Não é egoísmo, é autocuidado


Diego Felix Miguel

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Nem sempre desconsiderar a dor do outro é uma atitude de egoísmo.

Prezada leitora e prezado leitor, talvez a ideia que abre este texto soe cruel ou desumana. Não falo de apatia nem de distanciamento emocional, mas de um autocuidado que, muitas vezes, é negligenciado. O que tenho aprendido no meu percurso pela longevidade é simples e, ao mesmo tempo, difícil de aceitar: nem todas as pessoas merecem nossa dedicação.

Nossa cultura euro-cristã nos faz acreditar em uma dedicação intensa e exclusiva às outras pessoas, sobretudo quando as amamos ou quando existem vínculos sanguíneos. Com isso, passamos a colocá-las em um grau de importância superior às nossas próprias prioridades e desejos, muitas vezes à custa da nossa própria anulação, apenas para estarmos em conformidade com uma norma social.

Enquanto homem gay, vivenciei isso desde a infância. Posso afirmar que essa autocobrança se multiplica inúmeras vezes. Trata-se de uma tentativa falível de não ser percebido pela orientação sexual, mas por características como bondade, capacidade e dedicação acima da média. Essa realidade não é só minha; é a de inúmeras outras pessoas LGBT+, pessoas negras, pessoas com deficiência e de outros grupos historicamente minorizados em suas possibilidades de poder e reconhecimento.

No auge dos meus quarenta anos, percebi que não precisava mais sustentar todo esse esforço para demonstrar excelência nas relações. Permiti-me, enfim, decepcionar expectativas que não são as minhas.

Os tempos são outros. Pautas sociais e de direitos humanos vêm sendo cada vez mais difundidas e aprofundadas. Esse movimento contribui para tal posicionamento, assim como as conquistas de direitos, as políticas públicas afirmativas e a própria maturidade — que defino aqui como aquilo que aprendemos e carregamos ao longo da vida por meio das vivências.

Talvez essa seja a beleza da longevidade e, ao mesmo tempo, um de seus maiores desafios: lutar pela autonomia. Não a autonomia moldada por padrões normativos, que limitam nossa expressão e nossa vivência identitária, mas aquela que nasce da essência genuína de quem somos. Priorizar-se é o caminho, e ele nos conduz ao autocuidado.

Não é fácil. Aprendi que, antes de qualquer resposta ou ação que me cobram, tenho o direito de pausar, respirar e aprofundar meus sentimentos e vontades.

É isso mesmo que quero? Se sim, por que quero? Se não, por que isso me incomoda a ponto de eu não querer realizá-lo?

Para um envelhecimento ativo e saudável, precisamos repensar quais de nossas ações surgem, de fato, da nossa autonomia genuína e quais são impostas socialmente — aquelas que, mesmo ferindo nossos desejos, garantem um suposto conforto que, na prática, não tem nada de confortável.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Dez Por Cento Mais: Diego Félix Miguel fala sobre os desafios das velhices LGBT+

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Não é o outro falar de nós, é nós falarmos sobre a nossa existência

Diego Félix Miguel

Uma geração de lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans, travestis e transgêneros chegou à velhice carregando marcas de rompimentos familiares, da epidemia de HIV/Aids e de um sistema de saúde que muitas vezes as afasta, em vez de acolher. Nesse cruzamento entre idade, gênero, orientação sexual e desigualdade, estão as velhices LGBT+, tema tratado por Diego Félix Miguel, doutorando em saúde pública e presidente do departamento de gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, em entrevista à jornalista e psicóloga Abigail Costa, no programa Dez Por Cento Mais.

Velhices plurais, vulnerabilidades acumuladas

Diego propõe que o ponto de partida seja enxergar o envelhecimento como conquista coletiva. “Eu acredito que nós precisamos pensar na longevidade como uma grande conquista”, afirma. O aumento da expectativa de vida está ligado a avanços científicos, tecnológicos e ao acesso à informação. Essa conquista, porém, não é distribuída da mesma forma para todas as pessoas.

Ele lembra que desigualdades atravessam a vida inteira: raça, gênero, identidade de gênero, orientação sexual, classe social. “Quando falamos de velhices, nós estamos falando de pluralidade”, resume. A ideia de “velhices”, no plural, tenta corrigir a imagem homogênea da pessoa idosa e expõe grupos que chegam à longevidade sob maior risco de violência, violação de direitos e isolamento.

Ao tratar especificamente das velhices LGBT+, Diego volta no tempo. Ele lembra que o movimento ganhou mais visibilidade a partir dos anos 1960, quando parte da população LGBT começou a se colocar publicamente. Esse gesto teve custo alto: “Muitas pessoas romperam vínculos familiares, porque, ao invés de receberem conforto e segurança, encontravam violência”, explica.

Longe de suas famílias de origem, essas pessoas formaram redes afetivas também conhecidas por famílias de escolha. O alicerce dessa rede, porém, foi abalado nas décadas de 1980 e 1990, com a epidemia de HIV/Aids. “As pessoas sobreviventes desse episódio são as que chegaram na velhice hoje”, diz Diego. Muitas perderam amigos, companheiras e companheiros, e envelhecem com redes de apoio fragilizadas.

