Avalanche Tricolor: memórias e emoções de um guri, em Curitiba

Grêmio 0x1 Inter

Brasileiro – Couto Pereira, Curitiba/PR

A fumaça recepciona o time no Couto Pereira em foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Passavam das 11 da noite e um guri descia a escada rolante do hotel em que fiquei hospedado, neste fim de semana, em Curitiba. Por coincidência, o mesmo que a delegação gremista havia usado como concentração para o clássico de sábado. Chamou-me a atenção o fato dele ostentar a camiseta branca, de dimensões muito maiores do que seu corpo, que faz parte do segundo uniforme do Grêmio Parecia orgulhoso pelo troféu que, provavelmente, havia conquistado minutos antes das mãos de um dos nossos jogadores. Desconfio que tenha sido Rodrigo Ely quem fez a alegria daquele menino. Ao menos, era esse o nome estampado nas costas.

Vi o guri e lembrei dos muitos outros que havia encontrado mais cedo no trajeto que fiz até o estádio Couto Pereira, na capital paranaense. Nem todos vestiam tricolor. Alguns poucos estavam de encarnado. A maioria andava de mãos dadas ou ao lado de seus pais e mães, talvez tios e tias,  avôs e avós. Estavam prestes a vivenciar um dos maiores clássicos do futebol brasileiro.

Diante do acontecido, que a essa altura já é de conhecimento do caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, nem todos tiveram a satisfação do grito de gol. Tenho certeza, porém, que experimentaram momentos que poucas atrações na vida proporcionam. A atmosfera do estádio, com a vibração das torcidas, os cantos e gritos de incentivo, a fumaça que toma conta do campo para recepcionar a entrada dos times, cria um ambiente contagiante e mágico.

Guris e gurias que presenciam essa energia coletiva sentem-se parte de algo grandioso, criando um senso de pertencimento e companheirismo. A observação dos jogadores em campo com suas habilidades (nem todos, né), estratégias (dos times que as têm) e trabalho em equipe (às vezes em falta), serve como uma aula prática de esportividade, determinação e cooperação.

A experiência vai além do jogo em si. A emoção de torcer para um time, a tensão das jogadas decisivas e a celebração dos gols (quando ocorrem) proporcionam uma montanha-russa de sentimentos que ensina a lidar com vitórias e derrotas. Assistir a um jogo ao vivo também promove momentos inesquecíveis de conexão entre pais e filhos, amigos e familiares, fortalecendo laços e criando memórias que serão guardadas para a vida toda.

Muitas dessas lembranças, emoções e sentimentos vivenciei ao lado do meu pai. E, por graça e obra do Grêmio, os compartilhei com os meus filhos. No sábado, o mais velho estava ao meu lado. Foi ele quem, sabendo de minhas memórias afetivas, me alertou para um dos rostos estampados em um dos muros do estádio do Coritiba: era uma homenagem a Ênio Andrade, campeão brasileiro pelo time paranaense em 1985. 

Seu Ênio foi de suma importância para minha formação. Ajudou-me na relação com meu pai. Deu-me lições de vida, a partir das perguntas que me fazia e do carinho com que me tratava. Adotei-o como padrinho, mesmo que ele nunca tenha sabido disso em vida. Tinha consciência, porém, de seu papel educador diante daquele guri que frequentava o Olímpico quase sempre ao lado do pai.

Foi aquele menino, alertado pelo filho mais velho, que correu até o muro verde em que estava a imagem do Seu Ênio, deu-lhe um abraço, registrado em foto, e se emocionou como uma criança diante de seu ídolo. Instantes que usufruí com a mesma alegria que conduzia o guri na escada rolante vestindo a camisa de um jogador de futebol e de todos os outros que estiveram no estádio Couto Pereira, neste sábado. E o fiz porque só o futebol tem a capacidade de me levar de volta a um tempo de inocência e alegria genuína.

Avalanche Tricolor: está na hora de reagir

Fortaleza 0x1 Grêmio

Brasileiro – Castelão, Fortaleza/CE

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Nascemos em uma época na qual nossos sonhos no futebol não se estendiam além dos limites do Rio Grande do Sul. Nossas batalhas eram regionais. Nossas conquistas, estaduais. Superar o principal adversário no clássico Gre-Nal e vencer o Campeonato Gaúcho nos satisfazia para todo o sempre.

