Avalanche Tricolor:  de calcanhar, para driblar a melancolia

Grêmio 0x1 Athletico Paranaense

Brasileiro — Arena Grêmio

Foi no começo da semana que se completaram 50 anos de um dos gols mais bonitos marcados com a camisa do Grêmio. Quem refrescou minha memória, carcomida pelo tempo e excesso de preocupação, foi Ricardo Wortman. E o fez de forma especial: enviou-me o post publicado em seu blog Corneta do RW e o arquivo de áudio do grito de gol narrado por Milton Ferretti Jung, na rádio Guaíba, naquele 7 de junho de 1971. 

A partida era contra o Inter de Santa Maria e o autor do feito, o argentino Chamaco. Era um tempo em que as disputas dos campeonatos regionais é o que tínhamos para sonhar. Tempo, também, em que o pai ainda não havia criado sua marca registrada —- o grito de “gol-gol-goooool”. Mas já desfilava seu talento no gogó e no teclado das máquinas de datilografia. 

Caro e cada vez mais raro leitor deste blog, com o devido pedido de licença para não tomar seu tempo com palavras ao vento sobre a melancólica apresentação gremista nesta tarde de domingo, na Arena, reproduzo a crônica do gol que o pai escreveu na revista do Grêmio, publicação oficial do time que registrava os grandes feitos do tricolor. 

O gol foi fantástico. O texto, primoroso:

O calcanhar tinha olhos

‘Baixada Melancólica” é como chamam, lá em Santa Maria, o estádio do Internacional. E, olhem, com aquela chuvinha miúda que caía, no domingo em que o dono do local tinha que jogar com o Grêmio, até que o apelido ficava bem. Mas, mesmo assim, com a chuva e com o frio, os torcedores foram chegando e apertando-se nos degraus molhados das arquibancadas. E havia muitos com bandeiras do Grêmio, todos com um mesmo desejo: ver Chamaco e Scotta, o bigodudo com jeito de líder, e o sardento atacante, de poucas falas e muita habilidade. A partida começou e o primeiro tempo foi um quase nada de jogo, uma tristeza, afinando em tudo com o tempo ruim. Mas, no segundo período, Otto Glória mexeu no time. Fêz de Caio um companheiro para Scotta e a apatia do jôgo quebrou-se em dois gols do argentino. Depois disso, já ninguém esperava grande coisa. Os colorados consolavam-se com o gol que Maneco havia feito, empatando a partida numa alegria que durara pouco. Scotta logo marcou o segundo. De repente, um lance como que explodiu dentro do campo. Inesperado, como tôdas as explosões. Inédito no seu contexto. Scotta , que tinha chegado à linha de fundo, levantou a bola para a área do Internacional. Chamaco vinha se intrometendo pelo meio, o gramado meio que lhe escapando debaixo das chuteiras, cujas travas não se agarravam à grama molhada. E aquela bola caindo na área. Só que Chamaco tinha mais pressa do que ela. Uma pressão que não era dêle, mas do chão mentiroso. Estava saindo do lance, tal e qual um ator ao qual coubesse, na peça, uma única fala e que passasse pelo palco sem conseguir dizê-la. Valdir, o goleiro, nem ficou com mêdo. A defesa parecia tão fácil, o lance tão seu. Chamaco tão por fora. Chamaco patinava. Onde terminaria naquele impulso todo? A bola sempre mais para trás. Êle cada vez mais à frente. Quem estava lá, aquém do corpo que deslizava. O corpo foi. A perna, não. Para trás! Distendeu-se. Procurou, quase que tateando a bola fugidia. O peito do pé tem olhos quando chuta. O calcanhar, aquela protuberância cega, criou-os. E encontrou a bola, Transformou-se em espoleta, gatilho, catapulta. Sei lá. No choque com o calcanhar, o couro ergueu-se num volteio interminável, num arco inatingível para Valdir. E caiu novamente, raspando o travessão, escorrendo pela rêde. GOL! Pelo amor de Deus, GOL! Incrível, como seu dono, Don Carlos Chamaco Rodrigues.  

Ouça o gol narrado por Milton Ferretti Jung e com a participação do repórter João Carlos Belmonte. A voz que abre a gravação é do zagueiro Souza, do Inter de Santa Maria:

Avalanche Tricolor: Deus me livre!

Inter 2×1 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

A bola está no alto e a frente de Ferreirinha, do Grêmio, enquanto Nonato, do Inter, empurra o gremista pelas costas dentro da área
Será que o VAR viu esta foto do LUCAS UEBEL ?