Idadismo, saúde e medo de buscar cuidado

Além da história marcada por perdas e exclusões, essas pessoas enfrentam um obstáculo que atinge toda a população idosa, mas com impacto específico sobre quem é LGBT+: o idadismo, o preconceito baseado na idade. “Um dos aspectos que o idadismo traz é a invisibilidade da sexualidade e do gênero na velhice”, aponta.

Na prática, isso significa ver a pessoa idosa como alguém sem desejo, sem vida sexual, sem identidade de gênero que mereça atenção. Se esse apagamento já pesa sobre idosos em geral, o efeito se agrava quando se trata de uma mulher lésbica, de um homem gay, de uma pessoa trans ou travesti.

Diego cita pesquisas que mostram um padrão preocupante: “Muitas pessoas LGBT deixam de frequentar os serviços de saúde, de fazer exames preventivos ou acompanhamento médico, justamente por medo de sofrerem violência”. Esse medo nasce de experiências anteriores, em que não foram tratadas pelo nome social, tiveram sua identidade de gênero desconsiderada ou ouviram comentários discriminatórios.

Quando finalmente procuram ajuda, costumam esperar até o limite da dor ou da doença. E ainda correm o risco de enfrentar um atendimento violento, explícito ou sutil. Diego descreve situações em instituições de longa permanência para idosos em que o acolhimento é condicionado à ideia de que a pessoa LGBT precisa “se encaixar” em uma norma que nega quem ela é. Em alguns casos, pessoas trans são pressionadas a destransicionar para serem aceitas pela instituição. “Isso é perverso, é violento, é sutil, é silencioso e dói tanto quanto uma violência física”, resume.

Segurança, trabalho e renda: o impacto da exclusão

A discussão sobre saúde se mistura com outra camada de vulnerabilidade: a segurança financeira. Muitos idosos LGBT viveram na informalidade. Diego lembra que a escola, para uma parte das pessoas trans, era um ambiente hostil; o mercado formal de trabalho, pouco acessível; a discriminação, recorrente.

O resultado aparece agora, na velhice, em trajetórias marcadas por baixa renda, aposentadorias insuficientes ou inexistentes e dependência de redes de apoio que nem sempre existem. “São pessoas que sobreviveram a múltiplos processos de violência e demandam um cuidado maior em saúde mental”, explica. Depressão, pensamentos suicidas e isolamento social surgem como sinais de alerta.

Diego reforça que o isolamento é um fator central para a perda de autonomia e independência na velhice, o oposto do que se busca quando se fala em envelhecimento ativo: viver com dignidade, com possibilidade de decisão e com apoio adequado depois da aposentadoria.

Ambientes seguros e o papel dos profissionais

Uma parte importante da conversa passa pela formação de profissionais e pelo modo como eles se apresentam aos pacientes. Do preenchimento de um formulário à maneira de fazer perguntas, detalhes revelam se aquele espaço é acolhedor ou excludente.

Diego destaca um ponto simples, mas decisivo: abandonar perguntas que presumem heterossexualidade, como “qual é o nome do seu marido?” ao atender uma mulher. Para ele, o cuidado começa ao abrir espaço para que a própria pessoa nomeie sua realidade. Quando o serviço se mostra preparado para isso, a percepção muda. “Quando pessoas idosas LGBT chegam em um ambiente e percebem que há profissionais assumidamente LGBT, elas se sentem mais confortáveis e confiantes”, observa.

Em alguns países, profissionais aliados exibem símbolos, como a bandeira do arco-íris, para indicar que aquele consultório é um espaço sem discriminação. O objetivo não é criar um rótulo, mas sinalizar que a conversa sobre gênero e sexualidade pode acontecer sem medo.

Isso, porém, não elimina o risco de reforçar estereótipos. Diego alerta que, na tentativa de “fazer o certo”, serviços podem criar soluções que, na prática, segregam — como reservar um “quartinho” específico para uma idosa trans dentro de uma instituição, em vez de garantir o direito de ela viver no espaço das mulheres, em condições de igualdade.

Representatividade e a recusa da neutralidade

A presença de pesquisadores e profissionais LGBT na produção de conhecimento sobre velhices LGBT é outro eixo que Diego considera decisivo. “Não é o outro falar de nós, é nós falarmos sobre a nossa existência”, afirma.

Ele menciona o movimento de pessoas trans que reivindicam o direito de estudar e pesquisar suas próprias experiências de envelhecimento. A defesa é direta: políticas públicas, práticas de cuidado e pesquisas ganham outra profundidade quando formuladas por quem vive na pele as consequências do preconceito.

Nesse contexto, Diego rejeita a ideia de neutralidade como valor. A referência a Paulo Freire ajuda a organizar o raciocínio. “A neutralidade nada mais é do que a covardia de não se ter um posicionamento”, diz. Silenciar diante da discriminação não elimina o conflito; apenas cede espaço para que a estrutura de poder vigente siga intacta.

Ele lembra que já existem projetos de lei no Congresso voltados à criação de uma política nacional para pessoas idosas LGBT+, com foco na integração entre SUS (Sistema Único de Saúde) e SUAS (Sistema Único de Sistemas Sociais) e na qualificação dos serviços que já atendem a população idosa. A ampliação do acesso à educação, inclusive por meio de cotas, também é citada como caminho para que pessoas LGBT ocupem universidades, campos de pesquisa e espaços de decisão.