Foi, então, que nos agigantamos e conquistar o Brasil se tornou possível. Avançar sobre a América e levantar a taça Libertadores se fizeram realidade. Até o mundo esteve aos nossos pés. E a grandeza do Grêmio passou a ser motivo de nosso orgulho. 

Por isso, é tão difícil entender o destino que aceitamos abraçar neste campeonato brasileiro, mesmo depois da tragédia vivida por todos os gaúchos. Há uma aparente tolerância ao que acontece partida após partida. Como se não houvesse nada a fazer além de se resignar.

A sequência de derrotas — assistimos à quinta na noite desta quarta-feira —, que nos mantém na parte mais baixa da tabela de classificação, desafia nossa paciência.  Ainda que estejamos com partidas a menos que os adversários e em desvantagem devido a interrupção forçada pelas enchentes, a presença na zona de rebaixamento é constrangedora.

Não negamos que o esforço para nos mantermos vivos na Libertadores, a despeito de todos os prejuízos que tivemos, cobrou um preço alto de nossos jogadores. A ausência de um local próprio para recuperar forças e reorganizar o time também se refletiu no desgate físico e psicológico do grupo. E será preciso tempo para resgatar a energia dispendida.

Soma-se a tudo isso, uma série de fatores que migram da infelicidade no acabamento de algumas jogadas a movimentos desproporcionais causadores de prejuízos, como pênaltis e expulsões – na partida de hoje, conseguimos reproduzi-los quase que na sequência.  

A hora de dar um basta em tudo isso, porém, chegou. No sábado, ainda que distante da nossa cidade e Arena, teremos um clássico regional a disputar. Os torcedores se farão presentes, imagino que em grande número, no Couto Pereira, em Curitiba, para reviver o clima do velho Olímpico Monumental, da mesma maneira que fizemos recentemente nas partidas da Libertadores.

Se queremos reagir no Brasileiro e sinalizar nossa capacidade de superação na temporada, o Gre-Nal é a oportunidade que se apresenta. Vamos à vitória!

Avalanche Tricolor: de desalojados, desequilibrados e injustiçados

Grêmio 1×2 Botafogo

Brasileiro – estádio Kleber Andrade, Cariacica/ES

Du Queiroz arrisca de longe em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Pelo calendário oficial, ao Grêmio caberia o mando de campo na partida deste início de noite. Como é sabido por todos, estamos impedidos de jogar na Arena desde as enchentes de maio. E o retorno à casa não se dará antes de agosto. Até lá, seremos apenas um time de itinerantes, desalojados. 

O preço que pagamos é alto e jamais será coberto pelo milhão depositado na conta do Grêmio com a venda do mando de campo, que nos levou ao Espírito Santo, neste domingo. Além do acúmulo de jogos, devido a parada por cerca de 30 dias, e a disputa de partidas decisivas pela Libertadores, viagens incessantes têm causado desgaste extraordinário no elenco.

As dificuldades se somam a carência de substitutos, especialmente no comando do ataque. Mas não somente nesta posição. Verdade que esse é um problema que teríamos a despeito das ocorrências relacionadas à tragédia no Rio Grande do Sul. Enfrentar três competições, por si só, seria um desafio enorme e exigiria muita criatividade do comando técnico, diante do grupo de jogadores disponíveis. Com as atuais condições, os riscos se potencializaram. 

Estamos participando de um campeonato, e aqui me refiro ao Brasileiro, dos mais disputados do mundo. E somos obrigados a jogá-lo nas condições precárias que o destino nos proporcionou. Em um escancarado desequilíbrio técnico que até aqui prejudicou apenas a nós. Cabe ao Grêmio se resignar e reagir em campo recuperando-se com uma sequência de vitórias.