 

Nem omelete comi neste domingo para não arriscar que o ovo caísse fora do prato, o que —- como o caro e raro leitor desta Avalanche sabe —- é determinante no resultado do futebol dominical. Já falamos disso aqui. Caso seja necessário posso me estender no assunto … ok, deixemos para outra oportunidade. O que interessa é que o meu cuidado neste domingo era não permitir que nenhum fator externo interferisse no resultado do jogo. Preferi até ir à missa mais cedo em vez de deixar para o fim da tarde quando a partida já tivesse se encerrado. Não me perdoaria. Não que ao me ajoelhar, eu reze pela vitória gremista, porque —- também já disse a você — é melhor não preocupar Deus com essas coisas comezinhas. Mas sabe como é que é … vai que o Homem resolvesse me puxar a orelha. 

Pode parecer exagero, mas cresci sabendo que Domingo de Gre-Nal não é um dia qualquer na vida dos gaúchos. Lá nas bandas da Saldanha, onde morei, em Porto Alegre, no meio do caminho do Olímpico Monumental e do Beira Rio, fosse onde fosse a partida, era dia de torcedor desfilar camisa nova do seu clube e bandeira ainda com vinco de tanto tempo dobrada. Pais passavam em direção aos estádios levando seus filhos pela mão, com peito em riste e contando histórias experimentadas em clássicos passados —- sempre daqueles em que saímos vitoriosos, é claro. Reveses? Deixemos que os outros contem. 

Ao longo da minha carreira de vida tricolor assisti a todo tipo de clássico e nas mais diversas situações. Posso até colocar nesta lista um que joguei: foi quando fazia parte do elenco do time de basquete do Grêmio e fomos ao Gigantinho fazer a espera do show dos Globetrotters, aqueles malabaristas americanos que encantavam crianças e adultos fazendo estripolias nas quadras pelo mundo. Ganhei (e ai de quem me desminta).

Fui a Gre-Nal no Olímpico, no Beira-Rio e em estádio pelo interior gaúcho. Fui com o pai, com amigos, sozinho, com cartolas e com a delegação de futebol. Fui torcer nas cadeiras, nas sociais, nos vestiários e nas arquibancadas. Acompanhei jogos das cabines de rádio, como repórter dentro de campo e até como gandula.  

Hoje mesmo, no início da tarde, por obra e arte do Edu Cesar, que mantém canal no Youtube, no qual preserva a memória do rádio esportivo, deparei com uma transmissão que há muito vinha procurando sem sucesso. A do único Gre-Nal em que trabalhei com meu pai, na rádio Guaíba de Porto Alegre. Era final do Campeonato Gaúcho de 1986, no Olímpico. Ele narrava e eu era um dos repórteres de campo, em uma época em que eu ainda atendia por Mílton Júnior. 

Assim que Osvaldo marcou o gol, no início do segundo tempo, ele correu em direção ao pavilhão da social do Grêmio, diante do qual eu estava com o microfone da rádio. Com os dois braços erguidos para o céu, o meio-campista gritava: “obrigado, meu Deus!”. Ao registrar seus gritos e ser chamado pelo pai para descrever o lance do gol, iniciei minha participação repetindo o agradecimento do jogador. Até hoje, há quem jure que Osvaldo nunca disse aquilo. Eu teria sido flagrado comemorando com o céu o gol que nos daria o bicampeonato gaúcho. Pura maldade (como você pode conferir no vídeo que reproduzo a seguir). Mesmo que seja justo imaginar que por dentro era o que fazia com meu coração tricolor saltando pela boca. 

Se já vivenciei todo tipo de Gre-Nal, evidentemente também sofri muito, chorei mais um tanto e sorri como nunca. Vencer o clássico é muito especial. Por isso, neste domingo em que mesmo com todos os cuidados que eu tomei aqui em casa e o time no campo, mesmo que estivéssemos melhor quando sofremos a virada e mesmo que o VAR estivesse de folga, assim que o árbitro deu o apito final —- sem direito a acréscimos depois de toda a parada do pênalti —, pensei cá com minhas camisas tricolores: não deve ter sido fácil a vida dos colorados que ficaram tantos anos e jogos sem vencer uma só vez o Grêmio. Deus me livre ter de passar por isso um dia (ops, desculpe, sei que o Senhor não tem nada a vera com isso: é só força de expressão)

O dia em que Tarciso encontrou o ídolo que o batizou de Flecha Negra

 

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Foi pela coluna de Hiltor Monbach — do Correio do Povo, de Porto Alegre —, meu primeiro e único editor de esportes em mídia impressa, da época em que trabalhei no jornal gaúcho, que fui lembrado de texto escrito por este blog sobre um dos maiores ídolos que tivemos na história do Grêmio: Tarciso.