A dica Dez Por Cento Mais

Na parte final da entrevista, Diego volta a um ponto que atravessa toda a conversa: a importância de transformar gênero e sexualidade em temas que possam ser tratados em família, sem segredo nem tabu. “Vale muito a pena perguntar sobre a vivência dessas pessoas, escutar mais e supor menos”, recomenda.

Ele relata casos de alunos que, após suas aulas, perceberam que nunca tinham perguntado a um irmão gay como ele se sente nos lugares que frequenta, quais medos carrega, de que mudanças precisa para se sentir seguro. A sugestão de Diego é simples e direta: trazer esse assunto para a mesa, inclusive em um almoço de domingo.

Para as famílias que têm filhos, filhas, netos ou netas LGBT+, o recado é claro: a escuta pode ser ponto de partida para uma velhice com mais dignidade, menos isolamento e menos medo. E, para profissionais de saúde e para a sociedade em geral, a entrevista funciona como um convite à responsabilidade: reconhecer as velhices LGBT+ como parte legítima da população idosa e ajustar práticas, protocolos e políticas a essa realidade.

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“Eles combinaram de nos matar. A gente combinamos de não morrer.”


Diego Felix Miguel

Foto de Valeria Machado na Unsplash

Às vezes, tudo o que nos resta é silenciar e elaborar melhor a dor provocada pela violência, pela indiferença e, até mesmo, pela banalização do sofrimento — seja de uma pessoa ou de uma comunidade inteira. No silêncio, reunimos forças para seguir lutando por uma sobrevivência minimamente digna.
Não falo aqui de um silêncio mudo. Muito pelo contrário: falo de um silêncio que arranca vozes jamais escutadas, mas que, infelizmente, não ressoam como relevantes para muitos ouvidos.


É no silêncio gritante que me veio a profundidade da frase de Conceição Evaristo que dá título a este texto, em denúncia ao racismo estrutural, e ela tem ressoado nos meus pensamentos nos últimos dias, desde que soube do assassinato de Fernando Vilaça, rapaz de 17 anos que vivia em Manaus e morreu após se defender de ataques LGBTfóbicos.


Já comentei, em outros textos, sobre o “não-lugar” que a sociedade impõe às nossas vivências e identidades dissidentes. São marcas profundas que carregamos ao longo da vida, a cada experiência, e nos esforçamos além dos limites para nos encaixarmos ou, então, passarmos como invisíveis, só para garantir uma suposta paz e segurança.


É um preço alto que pagamos por isso.


Obviamente, não existe em nenhuma dessas alternativas a possibilidade de se viver com dignidade. Desde cedo, nos cobramos para que aspectos “aceitáveis” aos olhos da sociedade se tornem mais visíveis, na tentativa de validação e pertencimento.


Não tem como esquecer do Pedro Henrique, aluno bolsista de um colégio tradicional de São Paulo, que, em 2024, aos 14 anos, foi suicidado pela violência que sofria por parte de outros alunos da instituição.
“Faziam chacota de mim por eu ser gay”, escreveu em uma das mensagens enviadas por WhatsApp.
A cada pessoa que morre vítima da violência, uma parte de nós também se vai. Somos cúmplices por não conseguir acolher as pessoas em suas diferenças e insuficientes enquanto sociedade, que segue a vida como se nada estivesse acontecendo.


O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBT, e ainda assim não temos políticas públicas que garantam nossa segurança, conforto e representatividade em todos os espaços.


A nós, que envelhecemos e seguimos resistindo, tentando nos manter fortes para honrar o legado daqueles que, infelizmente, tiveram suas vidas sacrificadas, cabem, também, as marcas e a incerteza de um futuro digno e acolhedor.


Sabemos que os estereótipos relacionados à identidade de gênero, orientação sexual e geração operam de maneira perniciosa, obscurecendo tanto a visão da sociedade quanto a ação do Estado, que insiste em manter discursos de igualdade enquanto ignora por completo as vivências dos grupos minorizados.
Brecht, dramaturgo alemão, nos alertou sobre isso quando escreveu: “a cadela do fascismo está sempre no cio”, e sabemos muito bem quem ela busca para anular suas existências.


Não quero finalizar esse texto num clima pesado, mas também entendo que a inquietação e o estranhamento fazem parte do processo de transformação.


Talvez, mais do que palavras, reste-me provocar empatia: e se fosse comigo? E se fosse com meu filho?
E aqui, sobrevivente de inúmeras violências institucionais e interpessoais do passado, um Diego que, muito cedo, quando ainda nem entendia o que o tornava diferente, conheceu a perversidade do não-lugar, o que eu desejo, de verdade, é que, mesmo após quase quarenta anos, a gente consiga mudar essa realidade.


Que mais vidas tenham o direito e a garantia de envelhecer e vivenciar suas velhices de forma digna.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Depto. de Gerontologia da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

E se você vivesse com HIV?


Diego Felix Miguel

Foto de Αλεξανδρος Μαμουνης

O HIV foi um fantasma que pairou por grande parte da minha vida. Por muito tempo, pareceu um destino predestinado pela minha orientação sexual e, talvez, um tipo de castigo por não me identificar com preceitos religiosos conservadores que limitam a expressão e a vivência sexual.

