não tenham quem os cuide. Os bichanos,todavia,fazem apenas o que lhe dá na telha,ao contrário dos cães,bem mais dependentes do seus donos. Seja lá como for,eu me pergunto qual é o problema desses dois animais serem vendidos em lojas especializadas,onde são bem tratados para agradar aos que se interessam por os ter como “peta”. “O animal não existe para o uso”,afirma Lidvar Schulz,coordenador do grupo de libertação animal. Não sei o que esse senhor quer dizer com isso. Não tenho conhecimento de que cachorras sejam confinadas submetidas a cruzas forçadas,mas se isso ocorre,tem que ser combatido por quem de direito e não por essas ONGs sem eira nem beira.

 

Da ZH,igualmente,saiu o meu segundo assunto. Os exemplos de ganância que levaram quem sofre desse terrível mal a virar notícia nas páginas policiais dos jornais e da mídia,em geral,são inúmeros. Não fazem,entretanto,que os gananciosos se corrijam. Eles seguem em frente como se tivessem um escudo que os proteja de serem flagrados pelos agentes da lei. Um deles teve a sua foto postada nos jornais dessa terça-feira e é um gaúcho acusado de fraude milionária envolvendo ações da antiga CRT. Jamais imaginei que essas ações produzissem tanta grana.O doutor Maurício Dal Agnol que o diga.Preso em Passo Fundo,ele esperava poder fugir da Polícia Federal,mas acabou ao sair do seu escritório portando uma sacola repleta de dinheiro e um passaporte com visto dos Estados Unidos. Triste engano. Não bastasse ser ganancioso ao extremo,era um homem de maus bofes,eis que,além da fraude,sua prisão foi agravada por porte de armas,entre elas,um fuzil.

 

Bem mais amena e saudável é a notícia que a Zero Hora publicou,também nessa terça-feira,Porto Alegre deve passar com carros elétricos para alugar. Neste sábado,os engenheiros Cezar Reinbrecht e Lucas de Paris,em evento acerca de mobilidade urbana promovido pela UFRGS,em parceria com a ONG Net Impact Porto Alegre,essa sim uma Organização Não Governamental que vale a pena,vão apresentar o projeto Sivi – Sistema Veicular Inteligente. Sei que os meus filhos Mílton e Christian,são fãs de biciclestas,mas duvido que não venham a adorar os carros elétricos.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)