 

Nosso craque morreu, aos 67 anos, na madrugada desta quarta-feira, vítima de um tumor ósseo. A última vez que o encontrei foi na final da Libertadores da América, em 2007, quando perdemos para o Boca, no estádio Olímpico. Eu estava ao lado do pai. Ele estava correndo — não na mesma velocidade que imprimia nas suas arrancadas para o gol nos tempos de jogador de futebol, é lógico. Corria para chegar ao seu lugar nas cadeiras cativas, pois o jogo estava para começar. Teve tempo de parar, voltar e dar um abraço no pai — assisti emocionado à reverência de um ídolo para o outro. O pai foi quem lhe concedeu o apelido de Flecha Negra que marcou sua carreira.

 

Monbach visitou esse blog para descrever a importância de Tarciso para o Grêmio e reproduziu o texto a seguir, que publico com orgulho:

 

Gol, gol gol…Gol de Flecha Negra

Milton Ferretti Jung, a eterna Voz do Rádio, batizou Tarciso de Flecha Negra. Pegou. Milton, seu filho, que eu chamava de Miltinho, conta essa história no seu blogue. Trabalhei com os dois, pai e filho. Mais com o pai.

 

“Jogadores com a cor do Grêmio estarão sempre na nossa memória.
E Tarciso é um desses.

 

Sua imagem nos leva a um passado de incríveis resultados, tempos em que superar adversários de Rio e São Paulo ainda eram vistos como feitos quase impossíveis.
E, também, está ligada a uma fase de transição do Imortal Tricolor, momento em que deixávamos de ser um time apenas para consumo interno para sermos temidos pelos grandes clubes do País.

 

Era ele o ponteiro direito do time campeão brasileiro em 1981, treinando pelo meu querido padrinho Ênio Andrade, que conquistou o título após duas difíceis disputas contra o São Paulo.

 

Hoje cedo, antes da partida com o mesmo São Paulo, Christian, meu irmão, e Fernando, meu sobrinho, que moram em Porto Alegre, tiveram a feliz oportunidade de encontrá-lo próximo do Estádio Olímpico.

 

Se apresentaram e pediram para tirar uma foto.

 

Nada mais natural para fãs que encontram seu ídolo.

 

Na conversa, Tarciso soube que eram filho e neto de Milton Ferretti Jung, o homem do Gol-gol-gol, que você, caro e raro leitor deste blog, conhece seja pela própria história dele, seja pelos posts de toda quinta-feira.

 

Na mesma hora deu aquele sorriso que meu irmão definiu como o de Campeão do Mundo.

 

Sim, Tarciso também fez parte daquele time que conquistou o Planeta, em 1983. E mandou “um abração para o velho Milton”.

 

Abraço enviado.

 

Foi Milton, o pai, quem o batizou de Flecha Negra, apelido que refletia bem a velocidade com que Tarciso escapava dos adversários e chegava na cara do gol.
Uma característica que, aliás, o levou para o Grêmio após marcar um gol contra o próprio, na época em que ainda vestia a camisa do América do Rio, em 1973.
Durante os 13 anos em que jogou pelo Grêmio sua postura em campo, a forma como se entregava em cada jogada e as disparadas com a bola no pé o transformaram em eterno ídolo.

 

Tarciso é um exemplo para todos estes que hoje jogam no nosso time. Sei lá quantos deles serão capazes de repetir a mesma história e serem lembrados para sempre pelos torcedores. O que sei é que a disposição de cada um, desde que Celso Roth assumiu o comando, tem um pouco da raça, da determinação, da coragem e da personalidade com as quais apenas alguns foram capazes de se consagrar.
E, tenha certeza, Tarciso foi um desses.

 

Nenhum comentarista viu, os narradores não falaram, o adversário jamais poderia imaginar e duvido que o atual elenco tenha percebido. Mas o espírito de Tarciso estava em campo nesta vitória que reforça a Avalanche Tricolor recém iniciada, que só vai sossegar quanto estiver de volta a Libertadores.”