Esse sentimento não surgiu por acaso. Ele foi produzido por uma sociedade marcada pelo medo e pela discriminação nas décadas de 1980 e 1990, durante a epidemia de AIDS, que tirou tantas vidas, especialmente de pessoas que ousaram desafiar a estrutura machista e patriarcal. Naquele período, ser homossexual, bissexual ou trans era sinônimo de marginalidade, reforçando estigmas que, infelizmente, ainda persistem em nossa cultura.

Meu Amigo Luís Baron

Comecei a lidar melhor com esse medo quando mergulhei nos estudos sobre sexualidade e gênero na velhice. Nessa trajetória, tive a sorte de trocar experiências com pessoas idosas que enfrentaram estigmas ainda mais intensos, como o meu amigo Luís Baron.

Conheci Luís em 2018, pelo Instagram, através do seu canal @topassado_, onde ele já discutia questões sobre as velhices LGBT antes que o tema se tornasse tendência. Pouco tempo depois, nos encontramos nas reuniões da Eternamente Sou, a primeira organização social do Brasil voltada às pessoas idosas LGBT, onde Luís se tornou presidente.

Ao longo desses anos, construímos uma amizade profunda. Para mim, Luís é uma referência de futuro: um homem sexagenário gay que combina sensibilidade e força para iluminar temas invisibilizados pelo conservadorismo. Sua história de vida é um farol, especialmente para quem busca resistir às pressões de um mundo que insiste em invalidar identidades dissidentes.

Superando o Medo

Foi com Luís que compreendi como muitos dos medos e inseguranças que me atravessam foram socialmente construídos. Desde antes do meu nascimento, expectativas de gênero e sexualidade já moldavam o papel que eu deveria desempenhar na sociedade. Para quem foge dessa norma, a sexualidade é vista como algo sujo, impuro, promíscuo.

Esse estigma reforça o medo das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), como o HIV, associando-as à culpa e à irresponsabilidade – não pela ausência de prevenção, mas por desafiar padrões considerados aceitáveis. É uma estratégia de invalidação que vulnerabiliza ainda mais quem já está à margem.

O Avanço da Ciência e o Desafio da Sorofobia

Com Luís, aprendi também que o preconceito contra pessoas que vivem com HIV – a sorofobia – é mortal. Ele não apenas dificulta o acesso à prevenção e ao tratamento, mas também alimenta o isolamento social e o estigma, perpetuando ciclos de sofrimento.

Hoje sabemos que qualquer pessoa sexualmente ativa, independentemente da orientação sexual ou do número de parceiros, está suscetível às ISTs. Porém, avanços significativos mudaram radicalmente esse cenário. Métodos de prevenção como a PrEP (profilaxia pré-exposição) e a PEP (profilaxia pós-exposição) estão disponíveis, e o tratamento do HIV permite que pessoas que vivem com o vírus alcancem uma expectativa de vida igual à de quem não o tem.

Mais importante, uma pessoa em tratamento, quando indetectável, não transmite o vírus. Isso mostra que é mais seguro se relacionar sexualmente com alguém indetectável do que viver sob o peso dos preconceitos que a sorofobia perpetua.

Uma Luta Coletiva

O HIV não é apenas uma questão médica; é uma questão social. Para enfrentar esse desafio, precisamos ir além do discurso simplista do “use camisinha” e adotar uma abordagem mais ampla e acolhedora. Isso inclui promover a educação sobre os novos meios de prevenção, incentivar a testagem regular e, sobretudo, combater o preconceito e a discriminação que afastam tantas pessoas do cuidado que merecem.

Conhecer Luís me mostrou que viver com HIV não é o fim, mas uma oportunidade de reconstruir narrativas. Ele me ensinou que, muitas vezes, os estereótipos e as estruturas de poder são mais fatais do que o próprio vírus.

A luta contra a sorofobia, portanto, é também uma luta por dignidade e pelo direito de existir plenamente, independentemente de quem somos ou de como vivemos nossa sexualidade.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Depto. de Gerontologia da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

“É claro que me viro sozinho, sou o filho gay”

Diego Felix Miguel

Imagem criada no Dall-E

Nos últimos tempos, uma frase específica tem circulado nas redes sociais, sempre acompanhada de vídeos leves e irônicos de homens gays realizando tarefas cotidianas: “É claro que me viro sozinho, sou o filho gay”. À primeira vista, o tom humorístico parece inofensivo, mas para muitos da minha geração, essa frase carrega um peso histórico e emocional que não pode ser ignorado.

Para as novas gerações, talvez essa expressão de autossuficiência tenha ganhado um novo significado, marcado por maior aceitação e liberdade para construir identidades dissidentes. No entanto, para aqueles que cresceram antes dos anos 2.000, a realidade foi – e ainda é – muito mais complexa. Longe de querer generalizar, é claro que existem diferentes configurações familiares e sociais que podem ter permitido uma vivência mais leve e acolhedora para algumas pessoas LGBT. Mas a verdade é que, para a maioria, a jornada foi (e é) marcada por iniquidades, exclusão e desafios que não são facilmente superados.

Dizer que “me viro sozinho” pode soar como um motivo de orgulho para quem observa de fora, e talvez até para aqueles que internalizaram a resiliência como forma de sobrevivência. Mas a verdade é que, por trás dessa aparente força, existe um preço alto a ser pago. Um preço que envolve a solidão, a ausência de redes de apoio e o constante esforço para se adequar a padrões normativos que oferecem apenas uma falsa sensação de segurança.