O que provavelmente os demais clubes não perceberam é que alguns deles também serão vítimas desse desequilíbrio. Porque haverá times que terão vantagem sobre os outros ao disputarem seis pontos contra o Grêmio sem precisar passar pela Arena — é o caso do Botafogo que com a vitória de hoje assumiu a liderança da competição. Considere nessa análise o fato de que, na temporada passada, foram especialmente os resultados obtidos em Porto Alegre que nos levaram ao vice-campeonato brasileiro. Nem todos os adversários, porém, serão submetidos ao fenômeno transformador que a Arena proporciona. E isso torna a disputa injusta.

Avalanche Tricolor: orgulho e alegria diante de mais uma façanha alcançada

Grêmio 1×1 Estudiantes

Libertadores – Couto Pereira, Curitiba/PR

Festa no Couto Pereira em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Havia a magia do nosso torcedor transformando o cenário na cidade de Curitiba. No entorno do Couto Pereira, a festa travestia as ruas com o azul, preto e branco que estamos acostumados em dia de jogos em Porto Alegre, na nossa combalida capital. Proporcionamos uma invasão tricolor e levamos a maior presença de público já vista este ano ao estádio do Coritiba. 

Muito além disso, as mais de 30 mil pessoas que tomaram as arquibancadas levaram o desejo de cada um de nós que não estivemos presencialmente ao lado de nosso time. Carregaram o orgulho de quem viu seu clube do coração se reerguer em tão pouco tempo. 

Estávamos diante de apenas o quarto jogo após a tragédia com as chuvas de maio. E retornávamos a Curitiba com a classificação garantida à próxima fase, o que parecia inacreditável diante dos resultados iniciais na Libertadores e do baque sofrido com as enchentes no Rio Grande do Sul. 

O empate na noite deste sábado, mesmo depois de termos a vitória nas mãos desde o início do segundo tempo, em nada frustra um torcedor que sabe valorizar o que fizemos nestas últimas semanas. Ter tido a alegria de abraçar o time, de saber que seguiremos em frente na Libertadores e de temos jogadores valentes para superar as mais difíceis batalhas do campo e da vida são conquistas imensuráveis frente aos sofrimentos que nos marcarão para sempre.

Teremos muito a fazer ainda. A energia que teve de ser gerada nessas últimas semanas de drama e sofrimento cobra um preço. Estamos com jogadores extasiados que precisão ter tempo para a recuperação. Ainda não temos um elenco forte o suficiente para se sustentar diante de todos os desafios da temporada. Nada disso, porém, nos importa agora. Tínhamos uma façanha a ser alcançada e o Grêmio nos proporcionou este feito. 

Avalanche Tricolor: forjado no drama de uma enchente, o Grêmio saiu gigante da tempestade de Talcahuano

Huachipato 0x2 Grêmio

Libertadores – Talcahuano, Chile

O reconhecimento do time a performance de Marchesín. Foto:Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há cerca de um mês, Diego Costa resgatava pessoas atingidas pelas enchentes do Rio Grande do Sul, e Caíque comandava um barco a remo em meio ao temporal, em busca de famílias ilhadas em suas casas. Assim como eles, outros jogadores gremistas se envolviam diretamente na ajuda de amigos, vizinhos, parentes e de toda gente que pudessem alcançar. Muitos deles se mobilizaram para arrecadar dinheiro e doações, atendendo às primeiras necessidades da população sofrida.

Na noite desta terça-feira, lá estavam todos embaixo de um temporal que não deu trégua ao longo de boa parte de um jogo que, por sua importância para nosso destino na Libertadores, já havia sido batizado de Batalha de Talcahuano, cidade da província de Concepción, no Chile. Não imaginávamos que seria no cenário que encontramos, só atenuado graças ao gigantismo do Grêmio.

Foi a dimensão de nossa história que mais uma vez nos levou à vitória e à classificação para as oitavas de final da Libertadores. Considerando os maus resultados nas duas primeiras partidas desta fase, os desafios fora de casa e, especialmente, a tragédia no Rio Grande do Sul, muitos de nós nos contentaríamos com o retorno às atividades. O Grêmio, não! O Grêmio sempre quer provar que é possível ir além.