 

 

A coluna “Avalanche Tricolor”, escrita no dia 11 de setembro de 2011, que serviu de base para o artigo de Monbach você lê aqui.

Avalanche Tricolor: Papai, ganhamos!

 

Por Gregório Jung

 

 

Papai, ganhamos. Estou escrevendo antes do jogo este texto sem receio de dar azar para o nosso time, pois confio nos Imortais que jogarão.

 

Papai, ganhamos. Foram muitos anos, vendo você vidrado na frente da TV, se virando com seus compromissos para acomodar tempo porque “hoje tem jogo do Grêmio”.

 

Não cresci no Menino Deus, posso contar em uma mão as vezes que fui ao Olímpico e em um dedo as minhas visitas à Arena. Vivi muito do futebol através de você. Nunca entendia muito bem o fanatismo, apesar de sempre ter gostado de ouvir as histórias, mas sempre me considerei gremista.

 

Papai, ganhamos. Foi de uns anos para cá que comecei a entender o que move as pessoas para o esporte, me apaixonar pelas jogadas e aprender assim como você faz para aprender League of Legends, que eu adoro explicar para você.

 

Papai, ganhamos. Você narrou o último título nacional do Imortal e hoje comemorou como nunca essa vitória que é mais que merecida. O Vovô está em Porto Alegre, mas com certeza deve estar sentindo a mesma coisa.

 

Papai, ganhamos. Via os jogos esporadicamente, de canto de olho: “como está o Grêmio?”, perguntava para mostrar que você não estava assistindo sozinho. Sofria junto, mesmo de trás da tela do computador.

 

A última vez que lembro ter torcido como nunca foi na Batalha dos Aflitos. E que jogo!

 

Não entendia muito bem o que acontecia, mas via por você o que o Grêmio estava passando, sofria sem saber ao certo por quê, mas se você estava sofrendo era porque valia a pena.

 

Papai, ganhamos. Não peguei o Grêmio Copero, o Grêmio Campeão Mundial, o Grêmio de Tite, de Danrlei, de Ronaldinho Gaúcho, de Renato Gaúcho (jogador), de Yura, de Tarciso.

 

Peguei o Grêmio Vencedor da Série B do Campeonato Brasileiro, título que falo com orgulho.

 

Peguei o Grêmio de Anderson, de Galatto, de Mano Menezes, de Tcheco, de Kléber Gladiador, de Pará, de Barcos, de Victor, de Róger, de Marcelo Grohe, de Geromel, de Douglas, de Luan.  Todos os que citei na segunda lista foram porque marcaram para mim os jogos do Grêmio, são os meus craques.

 

Papai, ganhamos. Novas amizades que fiz nessa minha fase da vida me ensinaram a amar ainda mais o esporte, me ensinaram o que é cadenciar o jogo, me ensinaram nomes de jogadores que eu nunca saberia sozinho, me ensinaram tudo e muito mais para que eu pudesse entender uma fração do que você sente ao ver o nosso Grêmio entrar em campo.

 

Papai, ganhamos. O Vovô tinha um grito de gol sem igual, um grito que você fez no gol de Marcelinho Paraíba, em 2001, um grito que eu fiz quando narrei o Brasil nas Olimpíadas, neste 2016. Um grito que passou por três gerações: o mesmo número de gols no “Gol Gol Gol” do Vovô.

 

Posso não ter narrado um jogo do Grêmio (ainda) ao fazer esse grito, mas ele foi uma homenagem que fiz para os dois Milton Jung que marcaram e marcam a minha vida.

 

Papai, te amo.

Avalanche Tricolor: o Grêmio privilegia a diversidade na busca do gol

 

Grêmio 3 x 1 Coritiba
Copa do Brasil – Arena Grêmio

 

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Gostei muito dos gols do Grêmio. Sei que esta frase vai soar óbvia demais para você, caro e raro leitor deste Blog, afinal gol é gol, de cabeça, de calcanhar, com o bico da chuteira ou com a mão (que os puritanos não me leiam), se a favor do nosso time, a gente sempre gosta, principalmente quando estes gols nos deixam mais próximos de um título, que foi o que aconteceu na noite de ontem, na disputa por uma vaga às quartas-de-final da Copa do Brasil. Para que não pareça tudo tão óbvio assim, explico por que gostei tantos dos gols que nos deram a vitória na Arena.