Parece fácil, quando visto da poltrona do privilégio.

Para quem nunca precisou se esconder, suprimir quem realmente é, ou lutar por aceitação dentro de sua própria família, talvez seja difícil entender a profundidade desse sofrimento. Construir uma identidade que se alinhe às expectativas sociais pode até proporcionar algum conforto temporário, mas a que custo? Para muitos de nós, a vida foi uma constante batalha para manter distância da violência, da discriminação e das estruturas que perpetuam a desigualdade.

A consequência disso é evidente nos alarmantes índices de depressão, ansiedade e até suicídio entre a população LGBT, especialmente entre aqueles que não encontram acolhimento e suporte social adequados. A falta de políticas públicas específicas, somada à incapacidade de muitos profissionais de saúde e assistência social em lidar com a diversidade sexual e de gênero, agrava ainda mais essa realidade. Mesmo que esses números sejam subnotificados, eles revelam uma ferida social que precisa ser urgentemente tratada.

Resistência e resiliência: até que ficamos bons nisso!

Mas será mesmo?

Envelhecer sob a constante necessidade de resistência e autossuficiência é desgastante e, no fim, doentio. Essa autocobrança para ser independente o tempo todo, para manter-se distante da violência e alcançar alguma forma de aceitação familiar ou social, pode se estender por toda uma vida. E a quem recorrer, se até a família sanguínea muitas vezes se torna uma ameaça?

Que tipo de velhice estamos construindo quando percorremos um caminho marcado por iniquidade, violência e solidão?

Não pretendo generalizar, caro leitor e cara leitora, mas ao observar a população idosa LGBT, especialmente as pessoas mais pobres, percebo como elas estão sendo empurradas para as margens das políticas públicas. Aqueles que, ao longo da vida, tiveram menos acesso à educação e ao trabalho formal em condições seguras e acolhedoras, agora enfrentam uma velhice ainda mais vulnerável e invisibilizada, com agravos na saúde, sem garantia de aposentadoria, sem um lar confortável e uma rede de suporte social fragilizada.

E para essas pessoas, espera-se que continuem carregando o peso da frase que nomeia este texto: “É claro que esperam que eu me vire sozinho, sou o velho gay”.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Depto. de Gerontologia da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

É preciso rever nossos acordos com o tempo

Por Diego Felix

Foto: Pexels

Às vésperas de completar 40 anos, me deparei com reflexões que me tiraram da zona de conforto, levando-me a um aprofundamento sobre uma questão intrínseca à vida: a velhice.

Não a velhice por uma perspectiva cronológica ou biológica, mas enquanto construção social, a mesma que Simone de Beauvoir apresenta em seu livro “A Velhice”: “nada deveria ser mais esperado e, no entanto, nada é mais imprevisto que a velhice”.

O início da inquietação

Permita-me, prezado leitor e prezada leitora, antes de compartilhar minhas inquietações, apresentar uma breve introdução de como isso se iniciou.

Na minha experiência, considerando as duas décadas que atuo profissionalmente com pessoas idosas e me dedico ao estudo sobre o envelhecimento humano, posso dizer com franqueza: “é preciso rever nossos acordos com o tempo”. Essa frase não é minha. Tomo-a emprestada do dramaturgo Ricardo Corrêa, autor e diretor do espetáculo “Bichados” – da Cia. Artera de Teatro.  Aliás, foi nesse espetáculo que minha “ficha caiu”.

“Bichados” conta a história de William, um homem gay às vésperas de completar 45 anos, que conduz a plateia por passagens interessantes da sua vida: sua relação com a sexualidade, sua família, o encontro com o homem que posteriormente seria seu marido, que o fez experimentar um verdadeiro amor, assim como vivenciar o luto na mesma intensidade, após sofrer um infarto.

Na história de William, a solidão, a invisibilidade social do luto e a discriminação são pontos que me tiraram totalmente do “prumo”. Ela conta também sobre o silenciamento que muitos de nós vivenciamos ao longo da vida, principalmente após os 40 anos, onde experimentamos uma dupla, tripla ou tantas quantas sejam necessárias, invisibilidades.

A invisibilidade e discriminação

São nas situações comuns à maioria das pessoas que nós, homens gays, experimentamos o gosto amargo do preconceito e da discriminação. Reproduções da sociedade tentam incessantemente invalidar nossos sentimentos e recorrentemente anular nossa existência, afinal, as estruturas sociais deslumbram e se organizam numa perspectiva heterossexual e cisgênera. Cabe a nós  caminhar sobre as fissuras dessa estrutura rígida do preconceito, tentando seguir na vida sendo quem somos.

Desafios ao envelhecer

A  prova disso é quando chegamos à velhice, seja ela aos 40, 50, 60 anos, percebemos mais uma vez que não nos encaixamos nas normatizações postas. Seja para atender um perfil esperado da velhice, ou nas características que ainda sustentam o estigma do gay padrão: musculoso, masculino e com inúmeros estereótipos que traduzem um perfil aceitável num mundo predominantemente machista, numa falsa ilusão de aceitação e privilégio.

Essa tentativa de sentir-se pertencente a um grupo social, a fim de ser acolhido e estabelecer relações baseadas em afinidades, é uma luta quase que diária para alguns homens gays, talvez a maioria, especialmente para as gerações que hoje estão com mais de 30 anos.