Fomos além! Vencemos o Estudiantes fora de casa (às vésperas da parada pelas enchentes), goleamos o The Strongest no estádio emprestado do Couto Pereira e, ontem, superamos o Huachipato, em um gramado impraticável para o futebol.

Foi gigante Diego Costa ao superar o zagueiro dentro da área, após a cobrança de escanteio, ainda nos primeiros minutos da partida, para marcar seu gol de cabeça quando ainda era possível jogar futebol.

Foi gigante Marchesín, que fez uma sequência de defesas no segundo tempo, impedindo o empate e contendo a pressão do adversário quando só jogar futebol não bastava. Era necessário enfrentar poças d’água, lamaçal e bola desorientada pelo peso da chuva.

Foi gigante Kannemann, com a bravura eterna que marca sua trajetória com a camisa gremista. Não perdeu uma só bola jogada para dentro de nossa área. Desta vez, teve Rodrigo Ely à sua altura, zagueiro que tem revelado valentia e precisão no desarme, conquistando a confiança de um torcedor que se sente órfão diante da ausência de Geromel.

Foram enormes todos os demais que entraram em campo e garantiram a presença do Grêmio na Libertadores com uma rodada de antecedência, a despeito de tudo que estamos passando nestas últimas semanas.

Mesmo aqueles que, da casamata, inspiraram os colegas no gramado merecem nosso louvor. E aqui destaco o goleiro reserva Caíque — sim, aquele mesmo do barco a remo —, que vibrava, apoiava, dividia opinião com o técnico, e se fez presente em um jogo no qual estaria reservado a ele apenas um lugar entre os suplentes. Mas Caíque, assim como o Grêmio, não aceita ser coadjuvante, vai além!

Forjado no drama de uma enchente, o Grêmio saiu gigante e venceu a tempestade de Talcahuano.

Avalanche Tricolor: orgulho e cantoria, aos trapos e farrapos

Grêmio 0x2 Bragantino

Brasileiro – Couto Pereira, Curitiba/PR

Torcedor gremista no Couto Pereira, foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Eram mais de 60 minutos de jogo jogado e a narradora da Globo Isabelly Morais tascou um “a torcida do Coritiba (?) canta forte”. Ato falho de quem assim como a maioria de nós vivenciamos esta partida de futebol cercada pela estranheza. 

O time da casa não estava em campo; o time que tinha o mando do campo não estava em casa; e a maior parte da torcida que ocupou as arquibancadas veio de fora para apoiar seu time que não tem casa para jogar.

Quando ouviu a cantoria forte ressoando pelas arquibancadas do estádio Couto Pereira, em Curitiba, a narradora foi traída pela memória. Com sua voz sempre bem colocada, trocou Grêmio por Coritiba, sem perceber nem corrigir. Falha justificada: convenhamos, por que seriam os gremistas a cantar forte naquela “altura do campeonato” em que seu time perdia por dois a zero e pouco havia a fazer para desfazer o placar? Só se fossem loucos! Em tempo: somos.

As circunstâncias que levam o Grêmio a disputar sua segunda partida em três dias, após ter juntado seus trapos e farrapos nas enchentes do Rio Grande do Sul, seguiram a surpreender a promissora narradora de futebol da Globo. 

Quando o jogo se encerrava e o resultado estava sacramentado, o editor de TV cortou a cena para a arquibancada onde se concentravam a maior parte dos quase sete mil torcedores que foram ao estádio. Isabelly fez o que lhe cabia: na descrição da cena, disse que o torcedor gremista festejava. Mais não disse porque talvez não tenha entendido bem o que comemorávamos.

Que fique claro, caro e cada vez mais raro leitor, esta Avalanche não se escreve para criticar a narradora da boa safra de vozes femininas que surge no jornalismo esportivo brasileiro. Apenas usa-a como personagem para justificar como tem sido e ainda será estranha a nossa vida nos próximos três meses, ao menos —- foi a previsão mais otimista que ouvimos do presidente Alberto Guerra, em entrevista que se antecipou a partida desta tarde, em Curitiba. 