 

O primeiro contou com a participação de nossos dois zagueiros e surgiu da cobrança de escanteio. Na última temporada e boa parte desta, havíamos deixado de marcar ou tornamos raros os lances de “bola parada”, como os entendidos descrevem os gols feitos a partir de cobrança de falta e de escanteio. O que era contraditório, pois durante muito tempo fomos “acusados” de só ganhar jogos e campeonatos com “bola parada”. Quantas vezes, ouvi críticos dizendo que este era o forte do Grêmio, como se não soubéssemos jogar de outra maneira. Gols de escanteio e faltas são armas importantes no futebol e resultado de treinamento intensivo para que não se transformem em acaso. Nas últimas partidas, já havíamos assistido a algumas vitórias conquistadas desta forma. Ontem, foi o recurso mais perigoso até marcamos o gol de abertura e contamos com a presença decisiva de Erazo e Geromel.

 

O segundo gol foi de “bola jogada”, se é que você me permite usar esta expressão para contrapor à “bola parada”. Foi resultado deste novo Grêmio que temos assistido surgir na Arena sob a batuta de Roger. Passes rápidos e precisos, movimentação de jogadores com intensa troca de posição e, claro, apuro técnico, fundamental para que a bola role de pé em pé até seu destino final. Fernandinho foi genial ao perceber o aparecimento de Luan no meio dos zagueiros, quando todos imaginavam que o melhor seria Marcelo Oliveira que chamava atenção da marcação. Luan foi brilhante ao deslocar o goleiro com um toquinho de lado e oferecer a Douglas a oportunidade de concluir a jogada em gol. E Douglas, foi Douglas, o nosso camisa 10.

 

O terceiro gol, fruto de um erro do árbitro que marcou pênalti em falta que ocorreu na meia lua da área adversária, me deixou feliz porque mostrou quanto seguro está Luan vestindo a camisa do Grêmio. Pediu para bater, teve o aval do técnico e o fez de maneira magistral, tirando qualquer chance de o goleiro alcançar a bola antes dela chegar ao fundo do poço (expressão que roubei sem pudor do nosso Milton Ferretti Jung).

 

Ao descrever os lances, acredito que você já tenha percebido o motivo da minha alegria. Em uma mesma partida, mesmo que o desempenho geral não tenha sido excelente, fomos capazes de usar diferentes recursos para chegar ao mesmo objetivo: o gol.

 

O Grêmio de Roger joga futebol com a arte da diversidade.

Avalanche Tricolor: insistente como a água, perseverante como nós!

 

Grêmio 2 x 0 Campinense
Copa do Brasil – Arena Grêmio

 

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“A água mole cava a pedra dura”, escreveu Ovídio dois milênios atrás, frase que ganhou variações conforme a cultura, mas sempre para enaltecer o perseverante, virtude dos vitoriosos. As conquistas vem desse esforço às vezes incompreensível. Esta insistência que está atrelada a paciência tende a ser premiada ao final, desde que moldada pelo talento e inteligência. Aqui no Brasil, o provérbio criado no latim transformou-se no verso “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Ou, em bom português: insiste que dá. E não é que deu!

 

Foram necessários 63 minutos, mas nossa insistência em atacar, chutar e tentar foi premiada não apenas com um, mas com dois gols na partida de ontem à noite, pela Copa do Brasil. Fazia tempo que não via a gente se esforçar tanto para chegar ao gol. Jogadas bem construídas, troca de passe relevante, chegada de nossos alas na linha de fundo e nossos meias se aproximando dos atacantes na área: este somatório nos permitiu chutar pela direita, pela esquerda, por baixo, por cima, colocada, no travessão, nas mãos do goleiro , no peito do adversário … só não conseguíamos chutar na rede.

 

O futebol que nos levava na cara do gol, não parecia capaz de nos levar a fazer o gol. E isto é um perigo neste esporte sempre cheio de frases prontas a serem executadas. “Quem não faz leva”, logo passaram a lembrar alguns. E o pior cenário apenas não se desenhava porque o adversário não tinha competência para superar nossa defesa, mais uma vez bem posicionada. Escapou uma ou duas vezes, não mais do que isso. Mesmo com baixo risco, classificar-se à próxima fase da Copa só com um empate em casa seria frustrante.

 

Justiça se fez no segundo tempo. Primeiro no gol de Douglas, que curiosamente só marcou porque dois dos nossos desperdiçaram a jogada, na sequência; e depois no de Lincoln, já nos acréscimos. Mas, principalmente, no excelente futebol de Yuri Mamute, que entrou para desequilibrar a partida, novamente. Verdade que ele também perdeu seus gols e jogadas. Mas assim como todo o time não se desesperou por causa disso, apenas continuo lutando na crença de que seria recompensado. Ao deixar o campo, consagrado mais uma vez, nosso jovem atacante ainda teve tempo de demonstrar equilíbrio: “sou titular entre os 18”.