Desde o momento que identificamos nossa orientação sexual dissidente, existe uma cobrança pessoal para encontrarmos, mesmo que ilusoriamente, um ponto de segurança e conforto: ser bom em tudo que fazemos.

A necessidade de excelência

É uma forma de chamar atenção às qualidades que levamos, a fim de ofuscar nossa sexualidade e estabelecermos relações possíveis, nem sempre sinceras em sua completude. É a necessidade de ser o “melhor em tudo”, seja na busca de uma segurança financeira, ou minimamente conquistar relações que possam nos apoiar, considerando que nem sempre temos uma família que nos aceita e acolhe.

No final, estamos tão focados em garantir nossa existência e representatividade, buscando um futuro digno e sem discriminação, que nos sobra pouco tempo para refletirmos sobre o nosso envelhecimento. E esse desafio se soma a tantos outros, numa tentativa de nos mantermos íntegros e seguros, para no fim, desfrutarmos de uma velhice incerta, ou como nas palavras de Beauvoir, imprevista.

É preciso rever nossos acordos com o tempo e, com isso, avaliarmos atitudes que reproduzimos e talvez pouco ressoem com quem realmente somos.

Envelhecer para os homens gays, e estendo essa reflexão a toda comunidade LGBTQIA+, é como resistir a uma sociedade que diariamente tenta nos manter nas fissuras, sem ocupar espaços sociais e de representatividade que são nossos por direito.

Diego Felix Miguel, doutorando em Saúde Pública pela USP, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seção São Paulo e Gerente do Convita – serviço de referência para atendimento de pessoas idosas imigrantes e descendentes de italianos. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Mundo Corporativo: Alder Lima, da Metamazon, constrói oportunidades e vira referência no empreendedorismo negro

 “Em São Paulo, me encontrei. Eu pude entender o que significa carregar o peso de ser um homem gay e o peso de ser um homem preto no país empreendendo. Eu podia  olhar para o lado e ver várias pessoas iguais a mim”.

Alder Lima, Metamazon Solutions

Que a vida do empreendedor é difícil no Brasil, todos sabemos. E muitas dessas histórias já foram contadas no próprio Mundo Corporativo, programa que apresento na CBN. O desafio de ser um empreendedor negro e gay, porém, torna tudo mais complicado e precisa ser superado com coragem e resiliência. É o que faz Alder Lima, fundador e CEO da Metamazon Solutions, uma startup que alia a tecnologia à construção e venda de imóveis. Conversei com ele na série de entrevistas sobre empreendedorismo quando contou de sua trajetória, das barreiras para montar o próprio negócio, do preconceito que se expressa cotidianamente no Brasil e de que como foi capaz de, a despeito de tudo isso, seguir em frente e servir de referência para outras pessoas negras e LGBTQIA+ dispostas a empreender.

Desafio: empreendedor negro e gay no setor de tecnologia 

A jornada de Alder como empreendedor se inicia em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, onde começou vendendo cocada nas ruas para ajudar sua família. Passou por Minas, Acre e Fortaleza, onde mora atualmente. Foi em São Paulo, porém, que encontrou ambiente propício para desenvolver sua ideia inovadora no campo da tecnologia — um setor em que a diversidade ainda é limitada, principalmente em cargos de liderança.

A falta de negros à frente de empresas de tecnologia leva a situações que servem para reforçar ainda mais o preconceito estrutural que existe na sociedade. Os softwares, processos e algoritmos são criados a partir de vieses raciais. É esse mecanismo que, por exemplo, impede reconhecimento facial de pessoas negras em determinados serviços ou distorce o resultado nos programs de buscas de informação:

“Enquanto a gente não tiver pessoas pretas nesses cargos de liderança, o algoritmo não contribuirá para pessoas pretas. Então, pessoas pretas precisam também estar envolvidas em projetos como esses para que a gente tenha menos chance de ser impactado dessa forma. É muito profundo! É importante ocupar espaço!” 

O empreendedorismo negro, de acordo com Alder, vai além de ideias de negócios; é um movimento para mudar realidades e quebrar paradigmas. Ele ressaltou a importância de estudar e se capacitar para se destacar em qualquer área, especialmente quando se trata de empreendedorismo. Alder também enfatizou o papel crucial da coragem na jornada empreendedora, lembrando a todos que enfrentar os medos é essencial para atingir os objetivos. Destacou projetos como o Afro Cubo, desenvolvido dentro do programa de incubadoras de startups do Itaú, que o apoiou na construção da Metamazon Solutions. 

“A gente não consegue fazer nada sozinho e para você tirar uma ideia do papel, você precisa ter essas pessoas que já passaram por isso. E sabem como funciona esse sistema. Então, ninguém consegue fazer nada sozinho. Precisa realmente de ajuda de pessoas qualificadas”.

Diversidade nas empresas: da conscientização à ação

Alder abordou o tema da diversidade no ambiente corporativo, observando que a conscientização sobre sua importância tem crescido, mas ainda há muito a ser feito. Ele mencionou o papel de instituições como o Pacto de Promoção Equidade Racial, e ações afirmativas para impulsionar a inclusão de pessoas negras em posições de liderança. Alder também falou da necessidade de empresas desenvolverem governança e estratégias para tornar as equipes mais diversas e representativas da população do país.