O Grêmio está condenado a levar seu mando de campo para um estádio distante do Rio Grande do Sul. Fez isso na decisiva partida pela Libertadores, na quarta-feira à noite, e conseguiu golear seu adversário e transformar o Couto Pereira em uma espécie de Olímpico Monumental redivivo. Deve repetir a façanha semana que vem contra o Estudiantes: se Deus quiser ainda com chances de classificação à próxima fase da competição. Dependerá de vencermos a batalha de Talcahuano, no Chile, na terça-feira.

Mobilizar seu torcedor e levar mais de 20 mil ou até 30 mil pessoas tão distante de Porto Alegre, muitos com dificuldades de transporte e infraestrutura para deixar o Rio Grande do Sul, é tarefa superlativa. Por isso, já se esperava menos pessoas na arquibancada do Couto Pereira, na partida deste sábado. Sabíamos que enfrentaríamos nosso adversário em condições de desigualdade. Em campo, teríamos de contar com reservas, recém reunidos para treinar e, portanto, pouco entrosados. 

Apesar deste cenário de esfarrapados e desabrigados, do qual somos protagonistas, a cantoria que confundiu a narradora e a festa que se fazia nas arquibancadas, registrada pelas imagens da TV, não era nem do time da casa, o Coritiba, nem do time que vencia a partida, o Bragantino. Era do Grêmio. Dos torcedores gremistas que reconhecem o esforço que fazemos para cumprir nossas obrigações no futebol.

Os torcedores gremistas cantávamos a vitória de estarmos de volta aos gramados e o orgulho de sabermos que, independentemente, das condições que nos submetam jamais fugiremos da luta. Mesmo que estejamos aos farrapos.

Avalanche Tricolor: a catarse de um retorno e a certeza de que somos o Rio Grande do Sul!

Grêmio 4×0 The Strongest

Libertadores – Couto Pereira, Curitina/PR

Foto: Lucas Uebel/RS

Catarse, liberação de emoções ou tensões reprimidas. É o que está no dicionário. É como a psicologia explica. É o que justifica cada uma das muitas lágrimas que verti no rosto nesta noite em que o Grêmio retornou ao futebol, um mês após o início de uma tragédia jamais vista por todos nós, no Rio Grande do Sul. 

Espero que minha turma aqui de casa não leia essa Avalanche. Porque não sei como entenderia as sensações que vivenciei. Não era apenas a um jogo de futebol que assistia. Ou assistíamos, dado que milhares de outras pessoas como ‘nosotros’ presenciaram essa mesma experiência. E devem ter chorado a cada minuto de bola rolando.

Solucei no gol de Soteldo, ainda no primeiro tempo, que mostrou aos gaúchos que os que peleiam, recusam a falência da esperança. Choraminguei em seguida a bola de João Pedro encontrar as redes, em um chute de destino improvável. Lacrimejei na certificação da vitória que se fez graças a insistência de Galdino. Debulhei-me quando Gustavo Nunes roubou a bola no meio do campo, driblou todos que se atreveram a surgir no seu caminho e bateu para definir a goleada mais significativa da história do Grêmio. .

O guri que comemorou o feito com um sorriso no rosto e o abraço de seus colegas, há menos de um mês era um dos sobreviventes da maior enchente que atingiu o Rio Grande do Sul. Deixou as dependências do Grêmio, ao lado de seus colegas, com água barrenta cobrindo a cintura. Seu companheiro de ataque, Diego Costa, despendeu energia e coragem para salvar pessoas ilhadas nas enchentes e abrigar em sua casa gente que acabara de ver a vida submergir. 

Assim como Gustavo e Diego, cada um daqueles jogadores que estiverem em campo ou fizeram parte do elenco, na noite desta quarta-feira, em Curitiba, tinha uma sofrência na memória: o amigo desabrigado, o conhecido desalojado, o vizinho que morreu, o colega de trabalho que quase tudo perdeu. 

Nas arquibancada, não menos sofrido, o torcedor gremista fez do Couto Pereira um Olímpico Monumental redivivo. Os trapos que adornaram o estádio, assim como as bandeiras do Grêmio, do Rio Grande e do Coritiba, que nos abrigou, acolheram não apenas o nosso time, mas cada gaúcho que sofre a dor da perda e do desespero nestes dias tão difíceis.