 

Mamute deve voltar ao banco no próximo jogo. Braian Rodriguez continuará sendo escalado como titular até porque ele, Luis Felipe e toda a torcida do Grêmio sabem que “un goteo constante puede erosionar una roca”. E nossa paciência é Imortal!

Avalanche Tricolor: paciência, Luan é do Grêmio!

 

Grêmio 2 x 0 São Paulo (RS)
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Luan é craque por definição: joga de cabeça em pé, toca de forma refinada na bola, movimenta-se com elegância em campo e sempre está disposto a arriscar a melhor jogada, mesmo que seja a mais difícil de ser executada. Não tem medo de errar.

 

É, também, craque em formação. Às vezes, parece sumido do jogo e quando menos se espera aparece em um lance excepcional. Outras, parece distante da partida, o olhar corre perdido pelo gramado e a expressão some de seu rosto como se as emoções daquela disputa não o afetassem. Tem-se a impressão de que ele não faz parte daquele mundo. Talvez não faça mesmo. Foi feito para viver entre craques.

 

Luan tem um jeito diferente de jogar, pois não é espalhafatoso na disputa pela bola e quando a tem no pé dá a sensação de que é lento. Ledo engano. Tem passadas largas e por isso consegue superar a marcação quase sempre dura e violenta, faz a bola colar no seu pé e a manipula com extrema facilidade. Avança, chega perto do gol, chuta!

 

Por ser jovem, ser diferente e craque, é preciso paciência com Luan. E o torcedor, mais acostumado com aqueles que se sujam na grama para alcançar a bola perdida, não vinha demonstrando muita paciência com ele. Talvez por não entender seu jeito de ser em campo. Por não compreender sua personalidade. Por isso, os dois gols deste fim de domingo ganham importância ainda mais especial, além, é lógico, de nos manter no primeiro lugar do Campeonato, garantir a sexta vitória consecutiva e a nona partida invicta.

 

Gols de craque, registre-se. O primeiro foi uma aula, tinha todos os elementos necessários para uma cabeceada. Com um passo, tomou a frente do marcador, e subiu alto; antes da bola chegar já olhava para onde pretendia jogá-la, e assim que ela chegou, com os olhos abertos e mirando seu destino, em um movimento certeiro com a cabeça, colocou-a distante do goleiro. O segundo, ganhou dos marcadores na corrida, matou a bola com o pé direito, cortou para o lado esquerdo, com um só drible deixou o goleiro estatelado na área e deslocou os zagueiros. Teve tranquilidade para ajeitar o corpo e finalizar a jogada nas redes. Luan, que nos últimos jogos foi garçom, desta vez se serviu do bom momento de seus companheiros, pois foram primorosos o cruzamento de Everton no primeiro e o lançamento de Giuliano no segundo gol.

 

Marcando gols e jogando com o talento que lhe é natural, quem precisará de muita paciência são os adversários do Grêmio.

 


A foto deste post é do álbum oficial do Grêmio no Flickr

Avalanche Tricolor: vitória justa apesar das injustiças

 

Novo Hamburgo 0 x 1 Grêmio
Campeonato Gaúcho – Estádio do Vale

 

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Foram necessários três para valer um gol. Os dois anulados, a imagem é clara, foram mal anulados e quase estragaram a trajetória vitoriosa que implantamos nas última semanas. Só não conseguiram …. e longe de mim com esta frase insinuar que foi tentativa deliberada, creio mesmo que foram erros técnicos, ou seja de competência e não de caráter, os que levaram a anular os gols gremistas … seguindo no que escrevia: só não conseguiram estragar nossa trajetória porque mais uma vez o sistema defensivo foi forte o suficiente para suportar a pressão, especialmente no segundo tempo. Mesmo com Tiago no lugar de Grohe e ainda refém da pouca idade, o que pode ser cruel para os goleiros, e Geromel em ritmo de quem joga a primeira partida da temporada, conseguiu-se anular boa parte das tentativas adversárias. Nem se pode dizer que fomos ameaçados, realmente. Houve alguns suspiros por um lado ou outro, mas nada que se concretizasse em chances de gol. Quando apareceram, pararam na nossa defesa ou na linha de fundo.