A experiência dele mostra bem o impacto que a diversidade oferece na ambição das pessoas negras ou que sofrem pelos demais tipos de preconceito. Conta que foi criado por seus pais em um ambiente que naturalizava aquela condição de “vassalo”. Ainda hoje, percebe o estranhamento das pessoas pelo espaço que ocupa. Como se não fosse um direito oferecer soluções, por exemplo, para o público A e B no setor de construção de prédios e venda de imóveis:

“Causa impacto porque você costuma ver que a maioria das pessoas pretas nessas construtoras estão no papel braçal, não no papel de liderança. Ontem fizeram uma pergunta: quantos donos de construtoras incorporadoras pretas você conhece? Eu particularmente, Alder Lima, nunca vi uma pessoalmente”. 

A jornada empreendedora: estudo, coragem e inovação

Alder enfatizou que a jornada empreendedora requer mais do que boas ideias: exige estudo, coragem e ação. Ele incentivou os aspirantes a empreendedores a buscar conhecimento, capacitar-se e enfrentar seus medos. Contando sua própria experiência, demonstrou a importância de ousar, fazer diferente e inovar.  Alder também compartilhou os detalhes de sua startup, a Metamazon Solutions, que opera no setor da construção civil. Ele explicou que a empresa busca transformar a maneira como os empreendimentos imobiliários são apresentados aos clientes, usando realidade virtual e inteligência artificial para proporcionar experiências imersivas e econômicas para os construtores e compradores.

“Fazer diferente hoje é você olhar o mercado, ver o que ninguém tá fazendo e você ter ousadia de buscar lacunas dentro desse espaço para você pensar: poxa, aqui existe um nicho de trabalho que eu posso fazer a diferença”.

A entrevista com Alder Lima ofereceu uma visão valiosa sobre o empreendedorismo negro, a importância da diversidade nas empresas e os elementos essenciais para construir um negócio de sucesso. Sua história de resiliência e inovação serve como um lembrete inspirador de que o empreendedorismo é uma ferramenta poderosa para a mudança e o progresso.

Assista à entrevista completa com Alder Lima, da Metamazon Solutions, no Mundo Corporativo, que tem as colaborações de Renato Barcellos, Letícia Valente, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen:

“Sou gay e sou feliz”

 

Por Dora Estevam

Estas foram algumas das palavras de Ricky Martin na entrevista ao apresentador Jay Leno do The TonighShow.

O cantor, de 39 anos, um sexy symbol, manteve sua sexualidade em segredo até recentemente.

Neste post separei dois trechos da conversa dele na NBC:

Em resumo, Martin foi o símbolo do sexo, dançava , enlouquecia as meninas, e contruiu uma imagem que o impedia de dizer que era gay.

Imagino, hoje, o alívio dele poder assumir esta condição.

Na entrevista, Ricky Martin diz que graças a revelação se sente abençoado e feliz. Ainda dá conselhos para os homossexuais. Sugere que saiam do armário: “Eu só digo às pessoas para cuidar de si e se concentrarem na dignidade e auto-estima; e olhar mais no espelho e dizer: eu amo você, tudo é legal!”.

Destaco esta entrevista justamente na semana em que o Superior Tribunal Federal decidiu legalizar a união estável homoafetiva que inclui o Brasil na lista dos país que reconhecem os casais homossexuais como entidade familiar.

A decisão veio num momento justo, pois questões de garantias de uma relação reconhecidas pela justiça podem ser comuns agora entre os homossexuais: pensão, herança, comunhão de bens e previdência. Casais que já moram juntos e querem filhos também poderão se beneficiar uma vez que a lei facilita a adoção.

As campanhas pelo mundo no combate ao preconceito e violência contra gays ganham força, também. O estilista Marc Jacobs criou uma camiseta em favor da união gay (entre pessoas do mesmo sexo) com frases tais como “Eu pago impostos. Eu quero meus direitos”. E se você quiser vesti-la, a camiseta está à venda no site da Human Rights Campaign por $ 35 dólares – dinheiro que ajudará nas iniciativas da ONG.

“O reconhecimento hoje pelo tribunal desses direitos responde a grupo de pessoas que durante longo tempo foram humilhadas, cujos direitos foram ignorados, cuja dignidade foi ofendida, cuja identidade foi denegada e cuja liberdade foi oprimida. As sociedades se aperfeiçoam através de inúmeros mecanismos e um deles é a atuação do Poder Judiciário”, disse a ministra Ellen Gracie.

Aos 60 mil casais homossexuais que moram no Brasil (dados do IBGE) desejo parabéns pela conquista.

E a todos nós, aproveito, para desejar um Feliz Dia das Mães.

A moda gay

 

 


Por Dora Estevam

Tenho visto muita moda masculina nos últimos tempos. Algumas fotos e vídeos de desfiles compartilhados aqui com você internauta. Muitas produções, looks e shapes que estão pipocando nas passarelas que certamente irão para as lojas para tentar vender. Só que também percebi que muito do que é mostrado não é exatamente a moda que um heterossexual usaria.

A moda masculina tem mostrado  modelos de roupas que os gays gostam de usar. Os cortes são mais ousados, as cores mais alegres. Não que todo gay saia por ai todo colorido, não é isso. Mas é fato que os gays se vestem super bem.