Envolto nesse sofrimento que acumulamos nos últimos 30 dias, ver o Grêmio jogar como jogou e ganhar como ganhou, me fez chorar. Não pelo Grêmio em si — o que, convenhamos, não seria pouca coisa. Foi um misto de felicidade e tristeza. 

Chorei por descobrir como podemos ser persistentes e resilientes, mesmo diante de todo o sofrimento que nos assola.

Chorei pelas famílias que sofrem sem entender que futuro terão; pelas pessoas que perderam pais e mães, filhos e filhas, tios e avós; pelos 169 mortos até agora confirmados e por tantos outros que se confirmarão.  

Chorei pelos registros de vida que subitamente se perderam na correnteza; pela angústia do irmão e da irmã, do sobrinho e da sobrinha, da cunhada e de todos demais da família. Chorei pela casa de minha infância que foi ameaçada. Pelo bairro em que morei. Pelas ruas que andei.

Chorei! E chorei porque, nesta noite, fui lembrado que o meu Rio sempre será Grande!

Avalanche Tricolor: vaga adiada para a Arena

Operário-PR 0x0 Grêmio

Copa do Brasil – Germano Krüger, Ponta Grossa/PR

Galdino tenta mais um ataque em foto de Dido/GrêmioFBPA

Em jogo de futebol escasso, as palavras escasseiam, também. Pouco se tem a dizer de uma partida em que o placar ficou em zero a zero. E a perfomance foi apenas a suficiente para deixar a decisão da vaga para a  Arena, em 22 de maio. 

Nesta estreia de Copa do Brasil, que tanto gostamos, assistimos a raros rompantes de futebol. Um tentativa aqui, outra acolá. De gol desperdiçado quase nada a lamentar. Talvez naquele ataque ao fim do primeiro tempo em que Diego Costa serviu Cristaldo dentro da área. De resto, pouca inspiração.

A boa da noite foi ver o esforço de Galdino pela direita. Mesmo que contestado, jogou acima do esperado. Já havia demonstrado sua utilidade no esquema gremista na vitória pela Libertadores. Hoje, foi além. Aproveitou o espaço que tinha, fez boas jogadas, driblou e tentou tabelar com seus companheiros. 

Os torcedores gostaríamos de sair de Ponta Grossa com a vitória tranquilizadora, sem dúvida. Especialmente aqueles que tiveram de pagar R$ 350,00 para assistir ao jogo no estádio. Mas a impressão que ficou é que havia um contentamento do time em fazer um jogo seguro e ciente de que a decisão da vaga à próxima fase da Copa será mesmo diante da torcida, na Arena.

Avalanche Tricolor: árbitro erra e sempre contra o nosso time

Bahia 1×0 Grêmio

Brasileiro, Fonte Nova, Salvador/BA

Imagem reproduzida da Sportv

O árbitro erra. E erra sempre contra nosso time. Se erra para os outros, com certeza erra mais contra nós. E quanto mais meu time perde, mais erros comete. O cara ou a cara que escolheu essa profissão sabe a que veio. É bode expiatório. É meu culpado preferido. É do jogo, mesmo que nada disso esteja previsto lá na regra 5 das leis do futebol.

Com o tempo, o árbitro deixou de errar sozinho. Se no início tinha dois auxiliares para cometer suas barbaridades, agora tem um quarto árbitro fora do campo com direito a dar pitacos pelo radinho e mais um monte de quase-árbitros sentados na salinha do VAR, sempre prontos para anular os gols do meu time ou flagrar irregularidades que jamais admitirei dos meus jogadores.

O árbitro escalado para a partida de sábado à noite, em Salvador, na Bahia, Bráulio da Silva Machado, foi mais um a cumprir com perfeição o papel de algoz. Soubemos que, ontem, ainda contou com ajuda extraordinária.  E o fez de maneira sórdida, perspicaz. Porque não errou o lance fatal, o pênalti que definiria o placar, naquela cena explícita que a imagem da televisão registra e escancara para todos os torcedores – disso também já fomos vítimas na partida de estreia do Campeonato Brasileiro. Foi no varejo. No lance menor. Ali no meio de campo. Na escapada do contra-ataque. Na inversão de valores. 

Ao longo da partida, deixou passar faltas claras, sinalizou outras inexistentes. Puniu com o rigor da lei os que se atreveram a identificar seus erros. “Não tá gostando? Amarelo”; “Achou ruim? Vermelho!”! Sim, o árbitro tem o monopólio do erro no campo do futebol. Só ele detém o poder de errar e não ser punido. E punir. De desequilibrar o resultado da partida e voltar para a casa com o dever cumprido (e blindado pelos escudos de aço da polícia).

O Grêmio marcou mal, atacou mal, escalou-se mal, especialmente no primeiro tempo, e quando ajustou seus males não teve tranquilidade para fazer o placar a seu favor. Estava nervoso porque, você caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, sabe bem: juiz ruim gera insegurança, e se transforma em campo fértil para a tensão, que desestabiliza e cega os jogadores, o treinador e os torcedores. 

Árbitro ruim tem esse poder, também: nos torna incapazes de enxergarmos nossos erros pontuais e defeitos que se repetem desde o ano passado quando perdemos o Brasileiro, graças aos pontos desperdiçados nas partidas fora de casa. Até daria para ter sido campeão, mas naquele jogo contra o Corinthians, na casa do adversário, o árbitro entendeu que o jogador, dentro da área, com o braço aberto e para o alto, estava fazendo um movimento natural. 

Só nos resta protestar, sair de campo, abandonar o banco de reservas e pedir para que a CBF passe a escalar árbitros bons nas nossas partidas. Apesar de que árbitro que é se preza, bom ou ruim, erra. E erra sempre contra o nosso time. 

Avalanche Tricolor: vi, vivi e venci a Batalha de La Plata

Estudiantes 0x1 Grêmio

Libertadores – estádio  Jorge Luis Hirschi, La Plata ARG

Nathan comemora “vitória impossível” em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Nathan Fernandes e Gustavo Nunes talvez nunca entenderão o que protagonizaram na noite de hoje, em La Plata. A escapada em alta velocidade, no contra-ataque, o talento com que conduziram a bola, a despeito da marcação impiedosa dos adversários, e a maneira como estufaram a rede têm um simbolismo que nenhum deles alcançará. 

O Grêmio sofria com a expulsão de Villasanti. Já havia assistido a perda de seu capitão, Geromel, com lesão no ombro. Assistia à pressão do time da casa, empurrado pela torcida local. O torcedor vislumbrava o pior dos cenários. O risco da desclassificação prematura da competição se apresentava. Aos 31 minutos do segundo tempo, em um lance único e certeiro, os dois garotos que haviam entrado em seguida da expulsão, encarnaram a imortalidade que nos caracteriza.

Nenhum deles era nascido quando nós torcedores havíamos sofrido a dor de uma partida que ficou conhecida por Batalha de La Plata, em 1983. Até hoje, pensamos como foi possível cedermos o empate depois de estarmos vencendo por 3 a 1 e com quatro jogadores a mais em campo. Sim, sabemos das agressões em campo e no intervalo da partida e até das ameaças de morte. Mas foi um sofrimento apenas superado porque nos amadureceu para conquistar a primeira Libertadores de nossa história e nos levar ao Mundial, naquele ano. Nos despedirmos da Libertadores no mesmo palco daquela Batalha seria injusto para nossa história. 

Marchesín, João Pedro, Geromel, Rodrigo Ely, Kannemann, Fabio, Pepê, Villasanti, Cristaldo, Dodi, Galdino, Soteldo, JP Galvão, Gustavo Martini e, claro, Nathan Fernandes e Gustavo Nunes incorporaram a alma daquele Grêmio que começava a escrever sua Imortalidade no futebol sul-americano. Que nos fez ser respeitado onde desembarcamos nesse continente. Quando tudo parecia impossível, nos mantiveram vivos e venceram uma partida que pode reescrever nossa história nesta edição da Libertadores.

E eu, vi, vivi e venci esta Batalha de La Plata. Obrigado, Grêmio!