 

Seria uma tremenda injustiça imaginar, porém, que somente chegamos a oito partida sem derrota e a quinta vitória seguida por causa da forma como temos nos defendido. Nada seria possível se o conjunto da obra não estivesse funcionando com os laterais descendo com personalidade pelos lados, o meio de campo tocando a bola e o ataque se mexendo no espaço que sobra lá na frente. Foi assim que fizemos o único gol que o juiz assinalou: Giuliano, mais uma vez bem, se livrou dos adversários para entregar a bola a Luan. Luan avançou e quando se esperava um passe lógico para Giuliano que entrava na área, fez o improvável. E, a partir do improvável, permitiu que Ramiro arriscasse de fora da área e com sucesso. Verdade que, ontem, houve momentos em que as coisas não funcionaram bem assim, até porque o adversário partiu para o desespero, mas aí o pessoal lá de trás garantiu o resultado fazendo justiça à nossa campanha e corrigindo a injustiça que estava sendo provocada pelos erros do árbitro e seus auxiliares.

 

Para ser sincero, lamento muito mais a anulação dos gols porque ao tomar esta atitude o juiz tirou, duas vezes, o pão da boca de Braian Rodríguez. Sabemos bem que centroavantes (ainda os chamam assim?) se alimentam de gols e só sobrevivem com uma sequência deles. Se ficam um ou dois jogos sem comemorar começam a ser cobrados, passam a ter que dar explicações para jornalista e torcedor, se sentem mal … caem em depressão. Amanhã, após mais alguns minutos sem marcar, ninguém vai lembrar que ele até fez gol, aliás, fez dois gols, mas o juiz o roubou o direito dele celebrar.

 


A foto deste post é do álbum oficial do Grêmio no Flickr

Avalanche Tricolor: a alegria do gol

 

Grêmio 3 x 1 Caxias
Campeonato Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Foram quatro gols na partida do fim deste sábado. Claro que vou me dedicar aos três que tiveram nossa marca – apesar de o deles também ter tido, mas, convenhamos, hoje não é dia de choradeira. Vamos ao que interessa e nos dá alegria.

 

O primeiro foi especial não apenas pela maneira como ocorreu: gol Olímpico para marcar a retomada das vitória na Arena. Mais do que um jogo de palavras, a importância do gol de Douglas se dá por ter acontecido quando a impaciência já tomava conta de parte das arquibancadas. E do time, também, pois, diante de mais um ferrolho, encontrava dificuldade até mesmo para chutar. Alegra-me saber que voltamos a ter a possibilidade de marcarmos do que, erradamente, batizou-se no futebol como sendo “gol de bola parada”. É jogada que precisa ser treinada e bem aproveitada, especialmente porque retrancas serão encaradas no Campeonato Gaúcho e nas primeiras rodadas da Copa do Brasil. Estávamos precisando incluir estes lances em nosso cardápio. Ainda estamos devendo na cobrança de falta.

 

O segundo resultou da marcação forte que vem se tentando fazer ainda no campo do adversário. No clássico da semana passada foi o que nos deu vantagem em parte do jogo, e hoje foi o que levou Marcelo Oliveira a roubar a bola e permitir o contra-ataque. A velocidade até a área e o chute forte de Everaldo, que havia entrado fazia pouco tempo, permitiram que Marcelo Oliveira concluísse em gol. O sorriso no rosto do polivalente volante foi a imagem mais marcante da partida na minha opinião. Andava cansado de ver aquelas caras fechadas e testas franzidas de preocupação; ou a indiferença nas comemorações, resumidas a algumas trocas de abraços e nenhum afago para a torcida. A felicidade de Oliveira mostra bem o quanto ele está engajado na ideia de dar a nós gremistas novas alegrias.

 

O terceiro veio na hora certa (se é que existe hora errada para marcar gol)! E nos pés do cara certo, também. Yuri Mamute é promessa já faz algum tempo. Faz gols com a camisa da seleção e gols nas categorias de base. No time principal, porém, ficávamos apenas na expectativa de vê-lo explodir em campo um dia. Domingo passado, se saiu bem, mas não foi além disso. Hoje, explodiu mesmo e com aquela massa muscular que se destaca saiu em disparada para o ataque sendo caçado pelo marcador. Por mais que fosse empurrado e chutado, não perdeu o controle da bola nem mesmo diante do goleiro. Teve calma para driblar e encontrar o espaço preciso. Foi comemorar nos braços da torcida e nos deu o direito de sorrir mais uma vez no Campeonato Gaúcho.

 

Se Mamute merecia este gol pelo esforço que faz em campo sempre que veste a camisa tricolor, nós, também merecíamos a alegria desta vitória. A alegria que só a repetição de gols como os deste sábado à noite é capaz de nos oferecer.

 

As fotos deste post são do álbum do Grêmio Oficial no Flickr

Avalanche Tricolor: a maldição dos goleadores

 

 

Avenida 1 x 3 Grêmio
Campeonato Gaúcho – Santa Cruz do Sul

 

 

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Foi-se o tempo em que partidas pelo interior do Rio Grande do Sul me provocavam grandes emoções. Já falei aqui que o acanhamento dos estádios e a precariedade da infraestrutura oferecida para se jogar bola são desanimadores. O dos Eucaliptos, em Santa Cruz, não é muito diferente do que estamos acostumados a ver por aí no Campeonato Gaúcho. Nada, porém, que me tire o desejo de assistir ao Grêmio em campo e, claro, vencendo. Por isso, não faltaria ao compromisso desse fim de tarde de domingo. Com os minutos contados no relógio, interrompi o trabalho que tem tomado todo meu tempo neste começo de ano, sobre o qual já conversamos na Avalanche que marcou o início da temporada 2015, para me postar, animadamente, diante da televisão.

 

 

Para minha surpresa e, imagino, para muitos dos torcedores gremistas, logo ficamos sabendo que Marcelo Moreno estaria no banco de reservas, preservado pelo fato de fazer parte de mais um negócio com a China, mesmo destino de Barcos, nosso goleador nas temporadas 2013 e 2014. A história parecia se repetir, pois quando o argentino entrou em campo em seu último jogo, os jornalistas diziam que seria seu último jogo, mas ninguém confirmava a informação oficialmente. Naquela oportunidade, estreia no Gaúcho, deixaram com que nos deliciássemos mais alguns minutos com o talento de Barcos e comemorássemos com ele os dois gols marcados para depois entregá-lo ao futebol chinês.

 

 

Desta vez, parece que Felipão resolveu pensar em testar soluções para os problemas que terá no resto da temporada do que apostar em mais um jogador que está de saída. Como vimos, teve de mudar de ideia, pois apesar de ver seu meio campo se movimentando bem, com dribles e trocas de passes mais precisos do que nos jogos iniciais, além de algumas enfiadas de bola dentro da área, pouco se produziu no ataque. Chutes a gol foram raros no primeiro tempo de partida, mesmo quando já tínhamos um jogador a mais em campo. No momento em que o juiz decidiu equilibrar as forças usando de forma indevida os cartões amarelo e vermelho a situação ficou ainda mais complicada.

 

 

O jeito foi chamar Moreno que entrou ao lado de Everton que, aliás, está merecendo um lugar entre os titulares. Assistimos à outra partida de futebol, com a bola chegando dentro da área e encontrando um atacante de ofício, daqueles que sentem o cheiro do gol. Moreno tentou uma, tentou duas, tentou três vezes até que na quarta o zagueiro adversário se assustou e fez contra. De tanto tentar conseguiu fazer o seu gol ao concluir de cabeça cruzamento dentro da área. Fez do jeito que se espera que os atacantes façam. Correu para a torcida, beijou o distintivo e agradeceu os gritos de “Fica!”. Ao fim do jogo disse que tudo vai depender da diretoria. Talvez me engane e tomara que realmente esteja enganado, mas creio que assistimos ao último jogo de Moreno com a camisa do Grêmio, também.

 

 

Entendo as dificuldades financeiras que nos levaram a desconstruir a equipe do ano passado e contratar jogadores modestos para as posições que necessitavam algum reforço. Entendo que se deva investir nos talentos que surgem nas categorias de base; e temos visto alguns jogadores ensaiando bons desempenhos como foi o caso de Lincoln na partida de hoje. Minha dúvida apenas é a quem vamos recorrer no próximo jogo para finalizar em gols as jogadas criadas no meio de campo? Talvez seja melhor mesmo que não apareça nenhum goleador típico. E nos contentemos com vitórias enxutas baseadas em gols aleatórios de um zagueiro, de um chute à distância do volante ou quem sabe das trapalhadas dos adversários. Pois corremos o sério risco de nos animarmos com um novo goleador um dia e nos despedirmos dele no outro.

 

A foto deste post é do álbum do Grêmio Oficial no Flickr