Tem muito gay discreto que respeita antes a profissão. Eu diria que é como um executivo ou um parlamentar que no exercício da função precisa usar costume, mas no fim de semana relaxa e veste bermuda e sandália para ficar a vontade. Normal. Como também tem gay danoninho, que se veste com regata, shorts e chinelinho.

Vamos relembrar alguns fatos do processo da moda masculina-gay.

Que o gay tem uma personalidade singular não se discute. Ele passeia pelo lado masculino e feminino com a maior facilidade. No passado, precisou se vestir de maneira mais viril para esconder a homossexualidade, mas para liberar o lado gay teria que assumir o jeito sem ser marginalizado, vestindo os coloridos e os acessórios da moda. Daí veio a onda “ eu sou gay e demonstro através do meu comportamento e pela minha roupa”. Foi uma verdadeira farra, reccorreram às roupas masculinas por falta de opção, valia de tudo para contrapor: brinco e tamancos.

Só para você se situar estamos falando da década de 70.

Com o surgimento da Aids as coisas tomaram outro rumo. Ser gay, magrinho, fininho, queimadinho do sol virou sinônimo de doença. Então os moços começaram a recorrer para as academias: a regra era tornar o corpo mais fortinho, comer mais e ficar com cara de mais saudável. Magreza e cara branquinha, pálidos, estavam fora das características de fragilidade que já estavam sendo confundidas com o aspecto de doença.

Mas a mudança se estendeu até a forma de se vestir, muitos preocupados com os comentários voltaram a se vestir com roupas masculinas, com isso a caricatura de mulher estava descartada.

Já nos anos 80 ninguém mais falava do gay mulherzinha, afeminado, ficou totalmente fora de moda.

Com os corpos definidos e a pele bronzeada, o visual ficou com cara de macho. Só que os amigos criativos deram um jeitinho de não serem tão durões assim. Na prática os tecidos eram estampados e listrados, na cartela de cores prevaleceram os tons sur tons.

Um estilo mais andrógino que para completar os nossos amigos passaram a usar bigodes.

Apesar de tudo isso temos que lembrar que os melhores estilistas nacionais e internacionais de moda são gays, eles tem um papel fundamental na moda. Com isso passaram a divulgar a moda gay em bairros como Village, ao Norte de Nova York. Daí para frente a moda homossexual foi se expandindo até virar em centenas de lojas que não só atendiam ao público gay mas também aos simpatizantes.

Ainda nesta década não posso deixar de relembrar que o gay começou a usar aquelas roupas de couro, lenços no pescoço, adereços como brincos…emfim tudo para se distanciar daquele gay dos anos 70.

Hoje mesmo o “rapaz alegre” procura se vestir de maneira mais simples: jeans e camiseta. Mas não dá para negar que a moda masculina hoje é sugerida para o homem gay.

O fato é que o gay vai sempre se diferenciar, seja num echarpe jogado no pescoço ou um brinco bacana.

Não que o brinco seja um adereço gay, mas uma forma de o homem brincar com a moda masculina.

Por fim, hoje até a publicidade é feita com casais gays, em situações rotineiras como comer um salgadinho a beira da piscina com seu amor.

Curtam o clip.


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

Bolsonaro e a Branca de Neve

 

Por Carlos Magno Gibrail

Jair Bolsonaro, deputado federal PP RJ, reeleito para mais um mandato, aconselha em programa da TV Câmara em pauta da Comissão dos Direitos Humanos:

“O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele”.

E complementa:

“Olha, eu vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem”.

O programa “Participação Popular” da TV Câmara quinta feira em rede nacional, contou com a presença do presidente da Frente Parlamentar da Criança e do Adolescente, Paulo Henrique Lustosa, e discutia a Lei da Palmatória. Bolsonaro representava a Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara Federal.

A repercussão levou o deputado Bolsonaro à mídia, que sem cerimônia continuou no tom:

“Se o garoto anda com maconheiro, ele vai acabar cheirando, e se anda com gay, vai virar boiola com toda certeza”.

Na Rede TV, Bolsonaro, em programa para debater o episódio da TV Câmara, em dupla com Beto de Jesus, diretor da Associação de Gays e Lésbicas, ao se apresentar, perguntou:

“Vocês gostariam de ter um filho parecido comigo ou com ele”?

Arroubo de vaidade, plagiando a rainha invejosa da Branca de Neve em diálogo com o espelho, ou a saída do armário do Coronel Fits em Beleza Americana?

O preconceito em si esconde a relevância maior, tal qual nas boas películas, cujo roteiro e interpretações superam o fato.

Os vários mandatos de Bolsonaro são coerentes com os eleitores que representa. O incoerente é um deputado que apoiou a tortura de presos, considerou Vinicius de Morais um traidor, achou que o massacre dos 111 do Carandiru devesse ser 1000 e que pediu o fuzilamento de FHC quando presidente, pertença à Comissão de Direitos Humanos e Minorias como um de seus membros.

Esperemos que hoje, data marcada para o julgamento de Jair Bolsonaro, a CDHM Comissão de Direitos Humanos e Minorias, não decida de modo extremo e naturalmente afaste-o, pois como extremista não cabe em tão nobre entidade cujo objetivo é proteger as minorias da ação dos extremistas.

Carlos Magno Gibrail ė doutor em marketing de moda e, às quartas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung